O Regicida
Capítulo XIV
—Quizera elle, senhora, dar-lhe n'este mundo venturas que os anjos do céo lhe invejassem...
Maria Isabel declinou os olhos ao rosto da filha, que parecia querer com a fixidez do olhar supprir a mingua do entendimento.
E, n'este lance, as lagrimas abrolharam a torrentes, porque, ao lado da cabeça de Angela, figurou-se-lhe vêr o rosto do marido, perdido por ella, e, áquella hora, talvez, traspassado de saudades de sua filha.
Ai! aquella mãe e esposa presentiu que havia de escorregar á voragem das deshonradas, embora resvalasse por ladeira de ouro, e lhe pozessem á flor do seu pégo de lama uma corôa de rei!
XIV
Na correntesa dos referidos casos passados em Lisboa, Domingos Leite Pereira, desmentindo os informadores de D. João IV, vivia pouco menos de obscuro, nos arrabaldes de Madrid, gastando restrictamente o que seu pae lhe enviava com grande resguardo e difficuldade.
Ideára elle que sua mulher, quer por compaixão, quer a rogos de Angela, lhe escrevesse, dizendo-lhe, ao menos, que a filha chorava. Esta dôr filial quizera elle que lhe fosse desafogo ás suas.
Mentira o rei quando affirmára que Domingos Leite se pavoneava de desmacular sua honra de marido, matando directa ou indirectamente o padre. Nunca elle articulou o nome da mulher, nem consentira de boa feição que lhe alludissem aos motivos da fuga. A Roque da Cunha rogava que não deslustrasse o nome de sua innocente filha, divulgando as affrontosas desventuras da mãe.
Mostrava-se muito commiserada da tristesa e soledade de Domingos Leite, D. Vicencia Corrêa. Convidava-o miudas vezes a passar com ella, e acintemente reunia em sua casa os filhos da marqueza de Montalvão, o conde de Figueiró, Diogo Soares, o senhor de Regalados, e outros dos muitissimos portuguezes que juraram fidelidade a Filippe IV. A fidalguia rodeava-o de attenções, sem o desengolpharem da sua tristesa, nem, sequer, o moverem à cortez condescendencia de negar a legitimidade de D. João IV. Roque reprovava-lhe a ingratidão, a falta de tino politico, e o perigo em que elle se expunha de não ter amigos em Portugal nem em Castella. Respondia então o desterrado que os recursos de seu pae tanto lhe davam um pão negro em Madrid como em qualquer outra parte do mundo; e que tanto lhe fazia estar ali como em outro ponto da terra, pois, fóra de Portugal, toda a terra lhe era exilio.
E accrescentava:
—Olha, Roque... Fui menos infeliz do que esperava, porque te vejo contente em Madrid.
—Contentissimo—confirmou o enteado do desembargador— Tenho cem escudos da junta dos portuguezes, cincoenta de meu padrasto, o nobilissimo Guedelha; serei brevemente nomeado criado do paço; e, quando Portugal voltar ao que era em 31 de novembro de 1640, uma das boas commendas do teu marquez de Gouvêa, ou d'outro quejando rebelde, será minha!
—Bem fallado!—disse, sorrindo, Domingos Leite—Eu, no teu logar, ia requerendo uma boa commenda em Hespanha, na incertesa do reviramento que desejas em Portugal. Bem sabes quantas investidas tentam ha sete annos os hespanhoes contra a nossa milagrosa independencia. Pergunta-o aos melhores cabos de guerra: ao duque de Feria, ao marquez de Castroforte, ao conde de Monterey, ao marquez de Mollingen, ao marquez de Torrecusa...
—Et c½tera...—atalhou Roque da Cunha—Espera-lhe pela volta. O duque está sem dinheiro e sem gente. Se não fosse o judeu Jeronymo Dias, não haveria fôlego dinheiroso que lhe desse vinte cruzados pelas lettras de cambio.
Esta replica era tristemente verdadeira. Quando D. João IV necessitou comprar em Amsterdão petrechos de guerra, ninguem lhe quiz honrar a firma; por maneira que as lettras foram apregoadas na praça, para serem protestadas. N'esta conjunctura, o hebreu expulso, Jeronymo Dias da Costa, resgatou do opprobrio o nome do rei e talvez a honra da patria, pagando as lettras e abrindo os seus thesouros á causa da independencia da nação, que lhe queimava os parentes. E tão grandemente qualificou D. João IV este serviço, que despachou Jeronymo Dias com a patente de seu ajudante, honra que o successor na corôa confirmou em Alexandre e Alvaro Nunes da Costa, filhos do hebreu; mas, no seguinte reinado, D. João V não consentiu que o emprego se desse ao neto por ser judeu, como se seu pae e avós fossem christãos, diz com ironica elegancia D. Luiz
da Cunha.6
Domingos Leite não redarguia triumphantemente aos argumentos de Roque, senão recorrendo-se dos factos mais eloquentes que as hypotheses.
Todavia, o animo abatido e desvigorisado para contendas politicas esquivava-se a disputações.
