O Príncipe da Névoa

Carlos Ruiz Zafón · Capítulo 12 de 20

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O Príncipe da Névoa

Capítulo 11

Quando o velho faroleiro tinha finalizado seu relato, o relógio de Max indicava que faltavam uns minutos para as cinco da tarde. Lá fora, uma débil garoa tinha começado a cair sobre a baía e o vento que vinha do mar golpeava com insistência as portinhas das janelas da casa do farol.

― Aproxima-se uma tormenta. ― disse Roland, observando o horizonte plúmbeo sobre o oceano.

— Max, temos que voltar para casa. Papai chamará logo. ― murmurou Alicia.

Max concordou sem muita convicção. Precisava meditar cuidadosamente sobre tudo o que o ancião tinha explicado e tentar encaixar as peças do quebra-cabeças. O ancião, dado o esforço para recordar sua história, parecia ter sumido num silêncio apático, olhava para o vazio a partir de sua poltrona, ausente.

— Max... ― insistiu Alicia.

Max se levantou e dirigiu uma saudação silenciosa ao ancião, que lhe respondeu com uma mínima saudação. Roland observou o velho faroleiro durante uns segundos e logo acompanhou seus amigos ao exterior.

— E agora? ― perguntou Max.

— Eu não sei o que pensar. ― afirmou Alicia, encolhendo os ombros.

— Não acredita na história do avô de Roland? ― inquiriu Max.

— Não é uma história fácil de acreditar. ― respondeu Alicia. — Tem que haver outra explicação.

Max dirigiu um olhar inquisitivo a Roland.

— Você tão pouco acredita em seu avô, Roland?

— Quer que seja sincero? ― respondeu o moço. — Não sei. Venha. Acompanho-vos antes que a tormenta nos caia em cima.

Alicia montou na bicicleta de Roland e, sem mais palavras, ambos percorreram o caminho de volta. Max se voltou por um instante para contemplar a casa do farol e tratou de imaginar se era possível que os anos de solidão naquele escarpado tivessem levado Victor Kray a urdir aquela sinistra história que ele parecia acreditar com convicção. Deixou que a garoa fresca lhe impregnasse o rosto e montou em sua bicicleta, pela encosta abaixo.

A história do Caín e Victor Kray permanecia viva em sua mente enquanto percorria a estrada que rodeava a baía. Pedalando sob a chuva, Max começou a ordenar os fatos do único modo que lhe resultava plausível. Caso tudo o que foi relatado pelo ancião estivesse certo, o qual não era fácil de aceitar, a situação ficava sem ser esclarecida. Um poderoso mago desaparecido numa grande letargia parecia voltar lentamente para a vida. Segundo esse princípio, a morte do pequeno Jacob Fleischmann tinha sido o primeiro sinal de seu retorno. Entretanto, havia algo em toda aquela história que o faroleiro tinha mantido oculta um longo tempo e que não encaixava na mente de Max.

Os primeiros relâmpagos pintaram de escarlate o céu e o vento começou a cuspir com força grossas gotas de chuva contra o rosto de Max. Apertou o passo, embora suas pernas ainda não se recuperassem da maratona matutina. Ainda faltavam alguns de quilômetros de caminho até a casa da praia.

Max compreendeu que não seria capaz de aceitar simplesmente as explicações do ancião e supor que aquilo explicava tudo. A presença fantasmagórica do jardim de estátuas e os acontecimentos daqueles primeiros dias no povoado evidenciavam que um sinistro mecanismo se pôs em marcha e que ninguém podia prever o que ia acontecer a partir daquele momento. Com a ajuda de Roland e Alicia ou sem ela, Max estava determinado a seguir investigando até chegar ao fundo da verdade, começando pela única pista que parecia conduzir diretamente ao centro daquele enigma: os filmes de Jacob Fleischmann. Quantas mais voltas dava à história, mais se convencia que Victor Kray não lhes tinha contado toda a verdade. Nem mais ou menos.

Alicia e Roland esperavam sob o alpendre da casa da praia quando Max, empapado pela chuva, deixou a bicicleta no abrigo da garagem e correu a refugiar-se do forte aguaceiro.

