O Negro no Mundo dos Brancos
Poesia e Sublimação das Frustrações Raciais
Capítulo VIII
Poesia e Sublimação das Frustrações
Raciais114
Ignoro as razões que levaram Oswaldo de Camargo a dar-me o privilégio
de prefaciar a presente coletânea de poemas. Não sou crítico literário.
Tampouco tenho competência ou sensibilidade para apreciar judiciosamente
sua produção poética. Considero a crítica literária uma especialidade
complexa e difícil, que exclui a improvisação e requer não só talento e bom
gosto, mas sensibilidade, erudição e imaginação criadora. Sendo evidente
que não reúno essas condições (pelo menos em relação à capacidade de ser
crítico literário...) entendi que o convite se endereçava ao sociólogo, algum
tanto conhecedor da situação do negro na sociedade brasileira. Às vezes,
uma condição exterior à obra de arte pode ser significativa para a sua
compreensão e interpretação. Talvez o autor procurasse, portanto, alguém
que pudesse “explicar” a sua poesia à luz de sua condição humana – das
influências e motivações psicossociais que ficam por trás da sua maneira de
ver e de representar, poeticamente, emoções, sentimentos, aspirações e
frustrações que poderiam ser entendidos como parte da experiência de vida
do negro brasileiro.
Todavia, ao ler e reler Um homem tenta ser anjo e as poesias colecionadas
nesta obra, cheguei à conclusão de que Oswaldo de Camargo é,
essencialmente, um poeta. O fato de ser negro tem tanta importância quanto
outras circunstâncias (como a de ser brasileiro, católico marcado por
experiências místicas singulares etc.). O que conta, em sua obra, é a poesia.
Embora ela exprima, em várias direções, a condição humana do seu criador,
sobre ela e não sobre outras coisas deveria falar o seu intérprete. Ora,
falece-me autoridade para isso. Um poeta jovem, que vem de uma estreia recente, pretende algo mais que uma “apresentação” convencional: espera
que o apresentador diga aos outros o que ele próprio sabe acerca de seus
versos, de suas intenções e do sentido de sua poesia. Nada que me sentisse
capaz de fazer, pelo menos com justiça, propriedade e o devido respeito
pelo autor, pelo público e por mim mesmo...
Abriam-se diante de mim dois caminhos. Um, o de lamentar as limitações
de nossa celebrada “formação humanística”. Bem mal vai um país no qual
um professor universitário treme diante das responsabilidades do juízo
estético. Não é só um sistema de vida intelectual que sofre um impacto
negativo. Penso, em particular, na negligência dos críticos especializados,
que só existem para os produtores de arte de prestígio consagrado,
subestimando ou negligenciando a energia moça, pela qual se processam a
afirmação e a renovação das grandes ou das pequenas literaturas. O
segundo caminho seria o de avançar os resultados de minhas modestas
reflexões. Os que não podem concentrar-se na própria medula do raciocínio
poético já dão algo de si indicando o que percebem, o que sentem e o que
pensam. Por consideração especial pelo autor, não me neguei a isso. Acho
sinceramente, porém, que ninguém lucrará nada com ideias tão minguadas
de verdadeiro teor crítico.
Em uma civilização letrada, o poeta representa um dos produtos mais
complicados do condicionamento educacional, intelectual e moral. É um
contrassenso pensar-se que o negro brasileiro encontre na poesia (como em
outros campos de arte) veículos fáceis de autorrealização. Há toda uma
aprendizagem técnica, difícil de conseguir-se e de completar-se. Vencido
esse obstáculo, erguem-se as verdadeiras barreiras humanas que estão
dentro e fora do próprio negro. De um lado, temos as contingências de um
meio intelectual ainda mal polido e parcamente aberto às aventuras da
inteligência criadora. Ele se fecha com facilidade, movido por molas que as
convenções escondem ou disfarçam, especialmente diante das ocorrências
que fogem às normas e à rotina. O produtor de arte negro é, em si mesmo (isto é, independentemente da qualidade e da significação de sua poesia ou
seja lá o que for), uma aberração de todas as normas e uma transgressão à
rotina num mundo organizado por e para os brancos. De outro lado, acham-
se as fronteiras que nascem da situação humana do negro na sociedade
brasileira. Pode-se imaginar que existem várias gradações na linguagem
poética e que a poesia não seja incompatível com nenhuma situação
humana, reconhecível objetivamente. Embora isso pareça incontestável, só
a força de um gênio permite superar as limitações sufocantes das barreiras
que anulam o próprio sentido da dignidade do eu, aniquilando pela raiz as
impulsões criadoras da inteligência humana. Em consequência, os “poetas
negros” do Brasil caem, grosso modo, em duas categorias extremas. Ou são
réplicas empobrecidas do “poetastro branco”, ou são exceções que
confirmam a regra, ou seja, episódios raros, na história de uma literatura de
brancos e para brancos, o que se poderia exemplificar em relação à poesia,
como uma figura tão conhecida como a de um Cruz e Sousa. Não existe
uma vitória autêntica sobre o meio. A “inteligência negra” é tragada e
destruída, inapelavelmente, antes de revelar toda a sua seiva, como se não
importasse para o destino intelectual da Nação.
