O Regicida
Capítulo XI
Domingos Leite era muitissimo desgraçado, quando seu pai o deixou, indo a Guimarães vender o prediozinho que representava trinta annos de economias.
XI
Chamava a cada hora pelo pai a inconsolavel Angela.
A mãe acariciava com beijos o rosto da filha; e, soluçando, dizia-lhe que o pai não tardaria.
A menina adoeceu de molestia que a mãe attribuiu a saudade. Maria Isabel desvellou as noites de joelhos á beira do leito; e, invocando o testemunho ou a piedade da Virgem do ceo, protestava suicidar-se, assim que sua filha morresse.
Quando Angela se amodorrava em lethargia febril, Maria Isabel escrevia ao marido a historia por minutos da doença da filha. Cada pagina terminava por nova supplica de as levar para si, a não ser que a creança expirasse, que então nada lhe pediria a não ser o perdão.
A desventurada amava o marido n'aquellas horas escurissimas. As derradeiras palavras d'elle, ao despedir-se, compungiram-na profundamente, por que gemiam na alma onde o desalento amolentára os espinhos do odio. O natural despeito de se ver desprezada, por espaço de anno e meio, pôde menos que a consciencia de haver matado o porvir d'aquelle homem, tão prosperado e ditoso n'outro tempo! Alanciavam-na remorsos de o ter enganado, e pensou que a Providencia a punia, pondo-lhe o marido no desterro e a filha na sepultura.
Angela resurgia salva da perigosa enfermidade, quando Maria Isabel, fechando a longa relação com a fausta nova da convalescença, sobrescriptou a carta para Madrid.
N'aquelle tempo, cartas enviadas a Hespanha eram revistadas e rasgadas quando não davam margem a suspeitas. Todo o portuguez que demorasse então em Castella peccava por traidor á patria ou criminoso foragido á justiça. Domingos Leite Pereira fôra arrolado na classe dos ultimos.
Tanto que o seu confessor lhe disse que o marido não recebia as cartas, Maria Isabel, soffreando o pejo, recorreu pessoalmente ao marquez de Gouvêa, levando comsigo a menina. O velho mordômo-mór recebeu-a com benevolencia. As lagrimas em rosto formoso ensinam a delicadeza e afinam almas compadecidas. Entretanto, o marquez não se prestou a transmittir as cartas, receando molestar a irritabilidade de el-rei.
—Mas que mal fez meu marido a el-rei?—perguntou Maria Isabel.
—Não fez mal directamente a el-rei; uzurpou-lhe simplesmente o direito de castigar. Quem mata um homem sem poder allegar que o fez em justa defensão de sua vida, dá a entender que o faz desconfiado da lei.
—Então o sr. D. João IV persegue meu marido?
—Não, senhora; permitte que a justiça cumpra o seu dever.
—E, se eu fosse com a minha filha lançar-me aos pés da rainha?
Sorriu-se o marquez em ar de reprovação do alvitre, lembrando-se que D. Luiza de Gusmão impedira que el-rei se deixasse apiedar das deplorações da duquesa de Caminha, quando já se estavam carpintejando as peças do cadafalso. Alem d'isso o mordomo-mór sabia que o nome da mulher de Domingos Leite chegára ao aposento da rainha com o labeo de prostituida a um padre. Não revelou o que lhe passava na mente, e fez apenas um gesto negativo.
—Mas el-rei não me trataria com desabrimento?—proseguiu ella.
—Não, com certeza. El-rei tractou mui urbanamente a sr.ª duqueza de Caminha, quando lhe foi pedir o perdão do marido.
—Mas não perdoou...
—É verdade; porém, são muito diversos os pedidos e as causas. Que lhe quer vossa mercê pedir?
—Que deixe vir meu marido para Portugal.
—E não seria melhor buscar meios de elle ser julgado e absolvido?—replicou o fidalgo.
—Não conheço ninguem... e tenho vergonha de fallar aos juizes!...
—Acho justa essa repugnancia...—assentiu o marquez—todavia, se quer fallar a el-rei, maior lhe deve ser o pejo.
Maria, apóz breve pauza, em que ponderou a replica judiciosa do mordomo-mór, insistiu ainda chorando:
—Se V. Ex.ª se compadecesse de nós...
—Em que posso mostrar-lhe que me compadeço das suas magoas?..
—Se V. Ex.ª tivesse modo de fazer chegar a minha filha á presença d'el-rei nosso senhor com um requerimento meu...
—Heide pedir licença a sua magestade, e espero alcançal-a. Dar-lhe-hei a resposta. Porém, suppondo que el-rei lhe nega audiencia ou lhe indifere o requerimento, dou-lhe um conselho. Vá para Madrid com sua filha. Seu marido de certo a não repulsará, se a senhora abrir o caminho ao perdão por intermedio da filha que elle adora. Se acontecer achal-o colerico, haja-se com discreta paciencia, dispensando-se de viver em commum com elle. Vossa mercê é bastante rica. Tanto lhe faz viver em Lisboa como em Madrid. Quadra-lhe o conselho?
