O Príncipe da Névoa
Capítulo 3
No dia seguinte, pouco antes do amanhecer, Max pôde ouvir algo, como se fosse uma figura envolta na bruma noturna e lhe sussurrou umas palavras ao ouvido. Encolheu-se de repente, com o coração pulsando com força e a respiração entrecortada. Estava sozinho em seu quarto. A imagem daquela silhueta escura murmurando na penumbra, como se tivesse sonhado, se desvaneceu em uns segundos. Estendeu a mão até a mesa de cabeceira e acendeu a lamparina que Maximilian Carver tinha reparado na tarde anterior.
Através da janela as primeiras luzes do dia despontavam sobre o bosque. Uma névoa percorria lentamente o campo de ervas selvagens e a brisa abria espaços através dos quais se entreviam as silhuetas do jardim de estátuas. Max tomou seu relógio de bolso da mesa de cabeceira e o abriu. As esferas de luas sorridentes brilhavam como lâminas de ouro. Faltavam uns minutos para as seis da manhã.
Max se vestiu em silêncio e desceu as escadas sigilosamente, com a intenção de não despertar o resto da família. Dirigiu-se para a cozinha onde os restos do jantar da noite anterior permaneciam na mesa de madeira. Abriu a porta da cozinha que dava para o pátio traseiro e saiu ao exterior. O ar frio e úmido do amanhecer mordia-lhe a pele. Max cruzou o pátio silenciosamente até a porta da cerca e, fechando-a em suas costas, entrou na névoa em direção ao jardim de estátuas.
O caminho através da névoa era mais longo do que imaginava. Da janela de seu quarto, o recinto de pedra parecia encontrar-se a uns cem metros da casa. Entretanto, enquanto caminhava entre as ervas selvagens, Max acreditava ter percorrido mais de trezentos metros quando, de entre a bruma, emergiu o portal de lanças do jardim de estátuas.
Uma corrente oxidada rodeava os barrotes de metal enegrecido, selados com um velho cadeado que o tempo tinha tingido com uma cor mortiça. Max apoiou o rosto entre as lanças da porta e examinou o interior. As ervas daninhas tinham ganhado terreno durante os anos e conferiam ao lugar o aspecto de uma estufa abandonada. Max pensou que provavelmente ninguém tinha posto os pés naquele lugar durante muito tempo e que quem fora o guardião daquele jardim de estátuas há muitos anos tinha desaparecido.
Max olhou ao redor e encontrou uma pedra do tamanho de sua mão junto ao muro do jardim. Agarrou-a e golpeou com força o cadeado que unia os extremos da corrente, uma e outra vez, até que o aro envelhecido cedeu às investidas da pedra. A corrente ficou livre, balançando-se sobre os barrotes como tranças de uma cabeleira metálica. Max empurrou com força os barrotes e sentiu como cediam lentamente para o interior. Quando a abertura entre as duas folhas da porta foi suficientemente ampla para lhe permitir passar, Max descansou um segundo e entrou no recinto.
Uma vez no interior, Max percebeu que o recinto era maior do que tinha acreditado em princípio. A primeira vista tinha jurado que havia perto de uma vintena de estátuas semiocultas na vegetação. Avançou uns passos e entrou no jardim selvagem. Aparentemente, as figuras estavam dispostas em círculos concêntricos e Max se deu conta pela primeira vez que todas olhavam para o Oeste. As estátuas pareciam formar parte de um mesmo conjunto e representavam algo semelhante a uma trupe circense. À medida que caminhava entre elas, Max distinguiu as figuras de um domador, um faquir com um turbante e nariz aquilino, uma mulher contorcionista, um forte e toda uma galeria de personagens em fuga de um circo fantasma. No centro do jardim de estátuas descansava sobre um pedestal uma grande figura que representava um palhaço sorridente e de cabeleira arrepiada. Tinha o braço estendido, o punho embainhado em uma luva desproporcionalmente grande, e parecia golpear um objeto invisível no ar. A seus pés, Max distinguiu uma grande laje de pedra sobre a qual se percebia um desenho em relevo. Ajoelhou-se e afastou as ervas daninhas que cobriam a superfície fria para descobrir uma grande estrela de seis pontas rodeada por um círculo. Max reconheceu o símbolo, idêntico ao que havia sobre as lanças da porta.
Ao contemplar a estrela, Max compreendeu que, o que a princípio lhe tinham parecido círculos concêntricos no lugar das estátuas, era na realidade uma réplica da figura da estrela de seis pontas. Cada uma das figuras do jardim se elevava nos pontos de intercessão das linhas que formavam a estrela. Max se levantou e contemplou o espetáculo fantasmagórico em seu redor. Percorreu com o olhar cada uma das estátuas envoltas nos caules das ervas selvagens que se agitavam ao vento até deter-se de novo no grande palhaço. Um calafrio lhe percorreu o corpo e deu um passo atrás. A mão da figura, que segundos antes havia visto fechada num punho, estava aberta com a palma estendida, em sinal de convite. Durante um segundo Max sentiu que o ar frio do amanhecer lhe queimava a garganta e pôde escutar o palpitar de seu coração nas têmporas.
