O Príncipe da Névoa

Carlos Ruiz Zafón · Capítulo 15 de 20

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O Príncipe da Névoa

Capítulo 14

Ao cair do crepúsculo, Victor Kray se deteve a cem metros da casa da praia, onde os Carver tinham fixado seu novo lar. Aquela era a mesma casa onde a única mulher que tinha amado realmente, Eva Gray, tinha dado a luz a Jacob Fleischmann. Ao ver de novo a fachada branca da casa reabriu feridas em seu interior que acreditava estarem fechadas para sempre. As luzes da casa estavam apagadas e o lugar parecia vazio. Victor Kray supôs que os moços deviam estar ainda no povoado com Roland.

O faroleiro percorreu o caminho até a casa e cruzou a cerca branca que a rodeava. A mesma porta e as mesmas janelas que recordava perfeitamente reluziam sob os últimos raios do sol. O ancião cruzou o jardim até ao pátio detrás e saiu para o campo que se estendia depois da casa da praia. Ao longe se elevava o bosque e, em sua soleira, o jardim de estátuas. Fazia muito tempo que não voltava aquele lugar e se deteve de novo a observá-lo de longe, temeroso do que se ocultava atrás de seus muros. Uma densa névoa se pulverizava em direção à moradia através dos escuros ferros da grade do jardim de estátuas.

Victor Kray estava assustado e se sentia velho. O medo que lhe corroia a alma era o mesmo que tinha experimentado décadas atrás nos becos daquele subúrbio industrial, onde ouviu pela primeira vez a voz do Príncipe da Névoa. Agora, o destino de sua vida, aquele círculo parecia fechar-se e, a cada jogada, o ancião sentia que já não lhe sobravam trunfos para a aposta final.

O faroleiro avançou com passo firme até a entrada do jardim de estátuas. Logo, a névoa que brotava do interior o cobriu até a cintura. Victor Kray introduziu a mão tremendo no bolso de seu casaco e extraiu seu velho revólver, carregado conscienciosamente antes de partir, e uma potente lanterna. Com a arma na mão, entrou no recinto, acendeu a lanterna e iluminou o interior do jardim. O feixe de luz revelou um panorama insólito. Victor Kray baixou a arma e esfregou os olhos, pensando que estava sendo vítima de alguma alucinação. Algo estava mal, ou ao menos, aquilo não era o que esperava encontrar. Deixou que o feixe da lanterna fatiasse de novo a névoa. Não era uma ilusão: o jardim de estátuas estava vazio.

O ancião aproximou-se e observou desconcertado os pedestais abandonados. Ao mesmo tempo que tratava de restabelecer a ordem em seus pensamentos, Victor Kray percebeu que o murmúrio longínquo de uma nova tormenta se aproximava e elevou a vista para o horizonte. Um manto ameaçador de nuvens escuras e turvas se estendia sobre o céu como uma mancha de tinta em um lago. Um raio dividiu o céu em dois e o eco de um trovão chegou à costa como o rufar premonitório de uma batalha. Victor Kray escutou a ladainha do temporal que se forjava no interior do mar e, finalmente, recordando ter contemplado aquela mesma visão a bordo do Orpheus vinte e cinco anos atrás, compreendeu o que ia acontecer.

Max despertou empapado em suor frio e demorou uns segundos a perceber onde se encontrava. Sentia seu coração palpitar como o motor de uma velha motocicleta. A poucos metros dele, reconheceu um rosto familiar: Alicia, dormia junto a Roland; e recordou que estava na cabana da praia. Podia jurar que seu sono não tinha durado mais de uns minutos, embora na realidade tivesse dormido quase uma hora. Max se levantou sigilosamente e saiu para a exterior em busca de ar fresco, enquanto as imagens de um angustiante pesadelo de asfixia, em que ele e Roland ficavam presos no interior do casco do Orpheus se desvaneciam em sua mente.

A praia estava deserta e a maré alta levou o barco de Roland pelo mar adentro, onde muito em breve a corrente o arrastaria consigo e o pequeno esquife se perderia na imensidão do oceano, irremediavelmente. Max se aproximou até a margem e umedeceu a cara e os ombros com a água fresca do mar. Logo se aproximou até a curva que formava uma pequena baía e se sentou entre as rochas, com os pés submersos na água, com a esperança de recuperar a calma que o sono não tinha podido lhe proporcionar.

Max pensava que por trás dos acontecimentos dos últimos dias se escondia alguma lógica. A sensação de um perigo iminente se apalpava no ar e, se deteve a pensar nisso. Podia traçar uma linha ascendente nas aparições do Dr. Caín. A cada hora que passava, sua presença parecia adquirir maior poder. Aos olhos de Max, tudo formava parte de um complexo mecanismo que ia juntando suas peças uma a uma e cujo centro convergia em torno do escuro passado de Jacob Fleischmann, das enigmáticas visitas ao jardim de estátuas que tinha presenciado nos filmes do abrigo e na criatura indescritível que tinha estado a ponto de acabar com suas vidas naquela mesma tarde.

