O Regicida

Camilo Castelo Branco · Capítulo 15 de 42

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O Regicida

Capítulo XV

—Vou tratar d'isso. Entretanto, pensa, Domingos Leite! Que plano levas?

—Por emquanto, nenhum.

—Raptas a pequena, e foges?

—Não: se poder convencerei Maria Isabel a deixar-m'a.

—Se o conseguires, serás feliz; mas duvido que a mãe te dê a pequena. Se tua mulher quizer acompanhar-te, vem?

—Não.

—Bom será isso; que, se a trazes, depois que a devassa esclareceu a morte do padre, tão infamada está ella em Portugal como em Hespanha.

—Sei o que devo á minha dignidade, Roque. O rubor das minhas faces não hade aquecer a dos meus amigos.

—É o que todos desejamos. Vou em teu serviço. O mais tardar ámanhã, terás a ordem do ministro valido D. Luiz de Haro.

 

XV

Na noite de 10 de abril de 1647, por volta das onze horas, chegou Domingos Leite aos arrabaldes de Lisboa, os quaes, do lado da Senhora da Graça, eram povoados de quintas, cujas casas, debruçadas pelos outeiros da serra de Almofala, o luar froixo d'aquella noite amarellecia tristemente.

Ahi descavalgou Domingos Leite, despediu o arrieiro que o conduzira desde Moira, e esperou o repontar da manhã, hora em que as trinta e oito portas de Lisboa se franqueavam.

Com a gualteira do ferragoulo encapuzada, entrou de involta nas récovas das vitualhas, e desceu, estugando o passo, pela ingreme calçada da senhora da Graça, metteu por beccos ainda desertos, e parou na rua dos Vinagreiros. Abriu a porta, depois de examinar a numeração da casa, e fechou-se por dentro, com a certeza de que ninguem o vira. Subiu tateando no escuro das escadas até ao quinto andar, que sobranceava os telhados visinhos; abriu as janellas, respirou com offegante prazer o ar do Tejo, que, áquella hora matinal, emquanto as adufas não resfolegavam a peste interior das casas, era saudavelmente respiravel. Entre as setenta e duas torres de Igrejas procurou a de S. Thomé, porque d'ali perto estava a Portaria do Salvador, e nesse sitio lampejava aos primeiros raios do sol um zimborio que era o da caza onde áquella hora devia estar dormindo a sua Angela. A manhã era d'abril, o ceo azul, o Tejo formoso; n'aquelle ar da patria resoavam-lhe os cantares que só percebem almas volvidas do desterro. Estes jubilos eram-lhe revesados de tristezas amarissimas, ao lembrar-se que a tão donairosa e poetica Lisboa lhe seria apenas uma paragem de horas com perigo da sua liberdade; porém, o anhelante desejo de ver a filha, o evadir-se com ella, e a solidão do proscripto dulcificada pela convivencia da creança, davam-lhe alento e alternativas de exultação.

Previra Domingos Leite que na casa de Francisco Mendes Nobre, com toda a certeza, não moravam fadas lareiras que lhe cosinhassem o jantar. Esta racional hypothese, não vulgar nos personagens das novellas, preveniu-o fora de portas, indusindo-o a comprar dois pães saloios, com que substituiu frugal e alegremente os dois repastos do dia. E, como as suas horas eram muitas e vagarosas, examinou os repartimentos da casa do seu recente amigo e bemfeitor, maravilhando-se da belleza dos adornos, do aroma feminil que recendia das alfaias, e disposição graciosa dos objectos, posto que se estivesse em tudo revelando um abandono subito e desordenado. Deprehendêra Domingos Leite que d'aquelle recinto fugira ao mesmo tempo a timida amante do christão novo, e essa devia ser a formosa mulher que elle, um momento, vira em Madrid, quando se despedira de Francisco Mendes.

Assim que escureceu, e antes que o luar apontasse, Domingos Leite sahiu. As noites da Lisboa d'aquelle tempo eram apenas alumiadas pelas lampadas dos oratorios vazados entre as adufas. Os quadrilheiros rondavam em magotes, receosos dos turbulentos fidalgos cujas delicias eram investir com elles e soval-os, se os pilhavam repartidos. Facil, por tanto, foi a Domingos Leite entrever de longe os vultos suspeitos, e furtar-se a seguro, por bêccos conhecidos, até se avisinhar da Portaria do Salvador.

Quando alli chegou, todas as janellas e portas de sua caza estavam fechadas. Nos trez andares, e ao travez das trinta janellas, não translusia claridade de luz; mas, por entre os resquicios de um frestão, ao rez da rua, no quarto dos criados, viu Domingos Leite que havia luz, e a espaços ouviu o ruido de passos.

