O Negro no Mundo dos Brancos
À Guisa de Conclusão
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Capítulo XIII
Aspectos Políticos do Dilema Racial
Brasileiro164
Sabe-se que o dilema racial brasileiro aparece, fundamentalmente, como
um contraste entre normas ideais (moldadas por um “ethos democrático”) e
comportamentos efetivos (exclusivistas e tendentes à subalternização do
“negro” e do “mulato”). Como escrevem Bastide e Van den Bergue: “por
um lado, encontramos uma larga aderência às normas democráticas, e, por
outro, um grau de estereotipagem, uma grande segregação no nível da
intimidade pessoal, e uma endogamia praticamente absoluta. Esta
ambivalência estabelece um verdadeiro dilema brasileiro, muito embora
talvez diferente do dilema americano”.165 Em sua versão brasileira, esse
dilema explica-se pelas condições de desintegração da sociedade escravista
e formação da sociedade de classes. Na verdade, “a ordem social
competitiva emergiu e expandiu-se, compactamente, como um autêntico e
fechado mundo dos brancos”; o que significa, em outras palavras, que “as
estruturas da sociedade de classes não conseguiram, até o presente, eliminar
normalmente as estruturas preexistentes na esfera das relações raciais,
fazendo com que a ordem social competitiva não alcance plena vigência na
motivação, na coordenação e no controle de tais relações”.166
O dilema social constitui um fenômeno sociológico essencialmente
político. Ele tem raízes econômicas, sociais e culturais; produz efeitos
ramificados em todas essas direções. Todavia, a sua própria existência só é
possível graças a certas estruturas de poder, que o tornam inevitável e
necessário. E a sua perpetuação, indefinida ou transitória, indica mais que
isso, pois testemunha não só que grupos, classes ou raças dominantes são
capazes de manter tais estruturas de poder, mas que, ao mesmo tempo, grupos, classes e raças submetidos à dominação são impotentes para impor
sua vontade e corrigir a situação.
Como as fronteiras raciais não desapareceram no Brasil com a Abolição, é
um erro supor-se que a supremacia do homem branco seja um dado
histórico, um fato definitivamente superado com o desaparecimento da
escravidão. Doutro lado, como a economia de trabalho livre se organizou
sobre um patamar pré-capitalista e colonial, seria lamentável se
ignorássemos como as determinações de raças se inseriram e afetaram as
determinações de classes. Ao contrário do que ocorreu na Europa, na
América Latina a expansão do capitalismo desenrolou-se em cenários
étnicos e raciais muito complexos e heterogêneos. As grandes crises e
transições começaram e acabaram – ou apenas terminaram – como
“revoluções de cima para baixo”, sob a tutela ou o arbítrio do poder
conservador, o poder supremo de ralas minorias brancas. Por isso, a
descolonização ainda está em processo. O que desapareceu historicamente –
o “mundo colonial” – subsiste institucional e funcionalmente, ainda que de
forma variável e desigual, conforme os níveis de organização da vida
humana que se considerem. Ele vive, pois, em quase tudo que é essencial
para o capitalismo dependente: na posse da terra, na organização da
agricultura, na autocracia dos poderosos, na espoliação sistemática e na
marginalização dos pobres, no particularismo e no farisaísmo das elites, na
apatia ou na confusão das massas oprimidas e, principalmente, nos padrões
de relações étnicas e raciais, por natureza ilegítimos, extracristãos e
antidemocráticos.
Ordem social e privilégio
Todas as sociedades estratificadas são sociedades nas quais o privilégio
possui influências específicas, quer sobre a composição do meio social
interno, quer sobre os dinamismos de funcionamento de evolução da ordem
social. Tais influências são conhecidamente diversas, quando se passa o regime de castas para o de estamentos ou deste para o regime de classes. O
grau de segregação do privilégio varia de um regime para outro, o mesmo
ocorrendo com sua visibilidade, legitimação e significado sociopolítico. O
regime de classes, porém, é o único que projeta o privilégio em uma esfera
de conflito axiológico. A ordem legal e política funda-se numa ideologia
democrática, enquanto o sistema de produção organiza-se com base em
relações econômicas que institucionalizam a expropriação e requerem o
privilégio de expropriar, de acumular e de mandar (ou dominar). Esse
conflito axiológico está claro, por si mesmo não impede a continuidade do
privilégio, negado em um plano, mas confirmado em outro. A ordem social
competitiva oculta-o atrás de abstrações econômicas e sociais, convertendo-
o, porém, em um de seus princípios ou forças integrativos. Contudo, o
conflito axiológico aumenta a visibilidade negativa do privilégio, ao mesmo
tempo que fornece fundamento moral e legitimidade política a várias
modalidades e percepção crítica e de oposição ao privilégio.
As condições de formação do capitalismo nas Américas não favoreceram
a “repetição da história”. Sob muitos aspectos, o mencionado conflito
axiológico constituiu um complexo subproduto social da revolução
burguesa na Europa. Para que a Nação e o Estado nacional pudessem
preencher certas funções aglutinativas e integrativas, imprescindíveis para o
desenvolvimento do capitalismo, era preciso fomentar uma ideologia capaz
de atender a interesses díspares (por vezes inconciliáveis), em conflito
aberto na sociedade. Daí resultaram concessões, no terreno das ideologias,
que aumentaram progressivamente à medida que os grupos e as classes
atendidos adquiriam maiores garantias sociais e ampliavam sua posição de
barganha política. O ponto de partida colonial e as funções históricas
desempenhadas pela emancipação nacional no privilegiamento dos
interesses e do pensamento conservadores nas Américas – e sob muitos
aspectos o Sul dos Estados Unidos não difere essencialmente da América
Latina espanhola e portuguesa – introduzem sérias diferenças com relação à Europa. Apesar da aparente anarquia e do uso ad libitum da liberdade
pessoal, as formas patrimoniais e despóticas de dominação não entram
precocemente nas transações e adaptações recíprocas de categorias sociais
desiguais. O poder político exprime muito mais uma confluência da vontade
da aristocracia que um arranjo ou acomodação da aristocracia com os
demais grupos sociais.
Por isso, nas diferentes regiões da América Latina a emancipação
nacional e a organização de um Estado nacional se dão em um contexto no
qual a desagregação do sistema colonial apenas se consuma ao nível
jurídico-político (e, assim mesmo, no que se referia à subordinação direta às
metrópoles e à estruturação do Estado independente, pois o antigo sistema
legal perdurará por muito tempo). A estrutura colonial da economia e da
sociedade não se alterou senão superficialmente, pois ela era necessária seja
para a preservação da hegemonia das camadas senhoriais, seja para
incorporação dos países da América Latina a uma forma indireta de
dominação econômica e cultural de tipo colonial, também comandada pelo
capitalismo europeu. A emancipação nacional latino-americana típica é,
portanto, um fenômeno especificamente político (ou, como se diz, uma
“revolução política”). Por paradoxal que isso possa parecer, uma revolução
dessa espécie não se opunha ao antigo sistema colonial como um todo. Ao
contrário, ela dependia da continuidade das estruturas econômicas e sociais,
montadas sob o sistema colonial, para ter êxito (no plano em que a
emancipação “nacional” foi concebida e visada pela aristocracia). E tanto
isso é verdadeiro, que é no período pós-nacional que o regime estamental
(ou de castas e estamentos, em alguns casos) atinge o seu apogeu histórico.
Pois foi graças à revolução política que os estamentos senhoriais lograram
autonomia suficiente para transformar o poder econômico e social de que
dispunham em poder político e estatal, promovendo-se a sua integração
horizontal no nível da organização do poder especificamente político (o que
equivale a dizer que se tornaram, assim, estamentos hegemônicos). Por aí se vê que, inicialmente, a descolonização significou muito pouco na América
Latina: uma mudança no caráter dos liames de dependência externa; e
monopolização do poder político por estamentos que já monopolizavam a
riqueza, o prestígio social e as formas correspondentes de poder (com suas
implicações políticas, consideráveis no nível local).
