O Príncipe da Névoa
Capítulo 5
As vozes da família no piso inferior e a correria de Irina, escada acima e abaixo, o despertaram Max. Já tinha anoitecido, mas Max pôde ver como a tormenta tinha passado deixando atrás de si um tapete de estrelas no céu. Deu uma olhada em seu relógio e comprovou que tinha dormido perto de seis horas. Estava se levantando quando mãos golpearam sua porta. ― É hora de jantar, belo adormecido. ― rugiu a voz eufórica de Maximilian Carver do outro lado. Por um segundo, Max se perguntou por que motivo se mostraria agora tão alegre seu pai. Logo recordou a sessão cinematográfica que tinha prometido naquele mesmo dia durante o café da manhã.
— Vou agora para baixo. ― respondeu sentindo ainda o sabor pastoso dos sanduíches de carne na boca.
— Mais vá. ― replicou o relojoeiro, já de caminho do piso inferior.
Embora não sentisse o mínimo apetite, Max desceu à cozinha e se sentou à mesa junto ao resto da família. Alicia olhava sem vontade para seu prato, sem tocá-lo. Irina devorava com vontade sua ração e murmurava palavras ininteligíveis a seu detestável gato, que a olhava fixamente, em seus pés. Jantaram com calma enquanto Maximilian Carver explicava que tinha encontrado um local excelente no povoado para instalar a relojoaria e começar o negócio de novo.
— E o que tem feito você, Max? - perguntou Andrea Carver.
— Estive no povoado. ― o resto da família olhou para ele, como se esperassem mais pormenores. — Conheci um garoto, Roland. Amanhã vamos mergulhar.
— Max já fez um amigo - exclamou Maximilian Carver, triunfal. —Veem o que lhes dizia?
— E como é o tal Roland, Max? - perguntou Andrea Carver.
— Não sei. Simpático. Vive com seu avô, o guardião do farol. Esteve me ensinando um montão de coisas do povoado.
— E onde você diz que irá mergulhar? ― perguntou seu pai.
— Na praia do sul, ao outro lado do porto. Segundo Roland, ali estão os restos de um navio afundado faz muitos anos.
— Posso ir? ― interrompeu Irina.
— Não. ― atalhou Andrea Carver. — Não será perigoso, Max?
— Mamãe...
— De acordo. ― concordou Andrea Carver. — Mas vá com cuidado.
Max assentiu.
— Eu, quando jovem era um bom mergulhador. ― começou Maximilian Carver.
— Agora não, céus - cortou sua esposa. —Não ia você nos mostrar uns filmes?
Maximilian Carver encolheu os ombros e se levantou, disposto a vestir o uniforme de projetorista.
— Dê uma mão a seu pai, Max.
Por um segundo, antes de fazer o que seu pai pedia, Max olhou de soslaio para sua irmã Alicia, que tinha permanecido em silêncio durante todo o jantar. Seu olhar ausente parecia proclamar com urgência o quão longe estava dali, mas, por algum motivo que Max não conseguia compreender, ninguém mais entendia ou preferia não fazê-lo. Por um momento Alicia lhe devolveu o olhar. Max tratou de sorrir.
— Quer vir amanhã conosco? ― ofereceu. — Você gostará de Roland.
Alicia sorriu fracamente e, sem pronunciar uma palavra, assentiu enquanto uma faísca de luz se acendia em seus olhos escuros e profundos.
— Tudo preparado. Luzes apagadas. ― disse Maximilian Carver enquanto acabava de enfiar a bobina do filme no projetor.
O aparelho parecia provir da era do Copérnico e Max tinha suas dúvidas a respeito se funcionaria ou não.
— O que vamos ver? ― inquiriu Andrea Carver, embalando em seus braços Irina.
— Não tenho a menor ideia. ― confessou o relojoeiro. — Há uma caixa na garagem com dezenas de filmes sem nenhuma indicação. Peguei umas quantas ao acaso. Não estranharia que não se visse nada. As emulsões dos filmes se danificam com muita facilidade e depois de todos estes anos o mais provável é que se desprendessem do filme.
— Isso significa o que? ― interrompeu Irina. — Não vamos ver nada?