—Sim, sr. marquez—assentiu Maria Isabel muito reanimada—E V. Ex.ª protege a minha ida?
—Heide conseguir que não lhe impeçam a passagem nas fronteiras, e dar-lhe-hei uma carta que esta menina hade entregar ao pai.
—E como heide encontral-o em Madrid?
—Antes de vinte e quatro horas saberei de Gaspar de Faria onde seu marido se alojou. Se chegar a ir, e reconciliar-se, recommendo-lhe com muita instancia que môva Domingos Leite a sahir de Hespanha. El-rei tem bons amigos em Madrid que lhe relatam pensamentos, palavras e obras dos portuguezes que lá vivem. Já cá é notorio que Domingos Leite, dominado pelo seu funesto amigo Roque da Cunha, concorre ás cazas mais suspeitas dos maquinadores da nossa escravidão. Sobre queda couce, diz o ditado. Não é assim que elle hade ter por si el-rei e os juizes. Por estas e outras rasões lhe aconselho, como bom amigo que ainda sou de seu marido, que em vez de ir a el-rei, passe a Hespanha; e depois, se Domingos Leite a quizer attender e á carta que eu lhe hei de dar, vão para França ou para Roma.
Nesta conjuntura entrou o secretario Antonio de Cavide, que fitou com ares de assombrado o bello rosto e garbosa compostura da dama desconhecida.
Maria Isabel, erguendo-se, disse á filha que beijasse a mão do sr. marquez, e sahiu.
—Quem é esta gentil fada?!—perguntou Antonio de Cavide—Eu nunca vi mais guapa mulher!
—É a esposa de Domingos Leite Pereira.
—Oh!... é esta!?. Olha o maganão do padre Luiz com que cilicios se penitenciava! Bem me dizia el-rei que a mais bonita mulher de Lisboa, segundo ouvira ao juizo competente do sr. marquez, era a Traga-malhas... Que diria sua magestade, se a visse?
—Que diria, e que pensaria!..—accrescentou o mordomo-mór, sorrindo com a malicia commum dos dois fidalgos.
—Eu sei cá!..—tornou o secretario de estado franzindo o sobr'ôlho —Talvez desculpasse o clerigo, e perdoasse aos ciumes ferozes do marido...
—Esta é joia mais de preço que a condessa de Villa Nova!..
—Upa, upa!
—E vai muito alem da açafata?
—Da Justa Negrão? Upa, upa! sr. marquez!
—Vem a ponto uma pergunta: a D. Justa está contente no mosteiro de Chellas?—perguntou o marquez.
—Está resignada desde que eu lhe mostro a filha de mez a mez.
—E el-rei continua a ver a menina?
—Levo-lh'a ao palacio de Alcantara todas as terças feiras. El-rei é doido pela pequena, e chama-lhe a sua querida infanta: mas a creança, que fez agora trez annos, tem uns ares tristes que fazem scismar.
—Adivinhará as lagrimas da mãe?—aventou o marquez—Ou seria concebida em estação amargurada...
—Lá como ella foi concebida não sei; são segredos de alcôva; mas a historia das damas dos reis não me fez conhecer uma só que se carpisse de ser mãe...
O mordomo-mór derivou a palestra em outro rumo, receando molestar o pundunor do ministro lançarote de el-rei.
Era Antonio de Cavide tanto das entranhas de D. João IV que, se
o leitor leu em a Nota 6.ª o testamento do rei, trasladado dos apontamentos originaes, veria as referencias com que o seu real amigo o recommenda á consideração da rainha. Arguiam-no os aulicos de ser o medianeiro dos amores illicitos do monarcha. Da açafata D. Justa Negrão segredava-se na côrte que fôra elle o corruptor á custa de infames alliciações, necessarias a vencer a indifferença e até a reluctancia da criada do paço. Fôra ainda Antonio Cavide o agente da profissão de D. Justa no convento de Chellas, e em caza d'este secretario se estava creando a filha d'esses amores, em que a victima violentada ganhára vestir a mortalha monastica, volvidos dois annos, mais que longos, para o
regio fastio de sua magestade (Nota 19.ª)
Este secretario de estado, raramente referido nos historiadores do reinado de seu real amo, exercia attribuições, segundo parece, nas coisas secretissimas do rei, não lhe sobrando vagar para as do estado. Ainda assim, do testamento do monarcha deprehende-se que nenhum homem gosou como elle a confiança do rei até á hora final. Rodados vinte e seis annos, achamos Antonio Cavide condemnado á morte, na regencia de D. Pedro, como conjurado na tentativa de rebellião a favor de Affonso VI, prezo na Ilha Terceira. E
dado que dois modernos historiadores3 nos dêem Antonio de Cavide executado em Lisboa em 1673 é bem de ver que não colheram idoneas informações de escriptores coevos. Carlos II de Inglaterra, enviando, a rogos de sua esposa D. Catharina de Bragança, um navio a Lisboa com embaixador expresso, a pedir o perdão do velho secretario de D. João IV, logrou salval-o do patibulo; mas, decorrido breve termo, Cavide morreu com suspeitas de empeçonhado por insinuação do regente.