Graças a essas circunstâncias, os conflitos que eclodiram nesse período
tão tumultuoso ou não tinham o mesmo sentido que no cenário europeu ou
não produziram consequências similares. O liberalismo era um instrumento
de adaptação da ideologia senhorial à dominação colonial indireta e não
contribuía para fomentar qualquer tendência radical de revolução dentro da
ordem. Os demais setores sociais, por sua vez, não dispunham de base
econômica, social e política para desencadear semelhante processo. O
“ethos democrático” (ou o seu equivalente, nos vários tipos de oligarquia)
circunscrevia-se à limitada ordem civil, em torno da qual gravitavam, em
função dos interesses oligárquicos, os Estados nacionais. Ela era, de fato, o
único núcleo dessa sociedade neocolonial em que havia uma socialização
política entre iguais. Essa situação era mais extrema e drástica no Brasil,
porque a persistência da escravidão criara condições para a preservação em
bloco das estruturas econômicas e sociais coloniais, reduzindo as
proporções e os efeitos da descolonização.
As evoluções posteriores, ao longo do século XIX e da primeira metade
do século XX, trazem consigo uma nítida tendência à consolidação do
capitalismo moderno, do regime de classes e do Estado nacional. Não
obstante, permanece uma invariável polarização elitista, que resulta da
capacidade dos estratos sociais dominantes de manter e de fortalecer os seus
privilégios, através das várias transformações da ordem econômica, social e
política. Esse fenômeno, ainda mal investigado e pouco conhecido
sociologicamente, parece explicar-se pela monopolização social do poder
político e do aparato estatal por aqueles estratos. Os demais estratos da
sociedade foram praticamente excluídos do poder político institucionalizado – mesmo quando a participação chegasse a ser admitida – e nunca lograram
qualquer chance de ameaçar o status quo “através da ordem”. Esse padrão
rígido e monolítico de dominação autocrática responde às exigências da
situação histórico-social. A persistência, sob várias formas, da dominação
externa167 e a expansão interna do capitalismo impõem a continuidade de
modelos verdadeiramente coloniais de apropriação e de expropriação
econômica, aos quais deve corresponder, necessariamente, uma extrema
concentração permanente da riqueza, no tope, e o uso pacífico ou violento
de técnicas autocráticas de opressão e de repressão.168 Os dinamismos de
classe só se tornam efetivos para as classes que podem utilizar livremente
os recursos institucionalizados de luta política.169 Ainda assim, o controle
político conservador, na sua essência sempre fundamentalmente voltado
para a defesa intransigente e o fortalecimento do privilégio, tem imposto
tanto a cooptação quanto o ostracismo ou a eliminação aos setores
divergentes que chegassem a ameaçar a estabilidade da ordem. Nessas
condições, o uso “legítimo” do conflito faz parte do privilégio e, com o
poder político institucionalizado, os setores dirigentes das classes
dominantes detêm o monopólio da violência.
Essa exposição é sucinta, mas revela o essencial. O conflito axiológico,
tão importante para explicar a percepção crítica e as várias formas de
restrição ou de oposição ao privilégio (através das conhecidas crises do
liberalismo e da evolução do socialismo), não encontrou meio propício de
florescimento no contexto histórico-social latino-americano. No fundo, o
controle político conservador não admite alternativa – ou a perpetuação
autocrática da ordem ou a revolução contra a ordem. Entende-se que, nesse
limite histórico, o grau de falsidade, de mistificação ou de racionalização,
inerente às ideologias, atinge o clímax. Ao mesmo tempo, a ideologia torna-
se ineficaz, pois, em última instância, ela não é “a imagem invertida da
realidade”. Ela é uma simples máscara, em um jogo no qual ela pode ser
posta e tirada ao sabor das conveniências ou das imposições tidas como “inelutáveis”. Não há outra via à perpetuação de padrões pré-capitalistas e
antinacionais de privilégio, em sociedades que são capitalistas, se
organizam nacionalmente e estão submetidas a um estado “democrático”.
Ainda é preciso que se retenham três pontos, que são cruciais para a
presente discussão. Primeiro, as ideologias e as utopias oficiais, nessas
sociedades, possuem pouco valor para se conhecer sociologicamente sua
situação concreta (embora sejam deveras importantes para se conhecer
sociologicamente sua realidade política e a natureza do pensamento
conservador nessa posição limite). O privilégio é tão “justo” e “necessário”,
para as camadas dominantes, e também para as suas elites culturais, que as
formas mais duras de desigualdade e de crueldade são representadas como
algo natural e, até, democrático. Está nessa categoria o mito da democracia
racial, tão entranhado na visão conservadora do mundo no Brasil. O que
define uma democracia racial? Pouco importa. O que importa é que o mito
seja aceito e que se propague que não existe, no mundo, “outro exemplo de
democracia racial”. Segundo, a ideologia e a utopia oficiais tornam-se
extremamente perigosas. Elas fazem parte de um ritual; mas esse ritual é
tido como sagrado. Se alguém – uma pessoa ou grupo de pessoas – se
opuser a elas, então tem de arrostar os riscos da infração. Os folkways
funcionam como se fossem mores, em grande parte por causa da
intolerância e da insegurança dos controles autocráticos do poder
conservador. O dissidente é focalizado como divergente sistemático e, de
uma maneira ou de outra, acabará recebendo o troco, através de tratamentos
exemplares. Terceiro, a exposição intensa e duradoura a tais ideologia e
utopia oficiais, sob as mencionadas condições de controle societário, acaba
criando socializações profundas e distorções crônicas na percepção e na
explicação da realidade. O que é mal conhecido e entendido acaba por
ajustar-se à representação; em consequência, mesmo as vítimas das
representações tendem a admitir que elas contêm “algum grau de verdade”,
compartilhando da confusão e desorientando-se. No exemplo evocado: não caberia ao “negro” e ao “mulato” indagar se o mito da “democracia racial”
visa a ajudar ou a impedir a democratização das relações raciais no Brasil?
170
Se tirarmos as devidas conclusões, parece óbvio que o dilema social se
projeta, no contexto histórico-cultural descrito, em uma área de
acomodações anestesiadoras. As “mentiras convencionais” e “as
inconsistências de valores” podem ser retratadas com algum relativismo
intrínseco onde o regime de classes funciona com toda a plenitude. A
própria divergência dos interesses em tensão auxilia e protege as
manifestações de tal relativismo. O mesmo não acontece em sociedades de
classes dependentes e subdesenvolvidas. Nelas, as “mentiras
convencionais” e as “inconsistências de valores” estão tão enredadas com o
desfrutamento de privilégios, que tocar nelas é o mesmo que ferir
diretamente o privilégio. Elas não são, portanto, facilmente tomadas por si
mesmas e abstratamente. Elas concretizam em algum grau, os efeitos das
ações ou das atividades a que se agregam por referência. Tocar nelas
equivale a fazer a crítica dos fundamentos da ordem existente! Isso explica,
segundo pensamos, tanto a hipersensibilidade do pensamento conservador e
sua atitude de pânico e de insegurança diante de observações críticas
frequentemente banais, quanto o padrão conservador de reação societária à
focalização divergente, em regra muito violento, obstinado e intolerante
(como se fosse impositivo ou prescrevê-la ou desacreditá-la por meio da
estigmatização).
