O Regicida
Capítulo XVIII
Domingos Leite passou vertiginosamennte a mão pela fronte, e murmurou:
—Jesus!...
Invocára o dulcissimo nome da divina caridade humanada, e... estava perdido! Quem sabe como lá soou nos juizos de Deus aquella invocação! Quem sabe a distancia que medeia entre o grito do homem e a serena magestade do seu Creador!
XVIII
Roque da Cunha negociava com os ministros de Filippe IV, em nome de Domingos Leite, a morte do uzurpador. Encomiando o caracter audaz do seu amigo, encarecia-o tambem como grato e affeiçoado ao rei de Hespanha; sendo que a facção planeada timbrava tanto de pessoal como de politica. E, do mesmo passo, entre-mostrava que o ex-escrivão do civel da côrte, pelo facto de haver sido tão liberalmente remunerado, creara necessidades de pompas, que el-rei de Castella poderia de antemão assegurar-lhe em Madrid, com promessas de maiores vantagens, restaurado Portugal.
Exposto isto ao valido por Francisco Leitão, o secretario das mercês nomeou Domingos Leite em uma commenda de Christo de lotação de duzentos cruzados e brindou o medianeiro com quatrocentos escudos e um officio na casa real. Quanto á partilha do espolio de Portugal, Diogo Soares, desde logo, magnanimamente nomeou seu secretario Domingos Leite, com meio vencimento, até se abancar na respectiva secretaria.
Roque apressurava n'este em meio a sahida para Lisboa recolhendo no seu alforge afivelado de moscovia de prata provimento de quartos e pelouros, e frascos de peçonha com que as balas deviam ser hervadas. Da parte de Filippe IV recebeu, por mão do desembargador Guedelha, Domingos Leite uma escopêta de primoroso artificio, ao mesmo tempo que lhe entregava o alvará da mercê da commenda de Santa Maria de Valdestillas, e carta de passagem e recommendação muito instante ao marquez de Mollinguen.
Em 6 de maio de 1647 estavam Domingos Leite e Roque da Cunha, na Ameixoeira, uma legua distante de Lisboa, em casa de Bento Rodrigues Taveira, amigo de Diogo Soares.
Haviam ambos cortado as barbas, antes de entrar em Portugal. Roque trajára-se com a simplicidade de mercador, e fallava uma linguagem estrangeirada com mescla de termos hollandezes.
Nos primeiros dias concorreu á Ameixoeira um negociante de sola, chamado Serges, de origem allemã, cujo avô, em tempo d'el-rei D. Manuel, se estabelecêra em Lisboa com privilegio de sapateiro. Serges era espião de Castella em Lisboa, onde, áquelle tempo, amealhava grossos haveres. Ao tempo que os regicidas sahiam de Madrid, era o sagaz mercador avisado por expresso afim de se avistar com elles em casa do fugitivo partidario dos Filippes, na Ameixoeira.
Apresentou-lhe Roque a planta das casas escolhidas por Diogo Soares para a emboscada. Devia ser Serges o alugador das casas, sob color de querer armazenar n'ellas os seus generos, logo que lhe chegasse de fóra a carga extraordinaria que encommendára, prevenindo-se para o consummo da grande guerra e para a contingencia dos bloqueios. Assim explicava o mercador aos inquilinos dos tres ou quatro prédios o interesse grande que punha em alugar as casas pelo dôbro da sua renda. Tão minucioso é n'esta relação o manuscripto consultado, que não lhe esqueceu dizer-nos ser o proprietario das casas Gomes Freire, fidalgo de Beja.
O plano de Diogo Soares foi levemente alterado, segundo deprehendemos da descripção particularisada do Ms. que reza assim: «A morada de casas que primeiro alugou Simão Serges está em um bêcco fronteiro á Capella mayor de S. Nicolau; e por um passadiço sahe a outro bêcco que desemboca na Tinturaria e cinge por aquella parte a Tornoaria; e além d'estas alugou mais tres moradas, umas que dizem para a Tinturaria, e outras que fazem a revolta da rua dos Torneiros, e as ultimas no recanto d'esta rua, que faz desegualdade a outro canto de Quebra-Costas.»
Conseguido o despejo dos quatro prédios, Domingos Leite e Roque da Cunha alojaram-se no Bêcco de Ponce de Leão, na noite de 20 de maio, sem encontro que lhes desfalcasse a coragem. Serges proveu-os dos viveres necessarios, ferramenta e tudo que os dispensasse de sahirem.
O trabalho interior de demolir e construir communicação de umas para outras casas era pezado para mãos mimosas e não callejadas na alavanca e picarêta. Como os planos dos sobrados eram desiguaes, ao romperem as paredes mestras tiveram de escadear a passagem d'uns aos outros, e cobrir os envazamentos com tal artificio que, se os procurassem na primeira casa, não se lobrigassem vestigios de passagem para a immediata. Quanto ao melhor local para abertura de setteiras, escolheram uma esquina que dominava toda a rua dos Torneiros e parte da Correaria, resolvendo descarregar sobre o rei pelas espaldas; e abriram outra, conforme o plano de Madrid, para, em conjunctura melhormente proporcionada, lhe atirarem de frente.
Estes preparativos estavam concluidos em 15 de junho, com poucas ferias de repouso, e nem o minimo ruido que motivasse a curiosidade dos visinhos.