A produção poética de Oswaldo de Camargo suscita, em termos dessas
ponderações, novos ensinamentos. Ela foge ao primeiro extremo e evita,
apesar das qualidades visíveis do poeta, o segundo, demonstrando que o
negro intelectual, liberto dos preconceitos destrutivos do passado, tende a
identificar sua condição humana, e extrair dela uma força criadora quase
brutal e desconhecida, bem como a superar-se pela consciência da dor, da
vergonha e da afronta moral. Em outras palavras, começa a delinear-se uma
poesia negra e dela constitui uma floração rica e exemplar a presente
coletânea. Mais que sobre qualquer outra coisa, é sobre essa poesia que
gostaria de meditar, servindo-me da oportunidade que os versos de Oswaldo
de Camargo me oferecem.
Na medida em que expressa a condição humana do negro no Brasil, essa
poesia afirma-se como uma poesia de ressentimento e de profunda
humilhação moral. Não evidencia apenas desalento e mortificação: a
depreciação social da cor atinge o equilíbrio da pessoa, convertendo o poeta
na voz do drama psicológico de uma coletividade. Já no livro anterior (Um
homem tenta ser anjo, São Paulo, 1959), sente-se o tom acre e soturno do
protesto negro:
Meu Deus! Meu Deus! Com que pareço!?
Vós me destes uma vida, Vós me destes
e a não consigo levar...
Vós me destes uma alma, Vós me destes
e eu nem sei onde está...
Vós me destes um rosto de homem,
mas a treva caiu
sobre ele, Deus meu, vede que triste,
todo preto ele está! (Um homem tenta ser anjo, p. 55)
Mas é nos poemas desta coleção que o referido protesto atinge seu clímax,
desvendando toda a amargura triste e a revolta de brasileiros que se
envergonham de ser gente:
Recolho o pensamento e me debruço
nesta contemplação, assim me largo...
E, preso ao ser que sou, soluço e babo
na terra preta de meu corpo amargo...
(excerto de Canção amarga)
Deslembrado de mim, me recordei:
folha no chão, estrume, antigo som
de fonte e sobre a preta face
essa tristeza que sempre haverei...
(excerto de Relembrança)
Quem vos disse, senhores, que pareço
em desespero com qualquer rapaz?
Se me amargo a contemplar-me, sou
a luta entre o ser e o ser demais...
(excerto de Pergunta)
Profundamente em mim uma lâmina se enterra
Se enterra e não vale recuo, nem o meu grito breve
às horas rubras desta tarde de hoje...
..................................................................................
Já não sei que fazer para alegrar minh’alma!
E é preciso sofrer para salvar meu sonho!
(excerto de Profundamente)
Não sei meu rumo nesta rude terra,
nem sei a que destino me consagro...
(excerto de 4 Sequências, III)
Pelo amor das lindas horas
em que sonhais só co’o amor,
parai um pouco, senhoras,
somos os homens de cor,
que vêm tecendo coroas
de tristeza pela estrada...
Voltamos de muitas noites,
há noite dentro de nós,
pelo amor dos que vos amam,
escutai a nossa voz!
..............................................................................
Encontramos a esperança
toda em pranto debulhada...
E nos perdemos na noite,
não achamos a alvorada;
queremos subir na vida,
não encontramos a escada...
