O Negro no Mundo dos Brancos
Quarta Parte
RELIGIÃO E FOLCLORE
OceanofPDF.com
Capítulo X
Representações Coletivas sobre o Negro: O
Negro na Tradição Oral118
1) Reação do elemento negro sobre os folclores
ibérico e ameríndio
O negro escravo ocupou, na sociedade brasileira, uma posição sui
generis, infiltrando-se “em nossa vida íntima”, como o observou Sílvio
Romero. Por isso, consegui estabelecer e manter um sistema de relações
primárias com os senhores, o que os colocou em situação privilegiada no
grupo familial do branco e possibilitou o amplo sincretismo operado entre
os elementos das três culturas em contato (do branco, do negro e do
indígena). Estes aspectos da vida social e o aumento constante, durante o
período do Brasil colônia e até meados do século XIX, do contingente
negro, através do tráfico e da própria reprodução, tendendo este elemento a
distribuir-se sobre uma área cada vez maior e a participar constante e
ativamente da vida cultural de toda a sociedade, explicam a preponderância
do negro sobre o índio em nossa tradição oral (quer nos aspectos
aculturativos iniciais, quer no posterior desenvolvimento de amplos
processos de aculturação). Além disso, o elemento indígena tendia a se
retrair para o sertão, fugindo ao cativeiro imposto pelos brancos; embora
não tenhamos dados concretos para avaliar quantitativamente o que
afirmamos, é do conhecimento geral essa fuga do índio à “civilização”. É
claro que a consequência imediata desse retraimento traduziu-se por uma
diminuição dos contatos entre os índios e os brancos, o que possivelmente
veio atenuar a intensidade dos processos aculturativos, existentes entre os
dois grupos. As relações diretas entre negros e índios foi inicialmente prejudicada pela aversão que aqueles causavam aos silvícolas machos (cf.
Saint-Hilaire) e provavelmente por motivos religiosos. Suas relações se
tornaram mais íntimas só posteriormente, mas nunca chegaram a ser
consideráveis, e isso nos força a admitir a hipótese de que a ação do negro
sobre o folclore índio se processou através de contatos com os brancos, e
sobre os elementos da cultura oral indígena aceitos pelos mesmos brancos.
Assim, além da sua contribuição original, o negro reagiu sobre o folclore
do branco e do indígena, exercendo a função que naturalmente poderia ser
realizada por este, tanto no que respeita à tradição lusitana como no que se
referia à conservação da própria tradição indígena, não fossem as situações
que apontamos acima.
Nos elementos do folclore ibérico, em que essa reação pode ser
evidenciada, o negro preenche, geralmente, as funções correspondentes ao
seu status social, ocupando os lugares “inferiores”. É o que podemos
observar no romance D. barão, recolhido por Celso de Magalhães no Recife
e estudado por Sílvio Romero:119
“D. Barão que era macaco
De nada se arreceou;
Chamou pelo seu ‘moleque’,
Uma carta lhe entregou.”
Compare-se agora ao mesmo romance, recolhido na Foz por Teófilo
Braga:
“D. Barão como discreto
De nada se arreceou;
Chamou pelo seu criado,
Uma carta lhe entregou”.
Vê-se que o criado português é substituído pelo moleque, o “prestadio
mané-gostoso, manejado à vontade por nhonhô”, como o considera Gilberto
Freyre. Quando o preto não substituía o português de baixa posição, ocupava o lugar do espanta-crianças lusitano (o “cuca”, o “papão”), na justa
observação deste autor.120 “Deixou-se de ninar o menino cantado como em
Portugal:
‘Vai-te, coca, vai-te, coca
Pra cima do telhado
Deixa dormir o menino
Um soninho descansado.’
‘Para cantar de preferência:
Olha o negro velho
Em cima do telhado
Ele está dizendo
Quero menino assado’”.
Com o “papão” aconteceu mesma coisa, sendo substituído pelo “tutu”,
como poderemos verificar, cotejando a variante brasileira e a versão
portuguesa, colhidas, respectivamente, por Basílio de Magalhães e
Gonçalves Viana:121
“Tutu, vá-se embora
Pra cima do telhado,
Deixa o nhonhô
Dormir sossegado.”
“Vai-te, papão, vai-te embora,
De cima desse telhado
Deixa dormir o menino
Um soninho descansado”.
