O Negro no Mundo dos Brancos
Congadas e Batuques em Sorocaba
Capítulo XII
Congadas e Batuques em Sorocaba152
As congadas são autos populares representados pelos pretos por ocasião
das festas de Natal prolongando-se até o dia de Reis. Ao contrário do que
afirmaram Campello, Prado Ribeiro e, a princípio, Gustavo Barroso,153 estes
autos não são de origem puramente africana, como se poderia supor,
baseando-se em seu nome. Como muito bem sintetizou Arthur Ramos,154
“não existem, no Brasil, autos populares típicos de origem exclusivamente
negra. Aqueles onde interveio em maior dose o elemento africano
obedeceram, em última análise, à técnica do desenvolvimento dos antigos
autos peninsulares”. O negro exerceu ação ativa nos autos populares dos
brancos, apoiando-se nos elementos de sua própria cultura. O tema básico
de todas as congadas é, verdade, uma sobrevivência das lutas intestinas,
travadas entre os reis e o chefes de tribos, e a guerra destes contra o invasor,
com a encenação das tradicionais “embaixadas”, comuns entre os africanos
antes do estado de beligerância.
Em 24 de junho de 1706, na vila de Iguaraçu, Pernambuco, ter- se-ia, pela
primeira vez no Brasil, encenado o auto “dos Congos”, segundo o
testemunho de Pereira da Costa,155 baseado em documentos por ele
encontrados e analisados na Irmandade de N. S. do Rosário, desse lugar.
Já nessa primeira representação, descrita pelo citado autor, podemos
observar a influência do branco, nesse popular auto dos pretos, pois, “nos
moldes da monarquia portuguesa, compunham-se de rei, rainha, secretário
de Estado, mestre de campo, arautos, damas de honor e açafatas; e um
serviço militar com marechais, brigadeiros, coronéis e todos os demais
postos do exército”. O auto ainda não apresentava a forma complexa atual,
apesar das personagens permaneceram as mesmas até agora.
A versão que colhemos em Sorocaba é um pouco diferente das demais. As
personagens sofreram alterações sensíveis. Assim, em comparação com as
versões recolhidas em outras regiões do Brasil, podemos notar as seguintes
diferenças: o Príncipe é apenas o herdeiro e não se chama Mametô ou
príncipe Suena, ou Sureno. A Rainha Ginga ou Gino, a vingadora que
manda assassinar o rei, desaparece; suas funções cabem ao Cacique e são
desempenhadas através do Embaixador. Não se tratando de uma vingança
de mulher, como acontece na maioria dos autos desse gênero, podemos
concluir que há uma dupla simbolização. De um lado, o tema primitivo da
luta entre os governantes dos Estados negros e, doutro, o da luta da nova
religião, o catolicismo, com a antiga, a muçulmana, sem que a vitória do
“Rei do Congo” – outro traço original da nossa versão, pois comumente ele
é vencido – o leve a proceder tiranicamente, respeitando, no traiçoeiro rival
derrotado, a crença suplantada. O fato de o Cacique, chefe dos mouros, não
se converter ao catolicismo, como comumente acontece nos autos
populares, como no “dos Mouros”, reforça o nosso ponto de vista.
O perdão do cacique, displicentemente concedido pelo rei, não significa
apenas que a conversão dos escravos fora incompleta. Podemos levar mais
longe a nossa análise:
1) A representação aparece como uma espécie de réplica às crueldades
dos senhores brancos: o negro compraz-se em mostrar-se desprendido e
tolerante, talvez como ele pretendia que procedessem com ele os senhores
brancos. Essa situação é mais ou menos comum, aparecendo em vários
autos das congadas, verbi gratia, o recolhido por Gustavo Barroso,156 pois
neste, ao tentar assassinar o Rei, por ordem da Rainha Gino, o Embaixador
é preso. Ele pede misericórdia, generosamente concedida pelo Rei. Só
depois, enfurecido, é que o Embaixador reaparece, à frente do seu exército,
vingando-se do rei, ao qual humilha.
