O Regicida
Capítulo XXI
Decorrêra o restante d'aquelle dia 28 de julho, e parte do seguinte sem novas de Roque da Cunha. Cerca do meio dia, chegou um guia, portador de um bilhete para Domingos Leite. Dizia-lhe o fementido que, não encontrando cavallo que comprasse ou alugasse em Gaifões, passara a Rilvas, onde achara um sendeiro estropiado, que alugou para si, e lhe enviava a elle o cavallo para que a jornada lhe fosse menos enfadonha.
Domingos Leite sentiu-se captivo d'esta deferencia; mas, apenas montou, conheceu que o cavallo estava por tanta maneira escalavrado que só muito a passo alcançaria vencer as seis leguas, que o distanciavam da Povoa de D. Martinho, até á noute do dia seguinte. O arrieiro que o guiava recommendou-lhe pouca espora, se queria chegar com o cavallo vivo á Povoa.
—Não havia em Rilvas uma besta que se vendesse?—perguntou Domingos Leite.
—Havia um cavallo de comer tres leguas por hora, que se vendia por trinta cruzados.
—Porque o não disseste á pessoa que te mandou com este?
—Quem me mandou foi o estalajadeiro, e nada mais sei, nem fallei com essa pessoa que vossemecê diz.
O cavallo elogiado pelo arrieiro comprara-o Roque da Cunha, e n'elle cavalgára caminho de Lisboa, deixando tractada com o estalajadeiro a remessa do seu e o bilhete á aldeia onde ficára o seu companheiro.
Dizendo Domingos Leite ao criado que talvez comprasse em Rilvas a cavalgadura, observou-lhe o arrieiro que tinha ordem de o guiar por fora dos povoados, sem saber a razão porquê.
—Andam soldados na estrada real?—perguntou Leite.
—Que eu saiba, não, senhor.
Reparou na precaução o cavalleiro; e não viu a voragem. Cada vez nos encostamos com melhor juizo ao dizer de fr. Francisco Brandão: Ha muito para reparar na força do destino que o chamava.
Suggeriu-se-lhe de novo o pensamento da perfidia; quedou-se alguns segundos luctando com o palpite de retroceder; nada obstante, seguiu avante, dizendo entre si:
—Que pensaria de mim Roque da Cunha se está innocente nas minhas suspeitas, e eu me voltasse a Hespanha com o seu dinheiro!...
Quando elle assim lidava em conjecturas que se destruiam, já Roque da Cunha estava em Lisboa, e no Paço da Ribeira. Pediu ao corregedor Pero Fernandes Monteiro, que sahia da corte, o apresentasse a el-rei para negocio da maior urgencia. D. João IV, ouvindo o nome do seu recente espia em Madrid, e recordando o recado de Roque da Cunha, transmittido pelo jesuita, quanto a salvar-lhe a vida, teve grande alvoroço com a nova, e mandou-o entrar. Poz-se em joelhos o delactor, começando por implorar o perdão de seus delictos, e confessando que tivera parte em uma tentativa contra a vida de sua magestade; porém, accrescentava que se el-rei, seu senhor, lhe não perdoasse, morreria contente, levando a Deus sua alma purificada de remorsos.
Sorriu D. João IV dos remorsos de Roque da Cunha, e disse gravemente:
—Estás perdoado. Dize o que tens a dizer, e levanta-te.
Referiu Roque a tentativa de regicidio em 20 de junho, com os pormenores sabidos do leitor, e aggravou o crime de Domingos Leite com a reincidencia no intento que o trazia a Portugal.
Escutou-o D. João com torvo aspecto. Turturava-o a situação de Maria Isabel. Passou-lhe talvez no espirito o pensamento de encarregar o infame delactor de matar, em segredo, Domingos Leite, e salvar assim a viuva e a filha da ignominia que do alto da forca baixaria sobre ellas. Mas não era Roque o homem amoldado á observancia do mysterio que tal acto requeria.