Todavia, não houve desaparecimento das versões portuguesas; apenas
houve uma afro-abrasileirização, por assim dizer, como testemunham, entre
outras, estas duas cantigas de berço, por nós recolhidas em São Paulo:
“Dorme, nenê (Bom Retiro)
Que o cuca logo vem
Papai foi na roça
E mamãe também.”
“Papão vai embora (Bom Retiro)
De cima do telhado
Deixa o nenê
Dormir sossegado”.
A mesma coisa podemos observar quanto ao conto “a menina de brincos
de ouro” ou o “surrão que cantava”, do ciclo europeu, apesar de ter um
equivalente africano, recolhido por A. B. Ellis, segundo Nina Rodrigues: o
velho do bordão, de branco que era na versão ibérica, a qual passou para
nós e assim foi recolhida por Nina Rodrigues na Bahia, acabou por ser
substituído por um negro, na variante registrada pelo dr. J. da Silva
Campos, também da Bahia.122 Da versão portuguesa, em que o “velho é
branco e fala como tal”:
“Canta, surrão
Senão levas com o bordão”.
passamos ao negro africano:
“Canta, canta, minha surrão,
Se não eu ti dá
Com cachamora de minha brudão”.
Na pesquisa que efetuamos em São Paulo não encontramos esse conto,
todavia achamos provável que haja reminiscência do fato narrado, pois as
crianças acreditam na existência do “homem do saco”, o qual identificam
exatamente ao negro do surrão, aproximando-o, doutro lado, muito do
quibungo, porquanto é quase ilimitado o número de crianças que cabem no
seu saco.
Além disso, “o negro adaptou elementos de sobrevivência histórica, e até
enredos completos, ao teatro popular que ele já encontrou no Brasil, trazido
pelos portugueses”,123 como podemos verificar nos “congos”, por exemplo.
Elementos da cultura oral indígena também passaram por uma espécie de
“africanização”. Vejamos apenas dois exemplos esclarecedores, os quais
demonstram em que consistiu precisamente essa “africanização”: ou
transformação completa de elementos da demologia ameríndia; ou
aparecimento de criações idênticas, conservando o mesmo tema básico. Um
dos exemplos é o saci, outro a iara.
Conforme especifica Basílio de Magalhães, no seu trabalho sobre o
folclore brasileiro,124 há uma dúplice simbolização do saci na mitologia
indígena: uma antropomórfica e outra ornitomórfica. Enquanto no Norte era
o saci representado por um “tapuia perneta de cabelo avermelhado, sem
órgãos para excretar os resíduos da bebida e da alimentação sólida”, na
“africanização” do duende ameríndio predominou a representação
antropomórfica, mas ficou tal como a conhecemos hoje: negro retinto com
um barrete vermelho na cabeça e um cachimbo no canto da boca,
displicentemente levado, bondoso ou malvado, como o convém a uma
entidade africanizada. Adaptou o nome à nova cor, passando a ser
conhecido como “negrinho do pastoreio”, “o negrinho da água”, ou,
simplesmente “o negrinho”.
A iara já tinha uma correspondente na hidrolatria fetichista dos negros
africanos: iemanjá. Entretanto, não houve propriamente uma substituição,
na nossa cultura oral, desta por aquela, mas apenas o aparecimento de outra
entidade idêntica, a “mãe-d’água”.125 Houve um interessante sincrestismo
na versão africana, que se emparelhou à indígena, e da qual apenas
sobreleva-se pelo culto hidrolátrico,126 conservado pelos negros fetichistas.
Esses elementos, segundo cremos, podem dar uma ideia do que dissemos,
acerca da reação do negro sobre os elementos dos folclores ibérico e
indígena e mostram que, relativamente ao folclore do branco, há uma transferência das piores situações para o negro, que passa para um plano
que poderíamos considerar “inferior”.