Natureza e contenção do desmascaramento racial
Um grupo ou categoria social pode varar barreiras dessa ordem e tentar
impor sua própria visão da realidade. Se as demais condições
permanecerem as mesmas ou só se transformarem muito pouco, porém, as
coisas não se alterarão simplesmente por isso: a ideologia e a utopia oficiais
continuarão a ter vigência e serão provavelmente defendidas com maior zelo. Há um exemplo de grande interesse empírico e teórico: os
movimentos sociais de protesto racial, que se desencadearam no “meio
negro de São Paulo”, entre os fins da década de 1920 e os meados da
década de 1940, que já descrevemos e analisamos extensamente em
trabalho anterior.171 Esses movimentos merecem tal atenção porque
promoveram uma extensa agitação, elaboraram a primeira tentativa de
desmascaramento sistemático do mito da democracia racial brasileira e
construíram uma contraideologia racial, coerente com os fundamentos
legais da ordem democrática burguesa.
Os efeitos da Abolição não foram os mesmos para os ex-escravos e seus
descendentes e para os que exploravam o trabalho escravo, na economia
rural ou na urbana. A destituição do escravo se processou no Brasil de
forma tão dura, que ela representou a última espoliação que ele sofreu,
muito mais que uma dádiva ou uma oportunidade concreta. Não se tomou
nenhuma medida para ampará-lo na fase de transição e nada se fez para
ajustá-lo ao sistema de trabalho livre (apesar dos muitos projetos que foram
elaborados ou suscitados anteriormente, enquanto a iniciativa privada e o
Estado temiam pela escassez da oferta de trabalho). A abundância de mão
de obra, captada internamente (numa escala que não seria imaginável sob a
escravidão) ou através da imigração (na época, especialmente da Europa),
criou uma realidade nova, selando a “má fortuna” do chamado braço negro.
Não obstante, os ex-senhores se protegeram de vários modos. Tiveram de
arcar com o prejuízo inerente aos investimentos realizados nas pessoas dos
ex-escravos (pois a Abolição se fez sem indenizações, malgrado as pressões
senhoriais em sentido contrário), mas obtiveram compensações através da
política de subsídio oficial da imigração, de medidas de amparo financeiro
de emergência e da própria rede de solidariedade particular, que a iniciativa
privada podia mobilizar. Em consequência, a recuperação do sistema de
produção foi rápida (na verdade, só em casos isolados e em termos de
variação local ocorreu o contrário). O fator principal do equilíbrio econômico continuou a ser a posição do café no mercado externo e a
evolução interna das safras. A recuperação do antigo agente do trabalho
escravo foi difícil, lenta e seguiu uma trajetória complicada. As escolhas
drásticas se punham entre a submersão na economia de subsistência ou a
concentração em grandes cidades, ambas envolvendo formas específicas de
marginalização e de auto-exclusão mais ou menos conscientes. As escolhas
intermediárias, como a permanência ou a migração para áreas relativamente
estagnadas, ofereciam melhores perspectivas imediatas à custa do sacrifício
de qualquer “ideal de liberdade” (uma expressão complexa, que designava o
acesso a tudo que o negro não podia ter e ao que ele não podia
legitimamente aspirar na condição de escravo ou de liberto). Em suma, a
Abolição e as tendências de desenvolvimento do sistema de trabalho livre
engolfaram o elemento negro em uma crise irremediável de superação
muito difícil.
A imensa maioria da população negra ou mulata brasileira se adaptou
passivamente a essa trágica situação. Todavia, os negros e os mulatos que se
concentraram nas cidades grandes tinham de romper, de uma forma ou de
outra, com os padrões tradicionalistas de acomodação passiva. Muitos deles
conseguiram certa instrução e, o que é deveras importante, tornaram-se
letrados de um tipo especial, que não haviam sido socializados (ou então
mal haviam sido conformados) por meio da educação oficial. Doutro lado, a
comunicação entre indivíduos e grupos fazia com que essas mentes
esclarecidas se vissem expostas às ideologias revolucionárias, que eclodiam
abertamente, pela primeira vez, no cenário urbano-industrial. Isso facilitou
a transição da “indiferença” ao “radicalismo” na percepção da questão
racial: constituíram-se pequenos grupos, empenhados em descobrir “o
porquê da situação do negro” e dispostos a acabar com o seu
“emparedamento”. Tal evolução desenhou-se entre o fim da Primeira
Guerra Mundial e a crise de 1929 e parece ter sido um processo frequente,
pois aparece, com intensidade variável, em várias cidades brasileiras. Em São Paulo ela foi particularmente intensa, presumivelmente porque a
extrema concentração de imigrantes, o rápido e desordenado
desenvolvimento urbano-industrial e a ampla mobilidade social ascendente
estabeleceram, nessa cidade, um quadro de referência chocante para quem
quisesse fazer comparações objetivas. Posta, em regra, abaixo dos últimos
degraus da economia e da sociedade, a “população negra” via-se excluída
do que parecia ser a prosperidade geral, sentido-se irremediavelmente
condenada ao desemprego, ao pauperismo, à desorganização social, à
vergonha coletiva e à impotência. Ela participava do clima tumultuoso de
ilusões, que imperava na cidade, e das inquietações revolucionárias da
plebe urbana, na época muito fortes em São Paulo, mas sem grandes
esperanças, individuais ou coletivas. Os letrados e semiletrados radicais do
“meio negro” captaram esse estado de frustração, convertendo o
desajustamento sistemático e uma inquietação amorfa no substrato do
protesto negro, através do qual lançam e difundem o apelo à Segunda
Abolição.
Os vários jornais e manifestações, que traduziram as tomadas de posições
desses intelectuais negros e mulatos, atestam que eles, de fato, pretendiam
organizar e levar a cabo uma autêntica rebelião dentro da ordem. Eles se
isolaram no “meio negro” por motivos práticos: não só não tinham acesso
aos meios de comunicação controlados pelos brancos; os diversos
movimentos políticos, de centro ou de esquerda, que se opunham à
República Velha, não davam acolhida à questão racial, ignorando como ela
se apresentava na realidade. Por isso, os movimentos sociais do “meio
negro” guardam completa autonomia de condicionamentos tradicionais, que
poderiam reduzir o seu ímpeto ou a sua identificação exclusiva com a
“causa do negro”; e, ao mesmo tempo, superam os ismos atuantes na
sociedade inclusiva, embora extraíssem de alguns deles sua forte orientação
libertária, igualitária e fundamentalmente populista. Seu alvo específico
consistia na redução progressiva e no desaparecimento final, ambos supostos a curto prazo, da distância econômica, sociocultural e política
existente entre o “branco” e o “negro”. Não se voltavam contra a ordem
existente em bloco (pois esta não era questionada como e enquanto tal), mas
contra o modo pelo qual a ordem existente retinha e agravava a
desigualdade racial, com suas terríveis consequências. Nesse sentido, eram
movimentos raciais despojados de conteúdos ou pretensões racistas.
Queriam a mesma coisa que os liberais radicais ou progressistas brancos,
com a diferença que estes eram indiferentes à necessidade de mobilização
do negro para atingir tal objetivo e aos ritmos históricos de sua
concretização. Queriam-na, portanto, com urgência e de maneira total, o
que os compelia a recolocar o problema da liberdade e da igualdade em
termos raciais.
Essa ótica não era, como muitos observadores de esquerda ainda hoje
supõem, intrinsecamente oportunista e capitulacionista. Ela continha (e
ainda conteria, se se reproduzisse historicamente) um real avanço
revolucionário. Para se admitir tal conclusão é preciso que se atente para a
natureza e a variedade de barreiras, que o negro e o mulato venceram para
chegar até aí. Na época, os brancos mais esclarecidos explicavam a suposta
seleção demográfica negativa do negro através de sua incapacidade para se
ajustar ao planalto e às condições de vida impostas por uma sociedade
urbano-industrial. Doutro lado, os brancos eximiam-se de qualquer
responsabilidade pela situação desumana existente no “meio negro”,
fazendo largo uso, consciente e inconsciente, de um rico estoque de
estereótipos negativos, pelos quais pensavam explicar suas taxas anormais
de miséria, de desemprego, de mães solteiras, de menores abandonados, de
alcoolismo, de prostituição, de rufianismo, vagabundagem e criminalidade
etc. Por se sobrepor a uma pressão psicológica externa tão cerrada,
libertando-se ao mesmo tempo dos efeitos inibidores da estigmatização e do
monopólio da liderança intelectual ou política dos brancos, aquela ótica
possuía um calibre revolucionário intrínseco, pois trazia consigo uma dupla liberação: diante da ideologia racial dominante e diante da tutela do branco.
