O Príncipe da Névoa

Carlos Ruiz Zafón · Capítulo 9 de 20

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O Príncipe da Névoa

Capítulo 8

Pouco antes do amanhecer, Roland montou de novo sua bicicleta e pedalou de volta à casa do farol. Enquanto percorria a estrada da praia, um pálido resplendor âmbar começava a tingir o céu com uma abóbada de nuvens baixas. Sua mente ardia de inquietação e excitação. Acelerou a marcha até o limite de suas forças, com a vã esperança de que o castigo físico aplacasse os milhares de interrogações e temores que o golpeavam interiormente.

Uma vez cruzada a baía do porto e depois de dirigir-se para o caminho ascendente que conduzia ao farol, Roland deteve a bicicleta e recuperou o fôlego. No alto dos escarpados, o feixe do farol fatiava as últimas sombras da noite como uma lâmina de fogo através da névoa. Sabia que seu avô permanecia ainda ali, espectador e silencioso, e que não deixaria seu posto até que a escuridão se desvanecesse completamente à luz da alvorada. Durante anos, Roland tinha convivido com aquela doentia obsessão do ancião sem questionar, nem a razão nem a lógica de sua conduta. Era simplesmente algo que tinha assimilado desde menino, uma faceta mais de sua vida diária que tinha aprendido a não dar importância.

Entretanto, com o tempo Roland tinha tomado consciência de que a história do ancião tinha algo secreto. Mas nunca até hoje tinha compreendido tão claramente que seu avô lhe tinha mentido ou, pelo menos, não lhe tinha contado toda a verdade. Não duvidava nem por um instante da honestidade do velho. De fato, com o passar dos anos seu avô lhe tinha desvendando pedaço a pedaço as peças daquele estranho quebra-cabeças cujo centro parecia agora tão claro: o jardim de estátuas. Umas vezes com palavras pronunciadas em sonhos; outras vezes, a maior parte, com respostas incompletas às perguntas que Roland lhe formulava.

De algum jeito intuía que se seu avô o tinha mantido à margem de seu segredo, era para protegê-lo. Aquele estado de graça, entretanto, parecia chegar ao fim e a hora de enfrentar a verdade estava cada vez mais próxima.

Empreendeu de novo a marcha enquanto tratava de apagar por um momento aquele tema de seu pensamento. Tinha acordado há muitas horas e seu corpo começava a acusar a fadiga. Uma vez que chegou à casa do farol, deixou a bicicleta apoiada sobre a cerca e entrou em casa sem incomodar-se em acender a luz. Subiu as escadas até seu quarto e desabou sobre a cama como um peso morto.

Da janela do quarto podia avistar o farol, que se elevava a uns trinta metros da casa, e, por detrás das vidraças de sua vigia, a silhueta imóvel de seu avô. Fechou os olhos e tratou de conciliar o sono.

Os acontecimentos daquela jornada desfilaram por sua mente, desde a descida submarina ao Orpheus ao acidente da pequena irmã de Alicia e Max. Roland pensou que era estranho e reconfortante uma vez comprovar como apenas umas horas juntos os tinham unido tanto. Ao pensar agora na solidão de sua habitação, nos dois irmãos, sentia como se eles fossem desde aquele dia seus dois amigos mais íntimos, os dois companheiros com os quais compartilharia todos seus segredos e suas inquietações. Comprovou que só o fato de pensar neles lhe transmitia uma sensação de segurança e companhia e que, em correspondência, ele sentia uma profunda lealdade e gratidão por aquele pacto invisível que parecia tê-los unido naquela noite na praia.

Quando finalmente o cansaço superou a excitação acumulada ao longo de todo o dia, os últimos pensamentos de Roland enquanto caminhava para um sono profundo e reparador não foram para a misteriosa incerteza que se abatia sobre eles nem para a sombria possibilidade de ser chamado a combater durante o outono. Aquela noite, Roland dormiu placidamente nos braços de uma visão que teria que o acompanhar durante o resto de sua vida: Alicia, apenas envolta na claridade da Lua, sua pele branca submergia num mar de luz de prata.

