O Negro no Mundo dos Brancos

Florestan Fernandes · Capítulo 10 de 15

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O Negro no Mundo dos Brancos

Poesia e Sublimação das Frustrações Raciais

Capítulo VIII

 

Poesia e Sublimação das Frustrações

 

Raciais114

 

Ignoro as razões que levaram Oswaldo de Camargo a dar-me o privilégio

de prefaciar a presente coletânea de poemas. Não sou crítico literário.

Tampouco tenho competência ou sensibilidade para apreciar judiciosamente

sua produção poética. Considero a crítica literária uma especialidade

complexa e difícil, que exclui a improvisação e requer não só talento e bom

gosto, mas sensibilidade, erudição e imaginação criadora. Sendo evidente

que não reúno essas condições (pelo menos em relação à capacidade de ser

crítico literário...) entendi que o convite se endereçava ao sociólogo, algum

tanto conhecedor da situação do negro na sociedade brasileira. Às vezes,

uma condição exterior à obra de arte pode ser significativa para a sua

compreensão e interpretação. Talvez o autor procurasse, portanto, alguém

que pudesse “explicar” a sua poesia à luz de sua condição humana – das

influências e motivações psicossociais que ficam por trás da sua maneira de

ver e de representar, poeticamente, emoções, sentimentos, aspirações e

frustrações que poderiam ser entendidos como parte da experiência de vida

do negro brasileiro.

Todavia, ao ler e reler Um homem tenta ser anjo e as poesias colecionadas

nesta obra, cheguei à conclusão de que Oswaldo de Camargo é,

essencialmente, um poeta. O fato de ser negro tem tanta importância quanto

outras circunstâncias (como a de ser brasileiro, católico marcado por

experiências místicas singulares etc.). O que conta, em sua obra, é a poesia.

Embora ela exprima, em várias direções, a condição humana do seu criador,

sobre ela e não sobre outras coisas deveria falar o seu intérprete. Ora,

falece-me autoridade para isso. Um poeta jovem, que vem de uma estreia recente, pretende algo mais que uma “apresentação” convencional: espera

que o apresentador diga aos outros o que ele próprio sabe acerca de seus

versos, de suas intenções e do sentido de sua poesia. Nada que me sentisse

capaz de fazer, pelo menos com justiça, propriedade e o devido respeito

pelo autor, pelo público e por mim mesmo...

Abriam-se diante de mim dois caminhos. Um, o de lamentar as limitações

de nossa celebrada “formação humanística”. Bem mal vai um país no qual

um professor universitário treme diante das responsabilidades do juízo

estético. Não é só um sistema de vida intelectual que sofre um impacto

negativo. Penso, em particular, na negligência dos críticos especializados,

que só existem para os produtores de arte de prestígio consagrado,

subestimando ou negligenciando a energia moça, pela qual se processam a

afirmação e a renovação das grandes ou das pequenas literaturas. O

segundo caminho seria o de avançar os resultados de minhas modestas

reflexões. Os que não podem concentrar-se na própria medula do raciocínio

poético já dão algo de si indicando o que percebem, o que sentem e o que

pensam. Por consideração especial pelo autor, não me neguei a isso. Acho

sinceramente, porém, que ninguém lucrará nada com ideias tão minguadas

de verdadeiro teor crítico.

Em uma civilização letrada, o poeta representa um dos produtos mais

complicados do condicionamento educacional, intelectual e moral. É um

contrassenso pensar-se que o negro brasileiro encontre na poesia (como em

outros campos de arte) veículos fáceis de autorrealização. Há toda uma

aprendizagem técnica, difícil de conseguir-se e de completar-se. Vencido

esse obstáculo, erguem-se as verdadeiras barreiras humanas que estão

dentro e fora do próprio negro. De um lado, temos as contingências de um

meio intelectual ainda mal polido e parcamente aberto às aventuras da

inteligência criadora. Ele se fecha com facilidade, movido por molas que as

convenções escondem ou disfarçam, especialmente diante das ocorrências

que fogem às normas e à rotina. O produtor de arte negro é, em si mesmo (isto é, independentemente da qualidade e da significação de sua poesia ou