E definia uma única proposição política: a conquista (e não a concessão) da
liberdade e da igualdade pelo próprio negro, por meio de sua autoafirmação
individual e coletiva na sociedade nacional. Analisada sociologicamente,
aquela ótica poderia ser ingênua (e é surpreendentemente pouco
revolucionária, em termos especificamente raciais, quando comparada a
outras óticas, inerentes à rebelião negra nos Estados Unidos da época e ao
movimento da negritude). Mas, examinada dentro do contexto histórico, ela
era especificamente revolucionária e intentava a revolução racial da ordem
de baixo para cima.
Essa ótica permitia focalizar, simultaneamente, tanto os problemas sociais
(que o negro compartilhava com outros setores pobres ou marginalizados da
população brasileira), quanto o dilema racial brasileiro (decorrente da
crença de que existe uma democracia racial no Brasil, a qual escamoteia a
desigualdade racial da arena política e cria uma situação única, que só
atinge o negro).172 Na verdade, a massa que acolheu aqueles movimentos
(demonstrando a fertilidade do “meio negro” para os mesmos) era mais
sensível à primeira contribuição que à segunda. No momento, indivíduos e
famílias em crise estavam em busca de orientação e de assistência. No
entanto, a segunda influência era insubstituível e tinha consequências mais
profundas. Pela primeira vez o negro não só enfrentava o branco: passava a
discutir abertamente o preconceito de cor, expressão sincrética com que
designavam (e ainda designam) o padrão vigente de relações raciais
assimétricas, com suas condições e efeitos preconceituosos, discriminativos
e segregativos. Aqueles movimentos declinaram de vigor e foram
suprimidos, como se desaparecessem de um momento para outro. A sua
influência para o alargamento do horizonte cultural do negro subsiste e
constitui, ainda hoje, o único ponto de referência coletivo, a ser oposto a
outra certeza, reiteradamente afirmada e confirmada pelo branco, de que “o negro não tem problemas” de natureza racial e de que, no Brasil, não há
nem preconceito nem discriminação raciais.
O desmascaramento da situação racial fez-se em diferentes planos. Apesar
da insuficiência de recursos intelectuais, os líderes dos movimentos sociais
buscaram explicações que iam do passado ao presente e que apanhavam,
neste, o econômico, o social, o psicológico e o político (enumerações que
surgem, com maior ou menor latitude em diversos documentos). Em
consequência, a focalização crítica da realidade (omitindo-se outros
aspectos da situação do negro ou do sistema de relações raciais que não são
relevantes aqui) abre-se em leque: a visão negra da história brasileira; a
natureza do mundo escravista e as deformações que ele implantou no negro,
no branco, no mulato e na própria sociedade brasileira; o preconceito de
cor, em suas três polarizações (como preconceito propriamente dito,
discriminação com base na cor e segregação social), e como instrumento de
dominação racial e de supremacia da raça branca; os mecanismos de
sustentação dos privilégios e de monopolização do poder pelos brancos ou,
inversamente, de marginalização, exclusão ou subalternização do negro; o
“complexo” como formação psicodinâmica e sociodinâmica reativa, por
meio da qual o branco invade a personalidade profunda do negro e debilita
o seu equilíbrio psíquico, o seu caráter e a sua vontade. No essencial, o
desmascaramento conduz a um retrato alternativo da situação racial
brasileira, segundo o qual a personalidade democrática e o comportamento
democrático representam a exceção (e não a regra); a tolerância é
superficial e astuciosa (como norma); o preconceito de cor se conjuga com
a exploração do negro pelo branco (econômica, sexual e socialmente); e a
ordem social legítima só tem vigência para os brancos, funcionando para os
negros e os mulatos como uma versão atenuada da autocracia senhorial. Em
dois pontos fundamentais (embora menores) também são focalizados
criticamente: o “branqueamento” (social ou racial, quando envolve
miscigenação), visto como um processo pelo qual o “negro transfuga” comercializa econômica, social e politicamente sua subserviência e
transferência de lealdade; a questão do preconceito de cor entre os
imigrantes e seu descendentes, percebida com oscilações (pois alguns
acham que já traziam o preconceito em sua herança cultural, enquanto a
maioria afirma que o absorveram em contato com famílias tradicionais
brasileiras), mas posta na base do processo pelo qual o estrangeiro também
procurou explorar o negro e tentou valorizar-se socialmente.
Apesar da amplitude e da relativa profundidade do desmascaramento, a
noção de liberdade não foi manejada até o ponto em que o negro defendesse
sua autonomia de ser um brasileiro diferente dos outros (portador de sua
visão do mundo e de sua cultura) e a noção de igualdade ficou contida
dentro dos limites de identificação com a ordem social estabelecida (o que
implica uma convicção elementar: que ela pode corrigir a desigualdade
racial ou pelo menos eliminar suas arestas “mais injustas”, provavelmente
herdadas do período escravista). Uma interpretação sociológica superficial
permitiria atribuir essa contenção à influência de elementos externos, como
os anseios de classificação social ou o caráter ambíguo da “classe média de
cor” em plena gestação (ou seja, em outras palavras, a concessões mais ou
menos inconscientes). Todavia, embora semelhante condicionamento possa
ser evocado (especialmente no nível pessoal dos ajustamentos raciais), ele
não parece ser responsável pelo efeito apontado. Pelo fato de se oporem à
ideologia e à utopia raciais dominantes tornar-se-iam o negro e o mulato
imunes às suas influências mais profundas (e, porventura, mais insidiosas)?
Não devemos nos esquecer que a rebelião racial mal eclodia e que o élan
revolucionário não exigia o repúdio total da ordem existente. O horizonte
crítico foi trabalhado pelo afã de liberdade e de igualdade raciais. Mas ele o
foi também pelo ideal puramente burguês de liberdade e de igualdade e,
num certo sentido, ao se tornar o paladino desse ideal, o rebelde negro e
mulato como que se superembranquecera. Não pretendemos sugerir que o
protesto negro fosse uma simples reação de tipo compensatório. Porém deixar patente certas conexões profundas, que esclarecem os fatos. A
natureza do desmascaramento foi amplamente afetada pela situação do
negro que não podia saltar de dentro de si próprio e converter-se, em um
átimo, na negação de si mesmo. Assim, as limitações da resposta do negro à
percepção crítica e ao repúdio da realidade procedem dele próprio, mas no
caso ele surge como um mediador: no íntimo, acha-se a sua socialização por
essa sociedade multirracial “democrática”, em que ele vive, e o quanto ele
incorporou da ideologia racial oficial.
