O Negro no Mundo dos Brancos

Florestan Fernandes · Capítulo 9 de 15

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O Negro no Mundo dos Brancos

Terceira Parte

 

EM BUSCA DA DEMOCRACIA

 

RACIAL

 

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Capítulo VII

 

Ciência e Consciência

 

Seria injusto dizer-se que o conhecimento crítico da realidade racial

brasileira só foi inaugurado com a recente expansão das pesquisas sociais.

Entretanto, está fora de dúvida que as ciências sociais contribuíram para

ampliar e aprofundar a percepção objetiva dessa realidade, introduzindo em

seu debate critérios de avaliação que não podem ser neutralizados ou

contidos pelo pensamento conservador.

Como deveria normalmente ocorrer em uma sociedade fundada no

trabalho escravo, as vítimas reais da escravidão ou das formas semilivres ou

(semiescravas) de trabalho não participavam da elaboração e da revisão da

ideologia e da utopia raciais, que se tornavam socialmente necessárias.

Ambas foram forjadas, mantidas e refinadas pela “raça” dominante, cujas

elites econômicas, culturais e políticas ditaram, como bem entenderam,

como elas deviam exprimir as relações “cristãs” e “justas” entre senhores e

escravos.

O desaparecimento da escravidão concorreu, de modo poderoso, para

modificar as atitudes monolíticas e rígidas sobre a estratificação racial, que

se ocultava por baixo do sistema senhorial e escravocrata. Primeiro, porque

o abolicionismo desencadeou uma crítica severa da escravidão, como

instituição social (em todos os planos, ou seja, com referência às suas

funções econômicas, culturais e políticas). Embora os elementos oprimidos

tivessem uma influência limitada na formação da contraideologia e da

contrautopia inerentes ao abolicionismo, este trazia consigo uma nova

imagem dos motivos e das consequências da estratificação racial, requerida

pela escravidão. Segundo, porque a desagregação das formas sociais

escravistas liberou o negro e o mulato do círculo de ferro da consciência racial conservadora, levando-os a identificar-se, aos poucos, com variantes

desmistificadoras de explicação da realidade racial brasileira. Passaram-se

mais de quatro décadas para que isso sucedesse. No entanto, os movimentos

sociais do “meio negro” trouxeram, com a contraideologia e a contrautopia

da Segunda Abolição, um autêntico desmascaramento da hipocrisia racial

conservadora e uma afirmação pura do radicalismo democrático integral.

Pela primeira vez na história do Brasil, a democratização das relações

raciais foi equacionada pelo “negro” e pelo “mulato”, embora nos limites da

eficácia e da legitimidade da ordem social constituída.

As pesquisas sociais sobre as relações raciais surgiram depois desse

evento, isto é, depois da efervescência e do rápido amortecimento

subsequente do “protesto negro”. Por isso, elas ganharam uma conexão de

sentido típica: tinham, como ponto de partida, as elaborações oficiais e

obnubilantes da consciência racial conservadora, e as elaborações

divergentes mas esclarecedoras da contraideologia e da contrautopia raciais,

difundidas pela rebelião dentro da ordem dos movimentos de protesto

racial. Mesmo a pesquisa de campo mais neutra e estreitamente descritiva

não poderia escapar ao confronto de representações tão extremadamente

antagônicas. Qualquer análise de inconsistências institucionais, de

iniquidades sociais fundadas na desigualdade racial ou de dualidades éticas,

operativas no nível da acomodação racial, teria de levar em conta as

implicações desse confronto e sua significação para o comportamento

coletivo polarizado como divergente. O que é importante ressaltar é que o

condicionamento exterior expunha as pesquisas sociais aos dilemas do meio

ambiente e às pressões alternativas das opções em presença. O

conhecimento do processo de democratização das relações raciais inseria-

se, ele próprio, nas etapas históricas do processo, tendo assim de responder

aos requisitos intelectuais tanto quanto aos requisitos práticos da transição

para uma verdadeira democracia racial.109

Aqui estão reunidos dois prefácios, que situam a investigação sociológica

diante dessa problemática, com que nos defrontamos por causa da estrutura

e dos dinamismos da situação racial brasileira. O primeiro foi escrito para o

livro de Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni110 e ressalta o

significado da contribuição do cientista social para o alargamento e o

aprofundamento da consciência social da realidade estudada; o segundo foi

escrito para a edição condensada, em inglês, de um livro do autor111 e

esboça uma caracterização global de nossa situação de contato racial (e do

que parece ser o seu principal ponto de contraste, com referência ao que se

passa nos Estados Unidos). Ambos os livros suscitam uma reflexão

fundamental: há um profundo e terrível hiato entre as técnicas de

consciência social dos problemas raciais brasileiros e as técnicas que são

empregadas para fazer em face das suas consequências (e não para enfrentá-

los e resolvê-los, pois eles continuam ignorados nesse nível mais complexo

de intervenção). No primeiro plano, a ciência concorre para demonstrar a

validade e a consistência do “protesto negro”, pondo em evidência as

contradições que existem entre as normas ideais e o comportamento efetivo

na esfera das relações raciais. No segundo plano, porém, a ciência

permanece ignorada: os problemas raciais são congelados ou, então, se

proclama que “eles não existem”. Em consequência, o conhecimento

acumulado torna-se improdutivo. A consciência social é “esclarecida” pela

investigação sociológica, mas nem por isso ela se propõe o imperativo de

uma transformação radical da realidade.

Isso significa, na verdade, que as forças sociais empenhadas na

democratização das estruturas raciais da sociedade brasileira ainda não são

nem muito fortes nem muito organizadas. A simples negligência de

problemas culturais, étnicos e raciais numa sociedade nacional tão

heterogênea indica que o impulso para a preservação da desigualdade é

mais poderoso que o impulso oposto, na direção da igualdade crescente.

Quando a negligência emerge em um contexto no qual seria fácil fomentar o tratamento racional e programado dos problemas culturais, étnicos e

raciais, e em que já se poderia contar com recursos intelectuais para

submeter a controle pelo menos certos fatores de marginalização ou de

exclusão (parcial ou total), fica patente a resistência à aceleração da

mudança social progressiva. Estratos sociais fortemente identificados com a

presente estrutura racial da sociedade brasileira estão empenhados na

reprodução das desigualdades raciais existentes, identificando-se,

consciente ou inconscientemente, com a perpetuação do status quo racial.

Pondo o seu prestígio na balança, esses estratos decidem quais são as

políticas nacionais “necessárias” e transferem a democracia racial para o

futuro remoto.