— Já é a segunda vez esta semana. ― riu Max. — Por este caminho encolherei. Não pensa voltar agora, não é, Roland?

— Temo que sim. ― respondeu Roland observando a densa cortina de água que caía com fúria.— Não quero deixar sozinho meu avô.

— Leve ao menos uma capa de chuva. Vai apanhar uma pneumonia. ― falou Alicia.

— Não necessito. Estou acostumado. Além disso, esta é uma tormenta de verão. Passará rápido.

— A voz da experiência. ― brincou Max.

— Pois é. ― arrematou Roland.

Os três amigos cruzaram o olhar em silêncio.

— Acredito que o melhor é não voltar a falar do assunto até amanhã. ― sugeriu Alicia. Uma boa noite de sono nos ajudará a ver tudo isto muito mais claro. Ou isso é o que se diz sempre.

— E quem vai dormir esta noite depois de uma história assim? ― soltou Max.

— Sua irmã tem razão. ― disse Roland.

— Ora bolas ― atalhou Max.

— Mudando de assunto, amanhã pensava voltar ao navio para mergulhar. Talvez recupere o sextante que alguém deixou cair ontem... ― explicou Roland.

Max estava articulando em sua mente uma resposta demolidora para deixar claro que não acreditava que fosse uma boa ideia ir mergulhar até Orpheus de novo, mas Alicia se adiantou.

— Ali estaremos. ― murmurou.

Um sexto sentido disse a Max que aquele plural era pura cortesia.

— Até manhã, então. ― respondeu Roland, com os olhos brilhantes para Alicia.

— Estou aqui. ― disse Max, com voz cantante.

— Até amanhã, Max. ― disse Roland, já a caminho da bicicleta.

Os dois irmãos viram Roland partir na tormenta e permaneceram sob o alpendre até que sua silhueta se desvaneceu na estrada da praia.

— Deveria vestir roupa seca, Max. Enquanto você se troca prepararei algo para o jantar. ― sugeriu Alicia.

— Você? ― alfinetou Max. — Você não sabe cozinhar.

— Quem disse a você que penso cozinhar, rapazinho? Isto não é um hotel. Para dentro. ― ordenou Alicia, com um sorriso malicioso nos lábios.

Max optou por seguir os conselhos de sua irmã e entrou em casa. A ausência de Irina e de seus pais acentuava aquela sensação de ser um intruso em um lar estranho que a casa da praia lhe tinha inspirado desde o primeiro dia. Enquanto subia a escada em direção ao seu quarto, reparou por um instante num fato, fazia alguns dias que não via o repelente felino de Irina. Não lhe parecia que aquela fosse uma grande perda e, tal como a ideia lhe tinha vindo à mente, depressa a esqueceu.

Fiel a sua palavra, Alicia não perdeu na cozinha mais um segundo do que o estritamente necessário. Preparou umas fatias de pão de centeio com manteiga, geleia e dois copos de leite.

Quando Max reparou na bandeja do suposto jantar, a expressão de seu rosto falou por si só.

— Nenhuma palavra. ― ameaçou Alicia. — Não vim a este mundo para cozinhar.

― Não o jure. ― replicou Max, que de qualquer modo não tinha muito apetite.

Jantaram em silêncio à espera de que o telefone soasse a qualquer momento com notícias do hospital, mas a chamada não se concretizou.

— Talvez ligaram antes, quando estávamos no farol. ― sugeriu Max.

— Talvez. ― murmurou Alicia.

Max viu o semblante preocupado de sua irmã.

— Se algo tivesse acontecido, ― argumentou Max ― teriam tornado a ligar. Tudo estará bem.

Alicia sorriu fracamente, confirmando a Max a sua inata habilidade para reconfortar os outros com argumentos que nem ele mesmo acreditava.

— Suponho que sim. ― confirmou Alicia. — Acho que vou dormir. E você?

Max levantou seu copo e assinalou para cozinha.

— Em seguida irei, mas antes comerei algo mais. Estou faminto. ― mentiu.