Temendo que os criados já fossem outros, hesitou em dar signal; mas, porque a noite se adiantasse, e o medo de ser conhecido pelos transeuntes o obrigasse a fugir por vêzes da visinhagem da casa, resolveu bater no postigo e proferir o nome do escudeiro, que o servia desde que elle entrára no paço da duqueza de Mantua, na qualidade de môço da capella.

—Bernardo!—murmurou Domingos Leite tocando subtilmente no postigo.

—Quem está ahi?—acudiu alvorotado o velho escudeiro, afigurando-se-lhe a vóz do amo.

—Eu: não me conheces? Abre depressa: mas não faças rumor— disse elle collando os labios ao frestão.

O criado abriu o postigo, reconheceu o amo e exclamou:

—Nossa Senhora da Graça! é vossa mercê, sr. Domingos Leite?!

—Sou... abre-me a porta; mas que não se ouça lá em cima.

—Aqui estou eu sosinho e mais ninguem—murmurou Bernardo.

—O que? e minha filha? e... tua ama?—exclamou Domingos Leite conturbado.

—Eu vou abrir, eu vou abrir.

Recolhido ao quarto do escudeiro, que o abraçava pelos joelhos, perguntou:

—Onde está minha mulher?

—Hade haver quinze dias que sahiu de caza.

—Para onde?

—Não sei dizer a vossa mercê.

—Como não sabes?! iria para Hespanha?

—Não, senhor. Está em Lisboa; mas não sei onde está. Tudo que havia em casa, ficou como estava. A senhora levou tão somente dois bahús com vestidos seus e da menina. Despediu os criados que eramos tres; e fiquei eu só para ter conta na casa; levou uma criada, e a preta que creou a menina, e despediu as outras. Deixou-me dinheiro para um mez, e disse-me que, no mez que vem, cá mandaria entregar-me egual mezada á que me deixou. Eu desconfiei que a minha ama e menina teriam ido recolher-se em algum convento; mas quero cuidar que, se fosse isso, a senhora m'o diria para que eu podesse saber d'ella e da minha ama pequena, que tantas vezes chorou aqui n'este quarto por vossa mercê...

—Viste-a sahir de casa?—atalhou Domingos Leite.

—Não, meu senhor. Sahiram tão de madrugada que eu apenas dei tento da sahida ouvindo o tropel dos machos da liteira.

—Da liteira da casa?

—Não, senhor. Logo que vossa mercê sahiu de Lisboa, d'ali a dias, minha ama mandou-me vender os machos, o cavallo, a liteira, a cadeirinha, e tudo mais.

—Quem vinha a esta casa depois que eu me retirei?—perguntou mais tranquillo Domingos Leite, abraçando, contra a opinião do criado, a hypothese do convento.

—Apenas aqui entrou trez vezes...

—Quem?

—O sr. Antonio de Cavide...

—Oh!—exclamou o marido de Maria Isabel, arregaçando as palpebras, como se os olhos tumidos de terror ou ira não coubessem nas orbitas—Que dizes tu? Antonio Cavide? o secretario d'el-rei? conhecel-o bem?

—Se conheço, senhor!... e mais eu nunca o vi aqui entrar senão ao fim da tarde, entre lusco-fusco...

—Dize-me o que sabes...—clamou desabridamente Domingos Leite, batendo no hombro ao amedrontado escudeiro.

—Não sei mais nada, meu amo... Ah!.. outra coisa... depois que o Cavide aqui veio, as criadas disseram-me que a menina era açafata do paço...

—O que? açafata!?.

—Sim, meu senhor, e por signal todos começamos a tratar a menina por senhoria e dom, porque a mãe assim o ordenara ás criadas...

—Que mais, Bernardo, que mais?—soluçava em violento arquejar Domingos Leite, com os pulsos fincados nas fontes e os olhos espavoridos na cara atribulada do criado.

—Nada mais sei.

Quedou-se alguns minutos em silencioso anceio; e de subito disse ao criado:

—Que ninguem saiba que estou em Lisboa...

—Ó meu amo!—volveu Bernardo—permitta Deus que a morte me colha, se alguem o souber de mim...

—Fecha as portas, que eu vou sahir; mas não durmas, que eu talvez tenha de voltar aqui esta noute. Vai ao meu quarto, e...

—Não tenho as chaves do quarto de vossa mercê.

—Arromba a porta e traze de lá os meus pistoletes para aqui; se eu voltar esta noite, dar-m'os-hás pelo postigo, logo que eu te der signal, e te chamar.

