O Príncipe da Névoa
Capítulo 16
Max pedalava sob a chuva quando um deslumbrante raio o sobressaltou e revelou a visão do Orpheus, ressurgido das profundezas e impregnado de uma luminosidade hipnótica que emanava do próprio metal. O velho casco do navio de Caín navegava de novo sobre as águas enfurecidas da baía. Max pedalou até perder o fôlego, temendo que, quando chegasse à cabana, já seria muito tarde. Tinha deixado para trás o velho faroleiro, que já não podia, se igualar a seu ritmo. Ao chegar à praia, Max saltou da bicicleta e correu para a cabana de Roland. Descobriu que a porta tinha sido arrancada das dobradiças e localizou a silhueta paralisada de seu amigo na margem, olhando enfeitiçado o casco do navio fantasma que navegava no fluxo das ondas. Max deu graças aos céus e correu para abraçá-lo.
— Está bem? - gritou contra o vento que açoitava a praia.
Roland lhe devolveu um olhar de pânico, como o de um animal ferido e incapaz de escapar de seu depredador. Max viu nele aquele rosto infantil que havia sido refletido pela câmara frente no espelho e sentiu um calafrio.
— Ele tem a Alicia. ― disse Roland finalmente.
Max sabia que seu amigo não compreendia o que estava acontecendo realmente e pensou que tentar explicar-lhe só complicaria a situação.
— Aconteça o que acontecer, - disse Max ― se afaste dele. Ouviu-me? Se afaste de Caín.
Roland ignorou suas palavras e entrou na água até que as ondas lhe cobriram a cintura. Max foi atrás dele e o deteve, mas Roland, mais forte que seu amigo, escapou facilmente e o empurrou com força antes de se lançar a nadar.
— Espere! ― gritou Max. — Não sabe o que está se passando! Ele procura você!
— Já sei. ― replicou Roland sem lhe dar tempo de pronunciar uma palavra mais.
Max viu mergulhar seu amigo nas ondas e emergir uns metros mais à frente, nadando para o Orpheus. A metade prudente de sua alma pedia-lhe urgentemente para correr de volta à cabana e esconder-se sob a cama de armar até que tudo tivesse resolvido. Como sempre, Max escutou à outra metade e se lançou atrás de seu amigo com a certeza de que, desta vez, não voltaria para terra com vida.
Os longos dedos embainhados em uma luva de Caín se fecharam sobre o pulso de Alicia como uma tenaz, e a moça sentiu que o mago a atirava, arrastando-a sobre a coberta escorregadia do Orpheus. Alicia tentou livrar-se lutando com força. Caín se voltou e, elevando-a no ar sem nenhum esforço, aproximou seu rosto a escassos centímetros do rosto de Alicia, até que a moça pôde ver como as pupilas daqueles olhos ardentes de raiva se dilatavam e mudavam de cor, do azul ao dourado.
— Não repetirei. ― ameaçou o mago com voz metálica e carente de vida. — Fique quieta ou se arrependerá. Entendeu-me?
O mago incrementou dolorosamente a pressão de seus dedos e Alicia temeu que, se não o detivesse, Caín lhe esmagava os ossos do pulso como se fossem de argila seca. Alicia compreendeu que era inútil opor resistência e assentiu nervosamente. Caín afrouxou a pressão e sorriu. Não havia compaixão nem cortesia naquele sorriso, só ódio. O mago a soltou e Alicia caiu de novo sobre a coberta, batendo a frente do corpo contra o metal. Apalpou a pele e sentiu a ardência aguda de um corte aberto pela queda. Sem lhe conceder um instante de trégua, Caín a agarrou de novo pelo seu braço machucado e a arrastou para as entranhas do casco do navio.
— Se levante. ― ordenou o mago, empurrando-a através de um corredor que se estendia atrás da ponte do Orpheus e conduzia aos camarotes da coberta.
As paredes estavam enegrecidas e cobertas de óxido e uma capa viscosa de algas escuras. O interior do Orpheus estava submerso em um palmo de água lamacenta que desprendia vapores nauseabundos. Dezenas de despojos flutuavam e se balançavam com o forte vaivém do navio entre o fluxo das ondas. O Dr. Caín agarrou Alicia pelo cabelo e abriu uma das portas que dava para um camarote. Uma nuvem de gases e água poluída aprisionados no interior durante vinte e cinco anos encheram o ar. Alicia conteve a respiração. O mago esticou com força seu cabelo e a arrastou até a porta do camarote.
— A melhor suíte do navio, querida. O camarote do capitão para minha convidada de honra. Desfrute da companhia.
