O Regicida
Nota 6.ª
N 6.ª
O receio de que nos arguam de injusto n'esta apreciação do fundador da
dynastia bragantina, obriga-nos a dar cópia exacta de um autographo, que possuimos, de D. João IV: são os apontamentos que o rei deu a Pedro Vieira da Silva como bazes do seu testamento. Quem leu o Testamento delRey D. João IV no tomo IV das Provas da Historia Genealogica da casa real por D. Antonio Caetano de Sousa, pagina 764 e seguintes, e o reputou da lavra do monarcha, tem rasão, se formar bom conceito da intelligencia do testador; quem porém vir os traços fundamentaes d'esse documento, duvidará que elle haja sido o auctor do livro de musica. Aqui está o traslado textual do testamento escripto do punho de D. João IV:
«Jesus Maria a quem emcomendo minha alma, nomeio primeiramente por
herdeiro de meus Reynos, e Senhorios ao Princepe D. Afonso meu filho como a quem directamente pertensem e por que elle se acha em menor edade declaro por Regente de meos Reynos e tutora de meos filhos a Raynha minha sobre todas prezada mulher; e por que ella pode morrer ainda durante amenor idade de meu filho em tal cazo podera nomear os Tutores ou Tutor Governador ou governadores para meus filhos e estes Reynos e Senhorios pello conhecimento que tem delles e de meus vaçalos e porquanto fio dela e de sua prudencia e do amor que me tem que detudo o que aentregar fara o que eu fizera por ella a nomeio por minha testamenteira e que faça pella minha alma tudo quanto a ella lhe parecer que me comvém.
«Ordeno que meu corpo seja enterrado no convento de S. Vicente defora para
onde se tresladarão os ossos de meu filho o Princepe D. Theodozio e os de minha filha a Infanta D. Joanna para o que se faram sepulturas decentes e no dito convento se diram coatro missas cotudianas duas pella minha alma e duas pello Princepe e Infanta.
«Deixo que os meus bens livres serepartão por meus filhos conforme a cada
hum tocar e peço ao Princepe lhe conserve as doaçoens que tenho feito, e espero delle o faça e lhe acrecente outras visto que eu por não defraudar o patrimonio Real lhas dei tão limitadas. Deixo aminha terça ao Princepe mui sobre todos prezado filho e que della setirem vinte mil cruzados que a Rainha minha testamenteira repartirâ em obras pias cazando orfas e donzellas e dando esmollas a viuvas e pobres e porque destes ha muitos que são meus criados mando que seião (sejam) preferidos, e porque Antonio Cabide tem de todos inteiro conhecimento a Rainha se informara delle para saber quaes são os mais benemeritos e trez nomeadamente cujos nomes dira o meu confesçor.
«De Antonio cabide tenho inteira satisfação pello modo e zello com que sempre
mecervio e asim peço a Rainha sequeira servir delle no mesmo modo com que eu me cervia por que fio delle o fara com toda a satisfação, e por que muitos tempos correu com toda a minha fazenda e medeu dela inteira conta o dou por quite e livre e que este lhe cirva de quitação. Declaro que tenho huma filha por nome D. Maria de huma mulher Limpa que esta no convento de Carnide a quem deixo a comenda mayor de santhiago para a formatura da qual tenho passado decretos a mesa da conciencia e ordens e se impetrarão do Papa os breves necessarios e asim mais as villas de Torres vedras colares, e os lugares de Azinhaga, e cartaxo, que logo os faço villas com jurisdição a parte com todas suas doaçoens de juro, e herdade sempre sojeitas a Ley mental, e porque nestas doaçõns pode aver ao diante duvida algua mando ao Princepe meu filho lhas satisfaça emquanto eqivalente, e sincoenta mil cruzados para por sua casa. E porque no modo e Estado que ella ouver de tomar tive alguns intentos de que tudo sabe Antonio
Cabide pesso a Raynha informada delle siga minha mesma vontade. 13 Tenho tratado casar minha filha D. Catherina com El Rey de Franca por asim mo averem pedido Menistros daquella coroa e por que de todos estes negocios sabe a Raynha lhe pesso siga nelles meus proprios intentos.
«A Antonio Cabide dava todos os annos atitolo decerto cerviço meu das
Rendas da casa de Bragança dous mil cruzados, a D. Maria minha filha mando se lhe dem na mesma forma athe tomar estado.
«Tenho satisfeito os testamentos de meus Avos principalmente tudo o que meu
Senhor e Pay mandou e por que ao Morgado da Cruz conforme sua mesma instituição devo acrecentar Vinte mil cruzados de renda mando que dos meus bens se acrecentem.