2) A superioridade biológica e a posição social do
negro
A superioridade biológica do negro, na tradição oral, refere-se à sua
resistência física, longevidade e capacidade para trabalhos brutos. A análise
das representações coletivas que significam uma superioridade biológica do
negro pode ser feita, fecundamente, na paremiologia e em algumas
quadrinhas do nosso folclore. A análise do material recolhido mostra que se
trata de uma superioridade apenas aparente, pois os traços que poderiam
caracterizar o negro como ser superior são aqueles que simbolizam uma
verdadeira inferioridade e que definem a “besta”. Em se tratando de
trabalhos de raciocínio, logo aparece o branco para dirigir o preto e mandar
nele. Vejamos alguma coisa: “Negro é como gato: tem sete fôlegos” (Bela
Vista). Nesse provérbio a resistência do negro é comparada com a dos
gatos, que, diz o povo, “tem sete vidas”. Com significado correspondente,
colhemos também: “Negro quando pinta tem sessenta mais trinta” (Pari). O
termo “pinta” significa ficar com os cabelos brancos. “Negro não tem dó da
pele” (Brás), porque é desassombrado e capaz de tarefas árduas. Esse
provérbio faz parte do popular “bumba-meu-boi”, conforme a versão
descrita por Pereira da Costa e citada por Arthur Ramos:127
“.................................
Só achei a Mateus,
Não achei Fidélis,
Bem se diz que negro,
Não tem dó da pele”.
Sobre a resistência física do negro e capacidade de trabalho, ainda
recolhemos as seguintes quadrinhas:
“O negro é burro de carga (Brás)
O branco é inteligente;
O branco só não trabalha,
Porque preto não é gente.”
“Quem diz que preto se cansa (Bela Vista)
Não tem boa opinião,
Se trabalha o dia inteiro,
De noite ainda faz serão.”
“Negro é bicho safado (Ipiranga)
Tem fôlego de sete gatos;
Não fica doente nunca,
Esse pé de carrapato.”
Isso tudo, sintetizado, daria o generalizado rifão, corrente em São Paulo:
“Trabalhar é pra negro”, em que se liga à cor a ex-condição servil.
A inferioridade social do negro é fartamente expressa em várias situações
do nosso folclore. Essa inferioridade, todavia, não é simplesmente
constatada, pois se chega a dar aos atos da vida social dos pretos um
significado deprimente e pejorativo, estabelecendo-se uma espécie de
distinção entre esses atos e os mesmos quando praticados pelos brancos.
Doutro lado, atribui-se comumente aos negros o mais baixo status da
hierarquia social, correspondente ao nível econômico menos representativo,
enquanto o intercasamento, previsto, é proibido.
Há, na nossa paremiologia, provérbios de uso cotidiano, como os
seguintes: “Preto não é gente”.
“Negro, quando não suja na entrada, suja na saída”, e outros, que veremos
adiante, os quais parecem aconselhar cautela aos que tratem com pretos.
Acreditamos que grande parte dos provérbios referentes à condição social
do preto são partes do “padre-nosso do negro”, do qual Sílvio Romero
apenas recolheu os “fragmentos”:128
“O negro na festa do branco é o primeiro que apanha e o último que
come”;
“Negro confessa e não comunga”;
“Negro, quando se chama, resmunga; se resmunga, leva pau”;
“Negro é vulto, quando não pede, furta”;
“Negro tem catinga: tem semelhança com o Diabo”;
“Negro é a derradeira coisa do mundo”;
“Negro não entra na igreja; espia da banda de fora”;
“Negro tem o pé de bicho, unha de caça e calcanhar rachado; o dedo
mindinho é como semente de pepino de São Paulo; o cabelo é
carrapicheira”;
“Negro, quando não canta, assovia”;
“Deitado é uma laje, comendo é um porco, sentado é um toco”.
No passado, como atualmente, o mestre sergipano diz que recolheu esta
“lengalenga” também dos próprios escravos negros, os quais a repeliam
“com certo sentimento de inferioridade”.
Vejamos o material que recolhemos:
“Negro não nasce, aparece” (geral);
“Negro não morre, desaparece” (idem);
“Negro não acompanha procissão, persegue” (Cidade, Belém);
“Negro não almoça, come” (Cidade, Belém, Santa Cecília);
“Negro não come, engole” (Belém, Santa Cecília);
“Negro não casa, ajunta” (Belém);
“Negro não canta, negro grita” ou “negro berra” (Santa Cecília);
“Negro não dorme, negro cochila” (Santa Cecília);
“Negro não fuma, negro pita” (idem);
“Negro não faz feitiço, negro faz é mandinga” (Bela Vista);
“Negro não vive, negro vegeta” (Brás);
“Negro não fala, negro resmunga” (Bela Vista);
“Negro é pingueiro” (idem);
“Negro não bebe água, negro engole pinga” (Lapa).