2) Apresenta o Cacique numa interessante transferência, como o inimigo
comum, representado no mouro invasor. Ao mesmo tempo, o final do auto demonstra o desejo de paz, amizade e colaboração, a que aspirava o negro
do indígena assim representado.
Outra personagem, que desapareceu no nosso auto, foi o Quimboto, o
feiticeiro; aliás, se aparecesse, estaria sem função, pois a vitória do Príncipe
sobre os mouros inverteu o tema dos demais autos em que ele aparece. Na
nossa versão não é o rei quem pede clemência para o filho, mas é este quem
leva as falas do trono ao invasor vencido. Por isso, os cantos e as danças de
encerramento significam uma verdadeira vitória e não apenas a alegria pela
salvação do príncipe morto, que ressuscita, graças aos poderes mágicos do
Quimboto, aparecendo como uma autêntica compensação da derrota, nas
outras versões. Sob este aspecto, muito se assemelha ao nosso o auto dos
Cucumbis, que Mello Morais descreve nas Tradições populares do Brasil.157
O que permaneceu, em todos esses autos, foi o motivo inicial: as festas. O
Rei ordena os preparativos para um régio folguedo em sua corte, quando é
surpreendido por uma guerra que ele não desejava e procura evitar, como
que se referindo à maneira como foram escravizados na primitiva pátria. A
guerra é imposta pelos “turcos”, e quem dirige a defesa e ordena o ataque,
na grande maioria das versões, é o Príncipe.
Um ponto discutível, que a nossa versão pode esclarecer, é o das lutas
contra os “mouros”. Os estudiosos geralmente consideram o assunto do
ponto de vista histórico. O “mouro” seria apenas uma sobrevivência das
antigas lutas nos solos africanos. Para nós, entretanto, pode ser uma
sobrevivência africana, como também um elemento recebido pelo negro
escravo através do romanceiro português e pela catequese, pois a descrição
das Cruzadas seria um ótimo ponto de referência para os sacerdotes
católicos, ilustrando, com exemplos semirromanescos, as representações da
fé cristã. O tema da luta contra os mouros, como esclarece Mello Morais,158
vem-nos através do folclore lusitano, nos autos das “cheganças” (os
“Marujos” e os “Mouros”), “Capitão da Armada” etc. A influência do
catolicismo, doutro lado, salta aos olhos do analista, pois a cruz branca, que todos os figurantes usam no peito, bem como a grande cruz que se destaca
no fundo da bandeira, podem ser encaradas como símbolos das antigas
cruzadas. A hipótese mais defensável seria, sem dúvida, de que houve
concomitância na transmissão dos símbolos e valores, fundindo o negro
traços adquiridos às sobrevivências históricas.
Outro aspecto interessante, a ser analisado, é o que se refere às danças e à
música. Os instrumentos são simples, e rítmicos: cuícas, pandeiros,
bumbos, tambores. A música é monótona e triste. As danças, apesar de sua
simplicidade e monotonia, consistindo na repetição dos mesmos passos e
dos mesmos gestos, participam dos três caracteres essenciais do auto, cada
qual a seu tempo: é profana, religiosa e guerreira. Em outras versões
também pode assumir aspectos funerários, com a morte do Príncipe Sureno.
O fato de assumir a dança esses aspectos diferentes dá, às combinações
coreográficas, uma feição interessante, amenizando os efeitos causados pela
monotonia da música e pobreza dos bailados, aumentando,
concomitantemente, os efeitos cênicos do drama, em cada situação
representada.
Em síntese, o que se pode concluir é que o sincretismo, visível no auto,
foi amplo e definitivo, pois há muito tempo vem sendo assim representado
em Sorocaba, conforme ouvi de negros que foram cativos, embora
dissessem que nunca “saíram de Congo”.
Organização das Congadas159
O povo encarrega-se de fornecer os elementos necessários à encenação do
auto, dando dinheiro, roupa e até comida e bebidas, nos dias de
representação. As casas comerciais e também as particulares contribuem
espontaneamente, pois, além de apreciarem essas representações,
consideram-nas como uma aspecto da tradição local, devendo ser mantidas.