Esse é o paradoxo que não conseguimos vencer. De um lado, o poder

conservador barra, através de efeitos estáticos, a sensibilidade do sistema

político diante do dilema racial. De outro lado, os grupos afetados – dos

quais não se poderia falar em minoria, como nos Estados Unidos – estão

aquém das relações de poder e do controle da influência política

construtiva, direta ou indireta. As linhas igualitárias da participação

socioeconômica, cultural e política, na esfera racial, são relegadas ao

crescimento espontâneo e ao azar. Tem-se por certo que elas acabarão

vingando. Mas não se procura intensificar os “ritmos da história”. De novo,

o egoísmo reaparece e decide as orientações de comportamento das elites

no poder, pois não há muita diferença entre o que estamos assistindo e o que

fizeram as mesmas elites no período final da desagregação do regime

escravista. Então, os destituídos não foram contemplados nas diferentes

“políticas” de aceleração das mudanças sociais, todas voltadas para os

interesses econômicos, culturais e políticos dos estratos poderosos e

privilegiados.

É preciso insistir sobre esse paradoxo. Nenhuma democracia será possível

se tivermos uma linguagem “aberta” e um comportamento “fechado”. O

fato de as pesquisas sociais avançarem até as fronteiras do desmascaramento da nossa “constituição íntima”, como sociedade nacional,

e das nossas técnicas sociais estarem na idade da “cultura tradicional”

constitui um fato chocante. Numa era em que a avaliação e o uso dos

recursos humanos deram um salto revolucionário, nós nos apegamos,

obstinadamente, a procedimentos ultrapassados e destrutivos. Como poderá

o Brasil entrar na categoria de país de 100 milhões de habitantes com uma

estatura tão pequena, sem mesmo contar com um esforço organizado e o

intento de possuir políticas especiais, adequadas à solução dos problemas

culturais, étnicos e raciais de sua população? E como esperar que a

democracia racial se concretize, sem que se criem tais políticas segundo

princípios que facilitem a crescente participação econômica, sociocultural e

política por parte dos grupos ou categorias culturais, étnicos e raciais

excluídos da integração nacional, em virtude das formas existentes de

desigualdade econômica, sociocultural e política? Por aí se vê que o

paradoxo apontado não envolve apenas comportamentos efetivos que

honrem a nossa “lógica do discurso”. Ele aponta também para uma maior

congruência entre ciência e intervenção racional. Impõe-se que as técnicas

de intervenção racional acompanhem e evolução da consciência social,

eliminando-se o ponto morto da neutralização prática do conhecimento

científico.

Todavia, semelhante desfecho requer maior envolvimento coletivo do

“negro”, do “mulato” e do “branco” na condenação de formas extremas de

desigualdade racial. Os homens só trabalham por uma sociedade

democrática quando possuem um sentimento profundo do valor da

democracia – não em um sentido abstrato, mas de modo concreto e em

todas as direções simultâneas. Uma sociedade elitista produz políticas

elitistas e as aplica, se necessário, de forma autoritária ou totalitária. A

democracia racial aparece, em sua consciência social, como uma

contrafração e um efeito retórico. Por isso a transição para uma ordem

racial democrática exige uma ruptura profunda com o passado. O passado não nos ensinou a respeitar e a amar o “negro” e o “mulato” como nossos

irmãos. Ensinou-nos o oposto. Também não nos alertou para os riscos do

egoísmo, concebido e aplicado como um estilo de vida. O paralelo com os

Estados Unidos merece uma consideração mais profunda. Se a nossa

experiência humana é realmente “mais humana”, por que não a

aprofundamos? Por que mantemos diante de nossos problemas culturais,

étnicos e raciais uma atitude de cega incompreensão? Se fizermos o

paralelo até o fim, veremos que, nos Estados Unidos, houve um esforço

muito mais concentrado e gigantesco para se equacionar e, dentro das

condições de uma sociedade individualista, se resolver o “dilema racial”.

Todavia, os resultados atingidos foram modestos e o conflito racial tornou-

se o calcanhar de aquiles daquela superpotência. O que podemos esperar,

negligenciando até as providências mais elementares e ignorando o que é

óbvio?

Desse prisma, é inteiramente falsa a avaliação negativa da contribuição

dos cientistas sociais, que vêm insistindo sobre os contornos especiais de

nosso dilema racial e clamam por providências práticas que estejam à altura

de nossas ilusões. Tais cientistas não estão “criando o problema entre nós”,

como falsamente se assoalhou. Eles apenas tentaram equacionar problemas

que são centrais para o futuro do Brasil como nação e como democracia

racial. O mal não está em que eles tenham tido a coragem de afrontar

preconceitos arraigados. Ele procede da indiferença com que os resultados

de suas investigações foram recebidos e da confiança numa crença

inverossímil: de que se pode extrair a democracia racial do nada. É muito

mais fácil, para uma nação moderna, ser antidemocrática que democrática.

Em toda a parte, um contexto antidemocrático é quase sempre uma matéria

de simples preservação ou de fortalecimento do status quo. O mesmo não

sucede com o estabelecimento de uma sociedade democrática. Esta requer,

como passo preliminar, a ruptura com o passado, e como processo decisivo,

uma revolução dentro da ordem ou contra a ordem, que crie padrões efetivos de avaliação e de ação democráticos. Ao que parece, os cientistas

sociais brasileiros foram até os limites de sua responsabilidade

propriamente científica. O que pretendiam e pretendem é que o “nosso

problema” seja esclarecido e resolvido, segundo os critérios racionais do

pensamento científico.

 

1) O significado da análise sociológica das relações

 

raciais

O progresso das ciências sociais no Brasil vem se refletindo de modo

extenso e profundo no volume e na qualidade das investigações sobre

relações étnicas e raciais. Semelhante tendência é muito natural, pois o

nosso país constitui, como se diz vulgarmente, um cadinho de raças e de

culturas. Ainda que tais investigações se proponham móveis empíricos e

teóricos – até o presente, todas elas foram empreendidas com o objetivo de

aumentar nossos conhecimentos sobre as diferentes situações de contato

interétnico ou racial, caracterizáveis na sociedade brasileira – indiretamente

elas satisfazem necessidades práticas de alcance coletivo. Ninguém ignora o

quanto a heterogeneidade cultural e racial afetou, está afetando e continuará

a afetar as possibilidades de desenvolvimento da “civilização ocidental” no

Brasil. Sob esse aspecto, as questões pertinentes ao assunto possuem o

caráter de problema nacional, o que confere às investigações realizadas ou

em curso um interesse prático iniludível.

