O Príncipe da Névoa
Capítulo 2
A nova casa dos Carver estava situada no extremo norte de uma larga praia, que se estendia frente ao mar como uma lâmina de areia branca e luminosa, com pequenas ilhas de ervas selvagens, que se agitavam ao vento. A praia formava um prolongamento do povoado, constituído por pequenas casas de madeira, de não mais de dois pisos, que, em sua maioria, estavam pintadas em suaves tons de pastel, com o seu jardim e cerca branca alinhada formosamente, reforçando a impressão de uma cidade de casas de bonecas, que Max havia tido a pouco ao chegar.
No caminho cruzaram o povoado, a ravina principal e a praça da prefeitura, enquanto Maximilian Carver explicava as maravilhas do povoado, com o entusiasmo de um guia local.
O lugar era tranquilo e estava possuído por aquela mesma luminosidade que tinha enfeitiçado Max, ao ver o mar pela primeira vez. A maioria dos habitantes do povoado, utilizavam bicicletas como transporte, ou simplesmente iam a pé. As ruas estavam limpas e o único ruído que se escutava, à exceção de algum ocasional veículo a motor, era a suave investida do mar rompendo na praia.
À medida que percorriam o povoado, Max pôde ver como os rostos de cada um dos membros da família refletiam os pensamentos do que lhes provocava o espetáculo, de qual viria a ser o novo cenário de suas vidas. A pequena Irina e seu aliado felino contemplavam o desfile ordenado de ruas e casas com serena curiosidade, como se já se sentissem em casa. Alicia, absorta em pensamentos impenetráveis, parecia estar a milhares de quilômetros dali, o que para Max confirmava a certeza do pouco ou nada que sabia respeito da sua irmã maior. Sua mãe olhava com resignada aceitação o povoado, sem perder o sorriso imposto, para não refletir a inquietação que, por algum motivo que Max não conseguia intuir, embargava-a. Finalmente, Maximilian Carver observava triunfalmente seu novo habitat, dirigindo o olhar a cada membro da família, que iam metodicamente respondendo com um sorriso de aceitação (o sentido comum parecia confirmar que qualquer outra coisa poderia romper o coração do bom relojoeiro, convencido de que tinha levado sua família ao novo paraíso).
À vista daquelas ruas banhadas de luz e tranquilidade, Max pensou que o fantasma da guerra era longínquo e inclusive irreal e que, talvez, seu pai havia tido uma intuição genial ao decidir mudar-se para aquele lugar. Quando as caminhonetes percorreram o caminho que levava até sua casa na praia, Max já tinha apagado de sua mente o relógio da estação e a intranquilidade que o novo amigo de Irina lhe tinha produzido, desde o princípio. Olhou para o horizonte e acreditou distinguir a silhueta de um casco de navio, negro e afiado, navegando como uma miragem entre a calmaria que espelhava a superfície do oceano. Segundos depois, tinha desaparecido.
A casa tinha dois pisos e se elevava a uns cinquenta metros da linha da praia. Rodeada de um modesto jardim demarcado por uma cerca branca, que pedia uma urgente mão de pintura. Estava construída em madeira e, à exceção do teto escuro, estava pintada de branco, mantinha-se em razoável bom estado, tendo em conta a proximidade do mar e o desgaste que o vento úmido, e impregnado de sal, a submetiam diariamente. Pelo caminho, Maximilian Carver explicou a sua família que a casa tinha sido construída em 1928 para a família de um prestigiado cirurgião de Londres, o Dr. Richard Fleischmann e sua esposa, Eva Gray, como residência do verão na costa. A casa tinha constituído na sua época uma excentricidade aos olhos dos habitantes do povoado. Os Fleischmann tinham um matrimônio sem filhos, solitário e mostravam-se pouco interessados no contato com as pessoas do povoado. Em sua primeira visita, o Dr. Fleischmann tinha ordenado claramente, que tanto os materiais como a mão de obra deveriam ser trazidos diretamente de Londres. Tal capricho resultou praticamente em triplicar o custo da casa, mas a fortuna do cirurgião podia permiti-lo. Os habitantes contemplaram com cepticismo e receio o ir e vir, durante todo o inverno de 1927, de inúmeros trabalhadores e caminhões de transporte, enquanto o esqueleto da casa do final da praia se elevava lentamente, dia a dia. Finalmente, na primavera de 28, os pintores deram a última mão de pintura à casa e, semanas depois, o casal se instalou nela para passar o verão. A casa da praia logo se converteu em um talismã que haveria de mudar a sorte dos Fleischmann. A esposa do cirurgião, ao que parece tinha perdido a capacidade de conceber um filho em um acidente anos atrás, tinha ficado grávida durante aquele primeiro ano.
Em 23 de junho de 1928, a esposa de Fleischmann deu a luz, assistida por seu marido, sob o teto da casa da praia, um menino que haveria de levar o nome Jacob.
Jacob foi a bênção do céu que mudou o semblante amargo e solitário dos Fleischmann. Logo o doutor e sua esposa começaram a conviver com os habitantes do povoado e chegaram a ser pessoas populares e estimadas, durante os nove anos de felicidade que passaram na casa da praia, até a tragédia de 1936. Um amanhecer de agosto daquele ano, o pequeno Jacob se afogou enquanto jogava bola na praia frente à casa.