Haveria outro prisma para chegar-se a esse resultado interpretativo: as
expectativas de incompreensão, de intolerância e de repressão – tanto mais
fortes e conscientes quanto mais os líderes radicais negros e mulatos
conheciam por experiência amarga o terreno em que pisavam – introduziam
natural moderação na exteriorização de suas orientações críticas e de sua
disposição de aceitar o conflito racial sem agravá-lo com provocações
inúteis. Essa moderação, doutro lado, tendia a crescer fatalmente por causa
de vários fatores incontroláveis (como a influência do “complexo” na
confusa percepção da realidade racial; as consequências enfraquecedoras do
apego da massa negra ao tradicionalismo; a debilidade econômica, social e
política do “meio negro”; a necessidade de contar de antemão com uma
solidariedade racial a ser forjada no processo de luta; a falta de destreza e o
medo do “negro” em enfrentar abertamente o “branco” em assuntos
proibidos etc.). Todavia, nada disso afetava o que nos interessa aqui: o
padrão de desmascaramento racial inerente àqueles movimentos, do início
até sua esterilização e desaparecimento. Essas razões, quando muito,
explicam o modo de pôr em prática o referido padrão de desmascaramento
racial, não a sua natureza, os seus conteúdos e a forma segundo a qual
objetivava as divergências estruturais. Para chegar-se a estes aspectos, é
preciso considerar como a ideologia e a utopia raciais dominantes
socializam a visão do mundo e da realidade das etnias e categorias raciais
dominadas (que nem sempre constituem “minorias étnicas” e “minorias raciais”, especialmente em escala local e mesmo regional). O fulcro da
questão está num efeito específico: a ideologia e utopia raciais dominantes
impõem a todas as categorias étnicas, raciais ou nacionais submetidas à
supremacia branca, sem exceção, uma forte pressão assimiladora, que não
deixa alternativas em problemas essenciais, de significado ou com
implicações políticas. Essa pressão é intransigente e monolítica, embora
quase sempre se justifique em nome da “integração nacional” ou da
“democracia racial” e da “democracia cultural”. Ela faz parte da complexa
herança do mundo colonial (pois nasceu e foi aperfeiçoada no trato com o
índio, com os escravos negros e com os mestiços, em condições nas quais
eles constituíam maiorias hostis, firmando-se como um “perigo público”
para a ordem escravista) e foi aperfeiçoada posteriormente, por imposições
dos novos contingentes nacionais, trazidos com a imigração, e dos vários
deslocamentos internos de populações mestiças.173 Os movimentos sociais
do “meio negro” acolheram positivamente essa pressão étnica, forjando
divergências que negavam a ordem racial existente, mas para afirmar maior
integração racial, econômica, cultural, social e política no futuro. No fundo,
o que se atacou e repudiou foi o modo unilateral com que a pressão
assimiladora define os ideais a serem atingidos, o qual tem redundado em
monopólio da igualdade, da liberdade e do poder pelos brancos dos estratos
dominantes. Não é difícil perceber-se que o negro e o mulato não tinham
(como ainda não têm) condições para desencadear outro tipo de negação e
de oposição. Além disso, parece óbvio que, seguindo essa linha, o
desmascaramento racial e o protesto negro acumulavam várias vantagens
psicológicas e políticas, desarmando a reação conservadora e tornando pelo
menos mais inteligível o que entendiam como Segunda Abolição (com o
que esta representaria, se levada a cabo, para o desenvolvimento de
verdadeiras estruturas nacionais de poder). Não obstante, o fato de
quererem isso (e de se empenharem por isso), punha aqueles movimentos
no mesmo barco em que estavam os setores dominantes da “raça branca”, deixando-os inexoravelmente à mercê das determinações fundamentais da
ideologia e da utopia raciais desses setores. Para atacar a desigualdade
racial, com a ordem racial que a engendrava (oculta e mistificada por detrás
da ordem existente), e assim desmascarar o branco e sua dominação racial
autocrática, foi consagrado um caminho que não eliminava por completo o
controle ideológico e utópico detido pela raça dominante. Portanto, o negro
e o mulato tinham de projetar sua percepção crítica, e inclusive sua vontade
revolucionária, como se fossem superbrancos, e tinham de afirmar, no
processo de rebelião, o que estavam negando.
É claro que semelhante situação traduz a precária situação política de
grupos rebeldes destituídos de poder e de meios para conquistá-los de modo
mais ou menos rápido. O ponto de partida moderado, no entanto, também
acaba tendo o seu preço: essa estratégia depende muito, para tornar-se
eficaz, do grau de anuência ou de consentimento potencial que os donos do
poder possam alimentar diante das causas dos rebeldes. Em outras palavras,
resta saber como a divergência coletiva é recebida por setores que detêm, ao
mesmo tempo, o controle ideológico e utópico da situação e seu controle
institucional e político-estatal. Se eles se mostram abertos à aceitação
tolerante da divergência e à introdução de mudanças para superá-las, a
rebelião atinge seu alvo e se inicia um processo mais amplo de reforma
social (com frequência sob controle conservador). No caso que
descrevemos tal resultado só seria viável se as mesmas manifestações se
repetissem em outras cidades brasileiras com a mesma intensidade e se
vários estratos dissidentes da população branca aderissem à contrautopia da
Segunda Abolição. Esta poderia merecer tal desdobramento político. Mas
isso não ocorreu. Malgrado sua evidente importância para a integração
racial em escala nacional – uma nação multirracial não pode considerar-se
integrada sob o padrão de concentração racial da renda, do prestígio social e
do poder vigente no Brasil – esse caminho de desintegração revolucionário
das estruturas raciais existentes e de formação de novas estruturas raciais, pelo menos compatíveis com a universalização da desigualdade
especificamente capitalista, não vingou.
Interessa-nos descrever pelo menos dois aspectos da situação que se criou,
pois eles ensinam como uma “raça dominante”, além de infiltrar sua
ideologia e sua utopia raciais no pensamento revolucionário dos
antagonistas, envenenando-o ou esterilizando-o, pode também inibir ou
conter, por outros meios, as proporções, a propagação e a eficácia dos
movimentos de rebeldia. No caso, este desdobramento autodefensivo era de
fácil consumação, à medida que os movimentos de protesto negro nasceram
e se mantiveram segregados no “meio negro”, sem qualquer suporte nos
demais estratos da população. Doutro lado, embora não exista, para a
estrutura econômica da sociedade de classes brasileira, qualquer interesse
em evoluir para o padrão sistemático de preconceito e de discriminação
raciais (como o que existe nos Estados Unidos ou na África do Sul), o tipo
de capitalismo dependente e subdesenvolvido imperante não pode
prescindir da concentração racial da renda e do poder (e, em consequência,
das formas pré ou subcapitalistas de exploração e de expropriação
econômicas e de dominação política que ela envolve). Por isso, apesar do
apregoado apego à democracia racial, os estratos “esclarecidos” das classes
altas ou médias, que detinham o controle dos meios de comunicação e com
frequência se mostravam acessíveis às diferentes modalidades de
nacionalismo reformista, evitaram associar-se ao protesto negro. A sua
contraideologia de desmascaramento racial e a sua contrautopia de uma
Segunda Abolição entravam em conflito real com os “ideais democráticos”
de tais classes, que veem na persistência de padrões arcaicos de relações
raciais um cômodo sucedâneo do preconceito e da discriminação raciais
sistemáticos. Por conseguinte, não havia como constituir-se uma “opinião
pública” favorável aos movimentos de protesto negro fora e acima dos
pequenos setores mais ou menos radicalizáveis da própria “população de
cor”.
O primeiro aspecto relaciona-se com o modo pelo qual os diferentes
estratos do “meio branco” reagiram aos movimento de protesto negro ou a
evidências práticas de sua contraideologia e contrautopia. Fala-se muito, ao
discutir-se a situação dos povos subdesenvolvidos, na “apatia” das massas.
No entanto, até onde essa apatia é um produto de exclusões, de controles e
de opressões firmemente estabelecidos, institucionalmente ou não, e
utilizadas com racionalidade pelo poder autocrático? Isso parece notório no
caso em apreço. Vários líderes dos movimentos sociais tentaram angariar o
apoio da imprensa e da rádio; muitos também fizeram sérios esforços para
tirar sua causa do isolamento político e do confinamento ao “meio negro”.