Dos autos participam apenas pretos. Há um instrutor geral (em Sorocaba
era o preto Amâncio de Andrade, falecido em 1942), o qual seis meses antes começa os ensaios, preparando e orientando os comparsas. A escolha
destes não é arbitrária. São elementos de projeção na sociedade de cor e
seus cargos são vitalícios. Só podem ser substituídos depois de mortos.
A organização é completa. Tudo está previsto, em bases contratuais, como
podemos verificar na seguinte obrigação, textualmente copiada:
“Nós, abaixo assinados, damos pleno consentimento para que se
fartamos a este comprimisso, sejamos executados e punidos como um
devedor, e bem assim ficaremos obrigados as penas que nos for imposta. Os
encarregados gozarão dos seus direitos de procuração aos que faltarem.
Sorocaba, 1º de outubro de 1916”.
Torquato Ayres
Salerno das Neves
Sob esta obrigação, assinada pelos chefes presuntivos, assinam todos os
participantes de “hierarquia”, ao lado das funções que preenchem. Desse
modo, assumem uma responsabilidade concreta, à qual não podem faltar.
No caso contrário, os dois líderes têm direito de substituí-los por outras
pessoas. Mas só nessas circunstâncias pode haver substituições. Qualquer
compromisso assumido pela coletividade para a realização do folguedo
deve ser saldado pelos dois líderes.
Os figurantes principais são em número de 26, não se contando alguns
comparsas menores e a crianças, que “formam” o exército dos mouros,
porque, disse-me Salerno, são barulhentas.
A “organização do estado e os fidalgos de Congo” é a seguinte:
Família Real – Rei, Rainha, Príncipe;
Estado-Maior – Secretário, dois Duques, um Conde de Prima, um General
de Armas, um Boletim (arauto), um Capitão do Porto, um Conde de Momée
e um Alferes da Bandeira.
Corte – 12 fidalgos.
Dos inimigos – o Cacique, chefe dos “mouros”, um Embaixador e o
exército das crianças.
Essas personagens desempenham o papel que lhes compete na vida social,
de acordo com a “posição e fidalguia”. O Alferes da Bandeira carrega a
bandeira do reino do Congo, a qual é de fundo azul, em que se destacava
uma cruz branca.
Os vassalos do Rei do Congo vestem um calção azul e uma blusa da
mesma cor. Sobre o ombro, dependurada, tem uma meia capa cor-de-rosa,
e, na cabeça, um chapéu da mesma cor e fazenda. O Rei do Congo veste
uma túnica azul, a qual cai até os seus pés, e uma capa escarlate, do mesmo
comprimento e muito larga, permitindo-lhe jogá-la sobre os ombros de vez
em quando, com a displicência gaiata de um rei de brinquedo. Empunha o
cetro e tem sobre a cabeça uma coroa. A rainha, i.e., a “princesa”, como a
chamam, veste-se toda de branco, com um imenso véu, também branco, e
traz um diadema sobre a cabeça. Os figurantes “mouros” vestem-se de
vermelho.
Como dissemos acima, estes autos prolongam-se do dia 25 de dezembro
até 6 de janeiro; aproveitam todos os domingos, dias santos, feriados, nesse
lapso de tempo, para encenar. A festa é feita em louvor de Nossa Senhora
do Rosário, padroeira dos negros. Segundo nos contou o Cônego Luís
Castanho de Almeida, a influência do auto é tão grande, que em
Itapetininga, onde é mais completo (pois também encenam os
“Moçambiques”), contra a liturgia da Igreja Católica, Nossa Senhora do
Rosário é cultuada no dia de Natal, nas igrejas do lugar.
A representação dura de 20 a 30 minutos e é feita diante das casas das
pessoas que querem que os “Congos” representem diante de suas portas, na
rua. Devem colocar duas poltronas, para o Rei do Congo e para a Rainha, e
podem oferecer comes e bebes aos “Congos”, após a encenação. Depois
disso, eles vão representar noutro lugar.
