O Regicida
Nota 7.ª
N 7.ª
Remechendo com infatigavel curiosidade o archivo das memorias que ha vinte
annos vamos collegindo ácêrca de filhas de bispos e outros coitos damnados, encontramos um apontamento que dillucida a obscuridade do manuscripto, e nos declara a ascendencia da menina regeitada por Domingos Leite Pereira. É o seguinte caso, salva melhor interpretação:
O infante D. Fernando, pai de el-rei D. Manuel, teve uma filha bastarda que se
chamou Leonor. A rainha D. Leonor, mulher de D. João II, e meia irmã d'aquella menina, levou-a para o paço, e educou-a com esmero e carinho de irmã. Sahiu a dama muito namoradeira e desatinada, com immenso dissabor da rainha, que a reprehendeu repetidas vezes inutilmente. Até que um dia, estando a côrte em Santarem, a irmã colheu a bastarda de sobresalto galanteando da janella para a rua um cavalleiro que deu de esporas ao presentir a rainha. Travou-se altercação rija entre as duas Leonores, rompendo a bastarda no excesso de reguingar que havia de casar-se com quem muito lhe quadrasse. «Isso não!—replicou a mulher de D. João II—hasde casar com quem eu muito bem quizer; e hade ser com o primeiro homem que passar na rua, se fôr solteiro.» N'este lance, apontou na extrema da rua um homem ordinario, de nome Alvaro Fernandes, correeiro de officio. Chamou-o a rainha, deu-lhe um dote, e ordenou ao capellão que os cazasse. Tiveram filhos. O padre Jeronymo Fernandes, de Santarem, era bisneto da tal casquilha, filha do infante D. Fernando, e irmã d'el-rei D. Manuel e tambem por tanto bisneto do tal Fernandes correeiro. O padre allegou e provou a Filippe II que era terceiro neto do infante D. Fernando, e obteve a mitra do Funchal. Este devia ser avô da noiva regeitada.