«Os Reys mais que os outros homens devem dar ao mundo razão de suas
acçõens. E asim digo que me restituhi a estes Reynos, e Senhorios por entender o devia fazer em conceencia por livrar a meus vaçalos do dominio, e violencia estrangeira e esta razam me obrigou a fazer huma couza que poderia ser contra meu natural. A Justiça e a observancia della conserva as Monarchias máis que as armas e asim encomendo ao Princepe meu filho siga nesta materia inviolavelmente esta acção.
«De todos meus criados tenho inteira satisfacam por me averem servido com
lialdade zelo, e trabalho principalmente os officiaes de minha caza, Mordo mor (Mordomo-mor) Estrebeiro mor, cappelão mor, Porteiro mor, e os mais, que aqui hei por expreços, e declarados, e peço ao Princepe meu filho se sirva delles porque o faram como eu sempre experementey. O conde Camareiro mor do meu concelho de Estado me tem servido nesta doença como nas mais comtodo cudado e trabalho asim mando ao Princepe meu filho lhe faca toda a honra e Estimação que mereceo e mando se lhe entregue mil cruzados para repartir com os Mocos da camara que me cervirão nesta doença. Declaro que governei este Reyno com toda a Justiça comforme entendi e se herrei em alguma de minhas acçoens como homem foi sempre cudadozo qual hera o melhor que se devia obrar.
«Tenho declarado a Raynha hum pessoa para Ayo do Principe que ella
nomeará quando lhe parecer.
«Tenho muitos papeis tocantes ao governo d'este Reyno, e conhesimento de
meus vasalos que podem servir á Raynha e ao Principe e porque da publicação delles pode rezultar perjuizo amuitas pessoas mando que o Bispo meu confessor e Antonio Cabide fassão inventario delles, e os entreguem a Rainha.
«Fuy muito corioso da minha livraria da muzica, e asim para que se conserve
lhe deixo corenta mil reis todos os annos para fabrica, e mando que esteja sempre na caza em que está, e que se empetre hum breve do Papa com excumunhão reservada para que senão trezlade digo tire d'ella Livro nem papel nem se trezlade, e nomeio para Biblioticario della a Antonio Barbosa com cecenta mil reis de ordenado, e por Ajudante a Domingos do Vale seu irmão, e faltando estas pessoas se hirão nomeando outras para sempre estes cento e corenta mil reis (que) fara a Rainha logo assentar no melhor parado da minha fazenda declarando se não tire nunca das rendas da capella.
«A minha capella mando se acabe do mesmo modo que eu tinha ordenado com
Santuario Retabulo e çacrario e porque Antonio Cabide sabe o modo com que eu queria isto o deixo por superintendente desta obra.
«Tenho mandado a Holanda empremir as obras de João Soares Rabello da
qual Impresão lhe faço merce rezervando para aminha Livraria vinte Livros e os
outros espalhara por Italia e Castela. 14
«E como na observancia da Justiça consiste a conservação do Reyno declaro
que os Governadores das armas não terão nas Justiças mais jurisdição que a que tem os capitaens de Africa. Fim do testamento.»
Quem estiver de pachorra confronte este modêlo de supina ignorancia dos
rudimentos da arte de escrever, com o estylo garrafal e engalanado do secretario de estado Pedro Vieira da Silva. E depois, se poder, acredite em D. Antonio Caetano de Sousa (Hist. Genealog. da Casa Real, tomo VII, pag. 240) quando lhe diz que D. João IV ditara a Antonio Cavide a maior parte ou todas as Relaçoens anonymas das campanhas entre Hespanha e Portugal, impressas entre 1641 e 1643, com o fim de ter contentes os animos dos seus vassalos, e satisfeitos com os bons successos de suas armas. O linhagista da casa de Bragança não satisfez o seu encarecimento servil com menos de inventar um litterato no fragueiro monteador de veados em Villa Viçosa.
Convem notar que o redactor do testamento procedeu sensatamente
expungindo dos regios apontamentos a clauzula de impetrar do Papa excommunhão para quem trasladasse algum livro da Bibliotheca da musica. Villão espirito e rancorosa alma que ainda almejavam sobreviver-se no2 tumulo! D'essa estupenda biblioteca, no dia 1 de novembro de 1755, não deixou o terremoto sequer um livro!
O autographo de D. João IV, aqui trasladado, pertenceu á livraria do ministro de
estado Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas.