O Regicida

Camilo Castelo Branco · Capítulo 12 de 42

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O Regicida

Capítulo XII

 

Maria Isabel, querendo passar a Castella, offereceu os seus predios da Tanoaria a varios compradores que lh'os haviam desejado; mas a alienação dos bens seria nulla sem consenso do marido, e nulla tambem em quanto elle não houvesse respondido á justiça, que o esbulhára dos seus direitos.

Recorreu a dama ao mordomo-mór, que não antevira o embaraço, nem podia removêl-o. A consternada senhora sahiu do gabinete do marquez, desattendendo os prudentes conselhos que tendiam a esperar alguns dias o resultado da intervenção de um ministro mais influente no real animo. O mordomo-mór lembrara-se de Antonio Cavide. Maria Isabel lembrara-se de D. João IV.

Seguiu d'alli, com a filha, para o paço da Ribeira, e entrou no Arco de Ouro. Debaixo da arcada estava a Porta da Campainha. Chamava-se assim porque debaixo d'aquelle arco havia entrada franca de serventia para uma casa onde estava uma roda, como a das portarias monasticas, e sobre a roda uma sineta que tangiam as pessoas que procurassem el-rei. E, logo que a campainha tocasse, D. João IV enviava alguem a reconhecer a pessoa, ou descia propriamente, se esperava ser procurado por aquelle meio menos ordinario.

Estava o rei com Antonio de Cavide na sua pomposa bibliotheca de musica, situada na porção do palacio chamada o Quarto do Forte, quando ouviu tanger a sineta.

—Vá ver quem é—disse o rei sorrindo—Olhe que não vá ser algum burro lazarento...

Emquanto o secretario de estado vai e volta, saibamos que allusão é aquella do burro lazarento, visto que Diogo de Paiva e Andrade no'l-a transmittiu nas suas Memorias, por vezes citadas n'este livro. Foi que uma vez entrara um jumento vadio no recinto da sineta, e começou a trincar a corda no intento provavel de a comer. Ora como a sineta repicava tão ligeira quanto a fome do tangedor esgarçava no cordel, D. João IV, que estava só, e extranhára o pressuroso dos toques, desceu pessoalmente á casa da roda, e perguntou quem era. Como ninguem lhe respondesse, mandou averiguar se a pessoa que tocára já teria subido á saleta de espera. O enviado voltou annunciando a sua magestade que encontrara um burro muito magro. El-rei ordenou logo que o levassem ás cavallariças reaes, com recommendação de o tratarem fartamente; e accrescentou; «Semelhante pretendente não póde ter outro requerimento.»

Não me consta que D. João IV, em toda a sua vida, dissesse ou fizesse coisa de tanto espirito. A não ser coevo de sua magestade aquelle burro faminto, morreriam ambos ignorados, sendo digna de escriptura a lembrança que os dois tiveram.

Voltou no entanto Antonio Cavide com ridentissimo semblante, e disse:

—Mal pensava eu, real senhor, quando ha pouco tentava pintar o esbelto rosto da mulher de Domingos Leite, que ella tão perto estava de desmentir na presença de vossa Magestade a pallida copia que eu fiz!...

—Foi ella que tocou?!—acudiu o rei entre alegre e maravilhado.

—Ella, meu senhor, acompanhada da filha. Pede audiencia; e, apezar de coberta de lagrimas, nunca houve orvalho que aljofarasse mais purpurinas rosas!..

—Estou a ver se me falla em verso, Cavide!—disse o rei escondendo a custo a commoção da curiosidade—Mande-as entrar na primeira sala.

O secretario de estado correu o reposteiro da sala de espera e disse a Maria Isabel:

—Sua magestade houve por bem admittir a vossa mercê á sua real presença; queira entrar n'esta sala, e esperar el-rei nosso senhor.

A esposa de Domingos Leite com difficuldade se sustinha nas pernas, chegado o momento de se avistar face a face do rei: tremia de respeito como tremeria de pavor. A menina aconchegava-se d'ella olhando-a com susto, e circumvagando a vista assombrada pelas tapeçarias e colgaduras de ouro e prata, de veludo e damasco entre as quaes lampejavam contadores marchetados de ouro e marfim, grandes cofres abaulados de tartaruga e prata, bofetes torneados com feitios de dragos e serpentes, jarroens japonezes encimados das peregrinas flores que recendiam nos jardins do paço da Ribeira, redomas de christal, relogios de Inglaterra com primorosos relevos de esmalte, as pompas de toda a terra conglobadas n'aquelle palacio, que já então pompeava primasias sobre as mais esplendidas côrtes da Europa, graças á baixella da duquesa de Mantua, que nunca lhe foi restituida.