seja lá o que for), uma aberração de todas as normas e uma transgressão à

rotina num mundo organizado por e para os brancos. De outro lado, acham-

se as fronteiras que nascem da situação humana do negro na sociedade

brasileira. Pode-se imaginar que existem várias gradações na linguagem

poética e que a poesia não seja incompatível com nenhuma situação

humana, reconhecível objetivamente. Embora isso pareça incontestável, só

a força de um gênio permite superar as limitações sufocantes das barreiras

que anulam o próprio sentido da dignidade do eu, aniquilando pela raiz as

impulsões criadoras da inteligência humana. Em consequência, os “poetas

negros” do Brasil caem, grosso modo, em duas categorias extremas. Ou são

réplicas empobrecidas do “poetastro branco”, ou são exceções que

confirmam a regra, ou seja, episódios raros, na história de uma literatura de

brancos e para brancos, o que se poderia exemplificar em relação à poesia,

como uma figura tão conhecida como a de um Cruz e Sousa. Não existe

uma vitória autêntica sobre o meio. A “inteligência negra” é tragada e

destruída, inapelavelmente, antes de revelar toda a sua seiva, como se não

importasse para o destino intelectual da Nação.

A produção poética de Oswaldo de Camargo suscita, em termos dessas

ponderações, novos ensinamentos. Ela foge ao primeiro extremo e evita,

apesar das qualidades visíveis do poeta, o segundo, demonstrando que o

negro intelectual, liberto dos preconceitos destrutivos do passado, tende a

identificar sua condição humana, e extrair dela uma força criadora quase

brutal e desconhecida, bem como a superar-se pela consciência da dor, da

vergonha e da afronta moral. Em outras palavras, começa a delinear-se uma

poesia negra e dela constitui uma floração rica e exemplar a presente

coletânea. Mais que sobre qualquer outra coisa, é sobre essa poesia que

gostaria de meditar, servindo-me da oportunidade que os versos de Oswaldo

de Camargo me oferecem.

Na medida em que expressa a condição humana do negro no Brasil, essa

poesia afirma-se como uma poesia de ressentimento e de profunda

humilhação moral. Não evidencia apenas desalento e mortificação: a

depreciação social da cor atinge o equilíbrio da pessoa, convertendo o poeta

na voz do drama psicológico de uma coletividade. Já no livro anterior (Um

homem tenta ser anjo, São Paulo, 1959), sente-se o tom acre e soturno do

protesto negro:

 

Meu Deus! Meu Deus! Com que pareço!?

Vós me destes uma vida, Vós me destes

e a não consigo levar...

Vós me destes uma alma, Vós me destes

e eu nem sei onde está...

 

Vós me destes um rosto de homem,

mas a treva caiu

sobre ele, Deus meu, vede que triste,

todo preto ele está! (Um homem tenta ser anjo, p. 55)

 

Mas é nos poemas desta coleção que o referido protesto atinge seu clímax,

desvendando toda a amargura triste e a revolta de brasileiros que se

envergonham de ser gente:

 

Recolho o pensamento e me debruço

nesta contemplação, assim me largo...

E, preso ao ser que sou, soluço e babo

na terra preta de meu corpo amargo...

(excerto de Canção amarga)

 

Deslembrado de mim, me recordei:

folha no chão, estrume, antigo som

de fonte e sobre a preta face

essa tristeza que sempre haverei...

(excerto de Relembrança)

 

Quem vos disse, senhores, que pareço

em desespero com qualquer rapaz?

Se me amargo a contemplar-me, sou

a luta entre o ser e o ser demais...

(excerto de Pergunta)

 

Profundamente em mim uma lâmina se enterra

Se enterra e não vale recuo, nem o meu grito breve

às horas rubras desta tarde de hoje...

..................................................................................

Já não sei que fazer para alegrar minh’alma!

E é preciso sofrer para salvar meu sonho!

(excerto de Profundamente)

 

Não sei meu rumo nesta rude terra,

nem sei a que destino me consagro...

(excerto de 4 Sequências, III)

 

Pelo amor das lindas horas

em que sonhais só co’o amor,

parai um pouco, senhoras,

somos os homens de cor,

que vêm tecendo coroas

de tristeza pela estrada...

Voltamos de muitas noites,

há noite dentro de nós,

pelo amor dos que vos amam,

escutai a nossa voz!

..............................................................................

Encontramos a esperança

toda em pranto debulhada...