Mandou recolher o espia a um quarto baixo do paço, e ordenou que viessem á sua presença o fidalgo mais possante de sua côrte, Luiz da Silva Telles, e outro não menos destemido D. Francisco de Faro e Noronha, conde de Odemira. Contou-lhes o que passára com Roque da Cunha, e enviou-os a prender Domingos Leite Pereira onde o denunciante os conduzisse.
Ao mesmo tempo, ordenava a Antonio Cavide que sem perda de tempo fizesse entrar em uma caleça Maria Isabel e sua filha, e elle mesmo as conduzisse a um mosteiro de Tras-os-Montes, á escolha do seu secretario; que nem palavra lhes dissesse a respeito de Domingos Leite, e se desculpasse com a ignorancia dos motivos que el-rei tivera para dar semelhante ordem.
Maria Isabel e Angela colhiam, ao empardecer do dia, nos canteiros do seu jardim de Alcantara, um ramilhete de flores, quando o escudeiro annunciou a chegada do secretario de estado, e a recommendação de se apressar S. Senhoria a recebel-o.
Assustou-se a dama. Sempre que este homem a procurava soavam-lhe rebates de medo no inquieto coração. Tinham-lhe dito que Cavide lisongeava o rei, alcofando-lhe novas amantes quando o sentia fatigado das antigas. Esta seria a causa da repugnancia. Angela, essa então odiava-o de instincto, sem saber precisar aquelle rancor tão desnatural em sua edade.
O estranho aspeito de Cavide incutia maior temor em Maria Isabel.
—Minha senhora—disse elle entre melancolico e solemne— ordena el-rei, meu amo e senhor, que vossa senhoria e sua filha se aprestem activamente para ao romper da manhã sahirem de Lisboa...
—Para onde?!—interrompeu Maria Isabel.
—Para um mosteiro na provincia de Traz-os-Montes.
—Mosteiro!...
—Sim, senhora minha.
—Não quero!—bradou a dama.
Sorriu-se o fidalgo, e disse:
—Quer el-rei, nosso senhor.
—Mas que fiz eu? por que me manda el-rei para um convento?
—Ignoro. Segredos de sua magestade. Não discutamos inutilmente: é sacrilegio duvidar da prudencia de sua magestade nas ordens que se dignou transmittir-lhe. Senhora D. Maria Isabel, ás tres horas da manhã está o meu coche á porta de vossa senhoria, e fora de portas estará a caleça que nos hade levar onde el-rei ordena. Não posso deter-me, salvo se tem ordens a dar-me...
A esposa de Domingos Leite abraçou-se na filha em pranto desfeito, ao passo que o secretario se retirava a passo magestoso, dignando-se saudar d'entre o reposteiro a senhora que não o via.
Quando ella ás onze horas d'aquella noite de 30 de julho enfardelava com as lacrimosas criadas os seus fatos e de sua filha nos bahús, entrava Domingos Leite Pereira na Povoa de S. Martinho, áquem do Tejo, trez leguas distante de Lisboa.
Conforme a senha concertada, deu trez pancadas na porta da estalagem com a coronha da cravina. Desceu Roque da Cunha embrulhado em um gibão e em menores, affectando sahir da cama. Abriu a porta mansamente, e disse:
—Eu já não te esperava...
—Tambem eu cuidei que não chegaria hoje... O teu cavallo vai fazer companhia ao meu na immortalidade das cavalgaduras heroicas e pôdres... Quem está por aqui na locanda?
—Ninguem afora um ou dois vilões desconhecidos. Dá cá as redeas, que eu recolho o cavallo.
E dizendo, tirou pela besta, afim de distancear o coldre das pistolas do alcance de Domingos Leite, e servir-se d'ellas em conjuntura apertada.
Seguia Domingos Leite o cavallo; e, no momento de entrar na cavallariça, frouxamente allumiada, sentiu-se agarrado de sobresalto. Eram os braços de ferro de Luiz Telles que o cingiam do peito ás costas, emquanto o conde de Odemira lhe arrancava das mãos a caravina.