— Só há um modo de averiguá-lo. ― respondeu Maximilian Carver enquanto girava o interruptor do projetor.
Em uns segundos, o som de motocicleta velha do aparelho ganhou vida e o feixe de luz da objetiva piscou e atravessou a sala como uma lança de luz. Max concentrou o olhar no retângulo projetado sobre a parede branca. Era como olhar no interior de uma lanterna mágica, sem perceber a ciência que permitia que as visões pudessem escapar de tal invento. Conteve o fôlego e uns instantes depois, a parede se encheu de imagens.
Bastaram apenas uns segundos para que Max compreendesse que aquele filme não provinha do armazém de nenhum velho cinema. Não se tratava de uma cópia de algum filme famoso, nem sequer de um cilindro perdido de alguma série muda. As imagens imprecisas e riscadas pelo tempo mostravam a evidente condição de aficionado de quem as havia feito. Não era mais que um filme caseiro, provavelmente rodado anos atrás pelo antigo dono da casa, o Doutor Fleischmann. Max pensou que o mesmo poderia dizer do resto dos cilindros que seu pai tinha encontrado na garagem junto ao antigo projetor. As ilusões de cineclube particular de Maximilian Carver se desmoronaram em menos de um minuto.
O filme mostrava desajeitadamente um passeio pelo que parecia ser um bosque. A fita tinha sido rodada enquanto o operador caminhava lentamente entre as árvores e a imagem avançava aos tropeções, com bruscas mudanças de luz e enfoque que permitiam reconhecer o lugar em que se desenvolvia tão estranho passeio.
— Mas o que é isto? ― exclamou Irina, visivelmente decepcionada, olhando para seu pai que contemplava perplexo o estranho e, à vista do primeiro minuto de projeção, o insofrível e aborrecido filme.
— Não sei. ― murmurou Maximilian Carver, triste. — Não esperava por isto...
Max também tinha começado a perder interesse no filme quando algo chamou sua atenção na caótica cascata de imagens.
— E se você experimentasse outro cilindro, amor? ― sugeriu Andrea Carver, tratando de salvar do naufrágio da ilusão de seu marido pelo suposto arquivo cinematográfico da garagem.
— Espera. ― cortou Max, reconhecendo uma silhueta familiar no filme.
Agora a câmara tinha saído do bosque e avançava para o que parecia um recinto fechado por altos muros de pedra e um alto portão de lanças. Max conhecia aquele lugar; tinha estado ali no dia anterior. Fascinado, Max contemplou como a câmara tropeçava ligeiramente para logo entrar no interior do jardim de estátuas.
— Parece um cemitério. ― murmurou Andrea Carver — O que é isso?
A câmara percorreu uns metros pelo interior do jardim de estátuas. No filme, o lugar não oferecia o aspecto de abandono que ele tinha descoberto. Não havia indicio das ervas selvagens e a superfície do chão de pedra estava limpa e polida, como se um cuidadoso guardião se ocupasse de manter aquele recinto imaculado dia e noite.
A câmara se deteve em cada uma das estátuas dispostas nos pontos cardeais da grande estrela que podia distinguir-se claramente ao pé das figuras. Max reconheceu os rostos de pedra branca e suas roupagens de feirantes de circo ambulante. Havia algo inquietante na tensão e na postura que adotavam os corpos daquelas figuras fantasmagóricas e na careta teatral de seus rostos mascarados depois de uma imobilidade que apenas parecia aparente.
O filme foi mostrando as figuras da banda circense sem corte algum. A família contemplou aquela visão espectral em silêncio, sem nenhum ruído além do lamuriante estalo continuado do projetor. Finalmente, a câmara se dirigiu para o centro da estrela riscada sobre a superfície do jardim de estátuas. A imagem revelou a silhueta a contraluz do palhaço sorridente, sobre o qual convergiam todas as demais estatuas. Max observou atentamente as feições daquele rosto e sentiu de novo aquele calafrio que lhe tinha percorrido o corpo quando tinham ficado frente a frente. Havia algo na imagem que não coincidia com o que Max recordava de sua visita ao jardim de estátuas, mas a deficiente qualidade do filme o impediu de obter uma visão clara do conjunto da estátua que lhe permitisse perceber o que era. A família Carver permaneceu em silêncio enquanto os últimos metros de filme corriam sob o feixe do projetor. Maximilian Carver parou o aparelho e acendeu a luz.