O dia amanheceu sob um manto de nuvens escuras e ameaçadoras que se estendiam desde o ponto mais longínquo do horizonte e filtravam uma luz mortiça e nebulosa que fazia pensar em um frio dia de inverno. Apoiado no corrimão metálico do farol, Victor Kray contemplou a baía a seus pés e pensou que os anos no farol lhe tinham ensinado a reconhecer a estranha e misteriosa beleza murcha daqueles dias aborrecidos e vestidos de tormenta que pressagiavam a eclosão do verão na costa.

Da atalaia do farol o povoado adquiria a curiosa aparência de uma maquete cuidadosamente construída por um colecionador. Mais à frente, encaixada a norte, estendia-se a praia como uma linha branca interminável. Em dias de sol intenso, do mesmo lugar onde agora observava Victor Kray, o casco do Orpheus podia distinguir-se claramente sob o mar, como se tratasse de um enorme fóssil mecânico parado na areia. Aquela manhã, entretanto, o mar balançava como um lago escuro e sem fundo. Enquanto escrutinava a superfície impenetrável do oceano, Victor Kray pensou nos últimos vinte anos que tinha passado naquele farol que ele mesmo tinha construído. Ao olhar para trás, sentia cada um desses anos como uma pesada laje em suas costas.

Com o tempo, a angústia secreta daquela espera interminável o tinha feito pensar que talvez tudo tenha sido uma ilusão e que sua obstinada obsessão o tinha convertido no sentinade uma ameaça que só tinha existido em sua própria imaginação. Mas, uma vez mais, os sonhos haviam voltado. Por fim, os fantasmas do passado tinham despertado de um sonho de longos anos e voltaram a percorrer os corredores de sua mente. E com eles, havia voltado o temor de ser já muito velho e débil para confrontar o seu antigo inimigo.

Fazia anos que tinha mais dedos numa mão do que as horas que dormia, apenas três horas diárias; o resto de seu tempo passava praticamente sozinho no farol. Seu neto Roland tinha por costume dormir várias noites por semana em sua cabana da praia e não era estranho que às vezes, durante dias, passassem juntos um par de minutos. Aquele afastamento de seu próprio neto ao que Victor Kray se condenou voluntariamente lhe proporcionava pelo menos uma certa paz de espírito, pois tinha a certeza de que a dor que sentia por não poder compartilhar aqueles anos da vida do moço era o preço que deveria pagar pela segurança e a felicidade futuras de Roland.

Apesar de tudo, cada vez que da torre do farol via como o moço mergulhava nas águas da baía junto ao casco do Orpheus, sentia que lhe gelava o sangue. Nunca queria que Roland tivesse percepção disso e desde sua infância tinha respondido a suas perguntas sobre o navio e sobre o passado tratando de não mentir e, ao mesmo tempo, de não lhe contar a verdadeira natureza dos fatos. No dia anterior, enquanto contemplava Roland e seus dois novos amigos na praia, se perguntou se aquele não teria sido um erro grave.

Estes pensamentos o mantiveram no farol durante mais tempo do que era costume passar em cada manhã. Habitualmente, voltava para casa antes das oito. Victor Kray olhou seu relógio e comprovou que já passavam das dez e meia. Desceu a espiral metálica da torre para ir para casa e aproveitar as escassas horas de sono que seu corpo lhe permitia. Pelo caminho, viu que a bicicleta do Roland estava ali e que o moço tinha vindo passar a noite. Quando entrou na casa, tentando não fazer ruído para não alterar o sono de seu neto, descobriu que Roland o esperava, sentado em uma das velhas poltronas da sala de jantar.

— Não podia dormir, avô. ― disse Roland, sorrindo ao ancião. — Dormi um par de horas como um tronco e depois despertei de repente sem conseguir voltar a dormir.

— Sei o que é isso, ― respondeu Victor Kray ― mas conheço um truque infalível.

— Qual é? ― perguntou Roland.

O ancião exibiu seu maroto sorriso, capaz de lhe arrebatar sessenta anos de cima.

— Ficar cozinhando. Tem fome?

Roland pensou na pergunta. O certo é que a imagem de torradas com manteiga, geleia e ovos esquentados lhe produzia uma comichão no estômago. Sem dar mais voltas, assentiu.

— Bem. ― disse Victor Kray. — Você será o ajudante. Andando.

Roland seguiu seu avô até a cozinha e se dispôs a seguir as instruções do ancião.