O público leigo nem sempre atenta, convenientemente, para a mencionada

significação dessas investigações. Estamos tão convencidos de que “o

Brasil constitui uma democracia racial” que aplicamos mal mesmo as regras

do bom senso na avaliação dos resultados a que chegam os investigadores.

Com raras exceções, questionam-se os resultados à luz de argumentos que

outra coisa não fazem senão justificar e defender as concepções

econômicas, políticas e morais das camadas sociais que sempre tiraram

proveito da desigualdade e das diferenças de oportunidade, consagradas ou mantidas pela ordem social herdada do passado. Em consequência, os

advogados da tradição se convertem, insensivelmente, em obstáculos vivos

à implantação da nova mentalidade, requerida por um país que pretende

lutar pela industrialização, pela democratização da riqueza ou do poder e

pelo progresso social.

Esse ponto precisa ser devidamente ressaltado. É preciso que se tenha em

mente que o preconceito e a discriminação não degradam nem os seus

portadores, nem as suas vítimas. Ambos são expressões da maneira pela

qual a sociedade e a cultura organizam o comportamento dos seres

humanos. Integram-se, estrutural e dinamicamente, no horizonte intelectual

dos homens, determinando suas formas de conceber as pessoas, seus

direitos e deveres, e sua posição na sociedade em que vivem. As convicções

religiosas dos “brancos” e os danos seculares dos “negros” e “mulatos”,

somados a convicções da mesma espécie, criaram ambiente para o

florescimento de avaliações emocionais e morais que colocam os dois

temas em áreas de discussão proibida. Ora, o cientista social não se

preocupa com o assunto neste nível, que para ele é etnocêntrico, de

mascaramento das coisas, de respeito às convenções e de preservação da

“paz doméstica”, como diziam os ensaístas brasileiros do século XIX. Ao

proceder à análise e à caracterização das situações, ele não condena nem o

“branco” por ter preconceitos, nem o “negro” por suportá-los; ele tampouco

se insurge contra manifestações mais ou menos disfarçadas de

discriminação que mantêm a posição dominante de uma “raça” e a posição

simetricamente subordinada de outra. Limita-se a mostrar como, em dadas

condições de organização da sociedade, tais coisas podem dar-se e podem

perpetuar-se. Doutro lado, põe em evidência o que certos estereótipos,

avaliações, padrões de comportamento e valores sociais representam como

obstáculos à mudança social. Nenhuma ordem social seria tão perfeita, aos

olhos dos senhores de escravo do século XIX, quanto à da sociedade

escravocrata e senhorial brasileira da época. Mesmo a escravidão era definida como um bem, que daria aos escravos conforto, segurança e freios

morais. Os que se opuseram à escravidão pensavam exatamente o contrário

e tinham em vista libertar especialmente o branco culto e abastado das

peias produzidas pela escravidão. O problema continua o mesmo. O ideal

brasileiro de uma democracia social, acima mesmo das diferenças étnicas e

raciais, é o ideal mais elevado que uma coletividade chega a propor-se.

Mas, para que ele se concretize, torna-se indispensável saber o que o detém

na vida cotidiana.

Aí está o sentido mais profundo da contribuição positiva do cientista

social. Ele não censura os agentes humanos, nem sequer em termos dos

valores que servem para justificar suas ações. Tenta, somente, mostrar o

grau de congruência existente entre as ações e os valores sociais. Muitas

vezes, as omissões ocorridas na observância dos valores são frequentes e

clamorosas; o que não impede que os agentes humanos ignorem ou

dissimulem esse fato. Analisando-se as condições em que isso se dá,

constata-se que os agentes atuam convictos da própria integridade, movidos

por motivações que obliteram o reconhecimento objetivo da verdade. Nem

por isso as incongruências deixam de refletir-se no grau de integração da

ordem social estabelecida. Considerada através das formulações ideais,

objetivadas culturalmente, a ordem social é uma; encarada através dos

comportamentos manifestos dos indivíduos, mais ou menos incongruentes

com aquelas formulações ideais, a ordem social é outra. Essa situação

exemplifica o que os especialistas designam com o termo “inconsistência

cultural”. O comportamento dos indivíduos e o funcionamento das

instituições não correspondem nem às determinações morais, impostas

explicitamente por normas e valores sociais, nem aos requisitos ideais de

organização da vida social, aceitos por todos como os fundamentos da

própria ordem social estabelecida.

Ora, está fora de dúvidas que inconsistências dessa natureza restringem as

potencialidades de desenvolvimento dos sistemas sociais. A perpetuação delas exprime estados de inércia cultural, que comprometem a capacidade

dos agentes humanos na realização de certa concepção do mundo e da

filosofia moral correspondente. Não existe democracia racial efetiva, em

que o intercâmbio entre indivíduos pertencentes a “raças” distintas começa

e termina no plano da tolerância convencionalizada. Esta pode satisfazer às

exigências do “bom-tom”, de um discutível “espírito cristão” e da

necessidade prática de “manter cada um em seu lugar”. Contudo, ela não

aproxima realmente os homens senão na base da mera coexistência no

mesmo espaço social e, onde isso chega a acontecer, da convivência

restritiva, regulada por um código que consagra a desigualdade,

disfarçando-a e justificando-a acima dos princípios de integração da ordem

social democrática. Se insistimos nesse aspecto da questão é porque ele é

essencial, quando se atenta para o futuro do Brasil como parte dos países

integrados na órbita da civilização ocidental. O que está em jogo não é

apenas a nossa possibilidade de imitar povos “mais adiantados”, ou seja, de

reproduzirmos o regime democrático com estilos de vida correlatos, tal

como ele pode ser idealizado pela experiência histórica dos povos em

questão. Mas a perspectiva de conseguirmos esse intento sem perdas

culturais.

Desse ângulo, precisamos estar atentos a duas exigências intelectuais

distintas, igualmente impositivas e cruciais na cena histórica brasileira.

Primeiro, devemos conhecer melhor o que, em nossa herança sociocultural,

é incompatível com a concepção democrática da vida e com a implantação

da democracia no Brasil. Muitos simplificam demais essa questão,

pensando que o problema está nos hábitos de mando e nas perversões do

uso do poder pelos representantes do patrimonialismo ao velho estilo

lusobrasileiro. No entanto, a questão é bem mais complexa. Aos hábitos e

expectativas de mando das antigas camadas dominantes correspondem

hábitos de subordinação e obediência, tanto quanto representações que

legitimam a dominação patrimonialista em termos das tradições. Além disso, com a mudança rápida da situação, amplos setores da população – em

todas as camadas da pirâmide social – não chegaram a adquirir hábitos

novos, fundados em concepções racionais das relações entre meios e fins e

nos valores que legitimam a dominação burocrática. Portanto, o

conhecimento da realidade presente precisa ser bastante amplo para

proporcionar-nos ideias justas sobre os pontos em que a herança social

tradicional se opõe, como obstáculo cultural, às tendências favoráveis à

democratização e para revelar-nos as condições em que ela orienta

negativamente a formação de hábitos novos, polarizando-os em torno das

concepções patrimonialistas das relações de dominação-subordinação.

