O Príncipe da Névoa

Carlos Ruiz Zafón · Capítulo 13 de 20

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O Príncipe da Névoa

Capítulo 12

Na manhã seguinte, Max despertou com a sensação de ter a cabeça cheia de gelatina. O que se adivinhava pela sua janela prometia um dia resplandecente e ensolarado. Levantou-se lentamente e pegou seu relógio de bolso na mesa. O que primeiro pensou foi que o relógio estava avariado. O levou ao ouvido e comprovou que o mecanismo funcionava na perfeição, logo era ele quem tinha perdido o rumo. Eram doze para o meio-dia.

Saltou da cama e se precipitou escada abaixo. Sobre a mesa da sala de jantar havia uma nota. Pegou e leu a caligrafia afiada de sua irmã.

Bom dia, belo adormecido. Quando ler isto já estarei na praia com o Roland. Peguei emprestada a bicicleta, espero que não se importe. Como vi que ontem à noite esteve "no cinema" não quis despertar você. Papai ligou na primeira hora e disse que ainda não sabem quando poderão voltar para casa. Irina está na mesma, mas os médicos dizem que é provável que saia do coma em uns dias. Convenci papai a não se preocupar conosco (e não foi fácil).

Por certo, não há nada para tomar no café da manhã.

Estaremos na praia. Felizes sonhos...

Alicia.

Max releu três vezes a nota antes de deixá-la de novo na mesa. Correu escada acima e lavou a cara a toda pressa. Vestiu um traje de banho e uma camisa azul e se dirigiu ao abrigo para pegar a outra bicicleta. Antes de chegar no caminho da praia, seu estômago pedia com urgência que lhe administrasse a sua dose matutina. Ao chegar ao povoado, desviou seu caminho e dirigiu-se para o centro da praça da prefeitura. Os aromas que inalava a cinquenta metros da padaria seguidos dos rangidos de aprovação de seu estômago lhe confirmaram que tinha tomado a decisão adequada. Três madelenes e duas barras de chocolate, mais tarde retomou o caminho para a praia com um sorriso de satisfação estampado no rosto.

A bicicleta de Alicia repousava sobre a encosta ao pé do caminho que conduzia à praia onde Roland tinha sua cabana. Max deixou a bicicleta junto à de sua irmã e pensou que, embora o povoado não parecia ser um centro de ladrões, não seria de mais comprar uns cadeados. Max parou para observar o farol no alto do escarpado e logo se dirigiu para a praia. Alguns metros antes de deixar o caminho de ervas altas que desembocava na pequena baía se deteve.

Na margem da praia, a uma vintena de metros do ponto onde se encontrava Max, Alicia estava estendida a meio caminho entre a água e a areia. Inclinado sobre ela, Roland, que tinha sua mão sobre o flanco de sua irmã, aproximou-se da Alicia e a beijou nos lábios. Max retrocedeu um metro e se ocultou atrás das ervas, esperando não ter sido visto. Permaneceu ali imóvel durante uns segundos, perguntando-se sobre o que deveria fazer agora. Aparecer caminhando como um estúpido sorridente e dar os bom dia? Ou ir dar um passeio?

Max não se era espião, mas não pôde reprimir o impulso de olhar de novo entre os caules selvagens para sua irmã e Roland. Podia escutar suas risadas e comprovar como as mãos de Roland percorriam timidamente o corpo de Alicia, com um tremor que indicava que aquela era, no máximo, a primeira ou segunda vez que se via em um lance de tamanha envergadura. Perguntou-se também se para Alicia seria a primeira vez e, para sua surpresa, comprovou que era incapaz de achar uma resposta a essa incógnita. Embora tivesse compartilhado toda sua vida sob o mesmo teto, sua irmã Alicia era um mistério para ele.

Vê-la ali, estendida na praia, beijando Roland, era desconcertante e completamente inesperado. Tinha a intuição desde o começo que entre Roland e ela havia uma clara corrente recíproca, mas uma coisa era imaginá-la e outra, muito distinta, era vê-la com seus próprios olhos. Inclinou-se uma vez mais para olhar e sentiu de repente que não tinha o direito de estar ali, e que aquele momento pertencia só a sua irmã e a Roland. Silenciosamente, refez seus passos até a bicicleta e se afastou da praia.