Posto que o tapete abafasse as passadas d'el-rei, Maria Isabel ouviu-o nas palpitações do coração; e já estava em joelhos, quando um sumilher da cortina correu o reposteiro com um ringido de aço estridente que, digamol-o assim, aggravava mais o terror do lance.

D. João IV entrou; o reposteiro ajustou-se outra vez aos batentes da ampla porta; e, n'este conflicto, a filha do burguez João Bernardes Traga-malhas cuidou que desmaiava, encostando a face esquerda ao volante que cobria a cabeça da menina.

Orçava então o rei pelos quarenta e tres annos. Não obstante as bexigas, que lhe alteraram notavelmente a gentilesa do rosto, conservava vivacissima a graça dos olhos azues, mais risonhos que os labios, nos escassos momentos em que o contentamento lhes transluzia desafogado da violenta caracterisação de rei suspeitoso. Era de estatura mean, e largo de espaduas, robustecido em lides fragueiras, despresador de inclemencias de tempo, quando nas monterias da tapada de Villa-Viçosa dispendia selvaticamente os melhores annos da existencia. Dá a perceber o conde da Ericeira, D. Luiz de Menezes, no Portugal Restaurado, que D. João era tão desregrado na alimentação que anticipara a caduquez do corpo. O historiador aulico, se lhe dessem trella, e alforria no pensamento, assim como nos disse que no rei o trajar era pouco menos que rustico e sujo, communicar-nos-hia a intemperança do espadaúdo sugeito, cevando-se nas lubricidades que adelgaçam as mais maçorras e rijas compleições.

Não se pense, porem, que o rei de Portugal n'aquelle dia trajasse immundo ou denotasse na epiderme do rosto padecimentos de hydropesia. Vestia um pourpoint (gibão) de panno preto, refegado no peito, sem guarnições até baixo do joelho, como loba clerical, e a pescoceira da camisa derrubada sobre a gola d'aquella vestimenta

que muitas vezes usava, da vil droga chamada estamenha. (Nota

20.ª)

Os cabelos loiros, mas tosquiados quasi rentes, descampavam-lhe a fronte, relevada em proeminencias, que inculcariam talento, se a sciencia phrenologica de Spurzheim não fosse um lôgro nas cabeças da raça dos braganças, não collaboradas.

Calçava meia de sêda escura e sapato de veludo com um simples botão, sem os broches e orladura de ouro e perolas com que medianos fidalgos e até os pecuniosos da classe média se ajaesavam.

Como já vimos, Maria Isabel Traga-malhas esperava ajoelhada e perturbadissima a entrada d'el-rei.

Caminhando a passo vagaroso para ella, D. João IV parou a pequena distancia, e disse-lhe:

—Levantae-vos, senhora!

E como ella permanecesse em joelhos e anciada, o rei insistiu:

—Erguei-vos, que eu desejo ouvir-vos sem essa postura de adoração. Vamos! a pé!

Sua magestade poderia dizer alguma coisa mais regia, mais conceituosa, mais galan, ou, sequer, mais espirituosa, para arrolarmos com a outra do quadrupede da sinêta; mas não o arguamos de canhêstro ou pecco de phrases, dado que, a respeito da sua eloquencia, o referido conde da Ericeira nos diga que não costumando o rei a empregar as palavras mais polidas, usava d'ellas com tal arte, galantaria e agudeza que parecia fazia estudo

do que em outros podera ser defeito 4 .

D'esta vez, cumpre desculpar-lhe a insufficiencia, dando-lhe foros de mero homem em presença da mulher que ultrapassava toda a bellesa imaginada.

Maria Isabel, apesar de ter meia face vellada no rebuço do capotilho—descortezia que ella ignorava por desconhecer ceremonias palacianas—deixava metade do rosto aos deleites da admiração, e a outra metade á curiosidade dos desejos, como diria na sua rhetorica farfalhuda Antonio Cavide.

Quando Maria se levantou, sem altear os olhos acima do estrado, acercou-se mais o rei, e poz a mão na face de Angela, dizendo:

—És muito galante, menina!

A mãe relançou a vista menos timida á face de D. João, e, como lhe encontrasse os olhos fixos, derivou logo os seus para a creança, absôrta na contemplação do rei.

—Sentae-vos, senhora—continuou, apontando-lhe uma cadeira, e olhando de esconso para o reposteiro, afim de certificar-se que ninguem lhe espreitava tão insolita cortezia ou tamanho abatimento da magestade.

—Se vossa magestade não quer ouvir-me de joelhos, peço que me deixe supplicar de pé a sua misericordia—balbuciou Maria.