Os participantes da Congada caminham em duas filas, ou, melhor, em
dois grupos separados, um de cada lado. De um lado, vai o Rei do Congo,
com a sua “corte e fidalguia”; e, do lado oposto, o Cacique com seu
exército. Encontram-se na porta onde devem representar.
No trajeto que fazem, até chegar ao ponto de encontro, cantam o seguinte:
Pisei no tijolo,
Tijolo virou;
Pisei no tijolo,
Tijolo virou;
Moça bonita
Saia na janela
Para ver os congos passar
Que vão para a guerra
São Benedito
Sua casa cheira,
cheira cravos e rosas
E flor de laranjeira
O-la-ré-la
Como é bonito
O São João no altar
João, Mara-João,
Não garrai a maginá
Que a Virgem do Rosário
Nos há de ajudá.
O-dim-lem-lê
O-dim-lê-lá
A cozinheira fica alegre
Quando calça o botiná
Viva o rei
Viva a rainha
Com sua coroa
De platina.
Chegados ao lugar de encenação formam duas filas: uma, representando o
“reinado do Congo”; e, outra, os “mouros”. O Rei e a “Princesa” ficam
sentados no fim, dominando toda a peça.
Sob o som dos instrumentos, com muito “ritmo”, aproximam-se até
encostar os pés retrocedendo depois, enquanto fazem floreado com as
espadas. Os passos são contados, o mesmo número para a frente e para trás,
conservando-se, os parceiros, de frente um para o outro.
Vejamos o diálogo:
Rei
– Olá! Olá, meu secretário
Da minha secretaria
E do meu real estado.
Secretário
– O que manda, rei senhor
neste vosso real mandado?
Rei
– Vejo o mundo inteiro estar na rua
E só em vós me vejo descansado
Secretário
– Rei Senhor!... Seja festa,
Ou seja guerra,
Será tudo desempenhado!
Rei
– Senta-te à minha direita
E vê lá que desses próprios inimigos
Não sejamos atacanados.
Secretário
– Essa dança da folia
Quinambe160 será seu filho
Ele seja nosso guia.
Rei
(ao filho)
– Quinambe, minha querida
Regozijai-vos comigo
Tomando parte neste festim,
Ouviste?
Príncipe
(ao rei)
– Amor para terno rei senhor
É o fogo que me devora neste dia
O qual clama paz.
E vede a multidão do teu povo
Que entorna a teus pés;
Fidalgos reclamam;
Glória seja dado
Exerço rei senhor.
Rei
– Cantai, dançai, alegres, contentes, meus filhos
Que nos emporta com essas temerosas tempestades turcas,
Quando nós tratamos de em festim
Que cuja festa faremos tudo
Em louvor de nossa Virgem do Rosário
E do nosso padroeiro
Glorioso São Benedito.
Príncipe
– Vocês todos estão cientes
Dos festejos deste dia
Vamos louvar com gosto
O rosário de Maria.
Embaixador
– (Ele pede a entrada, mas o Boletim o atrapalha, gritando de longe):
Boletim
– O vosso reino está perdido!
Aqueles santos que lá vêm
Por certo são vossos inimigos.
Rei
– Que notícias são estas
Que vós me contando está?
O meu coração está quieto
Não se move do lugar.
Boletim
– Rei senhor
Eu mesmo sou testemunho
Das notícias que vim te dar:
Uma grande bandeira de guerra
Que vi no campo de Mumbaca.
Quando meus olhos avistou-se
Meus pulsos se quebrou,
O meu coração tremeu.
Fortes gentes valentes
Cada qual suspende as armas,
Cada um mais a contente,
Pois minha rei.
Visto a guerra ser pretos com pretos,
Brancos com brancos
Aonde rompe este vosso forte batalhão
Vamo!... E avançamos.
