O Príncipe da Névoa
Capítulo 15
Max estendeu uma xícara de chá quente ao velho faroleiro e esperou que o ancião se aquecesse.
Victor Kray estava tiritando e Max não sabia se deveria atribuir aquele estado ao vento frio que trazia a tormenta ou ao medo que o ancião parecia já incapaz de ocultar.
— O que estava fazendo aí fora, senhor Kray? ― perguntou Max.
— Estive no jardim de estátuas. ― respondeu o ancião, recuperando a calma.
Victor Kray bebeu um pouco de chá da xícara fumegante e a deixou repousar na mesa.
— Onde está Roland, Max? ― perguntou o ancião nervosamente.
— Por que quer sabê-lo? ― replicou Max num tom que não escondia a desconfiança que lhe inspirava o ancião à luz de suas últimas averiguações.
O faroleiro pareceu intuir seu receio e começou a gesticular com as mãos, como se quisesse explicar e não achasse as palavras.
— Max, algo terrível vai acontecer esta noite se não o impedimos. ― disse finalmente Victor Kray, consciente de que sua afirmação não soava muito convincente — Preciso saber onde está Roland. Sua vida corre grande perigo.
Max guardou silêncio e escrutinou o rosto implorante do ancião. Não acreditava numa só palavra do que o faroleiro acabava de dizer.
— Que vida, senhor Kray, a de Roland ou a de Jacob Fleischmann? ― interpelou, esperando a reação do Victor Kray.
O ancião entreabriu os olhos e suspirou, abatido.
— Acredite que não entendo você, Max. ― murmurou.
— Eu acredito que sim. Sei que me mentiu, senhor Kray. ― disse Max cravando um olhar acusador no rosto do ancião. — E sei quem é Roland na realidade. Você nos esteve enganando desde o começo. Por que?
Victor Kray se levantou e caminhou até uma das janelas, jogando uma olhada ao exterior, como se esperasse a chegada de alguma visita. Um novo trovão estremeceu a casa da praia. A tormenta estava cada vez mais próxima da costa e Max podia escutar o som do fluxo rugindo no oceano.
— Me diga onde está Roland, Max. ― insistiu uma vez mais o ancião, sem deixar de vigiar o exterior. — Não há tempo a perder.
— Não sei se posso confiar em você. Se quiser que o ajude, primeiro terá que me contar a verdade. ― exigiu Max, que não estava disposto a permitir que o faroleiro o deixasse de novo a meia luz.
O ancião se voltou para ele e o olhou com severidade. Max sustentou seu olhar com dureza, indicando que não se intimidava absolutamente. Victor Kray pareceu compreender a situação e se sentou numa poltrona, derrotado.
— Está bem, Max. Contarei-lhe a verdade, se é isso que quer. ― murmurou.
Max se sentou frente a ele e assentiu, disposto a escuta-lo de novo.
— Quase tudo o que lhes contei no outro dia no farol era verdade -começou o ancião
— Meu antigo amigo Fleischmann tinha prometido ao Dr. Caín que lhe entregaria seu primeiro filho em troca de conseguir Eva Gray. Um ano depois do casamento, quando eu já tinha perdido o contato com ambos, Fleischmann começou a receber as visitas do Dr. Caín, que lhe recordava a natureza de seu pacto. Fleischmann tratou por todos os meios evitar aquele filho, até ao extremo de destroçar seu matrimônio. Depois do naufrágio do Orpheus, acreditei que tinha a obrigação de lhes escrever e liberta-los da condenação que durante anos os tinha desgraçado. Eu confiava que a ameaça do Dr. Caín tinha ficado sepultada para sempre sob o mar. Ou pelo menos, fui tão insensato para convencer a mim disso. Fleischmann se sentia culpado e em dívida comigo e pretendia que os três, Eva, ele e eu voltássemos a estar juntos, como nos anos da universidade. Aquilo era absurdo, é claro. Tinham acontecido muitas coisas. Mesmo assim, teve o capricho de construir a casa da praia, na qual seu filho Jacob viria a nascer pouco tempo depois. O pequeno foi a bênção do céu que devolveu a alegria de viver a ambos. Ou assim parecia, porque na própria noite de seu nascimento, eu soube que algo estava errado. Naquela mesma madrugada voltei a sonhar com o Dr. Caín. Enquanto o menino crescia, Fleischmann e Eva estavam tão cegos pela alegria que eram incapazes de reconhecer a ameaça que se abatia sobre eles. Ambos estavam obstinados em procurar a felicidade do menino e em satisfazer todos seus caprichos. Nunca houve um menino ou menina na Terra tão mimado e mimada como Jacob Fleischmann. Mas, pouco a pouco, os sinais da presença de Caín foram tornando-se mais evidentes. Um dia, quando Jacob tinha cinco anos, o menino se perdeu enquanto jogava no pátio por trás da casa. Fleischmann e Eva o procuraram desesperados durante horas, mas não havia sinal dele. Ao cair da noite, Fleischmann tomou uma lanterna e entrou no bosque, temendo que o pequeno se perdesse ou tivesse sofrido um acidente. Quando tinham construído a casa, seis anos atrás, Fleischmann recordava que na soleira do bosque existia um pequeno recinto fechado e vazio que parecia ter pertencido, muito tempo atrás, a um antigo canil derrubado no princípio do século. Era o lugar onde se encerravam os animais que iam ser sacrificados. Aquela noite, uma intuição levou ao Fleischmann a pensar que talvez o menino tivesse entrado ali e ficara preso. Sua intuição era em parte acertada, mas não só encontrou seu filho ali. O recinto que anos atrás tinha estado deserto, estava agora povoado por estátuas. Jacob estava brincando entre as figuras quando seu pai o encontrou e o tirou dali. Alguns dias depois, Fleischmann me visitou no farol e me explicou o acontecido. Fez-me jurar que, se algo acontecesse a ele, eu tomaria conta do pequeno. Aquilo foi só o princípio. Fleischmann ocultava a sua esposa os incidentes inexplicáveis que aconteceram em torno do menino, mas no fundo ele compreendia que não havia escapatória e que mais cedo ou mais tarde Caín voltaria a procurar o que lhe pertencia.
