O Regicida
Nota 23.ª
N 23.ª
Isto de ser agarrado pelas costas o duque de Vizeu, quando o Luiz XI portuguez
o esfaqueou, não se vislumbra da historia, porque a historia dos governos monarchicos tem sempre sido escripta de joelhos sobre os estrados dos thronos. De feito, D. João II, quando resolveu matar o duque guarda-roupa das casas de Nuno da Cunha em Setubal, convidou trez homens para testemunhasdo feito: Diogo de Azambuja, Lopo Mendes do Rio, e D. Pedro d'Eça, alcaide de Moura. Este ultimo era um dos mais valentes homens de Portugal. D'elle diz Diogo de Paiva de Andrade, nas suas Memorias: foy um Fidalgo a quem a natureza dotou de muito animo e grandes forças, e por isto El-Rey D. João II o escolheu quando quiz matar a D. Diogo, Duque de Vizeu a quem abraçou por detraz. Eis aqui a singular missão da testemunha!
E, como prova da coragem de D. Pedro d'Eça e dos medianos espiritos do
covarde matador do duque, refere Diogo de Paiva um bonito lance: Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus (do alcaide) foram-se dois irmãos do morto queixar a El-Rey, e disseram-lhe que D. Pedro lh'o mandára. Pelo que, El-Rey o mandou vir á côrte, e esteve n'ella mais de dois annos, posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro, disse a El-Rey, que pois sua Alteza não queria crêr que elle não tinha culpa na morte do homem, e os que o accusavam eram dois, que lhe fizesse mercê de lhe mandar dar campo com ambos, para assim se purificar: do que, agastando-se El-Rey lhe disse: «que tomára elle ser um dos dois». E D. Pedro lhe respondeu: «Não fôra Vossa Alteza meu Rey, e fosse com elles o terceiro».