E nos perdemos na noite,

não achamos a alvorada;

queremos subir na vida,

não encontramos a escada...

E estamos diante de vós,

chorando o não sermos nada...

(excerto de A modo de súplica)

 

Eu conheço um grito de angústia,

e eu posso escrever este grito de angústia,

e eu posso berrar este grito de angústia,

quer ouvir?

“Sou um negro, Senhor, sou um... negro!”

(excerto de Grito de angústia)

 

Tentei multiplicar os exemplos de propósito. Sob várias facetas, eles nos

mostram o negro torturado por avaliações que decorrem da aceitação de

uma imagem do próprio negro construída pelo branco. As contradições, as

ansiedades e as frustrações, expressas com tamanha autenticidade poética

por Oswaldo de Camargo, emergem da mesma matriz. Avaliando-se através

de critérios de julgamento e de expectativas morais recebidas do branco, o

drama de ser negro corresponde, literalmente, à impossibilidade de afirmar-

se em um mundo moldado pelos brancos e para brancos. Desde a infância,

o negro é modelado para viver nesse mundo, como se não houvesse

diferenças entre negros e brancos; mas as portas fecham-se diante dele,

quando tenta atravessar os tortuosos corredores que conduzem a tal fim.

Existe, pois, um “brancor” no negro, o qual só pode ser reconhecido e é

válido como estado subjetivo do espírito:

 

Rosa, rosa, o meu brancor existe,

mas inexiste e meu corpo chora;

rosa, meu pensamento existe,

mas existe o meu corpo sofre...

Percebo o brancor que em mim existe

irrevelado e isso me faz triste...

Quero ser ave!

O azul sei que existe...

Ah, minha alma, chora!

(Um homem tenta ser anjo, p. 73)

 

Daí resultam contradições morais. A brancura e a infância surgem como

obcecações que traduzem valores supremos:

 

Eu vi de branco a menina e esse sonho

jamais me escapou...

E meus dedos sem visgo em vão tentaram

sustar do sonho névoa e brevidade...

E não sei que eco de orfandade

lembrou-me então a mim que eu estava só,

só como o sonho que era único:

branca menina de sandálias brancas...

Como tudo era branco, branco, branco!

E quando me revi estava só...

E minha vida estava branca, branca, branca,

como meu primeiro caderno

da escola...

(Idem, p. 79)

 

Ah! que medi muito mal a distância da vida,

e julgara comigo: “hei de ir muito longe”,

mas tombou sobre mim uma idade imprecisa

e eu invejo agora o menino que fui.

 

Eu invejo agora o menino que fui,

leve, andando nas pedras de tantas montanhas;

e, porque me tornei tristemente um homem,

para breve serei uma sombra, só sombra.

 

Muitos restos de mim larguei já pelas ruas;

infelizmente me gastando vou...

numa esquina qualquer muitas mortes me esperam,

e eu espero também qualquer morte que venha...

(parte de Ronda)

 

Ambas, a brancura e a infância, constituem polarizações centrais em sua

poesia. Uma, como expressão do mundo vedado objetivamente ao negro,

acessível pela participação subjetiva. Outra, como fase da vida em que as

proibições são menos drásticas ou passam despercebidas.

O drama psicológico e moral do negro, sentido e descrito nesse plano, em

que o ego aprofunda as contradições e as hipocrisias da “democracia racial

brasileira”, não consubstancia um estado de marginalidade nem uma atitude

de rebelião. Eventualmente, o “brancor” chega a ser desmascarado:

 

Tenho em meus gestos um rebanho inteiro

de atitudes brancas, sem sentido,

que não sabem falar...

(excerto de A manhã)

 

Contudo, o jogo dos contrastes evoca a manhã e a noite em termos da

oposição entre o branco e o negro. Não há o desafio moral da escolha nem

o apego ambivalente à herança cultural do negro ou do branco; trata-se do

universo mental que o negro se construiu, no qual ele deveria ser uma coisa,

mas é outra:

 

Eu penso que a manhã não interpreta bem

a superfície escura desta pele,

que pássaro nela vai pousar?

 

Ai da tristeza de meu corpo, ai,

o pássaro conhece a manhã,

e sabe que é branca a manhã,

mas não ousa enterrar-se de novo

na noite...

 

Eu, no entanto, permaneço ao lado

da manhã e das cantigas...

