O Príncipe da Névoa

Carlos Ruiz Zafón · Capítulo 18 de 20

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O Príncipe da Névoa

Capítulo 17

A porta do camarote se abriu lentamente e Alicia, encolhida num canto das sombras, permaneceu imóvel e conteve a respiração. A sombra do Príncipe da Névoa se projetou sobre o interior da sala e seus olhos, acesos como brasas, trocaram de cor, do dourado a um vermelho profundo. Caín entrou no camarote e se aproximou dela. Alicia lutou por ocultar o tremor que se havia apoderado dela e encarou o visitante com um olhar desafiante. O mago mostrou um sorriso canino perante tal atitude de arrogância.

— Deve ser herança de família. Todos com vocação de herói. ― comentou amavelmente o mago. — Estou começando a gostar.

— O que quer? ― disse Alicia, impregnando em sua voz trêmula todo o desprezo que pôde reunir.

Caín pareceu considerar a pergunta e descalçou as luvas com parcimônia. Alicia reparou que suas unhas eram longas e afiadas como as pontas de uma adaga. Caín apontou com uma delas.

— Isso depende. O que me sugere você? ― ofereceu o mago docemente, sem afastar seus olhos do rosto de Alicia.

— Não tenho nada para lhe dar. ― replicou Alicia, dirigindo um olhar furtivo à porta aberta do camarote.

Caín negou com o indicador, lendo suas intenções.

— Não seria uma boa ideia. ― sugeriu. — Voltemos à nossa conversa. Por que não fazemos um trato? Um entendimento entre adultos, por assim dizê-lo.

— Que trato? ― respondeu Alicia, esforçando-se por fugir do olhar hipnótico de Caín que parecia sugar sua vontade com a voracidade de um parasita de almas.

— Assim eu gosto, falemos de negócios. Me diga, Alicia, você gostaria de salvar Jacob, perdão, Roland? É um moço charmoso, diria eu - disse o mago lambendo cada uma das palavras de sua oferta com infinita delicadeza.

— O que quer em troca? Minha vida? ― respondeu Alicia, cujas palavras brotavam de sua garganta sem lhe dar tempo para pensar.

O mago cruzou as mãos e franziu o cenho, pensativo. Alicia reparou que nunca piscava.

— Eu tinha pensado em outra coisa, querida. ― explicou o mago, acariciando o lábio inferior com a ponta de seu dedo indicador — O que diz da vida de seu primeiro filho?

Caín se aproximou lentamente dela e aproximou seu rosto ao da moça. Alicia sentiu um intenso fedor adocicado e nauseabundo que emanava de Caín.

Enfrentando seu olhar, Alicia cuspiu na cara do mago.

— Vá para o inferno. ― disse, contendo a raiva.

As gotas de saliva se evaporaram como se as tivesse derramado sobre uma prancha de metal ardente.

— Querida menina, dali venho. ― respondeu Caín.

Lentamente, o mago estendeu sua mão nua para o rosto da Alicia. A moça fechou os olhos e notou o contato gelado de seus dedos e as longas e afiadas unhas sobre sua a sua face durante uns instantes. A espera se fez interminável. Finalmente, Alicia ouviu como seus passos se afastavam e a porta do camarote se fechava de novo. O fedor da podridão escapou pelas juntas da escotilha do camarote como o vapor de uma válvula a pressão. Alicia sentiu o desejo de chorar e golpear as paredes até aplacar sua fúria, mas fez um esforço por não perder o controle e manter a mente clara. Tinha que sair dali e não dispunha de muito tempo para fazê-lo.

Foi até a porta e apalpou o contorno em busca de uma brecha ou alguma fresta que pudesse forçar. Nada. Caín a tinha selado em um sarcófago de alumínio oxidado na companhia dos ossos do velho capitão do Orpheus. Naquele momento, uma forte comoção sacudiu o navio e Alicia caiu de bruços contra o chão. Em poucos segundos, um som apagado começou a tornar-se audível das vísceras do navio. Alicia apoiou o ouvido na porta e escutou atentamente; era o barulho inconfundível da água fluindo. Grande quantidade de água. Alicia, presa pelo pânico, compreendeu o que acontecia; o casco se alagava e o Orpheus se afundava de novo, começando pelas adegas. Desta vez não pôde conter o alarido de seu terror.

Roland tinha percorrido todo o casco do navio em busca de Alicia sem êxito. O Orpheus se transformou em uma labiríntica catacumba submarina de intermináveis corredores e portas trancadas. O mago podia tê-la escondido em dezenas de lugares. Voltou para ponte e tentou deduzir onde poderia estar prisioneira. A sacudida que atravessou o navio o fez perder o equilíbrio e Roland caiu sobre o piso úmido e escorregadio. De entre as sombras da ponte apareceu Caín, como se sua silhueta tivesse emergido do metal rachado do piso.