Lentamente, como se temesse despertar do sono perpétuo as estátuas, refez o caminho até a grade do recinto sem deixar de olhar em suas costas a cada passo que dava. Quando tinha cruzado a porta lhe pareceu que a casa da praia estava muito longe. Sem pensar duas vezes se lançou a correr e desta vez não olhou para trás até chegar perto do pátio detrás. Quando o fez, o jardim de estátuas estava submerso de novo na névoa.
O aroma de manteiga e torradas inundava a cozinha. Alicia olhava sem vontade para seu café da manhã enquanto a pequena Irina servia um pouco de leite a seu gato, recém adotado, num prato que o felino se apressou a deixar intacto. Max contemplou a cena, pensando com seus botões que as preferências gastronômicas do animal iam para outros roteiros, tal como tinha comprovado no dia anterior. Maximilian Carver sustentava uma xícara fumegante de café nas mãos e contemplava eufórico sua família.
— Esta manhã estive fazendo uma investigação na garagem. ― começou, adotando o tom de "aqui vem o mistério" que estava acostumado a utilizar quando desejava que outros lhe perguntassem o que tinha averiguado.
Max conhecia também as estratégias do relojoeiro que às vezes se perguntava quem era o pai e quem o filho.
— E o que encontrou? ― concedeu Max.
— Não vai acreditar. ― respondeu seu pai, embora Max pensasse "com certeza que sim ". — Um par de bicicletas.
Max arqueou as sobrancelhas inquisitivamente.
— Estão velhas, mas com um pelín gordo nas correias podem converter-se em um par de bólides - explicou Maximilian Carver. — E havia algo mais. Sabem o que encontrei também na garagem?
— Um urso formigueiro. ― murmurou Irina, sem deixar de mimar o seu companheiro felino.
Com apenas oito anos, a filha pequena dos Carver tinha desenvolvido já uma tática demolidora para minar a moral de seu pai.
— Não. ― respondeu o relojoeiro, visivelmente chateado. — Ninguém se candidata a adivinhar?
Max percebeu pela extremidade do olho como sua mãe tinha estado observando a cena e, já que ninguém parecia muito interessado nas façanhas detetivescas de seu marido, lançava-se ao resgate.
— Um álbum de fotos? - sugeriu Andrea Carver no seu tom de voz mais doce.
— Quase, quase. ― respondeu o relojoeiro, animado de novo. — Max?
Sua mãe o olhou de soslaio. Max assentiu.
— Não sei. Um jornal?
— Não. Alicia?
— Rendo-me. ― replicou Alicia, visivelmente ausente.
— Bem, bem. Se preparem. ― começou Maximilian Carver. — O que encontrei foi um projetor. Um projetor de cinema. E uma caixa cheia de filmes.
— Que classe de filmes? ― atalhou Irina, levantando pela primeira vez o olhar de seu gato por um minuto. Maximilian Carver encolheu os ombros.
— Não sei. Filmes. Não é fascinante? Temos um cinema em casa.
— Isso caso o projetor funcione. ― disse Alicia.
— Obrigado pelo ânimo, filha, mas se recorda que seu pai ganha a vida arrumando máquinas avariadas.
Andrea Carver colocou ambas as mãos sobre os ombros de seu marido.
— Me alegro de ouvir isso, senhor Carver - disse. — Porque conviria que alguém tivesse uma conversa com a caldeira do porão.
— Deixe-me ver isso. ― respondeu o relojoeiro, levantando-se da mesa.
Alicia seguiu seu exemplo.
— Senhorita, ― interrompeu Andrea Carver ― primeiro o café da manhã. Você não tocou nele.
— Não tenho fome.
— Eu comerei. ― sugeriu Irina.
Andrea Carver negou tal possibilidade categoricamente.
— Não quer engordar. ― sussurrou maliciosamente Irina a seu gato.
— Não posso comer com essa coisa abanando o rabo por aqui e soltando pelos. ― atalhou Alicia.
Irina e o felino a olharam com idêntico desprezo.
— Brega. ― sentenciou Irina, saindo para o pátio com o animal.
— Por que sempre deixa que ela faça o que quer? Quando eu tinha sua idade, não me deixava fazer nem metade das coisas. ― protestou Alicia.
— Vamos começar outra vez com isso? ― disse Andrea Carver com voz calma.
— Não fui eu quem começou. ― respondeu sua filha maior.
— Está bem. Sinto muito! — Andrea Carver acariciou levemente a larga cabeleira de Alicia, que inclinou a cabeça, esquivando-se ao mimo conciliador. — Mas acabe o café da manhã. Por favor.
Naquele momento um estrondo metálico soou sob seus pés. Todos se olharam entre eles.
— Seu pai em ação. ― murmurou Andrea Carver enquanto tomava sua xícara de café.
Rotineiramente, Alicia começou a mastigar uma torrada enquanto Max tratava de tirar da sua cabeça a imagem daquela mão estendida e o olhar exagerado do palhaço que sorria na névoa do jardim de estátuas.