— Jacob Fleischmann. ― murmuro Max. ― Estes são os filmes caseiros do Jacob Fleischmann.
Seu pai assentiu em silêncio. Acabou-se a sessão de cinema e Max sentiu por uns segundos que a presença daquele convidado invisível que quase dez anos atrás se afogou a poucos metros dali, na praia, impregnava cada recanto daquela casa, cada degrau da escada, e o fazia sentir como um intruso.
Sem meditar mais nas palavras, Maximilian Carver começou a desmantelar o projetor e Andrea Carver agarrou Irina em seus braços e a levou escada acima para deitá-la.
— Posso dormir contigo? ― perguntou Irina, abraçando sua mãe.
— Deixa isto. ― disse Max a seu pai. — Eu o guardarei.
Maximilian sorriu para seu filho e lhe bateu nas costas, assentindo.
— Boa noite, Max. - o relojoeiro se voltou para sua filha ― Boa noite, Alicia.
— Boa noite, papai. ― respondeu Alicia observando como seu pai se dirigia para as escadas, do piso de cima, com um ar de cansaço e decepção.
Quando os passos do relojoeiro se perderam, Alicia olhou para Max fixamente.
— Prometa-me que não dirá a ninguém o que lhe vou contar.
Max assentiu.
— Prometido. Do que se trata?
— O palhaço. O do filme. ― começou Alicia. — Vi-o antes. Num sonho.
— Quando? ― perguntou Max, sentindo que seu pulso acelerava.
— Na noite antes de vir para esta casa. ― respondeu sua irmã.
Max sentou-se em frente a Alicia. Era difícil ler as emoções naquele rosto, mas Max intuiu uma sombra de temor nos olhos da moça.
— Explique-me isso. ― solicitou Max. — O que sonhou exatamente?
— É estranho, mas no sonho era, não sei como, diferente. ― disse Alicia.
— Diferente? ― perguntou Max. —De que forma?
— Não era um palhaço. Não sei. ― respondeu encolhendo os ombros, como se tentasse retirar importância ao fato, embora sua voz tremula traísse seus pensamentos. — Acha que significa algo?
— Não, ― mentiu Max ― provavelmente não.
— Suponho que não. ― concordou Alicia. — O convite de manhã segue em pé? ir mergulhar...
— Claro. Você acorda?
Alicia sorriu a seu irmão menor. Era a primeira vez que Max a via sorrir em meses, talvez em anos.
— Estarei acordada. ― respondeu Alicia enquanto se dirigia para seu quarto. — Boa noite.
— Boa noite. ― respondeu Max.
Max ficou à escuta até que a porta do quarto de Alicia se fechasse e se sentou na poltrona do salão, junto ao projetor. Dali podia escutar seus pais falarem a meia voz em seu quarto. O resto da casa estava submersa pelo silêncio noturno, apenas perturbado pelo som do mar rompendo na praia. Max comprovou que alguém o olhava perto das escadas. Os olhos amarelados e brilhantes do gato de Irina o observavam fixamente. Max devolveu o olhar ao felino.
— Fora! ― ordenou.
O gato sustentou o olhar durante uns segundos e logo se perdeu nas sombras. Max se levantou e começou a recolher o projetor e o filme. Pensou em levar de novo o material para a garagem, mas a ideia de sair para fora em plena noite se tornou pouco sedutora. Apagou as luzes da casa e subiu até seu quarto. Espionou através da janela em direção ao jardim de estátuas, indistinguível no negrume da noite. Deitou-se na cama e apagou a lamparina da mesa de cabeceira. Ao contrário do que Max esperava, a última imagem que desfilou por sua mente naquela madrugada antes de sucumbir ao sono não foi o sinistro passeio cinematográfico pelo jardim de estátuas, mas aquele sorriso inesperado de sua irmã Alicia minutos antes no salão. Tinha sido um gesto aparentemente insignificante, mas por algum motivo que não conseguia compreender, Max intuiu que tinha aberto uma porta entre eles e que, a partir daquela noite, nunca voltaria a ver sua irmã como uma desconhecida.