O Sétimo Segredo

Irving Wallace · Capítulo 4 de 10 · parte 3/3

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O Sétimo Segredo

Capítulo V

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

forma, posso mandar-lhe o que tenho. Onde está hospedado?

— No Kempinski.

— Receberá o material dentro de um ou dois dias.

Abriu uma gaveta da escrivaninha de metal, tirou um pedaço de

papel e escreveu uma anotação. Depois, tateando pelo interior da

gaveta, pegou um cachimbo Meerschaum e uma bolsa de couro.

Enchendo o cachimbo, perguntou:

— Não se incomoda, não é?

Foster tirou do bolso do paletó seu cachimbo de urze-branca e

um pacote de fumo.

— Vou acompanhá-lo.

Zeidler empurrou sua bolsa para Foster.

— Experimente esse tabaco holandês. Muito suave. Pondo o

fumo em seu cachimbo, Foster disse:

— Se não tiver fotografias adequadas do seu trabalho, poderia

me arrumar os projetos originais das sete estruturas subterrâneas?

— Eu já ia falar sobre isso — comentou Zeidler, com

entusiasmo. — Ainda tenho todas as plantas originais.

— Servirão tão bem quanto as fotografias. Isto é, se me permitir

reproduzi-las. Completariam meu livro.

Zeidler estava tendo dificuldade para manter o seu Meerschaum

aceso. Finalmente conseguiu e, depois de algumas baforadas, disse:

— Não há problemas. Gostaria de vê-las agora?

— Se não se incomoda. Zeidler acenou com a cabeça.

— Posso pegá-las em minha sala de arquivo. Vou verificar onde

estão exatamente. Tenho tudo registrado no computador.

Ele fez a cadeira deslizar ao longo da escrivaninha até o

computador, e começou a bater nas teclas, com dedos obviamente

experientes. Depois de um breve intervalo, olhou para a tela por cima

do computador.

— Ai estão... "Bunkers Subterrâneos". Poderei pegar num

instante. Não preciso de mais de cinco minutos.

Zeidler já estava de pé, encaminhando-se para uma sala ao lado.

Foster recostou-se, satisfeito porque sua busca chegara a uma

conclusão bem-sucedida. Aqueles bunkers subterrâneos, com as

legendas adequadas, seriam um clímax dramático para o seu

levantamento arquitetônico do Terceiro Reich. Por um momento, pensou

na estranha criatura que ordenara a construção daqueles bunkers. Era

possível compreender os que haviam sido construídos nos últimos dias

do Reich desmoronado, como proteção contra os bombardeios Aliados. Mas os outros indicavam que Hitler fora um animal noturno, uma

criatura das trevas, que queria se enterrar no fundo da terra, longe da

confusão e destruição que semeara na superfície.

Foster soprou alguns anéis de fumaça, contente, aguardando as

últimas ilustrações para o seu projeto. Zeidler voltou poucos minutos

depois, carregando tubos de plantas debaixo do braço.

— Aqui estão, todas as sete. — Largou-as em cima da mesa. —

Chegue mais perto para eu lhe mostrar tudo.

Foster levantou-se de um pulo, esvaziou o cachimbo num

cinzeiro e deu a volta pela escrivaninha, indo se postar ao lado de

Zeidler, enquanto o alemão tirava a primeira planta de um tubo e

começava a abri-la.

— Este é o bunker Doric, construído numa caverna nas

Montanhas Eifel — explicou Zeidler. — Foi Speer quem iniciou o

projeto, no final de 1939. Mas Speer não gostava dele, porque Hitler

queria que fosse uma coisa simples, sem qualquer inspiração. Por isso,

Speer incumbiu-me da conclusão. Terminei o projeto e supervisionei a

construção em 1940.

O dedo ossudo de Zeidler deslizava pela planta.

— Observe as inúmeras salas para equipamentos eletrônicos. O

custo desse único bunker seria o equivalente a dois milhões de dólares

americanos, naquele tempo.

Zeidler abriu outra planta e estendeu-a por cima da primeira.

— Este é o bunker Felsennest, também nas Montanhas Eifel,

dentro da Alemanha, mas não muito longe da Bélgica. Tornei a usar

uma caverna. Tivemos de remover os morcegos antes do início das

obras.

Zeidler estava desdobrando uma terceira planta, informando:

— Bunker Tannenberg. Por baixo da Montanha Kniebis, na

Floresta Negra.

Foster observava, fascinado, enquanto as plantas restantes lhe

eram mostradas. Zeidler continuava a fazer os comentários:

— O maior e mais complexo de todos, bunker Baluarte, dentro da Montanha Obersalzberg, em Berchtesgaden. Pode notar as muitas

ramificações, para abrigar outros elementos proeminentes do partido...