A posição do preto e do branco, na escala social brasileira, estaria
conforme ao sistema de castas, de acordo com a seguinte quadrinha popular
que recolhemos:
“Branco nasceu para o mando (Belém)
O negro, pra trabalhar
Quando o negro não trabalha
Do branco deve apanhar”.
A quadrinha ainda implica a manutenção da organização social pelo
castigo nos casos extremos, como no tempo da escravidão.
Há também “xingações” padronizadas, para “bolir” com os pretos, como
as seguintes: “macaco”, “tição”, ou “tiçuno”, “saci”, “bode”, “pau de fumo”
etc.
Do ponto de vista social, um dos índices mais importantes, que podem
indicar se há uma efetiva segregação de certos elementos, é a miscigenação.
A hipótese de fusão já foi prevista no folclore brasileiro e a reação é
decisivamente contrária ao intercasamento, como podemos verificar (Pari):
“Marmelo é fruta gostosa,
Que dá na ponta da vara;
Branca que casa com preto
Não tem vergonha na cara”.
O casamento deveria ser realizado dentro da mesma raça, negro com
negro.
“Lá em cima daquele morro (Penha)
Tem um pé de samambaia;
Negra só casa com negro;
São gente da mesma laia.”
Este tema não é comum unicamente ao folclore brasileiro, como podemos
verificar na seguinte quadra, de “O preto”, dança coreográfica recolhida por
Fernandes Tomás, vulgarizada em todo Portugal:129
“Ai lari lari ló lela
Batatas com bacalhau,
O preto é para a preta,
São peças do mesmo pau”.
Mário de Andrade130 consigna o seguinte lundu, que ele data do século
XIX, colhido em Bragança por uma sua aluna:
“GOSTO DE NEGRA
Eu gosto da negra
Cor de carvão,
Eu tenho por ela
Grande paixão
Que bem m’importa
Que falem de mim
Eu gosto da negra
Mesmo assim”.
A segunda quadra já esclarece a situação real dos transgressores, que são
castigados pelo “falatório” do povo.
A separação entre negro e branco não toma apenas lugar nos casos
extremos de fusão. Os “não somos gente da mesma laia”, ou “não vivemos
no mesmo balaio” ou “não somos do mesmo estofo”, podem limitar as
relações sociais entre eles. Nesse sentido, são muito expressivos os versos
de desafio, recolhidos por Pereira da Costa e citados por Arthur Ramos:131
“Há muito negro insolente,
Com eles não quero engano
Veja lá que nós não somos
Fazenda do mesmo pano,
Nisso só foram culpados
Nabuco e Zé Mariano”.
O caso extremo de limitação do preto na vida social está representado na
seguinte quadrinha, que recolhemos na Bela Vista:
“Negro preto, cor da noite,
Cabelo de pixaim
Pelo amor de Deus, te peço:
Negro não olha pra mim”.
Também na música popular moderna podemos analisar esses fatos. O
campo é vasto, para quem desejar fazer um trabalho completo; nós, porém,
nos limitaremos a citar alguns fragmentos do samba-jongo “Nego”, em que
não há soluções possíveis para o negro:132
“Nego,
Língua de matraca
Boca de corneta
Nada que é seu
Se aproveita
....................................................................
Chegando o dia de nego morrer
E se for pro céu, S. Pedro faz descer
No purgatório ninguém lhe abre a porta
E no inferno ninguém lhe quer ver”.
Essa impossibilidade “do céu” para o preto está bastante generalizada na
nossa tradição, como poderá exemplificar a quadrinha seguinte, recolhida
por Alfredo Brandão,133 e já anteriormente assinalada por outros autores,
como Arthur Ramos e Pereira da Costa:
“Negro velho quando morre
Tem cantiga de xexéu
Permita Nossa Senhora
Que negro não vá ao céu”.
O que vimos neste capítulo não passa de uma tentativa de localização, em
nossa cultura tradicional, do problema do preconceito contra os indivíduos
de cor preta. Como vimos, esse preconceito pode ser analisado nos
elementos do folclore, o qual pode ser a fonte de estereótipos que fornecem
juízos de valor aos indivíduos, regrando a sua conduta social. A consciência
desses juízos de valor pode fazer com que os indivíduos, antes de se porem
em contato direto, já se tenham julgado e avaliado reciprocamente,
determinado-se, assim, os aspectos que as interações possam assumir.