Todavia, não obtiveram simpatia e apoio; antes, obtinham-nos e os perdiam,
assim que revelavam seus propósitos autônomos e seus desígnios libertários
e igualitários. Na aparência, o “meio branco” reagiu com notável
indiferença, como se se tratasse de uma agitação estéril ou inútil. Ao
interpretar-se esse padrão de reação societária, em bloco, percebe-se qual
era a sua função: impedir que os setores destituídos de poder encontrassem
ressonância, tornando-se aptos a fazer pressões políticas de baixo para
cima. Além disso, em alguns níveis das classes médias e altas, como
também em alguns círculos intelectuais e políticos dessas classes, os
movimentos ficaram mais conhecidos, quase sempre como efeito de casos
concretos (empregadas que passaram a discutir com as patroas; avaliações
de atitudes, disposições de comportamento ou comportamentos de negros e
de mulatos, envolvidos nos movimentos, como manifestações ostensivas e
intoleráveis de “atrevimento” e de “ódio racial”; discussão etnocêntrica dos
objetivos libertários e igualitários dos movimentos raciais). Colocada à
prova, essa elite branca introduzia o comportamento autocrático em sua
reação, que passava a ser hostil, recriminando a “intolerância do negro” e
repudiando o seu “racismo”!
O segundo aspecto diz respeito a processos latentes de autodefesa da
ordem racial que se escondem por trás da ordem estabelecida (e, portanto, de autodefesa do padrão assimétrico de relação racial, da desigualdade
racial e da monopolização racial do poder pelo branco). Aparentemente, o
“meio negro” não continha potencialidades para imprimir o maior ímpeto,
continuidade e eficácia aos seus movimentos de protesto. Todavia, foi
somente isso que ocorreu na realidade? Se se examinam bem as coisas,
verifica-se que a impotência do “meio negro”, em parte produto de sua
situação econômica, sociocultural e política, também resultava de modo
direto da estrutura racial da sociedade brasileira, que concentra o poder
político no tope (nos setores dominantes das classes médias e altas, isto é,
nas mãos das elites da “raça dominante”). Essa concentração pressupõe que
a competição e o conflito, em fins voltados para a defesa, o controle ou a
transformação da ordem social existente, constituem prerrogativas políticas
dos brancos; e que, quando se tornam institucionalmente acessíveis à
“massa”, branca ou negra, só afetam matérias de rotina. As demais
condições mantidas iguais, a mudança imposta debaixo para cima é
inviável. Como não se põe a alternativa de a mudança vir espontaneamente
como uma iniciativa de cima para baixo, temos: 1º) que as estruturas de
poder são cegas aos “problemas das massas”; 2º) que tais estruturas operam
de modo repressivo (inclusive por meios discretos) quando as massas
questionam os “dilemas sociais” (o que parece criar ameaças incontroláveis
ao caráter sacrossanto e à estabilidade do status quo. Isso transparece mais
claramente nos movimentos de protesto racial que em outras manifestações
do populismo, porque fica evidente que o negro foi tolhido na medida em
que não teve liberdade para usar o conflito racial em fins coletivos
próprios. Como o branco possui a liberdade oposta, de usar o conflito racial
para preservar a ordem existente – embora isso permaneça dissimulado,
pois o conflito é empregado sob a forma de violência organizada
institucionalmente, através dessa mesma ordem – ele pode equacionar,
estigmatizar e reprimir o “perigo do racismo negro”, sem que o negro
possa, legitimamente, desmascarar o mito da “democracia racial” e propor, em seu lugar, uma autêntica democratização das estruturas raciais da
sociedade brasileira. O que resulta, daí, não é apenas a “impotência
política” do negro e do mulato. É a neutralização do “meio negro” como
coletividade ou categoria racial para qualquer processo dotado de real
eficácia política. No fundo, o que se passou pode ser descrito,
sociologicamente, como uma contenção efetiva do radicalismo negro pela
ordem social inclusiva (embora ele ficasse nos limites do “legítimo” e
defendesse a continuidade dessa mesma ordem social). Privado de
condições para absorver as estruturas de poder que seriam necessárias para
que ele pudesse equacionar e resolver (ou contribuir para equacionar e
resolver) seus problemas sociais e o dilema racial brasileiro, o “meio negro”
como um todo estava condenado a não poder tornar-se agente de seu
destino, em todos os níveis da história.
A democracia racial segundo a “raça oprimida”
Seria ingênuo pensar-se que o dilema social, em si e por si mesmo, possa
converter-se em foco de processos revolucionários de transformação da
ordem. Contudo, sua análise é sociologicamente importante, porque
desvenda como as ideologias e as utopias podem ser adaptadas a privilégios
e a interesses de classes e categorias sociais, em posições estratégicas de
poder, e como, de outro lado, ele estimula o aparecimento de
contraideologias, de contrautopias e de contraelites. Na verdade, o avanço
radical de ideologias e utopias totais – difundidas por classes dominantes e
mais ou menos compartilhadas pelas demais classes de uma mesma
sociedade nacional – ocorre em períodos de grande emulação coletiva, nos
quais o idealismo revolucionário facilita concessões ou acomodações de
teor libertário, igualitário ou humanitário que são, não obstante,
incompatíveis com a ordem interna de uma sociedade estratificada (mesmo
que ela seja uma “ordem social aberta”, como a sociedade de classes
moderna). Passados os períodos de efervecências e de confraternização revolucionária, o idealismo revolucionário desaparece, mas ficam as
ideologias e as utopias forjadas ou redefinidas sob seu impacto. Então, as
ideologias e as utopias convertem-se em máscaras, mesmo que mantenham
conteúdos democráticos e impulsões revolucionárias. As classes e as
categorias sociais dominantes, que as utilizam, empenham-se mais na
consolidação do poder e em mudanças sociais que somente concorrem para
a estabilidade do status quo. Por conseguinte, suprimem as relações das
ideologias e das utopias com qualquer praxis revolucionária, e, com
frequência, com sua própria prática social cotidiana: apegam-se, assim, ao
significado abstrato-formal da ideologia e da utopia, segregando-o de modo
mais ou menos completo daquilo que são compelidas a fazer, em virtude de
seus interesses e relações de classe. Conseguem estabelecer uma espécie de
conexão de sentido absoluta para suas ideologias e utopias, de grande
utilidade como fundamento de um tipo especial de dualidade ética, que
permite tratar as demais classes como se fossem “estranhos”, “membros de
outras sociedades” ou até como “inimigos”. Esta função societária da
dualidade ética é facilmente dissimulada e mascarada, graças ao artifício da
segregação entre o formal-abstrato e o concreto, que opera como um fator
de obnubilamento da consciência social de classe e de mitigação do
significado social das inconsistências institucionais e dos conflitos
axiológicos de uma civilização. A contradição entre esses dois níveis, por
sua vez, não gera por si mesma reações desconfortáveis ou catastróficas.
Especialmente se as classes preteridas ou prejudicadas esperam
compartilhar “no futuro”, de algum modo, da revitalização recorrente de
privilégios sociais ou de interesses de classes emergentes e em crescimento.
Essa dinâmica fortalece o poder de controle ideológico e utópico da
sociedade pelas classes dominantes, e corrompe pela base qualquer espécie
de “idealismo democrático” que elas se inculquem, em termos
conservadores, reformistas ou revolucionários.
As coisas se apresentam, na situação brasileira, de modo mais
complicado. Como a “revolução nacional” ainda não conduziu à completa
descolonização, há margem para que grupos, setores de classes ou
categorias raciais fixem na “integração nacional” a via pela qual se poderia
consumar pelo menos a eliminação de formas arcaicas de desigualdade,
representativas do antigo regime. Por causa de sua fraqueza econômica,
sociocultural e política, eles têm de partir, forçosamente, de “críticas morais
da ordem”, isto é, de fazer oposição ostentando um zelo real ou simulado
diante dos valores centrais das ideologias e das utopias das classes
dominantes, consagrados oficialmente pela ordem existente. Os conflitos
axiológicos são, assim, engrandecidos pelos divergentes, servindo de
fundamento ao idealismo crítico e a seus desdobramentos práticos,
reformistas ou “revolucionários”. Por sua vez, as classes e as categorias
sociais dominantes veem-se diante da desigualdade através de duas
polarizações: o forte processo de revitalização de privilégios mais ou menos
arcaicos; e o processo ainda mais importante dos interesses de classe
propriamente ditos, resultantes da expansão interna do capitalismo
moderno. Eles podem explorar a mística da “sociedade aberta”, mas só em
sentido não exemplar e com muito cuidado (mais verbalista que real e, de
qualquer maneira, não no terreno político). Queiram ou não, são compelidos
a “tomar a nuvem por Juno” e, o que é pior, a obrigar as outras classes e
categorias sociais a fazerem o mesmo. Em consequência, não só segregam
as objetivações abstrato-formais dos valores centrais de suas ideologias e
utopias da prática correspondente cotidiana; projetam nessas objetivações
um significado absolutista, maniqueísta e totalitário, como se elas fossem
em si mesmas o concreto, o dado real, e a prática cotidiana um elemento
contingente, irrelevante e transitório. Com isso pretendem proteger-se de
riscos potenciais, congelando politicamente a crítica moral e a rebelião
dentro da ordem, e impondo de maneira autocrática sua visão do mundo e
sua imagem do Brasil.