— Afundamo-nos, Jacob. ― explicou o mago com parcimônia, apontando ao seu redor — Alguma vez você teve o sentido de oportunidade, certo?

— Não sei do que está você falando. Onde está Alicia? ― exigiu Roland, disposto a lançar-se sobre seu oponente.

O mago fechou os olhos e juntou as palmas das mãos como se fosse entoar uma oração.

— Em algum lugar deste navio - respondeu tranquilamente Caín. — Se você foi suficientemente estúpido para chegar até aqui, não estrague tudo agora. Quer lhe salvar a vida, Jacob?

— Meu nome é Roland - atalhou o moço.

— Roland, Jacob... Qual a diferença entre um nome e outro? ― riu Caín. — Eu mesmo tenho vários. Qual é seu desejo, Roland? Quer salvar sua amiga? É isso, não?

— Onde a colocou? ― repetiu Roland. — Maldito seja! Onde está?

O mago esfregou as mãos, como se tivesse frio.

— Sabe o tempo que demora um navio como este para afundar, Jacob? Não me diga. Uns minutos, quanto muito. Surpreendente, verdade? Diga-me ― riu Caín.

— Você quer o Jacob ou como quiser que me chame - afirmou Roland .— Já o tem; não vou fugir. Solte ela.

— Que original Jacob - sentenciou o mago, aproximando-se do moço. — Acabou seu tempo. Um minuto.

O Orpheus começou a escorar lentamente a estibordo. A água que alagava o navio rugia sob seus pés e a debilitada estrutura de metal vibrava fortemente perante a fúria com que as águas abriam caminho através das vísceras do casco de navio, como ácido sobre um brinquedo de cartão.

— O que tenho que fazer? - implorou Roland. — Que espera de mim?

— Bem, Jacob. Vejo que vamos entrando na razão. Espero que cumpra a parte do trato que seu pai foi incapaz de cumprir - respondeu o mago. — Nada mais. E nada menos.

— Meu pai morreu num acidente, eu... ― começou a explicar Roland desesperadamente.

O mago colocou sua mão paternalmente sobre o ombro do moço. Roland sentiu o contato metálico de seus dedos.

— Meio minuto, menino. Um pouco tarde para as histórias de família. ― cortou Caín.

A água golpeava com força o piso sobre o qual se sustentava a ponte e Roland dirigiu um último olhar suplicante ao mago. Caín se ajoelhou na frente de Roland e sorriu ao moço.

— Fazemos um trato, Jacob? - sussurrou o mago.

As lágrimas brotaram do rosto do Roland e lentamente o moço assentiu.

— Bem, bem, Jacob. ― murmurou Caín. — Bem-vindo a casa...

O mago se levantou e assinalou um dos corredores que partiam da ponte.

— A última porta desse corredor. ― indicou Caín. — Mas ouça um conselho. Quando conseguir abri-la, já estaremos submersos na água e sua amiga não terá nenhuma gota de ar para respirar. Você é um bom mergulhador, Jacob. Saberá o que terá que fazer. Recorde seu trato...

Caín sorriu pela última vez e, envolvendo-se em sua túnica, desvaneceu-se na escuridão enquanto passos invisíveis se afastavam sobre a ponte e deixavam rastros de metal fundido no casco do navio. O moço permaneceu paralisado uns segundos, recuperando o fôlego, até que uma nova sacudida no casco do navio o empurrou contra a roda petrificada do leme. A água tinha começado a alagar o nível da ponte.

Roland se lançou para o corredor que o mago lhe tinha indicado. A água brotava das escotilhas aumentavam a pressão e alagava o corredor enquanto o Orpheus se afundava progressivamente no mar. Roland golpeou em vão a porta com os punhos.

— Alicia! ― gritou embora tivesse consciente de que ela não poderia ouvi-lo do outro lado da porta de aço — Sou Roland. Contém a respiração! Vou tirar você daqui!

Roland aferrou a roda da porta e tentou com todas as suas forças fazê-la girar, rasgando as palmas das mãos enquanto a água gelada o cobria por cima da cintura e seguia subindo. A roda cedeu alguns centímetros. Roland inspirou profundamente e forçou de novo a roda, conseguindo que girasse progressivamente até que a água gelada lhe cobriu o rosto e alagou finalmente todo o corredor. A escuridão se apoderou do Orpheus.