Com o que tinha acontecido naquele dia, Max compreendia que não podiam dar-se ao luxo de esperar por um novo encontro com o Dr. Caín para agir: Era preciso anteciparem-se a seus movimentos e tratar de prever qual seria seu próximo passo. Para Max só havia um modo de averiguá-lo: seguir a pista que Jacob Fleischmann tinha deixado anos atrás em seus filmes.

Sem incomodar-se em despertar Alicia e Roland, Max montou sua bicicleta e se dirigiu para a casa da praia. Ao longe, sobre a linha do horizonte, um ponto escuro emergiu do nada e começou a expandir-se como uma nuvem de gás letal. A tormenta estava se formando.

De volta à casa dos Carver, Max enfiou o cilindro do filme na bobina do projetor. A temperatura tinha baixado consideravelmente enquanto fazia o trajeto na bicicleta e seguia descendo. Os primeiros ecos da tormenta podiam escutar-se entre as rajadas ocasionais de vento que golpeavam as portas da casa. Antes de projetar o filme, Max se apressou a subir a escada para vestir roupa seca . A estrutura de madeira envelhecida da casa rangia sob seus pés e parecia que estava vulnerável à perseguição do vento. Enquanto trocava de roupa, Max percebeu da janela de seu quarto que a tormenta que se aproximava estava cobrindo o céu com um manto de escuridão que antecipava o anoitecer em algumas horas. Fechou a janela e desceu de novo à sala para acender o projetor.

Uma vez mais, as imagens ganharam vida sobre a parede e Max se concentrou na projeção. Nesta ocasião a câmara percorria um cenário familiar: os corredores da casa da praia. Max reconheceu o interior da sala em que se encontrava agora mesmo, vendo o filme. A decoração e os móveis eram diferentes e a casa oferecia um aspecto luxuoso e opulento aos olhos da câmara, que traçava lentos círculos e mostrava as paredes e janelas da casa, como se tivesse aberto uma porta na máquina do tempo, que permitisse visitar a casa quase uma década atrás.

Depois de alguns minutos no piso inferior, o filme transportava o espectador ao piso superior.

Uma vez na soleira do corredor, a câmara se aproximava até a porta do extremo, que conduzia ao quarto ocupado por Irina até ao acidente. A porta se abria e a câmara penetrava no quarto consumido pela penumbra. A sala estava vazia e a câmara se detinha frente à porta do armário na parede.

Transcorreram vários segundos de filme sem que nada acontecesse e sem que a câmara registrasse movimento algum no quarto desocupado. Repentinamente, a porta do armário se abriu com força e golpeou a parede, balançando-se sobre as dobradiças. Max forçou a vista para perceber o que se entrevia no interior do armário escuro e observou que uma mão embainhada em uma luva branca emergia de entre as sombras, sustentando um objeto brilhante que pendia de uma corrente. Max adivinhou o que vinha a seguir: o Dr. Caín saía do armário e sorria à câmara.

Max reconheceu a esfera que o Príncipe da Névoa tinha em suas mãos: era o relógio que seu pai lhe tinha oferecido e que ele tinha perdido no interior do mausoléu de Jacob Fleischmann. Agora estava em poder do mago e, de algum modo, tinha levado consigo o seu objeto mais apreciado, à dimensão fantasmagórica das imagens em branco e preto que brotavam do velho projetor.

A câmara se aproximou do relógio e Max pôde ver nitidamente como as agulhas da esfera retrocediam a uma velocidade inverossímil e crescente até que se tornou impossível as distinguir. Aos poucos, a esfera começou a desprender fumaça e faíscas e finalmente o relógio ficou em chamas. Max contemplou enfeitiçado a cena, incapaz de afastar seus olhos do relógio a arder. Um instante depois, a câmara se desloca bruscamente até a parede da habitação e foca uma velha penteadeira sobre a qual se distinguia um espelho. A câmara se aproxima dele e se detém para revelar com toda a claridade a imagem de quem segurava a câmara sobre a lâmina de vidro.

Max tragou a saliva; por fim enfrentava cara a cara com quem tinha filmado aqueles filmes anos atrás, naquela mesma casa. Podia reconhecer aquele rosto infantil e sorridente que estava filmando a si mesmo. Havia nele uns anos menos, mas as feições e o olhar eram as mesmas que tinha aprendido a reconhecer nos últimos dias: Roland.

O filme encravou no interior do projetor e o fotograma entupido frente à lente começou a fundir-se lentamente na tela. Max apagou o projetor e apertou os punhos para deter o tremor que se havia apoderado de suas mãos. Jacob Fleischmann e Roland eram uma mesma pessoa.

A luz de um relâmpago inundou a sala em sombras por uma fração de segundo e Max reparou que atrás da janela uma figura golpeava o vidro com os nódulos, fazendo gestos para entrar. Max acendeu a luz da sala e reconheceu o semblante cadavérico e aterrorizado de Victor Kray, que a julgar por seu aspecto parecia ter presenciado uma aparição. Max se dirigiu à porta e deixou entrar o ancião. Tinham muito que falar.