E estamos diante de vós,
chorando o não sermos nada...
(excerto de A modo de súplica)
Eu conheço um grito de angústia,
e eu posso escrever este grito de angústia,
e eu posso berrar este grito de angústia,
quer ouvir?
“Sou um negro, Senhor, sou um... negro!”
(excerto de Grito de angústia)
Tentei multiplicar os exemplos de propósito. Sob várias facetas, eles nos
mostram o negro torturado por avaliações que decorrem da aceitação de
uma imagem do próprio negro construída pelo branco. As contradições, as
ansiedades e as frustrações, expressas com tamanha autenticidade poética
por Oswaldo de Camargo, emergem da mesma matriz. Avaliando-se através
de critérios de julgamento e de expectativas morais recebidas do branco, o
drama de ser negro corresponde, literalmente, à impossibilidade de afirmar-
se em um mundo moldado pelos brancos e para brancos. Desde a infância,
o negro é modelado para viver nesse mundo, como se não houvesse
diferenças entre negros e brancos; mas as portas fecham-se diante dele,
quando tenta atravessar os tortuosos corredores que conduzem a tal fim.
Existe, pois, um “brancor” no negro, o qual só pode ser reconhecido e é
válido como estado subjetivo do espírito:
Rosa, rosa, o meu brancor existe,
mas inexiste e meu corpo chora;
rosa, meu pensamento existe,
mas existe o meu corpo sofre...
Percebo o brancor que em mim existe
irrevelado e isso me faz triste...
Quero ser ave!
O azul sei que existe...
Ah, minha alma, chora!
(Um homem tenta ser anjo, p. 73)
Daí resultam contradições morais. A brancura e a infância surgem como
obcecações que traduzem valores supremos:
Eu vi de branco a menina e esse sonho
jamais me escapou...
E meus dedos sem visgo em vão tentaram
sustar do sonho névoa e brevidade...
E não sei que eco de orfandade
lembrou-me então a mim que eu estava só,
só como o sonho que era único:
branca menina de sandálias brancas...
Como tudo era branco, branco, branco!
E quando me revi estava só...
E minha vida estava branca, branca, branca,
como meu primeiro caderno
da escola...
(Idem, p. 79)
Ah! que medi muito mal a distância da vida,
e julgara comigo: “hei de ir muito longe”,
mas tombou sobre mim uma idade imprecisa
e eu invejo agora o menino que fui.
Eu invejo agora o menino que fui,
leve, andando nas pedras de tantas montanhas;
e, porque me tornei tristemente um homem,
para breve serei uma sombra, só sombra.
Muitos restos de mim larguei já pelas ruas;
infelizmente me gastando vou...
numa esquina qualquer muitas mortes me esperam,
e eu espero também qualquer morte que venha...
(parte de Ronda)
Ambas, a brancura e a infância, constituem polarizações centrais em sua
poesia. Uma, como expressão do mundo vedado objetivamente ao negro,
acessível pela participação subjetiva. Outra, como fase da vida em que as
proibições são menos drásticas ou passam despercebidas.
O drama psicológico e moral do negro, sentido e descrito nesse plano, em
que o ego aprofunda as contradições e as hipocrisias da “democracia racial
brasileira”, não consubstancia um estado de marginalidade nem uma atitude
de rebelião. Eventualmente, o “brancor” chega a ser desmascarado:
Tenho em meus gestos um rebanho inteiro
de atitudes brancas, sem sentido,
que não sabem falar...
(excerto de A manhã)
Contudo, o jogo dos contrastes evoca a manhã e a noite em termos da
oposição entre o branco e o negro. Não há o desafio moral da escolha nem
o apego ambivalente à herança cultural do negro ou do branco; trata-se do
universo mental que o negro se construiu, no qual ele deveria ser uma coisa,
mas é outra:
Eu penso que a manhã não interpreta bem
a superfície escura desta pele,
que pássaro nela vai pousar?
Ai da tristeza de meu corpo, ai,
o pássaro conhece a manhã,
e sabe que é branca a manhã,
mas não ousa enterrar-se de novo
na noite...
Eu, no entanto, permaneço ao lado
da manhã e das cantigas...
A noite, a grande noite está pousada em mim
escandalosamente!