—Onde vai o meu amo!... pelas chagas de Christo, pense no que vai fazer...—rogou o velho de mãos erguidas.

Domingos Leite encarou-o de ruim aspecto, e interrogou:

—Que cuidas tu que eu vou fazer?! Então sabes onde está essa mulher? Dize, Bernardo! Ordeno-te que m'o digas!..

—O Senhor dos Paços da Graça me tolha esta lingua se eu sei onde está minha ama.

Domingos Leite sahiu em direitura ao Bairro da Marinha, que assim chamavam á parte da cidade convisinha do Tejo. Ahi, contiguo ao convento dos hybernios ou dominicanos irlandezes, era o palacio do marquez de Gouvêa, somente habitado durante o inverno.

Soavam onze horas no relogio do paço da Ribeira, quando Domingos Leite aldravava no portão do mordomo-mór, com o desassombro do seu tempo de secretario. Fallou o porteiro pelo postigo, e disse que o sr. marquez estava na cama. Instou Domingos Leite por lhe fallar, dando-se a conhecer ao pavido porteiro, que levou a noticia ao fidalgo.

Ergueu-se o marquez sobresaltado, e foi receber Domingos Leite, ordenando ao porteiro que escondesse dos mais criados a vinda d'aquelle infeliz a Lisboa.

—Vossemecê aqui?!—exclamou o mordomo-mór.

—É verdade—respondeu Domingos Leite com semblante em apparencia socegado—venho perguntar a V. Ex.ª se me sabe dizer onde está Maria Isabel.

O marquez olhou-o compassivamente, deteve-se silencioso, apoiou a fronte entre os dedos entrelaçados, deu um gemido de sincera magua, e murmurou:

—Fuja, desgraçado; saia de Lisboa... A que veio aqui?

—Buscar minha filha. Não disse eu tantas vezes em minhas cartas a V. Ex.ª que morria de saudades d'ella? Venho buscal-a; mas, não a achando nem a mãe na casa onde ficáram, pergunto a V. Ex.ª onde estão.

Apoz longo silencio do interrogado e rapida mutação no aspecto de Domingos Leite, o marquez, dados alguns passeios na sala, perguntou:

—Contenta-se com levar sua filha, sr. Leite?

—É minha filha unicamente que eu quero levar.

—Vou esforçar-me pelo conseguimento d'esse desejo.

—Beijo as mãos de V. Ex.ª; mas devo ignorar onde ella está?

—Poderia sabêl-o, se tivesse pela mãe todo o desprezo que ella merece.

—Prostituiu-se? Bem vê V. Ex.ª que eu lhe faço esta pergunta com a maior serenidade. Não vê?

—Desconfio que não.

—Creia, sr. marquez; se eu tirar a minha filha do abysmo em que está Maria Isabel, visto-me de gala... Mas como foi este rapido despenho da malfadada, por quem eu me perdi?

—Jure-me que hade ser homem de bem!

—Juro a V. Ex.ª que heide ser homem de bem até o provar no patibulo, onde os malfeitores ouvem o pregão da sua infamia.

—Que está ahi a imaginar patibulos! Os homens de bem não vão aos patibulos.

—Isto foi um modo figurado de fallar. Deus hade permittir que eu não expie na forca as devassidões da barregan de... De quem? ainda V. Ex.ª me não disse de quem...

—De D. João IV—respondeu serenamente o fidalgo.

—Veja, sr. marquez, que esse augusto nome não me colheu de assalto. Eu tinha-o suspeitado, logo que um meu criado me disse que Antonio de Cavide frequentava a casa da mulher perdida.

Nos beiços de Domingos Leite crispava o que quer que fosse analogo a um sorriso, como se as dôres lancinantes da nevralgia facial lhe vibrassem os musculos labiaes. O marquez contemplava-o. E elle, sem poder exprimir-se, exercitava com as mãos e cabeça uns gestos significativos de torvação.

—Sr. Leite...—disse o mordomo-mór, tocando-lhe affavelmente na mão esquerda com que elle comprimia o coração.

—Sr. marquez...—respondeu muito abatido Domingos Leite.

—Força e alma!

—Sinto que tenho ambas as cousas... e demais! Antes Deus me fizesse mais fraco.