Como observamos, e há muito tempo já observara Sílvio Romero, os
pretos têm conhecimento dessas representações, que os colocam em plano
inferior ao branco, e isso pode não só influir e modificar os aspectos das
relações sociais, como contribuir para a existência e consciência de
ressentimentos e marginalidade entre eles.
O simples fato de o branco formar “uma ideia inferior do negro” já seria
suficiente para modificar o aspecto das relações sociais, evitando-o tanto
quanto possível. Isso explica, até certo ponto, a predominância das relações
horizontais entre indivíduos de cor diferente na sociedade sulina, pelo
menos. A consciência dessa representação do branco, pelo preto, ainda
modificaria mais os aspectos das interações, pelo seu espontâneo e
consequente retraimento, o que podemos verificar em qualquer cidade
paulista do interior, melhor que nos centros urbanos.
Essa situação é complicada posteriormente, pois o sentimento de
inferioridade pode apresentar um duplo aspecto: a) ser o “resultado
negativo de um processo de avaliação” e b) ser a “consequência de uma
repulsa mais ou menos decidida”.134 A reação sistemática do primeiro
aspecto sobre o segundo, ou deste sobre o primeiro, leva, inevitavelmente, a
situações imprevistas e apressa prováveis conflitos, acabando por aumentar e cristalizar o hipotético ou real preconceito de cor. Desse modo,
corporifica-se o retraimento do preto e sua aversão aos valores ou fatos
concretos que o levaram a essa situação.
Aí transparece o ressentimento. Para se afirmar a veracidade do que
afirmamos é suficiente a análise do ciclo de Pai João, na tradição popular,
quer em prosa, quer em verso. Do mesmo modo a marginalidade, que
podemos analisar também nesse material: o negro sente-se repelido num
mundo que ele julga seu e que ele ajudou a criar.
3) Representações coletivas do negro – O ciclo da
formação das raças
Além da análise sucinta que já fizemos da atuação do negro no folclore
brasileiro, podemos encarar qual é a posição ocupada pelo negro neste
mesmo folclore. Essa posição poderia ser reconhecida em certas
representações coletivas, cristalizadas na tradição popular (nas lendas, na
paremiologia etc.), as quais podem fornecer juízos de valor e regular,
consequentemente, as relações entre os indivíduos de cor diferente,
fornecendo padrões predominantes de comportamento e contribuindo para a
estabilização definitiva dos padrões “democráticos” ou “aristocráticos”, na
sociedade. Em síntese, trata-se de verificar como o folclore brasileiro
poderia colocar o problema das relações entre brancos e negros, e para isso
nos amparamos, preferivelmente, em material por nós recolhido em São
Paulo.
Nesse material podemos distinguir três situações do negro, relativamente
ao branco: 1) o negro é apresentado como sendo etiologicamente inferior ao
branco; 2) o negro é apresentado como sendo biologicamente superior ao
branco; 3) o negro é apresentado como sendo socialmente inferior ao
branco. Vemos que os itens 1 e 3 são desfavoráveis ao negro, enquanto o
item 2 parece, à primeira vista, favorável.
Os mesmos fatores que explicaram a atuação do negro no folclore
brasileiro também explicam, a nosso ver, essas três situações do negro na
sua tradição oral. De fato, a condição servil, se punha o negro em contato
direto com o branco, punha-o em condições de inferioridade. Malgrado a
formação cristã da civilização do senhor, o negro era a “besta de carga”, a
máquina que devia movimentar tudo, desde o interior da Casa-grande, até
as áreas imensas, cobertas pela cultura e pelos engenhos. E como “besta de
carga” era encarado pelo senhor, que dele exigia obediência sem limites e
passividade absoluta, e o obrigava a trabalho insano, sol a sol, denominando
“manhas do negro” qualquer pretexto de fadiga. Além disso, o negro, como
cativo, não gozava das regalias da “pessoa” e ocupava o mais baixo status
da hierarquia social, não tendo, mesmo, durante muito tempo, sequer o
direito à paternidade, pois o filho era propriedade exclusiva do senhor, que
dele dispunha livremente, vendendo-o ou conservando-o de acordo com as
necessidades do momento. Doutro lado, o fato de haver relações sexuais
entre o senhor e a escrava pouco ou quase nada beneficiava a mãe negra e o
filho mestiço, pois ainda a escrava exercia a função de “besta”, da máquina
de reprodução da Casa-grande. E o que o senhor retinha dessas relações,
posteriormente, era o aumento da mão de obra, equilibrando assim o
número de braços com as necessidades de trabalho na fazenda.