Caín a empurrou brutalmente para o interior e fechou a porta. Alicia caiu de joelhos e apalpou a parede atrás de suas costas, em busca de um ponto de apoio. O camarote estava praticamente consumido pela escuridão e a única claridade que conseguia vislumbrar provinha de um estreito olho de boi que pelos anos submerso nas águas haviam coberto com uma grossa crosta semitransparente de algas e restos orgânicos. As contínuas sacudidas do navio pela tormenta a empurravam contra as paredes do camarote. Alicia segurou-se a um tubo oxidado e escrutinou a penumbra, lutando por separar de sua mente o fedor penetrante que reinava naquele lugar. Seus olhos demoraram alguns minutos a habituar-se às mínimas condições de luz e então começou a examinar a cela que Caín lhe tinha reservado. Não havia outra saída à vista que aquela porta que o mago tinha selado ao sair. Alicia procurou desesperadamente uma barra de metal ou um objeto contundente para tentar forçar a porta do camarote, mas não pôde achar nada. Enquanto apalpava na penumbra tentando encontrar uma ferramenta que lhe permitisse libertar-se, suas mãos roçaram algo que tinha estado apoiado contra a parede. Alicia se afastou, sobressaltada. Os restos irreconhecíveis do capitão do Orpheus caíram a seus pés e Alicia compreendeu a quem se referia Caín ao falar da sua companhia. O destino não tinha jogado a favor do velho holandês errante. O estrondo do mar e o temporal afogaram seus gritos.
Por cada metro que Roland ganhava em seu caminho até ao Orpheus, a fúria do mar o arrastava para baixo da água e o devolvia à superfície na rebentação de uma onda, o envolvendo em um turbilhão de espuma cuja força não podia combater. Frente a ele, o navio se debatia com o embate da ondulação que o temporal lançava contra o casco.
À medida que se aproximava do casco do navio, e com a violência do mar, se tornava mais dificultoso controlar a direção em que a corrente o sacudia, e Roland temeu que um golpe repentino da onda pudesse empurrá-lo contra o casco do Orpheus e fazer-lhe perder os sentidos. Se isso acontecesse, o mar o engoliria vorazmente e jamais voltaria para a superfície. Roland mergulhou para se esquivar da crista de uma onda que se abatia sobre ele e emergiu de novo, comprovando que a onda se afastava para a costa formando um vale de água turva e agitada.
O Orpheus se elevava a menos de uma dúzia de metros de onde se encontrava e ao contemplar a parede de aço tingida de luz incandescente soube que seria impossível subir até a coberta. O único caminho viável era a brecha que as rochas tinham aberto no casco, provocando o afundamento do navio vinte e cinco anos atrás. A brecha se encontrava na linha de flutuação e aparecia e submergia sob as águas a cada movimento da ondulação. Os farrapos de metal da fuselagem que rodeavam o buraco negro eram semelhantes à boca de uma grande besta marinha. E só ideia de introduzir-se naquela armadilha aterrorizava Roland, mas era a sua única oportunidade de chegar até Alicia. Lutou para não ser arrastado pela seguinte onda e, quando a crista tinha passado sobre ele, lançou-se para o buraco do casco e penetrou nele como um torpedo humano para as trevas.
Victor Kray atravessou sem fôlego as ervas selvagens que separavam a baía do caminho do farol. A chuva e o vento caíam com força e freavam seu avanço como mãos invisíveis empenhadas em afastá-lo daquele lugar. Quando conseguiu chegar até a praia, o Orpheus se elevava no centro da baía, navegando em linha reta para o escarpado e estava envolto em uma aura de luz sobrenatural. A proa do navio rompia o fluxo das ondas que varria a coberta e levantava uma nuvem de espuma branca a cada nova sacudida do oceano. Uma sombra de desespero se abateu sobre ele: seus piores temores se tornaram realidade e tinha fracassado; os anos tinham debilitado sua mente e o Príncipe da Névoa o tinha enganado uma vez mais. Só pedia aos céus que não fosse muito tarde para salvar Roland do destino que o mago tinha reservado para ele. Naquele momento, Victor Kray teria entregue de boa vontade sua vida se com isso garantisse a Roland a mínima oportunidade de escapar. Entretanto, uma escura premonição o fazia suspeitar que tinha faltado à promessa que fez à mãe do menino.
Victor Kray se encaminhou para a cabana de Roland, com a vã esperança de encontrá-lo ali. Não havia rastro de Max nem da moça e a visão da porta da cabana derrubada na praia o fez albergar os piores augúrios. Então, uma faísca de esperança se acendeu ao comprovar que havia luz no interior da cabana. O faroleiro se apressou para a entrada, chamando o nome de Roland. A figura de um lançador de facas de pedra pálida e viva saiu para o receber.