A noite, a grande noite está pousada em mim

escandalosamente!

(Idem)

 

O que subsiste, pois, é o desalento ressentido, que transparece melhor

onde se afirma uma ligação espiritual com os ancestrais africanos e

escravos:

 

Meu grito é o estertor de um rio convulso...

Do Nilo, ah, do Nilo é o meu grito...

...........................................................................................

Meu grito é um espasmo que me esmaga,

há um punhal vibrando em mim, rasgando

meu pobre coração que hesita

entre erguer ou calar a voz aflita:

Ó África! Ó África!

 

Meu grito é sem cor, é um grito seco,

É verdadeiro e triste...

...........................................................................................

Por que é que grito?

(excertos de Meu grito)

 

Em suma, o negro não repudia nada – nem a experiência ancestral, nem o

universo criado pelo branco, nem a condição humana que nele encontra. A

sua revolta nasce de uma injustiça profunda e sem remédio, que só ele sente por ser posto à margem da vida e da justiça humana, vítima de um estado

extremo de negação do homem pelo homem. Em nome de um código ético

rude e egoísta, o branco ignora as torturas, os conflitos e as contradições

que cimentam sua concepção “cristã”, “cordial” e “democrática” do mundo,

condenando à danação todos os negros que aceitem com integridade e

ascetismo essa mesma concepção do mundo, com suas opções e valores

morais.

Ainda é cedo para emitir juízos definitivos sobre essa poesia negra,

associada à liberação social progressiva do branco e do negro na sociedade

urbana e industrial brasileira de nossos dias. Dois pontos, todavia, poderiam

ser aprofundados. Primeiro, na sua forma atual, fixando o drama moral do

negro de um ângulo meramente subjetivo, ela não transcende nem mesmo

radicaliza o grau de “consciência da situação” inerente às manifestações

iletradas do protesto negro. É certo que ela expõe as coisas de maneira mais

grandiosa, chocante e pungente. Diante dela, até os relutantes ou os

indiferentes terão de abrir os olhos e o coração: há torpezas sem nome por

detrás dos iníquos padrões de convivência, que regulam a integração do

negro à ordem social vigente. No entanto, essa mesma poesia se mostra

incapaz de sublimar atitudes, compulsões e aspirações inconformistas, que a

poderiam converter numa rebelião voltada para o processo de redenção

social do negro. Segundo, ela se divorcia, de modo singular, dos mores das

populações negras brasileiras. Por enquanto, a poesia que serve de veículo

ao protesto negro não se vincula, nem formal nem materialmente, ao mundo

de valores ou ao clima poético das culturas negras do Brasil.

As duas constatações possuem amplo interesse. Elas não pressupõem

nenhuma sorte de restrição ao nosso poeta ou ao tipo de poesia que se

procura cultivar com vistas ao drama humano do negro. Mas revelam de

forma expressiva o poder de condicionamento externo da obra de arte. Se o

“meio negro brasileiro” tivesse um mínimo de integração, os dilemas

morais descritos poderiam ser focalizados à luz de experiências coletivas autônomas. Existiriam conceitos e categorias de pensamento que

permitiriam apreender a realidade sem nenhuma mediação ou alienação,

através de sentimentos, percepções e explicações estritamente calcadas nos

modos de sentir, de pensar e de agir dos próprios negros. Na medida em que

o negro, como grupo ou “minoria racial”, não dispõe de elementos para

criar uma imagem coerente de si mesmo, vê-se na contingência de ser

entendido e explicado pela contraimagem que dele faz o branco. Mesmo um

poeta negro do estofo de Oswaldo de Camargo não escapa a esse impasse,

de enorme importância histórica: até onde ele perdurar, o negro

permanecerá ausente, como força social consciente e organizada, da luta

contra a atual situação de contato, sendo-lhe impossível concorrer

eficazmente para a correção das injustiças sociais que ela encobre e

legitima.

Já o segundo ponto tem mais que ver com a dinâmica da criação literária.