Rei
– Príncipe e secretário
Vão depressa perguntar:
O que busca nesta terra,
O que vieste aqui buscar
Secretário
(ao embaixador)
– (Falta esta parte. Conforme Salerno, ele repetiria:
Guerra, e mais guerra!)
Secretário
– Pois adiante não irás,
que ao meu rei eu vou contar.
Embaixador
– (Falta outra parte do texto recitado pelo Embaixador)
Secretário
– Arrasados serão teus conguinhos
Que vêm para tua defesa
Adiante do meu rei
Hão de ser desarmados
Pois bem! A meu rei vou contar,
Conta-me como te chama
Quem é teu Deus e quem é teu Santo.
Embaixador
– Meu Deus é Alais
E meu Santo é Maomé.
Secretário
(ao primeiro Duque)
– Guarde bem camarada,
Adiante nem um passo!
Secretário
(ao rei)
– Rei senhor;
Lá vem o embaixador de místico
com várias noções de estado,
Licença vem vos pedir
Para vossa mão beijar;
Como vem alegre e contente.
Que coisa haverá perguntei,
Interrogando quem era seu deus
E quem era seu santo.
Me respondeu:
Meu Deus é Alais
E do santo nem te conto.
Rei
– Príncipe e secretário,
Minha corte e fidalguia!
Vão todos... Prendam e tragam
Debaixo de armas
À minha real presença
E perguntem os nomes;
Contem todos um a um
E me tragam bem escoltados!
Secretário
(ao embaixador)
– Atrevido embaixador!
O Rei te manda prender,
Dirija teus passos,
Chega na presença
Para receber
Tua sentença.
Embaixador
(ao cacique)
– Olhe meu cacique:
Aqui vou eu;
Se eu demorar por estas duas horas,
Ponha teu povo em campo
E vai ver o ultraje
Que sofre este teu Embaixador.
Secretário
(ao embaixador)
– Sou eu quem habito contente
Neste novo pantulário;
Se for guerra me declare.
Nesta ação sem merecer
O teu povo em campo
Que alguma coisa
Tem que trazer
O que querer,
Embaixador!
Embaixador
– (Falta esta parte. Termina:
Guerra e mais guerra!)
Secretário
– Serra as armas aos inimigos!
(Prende o Embaixador. É a guerra.
O embaixador é levado diante do rei)
Embaixador
(ao cacique)
– Aqui vou eu
Com os olhos tapados
Com as mãos amarradas
Sofrer aquela estrondosa morte.
Cacique
– Vai sem maior cuidado;
se sofrer algum insulto
Será pronto e bem vingado.
Embaixador
(ao secretário)
Se um rei eu tivesse
Eu seria perdoado;
Mas como um rei eu não tenho
Fica tudo em teu cuidado.
Secretário
(ao embaixador)
– Sim. Se um rei tu tivesses
Tu eras perdoado;
Mais como rei tu não tens
Fica tudo em meu cuidado.
Mais fale com o Príncipe
Que é um filho muito amado,
Que dentro de meia hora
Teus crimes serão perdoados.
Rei
(ao embaixador)
– Então!?... Por que não joelhas?...
Pensarás que estás falando
Com um simples embaixador,
Como tu?
Embaixador
– Serás tu o grande Alá,
Serás tu o grande Maomé
Para mim curvar em teus pés?
Rei
– Sentai, monarca...
Então sei o que vieste aqui tratar!
Nesse dia de grande festa?
Lá na raia onde tu passaste,
Cá meu povo tu amotinaste.
Embaixador
– Sim, senhor,
Eu vim tratar
De um assunto de divisa de terra
Que vós tem querido nos tomar.
Rei
– Hoje não trato de negócios algum
Estrangeiros ou nacionais
Que me invoca da corte os conselheiros.
Embaixador
– Tem que me ouvir
E temos de tratar,
Veja o que é mister
E pode resultar.
Rei
– Novos extremos de vida?
Embaixador
– Veja o que é mister
E pode resultar.
Rei
– Atrevido embaixador!
Fora de minha real presença!