— Um pouco tarde para lamentar-se, avô. ― disse, permitindo ao ancião reconhecer a voz de Caín.
Victor Kray deu um passo atrás, mas havia alguém em suas costas e, antes que pudesse reagir, sentiu um golpe seco na nuca. Depois, caiu na escuridão.
Max reparou que Roland penetrava no casco do Orpheus através do buraco na fuselagem e sentiu que suas forças fraquejavam a cada nova sacudida das ondas. Ele não era um nadador comparável a Roland e com muita dificuldade conseguiria manter-se flutuando durante muito tempo no meio daquele temporal, a menos que encontrasse um modo de subir a bordo do casco do navio. Por outro lado, a certeza de que o perigo os esperava nas vísceras do navio se tornava mais evidente a cada minuto que passava e compreendia que o mago os estavam levando para seu terreno como moscas ao mel.
Depois de escutar um estrondo ensurdecedor, Max contemplou como uma imensa parede de água se elevava pela popa do Orpheus e se aproximava com grande velocidade do casco de navio. Em poucos segundos, o impacto da onda arrastou o navio até o escarpado e a proa se incrustou nas rochas, provocando uma violenta sacudida em todo o casco. O mastro que sustentava os sinais luminosos da ponte desabou com o flanco do navio e seu extremo caiu a uns metros de Max, que mergulhou nas águas.
Max nadou afincadamente até ali, aferrou-se ao mastro e descansou uns segundos para recuperar o fôlego. Quando elevou o olhar, viu que a trajetória do mastro abatido lhe estendia uma ponte até a coberta do navio. Antes que uma nova onda o arrancasse dali e o levasse para sempre, Max começou a subir para o Orpheus sem reparar que, apoiada no corrimão de estibordo do casco do navio, uma silhueta o esperava imóvel.
O impulso da corrente empurrou Roland através da sentina alagada do Orpheus e o moço protegeu o rosto com os braços para evitar os golpes que seu avanço entre os restos do naufrágio assim previam. Roland se balançou a mercê da água até que uma sacudida no casco o lançou contra a parede, onde pôde agarrar-se a uma escada metálica que subia para a parte superior do navio.
Roland subiu pela estreita escada e cruzou uma escotilha que desembocava na escura sala das máquinas que albergava os motores destruídos do Orpheus. Atravessou os restos da maquinaria até o corredor que ascendia à coberta e, uma vez ali, cruzou a toda pressa o corredor de camarotes até chegar à ponte do casco do navio. Paradoxalmente, Roland reconhecia cada recanto da sala e todos os objetos que tantas vezes tinha observado quando mergulhava debaixo da água. Daquele posto de observação, Roland obtinha uma visão completa da coberta dianteira do Orpheus, onde as ondas varriam a superfície e morriam contra a plataforma da ponte. Subitamente, Roland sentiu que o Orpheus era impulsionado para a frente com uma força imparável e contemplou atônito como entre as sombras emergia o escarpado na proa do navio. Foram chocar contra as rochas em questão de segundos.
Roland se apressou a segurar-se na roda do leme seus pés escorregaram sobre o manto de algas que cobriam o piso. Rodou vários metros até ser golpeado pelo antigo aparelho de rádio e seu corpo experimentou a tremenda vibração do impacto do casco contra os escarpados. Passado o pior momento, levantou-se e escutou um som próximo de uma voz humana no fragor da tormenta. O som se repetiu e Roland o reconheceu, era Alicia gritando por ajuda em algum lugar do casco do navio.
Os dez metros que Max teve de subir pelo mastro até a coberta do Orpheus pareciam muito mais de cem. A madeira estava praticamente podre e tão estilhaçada que, ao alcançar finalmente a amurada do casco do navio, seus braços e pernas estavam infestados de pequenas feridas que lhe provocavam um forte ardor. Max julgou mais prudente não deter-se examinando seus machucados e estendeu uma mão até ao corrimão metálico. Estava tão obstinado que saltou desajeitadamente sobre a coberta e caiu de bruços. Uma forma escura cruzou frente a ele e Max elevou o olhar, com a esperança de ver o Roland. A silhueta de Caín desdobrou sua capa e lhe mostrou um objeto dourado que se balançava do extremo de uma corrente. Max reconheceu seu relógio.
— É isto que procura? ― perguntou o mago, ajoelhando-se junto ao moço e balançando o relógio que Max tinha perdido no mausoléu de Jacob Fleischmann perante seus olhos.