Enquanto o fazia, perguntou a si próprio se estaria ciumento. Possivelmente fora apenas pelo fato de ter levado anos pensando que sua irmã era uma menina grande, sem segredos de nenhum tipo, e que, é obvio, não andava por aí beijando as pessoas. Por um segundo riu de sua própria ingenuidade e pouco a pouco começou a alegrar-se pelo que tinha visto. Não podia prever o que aconteceria na semana seguinte, nem o que traria consigo o fim do verão, mas naquele dia Max estava seguro de que sua irmã se sentia feliz. E isso era muito mais do que podia dizer dela em muitos anos.

Max pedalou de novo até ao centro do povoado e deteve sua bicicleta junto ao edifício da biblioteca municipal. Na entrada havia um velho mostrador de vidro onde se anunciavam os horários públicos e outros comunicados, incluindo o anúncio mensal do único cinema em vários quilômetros em redor e um mapa do povoado. Max centrou sua atenção no mapa e o estudou com atenção. A fisionomia do povoado correspondia mais ou menos ao modelo mental que tinha feito.

O mapa mostrava com todo o detalhe o porto, o centro urbano, a praia norte, onde os Carver tinham sua casa, a baía do Orpheus e o farol, os campos esportivos junto à estação e o cemitério municipal. Uma faísca se acendeu em sua mente. O cemitério municipal. Por que não tinha pensado antes nisso? Consultou seu relógio e comprovou que passavam dez minutos das duas da tarde. Tomou sua bicicleta e enfiou pela rua principal do povoado, por um caminho do interior, para o pequeno cemitério onde esperava encontrar o Jacob Fleischmann.

O cemitério do povoado era um clássico recinto retangular que se elevava no final de um longo caminho ascendente flanqueado por altos ciprestes. Nada especialmente original. Os muros de pedra estavam moderadamente envelhecidos e o lugar oferecia o habitual aspecto dos cemitérios de pequenos povoados onde, à exceção de uns dias por ano, sem contar com os enterros locais, as visitas eram escassas. As grades estavam abertas e um quadro metálico oxidado anunciava que o horário público era das nove às cinco da tarde, no verão, e das oito às quatro horas, no inverno. Se havia algum vigilante, Max não conseguiu vê-lo.

No caminho dali, tinha especulado sobre a ideia de achar um lúgubre e sinistro lugar, mas o sol reluzente de princípio do verão lhe conferia o aspecto de um pequeno claustro, tranquilo e vagamente triste.

Max deixou a bicicleta apoiada no muro exterior e entrou no cemitério. O cemitério parecia estar povoado por modestos mausoléus que provavelmente pertenciam às famílias de maior tradição local e ao redor se elevavam paredes de nichos de mais recente construção.

Max tinha pensado na possibilidade de que talvez os Fleischmann tivessem preferido naquele momento enterrar o pequeno Jacob longe dali, mas sua intuição lhe dizia que os restos do herdeiro do Dr. Fleischmann repousavam no mesmo povoado que o tinha visto nascer. Max necessitou de quase meia hora para dar com a tumba de Jacob, em um extremo do cemitério à sombra de dois velhos ciprestes. Tratava-se de um pequeno mausoléu de pedra ao qual o tempo e as chuvas tinham outorgado um certo ar de abandono e esquecimento. A construção se erguia em forma de um estreito barraco de mármore enegrecido e imundo com um portão forjado em ferro flanqueado pelas estátuas de dois anjos que elevavam um olhar lastimoso para o céu. Entre os barrotes oxidados do portão ainda se conservava um molho de flores secas desde esse tempo imemorial.

Max sentiu que aquele lugar projetava uma aura patética e, embora se tornasse evidente que há muito tempo não tinha sido visitado, os ecos da dor e da tragédia pareciam ainda recentes. Max entrou no pequeno caminho de lajes que conduzia até o mausoléu e se deteve na soleira. O portão estava entreaberto e um intenso aroma de fechado exalava do interior. Ao seu redor, o silêncio era absoluto. Dirigiu um último olhar aos anjos de pedra que custodiavam a tumba de Jacob Fleischmann e entrou, consciente de que, se esperasse um minuto mais, partiria daquele lugar a toda pressa.