Passados momentos, proseguiu:

—Parece incrivel, mas é atrozmente verdade, que eu peço e desejo que V. Ex.ª me conte como ella se perdeu... Não foi por necessidade, que eu tudo que ella tinha lhe deixei. Não foi por paixão, por que o rei não tem as graças fulminantes que prostrem n'um estrado ou n'um leito real a mulher de alguma honestidade. Então que foi? um longo trabalho de seducção? uma cadeia de perfidias que deram de si a posse pela violencia imprevista? Não pode ser. Ha trez mezes que eu sahi do reino, e ha quinze dias que a rameira se mudou para o real bordel... Como foi isto então, sr. marquez? Faça de conta que refere a historia a um estranho, que afinal se hade rir do marido, e achar que o rei não tinha obrigação de ser mais honrado que o padre Luiz da Silveira...

Domingos Leite, n'este ponto do seu lento e sinistro discorrer, desfechou uma risada estridula que fez frio na espinha dorsal do fidalgo; e logo abruptamente continuou com a maxima gravidade:

—Mas quem diz aos reis que elles são mais invulneraveis que os padres?

—Falle baixo!—acudiu o marquez chegando-lhe a mão tremente até aos beiços—Sr. Leite, olhe que ha muita gente n'esta casa... Peço-lhe que me não exponha, e peço-lhe que se não precipite irremediavelmente...

—Eu fallarei baixinho, sr. marquez—replicou Domingos Leite, quasi em segredo—Perdoe-me V. Ex.ª estas explosões; são relampagos sem raio. Eu não faço mal a ninguem. Sou um proscripto... um proscripto da laia de João Lourenço da Cunha, que lá em Castella usava pontas de ouro. Ora eu, que sou pobre, heide usal-as... da sua natural materia...

E riu rispidamente, esfregando com phrenesi as mãos nos joelhos, com umas figurações de louco.

—Valha-me o ceo!—tornou o marquez de Gouvêa—Cuidei que o infortunio de muitos, em casos desta natureza, lhe daria o exemplo do que é a verdadeira dignidade de um marido...

—Qual é? o despejo?

—Não: é o desprezo.

—E por ventura que sinto eu senão o desprezo por ella? Mas a mim é que eu não posso desprezar-me tambem, sr. mordomo-mór! De uns homens, como o conde D. Gregorio Castello Branco, sei eu que não só não desprezam mas até acatam suas mulheres, se D. João IV houve por bem diffamar-lh'as. Não sei se esta tolerancia é cortezia apprendida na frequencia da côrte. Eu... bem sabe V. Ex.ª que sou da arraia miuda, e creio ainda que me seria mais airoso ter uma esposa honesta que ter-m'a no seu leito el-rei nosso senhor... —E ria-se!

—Meu amigo—redarguiu tanto ou quanto impacientado o mordomo-mór—desculpo-lhe o desabafo das ironias, e até lhe desculparia as mais aceradas injurias a quem quer que fosse; mas não é assim que o seu destino hade melhorar, sr. Leite. Respeitemos a fatalidade e remediemos o que poder ser.

—Diga V. Ex.ª, meu nobre amigo.

—Sua mulher, querendo ir para Castella unir-se a seu marido com sua filha...

—Ella!.. ella unir-se a mim?

—Ou subjeitar-se ao despreso, com tanto que podesse aliviar-lhe a desgraça levando-lhe a menina, sua mulher, repito, quiz vender os bens; mas a justiça impediu-lh'o. Consultou-me sobre solicitar d'elrei a licença; eu desapprovei-lhe semelhante recurso; ella menospresou o meu conselho, e fallou ao rei. Mal sei o que passou entre ambos. O que facil me foi saber de pessoa competente foi que el-rei, por intermeio de Antonio Cavide, é hoje o que o sr. Leite sabe. Agora que de fugida lhe disse o que me affligiu grandemente referir-lhe, vamos ao ponto, vamos satisfazer o motivo que o trouxe a Portugal. Quer sua filha?

—Sim, sr. marquez.

—E, obtida ella, retira-se sem estrondo, sem escandalo?

—Immediatamente.

—Pois então vá o sr. Domingos Leite para sua casa, e ámanhã dê-me ponto onde eu o encontre ás dez da noute. Não venha aqui. Onde se alojou?

—Na caza deshabitada de um amigo.

—Aonde?

—Na rua dos Vinagreiros. Seria difficil a V. Ex.ª achar de noute o numero da porta.

—Espere... Ás nove em ponto o meu coche hade estar nas teracenas. Vossemecê vai aforrado, entra, e lá me encontra. Então lhe darei noticia das minhas diligencias de ámanhã. Entretanto, se eu antes d'essa hora tiver precisão de lhe dar aviso, como hade ser?

—Em casa de Maria Isabel está um criado a quem V. Ex.ª pode mandar qualquer aviso, que elle irá communicar-m'o.