O Regicida

Camilo Castelo Branco · Capítulo 20 de 42

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O Regicida

Capítulo XX

 

Diogo Soares, previsto e diligentissimo em proporcionar aos assassinos enviados os meios de facil fugida, mandara uma chalupa do porto do Ferrol para os receber na barra de Lisboa; mas o portador, que por terra trouxera o aviso ao mercador Simão Serges, não o encontrando no dia 19 de junho, segundo as ordens que trazia, foi na noite de 20 a Passo d'Arcos fazer signal de erguerem ancora aos da chalupa. Simão Serges, áquella hora em que o buscavam, temeroso do resultado da tentativa, passara o Tejo, e esperava em Aldeia Gallega a noticia das occorrencias. O manuscripto, que nos esclarece as escuridades da historia, diz a tal respeito: «N'este tempo estava Roque da Cunha com os cavallos esperando-o ao Postigo da Graça, onde foi ter com elle Domingos Leite, e que lhe contou o que passára; e é de saber que na mesma tarde foi visto em Passo d'Arcos um barco longo de Castella, e que havendo descuido em ir a elle de noute, fugiu este, e desappareceu, e os dois foram por terra.»

Ao mesmo tempo, Bernardo, que passára a noite e o dia em oração, quando viu terminadas as festas do Triumpho, e nenhum caso extraordinario se contava em Lisboa, nem voz humana proferia o nome de seu amo, deu fervorosas graças ao Senhor, porque attendera ás suas preces.

O apparecimento de Roque e Domingos Leite em Madrid foi acolhido com frieza dos fidalgos portuguezes e dos ministros de Filippe IV. Diogo Soares, rindo da historia pueril da visão da menina que paralisára o braço do pai, disse que os covardes, antes de se affrontarem com emprezas grandes, deviam medir a sua altura pela das meninas que lhes podessem apparecer na hora da prova. Roque da Cunha transmittiu a phrase, qual a recebêra, a Domingos Leite.

O frustrado regicida volvêra-se á vida solitaria com a sua dôr exacerbada pela nota de covarde e digno marido da meretriz Traga-malhas. Quem mais lhe carregava a mão no peccado da mulher era D. Vicencia, filha da Barbara da rua dos Cabides. Insidiosamente lhe escreviam satyras celebrando-lhe a façanhosa jornada a Lisboa, e offerecendo-lhe outra commenda para se ir a Pariz matar Luiz XIV, e duas commendas para ir ao inferno matar o diabo.

Na correnteza d'estas coisas, fallecêra em Madrid um padre da companhia de Jesus, a quem D. João IV estipendiara grandiosamente na espionagem dos planos de guerra. Esta pêrda contrariava o rei, e mais ainda o impedimento de substituir sem dilação a sagacidade do jesuita, que sahira bem amestrado do gyneceu de padre Antonio Vieira.

Arrolando os portuguezes mais infamados que demoravam em Hespanha, D. João lembrou-se de Roque da Cunha. Conhecia-o pela falsa delação de Mathias de Albuquerque, e por homicidios que a obscuridade protegera, como o do pai de Miguel de Vasconcellos, divulgado em 1640, e indultado pela politica. E, bem que soubesse da sua parceria com Domingos Leite no assassinio do padre Luiz, intendêra o rei que o sicario, vendido ao marido de Maria Isabel, estava em almoeda para quem o quizesse comprar.