Segundo, devemos conhecer, igualmente, o que deve ser preservado, a todo

custo, em nossa herança sociocultural. Um povo que estimule programas

rápidos de mudança cultural, sem orientá-los segundo critérios inteligentes

e construtivos, paga preços exorbitantes pelo progresso social. Muitas

vezes, este se faz ao longo de sacrifícios materiais e morais demasiado

penosos, produzindo desorganização social permanente e seleção negativa

de valores sociais, que poderiam preencher funções criadoras na própria

reconstrução do sistema civilizatório. Vários “países subdesenvolvidos”

estão trilhando esse caminho. Seria importante que o Brasil não os imitasse.

A civilização ocidental é suficientemente rica e plástica para permitir

amplas diferenças entre os sistemas culturais nacionais, que se organizam

através de seus valores ideais básicos. Faltam-nos certas experiências

históricas, suscetíveis de intensificar e dar solidez ao desenvolvimento da

democracia social no Brasil. Entre eles, contam a ausência de um senso

fundamental de respeito à pessoa humana e a incapacidade relativa de

explorar com eficácia os modelos institucionais de organização grupal das

atividades humanas. Em troca, dispomos de algumas realizações que

merecem ser preservadas, por serem potencialmente positivas a esse

respeito. Podemos incluir entre elas a tolerância convencionalizada nas

relações raciais e o mínimo irredutível de sobranceria, que caracteriza a expressão assumida pelo individualismo e pela autonomia da pessoa quer

em nosso homem culto, quer em nosso homem rústico. Componentes

psicossociais dessa espécie, com suas bases dinâmicas socioculturais,

merecem não só análises mais profundas; precisamos passar a encará-los

com a parte positiva do nosso legado cultural, no processo incipiente de

modernização do sistema civilizatório brasileiro.

Em suma, convidamos o leitor a suspender julgamentos correntes em

nossos meios letrados e a fazer uma sorte de revolução copernicana em seus

critérios de avaliação intelectual. Não devemos continuar provincianos,

repelir conclusões fundamentadas em fatos coligidos através de inquéritos

positivos, só porque eles não coincidem com estereótipos ou com

concepções tradicionais arraigadas. Procedendo dessa forma, corremos o

risco de considerar perfeita uma democracia racial que ainda se está

formando e polindo. Doutro lado, devemos principalmente adotar um novo

estado de espírito, que nos facilite a tarefa de tirar proveito real das

contribuições intelectuais dos cientistas sociais. Mesmo que incorram em

defeitos ou limitações, elas alargam nossa capacidade de representar as

condições e os processos da vida social organizada em nosso meio. Além

disso, ampliam os nossos critérios de reconhecimento objetivo das

exigências da situação histórico-social brasileira. Se não fizermos isso,

corremos o risco anacrônico de alimentar separações que não devem existir

entre intelectuais, que se entendam “especialistas” ou “leigos” conforme as

perspectivas de que avaliem sua produção e sua responsabilidade. Existe,

ainda hoje, um fosso entre ambos, o qual concorre para manter isolamentos

improdutivos e adversos às funções criadoras da inteligência. O historiador

ou o economista, por exemplo, teimam em ignorar a contribuição específica

do etnólogo ou do sociólogo para os seus estudos em realização. Nisso, são

pagos com a mesma moeda por estes. O crítico literário ou o romancista

continuam fascinados por modelos pré-universitários de trabalho,

plenamente justificáveis no passado, mas obsoletos em nossos dias. O jornalista ainda se aferra a ambições olímpicas, da autossuficiência

poligráfica. E assim por diante! A consequência fatal é sempre a mesma...

Esterilização dos esforços bem-sucedidos e um eterno recomeçar do marco

zero, por temor à colaboração, ao diálogo e ao trabalho verdadeiramente

intelectual, que é coletivo. Após os resultados de investigações etnológicas

ou sociológicas criteriosas, historiadores retomam temas sobre a vida social

entre os aborígenes, a colonização do Brasil etc., segundo chavões

inconsistentes e deformativos. O “como se” orienta a interpretação dos

processos econômicos, descritos como forças autônomas e incondicionadas

socialmente. O crítico trata de obras realizadas conforme diretrizes

científicas como se discutisse um discurso parlamentar de Rui Barbosa.

Inversamente, o sociólogo ou o etnólogo ignoram mais do que deveriam os

resultados a que chegaram aqueles seus colegas, que permitiriam

estabelecer interpretações mais integrativas das relações entre a estrutura

social e a economia, o fluxo histórico, as repercussões dos padrões de gosto

ou de consumo literário na organização do público e no destino final das

produções intelectuais etc.

O presente livro convida-nos a tais reflexões. A razão disso é simples. Ele

constitui um índice flagrante de que certas tendências de produção

científica acabaram por fixar-se em nosso meio. Ele força-nos a pensar na

contribuição dos cientistas sociais em termos de processo – de algo que tem

continuidade, dimensão e sentido próprios. Seus autores, que contam entre

os sociólogos de maior substância científica na atualidade, nele nos dão

uma amostra do padrão de trabalho que está guiando, efetivamente, as

exigências e as ambições dos investigadores que possuem boa formação

especializada. Por acaso, trata-se da primeira experiência de ambos na

realização de um projeto completo de pesquisa e na redação de uma

monografia. Além disso, a própria pesquisa foi feita nas condições habituais

de escassez de recursos, impondo sérias limitações do período de

permanência em campo e na exploração das técnicas acessíveis de investigação. Condições aleatórias como essas seriam irrelevantes para a

avaliação das tendências fundamentais de desenvolvimento da Sociologia

em centros científicos mais avançados. Em face da situação brasileira,

entretanto, elas possuem profunda significação. A razão disso é simples:

elas revelam com clareza os ideais de trabalho reputados essenciais, pelos

cientistas sociais brasileiros, encarados como verdadeiros “mínimos” em

sua definição dos objetivos da investigação científica das sociedades

humanas.

