O Príncipe da Névoa
Capítulo 7
Quando Max, Alicia e Roland chegaram à casa da praia, o carro do médico ainda estava ali. Roland dirigiu a Max um olhar interrogador. Alicia saltou da bicicleta e correu para o alpendre, consciente de que algo de mau se passava. Maximilian Carver, com os olhos frágeis e o semblante pálido os recebeu na porta.
— O que se passou? ― murmurou Alicia.
Seu pai a abraçou. Alicia deixou que os braços do Maximilian Carver a rodeassem e sentiu o tremor de suas mãos.
— Irina teve um acidente. Está em coma. Estamos esperando a ambulância para levá-la ao hospital.
— Mamãe está bem? ― gemeu Alicia.
— Está lá dentro. Com a Irina e o médico. Aqui não se pode fazer nada mais. ― respondeu o relojoeiro com a voz oca e lenta.
Roland, calado e imóvel ao pé do alpendre, engoliu a saliva.
— Ficará boa? ― perguntou Max, pensando que a pergunta resultava estúpida naquelas circunstâncias.
— Não sabemos. ― murmurou Maximilian Carver, que tratou inutilmente de sorrir e entrou de novo em casa.
— Vou ver se sua mãe necessita algo.
Os três amigos ficaram cravados no alpendre, silenciosos como tumbas. Depois de uns segundos, Roland rompeu o silêncio.
— Sinto muito...
Alicia assentiu. Passado pouco tempo a ambulância saiu da estrada e se aproximou da casa. O médico saiu para recebê-la. Em questão de minutos, os dois enfermeiros entraram na casa e colocaram Irina numa maca, envolta em uma manta. Max de relance teve uma visão do rosto branco como cal de sua irmã pequena e sentiu que o estômago lhe caía aos pés. Andrea Carver, com o rosto crispado e os olhos inchados e avermelhados, subiu para a ambulância e dirigiu um último olhar desesperado a Alicia e a Max. Os enfermeiros correram a seus postos. Maximilian Carver se aproximou dos dois irmãos.
— Eu não gosto que fiquem sozinhos. Há um pequeno hotel no povoado; talvez...
— Não nos vai acontecer nada, papai. Agora não se preocupe com mais nada. ― respondeu Alicia.
— Ligarei do hospital e lhes deixarei o número. Não sei o tempo que estaremos fora. Não sei, se houver algo que...
— Vá, papai ― cortou Alicia, abraçando seu pai. — Tudo ficará bem.
Maximilian Carver esboçou um último sorriso entre lágrimas e subiu para a ambulância. Os três amigos contemplaram em silêncio as luzes da ambulância perderem-se na distância enquanto os últimos raios do sol adoeciam sobre o manto púrpura do crepúsculo.
— Tudo sairá bem ― repetiu Alicia para si mesma.
Quando acabaram de procurar roupa seca (Alicia emprestou ao Roland umas calças e uma camisa velha de seu pai), a espera das primeiras notícias se tornou interminável. As luas sorridentes da esfera do relógio do Max indicavam que faltavam apenas uns minutos para as onze da noite quando soou o telefone. Alicia, que estava sentada entre Roland e Max nos degraus do alpendre, levantou-se de um salto e correu para o interior da casa. Antes que o telefone acabasse de tocar pela segunda vez, pegou no auricular e olhou para Max e Roland, assentindo.
— De acordo. ― disse, depois de uns segundos. — Como está mamãe?
Max podia escutar o murmúrio da voz de seu pai através do telefone.
— Não se preocupe. ― disse Alicia. — Não. Não faz falta. Sim, estaremos bem. Ligue amanhã.
Alicia fez uma pausa e assentiu.
— Ligarei. ― assegurou. ― Boa noite, papai.
Alicia pendurou o telefone e olhou para seu irmão.
— Irina está em observação - explicou. — Os médicos disseram que tem uma contusão, mas continua em coma. Dizem que se curará.
— Tem certeza que disseram isso? - perguntou Max. — E mamãe?
— Imagine. De momento passarão ali esta noite. Mamãe não quer ir para um hotel. Voltarão a ligar amanhã às dez.
— E agora, o que vamos fazer? ― perguntou timidamente Roland.
Alicia encolheu os ombros e tratou de desenhar um sorriso tranquilizador em seu rosto.
— Alguém tem fome? ― perguntou aos dois moços.
Max se surpreendeu a si mesmo ao descobrir que estava faminto. Alicia suspirou e esboçou um sorriso de cansaço.
— Parece-me que aos três seria bom jantar algo. ― concluiu. — Votos contra?