Em horas de desalento, a só no seu retiro, escrevia cartas ao marquez de Gouvêa, todas alheias da guerra travada entre as duas nações no mais alto ponto de encarniçamento. Eram lastimas de pae, por onde se transluzia a esperança de apiedar com ellas D. João IV. Taes cartas ou não chegaram ao conhecimento do mordomo-mór, ou o estadista meticuloso as inutilisou, por entender quanto seria malogrado o intento com el-rei. O marquez espiava os passos surdos de Antonio Cavide, e usava traças de lhe explorar o recesso da alma, durante o postre de um jantar bem lardeado de taças. Se o fidalgo farejára um segredo, cuja revelação iria angustiar o desterrado, nobre e caritativo era o silencio; e boa prova de amisade seria têl-o afastado do reino por modo que ignorasse sua deshonra, e o derradeiro golpe lhe não fosse vibrado por mão de um amigo.
Em frustradas esperanças de perdão ou sequer de resposta, ás suas cartas, passaram tres acerbos mezes na vida erma e desconfortada do pae de Angela.
Em começo do mez de abril de 1647, appareceu em Madrid um portuguez, foragido ao santo officio; e, sabendo acaso que Domingos Leite Pereira estava ali homisiado e pobre, bem que de leve se conhecessem, procurou-o para lhe offerecer quinhão da sua abundancia.
Francisco Mendes Nobre, que assim se chamava o christão-novo, —e então orçava por vinte e cinco annos—conhecia de vista Maria Isabel; e, como residisse perto do Salvador, muitas vezes vira a menina com sua mãe.
Consolação immensa para o saudoso pae ir ali um enviado da Providencia fallar-lhe de sua filha, da sua bellesa, dos anneis dos seus cabellos, da côr dos seus mantos, da graça do seu andar, e até da pallidez das facesinhas, onde parece que as lagrimas haviam arado o frescor da puericia!
Domingos Leite chorou nos braços d'este quasi desconhecido que de sobresalto lhe senhoreára o coração.
E Francisco Mendes, captivo da expansão de Domingos Leite, animou-o a ir secretamente a Portugal buscar a filha, facilitando-lhe recursos abundantes para a empresa, e dinheiro em Madrid para subsistencia de ambos, a não querer Domingos Leite acompanhal-o para Hollanda. Alem d'isso, deu-lhe duas chaves de dois predios em Lisboa, dizendo-lhe:
—Tem vm.ce esta chave que é da minha casa na rua dos Vinagreiros, e est'outra da casa em que eu morava na rua das
Olarias.7 Sirva-se da casa que melhor lhe quadre, ou de ambas, para as suas sortidas nocturnas. Se vir que os quadrilheiros o suspeitam em uma, vá esconder-se na outra: isto é no caso de que o santo-officio as não haja sequestrado; mas presumo que não, por que eu, apenas soube que um meu parente remoto foi preso, escapuli-me com o melhor e mais portatil dos meus haveres, comprando muito cara a passagem nas fronteiras ao conde de S. Lourenço, que é um honrado christão velho, desde que o hebreu Lafeta conquistou foros de christão mais velho que o proprio Christo.
(Nota 21.ª)
O israelita, cuidando que preparava dias alegres e resignados ao seu amigo, despenhava-o da esperança na ultima paragem da perdição.
Participou Domingos Leite a Roque da Cunha o seu designio.
—O diabo arma-as!—contraveio Roque—Não vás, doido! Tu não sabes onde te vaes metter... Olha que em Lisboa já se sabe que és cavalleiro de Christo em Hespanha, e que os ministros de Filippe IV são teus amigos.
—Mal os conheço...
—Porque foges d'elles, ingrato! e foges d'elles porque a tua perdição te chama a Portugal.
—O que Deus quizer. Não me despersuades. Vou buscar minha filha. Se me prenderem, se me matarem, é-me indifferente acabar de um golpe ou agonisar n'esta arrastada tortura da saudade. Um favor te peço.
—Que vá comtigo? Nego-me. Matei um homem, por que a tua honra m'o exigiu; deixar-me agora matar, porque és um fraco, um piegas, que não póde viver sem a filha, isso é que não assigno.
—Espera, homem, que eu ainda te não disse o que pretendia— replicou bem humorado Domingos Leite.
—Dize lá, então.
—Quero que obtenhas uma ordem para que o marquez de Molinguen, governador das armas em Badajoz, me dê passo franco para Portugal.
—Isso te arranjo eu. E dinheiro, queres?
—Não. Achei aqui um portuguez que me soccorreu, um christão-novo.
—E despresas os soccorros dos christãos-velhos! Ora queira Deus que o tal judeu te não leve ao calvario como fizeram ao seu rei. Como se chama elle?
—Desculpa-me: pediu-me segredo da sua passagem por Castella.
—E tu, Domingos Leite Pereira, tens segredos para Roque da Cunha?
—E para meu pae que me pedisse o nome de um homem que confia tanto nos dominicos de Lisboa como nos de Madrid. Os segredos da minha deshonra, revelei-t'os; os da consciencia alheia não devo, nem posso.
—Nem eu quero sabel-os. Foi mera curiosidade que me levou a perguntar-te o nome do teu banqueiro hebreu. Leva-te grande onzena?
—Não. O juro das esmolas recebe-se no ceu.
—A pagal-os lá, todas as burras judaicas da Hollanda vazaria eu a juro de 200 por cento ao mez!—volveu cascalhando Roque, e accrescentou:—Quando partes?
—Logo que me obtenhas a ordem para o general.