Pode-se constatar a veracidade dessa conclusão, em primeiro lugar, no

plano metodológico. A monografia de Fernando Henrique Cardoso e

Octavio Ianni sobre relações entre negros e brancos em Florianópolis

constitui um produto marginal de investigação mais ampla. Ela reúne

indicações levantadas com o fito de selecionar as unidades definitivas do

projeto de estudos. Até hoje, não se fez nada semelhante no Brasil. Mesmo

os autores que se referem à exploração de casos típicos, em suas

investigações, nunca realizaram sondagens prévias suficientemente

aprofundadas da realidade. Doutro lado, negligenciaram a importância de

publicar trabalhos que contivessem o material porventura utilizado na

seleção dos casos e que permitissem apreciar os próprios critérios de

seleção. Em face disso, só temos a lamentar que esta monografia apresente,

apenas, fatos concernentes a um dos casos – exatamente um dos que não se

tornaram objeto de investigação intensiva posterior. De qualquer modo,

porém, achamos que ela oferece um bom quadro de referência para a

apreciação dos critérios usados no levantamento prévio e, principalmente,

da consistência dos conhecimentos de que se serviram os investigadores

para escolher as unidades da investigação sistemática. Do ponto de vista

metodológico também merecem realce as diretrizes que orientaram os

investigadores. Aqui, é preciso considerar o modelo de survey posto em

prática e os propósitos mais gerais do projeto global. Quanto ao modelo de

survey, deve-se notar o esforço de adequar essa técnica a um conhecimento mais penetrante da realidade. O objetivo foi alcançado mediante a

complementação da observação intensiva dos aspectos da situação, que

interessavam à sondagem, pelos resultados de questionários e da

reconstrução histórica. Quanto aos propósitos gerais do projeto, parece-nos

rica de consequências metodológicas a diretriz explorada pelos autores de

conhecer o “passado” pelo “presente”. Os caracteres das comunidades

investigadas traduzem diferentes estágios de diferenciação e reintegração da

sociedade brasileira e, por conseguinte, do sistema de relações sociais no

Brasil. A formulação e o aproveitamento dessa ideia abre novas

perspectivas quer aos estudos de caso, quer à elaboração comparativa dos

resultados que se consigam obter através deles.

A mesma conclusão pode ser corroborada pelas implicações e

contribuições da monografia no plano estritamente empírico. A significação

do preparo especializado aqui se revela plenamente. Os autores evitaram a

pretensão de reconstruir e de explicar “tudo”, a qual transparece,

desordenadamente, em quase todas as tentativas precedentes de análise

histórico-sociográfica da realidade brasileira. Restringiram-se aos aspectos

do sistema de relações raciais e da sociedade global que precisavam ser

“conhecidos”, como condição para a escolha dos casos. Mas esses aspectos

foram reconstruídos e analisados metodicamente, ainda que nos limites de

uma sondagem exploratória. Assim se explica o grau de sucesso alcançado

pelos autores em dois níveis distintos. De um lado, na compreensão e

interpretação de certos fenômenos ainda mal conhecidos na sociedade

brasileira – a estrutura da economia colonial; os influxos dessa economia no

processo de crescimento econômico; as conexões existentes entre as bases

econômicas do sistema social e a organização das relações raciais; as

origens e as funções sociais dos estereótipos raciais; as situações de

interesses e os valores sociais que promovem o solapamento ou o reforço

dos estereótipos raciais etc. De outro, na maneira de definir e compreender

a situação de contato em termos da totalidade das condições, fatores e produtos de um mesmo continuum histórico-social: o que permitiu

descrever os diversos aspectos dinâmicos do sistema de relações raciais, em

sua formação, em sua evolução, em sua integração atual e nas tendências à

reintegração que podem ser percebidas no presente.

A referida conclusão pode ser comprovada, por fim, no plano da

contribuição teórica trazida por esta monografia aos estudos sociológicos

das relações raciais no Brasil. Entre os sociólogos ainda prevalece a

suposição que o survey se alimenta de intentos sociográficos. No entanto, os

estudos dos discípulos de Park e de Burgess (para só citar os que

aproveitaram explicitamente as perspectivas abertas pela cientificação do

survey) demonstram que essa técnica pode ser associada a intuitos teóricos

variáveis. No trabalho em apreço, há dois pontos a considerar-se, de efetiva

significação “teórica”. Um deles é pacífico: no caso, o levantamento se

prende a uma linguagem empírica de definição dos problemas teóricos. Em

outras palavras, isso quer dizer que o survey representa um instrumento da

teoria, fornecendo à inteligência: a) critérios empíricos rigorosos de

proposição das hipóteses; b) meios rudimentares de comprovação da

plausibilidade e da consistência empíricas das hipóteses aventadas. O outro

ponto não é tão pacífico, mas parece igualmente relevante: as evidências

empíricas acumuladas, que permitem descrever e interpretar os processos

estudados, são naturalmente úteis a investigações ulteriores, de teor

comparativo. O fato de essas evidências serem obtidas e comprovadas

através de recursos fornecidos pelo levantamento exploratório deixa de ser

importante, passando para primeiro plano as sugestões, conclusões ou

hipóteses que constituam o saldo positivo da contribuição teórica específica

do próprio levantamento. É certo que, de modo geral, esse aspecto da

contribuição de uma sondagem deve ser visto com reservas. Não devemos

ignorar, todavia, que nesta monografia ela cobre uma área da sociedade

brasileira quase inexplorada pelos especialistas. Em consequência, confere-

nos a possibilidade de saber se certas explicações, obtidas no estudo de outras situações de contato no Brasil, são válidas para a zona meridional da

sociedade brasileira. Acresce que as explanações apresentadas suscitam,

aqui ou ali, pistas novas e a formulação de hipóteses dignas de

consideração, como o leitor poderá verificar facilmente nas passagens

relativas às vinculações entre a organização econômica da sociedade e o

sistema de ajustamentos raciais ou às funções dos estereótipos raciais em

sucessivos contextos histórico-sociais. No conjunto, pois, a monografia

alarga as nossas possibilidades de explicar, sociologicamente, as bases e os

produtos sociodinâmicos das relações raciais na sociedade brasileira.

As mencionadas qualidades da presente contribuição indicam que o

cientista social brasileiro já tem um padrão de trabalho intelectual e que é

capaz de aplicá-lo segundo os critérios do saber científico-positivo. Isso

parece ser da maior importância para nós, porque o processo de

desenvolvimento das ciências sociais no Brasil pode ser sumariamente

descrito, no que ele possui de essencial, através de três gerações, que se

acham em contato e em colaboração na vida acadêmica. O fato de os

representantes da geração mais nova demonstrarem domínio seguro de seu

campo – com as técnicas de investigação e os problemas correspondentes –

constitui algo auspicioso, que nos faz confiar no progresso autêntico das

ciências sociais em nossas instituições de ensino ou de pesquisa. Eles não

incorrem nas mesmas limitações dos membros das suas gerações pioneiras,

mais ou menos sacrificados pelas contingências seja da improvisação, seja

da precariedade das condições de trabalho científico organizado. Podem

tirar maior proveito de suas energias intelectuais e de sua capacidade

criadora, tornando-se assim mais aptos para promover a expansão das

ciências sociais nas três esferas correlatas do ensino, da pesquisa e da

teoria. Os dois autores deste livro, pelo que podemos presumir, terão com

toda a certeza uma participação construtiva e marcante nesses

desenvolvimentos, que nos colocarão entre os grandes centros de

investigação científica dos fenômenos sociais.