Assim que escutou a porta do quarto de Alicia fechar-se, Max deixou o copo e se dirigiu até ao abrigo da garagem, em busca de mais filmes da coleção particular de Jacob Fleischmann.

Max girou o interruptor do projetor e o feixe de luz alagou a parede com uma imagem imprecisa do que parecia ser um conjunto de símbolos. Lentamente, o filme adquiriu precisão e Max compreendeu que os supostos símbolos não eram mais do que cifras dispostas em círculos e que estava vendo a esfera de um relógio. As agulhas do relógio estavam imóveis e projetavam uma sombra perfeitamente definida sobre a esfera, o que permitia supor que o filme estava sendo rodado em pleno sol ou sob uma fonte luminosa intensa. O filme continuou mostrando a esfera durante uns segundos até que, muito lentamente no início e adquirindo uma velocidade progressiva, as agulhas do relógio começaram a girar em sentido inverso. A câmara retrocedia e a visão do espectador podia comprovar que aquele relógio pendia de uma corrente. Um novo retrocesso de um metro e meio revelava que a corrente pendia de uma mão branca. A mão de uma estátua.

Max reconheceu imediatamente o jardim de estátuas que já aparecera no primeiro filme de Jacob Fleischmann que tinham visto dias atrás. Uma vez mais, a disposição das estátuas era diferente da que Max recordava. A câmara começava a mover-se de novo através das figuras, sem cortes nem pausas, igual a do primeiro filme. Cada dois metros a objetiva da câmara se detinha frente ao rosto de uma das estátuas. Max examinou uma a uma os semblantes congelados daquela sinistra banda circense, cujos membros podia agora imaginar perecendo na escuridão absoluta da adega do Orpheus enquanto a água gelada lhes arrebatava a vida.

Finalmente a câmara foi aproximando lentamente da figura que coroava o centro da estrela de seis pontas. O palhaço. O Dr. Caín. O Príncipe da Névoa. Junto a ele, a seus pés, Max reconheceu a figura imóvel de um gato que estendia uma garra afiada no vazio. Max, que não recordava havê-lo visto na sua visita no jardim de estátuas, teria apostado “dobro ou nada” que a inquietante semelhança do felino de pedra com a mascote que Irina tinha adotado no primeiro dia na estação, não era fruto do acaso. Ao contemplar aquelas imagens enquanto o som da chuva golpeava os vidros e a tormenta se afastava terra adentro, resultava muito fácil dar crédito à história que o faroleiro lhes tinha relatado aquela mesma tarde. A sinistra presença daquelas silhuetas ameaçadoras bastava para silenciar qualquer dúvida por muito razoável que fosse.

A câmara se aproximou até o rosto do palhaço, deteve-se apenas a meio metro e permaneceu ali durante vários segundos. Max jogou uma olhada à bobina e comprovou que o filme estava chegando ao fim e que faltavam um par de metros por visionar. Um movimento na tela chamou a sua atenção. O rosto de pedra estava se movendo de um modo quase imperceptível. Max se levantou e caminhou até a parede onde se projetava o filme. As pupilas daqueles olhos de pedra se dilataram e os lábios de pedra se arquearam lentamente num sorriso cruel, até revelar uma larga fileira de dentes largos e afiados como os de um lobo. Max sentiu que se formava um nó em sua garganta.

Segundos depois, a imagem se desvaneceu e Max escutou o ruído da bobina do projetor girando sobre si própria. O filme tinha terminado. Max apagou o projetor e respirou profundamente. Agora acreditava em tudo o que Victor Kray havia dito, e isso não o fazia sentir-se melhor, mas justamente o contrário. Subiu para seu quarto e fechou a porta em suas costas. Através da janela, ao longe, podia vislumbrar o jardim de estátuas. Uma vez mais, a silhueta do recinto de pedra estava inundado por uma névoa densa e impenetrável.

Aquela noite, entretanto, as trevas dançantes não provinham do bosque, mas pareciam emanar de seu próprio interior.

Minutos depois, enquanto lutava por conciliar o sono e apagar de sua mente o rosto do palhaço, Max imaginou que aquela névoa não era senão o fôlego gelado do Dr. Caín, que esperava sorridente a hora de seu retorno.