—Sentae-vos e dizei. Tudo que o rei poder fazer-vos sem gravame da justiça e direito de seus vassallos, ser-vos-ha feito. Vindes pedir-me que absolva vosso marido de um crime publico? não sou eu quem hade sentencial-o ou absolvel-o.

—Não peço tanto a vossa magestade, meu Senhor...

—Que quereis então?

—Ir com minha filha para Madrid.

—Quereis ir para Domingos Leite?—perguntou o rei com estranhesa.

—Sim, real Senhor.

—É elle que vos chama?

—Saberá vossa magestade que eu, desde que elle partiu, nunca mais tive noticias suas.

—Apezar d'isso, quereis ir... Quem vos priva?

—Quiz vender parte dos meus bens, e a justiça não m'o permitte nem permittirá ainda que meu marido assigne os contractos.

—Porque é essa a lei dos criminosos—volveu gravemente o rei— Vindes pedir-me que submetta a lei á minha vontade particular? O que não posso fazer como homem, n'este caso, tambem o não posso fazer como principe. Eu não subordino a justiça: sou-lhe subordinado. Porém, como homem, poderei prestar-vos um serviço, se o quizerdes acceitar. Dar-vos-hei meios para irdes a Castella; e emquanto lá os carecerdes, remediar-vos-hei.

Maria, pela primeira vez, encarou a fito o monarcha. Brilhavam-lhe as lagrimas nos esplendidos olhos. El-rei parecia olhal-a com o resguardo timido de vassallo a contemplar, reconditamente amoroso, a sua rainha.

—Eu queria—murmurou ella—levar a meu marido o que herdei de meus paes; mas agradeço a vossa magestade a esmola que me offerece.

—Não é esmola; é emprestimo. Quando a sentença remover os estorvos que vos privam de vender os bens, então me pagareis. Entretanto, sabeis se vosso marido vos receberá graciosamente?

—Não sei, meu senhor...

—Ouvi dizer que elle, desde a morte de certa pessoa, vos não fallára mais. É verdade?

—Sim, meu senhor.

—E esse despreso não impede que o ameis? Fallae-me verdade inteira, porque a vossa sorte me está prendendo extraordinariamente a attenção. Amaes Domingos Leite?

Deteve-se alguns momentos a interrogada, e respondeu com embaraço:

—Casei com elle por paixão, e foi a paixão que me cegou...—e aqui reteve-se vexada e confusa.

—Sei o que vos custa a dizer:—acudiu o rei—passae adiante, Maria Isabel.

A suavidade com que D. João proferiu os dois nomes parecia arrasar uma alta barreira, erecta entre os desiguaes interlocutores. Aquelle tom de benevola confiança—o vêr ella seu nome na memoria d'el-rei—deu-lhe umas largas á alma, uns assomos de vaidade, um desafôgo analogo ao dos pulmões que se impregnam de correntes de ar novo em recinto abafadiço.

—Dizei,—proseguiu elle—O desamor com que Domingos Leite recusou perdoar-vos uma culpa, que devia ser attenuada pela innocencia com que a praticastes, foi causa a que a vossa paixão se desvanecesse... Errei o meu juiso?

—É verdade, real senhor!.. Eu sei que fui criminosa em acceitar o seu galanteio; mas não o seria... se não fosse tão innocente.

—Ainda assim, é compaixão ou amor que vos resolve a procural-o em Hespanha?

—É esta creança que chora por elle; e é a afflicção que eu sinto quando me lembro das afflicções com que meu marido se separou da filha...

—E de vós, não?!—redarguiu elle com perfida admiração.

—Parecia querer perdoar-me n'essa hora...

—Bem. Perguntae-lhe se vos perdôa. Se elle vos disser que sim, ide, e contae commigo. Lembro-vos, comtudo, que em Madrid Domingos Leite é recebido como homem brioso que matou um padre, amante de sua mulher: e que o sr. D. Filippe IV, attendendo aos merecimentos de tal façanha, o honrou com o habito de cavalleiro da ordem de Christo. Não sei se elle vos acceitará, depois que este boato, em grande parte aleivoso, se derramou em Portugal e Hespanha; e estou em crêr que Maria Isabel, tão mal considerada em Madrid, não quererá apparecer aos admiradores de seu marido.

—Esse boato é uma calumnia, senhor!—exclamou ella com os olhos sêccos e o rubor nas faces.