(Idem)
O que subsiste, pois, é o desalento ressentido, que transparece melhor
onde se afirma uma ligação espiritual com os ancestrais africanos e
escravos:
Meu grito é o estertor de um rio convulso...
Do Nilo, ah, do Nilo é o meu grito...
...........................................................................................
Meu grito é um espasmo que me esmaga,
há um punhal vibrando em mim, rasgando
meu pobre coração que hesita
entre erguer ou calar a voz aflita:
Ó África! Ó África!
Meu grito é sem cor, é um grito seco,
É verdadeiro e triste...
...........................................................................................
Por que é que grito?
(excertos de Meu grito)
Em suma, o negro não repudia nada – nem a experiência ancestral, nem o
universo criado pelo branco, nem a condição humana que nele encontra. A
sua revolta nasce de uma injustiça profunda e sem remédio, que só ele sente por ser posto à margem da vida e da justiça humana, vítima de um estado
extremo de negação do homem pelo homem. Em nome de um código ético
rude e egoísta, o branco ignora as torturas, os conflitos e as contradições
que cimentam sua concepção “cristã”, “cordial” e “democrática” do mundo,
condenando à danação todos os negros que aceitem com integridade e
ascetismo essa mesma concepção do mundo, com suas opções e valores
morais.
Ainda é cedo para emitir juízos definitivos sobre essa poesia negra,
associada à liberação social progressiva do branco e do negro na sociedade
urbana e industrial brasileira de nossos dias. Dois pontos, todavia, poderiam
ser aprofundados. Primeiro, na sua forma atual, fixando o drama moral do
negro de um ângulo meramente subjetivo, ela não transcende nem mesmo
radicaliza o grau de “consciência da situação” inerente às manifestações
iletradas do protesto negro. É certo que ela expõe as coisas de maneira mais
grandiosa, chocante e pungente. Diante dela, até os relutantes ou os
indiferentes terão de abrir os olhos e o coração: há torpezas sem nome por
detrás dos iníquos padrões de convivência, que regulam a integração do
negro à ordem social vigente. No entanto, essa mesma poesia se mostra
incapaz de sublimar atitudes, compulsões e aspirações inconformistas, que a
poderiam converter numa rebelião voltada para o processo de redenção
social do negro. Segundo, ela se divorcia, de modo singular, dos mores das
populações negras brasileiras. Por enquanto, a poesia que serve de veículo
ao protesto negro não se vincula, nem formal nem materialmente, ao mundo
de valores ou ao clima poético das culturas negras do Brasil.
As duas constatações possuem amplo interesse. Elas não pressupõem
nenhuma sorte de restrição ao nosso poeta ou ao tipo de poesia que se
procura cultivar com vistas ao drama humano do negro. Mas revelam de
forma expressiva o poder de condicionamento externo da obra de arte. Se o
“meio negro brasileiro” tivesse um mínimo de integração, os dilemas
morais descritos poderiam ser focalizados à luz de experiências coletivas autônomas. Existiriam conceitos e categorias de pensamento que
permitiriam apreender a realidade sem nenhuma mediação ou alienação,
através de sentimentos, percepções e explicações estritamente calcadas nos
modos de sentir, de pensar e de agir dos próprios negros. Na medida em que
o negro, como grupo ou “minoria racial”, não dispõe de elementos para
criar uma imagem coerente de si mesmo, vê-se na contingência de ser
entendido e explicado pela contraimagem que dele faz o branco. Mesmo um
poeta negro do estofo de Oswaldo de Camargo não escapa a esse impasse,
de enorme importância histórica: até onde ele perdurar, o negro
permanecerá ausente, como força social consciente e organizada, da luta
contra a atual situação de contato, sendo-lhe impossível concorrer
eficazmente para a correção das injustiças sociais que ela encobre e
legitima.
Já o segundo ponto tem mais que ver com a dinâmica da criação literária.