— Onde está Jacob? ― interrogou Max, ignorando a careta zombadora que parecia colada ao rosto de Caín como uma máscara de cera.
— Essa é a pergunta do dia, ― respondeu o mago ― e você me ajudará a respondê-la.
Caín fechou sua mão sobre o relógio e Max escutou o rangido do metal. Quando o mago mostrou de novo a palma aberta, o que restava do presente, que seu pai tinha feito, era uma massa irreconhecível de parafusos e porcas esmagadas.
— O tempo, querido Max, não existe; é uma ilusão. Inclusive seu amigo Copérnico teria adivinhado isso se tivesse tido precisamente tempo. Irônico, não é?
Max calculou mentalmente as possibilidades que tinha de saltar pela amurada e escapar do mago. A luva branca de Caín se fechou sobre sua garganta antes que pudesse respirar.
— O que é o que vai fazer comigo? ― gemeu Max.
— O que faria você se estivesse em meu lugar? ― perguntou o mago.
Max sentiu como a presa letal de Caín lhe cortava a respiração e a circulação do sangue na cabeça.
— É uma boa pergunta, verdade?
O mago soltou Max sobre a coberta. O impacto do metal ferrugento contra seu corpo lhe nublou a visão por uns segundos e um espasmo de náuseas se apoderou dele.
— Por que persegue Jacob? ― balbuciou Max, tratando de ganhar tempo para Roland.
— Negócios são negócios, Max. ― respondeu o mago. — Eu já cumpri minha parte do trato.
— Mas que importância pode ter a vida de um menino para você? ― espetou Max. — Além disso, já se vingou matando Dr. Fleischmann, certo?
O rosto de Dr. Caín se iluminou, como se Max acabasse de formular a pergunta que ansiava responder desde que tinham iniciado seu diálogo.
— Quando não se salda a dívida de um empréstimo, terá que pagar juros. Mas isso não anula a dívida. É minha lei ― retumbou a voz do mago. — E é meu alimento. A vida do Jacob e a de muitos outros como ele. Sabe quantos anos faz que percorro o mundo, Max? Sabe quantos nomes tive?
Max negou agradecendo cada segundo que o mago perdia falando com ele.
— Diga-me. ― respondeu com um fio de voz, fingindo uma temerosa admiração pelo seu interlocutor.
Caín sorriu eufórico. Naquele momento, aconteceu o que Max estava temendo. Entre o estrondo da tormenta, escutou-se a voz de Roland chamando Alicia. Max e o mago cruzaram um olhar; ambos o tinham ouvido. O sorriso se desvaneceu do rosto de Caín e recuperou a escura face de um predador faminto e sanguinário.
— Muito esperto. ― murmurou.
Max engoliu a saliva, preparado para o pior.
O mago desdobrou uma mão frente a ele e Max contemplou petrificado como cada um de seus dedos se transformavam em uma longa agulha. A poucos metros dali, Roland gritou de novo. Caín se voltou para olhar atrás de suas costas e Max se equilibrou para a amurada do casco de navio. A garra do mago se fechou sobre sua nuca e o fez girar lentamente, até enfrentar cara a cara o Príncipe da Névoa.
— Lamento que seu amigo não tenha nem metade de sua habilidade. Possivelmente deveria fazer uns acordos com você. Outra vez será ― cuspiram os lábios do mago. — Adeus, Max. Espero que tenha aprendido a mergulhar desde a última vez.
Com a força de uma locomotiva, o mago lançou o Max pelo ar, de volta ao mar. O corpo de Max traçou um arco com mais de dez metros e caiu sobre o mar, mergulhando na forte corrente gelada. Max lutou para sair da ondulação e bateu os braços e pernas com todas suas forças para escapar da letal força de sucção que parecia o arrastar para a negra escuridão do fundo. Nadando às cegas, sentiu que seus pulmões estavam a ponto de estalar e finalmente emergiu a poucos metros das rochas. Inspirou uma baforada de ar e, lutando por manter-se flutuando, conseguiu que lentamente as ondas o levassem até a margem da parede rochosa onde conseguiu agarrar-se a uma saliência, subir e ficar a salvo. As arestas afiadas das rochas lhe morderam a pele e Max sentiu como abriam pequenas feridas em seus membros, tão entorpecidos pelo frio que apenas podia sentir a dor. Lutando para não desfalecer, subiu uns metros até encontrar uma curva entre as rochas fora do alcance da água. Só então pôde estender-se sobre a dura pedra e descobrir que estava tão aterrorizado que não era capaz de acreditar que tinha salvado sua vida.