Eu podia te mandar prender
Na mais escura prisão;
Mas não quero que o teu rei lá diga
Que aproveitei-me da ocasião!...
Embaixador
(o embaixador ameaça o rei. Falta-nos esta parte.)
Rei
– Santo meu patrono!...
Anjo de minha guarda!...
E os soldados que me rodeiam!...
Vejo-me atraiçoado com este atrevimento!
Alvore-se essa bandeira.
Seja ela a nossa mortalha e a nossa guia.
Vamos. Avançamos.
Princesa
– Rei senhor
Não deixai vosso trono perecer
Nem vosso tesouro se perder,
Olhe para a vossa direita
Tem o teu filho príncipe
Para tua defesa:
Tudo quanto espero
Que será vossa grandeza.
Rei
– Sim! Confiando eu na minha alteza
Tornarei ao meu trono;
Porém! É um grande insurto
Para minha fidalguia;
Não posso deixar
De dar garantia.
Avancemos.
Príncipe
– Meu pai ! Meu senhor!
Voltai tranquilo ao teu trono
Que aqui tem filho
Para vossa defesa.
Rei
– Já que tenho filho
De minha merecendência
Tornarei a meu trono.
Mais!... Porém guerra!...
– (O Estado-maior e a corte combatem os “mouros”,
fazendo grande algazarra todos, enquanto manejam
freneticamente as espadas.)
Rei
– Avança, meus camaradas,
E dai o mais fino golpe mortal
Nessa canalha.
(O combate continua.)
Secretário
– Vitória, senhor! (Prendem todos os “mouros”.)
Rei
– Bravos, meus valentes soldados!
(Os vencidos ajoelhados, pedem perdão ao rei.)
Cacique e Embaixador
– Curvando aos vossos pés
Peço perdão de meus crimes:
É modéstia de quem não sabe viver,
E a política de quem não sabe aprender.
Rei
– Levantai-vos, meus filhos.
Os teus crimes estão perdoados;
Chega lá ao teu reino
E diga que o Rei do Congo é poderoso.
“Os mouros”
(Levantam-se e cantam. Não conseguimos recolher
o que eles cantam. O rei manda-lhes entregar as armas.)
Rei
(ao Príncipe)
– Levanta, levanta príncipe:
Faça que chegue ao Cacique a linguagem.
(Então começa a última dança e todos cantam):
Senhor Rei,
Adeus! Adeus!
Pague a visita
E vá com Deus!
Os batuques
Além das congadas, é muito comum, entre os pretos de Sorocaba a
batucada. Vejamos a descrição que nos foi feita pelo sr. Francisco Camargo
César:
“Nas festas populares, como as do Divino Espírito Santo, de Nossa
Senhora Aparecida, de Santo Antônio, São João e São Pedro, nas
comemorações de 13 de maio e na noite de Natal, o samba, que quase todos
denominam ‘pandeiro’ ou ‘batuque’, era muito frequente. O ‘batuque’ era
exclusivamente de gente de cor. A ‘batucada’ é uma dança tipicamente
africana, com muito remelexo de corpo e umbigadas; os instrumentos são: o
bumbo, o pandeiro e a cuíca. A música é rítmica, como todas as músicas
africanas. Atualmente só no bairro de Aparecida, em Sorocaba, pode ser
observado. A santa fica seis meses na catedral e seis meses na igreja desse
bairro. Quando ela é levada para lá, em procissão, há batucada”.
Como se vê, o motivo da dança também é a comemoração de uma santa
padroeira, do hagiológico católico. Enquanto a congada é feita em honra e
louvor de N. S. do Rosário, a batucada é dedicada à N. S. Aparecida,
conservando, pois, um cunho caracteristicamente profano-religioso. Verifica-se que houve uma fusão entre o primitivo motivo da dança e o
culto católico.