— O que aconteceu na noite em que Jacob se afogou? ― interrompeu Max, intuindo a resposta, mas desejando que as palavras do ancião provassem que seus temores estavam errados.
Victor Kray baixou a cabeça e esperou uns segundos para responder.
— Tal dia, como o de hoje, 23 de junho, o mesmo dia em que o Orpheus se afundou, uma terrível tormenta desatou no mar. Os pescadores correram para proteger seus barcos e as pessoas do povoado fecharam portas e janelas, como tinham feito na noite do naufrágio. O povoado se transformou em uma aldeia fantasma sob a tormenta. Eu estava no farol e uma terrível intuição me assaltou: o menino estava em perigo. Cruzei as ruas desertas e vim aqui a toda pressa. Jacob tinha saído de casa e caminhava pela praia, para a margem, onde a rebentação das ondas rompia com fúria. Caía um forte aguaceiro e a visibilidade era quase nula, mas pude entrever uma silhueta brilhante que brotava da água e estendia dois longos braços ao menino, como tentáculos. Jacob parecia caminhar hipnotizado para aquela criatura de água e quase não a podia ver na escuridão. Era Caín, disso estava certo, mas parecia que, por uma vez, todas as suas identidades se fundissem em uma silhueta cambiante... Custa-me muito descrever o que vi...
— Vi essa forma. ― interrompeu Max, economizando ao ancião as descrições da criatura que ele mesmo tinha visto tão somente umas horas antes. — Continue.
— Perguntei a mim próprio por que Fleischmann e sua mulher não estavam ali, tratando de tirar o menino e olhei para a casa. Uma banda de figuras circenses, que pareciam corpos de pedra móvel, os retinha sob o alpendre.
— As estátuas do jardim. ― corroborou Max.
O ancião assentiu.
— A única coisa que pensei naquele momento foi salvar o menino. Aquela coisa o tinha tomado em seus braços e o arrastava mar adentro. Lancei-me contra a criatura e a atravessei. A enorme silhueta de água se desvaneceu na escuridão. O corpo de Jacob se afundou. Mergulhei várias vezes até que o apalpei na escuridão e pude resgatar seu corpo para levá-lo de novo até a superfície. Arrastei o menino até a areia, longe das ondas e tratei de reanimá-lo. As estátuas tinham desaparecido com o Caín. Fleischmann e Eva correram para junto de mim para socorrer o menino, mas quando chegaram já não tinha pulso. Vamos levá-lo para o interior da casa e cuidaremos de reanimá-lo, inutilmente: o menino estava morto. Fleischmann estava fora de si e saiu para o exterior, gritando à tormenta e oferecendo sua vida a Caín em troca da vida do menino. Minutos depois, inexplicavelmente, Jacob abriu os olhos. Estava em estado de choque. Não nos reconhecia e não parecia recordar nem seu próprio nome. Eva agasalhou o menino e o levou para cima, onde o deixou dormir. Quando voltou a descer, um momento mais tarde, se aproximou de mim e, muito serenamente, disse-me que, se o menino continuasse com eles, sua vida correria perigo. Pediu-me que tomasse conta dele e o criasse como se fosse meu próprio filho, como o filho que, se o destino tivesse tomado outro caminho, poderia ter sido o nosso. Fleischmann não se atreveu a entrar na casa. Aceitei o que me pedia Eva Gray e pude ver em seus olhos como renunciava a algo único, que tinha dado sentido a sua vida. No dia seguinte levei o menino comigo. Não voltei a ver os Fleischmann.
Victor Kray fez uma longa pausa. Max teve a impressão de que o ancião tratava de conter as lágrimas, mas Victor Kray ocultava seu rosto entre suas mãos brancas e envelhecidas.
— Soube um ano depois que ele tinha morrido, vítima de uma estranha infecção que contraiu através da mordida de um cão selvagem. E até agora, não sei se Eva Gray vive ainda em algum lugar do país.