Aqui está o bunker Pullach, perto de Munique... E, finalmente...

Zeidler estava desenrolando a última planta, com evidente

aversão.

— ...a planta de que menos me orgulho, mas que se tornou a

mais conhecida. Este é o Führerbunker de concreto, ao lado da

Chancelaria do Reich, no jardim, onde Hitler ficou até o fim. Speer

iniciou-o em 1936. Reformulei o projeto e ampliei-o em 1938, usando

uma empresa particular de confiança, a Companhia Construtora

Hochtief. O Führerbunker foi o mais difícil e inconveniente de todos os

bunkers, algumas partes ficaram inacabadas, porque nunca

acreditamos realmente que seria usado, jamais imaginamos que Hitler

veria a Alemanha desmoronar ao seu redor e teria de se esconder ali

durante os últimos meses. Seja como for, Sr. Foster, aí está tudo, as

suas plantas desaparecidas.

— Disse que eram sete plantas, Sr. Zeidler. Contei apenas seis.

— São mesmo sete. Vou mostrar. — Zeidler folheou as plantas,

contando. — ...quatro, cinco, seis. — Levantou os olhos, surpreso. —

Tem razão. Só há seis aqui. Mas eram sete. Lembro perfeitamente, e o

computador confirma. Parece que uma sumiu.

— Talvez tenha deixado na sala de arquivo.

— Vou verificar.

Zeidler desapareceu na outra sala e voltou quase no instante

seguinte.

— Não está lá. — Parou junto à mesa, franzindo o rosto. — Não

posso imaginar o que aconteceu.

— Alguma vez as plantas saíram de suas mãos?

— Nunca. Fiz um jogo para Hitler, que ele guardou, mas fui

informado de que queimou no bunker, antes de morrer. O único outro

jogo que sobreviveu é este que guardei para mim.

— Não teria emprestado as plantas a alguém?

— Não haveria razão para isso. Nunca... — Parou de falar abruptamente, lembrando-se de algo. — Tem razão. Houve uma ocasião

em que emprestei minhas plantas. Recebi o aviso de Albert Speer,

através de sua família, de que ele pensava em fazer um livro de

arquitetura do Reich parecido com o seu, mais uma memória técnica de

seu trabalho, em vez de um livro pictórico como o seu. E queria revisar

o trabalho que fiz para ele. Speer ainda estava preso em Spandau como

um criminoso de guerra. Faltava apenas um ano para terminar a sua

sentença de vinte e um anos. Levei as sete plantas à prisão e deixei-as

lá para ele. Depois que saiu de Spandau, Speer devolveu-me tudo.

— O jogo inteiro menos uma — lembrou Foster.

— Não resta a menor dúvida de que este jogo está incompleto.

Falta a planta do sétimo bunker. Speer pode me ter devolvido seis e se

esquecido da última, deixando-a em Spandau. Talvez com seu amigo

Rudolf Hess, a quem ele às vezes consultava. É uma possibilidade.

Começou a enrolar e a prender as plantas na escrivaninha,

enquanto continuava a falar:

— Posso mandar copiar estas seis plantas para o seu livro.

Quanto à sétima, sugiro que procure a prisão de Spandau e

pergunte... — Zeidler parou de falar de repente e pegou sua agenda. —

Espere três dias antes de ir até lá. Spandau ainda é controlada pelas

quatro potências vitoriosas, que exercem a sua supervisão em turnos.

Os russos se encontram no comando neste momento, Mas dentro de

três dias entregarão Spandau aos americanos, Os russos nem mesmo o

receberão. Não posso falar pelos franceses ou ingleses, mas tenho

certeza de que os americanos se mostrarão amáveis e cooperativos.

Procure-os e descubra se a sétima planta ainda está por lá, Se estiver...

e tudo indica que a planta ainda se encontra em algum lugar da

prisão... poderá recuperá-la e terá assim o jogo.completo para o seu

portfólio. Vou escrever um bilhete dando-lhe permissão para pegar a

planta.

Zeidler escreveu rapidamente e entregou o bilhete a Foster.

Depois de agradecer, mas antes de se retirar, Foster fez mais uma

pergunta:

— Lembra de alguma coisa sobre esse sétimo bunker?

— Não muito, Eu fizera outra fortaleza subterrânea, bunker

Riese, perto de Charlottenborn, uma pequena cidade de águas minerais.

Foi o bunker mais caro — custou pelo menos sessenta milhões em seu

dinheiro na ocasião. Era o maior de todos. Hitler não gostou e nunca o

usou. Pensava em destruí-lo, junto com a planta. Mas depois, creio que

em 1943, mudou de idéia e decidiu duplicá-lo, em outro lugar. Seria

chamado de bunker Grosse Riese. Mas nunca recebi a ordem de

construí-lo. Assim, só existe a planta, não o bunker,

— Ainda seria valiosa para o meu livro.