Leite nem levemente escabujou nas garras dos dois fidalgos. Cravou os olhos no rosto de Roque da Cunha, e disse:
—Agradeço-te esta morte, ó infame. Todo o infeliz que chegou a conhecer n'este mundo um homem como tu, deve desejar morrer. Podem largar-me, que eu não lhes fujo nem lhes resisto, sr. Luiz Telles e sr. conde.
D'ahi a momentos, á porta da estalagem chegava uma escolta de paisanos armados. Domingos Leite foi conduzido ao centro da escolta pelo conde de Odemira, que, voltado ao preso, disse:
—Se tentar fugir, sr. Leite, é espingardeado.
E com grande silencio o levaram a Lisboa, diz o manuscripto.
Silencio comprehensivel! Os dois fidalgos que, por ordem de el-rei, o apertaram nas roscas de aço dos seus musculos, sabiam que a mulher d'aquelle homem, inevitavelmente levado ao patibulo, era amante de D. João IV. A sua abjecta mensagem de esbirros ainda lhes consentia que sentissem o opprobrio d'ella. Roque, na saga da escolta, não podemos, não poderá ninguem esgaravatar que herpes lhe mordiam a consciencia. Homens assim nem o Creador sabe decifrar o enigma que elles são. Querem que Deus deva saber o que fez. Saberá.
Domingos Leite era o unico do prestito sinistro que levava o rosto nobremente erguido, e parecia olhar para o ceo pedindo ás estrellas a luz da fé, para que na morte lhe não faltasse a esperança de outra existencia.
Entrou em Lisboa na madrugada de 31 de julho. Levaram-no ao palacio do conde de Odemira, onde respondeu ao primeiro interrogatorio com a altivez nunca vista em reo. Confessou tudo, sem nunca balbuciar o nome da mulher. Matava el-rei, disse elle, em desaggravo da sua honra.
Nem um instante de quebranto, de pavor ou de supplica! Entrou na casa do conde de Odemira, diz o doutor fr. Francisco Brandão no opusculo referido, com um desafogo tal que parecia mais alvitrista dos contrabandos d'el-rei D. João que cumplice dos maiores servidores do rei de Castella. Com esta mesma segurança de animo se portou em todos os mais lanços em que foi examinado; tendo só de bem confirmar sempre na confissão com o companheiro que o deu á prisão, e com a primeira confissão que uma vez lhe ouviram; de maneira que correndo por todo o exame e rigor das interrogações que o direito dispõe não faltou nunca na mesma rectificação de quanto sem as maiores violencias havia confessado; imperfeita virtude no maior defeito!
Em um d'esses interrogatorios, sem as maiores violencias (quer dizer que a tortura não foi das mais requintadas) fizeram-lhe esta pergunta:
—Porque não atiraste a el-rei, tendo a escupeta apontada sobre o sagrado corpo de sua magestade?
—Porque tive uma visão santissima: foi a mão de um anjo do ceo, que me levou para si os olhos e a alma.
D'esta resposta formaram os fantasistas da historia uma parvoiçada de aureolas luzentissimas que esconderam aos olhos do regicida o etherio corpo de D. João de Bragança.
Transferido da caza do conde para o segredo do Limoeiro, divulgou-se em Lisboa a noticia.
As turbas correram á porta do carcere pedindo que lhe entregassem Domingos Leite Pereira para o espedaçarem. Acudiram os ministros, clamando ao povo que o prezo era apenas reo de morte na pessoa do padre Luiz da Silveira, e conseguiram debandar a chusma dos carrascos voluntarios, ebrios de civismo.
Bernardo, quando soube da captura de seu amo, abordou-se ao cajado de peregrino, e foi caminho de Guimarães dizer a Antonio Leite que seu filho morria em desaffronta de sua honra.
Ao fim de 16 dias de prisão, Domingos Leite foi sentenciado.
Eis a sentença integralmente trasladada da original, e publicada
em 1833 pelo desembargador Gouvêa Pinto: 12