A situação social do escravo, por outro lado, vinha reforçar as
representações que já existiam sobre a inferioridade e a bestialidade do
negro, que aliás justificavam a sua submissão e seu emprego como cativo,
por parte dos senhores. O resultado dessas relações sociais, reguladas pela
própria estruturação da sociedade colonial e imperial, bem como a
existência anterior de estereótipos desfavoráveis aos negros, parecem-nos
explicar, convenientemente, essas três situações previstas no nosso folclore.
Podemos analisar a representação da inferioridade etiológica no negro no
ciclo sobre a formação das raças. Aí há uma localização bem definida da
posição do negro, o qual, se aparece criado por Deus, se apresenta inferior em relação aos elementos representantes das demais raças, por uma espécie
de retardamento físico e mental, os quais o inibem de qualquer iniciativa
própria e imediata; ou, então, a noção de inferioridade se patenteia através
da entidade criadora, diferente para o negro e para o branco, o Diabo e
Deus, respectivamente; num último caso, a inferioridade é resultante de
uma maldição motivada pela conduta do suposto ascendente, como veremos
adiante. Esses fatos, cristalizando-se na tradição popular, refletiram-se na
paremiologia, prevendo até a situação dos descendentes mestiços, como
esclarece o seguinte provérbio, que recolhemos no bairro do Pari: “Caipira
descendente de branco é limpo e trabalhador; caipira descendente de preto é
sujo e vagabundo”.
Vejamos as lendas.
“Origem das raças” (Pari).
“Antigamente todos os homens eram pretos. Uma vez Deus resolveu
premiar o esforço de cada um sem nada ter dito a eles: mandou-os
atravessar um rio. O mais esperto, e que tinha mais fé, executou logo as
ordens de Deus, atravessando o rio a nado. Quando saiu do outro lado
estava completamente branco, que era uma beleza.
Outro, quando viu o que aconteceu ao irmão, também correu para as
águas do rio, fazendo a mesma coisa que ele tinha feito. Mas a água estava
suja e ele saiu do outro lado apenas amarelo.
O terceiro também quis mudar a cor, imitando os dois irmãos. Mas a água
estava muito mais suja e quando ele chegou do outro lado viu com desgosto
que estava apenas mulato.
“O quarto, muito molenga e preguiçoso, quando chegou ao rio, Deus já o
tinha feito secar. Então ele molhou os pés e as mãos, apertando-os sobre o
leito do rio. É por isso que o preto tem só as palmas das mãos e as solas dos
pés brancas, e é menos que os outros.”
“O branco e o negro” (Lapa).
“Certo dia, Deus, ao ver o mundo tão bonito, resolveu povoá-lo para dar
mais vida à natureza. Então fez o branco, aproveitando o barro da terra. O
‘Tinhoso’, que sempre anda espiando o que Deus faz para fazer a mesma
coisa, também tratou de fazer um boneco de barro. Quando acabou deu um
assoprão nele e um monstrengo cambaio, preto e de cabelo queimado, saiu
a correr o mundo. O Diabo ficou danado da vida, pois o de Deus era branco
e bonito, mas a culpa foi sua, porque não reparou que sua mão queimava.
Assim nasceu o preto e o branco, um filho do ‘Coisa-Ruim’ e outro de
‘Deus’”.
A representação de que o negro é filho do Diabo está bastante
disseminada entre o povo. Além dessa lenda, recolhemos outra (“Deus, o
Diabo e o português”), de fundo anedótico, em que Deus cria o branco, o
Diabo o negro, e o português, superando os dois, cria uma síntese: o mulato.
Também na poesia popular cabocla há essa “preocupação de diminuir o
preto”, como observa Rodrigues de Carvalho,135 que recolheu várias
quadrinhas, entre as quais destacamos a seguinte:
“O branco é filho de Deus,
O mulato é enteado
O cabra não tem parente
E negro é filho do Diabo”.
A outra lenda, que se refere ao suposto ascendente da raça negra, é a
seguinte:
“Como nasceu a raça negra” (Santa Cecília):
“Quando Caim foi amaldiçoado por Deus, porque matou o seu irmão
Abel, virou negro. E ele, no desespero, procurou um rio para se lavar.