São Paulo, 12 de dezembro de 1959.

 

2) Acomodação, Conflito e Democracia Racial

Já se tornou um lugar comum que o Brasil é “um cadinho de raças e de

culturas”. No entanto, ainda não se focalizou devidamente as várias facetas

desse cadinho, que está longe de ter concluído suas funções caldeadoras e

que opera de forma peculiar em cada região do país.

Neste livro, são relatadas as principais conclusões de uma investigação

sociológica, que tomou por objetivo a situação de contato entre negros e

brancos na cidade de São Paulo. A cidade considerada não é importante por

seu passado sob o regime servil. Mas por sua posição na emergência da

civilização urbano-industrial no Brasil e por seu futuro, pois é a única

metrópole brasileira que conta com um background econômico, social e

cultural capaz de dinamizar o funcionamento e a expansão da sociedade de

classes.

Nesse aspecto, ela é típica para o estudo das relações raciais em termos do

que se vem chamando de “Brasil moderno”. Nela, o negro e o mulato não

encontraram, desde a desagregação do regime servil, nem o refúgio

proporcionado pela economia de subsistência (que nivela “brancos” e

“negros” no mundo rústico, parcialmente excluído da ordem legal e política

inerente à sociedade nacional), nem as ambiguidades do paternalismo

tradicionalista (persistentes de modo variável mesmo em cidades grandes,

nas quais o legado do mundo colonial luso-brasileiro possua alguma

vigência). Viram-se diante do branco sob o peso total das exigências da

“sociedade competitiva”, com as desvantagens oriundas de sua falta de

socialização para o trabalho livre, a economia de mercado e o estilo de vida

urbano, mais as limitações nascidas de arraigadas avaliações restritivas ou

negativas, responsáveis por diversas modalidades de preconceito ou de

discriminação raciais (fundadas na cor) e por sua consequente

marginalização na ordem social competitiva.

Portanto, as razões que a tornam atípica e singular, no cenário histórico

brasileiro, indicam-na como a cidade na qual se pode e se deve buscar

respostas ao que o presente e o futuro reservam ao destino social e humano

do negro, na era da civilização urbano-industrial. Primeiro, ela nos revela,

com toda a dureza e com toda a clareza, que a revolução burguesa foi uma

convulsão que apenas tocou nas bases econômicas, sociais e culturais do

mundo dos brancos. O negro e o mulato ficaram à margem dos

acontecimentos históricos e dos processos sociais que a engendraram.

Segundo, a cidade também mostra que o negro e o mulato somente

entraram no cálculo político dos brancos enquanto a escravidão contava

como obstáculo histórico à revolução burguesa. Desagregado o regime

servil e pulverizada a organização do trabalho escravo, ambos deixaram de

ser relevantes como fonte de mão de obra, pois o imigrante passou a contar

como o elemento central da reestruturação do sistema de relações de

produção. Forjou-se, assim, um paradoxo. A sociedade de classes herdou os

padrões de relações raciais, elaborados sob a escravidão, e manteve as

principais iniquidades que pesavam sobre os “libertos” na ordem social

escravocrata e senhorial. Não obstante, os negros e mulatos pouco ou quase

nada conseguiram fazer para alterar o terrível curso da história, já que não

possuíam condições econômicas, sociais e educacionais para enfrentar

vantajosamente o período de transição, nem dispunham de meios culturais e

políticos para se protegerem da catástrofe que se abateu sobre o meio negro.

Os seis capítulos que compõem este livro retratam os diversos aspectos da

situação histórico-social que se criou sob o signo da revolução burguesa e

da consolidação da ordem social competitiva. Nos dois extremos, estão as

páginas mais tristes: da verdadeira ruína material e moral, que era a “vida

do negro” na cidade, durante o primeiro quartel do século XX; e se acham

as páginas mais esperançosas: do laborioso e discutível êxito das pequenas

“élites de cor”, constituídas sob a importância crescente dos migrantes

nacionais nos últimos surtos industriais. No conjunto, o livro demonstra que o branco não tem consciência clara da situação racial imperante na cidade.

Mascara a realidade, porque não se sente prejudicado ou ameaçado, direta

ou indiretamente, pela presença de pouco mais de 10% de negros e mulatos

na população global. Entretém os enganos e o farisaísmo da ideologia e da

utopia raciais, construídas no passado e sob a égide da escravidão, como se

fosse possível combinar o “espírito cristão” com a ignorância da pessoa,

dos interesses e dos valores do “outro”. Apega-se e mantém, assim, o

preconceito de não ter preconceito, limitando-se a tratar o “negro” com

tolerância, entretendo o velho cerimonial de polidez nas relações entre

“pessoas de raças diferentes” e excluindo dessa tolerância qualquer sentido

ou conteúdo propriamente igualitário. O livro também sugere que são vários

os caminhos que levam o “negro” a se ver em função da imagem do

“homem de cor”, que o branco constrói e manipula com a maior

desenvoltura. Uns sucumbem a essas influências reativas, outros reagem

contra ela. De qualquer maneira, todos sofrem, no plano da consciência

social da situação e no do comportamento, as consequências de um baixo

ponto de partida, do farisaísmo do branco e das ambivalências ou

indecisões que as frustrações resultantes instilam tanto no ânimo do “negro

conformista” e do “negro trânsfuga” quanto no ânimo do “novo negro”. O

protesto negro, que exprimiu o clímax de sua capacidade de preocupar-se e

de lutar pela Segunda Abolição, afirmou-se como um protesto dentro da

ordem, como se uma minoria impotente pudesse conduzir uma revolução

através da mudança das leis e dos costumes. Ele possui um enorme valor,

como marco histórico e como evidência do poder assimilacionista da

sociedade inclusiva. Mas deixa patente que, mantidas as atuais condições

econômicas, sociais e políticas, o altruísmo, a nobreza e a elevação dos

movimentos sociais do meio negro não põem em questão as “injustiças” dos

brancos ou da ordem social existente, porque o protesto acabou se

transformando num valor em si mesmo, como se o negro tomasse a si a tarefa histórica de exibir uma integridade que os brancos não possuem na

autoidentificação com os valores fundamentais da civilização vigente.