Em algumas das noites decorridas, Domingos Leite quiz sahir com o disfarce de atafoneiro; mas Roque embargava-lhe o passo com reflexões de prudencial severidade. Figurara-se-lhe possivel vêr, acaso, a filha estremecida. Escutando o coração, o pae de Angela decifrava no vago terror que lá lh'o innoitecia que nunca mais havia de vêl-a! Enganava-se. Tinha de vêl-a um instante, e esse seria o derradeiro e unico.
Todavia, se Domingos Leite, na noite de 19 de junho, se confundisse na multidão que enchia o Terreiro do Paço, veria Maria Isabel e Angela, recostadas nos almadraques de uma liteira, a gozarem o espectaculo das columnas resplendentes de lampadarios de christal que era costume accenderem-se n'aquella praça, na do Rocio, e em todas as ruas percorridas pela procissão do Corpo de Deus. Depois, iria no rasto da litteira pela rua Aurea, pela dos Mercadores, dos Ourives da prata, dos Escudeiros, dos Odreiros, da Almada, das Portas de Santa Catharina, de S. José, com os seus trinta palacios estrellados de luminarias, e pela Calçada do Combro, onde o palacio do Monteiro-mór excedia os mais sumptuosos na bellesa da illuminação. Por todas estas ruas abobadadas de esteira, com figurações christãs e pagãs nos remates de cada cunhal, poderia Domingos Leite seguir a litteira de sua mulher, vêr a espaços o rosto alegre da filha, debruçada na portinhola perguntando á mãe a significação das estranhas figuras debuxadas nos guadalmecins e paineis que tapizavam as paredes e balcões das sacadas. E, depois, ahi por volta da meia noite, seguil-a-hia ao longo do bairro da Marinha, estrada de Alcantara, até que, apagado o clarão dos lustres que alumiavam, se acingisse á liteira e apunhalasse a esposa, e sobraçasse a filha, e a devorasse de beijos, e morresse n'aquelle extasis!
Mas, a essa hora de tumultuosa alegria, Domingos Leite, depois de ceia, encostou os cotovellos á meza, apoiou a barba entre as mãos, e disse a Roque da Cunha:
—Parece-me que foi Leonidas, na vespera da passagem das Thermopilas, que disse aos trezentos companheiros da sua funesta façanha, depois de jantar: «hoje aqui jantamos, e iremos cear ao reino de Plutão.» Onde iremos nós cear ámanhã?
—D'aqui trez leguas: á estalagem da Povoa de D. Martinho, onde ainda ha um velho Malaga, que os portuguezes bebem para matar a sêde do sangue de castelhanos—respondeu Roque sorrindo.
—Vamos marcar os nossos postos—volveu o commendador de S. Maria de Valdestillas.
—Estão marcados.
—Ainda não. Onde hasde tu estar quando eu atirar ao rei?
—Aonde? aqui.
—Não quero. Ao pé de mim, não. Se eu for agarrado, quero ver-me sósinho, face a face do algoz. Se o homem morrer, e eu me evadir, não disputarei o teu quinhão de gloria n'este feito. Dirás em Madrid, e eu confirmarei, que tu estavas ao meu lado, com o pé na beira do meu abysmo, com o pescoço exposto ao mesmo esparto, com as mãos debaixo do mesmo cutello. A hora é excellente para sahires d'aqui por entre o povo que enche as ruas. Os cavallos, a esta hora, devem estar na Ameixoeira, segundo combinamos com o marquez de Molinguen. Vai tu pernoitar á Ameixoeira, e ámanhã, por volta do meio dia, parte com elles e espera-me no Postigo da Senhora da Graça. Se eu lá não estiver antes das tres, foge, porque então estarei preso ou morto.
—Mas...
—Não questionemos. Isto é resolução feita e inalteravel. Tenho-te dito que não quero cumplices; e, se guardei para esta hora o declarar-t'o formalmente, foi por evitar contestações então, e agora muito mais, que é tarde para discutir. Vamos. A pé e sahir. Dá cá um abraço. Até ámanhã de tarde, ou... até... nunca mais. Viverei ou morrerei agradecido á tua dedicação. Ingrato e atrozmente egoista seria eu, se arriscasse a tua cabeça n'um desaggravo da minha honra. Se eu morrer, se me não vires mais, dize ao rei d'Hespanha que o alvará da commenda com que nobilitou minha resalva de assassino o desfiz em buchas para a escopêta com que me elle brindou. E adeus!
Roque da Cunha abraçou-o sem commoção sensivel. Para esta frieza concorria a crua rigidez de sua compleição e a esperança do bom exito da entrepreza. Se Domingos Leite lograsse penetrar-lhe nas cavernas do peito, veria lá dentro assomos de jubilo. Desde que o dia 20 de junho se aproximava, Roque meditava absôrto e pávido no trance do tiro, nos paroxismos do rei, no torvelinho do povo, na grita de milhares de vozes, no arrombarem-se as portas, na linha de alabardeiros cintando as ruas, na sua propria cara a delatar o crime, nos crimes impunes da sua proterva historia—em fim, na forca.
Se um homem n'estas condições ousaria prever que um historiographo portuguez, seculo e meio depois, escreveria d'elle: ... cheio de confusão e honra!
Pois houve! O leitor verá que n'esta sua, tão sua e minha querida terra, temos historiadores que denominam a incestuosa mulher de Pedro II rainha prudentissima (veja o sr. conselheiro Antonio José Viale, na sua Historia) e Roque da Cunha homem cheio de confusão e honra. (Veja Roque Ferreira Lobo na sua Historia da acclamação de D. João IV.)