Toda a alegria e a luz, que o desejado filho havia trazido para o matrimonio, se extinguiu naquele dia para sempre. Durante o inverno de 36, a saúde do Fleischmann foi deteriorando progressivamente e logo seus médicos souberam que não chegaria a ver o verão de 1938. Um ano depois da desgraça. Os advogados da viúva puseram a casa à venda. Permaneceu vazia e sem comprador durante anos, esquecida no extremo da praia. Assim foi até que, por pura casualidade, Maximilian Carver teve notícias de sua existência. O relojoeiro voltava de uma viagem para comprar peças e ferramentas para sua oficina, quando decidiu passar a noite no povoado. Durante o jantar, no pequeno hotel local, conversou com o dono, a quem Maximilian expressou seu eterno desejo de viver em um povoado como aquele. O dono do hotel lhe falou da casa e Maximilian decidiu atrasar sua volta e visitá-la no dia seguinte. Na viagem de retorno, sua mente embaralhava cifras e a possibilidade de abrir uma oficina de relojoaria no povoado. Demorou oito meses para anunciar a notícia a sua família, mas no fundo de seu coração já tinha tomado a decisão.
O primeiro dia na casa de praia ficaria na lembrança de Max como uma curiosa recordação de imagens insólitas. Para começar, logo que as caminhonetes se detiveram frente à casa, Robin e Philip começaram a descarregar a bagagem, Maximilian Carver conseguiu inexplicavelmente tropeçar com, o que parecia, um cubo velho e, depois de percorrer uma trajetória vertiginosa dando tombos, aterrissou sobre a cerca branca, derrubando-a mais de quatro metros. O incidente resultou com as risadas alegres da família e um hematoma por parte da vítima, nada sério.
Os dois fortes transportadores levaram os volumes da bagagem até ao alpendre da casa e, considerando resolvida sua missão, desapareceram deixando à família a honra de subir os baús escada acima. Quando Maximilian Carver abriu solenemente a casa, um aroma de fechado escapou pela porta, como um fantasma que tivesse permanecido aprisionado durante anos entre suas paredes. O interior estava alagado por uma débil neblina de pó e luz tênue, que se filtrava das persianas descidas.
— Meu deus. ― murmurou para si a mãe do Max, calculando as toneladas de pó que teria que limpar.
— Uma maravilha. ― se apressou em explicar Maximilian Carver — Já lhes tinha dito isso.
Max cruzou um olhar de resignação com sua irmã Alicia. A pequena Irina contemplava embevecida o interior da casa. Antes que algum membro da família pudesse pronunciar palavra, o gato da Irina saltou de seus braços e, com um potente miado, se lançou escada acima. Um segundo depois, seguindo seu exemplo, Maximilian Carver entrou na nova residência familiar.
— Ao menos alguém gosta. ― Max acreditou ouvir Alicia murmurar.
A primeira coisa que a mãe de Max ordenou fazer foi abrir imediatamente as portas e janelas de lado a lado e ventilar a casa. Então, durante um espaço de cinco horas, toda a família se dedicou a tornar habitável o novo lar. Com a precisão de um exército especializado, cada membro empreendeu uma tarefa concreta. Alicia preparou os dormitórios e as camas. Irina, com o espanador na mão, fez saltar castelos de pó de seu esconderijo e Max, seguindo seu rastro, encarregou-se de recolhê-lo. Enquanto isso, sua mãe distribuía a bagagem e tomava nota mental de todos os trabalhos que muito em breve teriam que começar a realizar. Maximilian Carver dedicou seus esforços para conseguir que canalizações, luz e demais engenhos mecânicos da casa voltassem a funcionar depois de uma letargia de anos em desuso, o qual não resultou tarefa fácil. Finalmente, a família se reuniu no alpendre e, sentados nos degraus de sua nova moradia, concederam-se um merecido descanso enquanto contemplavam o tom dourado que ia adquirindo o mar com o cair da tarde.
— Por hoje já chega. ― concedeu Maximilian Carver, coberto completamente de fuligem e resíduos misteriosos.
— Algumas semanas de trabalho e a casa começará a ser habitável. ― acrescentou sua mãe.
— Nos quartos de cima há aranhas. ― explicou Alicia. — Enormes.
—Aranhas? Uau! ― exclamou Irina. — E o que pareciam?
— Pareciam-se com você. ― respondeu Alicia.
— Não comecemos, de acordo? ― interrompeu sua mãe esfregando a ponta do nariz — Max as matará.
— Não é preciso matá-las; basta agarrara-las e colocar no jardim - falou o relojoeiro.
— Sempre me tocam as missões heroicas. - murmurou Max. — Pode esperar para amanhã o extermínio?
— Alicia? - intercedeu sua mãe.
— Não penso dormir em um quarto cheio de aranhas e Deus sabe que outros insetos há soltos. ― declarou Alicia.
— Brega. ― sentenciou Irina.
— Monstro. ― replicou Alicia.