Os padrões de produção artística e de gosto literário imperantes aboliram,
largamente, o influxo contínuo e produtivo das heranças culturais de que
foram portadores estoques étnicos ou raciais considerados “inferiores”. Ao
aderir a tais padrões, o artista acaba sacrificando, sem o saber, riquezas
potenciais insondáveis, algumas ligadas às suas energias pessoais, outras
vinculadas à influência do ambiente social imediato. Um simples paralelo
permitiria ilustrar claramente o que pretendo dizer. Tome-se como exemplo
o futebol: em sucessivas gerações, sempre contamos com alguns “magos da
pelota” negros e através deles conseguimos enriquecer gradativamente a
nossa “arte de jogar”. Em grande parte, isso se deve à liberdade de
expressão conferida ao jogador negro, que não encontra réplica na esfera da
produção artística, sufocada por preconceitos de vária espécie – ou se
elimina o concurso do negro e o aproveitamento de sua contribuição
criadora, ou se estiola sua capacidade de renovação, submetendo-o a um
processo de reeducação que o transforma, sem nenhum sarcasmo, em um
escritor branco de pele preta. Embora não devemos levar o paralelo com o futebol longe demais, o que parece aconselhável seria uma reação positiva,
pela qual o intelectual negro (e como ele qualquer intelectual identificado
com determinada parcela da heterogênea civilização brasileira) repudiasse
os freios que o isolassem do ethos de sua gente. Certas perdas culturais são
irrecuperáveis; perdemos o poeta negro que recriava as tradições poéticas
tribais. Todavia, precisaríamos perder também a própria faculdade do poeta
negro de exprimir-se, por meio de sua poesia, como e enquanto “negro”? Se
se desprendesse da tutela total do branco, é presumível que o escritor negro
brasileiro estaria em condições de contribuir melhor para o enriquecimento
da nossa literatura.
Um poeta da envergadura de Oswaldo de Camargo, se persistir em
aperfeiçoar-se e em trabalhar duramente, poderá marcar com sua presença
tanto os movimentos sociais e culturais do meio negro quanto a renovação
de nossa poesia. O “grande homem de cor” torna-se, em si mesmo, cada vez
menos importante em nossa sociedade. Em compensação, os frutos de sua
contribuição pesam cada vez mais no fluxo da vida humana. Ninguém
melhor que um poeta para revitalizar as aspirações igualitárias, um tanto
adormecidas atualmente, que orientaram os grandes movimentos sociais
negros da década de 1930. Ninguém melhor que um poeta para sugerir
novos rumos no aproveitamento construtivo das energias intelectuais dos
“talentos negros”. Fala-se muito que vivemos numa era pouco propícia à
poesia. Não obstante, o poeta conserva o fascinante prestígio que advém da
magia da palavra, indissoluvelmente associada à linguagem e ao raciocínio
poéticos. O seu exemplo não só se propaga, como também cala fundo. Isso
é tão verdadeiro hoje, como o foi no passado, embora muitos ignorem que
não existe civilização sem poesia.
A questão está na qualidade da poesia. Em regra, o poeta negro brasileiro
tende a entregar-se ao fascínio pela poesia de efeito dramático. A poesia de
auditório, que adquire viço e arrebata os corações quando se atualiza
através de um recital, com acompanhamento ao piano. Aqui e ali Oswaldo de Camargo fez concessões a esse tipo de poesia, enrijando-a com a
substância crua da verdade e com sua admirável intuição poética. Mau
grado o êxito invariável dessas composições, nas reuniões intelectuais das
associações culturais negras, elas estão longe de justificar as preferências
que merecem. Os caminhos que unem a redenção social do negro à
emancipação intelectual do Brasil repousam sobre processos civilizatórios
que reclamam uma poesia suscetível de inspirar e dirigir a ânsia de
aperfeiçoamento contínuo do homem. Ela transparece em muitos versos e
em alguns poemas de Oswaldo de Camargo, principalmente naqueles em
que o protesto negro encontra eco mais sentido e profundo. Se ela se tornará
mais participante e militante, ou não, é impossível prever. Tudo depende do
interesse que o poeta tiver pelos problemas humanos de sua gente e do
sentido que imprimir, em função disso, às suas atividades criadoras. De
minha parte, gostaria imenso que ele completasse o círculo de sua evolução
intelectual, arrostando os ângulos inexplorados do protesto negro e
libertando-se de influxos que ainda retêm suas produções poéticas no limiar
das experiências humanas do negro brasileiro.
114 Prefácio de 15 poemas negros, de Oswaldo de Camargo (São Paulo, Edição da Associação Cultural do Negro, 1969).
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