Se a sociedade brasileira fosse menos indiferente à “questão racial”, o

protesto negro provocaria profunda comoção nacional. Ao se pôr em causa

e ao exigir dos brancos o seu quinhão de liberdade e de igualdade efetivas

na ordem estabelecida, o “negro” tomou a si o papel de paladino da

democracia, num país em que as elites tradicionais e as novas classes em

ascensão preocupavam-se e lutavam pelo poder político ou pelo poder

econômico, sem se importarem com as deformações do regime republicano

e com a criação de um verdadeiro estilo democrático de vida. Assumia os

riscos de construir uma contraideologia que o afirmava, historicamente,

através daquilo que negava, convertendo-se numa espécie de superbranco e

num campeão ingênuo mas íntegro da própria ordem social que deveria

atacar e destruir. Portanto, vítima de duas explorações cruéis – a que se

estabelecera pela escravidão e a que resultara do modo pelo qual se

concretizara a abolição – o “negro” não se insurge contra a ordem existente

nem se volta contra os brancos. Ao contrário, propõe-se defender, para si e

para os outros, os valores ideais dessa ordem social, embora eles não

tivessem vigência senão para os brancos das classes dominantes ou em

ascensão socioeconômica.

O livro funda-se em dados colhidos pacientemente, expurgados e

criticados de maneira cuidadosa. Portanto, os relatos se baseiam em

conclusões que se alicerçam em observações objetivas e que podem ser

comprovadas por outros investigadores.112 Não obstante, em nenhum

momento da pesquisa, da classificação e interpretação dos dados ou mesmo

da exposição o autor pretendeu ser “neutro”. Não há neutralidade possível

diante de tal realidade. Pode-se, como parte do treino científico, aprender-se

a ser objetivo. Contudo, se a ciência nos conduzisse à indiferença diante dos

valores fundamentais da civilização, das manifestações violentas ou

pacíficas do etnocentrismo e do preconceito racial, ou dos efeitos de qualquer tipo de discriminação, ela não mereceria ser cultivada nem poderia

fornecer a única via, que ainda nos resta, para a reconstrução das bases

morais da vida humana em nossa era. A investigação ajudou-nos a

compreender a propalada “democracia racial brasileira” como parte de uma

complicada situação econômica e sociocultural, que expõe o branco a

procurar subterfúgios e disfarces à sua impotência para dotar a sociedade

brasileira de condições reais de equidade social, em todos os níveis das

relações humanas. Doutro lado, ela também fortaleceu a nossa convicção de

que o cientista social preenche papéis intelectuais altamente construtivos,

ao elevar à esfera de consciência social aspectos da vida em sociedade que

não são devidamente percebidos e explicados pelos agentes humanos. Ao

desempenhar essa função de clarificação da consciência social e de

alargamento do horizonte intelectual médio, o cientista social presta um

grande serviço à sua comunidade nacional. Se for ouvido e, principalmente,

se o conhecimento objetivo da situação se acompanhar de movimentos de

reconstrução social, o conhecimento produzido pode se tornar muito útil

para a calibração de mudanças sociais progressivas essenciais ao equilíbrio

ou à transformação da ordem social. No caso brasileiro, é óbvio que o

conhecimento sociológico, em instâncias análogas à presente, é suscetível

de conduzir à verdadeira democracia, que não pode repousar em mitos,

entretidos consciente ou inconscientemente. Se o brasileiro – especialmente

o branco brasileiro – abandonar o “preconceito de não ter preconceito” e

aprender a tratar o negro não apenas como um ser humano, in abstrato e em

termos de contato categórico, mas como alguém igual a si mesmo sob todos

os aspectos e em todas as circunstâncias, e aprender o que livros como este

podem ensinar sobre tal assunto, o Brasil se converterá rapidamente numa

genuína democracia racial.

É provável que a instauração de uma democracia racial autêntica seja

mais fácil no Brasil que nos Estados Unidos ou na África do Sul, por

exemplo. Existem na situação racial brasileira potencialidades favoráveis a uma transição pacífica e mais ou menos rápida nessa direção. Tudo vai

depender das oportunidades de igualdade econômica, social e educacional

que forem conferidas aos “negros”. No entanto, ao contrário do que se

costuma pensar, na sociedade brasileira também existem potencialidades

desfavoráveis a esse desfecho, em si mesmo o único desejável. Essas

potencialidades aparecem tanto na perplexidade e na frustração do elemento

humano mais interessado – o negro e o mulato – quanto na completa

indiferença e na omissão crônica do branco. E são agravadas pela atuação

de dois outros fatores, que começam agora a ser melhor conhecidos.

Primeiro, o regime de classes absorveu e continua a absorver estruturas

sociais arcaicas na esfera das relações raciais, necessárias no antigo mundo

social da sociedade escravista. A economia de mercado, o trabalho livre e a

modernização institucional não eliminaram, como se poderia presumir,

essas estruturas, o que faz com que o estoque de estereótipos contra o

“escravo” ou o “liberto” continuem a ter vigência, referindo-se

explicitamente ao “negro”, e com que o velho padrão tradicional de relação

racial assimétrica continue a devastar a segurança e as perspectivas

históricas do “homem de cor”. Segundo, nas condições atuais, criadas pela

sociedade competitiva, o negro e o mulato brasileiro dificilmente poderão

congregar-se em movimentos sociais típicos de minorias insatisfeitas e

insurgentes. O novo negro tende a abrir o seu caminho de forma

independente e agressiva. Mas propende a resguardar-se através de um

egoísmo individual frio e realista. Em consequência, corre o risco de

combinar, em proporções inesperadas, “êxito econômico” ou “sucesso

profissional” com malogros morais, forçando por sua vez a solução que o

próprio branco prefere – de “contentar o negro”, colocando-o, porém, fora

de seu caminho. Nesse caso, a sociedade de classes abre vias tortuosas nas

relações entre negros e brancos, que precisam ser conjuradas prontamente e

com ânimo radical. Não há outra saída, para que a democracia racial passe

de mito a realidade histórica na cena brasileira.