Em uns minutos, Max preparou uns sanduíches enquanto Alicia espremia uns limões para fazer limonada. Os três amigos jantaram na mesa do alpendre, sob a tênue claridade amarelada do lampião que ondulava à brisa noturna, envolta numa nuvem dançante de pequenas mariposas da noite. Frente a eles, a lua cheia se elevava sobre o mar e conferia à superfície da água a aparência de um lago infinito de metal incandescente. Jantaram em silêncio, contemplando o mar e escutando o murmúrio das ondas. Quando tinham dado conta de boa parte dos sanduíches e da limonada, os três amigos trocaram um olhar de cumplicidade.
— Não acredito que esta noite vou pregar o olho. ― disse Alicia, levantando-se e observando o horizonte de luz no mar.
— Não acredito que alguém pregue o olho esta noite. ― corroborou Max.
— Tenho uma ideia. ― disse Roland com um sorriso malicioso nos lábios. — Vocês alguma vez se banharam de noite?
— É uma brincadeira? ― espetou Max.
Sem dizer uma palavra, Alicia olhou para os dois moços, com olhos brilhantes e enigmáticos, e caminhou tranquilamente para a praia. Max contemplou atônito como sua irmã entrava na areia e, sem olhar para trás, se desprendia do vestido de algodão branco. Alicia se deteve uns segundos à beira da margem, a pele pálida e brilhante sob a claridade evanescente e azulada da Lua, e depois, lentamente, seu corpo se inundou naquela imensa balsa de luz.
— Não vem, Max? ― disse Roland, seguindo os passos de Alicia na areia.
Max negou em silêncio, observando como seu amigo mergulhava no mar e escutou as risadas de sua irmã entre os sussurros do mar.
Permaneceu ali em silêncio, pensando se aquela palpável corrente elétrica que parecia vibrar entre o Roland e sua irmã, um vínculo que escapava a sua definição e ao qual se sentia alheio, o entristecia ou não. Enquanto os via brincar na água Max soube, provavelmente antes que eles mesmos o percebessem, que entre ambos se estava formando um estreito laço que os haveria de unir num destino irrebatível durante aquele verão.
Ao pensar nisso vieram a sua mente as sombras da guerra que se livrava há pouco e longe daquela praia, uma guerra sem rosto que muito em breve reclamaria seu amigo Roland e, talvez, a ele mesmo. Pensou também em tudo o que tinha acontecido durante aquele longo dia, da visão fantasmagórica do Orpheus sob as águas, o relato de Roland na cabana da praia e o acidente de Irina. Longe das risadas da Alicia e Roland, uma profunda inquietação se apoderou de seu ânimo. Sentia que, pela primeira vez em sua vida, o tempo corria mais rápido do que desejava e que já não podia refugiar-se no sonho dos anos passados. A roda da fortuna tinha começado a girar e, desta vez, ele não tinha atirado os dados do jogo.
Mais tarde, à luz de uma improvisada fogueira na areia, Alicia, Roland e Max falaram pela primeira vez do que estava rondando nas suas cabeça faziam horas. A luz dourada do fogo se refletia nos rostos úmidos e brilhantes de Alicia e Roland. Max observou-os atentamente e decidiu a falar.
— Não sei como explicá-lo, mas acredito que algo está acontecendo. ― começou. — Não sei o que é, mas há muitas coincidências. As estátuas, esse símbolo, o navio...
Max esperava que ambos o contradissessem ou que, com palavras de sensatez que ele não acertava em encontrar, o tranquilizassem e lhe fizessem ver que suas inquietações eram produto de um dia muito longo, que tinham acontecido muitas coisas que ele havia tomado muito a sério. Entretanto, nada disso aconteceu. Alicia e Roland assentiram em silêncio, sem afastar os olhos do fogo.
— Você sonhou com aquele palhaço, não é verdade? - perguntou Max.
Alicia assentiu.
— Há algo que não nos disse antes. ― continuou Max. — Ontem à noite, quando todos foram dormir, voltei a ver o filme que Jacob Fleischmann tinha rodado no jardim de estátuas. Eu estive nesse jardim faz dois dias. As estátuas estavam em outra posição, não sei, é como tivessem se movido. O que eu vi não era o que mostrava o filme.
Alicia olhou para Roland, que contemplava enfeitiçado a dança das chamas no fogo.
— Roland, alguma vez seu avô falou de tudo isto?
O moço pareceu não ter escutado a pergunta. Alicia posou sua mão sobre a mão do Roland e este elevou o olhar.
— Sonhei com esse palhaço em cada verão desde os cinco anos. ― disse em um fio de voz.
Max leu o medo no rosto de seu amigo.
— Acredito que teremos que falar com seu avô, Roland. ― disse Max.
Roland assentiu fracamente.
— Amanhã. ― prometeu com uma voz quase inaudível. — De manhã.