Tudo isso coloca a reflexão sociológica crítica diante de uma confusa
realidade. Como pensar sociologicamente as “saídas possíveis” se a
circularidade é inerente à própria organização “nacional” da sociedade
brasileira? Se mesmo em São Paulo, pouco tempo depois do que
descrevemos acima, o próprio “meio negro” voltou as costas à rebelião
coletiva, procurando explorar de forma individualista, egoísta e até elitista
as novas oportunidades de classificação e de ascensão sociais (bem maiores
atualmente que nas décadas de 1920, 1930 ou 1940), o que resta ao
sociólogo, por maior que seja sua identificação com o igualitarismo? A
questão é ainda mais complicada, pois as análises resumidas na segunda
parte deste artigo indicam que uma autêntica democratização mais ou
menos rápida das relações raciais continua a representar uma
“improbabilidade histórica”, quer se focalize a situação racial brasileira do
ângulo do “branco”, quer do “negro” ou do “mulato”.
Supomos, porém, que há margem para se apanhar prospectivamente pelo
menos algumas linhas desse ambíguo vir-a-ser. Primeiro, a nova orientação
predominante no “meio negro”, mais individualista, utilitarista e pragmática
– e por isso tão chocante e antipática – parece conter alta dose de acerto
(pondo-se de lado a mitificação do “novo homem negro”). Nessa orientação
– e não no antigo protesto coletivo, que nos é tão caro – é que o negro e o
mulato estão usando a armas dos próprios brancos. Eles estão elevando as
potencialidades econômicas, socioculturais e políticas do “meio negro” e,
por isso, estão se preparando para um novo tipo de embate (no qual será
mais difícil alijá-los de todas as formas de competição e de conflito, na luta
pela absorção e controle das estruturas de poder). Segundo, houve
abandono prematuro dos movimentos sociais e difundiu-se uma reavaliação
negativista contra qualquer forma de “protesto negro” coletivo. Mas os
movimentos podem ser retomados – e é quase certo que o serão,
oportunamente, redefinidos em suas formas, estratégia, objetivos e funções
– pois eles constituem uma “exigência da situação”. Com a experiência acumulada no mundo urbano-industrial, é duvidoso que o negro volte a
centralizar seu esforço crítico e suas aspirações coletivas no combate ao
dilema racial, que exigiria, para ser consequente, condições histórico-
sociais para uma “revolução racial debaixo para cima”. O negro e o mulato,
atualmente, preferem mudanças circunscritas, porém compensadoras,
irreversíveis e numa espécie de cascata, na lógica segundo a qual “uma
mudança puxa a outra”. Terceiro, o “meio branco”, apesar de suas variadas
e profundas divisões, continua tão indiferente ao drama do negro quanto o
foi há algumas décadas. Houve um forte e desproporcional fortalecimento
de posições conservantistas, reacionárias e autocráticas, dentro dele, em
prejuízo de uma melhor compreensão das vantagens e da necessidade da
democratização racial da riqueza, do poder e do prestígio social. Essas
alterações negativas foram compensadas por outras mudanças paralelas, que
alargaram a incidência de uma percepção crítica da desigualdade racial
entre brancos de todas as classes sociais e facilitam o aparecimento de
participação militante desses círculos em prol do inconformismo negro,
desde que ele se concretize em torno de objetivos claramente definidos. Sob
esse aspecto, a mitologia oficial, do Brasil como “paraíso racial” ou de que
“entre nós o negro não tem problemas” está em crise no “mundo dos
brancos”. A mudança de mentalidades, na sucessão de gerações, tem
abalado profundamente as formas ainda predominantes de hipocrisia racial
e, em particular, tende a suscitar simpatia efetiva por um radicalismo
igualitário na esfera das relações raciais.
Se os diferentes estratos da população negra e mulata de São Paulo
puderem mobilizar-se de alguma maneira, para aproveitar suas novas
possibilidades de autoafirmação, os problemas políticos que se colocam
dizem respeito ao que fazer com a herança dos movimentos anteriores. Um
hiato seria lamentável, pois se perderia todo o conhecimento crítico
acumulado – sobre a realidade racial brasileira e sobre a posição que o
negro deveria e pode ter em nossa sociedade. Todavia, as transformações foram profundas e definem uma linha de conduta: não se trata mais de
recuperar padrões de reação racial do passado, mas de criar outros novos.
Toda a estratégia dos antigos movimentos de “protesto negro” foi superada.
Ela respondia a uma estado extremo de desespero, de isolamento e de
frustração que praticamente “cegou” o negro diante do que lhe seria mais
acessível e racional fazer, para atingir, gradualmente ou a médio e a largo
prazo, os objetivos visados de “igualdade perante os brancos mais iguais”.
Há pouco interesse em repetir hoje os obsessivos e extensos debates sobre a
existência (ou não) do preconceito de cor no Brasil e de colocar tanta ênfase
nos requisitos ideais (como se definem legalmente) da igualdade racial em
uma ordem burguesa democrática. Parece evidente que os novos debates
deverão centralizar-se na concentração racial da renda e do poder (com seus
múltiplos e ramificados efeitos) e nas medidas que podem ser adotadas para
reduzir ou eliminar as práticas discriminativas que prejudicam o negro e o
mulato, preservando indefinidamente a desigualdade racial e a supremacia
da raça branca. Doutro lado, os movimentos deverão visar, em bloco, menos
a integridade (ou a falta de integridade) dos brancos, que suas posições nas
estruturas de poder. Isso requer que se produza um radicalismo racial mais
coerente e eficaz, capaz de forjar solidariedade racial e lealdade racial numa
escala inconcebível no passado, para permitir a superação tanto do
facciosismo, do escapismo, do oportunismo, do mercenarismo – que
solaparam tão fundamente o “protesto negro” no passado – quanto da
insidiosa influência psicológica ou política da ideologia e da utopia raciais
dominantes (ou seja, como dizem alguns líderes negros, do “cavalo de Troia
branco”). Contudo, a orientação política geral dos movimentos de “protesto
negro” era correta. Primeiro, eles eram populistas no sentido mais puro e
preciso, e faziam da classificação de estoques raciais marginalizados ou
excluídos um problema de igualdade econômica, sociocultural e política.
Segundo, eles defendiam a revolução racial (embora definida como uma
revolução dentro da ordem), como uma revolução democrática, de baixo para cima, imprimindo novo sentido à imagem do Brasil como nação
multirracial democrática. Essa orientação política geral merece ser retida e
aperfeiçoada, em ambos os pontos, pois ela é essencial, ainda hoje, para
definir a filosofia política global do negro e do mulato na luta pelo poder,
pela igualdade e, especificamente, pela democracia racial.