O interior do mausoléu estava escondido na penumbra e Max pôde vislumbrar um rastro de flores murchas no chão que acabava ao pé de uma lápide, sobre a qual o nome Jacob Fleischmann tinha sido esculpido em relevo. Mas havia algo mais. Sob o nome, o símbolo da estrela de seis pontas sobre o círculo presidia a laje que guardava os restos do menino.

Max experimentou um desagradável formigueiro nas costas e se perguntou pela primeira vez por que tinha ido aquele lugar sozinho. Atrás de suas costas, a luz do sol pareceu empalidecer fracamente. Max extraiu seu relógio e consultou a hora, embaralhado com a absurda ideia de que talvez se tivesse entretido mais que da conta e que o guardião do cemitério tivesse fechado as portas o deixando preso no interior. As agulhas de seu relógio indicavam que passavam uns minutos das três da tarde. Max inspirou profundamente e se tranquilizou.

Jogou uma última olhada e, depois de comprovar que não havia nada ali que contribuísse com uma nova luz sobre a história do Dr. Caín, dispôs-se a partir. Foi então quando percebeu que não estava sozinho no interior do mausoléu e que uma silhueta escura se movia no teto, avançando sigilosamente como um inseto.

Max sentiu como seu relógio escorregava entre o suor frio de suas mãos e elevou o seu olhar. Um dos anjos de pedra que tinha visto na entrada caminhava invertido sobre o teto. A figura se deteve e, contemplando Max, mostrou um sorriso canino e estendeu um afiado dedo acusador para ele. Lentamente, os rasgos daquele rosto se transformaram e a fisionomia familiar do palhaço que mascarava Dr. Caín aflorou à superfície. Max pôde ler uma raiva e um ódio ardentes em seu olhar. Quis correr para a porta e fugir, mas seus membros não responderam. Depois de uns instantes, a aparição se desvaneceu na sombra e Max permaneceu paralisado durante cinco longos segundos .

Uma vez recuperado o fôlego, correu para a saída sem olhar para trás até que, montado em sua bicicleta, tivesse percorrido cem metros de distância entre ele e a grade do cemitério. Pedalar sem descanso o ajudou a recuperar paulatinamente o controle de seus nervos. Compreendeu que tinha sido objeto de um truque, de uma macabra manipulação de seus próprios temores. Mesmo assim, a ideia de voltar ali para recuperar seu relógio, de momento estava fora de discussão. Recuperada a calma, Max empreendeu de novo o caminho para a baía. Mas desta vez não iria procurar por sua irmã Alicia e Roland, mas o velho faroleiro, para o qual tinha algumas pergunta reservadas.

O ancião escutou o que tinha acontecido no cemitério com redobrada atenção. Ao término do relato, assentiu gravemente e indicou a Max que tomasse assento junto a ele.

— Posso lhe falar com franqueza? ― perguntou Max.

— Espero que o faça, jovem. ― respondeu o ancião. — Adiante.

— Tenho a impressão de que ontem não nos explicou tudo o que sabe. E não me pergunte por quê. Acredito nisso. É uma intuição. ― disse Max.

O rosto do faroleiro permaneceu imperturbável.

— Em que mais acredita, Max? ― perguntou Victor Kray.

— Acredito que esse tal Dr. Caín, ou quem quer que seja, vai fazer algo. Muito em breve. ― continuou Max. — E acredito que tudo o que está acontecendo nestes dias não é mais do que sinais do que está por vir.

— O que está por vir. ― repetiu o faroleiro. — É um modo interessante de expressá-lo, Max.

— Olhe, senhor Kray. ― cortou Max, acabo de apanhar um susto de morte.

― Faz já vários dias que estão acontecendo coisas muito estranhas e estou seguro de que minha família, você, Roland e eu mesmo corremos algum perigo. Não estou disposto a aguentar mais mistérios.

O ancião sorriu.

— Assim eu gosto. Direto e contundente. ― riu Victor Kray sem convicção. — Verá, Max, se eu lhes expliquei ontem a história do Dr. Caín não foi para vos divertir nem para recordar velhos tempos. Fiz para que soubessem o que está acontecendo e andassem com cuidado. Você leva uns dias preocupado; eu levo vinte e cinco anos neste farol com um único propósito: vigiar essa besta. É o único propósito de minha vida. Eu também serei franco, Max. Não vou jogar fora vinte e cinco anos porque um guri recém-chegado pensa jogar detetive. Talvez não deviria ter-lhes dito nada. Talvez seja melhor que esqueça tudo quanto lhe disse e se afaste dessas estátuas e de meu neto.