— Max, antes de que comece uma guerra, acaba com as aranhas. ― disse Maximilian Carver com voz lenta.
— As mato ou só as amanso um pouco? Posso-lhes retorcer uma pata... ― sugeriu Max.
— Max. ― cortou sua mãe.
Max se despediu e entrou na casa disposto a acabar com seus antigos inquilinos. Subiu a escada que conduzia ao piso superior onde estavam os quartos. Do alto do último degrau, os olhos brilhantes do gato de Irina o observavam fixamente, sem piscar. Max cruzou frente ao felino, que parecia guardar o piso superior como uma sentinela. Logo que se dirigiu a um dos quartos, o gato seguiu seus passos.
O piso de madeira rangia muito fracamente sob seus pés. Max começou sua caça e captura de aracnídeos pelos quartos que davam para sudoeste. Das janelas se podia ver a praia e a trajetória descendente do sol para o ocaso. Examinou atentamente o chão em busca de pequenos seres peludos e andarilhos. Depois da sessão de limpeza, o piso de madeira tinha ficado razoavelmente limpo e Max demorou poucos minutos até localizar o primeiro membro da família aracnídea. De um dos cantos, observou como uma aranha de considerável tamanho avançava em linha reta para ele, como se tratasse de um valentão enviado pelos de sua espécie para fazê-lo mudar de ideia. O inseto devia medir mais de um centímetro e tinha oito patas, com uma mancha dourada sobre o corpo negro. Max estendeu a mão para uma vassoura que descansava na parede e se preparou para catapultar o inseto para outra vida. "Isto é ridículo", pensou enquanto dirigia, com sigilo, a vassoura como uma arma mortífera. Estava começando a calibrar o golpe letal quando, de repente, o gato de Irina se equilibrou sobre o inseto e, abrindo sua boca de leão em miniatura, engoliu a aranha e a mastigou com força. Max soltou a vassoura e olhou atônito para o gato, que lhe devolvia um olhar malévolo.
— Vejam lá o gatinho. ― sussurrou.
O animal tragou a aranha e saiu do quarto, presumivelmente em busca de algum familiar de seu recente aperitivo. Max se aproximou da janela. Sua família continuava no alpendre. Alicia lhe dirigiu um olhar inquisitivo.
— Eu não me preocuparia, Alicia. Não acredito que veja mais aranhas.
— Se assegure bem. ― insistiu Maximilian Carver.
Max assentiu e se dirigiu para os quartos que davam para a parte detrás da casa, para o noroeste. Ouviu miar o gato nas proximidades e supôs que outra aranha tinha caído nas garras do felino exterminador. Os quartos da parte detrás eram mais pequenos que as da fachada principal. De uma das janelas, contemplou o panorama que podia observar dali. A casa tinha um pequeno pátio traseiro com um barraco para guardar móveis ou inclusive um veículo. Uma grande árvore, cuja copa se elevava para além das águas-furtadas do sótão, elevava-se no centro do pátio e, por seu aspecto, Max imaginou que levava ali mais de duzentos anos.
Depois do pátio, limitado pela cerca que envolvia a casa, estendia-se um campo de ervas selvagens e, uns cem metros mais à frente, levantava-se o que parecia ser um pequeno recinto rodeado por um muro de pedra esbranquiçada. A vegetação tinha invadido o lugar e o tinha transformado em uma pequena selva da qual emergiam, o que a Max pareciam ,figuras: figuras humanas. As últimas luzes do dia caíam sobre o campo e Max teve que forçar a vista. Era um jardim abandonado. Um jardim de estátuas. Max contemplou hipnotizado o estranho espetáculo das estátuas capturadas pelo mal e encerradas naquele recinto, que fazia pensar em um pequeno cemitério do povoado. Um portão de lanças de metal seladas com um cadeado franqueava a passagem para o interior. No alto das lanças, Max pôde distinguir um escudo formado por uma estrela de seis pontas. Ao longe, mais à frente do jardim de estátuas, elevava-se a soleira de um denso bosque que parecia prolongar-se durante milhas.
— Fez alguma descoberta? ― a voz da mãe em suas costas tirou-o do transe em que aquela visão o tinha abstraído ― Já pensávamos que as aranhas tinham acabado com você.
— Sabia que ali atrás, junto ao bosque, há um jardim de estátuas? — Max assinalou para o recinto de pedra e sua mãe se aproximou da janela.
— Está anoitecendo. Seu pai e eu vamos ao povoado procurar algo para jantar, pelo menos até que amanhã possamos comprar provisões. Ficam sozinhos. Vigie a Irina.
Max assentiu. Sua mãe o beijou ligeiramente no rosto e se dirigiu ao corredor para descer a escada. Max fixou de novo o olhar no jardim de estátuas, cujas silhuetas se fundiam paulatinamente com a bruma crepuscular. A brisa tinha começado a refrescar. Max fechou a janela e se dispôs ele próprio a checar o resto da habitação. A pequena Irina se reuniu a ele no corredor.
— Eram grandes? ― perguntou, fascinada.
Max duvidou um segundo.
— As aranhas, Max. Eram grandes?
— Como um punho. ― respondeu Max solenemente.
— Uau!