— Pois então vá a Spandau daqui a três dias e tente descobri-la.

 

Tovah Levine estava tão preocupada em não se atrasar ao

encontro com seu superior que chegara quinze minutos mais cedo ao

Im Café Carré. Não se importara, porque o café ao ar livre, na

Savignyplatz, um pouco afastada do distrito comercial de Berlim, era

um refúgio sossegado e proporcionava alguma privacidade. A cadeira de

aço em que se instalara, à mesa branca, no pátio de cascalho, ficava

completamente oculta da rua por uma sebe alta. Tovah estava

desfrutando da sensação de isolamento e ficou um pouco surpresa

quando Chaim Golding sentou-se de repente à sua frente.

Ele ofereceu-lhe um bom-dia brusco e pediu um sorvete. Como

já era muito tarde para o café da manhã e ainda cedo para o almoço,

Tovah, embora não gostasse, também pediu um sorvete.

Golding ocupou-se nos minutos seguintes em esvaziar os bolsos

de seu paletó e examinar suas anotações.

Sentada à sua frente, Tovah pensou, com uma intensidade

maior do que no primeiro encontro, que Chaim Golding parecia mais

um perfeito alemão ariano do que um israelense que dirigia as

operações do Mossad em Berlim Ocidental.

Depois que os sorvetes foram servidos, Tovah estudou Golding,

que se levantara por um instante para tirar o paletó. Na primeira vez em

que o encontrara, logo depois de sua chegada a Berlim, ele estava ocupado por trás de sua mesa de trabalho. Superficialmente, explicara

qual era a missão: ela deveria entrar em contato com uma mulher que

acabara de chegar a Berlim, a historiadora Emily Ashcroft, e descobrir

mais sobre as pistas que a inglesa possuía de que Hitler e sua mulher

haviam sobrevivido à queda da cidade.

Agora, tendo solicitado aquele segundo encontro, Tovah podia

obter uma impressão melhor de Chaim Golding. Ele parecia ter quase

l,80m de altura, esguio, corpo atlético, feições enganadora-mente

nórdicas, olhos castanho-claros, nariz reto. Quando ele tornou a se

sentar, Tovah percebeu que se encontrava relaxado, mais à vontade do

que no escritório do Mossad, durante o primeiro encontro.

— Portanto, já fez contato com a Srta. Ashcroft de Oxford no

Hotel Kempinski — disse ele, suavemente, passando a colher pelo creme

no topo do sorvete de baunilha.

Tovah ficou surpresa.

— Ah, então já sabe...

— Meu ofício é saber das coisas — disse ele sem sorrir. —

Simpatizou com ela?

— Muito.

— E ela simpatizou com você?

— Acho que sim. Até jantamos juntas.

— Em companhia do californiano, o arquiteto Foster.

— Como sempre, você sabe de tudo.

— Mas não o bastante. — Golding fitou Tovah nos olhos. —

Quero saber mais. O que ela está procurando a respeito de Hitler?

— Viu a fotografia na elevação do bunker que saiu no BZ1

— Claro. Ela quer fazer uma escavação. Mas escavar à procura

do quê?

Em termos sucintos e objetivos, como aprendera durante o

treinamento do Mossad, Tovah relatou tudo o que ouvira de Emily

Ashcroft, as duas pistas que poderiam provar que Hitler e Eva Braun

haviam sobrevivido. Tovah explicou:

— Ela soube que uma das arcadas dentárias que os russos identificaram como sendo de Hitler não era a verdadeira. E descobriu

também que Hitler sempre usava por baixo da túnica um camafeu de

marfim em que estava esculpida a cabeça de Frederico o Grande. É o

que ela espera encontrar na escavação: a verdadeira arcada dentária e o

camafeu, entre os destroços na Zona de Segurança alemã oriental. Se

não estiverem lá... seria uma indicação de que Hitler e Eva Braun

teriam escapado.

— Quem forneceu essas pistas?

— Não sei, Chaim. Foi um detalhe que Emily não quis revelar. E

fiquei surpresa que ela revelasse tanto, dizendo quais eram as duas

pistas. — Tovah inclinou-se para o diretor ao acrescentar:

— Estou quebrando a promessa que fiz a ela, Chaim. Emily

confia em mim.

— E pode mesmo confiar. Assim como você também deve

confiar em mim. Não repetirei coisa alguma do que está me contando.

— Ficou em silêncio por um momento. — Portanto, a Srta.

Ashcroft acredita que Hitler e Braun usaram sósias, que os sósias foram

cremados e os russos se deixaram enganar.