Max quis protestar, mas o faroleiro elevou a mão, lhe indicando que não abrisse a boca.

— O que lhes contei é mais do que precisam saber. ― sentenciou Victor Kray. — Não force as coisas, Max. Se esqueça de Jacob Fleischmann e queima esses filmes hoje mesmo. É o melhor conselho que posso lhe dar. E agora, jovem, para longe daqui.

Victor Kray observou como Max se afastava caminho abaixo em sua bicicleta. Tinha proferido palavras duras e injustas para o rapaz, mas no fundo de sua alma acreditava que aquilo era o mais prudente que podia fazer. O menino era inteligente e não o podia enganar. Sabia que estava ocultando algo, mas ele não poderia compreender a seriedade desse segredo. Os acontecimentos estavam se precipitando e, depois de cinco lustros (NT- o lustro é um período de 5 anos), o temor e a angústia pela nova vinda do Dr. Caín se materializavam perante ele, ao acaso em sua vida, quando mais débil e só se sentia.

Victor Kray tentou apagar de sua mente a amarga lembrança de toda uma existência unida aquele personagem sinistro, desde o imundo subúrbio de sua infância até sua prisão no farol. O Príncipe da Névoa lhe tinha arrebatado o melhor amigo de sua infância, a única mulher que tinha amado e, finalmente, tinha-lhe roubado cada minuto de sua longa maturidade, o convertendo em sua sombra. Durante as intermináveis noites no farol costumava imaginar como poderia ter sido sua vida se o destino não tivesse decidido cruzar em seu caminho aquele poderoso mago. Agora sabia que as lembranças que o acompanhariam em seus últimos anos de vida seriam só as fantasias da biografia que nunca viveu.

Sua única esperança agora estava em Roland e na firme promessa que tinha feito a si mesmo de brindá-lo com um futuro afastado daquele pesadelo. Já tinha passado muito tempo e suas forças já não eram as que o tinham movido anos atrás. Em apenas dois dias se cumpririam os vinte e cinco anos da noite em que o Orpheus tinha naufragado a escassos metros dali e Victor Kray podia sentir como Caín ganhava maior poder a cada minuto que passava.

O ancião se aproximou da janela e contemplou a silhueta escura do casco do Orpheus submerso nas águas azuis da baía. Ainda ficavam umas horas de sol antes que escurecesse e caísse aquela que podia ser sua última noite na atalaia do farol.

Quando Max entrou na casa da praia, a nota de Alicia seguia sobre a mesa da sala de jantar, o que indicava que sua irmã ainda não havia voltado e que estava ainda em companhia de Roland. A solidão que reinava na casa se adicionou aquela que sentia em seu interior, naquele momento. Ainda ressoavam em sua mente as palavras do ancião. Embora o tratamento que o faroleiro lhe tinha dispensado tivesse doído, Max não sentia ressentimento algum para com ele. Tinha a certeza de que o faroleiro ocultava algo; mas estava certo de que, se procedia daquele modo, tinha uma poderosa razão para fazê-lo. Subiu até seu quarto e se estendeu na cama, pensando que aquele assunto era complexo e que, embora as peças do enigma estivessem à vista, sentia-se incapaz de encontrar a maneira de encaixá-las.

Talvez deva seguir os conselhos de Victor Kray e esquecer todo aquele assunto, nem que fosse só por umas horas. Olhou na mesa de cabeceira e viu que o livro do Copérnico estava ali, depois de uns dias de abandono, como um antídoto racional para todos os enigmas que o circundavam. Abriu o livro no ponto em que tinha deixado sua leitura e tentou concentrar-se nas investigações sobre o rumo dos planetas no cosmos. Provavelmente, a ajuda do Copérnico o teria ajudado a desmontar a trama daquele mistério. Mas, uma vez mais, parecia evidente que Copérnico tinha escolhido a época equivocada para passar suas férias no mundo. Em um universo infinito, havia muitas coisas que escapavam à compreensão humana.