Encontrando um riacho, mal pôs a sola dos pés e as palmas da mão na água,
o riacho secou. É por isso que os negros têm as palmas da mão e a sola dos
pés brancas, enquanto o resto do seu corpo é negro como a noite.”
Outra lenda, que esclarece a posição de inferioridade do negro no folclore
brasileiro, é a seguinte, recolhida por Lindolfo Gomes,136e incluída no seu “Ciclo sobre a formação das raças: o branco, o índio e o negro”.
“Deus criou o branco, o índio e negro.
Quis depois experimentar-lhes as qualidades de inteligências, coragem e
destreza.
Atirou-os a um poço de certa profundidade.
O branco, vendo o perigo em que se achava, pensou no que deveria fazer
e, aproveitando-se das fendas da terra, agarrando-se às paredes do buraco,
salvou-se saindo do poço.”
“O índio, que lhe observara todos os movimentos e expedientes, procurou
imitá-lo, mas só pode conseguir o que desejava trepando às costas do negro.
Mas este, indolente, nada tentou para salvar-se e deixou-se ficar inativo,
sem pedir socorro, sem procurar qualquer recurso até que veio a morrer.
E aí está como Deus, na sua grande sabedoria, fez o negro inferior ao
índio e o índio inferior ao branco.”
Do mesmo modo, há explicações ridicularizadoras dos traços físicos do
negro, na tradição popular, colocando-o, também, em posição inferior:
“Urubu, pássaro preto (Bela Vista)
Pássaro do bico rombudo,
Foi praga que Deus deixou;
Todo negro ser beiçudo”.
Outra explicação, desse gênero, encontramos sobre o nariz do preto, em
Lindolfo Gomes (op. cit.):
“Deus quando fez o negro
Começou no calcanhar,
Quando chegou ao nariz,
Deu o Diabo para acabar,
O Diabo tinha preguiça,
Não queria trabalhar:
Deu um soco no nariz
E o acabou de esborrachar”.
Portanto, não só se explicam no folclore brasileiro o negro como sendo
etiologicamente inferior ao branco e de inteligência e aptidões inferiores,
como também há uma tentativa de explicação dos traços físicos diferentes
(nas lendas – palma da mão etc.; e em outros elementos folclóricos).
118 Série de artigos, publicados em O Estado de S. Paulo (1º/7/1943; 15/7/1943; 22/7/1943). Edição prévia conjunta: F. Fernandes, Mudanças sociais no Brasil, São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1960, p. 344-359.
119 “A poesia popular no Brasil”, Revista Brasileira, vol. VI, 1880, p. 157.
120 Gilberto Freyre, Casa-grande & senzala, Rio de Janeiro, 1938, p. 240.
121 O folclore no Brasil, Rio de Janeiro, 1939, p. 106, e Palestras filológicas, p. 93, apud. loc. cit.
122 Basílio de Magalhães, op. cit., p. 266-268 e 130-131. Arthur Ramos, O folclore negro no Brasil, Rio de Janeiro, 1935, p. 210.
123 Arthur Ramos, op. cit., p. 39.
124 Op. cit., p. 76-78. Cf. também Lindolfo Gomes, Contos populares, vol. I, p. 91-94.
125 O dr. João da Silva Campos recolheu os dois temas. Cf. op. cit., p. 246-249.
126 Arthur Ramos, O negro brasileiro, São Paulo, 1940, p. 47.
127 O negro brasileiro, São Paulo, 1940, p. 365.
128 “A poesia popular no Brasil”, Revista Brasileira, 1879, vol. II, p. 38-39.
129 Canções portuguesas, do séc. XVII à atualidade, Coimbra, 1934, p. 120.
130 O folclore negro no Brasil, Rio de Janeiro, 1935, p. 263.
131 Idem, ibidem, p. 263.
132 De autoria de Orlando Braga, Miguel Lima e Pedrito.
133 “Os negros da história de Alagoas”, Estudos afro-brasileiros, Rio de Janeiro, 1935, p. 87.
134 Emílio Willems, Assimilação e populações marginais do Brasil, São Paulo, 1940, p. 103.
135 “Aspectos da influência africana na formação social do Brasil”, Novos Estudos Afro-brasileiros, Rio de Janeiro, 1937, p. 55.
136 Contos populares, São Paulo, s. d., vol. II, p. 71.
OceanofPDF.com