Max examinou o semblante abatido do ancião e concluiu que o tinha julgado erradamente, embora tivesse preferido considerá-lo como um vilão em vez de enfrentar o que suas palavras punham em evidência.
— Você inventou a história dos pais de Roland, inclusive inventou seu nome... - concluiu Max.
Kray assentiu, admitindo perante um moço de treze anos que apenas tinha visto umas vezes o maior segredo de sua vida.
— Então, Roland não sabe quem é na realidade? ― perguntou Max.
O ancião negou repetidamente e Max reparou que finalmente havia lágrimas de raiva em seus olhos, castigados por muitos anos vigiando no alto do farol.
— Quem está enterrado então na tumba de Jacob Fleischmann no cemitério? ― perguntou Max.
— Ninguém - respondeu o ancião. — Nunca se construiu essa tumba nem se oficializou um funeral. A tumba que viu no outro dia apareceu no cemitério local na semana seguinte à tormenta. As pessoas do povoado acreditam que Fleischmann a mandou construir para seu filho.
— Não o entendo. ― replicou Max. — Se não foi Fleischmann, quem a construiu e para quê?
Victor Kray sorriu amargamente ao moço.
— Caín. ― respondeu finalmente. — Caín a colocou ali e a esteve reservando para Jacob.
— Meu deus. ― murmurou Max, compreendendo que talvez tenha desperdiçado um tempo precioso ao obrigar o ancião a confessar toda a verdade. — Terá que tirar Roland da cabana agora mesmo...
A rebentação das ondas que rompiam na praia despertou Alicia. Já tinha caído a noite e, a julgar pelo intenso repico da água sobre o telhado da cabana, uma forte tormenta se desencadeou sobre a baía enquanto dormiam. Alicia se levantou, aturdida ainda, e comprovou que Roland estava estendido na cama de armar, murmurando palavras ininteligíveis em seu sono. Max não estava ali e Alicia supôs que seu irmão estaria lá fora, contemplando a chuva sobre o mar; Max tinha fascínio pela chuva. Dirigiu-se até a porta e a abriu, jogando uma olhada para a praia.
Uma densa névoa azulada avançava desde o mar até à cabana como um espectro à espreita e Alicia pôde perceber dúzias de vozes que pareciam sussurrar desde seu interior. Fechou a porta com força e se apoiou contra ela, decidida a não se deixar levar pelo pânico. Roland, sobressaltado pelo ruído da porta, abriu os olhos e se levantou atrapalhado, sem compreender muito bem como tinha chegado até ali.
— O que está acontecendo? ― conseguiu murmurar Roland.
Alicia separou os lábios para responder, mas algo a deteve. Roland contemplou estupefato como uma densa névoa se filtrava por todas as juntas da cabana e envolvia Alicia. A moça gritou e a porta sobre a qual tinha estado apoiada saiu disparada para o exterior, arrancada das dobradiças por uma força invisível. Roland saltou da cama de armar e correu para Alicia, que se afastava em direção ao mar envolta naquela garra formada por névoa de vapor. Uma figura se interpôs em seu caminho e Roland reconheceu o espectro de água que o tinha arrastado às profundidades. O rosto do palhaço se iluminou.
— Olá, Jacob. ― sussurrou a voz por trás dos lábios gelatinosos. — Agora sim é que nos vamos divertir.
Roland golpeou a forma aquosa e a silhueta de Caín se desintegrou no ar, deixando cair no vazio litros e litros de água. Roland se precipitou para o exterior e recebeu o golpe da tormenta. Uma grande cúpula de espessas nuvens púrpuras se formou sobre a baía. Desde seu topo, um raio cegante caiu sobre um dos picos do escarpado e pulverizou toneladas de rocha, provocando uma chuva de materiais sobre a praia.
Alicia gritou, lutando para escapar do abraço letal que a aprisionava e Roland correu sobre as pedras até a margem. Tentou alcançar sua mão até que uma forte sacudida do mar o derrubou. Quando ficou em pé de novo, toda a baía tremia sob seus pés e Roland escutou um enorme rugido que parecia subir das profundezas. O moço retrocedeu uns passos, lutando para manter o equilíbrio e pôde ver uma gigantesca forma luminosa que subia do fundo do mar para a superfície, levantando ondas de vários metros em todas direções. No centro da baía, Roland reconheceu a silhueta de um mastro emergindo de entre as águas. Lentamente, perante seus olhos incrédulos, o casco do Orpheus saiu da flutuação das ondas, envolto em uma aura espectral.
Sobre a ponte, Caín, envolto em sua capa, elevou uma fortificação prateada ao céu e um novo raio caiu sobre ele, iluminando com uma luz resplandecente todo o casco do Orpheus. O eco da cruel gargalhada do mago alagou a baía enquanto a garra fantasmagórica soltava Alicia a seus pés.
— É você quem eu quero, Jacob - sussurrou a voz de Caín na mente de Roland .— Se não quiser que ela morra, venha procurá-la...