Quando a porta se abriu, Roland mergulhou no interior do camarote tenebroso apalpando às cegas em busca de Alicia. Por um terrível momento pensou que o mago o tinha enganado e que não havia ninguém ali. Abriu os olhos sob a água e tentou vislumbrar algo entre a névoa submarina lutando contra a ardência. Finalmente, suas mãos alcançaram um pedaço de tecido do vestido da Alicia que se debatia freneticamente entre o pânico e a asfixia. A abraçou e tentou tranquilizá-la, mas a moça não podia saber quem ou o quê a tinha agarrado na escuridão. Consciente de que sobravam apenas uns segundos, Roland a rodeou pelo pescoço e puxou-a para o exterior do corredor. O casco do navio seguia precipitando-se em sua descida inexorável para as profundidades. Alicia lutava inutilmente e Roland a arrastou até a ponte através do corredor em que flutuavam os despojos que a água tinha arrancado do mais lugar mais profundo do Orpheus. Sabia que não podiam sair do navio até que o casco tivesse tocado o fundo porque, se tentasse, a força de sucção os arrastaria pela corrente submarina sem remédio. Entretanto, não ignorava que tinham transcorrido pelo menos trinta segundos desde que Alicia tinha respirado a última vez e que, a esta altura e em seu estado de pânico, teria começado a inalar água. A ascensão à superfície provavelmente seria o caminho de uma morte segura para ela. Caín tinha planejado cuidadosamente seu jogo.

A espera para que o Orpheus tocasse no fundo parecia infinita e, quando chegou o impacto, parte do teto da ponte desabou sobre Alicia e Roland. Uma forte dor subiu por sua perna e Roland compreendeu que o metal lhe tinha aprisionado um tornozelo. O resplendor do Orpheus se desvanecia lentamente nas profundidades.

Roland lutou contra a aguda agonia que lhe atingia as pernas e procurou o rosto de Alicia na penumbra. Alicia tinha os olhos abertos e se debatia à beira da asfixia. Já não podia conter a respiração nem um segundo mais e suas últimas bolhas de ar escaparam entre seus lábios como pérolas portadoras dos últimos instantes de uma vida que se extinguia.

Roland tomou-lhe o rosto e tentou que Alicia o olhasse nos olhos. Seus olhares se uniram na profundidade e ela compreendeu imediatamente o que Roland se propunha. Alicia negou com a cabeça, tratando de afastar Roland de si. Roland apontou o tornozelo aprisionado sob o abraço mortal das vigas metálicas do teto. Alicia nadou através das águas geladas para a viga abatida e lutou para libertar Roland. Ambos cruzaram um olhar desesperado. Nada nem ninguém poderia mover as toneladas de aço que retinham Roland. Alicia nadou de volta até ele e o abraçou, sentindo como sua própria consciência se desvanecia pela falta de ar. Sem esperar um instante, Roland tomou o rosto da Alicia e, posando seus lábios sobre os da moça, expirou na sua boca o ar que tinha reservado para ela, tal e como Caín tinha previsto desde princípio. Alicia aspirou o ar de seus lábios e apertou com força as mãos de Roland, unida a ele naquele beijo de salvação.

O moço lhe dirigiu um olhar desesperado de adeus e a empurrou contra sua vontade para fora da ponte, onde, lentamente, Alicia iniciou sua ascensão a superfície. Aquela foi a última vez que Alicia viu Roland. Segundos depois, a moça emergiu no centro da baía e pôde ver que a tormenta se afastava lentamente mar adentro, levando consigo todas as esperanças que tinha posto no futuro.

Quando Max viu aflorar o rosto da Alicia sobre a superfície, lançou-se de novo à água e nadou apressadamente até ela. Sua irmã apenas podia manter-se a flutuar e balbuciava palavras incompreensíveis, tossindo violentamente e cuspindo a água que tinha tragado em sua ascensão desde o fundo. Max a rodeou pelos ombros e a arrastou até que pôde ficar em pé a alguns metros da margem. O velho faroleiro esperava na praia e correu a socorrê-los. Juntos tiraram Alicia da água e a estenderam sobre a areia. Victor Kray procurou o pulso da Alicia, mas Max retirou delicadamente a mão trêmula do ancião.

— Está viva, senhor Kray. ― explicou Max, acariciando a face de sua irmã. — Está viva.

O ancião assentiu e deixou Alicia aos cuidados de Max. Cambaleando, como um soldado depois de uma longa batalha, Victor Kray caminhou até a margem e entrou no mar até que a água lhe cobriu a cintura.

— Onde está meu Roland? ― murmurou o ancião, voltando-se para Max — Onde está meu neto?

Max o olhou em silêncio, vendo como a alma do pobre ancião e a força que o tinha mantido todos aqueles anos no alto do farol se perdiam tal como um punhado de areia entre os dedos.

— Não voltará, senhor Kray. ― respondeu finalmente o moço, com lágrimas nos olhos — Roland já não voltará.

O velho faroleiro o olhou como se não pudesse compreender suas palavras. Logo assentiu, mas voltou a olhar para o mar à espera de que seu neto emergisse das águas para unir-se a ele. Lentamente, as águas recuperaram a calma e uma grinalda de estrelas se acendeu sobre o horizonte. Roland nunca voltou.