No proposito de chatinal-o, enviou Gaspar de Faria Severim a Madrid pessoa idonea, e conhecida de Roque da Cunha. Era quasi sempre um clerigo ou frade de inculcada virtude e erudição theologica, por parte das duas nações irreconciliaveis, o espia ou o cathequista d'essas personagens indispensaveis na diplomacia d'aquelles tempos, assim como o algoz era o artigo fundamental da arte de reinar. Apenas restaurado o reino, fôra fr. Diogo Seyner espião de Castella em Portugal, e tambem um padre Azevedo, que acabou envenenado em Angola. Em compensação, as denuncias mais importantes que vinham de Hespanha, quanto ás intenções de invasão, procediam da companhia de Jesus, pois que os Philippes, com quanto patricios do sancto fundador da ordem, nunca se avençaram politicamente com a theocracia da omnipotente roupêta. Ainda n'aquelle anno de 1647, a Hespanha festejava a perfida passagem do jesuita flamengo, o padre Cosmander, que vestiu as insignias de sargento-mór de batalha, depois de as ter já usado no exercito portuguez. Este sacerdote, que timbrava de engenheiro, viria outra vez ajudar os nossos a repellir os estrangeiros, se não morresse debaixo das baterias portuguezas; no entanto, emquanto viveu, deu de si boa conta, espiando as duas nações, visto que nenhuma era sua.

Com este se intendêra o padre portuguez, e ambos com Roque da Cunha.

A proposta era em termos de seduzir um aventureiro com dous terços menos da perversidade de Roque. D. João IV enviava-lhe o perdão do crime de homicidio na pessoa do padre Luiz, aproveitavel quando a sua continuação em Castella fosse desnecessaria, e elle quizesse voltar ao reino. Enviava-lhe como comêço de gratificação trez mil cruzados, e promessa de ao diante o ir premiando com dinheiro á medida dos seus serviços e habilidade nas pesquisas. Quanto ao futuro, quando Roque se repatriasse perdoado, despachal-o-hia em pingue emprego na caza da India e Mina.

Seduziram-no; jactavam-se os dois jesuitas de o terem seduzido; mas a verdade é que o infame não deu ansa a que os seductores provassem os dotes de corrupção: rendeu-se logo.

Dias depois, Roque da Cunha, ao despedir-se do agente portuguez, disse-lhe com mysterioso recato:

—Diga V. Reverencia a el-rei nosso Senhor que eu só entrarei em Portugal, quando lá fôr para o salvar da morte.

O padre não obteve illucidações d'estas vagas palavras.

Assim as revelou a D. João IV, que lhes deu a maxima ponderação, sem todavia suspeitar de qual dos fidalgos homisiados poderia proceder a tentativa, se dos Mascarenhas, se dos Lencastres, se do conde de Miranda, se do conde de Figueiró, se dos Tavoras, se dos Taroucas, se de todos. De Domingos Leite Pereira não se lembrou, ou apenas se lembrava quando Maria Isabel lhe dizia:

—Vossa magestade, mais dia menos dia, acha-me assassinada por elle...

O elle substituia a palavra que tanto repugnava ao rei como á princeza do seu economico serralho.

Sorria-se el-rei; e por delicadeza com a dama lhe não replicava que o expatriado lhe havia dado provas de se prezar mais a si no seu orgulho do que a ella na sua belleza.

Quando Roque enviou o recado a D. João, já sabia que Domingos Leite deliberára voltar a Lisboa se não renovar a tentativa. Flagelavam-no os apodos e zombarias que secretamente lhe iam em cartas anonymas, e as censuras de Roque da Cunha, não á covardia de homem, mas á pusillanimidade de pai.

Houve horas em que o desgraçado acariciou a ideia do suicidio; porém, lá vinha a imagem da filha arrancar-lhe o veneno como lhe arrancara a cravina. N'esta reluctancia atroz, obsediou-o o pensamento de passar a Lisboa, esconder-se em caza de Bernardo, espiar a hora em que Maria Isabel estivesse com o amante, entrar de sobresalto na caza d'ella, fugir com a filha para Castella, passar-se a Amsterdão, buscando o amparo de Francisco Mendes Nobre.

Revelou o alvitre a Roque da Cunha, que lhe respondeu:

—A final, vejo que não és marido, nem homem: és pai.

—Queres dizer que não sou honrado? —acudiu Domingos Leite.

—Não... mas ha quem duvide que o sejas...

—Se o duvidas tu, dize-o que eu a ti provarei que sou homem; e, se ha covardes que façam de ti pelourinho de injurias, que venham depois de ti ou junctamente.