O presente trabalho foi escrito segundo alvos cognitivos que valorizam a

análise macrossociológica e as possibilidades cognitivas inerentes à

exploração concomitante de critérios sincrônicos e diacrônicos de descrição

e interpretação dos dados de fato. Por isso, tendo-se em vista as orientações

predominantes na investigação sociológica nos Estados Unidos, talvez

pareça inadequada a atenção dispensada aos aspectos das relações raciais

que seriam enfatizados em abordagens microssociológicas. Os fenômenos

que Simmel chamaria de “microscópicos” não foram propriamente

negligenciados. Contudo, foram observados, descritos e interpretados em

termos de um ponto de vista geral que convertia tais aspectos em meros

substratos de fenômenos mais complexos, dos quais o autor extraiu e isolou

os fatores ou efeitos de significação heurística. Esse ponto de vista geral

corresponde, grosso modo, à perspectiva de interpretação que Wright Mills

defendeu com muita propriedade: “Without use of history and without a

historical sense of psychological matters, the social scientist cannot be

adequately state the kinds of problems that ought now to be orienting points

of his studies. (...) But the view of man as a social creature enables us to go

much deeper than merely the external biography as a sequence of social

roles. Such a view requires us to understand the most internal and

‘psychological’ features of man: in particular, his self image and his

conscience and indeed the very growth of his mind. It may be well that the

most radical discovery within recent psychology and social science is the

discovery of how so many of the most intimate features of person are

socially patterned and even implanted. Within the broad limits of the

glandular and nervous apparatus, the emotions of fear and hatred and love

and rage, in all their varieties, must be undestood in close and continual

reference to the social biography and the social context in which they are

experienced and expressed. (...) The biography and the character of the

individual cannot be understood merely in terms of milieux, and certainly

not intirely in terms of the early environments – those of infant and the child. Adequate understanding requires that we grasp the interplay of these

intimate setting with their larger structural framework, and that we take

into account the transformations of this framework, and the consequent

effects upon milieux. When we understand social structures and structural

changes as they bear upon more intimate scenes and experiences, we are

able to understand the causes of individual conduct and feelings of which

men in specific milieux are themselves unaware”.113

Um ponto de vista geral dessa natureza permite compreender e explicar

processos psicossociais e socioculturais no contexto do funcionamento e da

transformação estrutural da sociedade global. Portanto, o conhecimento

teórico resultante é menos relevante para os aspectos psicossociológicos da

manifestação e consequências do preconceito e da discriminação raciais,

que para os seus aspectos histórico-sociológicos e estruturais-funcionais.

Não obstante, suponho que esta obra traga alguma contribuição de maior

interesse para a investigação comparada. A situação de contato racial

brasileira não é tão importante por ser neutra em relação a ambos os

fenômenos. Mas porque, nela, o preconceito e a discriminação raciais se

manifestam de modo brando, difuso e assistemático. Por essa razão, ela

apresenta interesse comparativo específico. Seja porque é, em si mesma,

uma ilustração exemplar de uma alternativa típica de contato racial. Seja

porque permite evidenciar, pela comparação, a natureza e a estrutura dos

motivos que dinamizam a acomodação racial, em contraste com o conflito

racial. Nesse sentido, por paradoxal que pareça, a passagem da

“acomodação” ao “conflito” não é um índice negativo em face da

emergência de uma democracia racial. Ao contrário, parece ser uma fase

inevitável da transição nas condições em que o ritmo da desagregação do

regime estamental e de castas, inerente à escravidão, apresenta intensidades

desiguais no mundo negro, no mundo branco e na sociedade nacional

considerada globalmente. Se essa interpretação for aceita como correta,

então o conflito e a intensificação do conflito constituem evidências de uma progressiva democratização dos padrões de relações raciais. Ao inverso, a

acomodação racial, em condições de capitulação passiva do negro ou de

aceitação, por sua parte, de extrema desigualdade social, econômica e

educacional evidenciam a persistência de formas de estratificação racial pré

e antidemocráticas, quaisquer que sejam os padrões de decoro, de tolerância

ou de simpatia envolvidos nos contatos sociais entre pessoas e grupos de

pessoas pertencentes a categorias raciais diferentes.

 

* * *

 

Tendo em vista obrigações contraídas especialmente em consequência da

edição norte-americana deste livro, gostaria de agradecer o empenho de

vários amigos e colegas norte-americanos, que tornaram possível a tradução

do trabalho. Devo especial menção a Charles Wagley, que demonstrou, de

várias formas, o seu proverbial despreendimento, generosidade intelectual e

amor ao Brasil. Richard Morse, por sua vez, tornou-se digno de igual

reconhecimento, pelos mesmos motivos. Jacqueline Quayle e Ariane Brunel

fizeram da versão inglesa uma obra que possui méritos próprios, no que

foram auxiliadas por Phyllis Eveleth, que se encarregou da parte editorial.

Às três sinto-me extremamente reconhecido, por me darem uma

colaboração anônima tão construtiva e criadora. Ao Institute of Latin

American Studies da Columbia University devo mais do que simples

agradecimentos. Não fora a oportunidade de convivência e de trabalho, que

ganhei juntamente com a condição de visiting-scholar, é provável que esta

tradução nunca viesse a lume e na presente forma. Por sua vez, devo à

Columbia University Press, em particular através de seu diretor executivo,

Bernard Gronert, uma simpatia genuína e estimulante, que me ajudou a

correr os riscos de enfrentar um público tão diverso daquele para o qual a

obra foi escrita originalmente. Espero que o livro justifique a colaboração e

incentivo que recebi dessas pessoas e instituições, ajudando-nos a criar melhor compreensão e relações intelectuais mais profundas entre o Brasil e

os Estados Unidos.

São Paulo, 18 de abril de 1968.

109 Para uma análise das conexões das pesquisas realizadas com os processos histórico-sociais, cf. O. Ianni, Raças e classes sociais no Brasil, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1966, p. 41-72.

110 F. H. Cardoso e O. Ianni, Cor e mobilidade social em Florianópolis. Aspectos das relações entre negros e brancos numa comunidade do Brasil Meridional, São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1960.

111 F. Fernandes, The negro in Brazilian society, trad. de Jacqueline D. Skiles, A. Brunel e Arthur Rothwell, ed. de Phyllis B. Eveleth, Nova York/Londres, 1969.

112 Uma pesquisa feita independentemente do levantamento do autor e antes da publicação deste livro, que só foi aproveitada de maneira assistemática e parcial, revelou que o quadro aqui descrito se reproduz mesmo numa área que se supunha de “êxito marcante” do negro ou do mulato. Cf. João Baptista Borges Pereira, Cor, profissão e mobilidade. O negro e o rádio de São Paulo, São Paulo, Livraria Pioneira Editora e Editora da Universidade de São Paulo, 1967, p. 99-261.

113 C. Wright Mills, The sociological imagination, Nova York, Growe Press, 1960, p. 143 e 161-162.

 

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