Os padrões de produção artística e de gosto literário imperantes aboliram,

largamente, o influxo contínuo e produtivo das heranças culturais de que

foram portadores estoques étnicos ou raciais considerados “inferiores”. Ao

aderir a tais padrões, o artista acaba sacrificando, sem o saber, riquezas

potenciais insondáveis, algumas ligadas às suas energias pessoais, outras

vinculadas à influência do ambiente social imediato. Um simples paralelo

permitiria ilustrar claramente o que pretendo dizer. Tome-se como exemplo

o futebol: em sucessivas gerações, sempre contamos com alguns “magos da

pelota” negros e através deles conseguimos enriquecer gradativamente a

nossa “arte de jogar”. Em grande parte, isso se deve à liberdade de

expressão conferida ao jogador negro, que não encontra réplica na esfera da

produção artística, sufocada por preconceitos de vária espécie – ou se

elimina o concurso do negro e o aproveitamento de sua contribuição

criadora, ou se estiola sua capacidade de renovação, submetendo-o a um

processo de reeducação que o transforma, sem nenhum sarcasmo, em um

escritor branco de pele preta. Embora não devemos levar o paralelo com o futebol longe demais, o que parece aconselhável seria uma reação positiva,

pela qual o intelectual negro (e como ele qualquer intelectual identificado

com determinada parcela da heterogênea civilização brasileira) repudiasse

os freios que o isolassem do ethos de sua gente. Certas perdas culturais são

irrecuperáveis; perdemos o poeta negro que recriava as tradições poéticas

tribais. Todavia, precisaríamos perder também a própria faculdade do poeta

negro de exprimir-se, por meio de sua poesia, como e enquanto “negro”? Se

se desprendesse da tutela total do branco, é presumível que o escritor negro

brasileiro estaria em condições de contribuir melhor para o enriquecimento

da nossa literatura.

Um poeta da envergadura de Oswaldo de Camargo, se persistir em

aperfeiçoar-se e em trabalhar duramente, poderá marcar com sua presença

tanto os movimentos sociais e culturais do meio negro quanto a renovação

de nossa poesia. O “grande homem de cor” torna-se, em si mesmo, cada vez

menos importante em nossa sociedade. Em compensação, os frutos de sua

contribuição pesam cada vez mais no fluxo da vida humana. Ninguém

melhor que um poeta para revitalizar as aspirações igualitárias, um tanto

adormecidas atualmente, que orientaram os grandes movimentos sociais

negros da década de 1930. Ninguém melhor que um poeta para sugerir

novos rumos no aproveitamento construtivo das energias intelectuais dos

“talentos negros”. Fala-se muito que vivemos numa era pouco propícia à

poesia. Não obstante, o poeta conserva o fascinante prestígio que advém da

magia da palavra, indissoluvelmente associada à linguagem e ao raciocínio

poéticos. O seu exemplo não só se propaga, como também cala fundo. Isso

é tão verdadeiro hoje, como o foi no passado, embora muitos ignorem que

não existe civilização sem poesia.

A questão está na qualidade da poesia. Em regra, o poeta negro brasileiro

tende a entregar-se ao fascínio pela poesia de efeito dramático. A poesia de

auditório, que adquire viço e arrebata os corações quando se atualiza

através de um recital, com acompanhamento ao piano. Aqui e ali Oswaldo de Camargo fez concessões a esse tipo de poesia, enrijando-a com a

substância crua da verdade e com sua admirável intuição poética. Mau

grado o êxito invariável dessas composições, nas reuniões intelectuais das

associações culturais negras, elas estão longe de justificar as preferências

que merecem. Os caminhos que unem a redenção social do negro à

emancipação intelectual do Brasil repousam sobre processos civilizatórios

que reclamam uma poesia suscetível de inspirar e dirigir a ânsia de

aperfeiçoamento contínuo do homem. Ela transparece em muitos versos e

em alguns poemas de Oswaldo de Camargo, principalmente naqueles em

que o protesto negro encontra eco mais sentido e profundo. Se ela se tornará

mais participante e militante, ou não, é impossível prever. Tudo depende do

interesse que o poeta tiver pelos problemas humanos de sua gente e do

sentido que imprimir, em função disso, às suas atividades criadoras. De

minha parte, gostaria imenso que ele completasse o círculo de sua evolução

intelectual, arrostando os ângulos inexplorados do protesto negro e

libertando-se de influxos que ainda retêm suas produções poéticas no limiar

das experiências humanas do negro brasileiro.

114 Prefácio de 15 poemas negros, de Oswaldo de Camargo (São Paulo, Edição da Associação Cultural do Negro, 1969).

 

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