—Não m'o digaes a mim, que eu já vol-o disse. Li o processo com o maior empenho; quiz salvar vosso marido; já vêdes que se alguem duvida da vossa innocencia de esposa, não sou eu. Como quer que seja, em materia tão melindrosa, não sei nem devo aconselhar. Fazei o que bem vos apraza. Repito: escreva Maria Isabel a seu marido, e dê a carta ao meu secretario de estado Antonio Cavide, que elle a fará entregar directamente a Domingos Leite, e a resposta, se vier, ser-vos-ha entregue.

—Ah!—suspirou a formosa—se o meu nome anda tão infamado em Madrid, meu marido não me responde... Elle desprezava-me, quando toda a gente ignorava a minha desgraça; que fará agora que é maior deshonra para elle reconciliar-se commigo!..

—Quem sabe? O coração humano faz mudanças de que não sabemos dar causa nem rasão. Nada se perde em lhe sondardes o animo. Escrevei-lhe hoje, que amanhã Antonio Cavide, ou alguem com recado seu, irá procurar vossa carta.

E, voltando-se para a menina, perguntou:

—Como te chamas, linda?

—Angela—respondeu a creança.

—Criada de vossa magestade—accrescentou a mãe muito desvanecida da regia curiosidade.

—Pois que dizeis que é minha criada—volveu D. João IV—minha criada fica sendo desde hoje, e virá exercer o seu officio, quando a edade lh'o permittir. No emtanto, o seu nome será registrado no livro das açafatas da rainha, desde já.

—Ajoelha a sua magestade, e pede-lhe licença para lhe beijar a mão—disse Maria Isabel com transporte.

O rei colheu a menina nos braços, e disse:

—Eu é que lhe beijo estas duas rosas do rosto, que fazem lembrar os cherubins. Uma reflexão—proseguiu o rei de subito—não diga Maria Isabel a seu marido que eu nomeei sua filha criada do paço. Seria muito dolorosa para mim semelhante nova dada a um homem, que não póde ser galardoado emquanto não fôr absolvido. Tendes entendido?

—Esteja vossa magestade segurissimo de que eu não direi que fallei a vossa magestade.

—Ainda melhor, ainda melhor. Nem uma palavra que prenda commigo.

Maria levantou-se indecisa se lhe cumpria despedir-se ou ser despedida d'el-rei.

—Quereis sair? Esperae,—disse D. João—que eu vou mandar-vos o meu secretario de estado para vos acompanhar á liteira.

—Vim a pé, real senhor.

—Ah! sim? Não obstante, esperae.

Sahiu o rei, beijando outra vez Angela, e deteve-se breves minutos com o secretario, que sahiu a dar ordens a um pagem, que as foi transmittir a um moço da estribeira.

Voltou Cavide outra vez á presença do amo.

D. João IV, encaracolando o bigode louro, e palmeando na espaciosa fronte, clamava enthusiasta:

—Que mulher! que mulher! Bem me dizia o marquez... Não ha dama no paço que lhe ganhe!.. Oh! que soberba creatura! tem musica na voz a feiticeira! Nunca vi coisa assim, nem viva nem pintada!

Cavide ria-se e esfregava as mãos.

—Isto não é para rir, meu caro!..—obstou o rei—Querem vêr que eu estou apaixonado!..

N'este lance grave, que as expressões do rei e a cara do valido tornavam ridiculo, o pagem disse por detraz do reposteiro que o moço da estribeira enviára dizer que a liteira das açafatas estava no pateo do norte.

—Vá! ordenou o rei ao secretario.

Antonio Cavide entrou na sala, onde ficára Maria Isabel, e inclinando a cabeça, disse:

—Sigam-me vossas senhorias.5

E, descendo ao pateo onde estava a liteira com lacaios de libré da casa real, deu a mão a Maria Isabel para ajudal-a a subir.

—Eu vim a pé...—gaguejou a mulher de Domingos Leite, não percebendo o convite do fidalgo.

—Sei isso; mas sua magestade manda conduzir na competente liteira a sua açafatasinha e mais sua mãe, muito minha senhora.

E, ao mesmo tempo que dizia isto mui galãmente, tomou Angela nos braços, e sentou-a no almadraque inferior; depois, offereceu o hombro á mãe, fechou a portinhola, e disse ao lacaio da frente:

—A casa de suas senhorias é na Porta do Salvador.

A liteira partiu com as cortinas fechadas. O instincto do pejo imprimira aquelle impensado impulso ao braço da mulher do expatriado.

E D. João IV, que de uma janella que abria sobre o terreiro, presenciára o fecharem-se as cortinas da liteira, dizia depois a Cavide:

—Aquelle recato pagára-lh'o eu com milhões, se o meu coração não valesse mais que elles!...

O confidente ouviu isto com a maior circumspecção.

O castigo supremo dos validos é não poderem escancarar sinceras gargalhadas nas faces dos reis.