De dança profana e feita em qualquer lugar, bastando, para isso, apenas os
sons rítmicos dados pelas palmas das mãos, de um bumbo ou duas colheres,
passou a dança comemorativa de datas festivas e de dias de culto, como o
de N. S. Aparecida.161
Recolhemos os seguintes versos,162 cantados ao som dos bumbos,
tambores e cuícas, monotonamente, entrosando-se o canto e as notas do
instrumental em um único som, lamentoso e impressionante. O movimento
do corpo acompanha, sílaba por sílaba, as notas espaçadas da música e das
vozes.
Pisa no chão
De vagar leão
Ê... Ê... Mariá
Não encoste na parede
Que a parede deixa pó
Ê... Ê... Mariá
Este final é comum a quase todas as batucadas. Note-se que cantam
apenas um dos versos, noite adentro. Outra letra para o batuque é a
seguinte:
Batuque na cozinha
Sinhá não qué
Por causa do batuque
Queimei meu pé
Ou
Quebrei meu pé
Neste, o remelexo do corpo é muito maior, mormente quanto ao
requebrado dos quadris.
As letras por nós recolhidas são monótonas e enervantes, mas estes são
traços do batuque, como podemos avaliar pelas seguintes, colhidas por José
Vieira:163
Chorou ribeira
Chorou ribeira
Chorou ribeira
Óia a saia da Mariquinha
Tirando balão
De tiotê.
Chorou laranjeira
Chorou laranjeira
Chorou laranjeira
Que não desse mais flor
Chorou laranjeira
Chorou laranjeira
152 Artigo redigido com dados recolhidos numa pesquisa realizada em Sorocaba, em 1942, para a cadeira de Antropologia e publicado pelo dr. Emílio Willems na Revista de Sociologia, São Paulo, vol. V, nº 3, 1942, p. 242-254. Posteriormente, Maria de Lourdes Gimenez colheu textos sobre a mesma congada, de outro figurante (o cacique); é provável que se possa reconstruir, agora, o texto literário dessa composição (veja-se Maria de Lourdes Gimenez, “Congada de Sorocaba”, Revista do Arquivo Municipal, São Paulo, vol. CXIX, 1948, p. 30-42). Reproduzido em F. Fernandes, Mudanças sociais no Brasil, São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1960, p. 382-398.
153 Samuel Campello, “Fizeram os negros teatro no Brasil?”, Novos Estudos Afro-brasileiros, Rio de Janeiro, 1937, p. 242; Prado Ribeiro, “Os congos”, Revista do Brasil, vol. XXVIII, 1924, p. 88; Gustavo Barroso, sob o pseudônimo de João do Norte, “Os congos”, Revista do Brasil, vol. VII, 1918, p. 191. Depois corrigiu sua opinião, publicando interessantes estudos sobre o assunto. Além de Ao som da viola, cf. Através dos folclores (São Paulo, 1927), p. 106.
154 O folclore negro do Brasil, Rio de Janeiro, 1935, p. 39. Veja-se sobre o assunto os capítulos 2, 3 e 4.
155 Arthur Ramos, op. cit., p. 39.
156 In artigo citado.
157 p. 159-163. Apud A. Ramos, op. cit., p. 44.
158 Quadros e crônicas (Rio de Janeiro, s. d.), cap. XVIII e “A véspera de reis”, Syn-dike, dez. 1935, p. 41-49. Cf. também Teófilo Braga, Cantos populares do arquipélago açoriano, Porto, 1869, p. 313.
159 Obtivemos todas as informações do líder negro local “Rei do Congo”, sr. Salerno das Neves, o qual nos declarou que não houve congada no ano passado porque a polícia proibiu. As partes do auto, relativas ao Cacique e ao Embaixador, não puderam ser obtidas na ocasião, em virtude de animosidades que os opunham ao “Rei”.
160 Maior, disse-se que significava Salerno das Neves.
161 Sobre o “batuque”, cf. A. Ramos, O folclore negro no Brasil, op. cit., p. 135-141.
162 Dados fornecidos pelo prof. Roberto Paschoalick.
163 “Dança, música e poesia negra no Brasil”, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 1928, p. 667.
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