—Os meus cincoenta annos perdoam os teus vinte e seis—disse serenamente Roque—Entretanto bom é que saibas, amigo Leite, que nenhum homem, antes de ti, me insultou assim, nem depois de ti receio que me insulte. Se não estivessemos sós, dar-me-hías uma satisfação. Assim... ninguem irá dizer que o matador do amante de certa dama ouviu tamanha vilta do marido de Maria Isabel. Estás perdoado, porque és fraco, fraco do coração onde tens muitas lagrimas e pouco sangue. Pagas mal a quem duas vezes expoz por ti a vida, e não se esquiva de a expor terceira vez.

—Não exporás, Roque. Não ha para quê. O meu intento já sabes que não é matar o rei; é resgatar minha filha.

—E, se te descobrirem, se te agarrarem...

—Serei julgado como assassino, sentenciado á morte, e morrerei, sem denunciar que o matador foste tu.

—Mercês... A justiça sabe quem matou, provavelmente... A minha questão é outra, Domingos Leite. Eu preciso tanto como tu sahir de Hespanha. A nodoa de covardia tanto innegrece a tua reputação como a minha. Os enviados a matar D. João fomos dois: o covarde não póde ser só um. Se vaes a Lisboa, irei comtigo: dar-me-has agazalho no teu escondedouro, e eu te ensinarei modo de passarmos a Hollanda, com tua filha, sem tornarmos a Castella, onde o desprezo pode ter as consequencias do odio, e o veneno que estava para hervar a bala do duque de Bragança servir para nós. Se queres roubar a pequena á mãe, eu te ajudarei. Os estorvos que t'o empecerem, derrubal-os-hei. Se quizeres que eu estrangule os gritos no pescoço de Maria Isabel em quanto foges com tua filha, ninguem lhe ouvirá um soluço. Se nada quizeres de mim, ao menos dá-me em Lisboa um valhacoito d'onde eu possa arranjar passagem para onde quer que seja. Que mal te faz que eu vá comtigo?

—Vem, meu amigo, que eu estou tão longe de t'o impedir, que t'o agradeço—respondeu Domingos Leite abraçando-o extremosamente.

Accordaram na partida para 18 de julho.

Communicou Roque á Junta dos fidalgos, que Domingos Leite resolvêra voltar a Lisboa e matar o rei, face a face, ou á traição, consoante se lhe occasionasse o ensejo; mas tirou a partido que ninguem se intenderia com elle sobre tal determinação, porque a sua honra se queria desligada de compromissos politicos, visto que se desaffrontava a si e não a Filippe IV nem aos fidalgos de sua parcialidade.

Riram da honra do plebeu nobilitado com a commenda de Castella; mas acceitaram a clausula como coisa de todo o ponto indifferente. A Juncta chamada da Inconfidencia deu dois mil cruzados ao interprete de Domingos Leite e renovou as ordens ao marquez de Molinguen. O pai de Angela nem d'esta feita nem da outra soubera que Roque da Cunha recebêra dinheiro; e, por que lh'o via em abundancia, suppunha-lh'o de seus salarios e liberalidades de D. Vicencia.

No dia 18 de julho sahiram de Madrid, caminho da fronteira.

Escutemos o chronista-mór do reino, fr. Francisco Brandão: «Ha muito para reparar na força do destino que chamava Domingos Leite... Depois que sahiu de Madrid entrou logo em desconfiança do companheiro, presumindo que o havia de entregar, como por vezes lhe disse no caminho, declarando que sonhára uma d'aquellas noites que elle o entregava, e se via mandar fazer em quartos; e chegou a tanto a suspeita que tinha que, uma das vezes, se poz de joelhos diante de Roque da Cunha, e, abraçando-o pelos pés, lhe rogou encarecidamente o não quizesse entregar á justiça. Estando em Badajoz na estalagem, entrou uma menina de pouca edade, e pondo os olhos em ambos, lhes disse: Uno de vos outros és traidor. E apontando em particular para o Cunha, disse: Tu tienes ojos de traidor!... Reparou logo o Leite, nas palavras, e com o annuncio d'ella renovou ao companheiro a presumpção que d'elle trazia, e continuou com a supplica de que lhe fosse fiel. Grande cegueira— prosegue Brandão—que, tendo as presumpções tão vivas, não