Mais socializado pelo meio urbano-industrial ambiente, o “meio negro” é
menos suscetível atualmente ao monolitismo que há quatro décadas. O
próprio “meio branco” é menos monolítico – embora possa dar uma
impressão oposta (pois a repressão ao radicalismo em geral e ao radicalismo
das “raças oprimidas”, em particular, é produto da dominação autocrática
dos setores dominantes das classes médias e altas ou, em outras palavras,
das elites dirigentes da raça branca). É importante quebrarem-se “unidades”
fictícias, tanto no “meio negro”, quanto no “meio branco”. Quanto mais
diferenciada for a gama de posições que o negro possa tomar, maior será o
impacto dos novos movimentos de “protesto negro”. Se essa diferenciação
puder ser contida nos limites em que representem, efetivamente, interesses
divergentes fundamentais dentro da estratificação do “meio negro” e se os
movimentos puderem ligar entre si os grupos resultantes, no plano mais
amplo da luta comum pela democratização racial da riqueza e do poder, a
Segunda Abolição deixará rapidamente de ser uma contra-utopia
aparentemente vazia. O que o “meio negro” precisa repelir, a todo custo,
venha a ser a “repetição da história” em um sentido estreito (ou seja,
reproduzir no presente o passado remoto ou recente do “meio branco”). Se
o “meio negro” absorver os padrões autocráticos imperantes no “mundo dos
brancos” – uma tendência muito forte à qual não se tem oposto – correrá o
risco de implantar dentro de si mesmo o que mais tem odiado, a estrutura
iníqua de um regime de classe deformante e deformado. Nessa hipótese,
teríamos uma versão brasileira do “capitalismo negro” e do “elitismo
negro”, como contrapartida à dominação autocrática do branco, e está fora de dúvida que semelhante processo seria mais nocivo no Brasil do que tem
sido nos Estados Unidos ou na África do Sul.174
Estas proposições podem parecer tendenciosas. Por que pôr nos ombros
do negro e do mulato responsabilidades que não são igualmente imputadas
ao branco? Porque o negro e o mulato constituem o pivô da revolução racial
(dentro da ordem ou contra a ordem) no Brasil. Essa revolução nunca se
consumará de modo pleno e total sem que o negro e o mulato a desejem
ardentemente e a purifiquem de modo permanente, convertendo-se em suas
forças de radicalização crescente. Para preencher esse papel histórico, é
óbvio que eles precisam viver essa revolução antecipada e integralmente
entre si, para transferi-la e difundi-la depois ao resto da sociedade brasileira.
Não se trata de pensar o negro e o mulato separados do branco: mas em um
todo no qual o ideal último da democracia racial deverá resultar da
atividade histórica do agente realmente revolucionário. Em outras palavras,
encarada desta perspectiva, a democracia racial (e seu futuro
desenvolvimento) não depende apenas do “êxito” do negro e do mulato no
“mundo dos brancos” – ou seja: em sua luta com o branco pela igualdade
em riqueza e poder. Ela depende também, e provavelmente em escala
maior, do êxito do negro e do mulato em superar o branco e em vencer seu
compreensivo anseio, que alimentaram no passado e ainda é tão forte, de se
converterem em protótipos do superbranco. Pois uma verdadeira revolução
racial democrática, em nossa era, só pode dar-se sob uma condição: o negro
e o mulato precisam tornar-se o antibranco, para encarnarem o mais puro
radicalismo democratico e mostrar aos brancos o verdadeiro sentido da
revolução democrática da personalidade, da sociedade e da cultura.
164 Trabalho escrito para o volume coletivo, a ser publicado na França, em homenagem ao prof. Roger Bastide, antigo professor da Universidade de São Paulo.
165 R. Bastide e P. van den Bergue, “Estereótipos, normas e comportamento inter-racial em São Paulo”, em R. Bastide e F. Fernandes, Brancos e negros em São Paulo, São Paulo, Cia. Editora Nacional, 3. ed., 1971, p. 307. Cf., ainda, L. A. da Costa Pinto, O negro no Rio de Janeiro, São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1953, cap. VI Costa Pinto dá muita atenção à natureza e às implicações da subalternização e da “inferiorização circular do negro” no contexto da urbanização e da industrialização.
166 F. Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, São Paulo, Dominus Editora e Editora da Universidade de São Paulo, 1965, vol. 2, p. 389 e 391.
167 Cf. F. Fernandes, “Patterns of external domination in Latin America”, em F. Fernandes, The Latin American in residence lectures, Toronto, University of Toronto, 1969-1970, p. 3-23 (onde também se encontra uma bibliografia).
168 Veja-se Comisión Económica para América Latina, “La distribución del ingreso en América Latina”, Boletim Económico de América Latina, XII-2, 1967, p. 152-175; sobre o Brasil e as implicações do “crescimento econômico acelerado” para os setores pobres da população: M. C. Tavares e J. Serra, Mas alla del estancamiento: una discusión sobre el estilo del desarrollo reciente de Brasil, Santiago, Flacso, 1972, p. 65-71. Quanto aos problemas políticos: J. Graciarena, Poder y clases sociales en el desarrollo de América Latina, Buenos Aires, Editorial Paidós, 1967.
169 Cf. F. Fernandes, Sociedade de classes e subdesenvolvimento, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1968, cap. 1, e, especialmente, Los problemas de conceptualización de las clases sociales en América Latina, México, Instituto de Investigaciones Sociales de la Universidad Nacional Autónoma de México, 1971, ed. mim., p. 14-104.
170 Esse ponto foi ressaltado tanto nas análises de Costa Pinto quanto de Fernandes: cf. acima, notas 1 e 2. Para uma análise do mito da democracia racial nesse sentido, cf. F. Fernandes, “A questão racial”, O tempo e o modo, Lisboa, nº 50, esp. p. 40-44.
171 Os movimentos sociais no meio negro foram submetidos a um estudo de caso especial, elaborado por Renato Jardim Moreira, com a colaboração de José Correia Leite, um dos mais proeminentes líderes no período assinalado. A análise de tais movimentos é feita por F. Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, op. cit., cap. 4.
172 A pobreza não é peculiar ao negro e ao mulato. Mas outros setores da população pobre brasileira não enfrentam as mesmas dificuldades nos processos de classificação e de mobilidade social vertical, pois não tem de enfrentar barreiras raciais veladas nem as práticas discriminativas decorrentes. Cf. F. Fernandes, “Beyond poverty: the negro and the mulatto in Brazil”, Journal de la Société des Américanistes, Paris, tomo LVIII, 1969, p. 121-137.
173 É preciso não esquecer que, no passado, o segmento branco da população de grande número de comunidades era minoritário e que suas elites abrangiam números ínfimos. Em várias áreas ainda hoje a população de cor suplanta a população branca (cf. “Beyond poverty”, art. cit., tabelas I e II).
174 Temos em mente, em particular, a descrição de F. Frazier do comportamento das elites negras nos Estados Unidos (Bourgeoisie Noire, Paris, Librairie Plon, 1955, passim). Quanto à África do Sul, cf. esp. L. Kuper, An African bourgeoisie. Race, class, and politics in South Africa, New Haven/Londres, Yale University Press, 1965.
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© Herdeiros de Florestan Fernandes, 2006 1ª Edição, Difel, 1972
2º Edição, Global Editora, São Paulo 2007
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Coordenadora Editorial - Sandra Regina Fernandes Revisão - Anita Deak
Capa - Victor Burton
CIP-BRASIL. Catalogação na publicação
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
_____________________
F399n
Fernandes, Florestan, 1920-1995
O negro no mundo dos brancos [recurso eletrônico] / Florestan Fernandes ;
apresentação Lilia Moritz Schwarcz. − 1. ed. − São Paulo : Global, 2013.
recurso digital
Formato: ePub
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ISBN 978-85-260-1982-9 (recurso eletrônico)
1. Estrutura social. 2. Humanidade. 3. Livros eletrônicos.
I. Schwarcz, Lilia Moritz, 1957- II. Título.
13-04296
CDD: 301
CDU: 316
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