— Como eu sou o engenheiro - explicou Victor Kray, eu fritarei os ovos. Você prepara as torradas.

Em questão de minutos, avô e neto conseguiram encher a cozinha de fumaça e impregnar a casa daquele aroma irresistível a café da manhã recém preparado. Logo, ambos se sentaram frente a frente à mesa da cozinha e brindaram com seus copos transmargentes de leite fresco.

— O café da manhã de pessoas que têm de crescer. ― brincou Victor Kray, atacando com voracidade fingida sua primeira torrada.

— Ontem estive no navio. ― disse Roland em voz baixa, baixando a vista.

— Sei. ― disse e continuou sorrindo e mastigando. — Alguma novidade?

Roland duvidou um segundo, deixou o copo de leite e olhou para o ancião que tratava de manter seu semblante risonho e despreocupado.

— Acredito que algo de mal está ocorrendo, avô. ― disse finalmente ― algo que tem a ver com umas estátuas.

Victor Kray sentiu que lhe formava um nó de aço no estômago. Deixou de mastigar e abandonou a torrada meio comida.

— Este meu amigo, Max, viu coisas. ― continuou Roland.

— Onde vive seu amigo? ― perguntou o ancião, com voz serena.

— Na velha casa dos Fleischmann, na praia.

Victor Kray assentiu lentamente.

— Roland, me conte tudo o que você e seus amigos viram. Por favor.

Roland encolheu os ombros e relatou as incidências dos últimos dois dias, desde que tinha conhecido Max até a noite que acabava de finalizar.

Quando tinha terminado seu relato, olhou para o seu avô, tratando de ler seus pensamentos. O ancião, imperturbável, dedicou-lhe um sorriso tranquilizador.

— Acabe seu café da manhã, Roland. ― indicou.

— Mas?... ― protestou o moço.

— Logo, quando tiver acabado, vá procurar seus amigos e traga-os aqui. ― explicou o ancião. — Temos muito do que falar.

Às 11.34 daquela manhã, Maximilian Carver telefonou do hospital para comunicar a seus filhos as últimas novidades. A pequena Irina estava melhorando lentamente, mas os médicos ainda não se atreviam a assegurar que estivesse fora de perigo. Alicia comprovou que a voz de seu pai refletia uma certa calma e que o pior já tinha passado .

Cinco minutos mais tarde, o telefone soou de novo. Desta vez era Roland, que ligava do café do povoado. Ao meio dia, encontrariam-se no farol. Quando Alicia pendurou o telefone, o olhar enfeitiçado que Roland lhe dirigiu a noite anterior na praia voltou para sua mente. Sorriu para si mesmo e saiu ao alpendre, para comunicar a Max as notícias. Distinguiu a silhueta de seu irmão sentado na areia, olhando o mar. No horizonte, os primeiros riscos de uma tormenta elétrica acenderam uma fagulha de luz na abóbada do céu. Alicia caminhou até a margem e se sentou junto a seu irmão. O ar frio daquela manhã feria a pele e desejou ter trazido consigo um bom pulôver.

— Ligou Roland. ― disse Alicia. — Seu avô quer nos ver.

Max assentiu em silêncio, sem afastar o olhar do mar. Um raio que caía sobre o oceano quebrou a linha do céu.

— Você gosta de Roland, verdade? ― perguntou Max, brincando com um punhado de areia entre os dedos.

Alicia considerou a pergunta de seu irmão durante uns segundos.

— Sim. ― respondeu. — E acredito que eu também sou do gosto dele. Por que, Max?

Max encolheu os ombros e lançou um punhado de areia até a linha onde rompia a maré.

— Não sei. ― disse Max. — Pensava no que disse Roland sobre a guerra e isso. Que seria melhor se o recrutassem depois do verão... É igual. Suponho que não é meu assunto.

Alicia se voltou para seu irmão pequeno e procurou o olhar evasivo de Max. Arqueava as sobrancelhas do mesmo modo que Maximilian Carver e seus olhos cinzas refletiam, como sempre, muito nervos sepultados ao mesmo nível da pele.

Alicia rodeou com os seus braços os ombros de Max e lhe beijou a face.

— Vamos para dentro. ― disse, sacudindo a areia que tinha colado ao vestido — Aqui faz frio.