melhorasse partido, sendo-lhe facil!..» 10

Se prestamos mediana fé á perspicacia da mocinha de Badajoz que lia a traição nos olhos de Roque da Cunha, facilmente cremos que o traidor, a relanços, se temeu das suspeitas de Domingos Leite, em termos de velar as noites com medo do punhal e da cravina que o companheiro cuidadosamente aconchegava do leito.

Ás vezes era Roque da Cunha quem se prostrava aos pés da victima exorando-lhe que não suspeitasse de sua lealdade, ou então o repulsasse de si como ao mais abjecto scelerado. «Grandes foram as cautelas de Cunha—confirma fr. Francisco Brandão—para assegurar bom animo ao companheiro, receando que lhe fugisse a preza, e não quizesse entrar em Portugal, ou depois de entrado, se voltasse para Castella sem passar a Lisboa; e não foram de menos consideração as cautelas que teve para se assegurar d'elle, receoso

de que o matasse com as suspeitas. 11

Á quem de Badajoz sahiram da estrada real; e por veredas desfrequentadas e conhecidas de Roque, venceram grande espaço, para se desencontrarem das tropas portuguezas, em um dia e noite. No termo da violenta jornada de oitenta e cinco leguas em dez dias, o cavallo de Domingos Leite abrira dos peitos, e na aldeia, onde se albergaram, não houve modo de allugar cavalgadura. Notou Roque da Cunha ao companheiro que o presistirem alli, sem esperanças de remedio, era perder tempo, e talvez perigoso; que elle iria adiante agenciar cavallo nos Pegoens, e lh'o enviaria, a não querer o seu amigo ir n'essa diligencia, e enviar-lh'o.

—E para que vá mais leve, e menos sugeito a que me roubem, fica tu com os meus alforges, onde estão quatro mil cruzados...— ajuntou Roque.

—Oh!—exclamou Domingos Leite gracejando—Ninguem dirá que vaes do desterro! Parece que chegas de governar a India! Quatro mil cruzados!...

—Ahi t'os deixo como refens...

—Mal de mim se este dinheiro fosse o abono da tua lealdade, Roque! Se tens tenção de me atraiçoar, leva-o, e atraiçoa-me, para que me não taxem de ladrão quando me prenderem.

Roque fez um esgar de fingida magoa ou de terror de sua mesma ignominia. Domingos Leite interpretou a primeira supposição, e emendou as palavras duras com tocar-lhe amoravelmente no rosto, dizendo-lhe:

—É brincadeira, meu homem! Vai, leva ou deixa o dinheiro, como quizeres; manda-me o cavallo, e espera por mim na Povoa de S. Martinho, d'aqui cinco leguas. Levas-me de avanço apenas algumas horas, se ámanhã cedo me mandares o cavallo, e elle não fôr aleijado. Devo lá chegar por noite, se a estrada real estiver desembaraçada de tropa; senão terei de dar grandes voltas.

Roque abriu o alforge, contou cem mil reis e disse:

—Levo commigo este dinheiro, porque talvez tenha de comprar o teu cavallo, se m'o não quizerem alugar; e quem sabe se o meu tambem vai a terra, que hontem já o não sentia entre os acicates...

—Não deixes o dinheiro!—instou Leite Pereira.

—Já te disse que receio ser roubado. Que me faz deixal-o ou leval-o? Adeus, até ámanhã.

Abraçaram-se. Domingos Leite olhou-o muito de fito, e disse-lhe:

—Não me vendas... visto que estás rico!

Roque sahiu de arremesso, cavalgou, e esporeou a desapoderado galope, caminho dos Pegoens. «Não me vendas...» dissera o desgraçado. Assizadamente escrevia depois o frade: Ha muito para reparar na força do destino que o chamava...