— Exatamente. Ofereci-lhe ajuda na pesquisa. Senti-me atraída

pela idéia de Hitler usar um sósia. E declarei que gostaria de

acompanhar a investigação. Acha que há alguma possibilidade de que

essa história seja verdadeira?

Com um movimento neutro dos ombros, Golding respondeu:

— A suspeita de um sósia é uma das fantasias prediletas das

pessoas que vivem imaginando conspirações.

— Quer dizer que não acredita?

— Poderia acreditar. Historicamente, a teoria conta com muito

apoio. A utilização de sósias por líderes mundiais e celebridades

menores não é tão rara. O Rei Ricardo II da Inglaterra usava um sósia,

ao que tudo indica. O Presidente Franklin D. Roosevelt, com toda

certeza, tinha um sósia. O mesmo acontecia com o Marechal-de-Campo

Montgomery de Alamein... um antigo ator, Tenente Clifton James. Há

especulações de que Napoleão também tinha um sósia. No Terceiro Reich, há a convicção de que Rudolf Hess usava um sósia. Mas nunca

ouvi falar de que Adolf Hitler também tivesse o seu.

— Apesar de tudo, estou investigando.

— O que descobriu?

— Por enquanto nada. Verifiquei em todas as biografias de

Hitler na biblioteca estadual, no Centro Cultural, perto do Tiergarten.

Nada encontrei. Mas ainda posso descobrir alguma coisa. Conversei

esta manhã com Emily Ashcroft. Ela sugeriu que eu procurasse um

repórter bem-informado e cooperativo do Berliner Morgenpost, um tal de

Peter Nitz, que ela conheceu há pouco tempo. Vou me encontrar com ele

dentro de uma hora.

— Boa sorte.

Tovah estudou o rosto do diretor à procura de qualquer sinal de

aprovação ou desaprovação.

— Estou sendo tola, Chaim? — indagou ela, ansiosamente. —

Estou desperdiçando meu tempo?

Ele pagou a conta e levantou-se.

— Não pare, Tovah. Continue a investigar e se mantenha em

contato constante.

 

O edifício Axel Springer Verlag, de vidro e aço, na Kochstrasse,

50, erguia-se naquele canto de Berlim Ocidental como um

Brobdingnagian na terra do liliputianos. Ali estavam os escritórios do

Berliner Morgenpost, assim como os de outros jornais. Tovah Levine

entrou no edifício na hora marcada para o seu encontro com Peter Nitz.

As paredes do vasto saguão eram cobertas por painéis de

madeira. Os guardas de segurança detiveram Tovah e pediram a

apresentação de seu passaporte israelense. Examinaram-no e

devolveram, junto com um papel rosa que lhe permitia seguir até os

elevadores.

No estreito corredor que se estendia além do elevador, no sexto

andar, Peter Nitz estava à espera. Conduziu Tovah à sua sala no

Morgenpost, onde havia seis escrivaninhas desocupadas, cada uma flanqueada por uma mesinha com uma máquina de escrever elétrica,

prateleiras com livros, uma geladeira pequena, um aparelho de

televisão. Convidou-a a sentar-se ao lado de sua mesa, a que ficava

mais perto da porta.

Recebendo-a como uma colega jornalista e ainda por cima amiga

de Emily Ashcroft, Nitz mostrou-se prontamente cooperativo. Ouvindo o

pedido de Tovah de informações sobre um sósia de Hitler, Nitz admitiu

que jamais escrevera a respeito nem ouvira falar de nenhum. Apesar

disso, ressalvou ele, valia a pena investigar o assunto, descobrir se

alguém escrevera sobre isso, proporcionando uma pista a Tovah.

— Se me der licença por um momento — disse Nitz levantando-

se — vou até a seção de arquivo consultar os recortes.

Tovah ficou esperando ao lado da mesa, ocupando-se irrequieta

em estudar as prateleiras com livros de referências na parede do outro

lado. Depois de um breve período, descobriu que Nitz voltara, trazendo

uma pasta parda do arquivo. Voltou apressadamente a seu lugar,

enquanto Nitz sentava atrás da mesa, com uma expressão infeliz. Ele

abriu a pasta.

— Infelizmente, não há muita coisa. Esta pasta quase nada

contém.

— Mas o que tem aí?

— Vamos ver. — Ele estava verificando meticulosamente os

recortes, enquanto sacudia a cabeça. — Principalmente alarmes falsos.

Em 1950 a polícia militar americana descobriu um enfermeiro alemão

num hospital de Frankfurt-am-Main, um homem chamado Heinrich

Noll, que parecia muito com Hitler. Interrogaram-no, constataram que

não era Hitler e soltaram-no. Temos outra história em 1951,

despachada de Viena. Hitler teria morrido em 1944, num atentado a

bomba, Martin Bormann substituiu-o por um sósia chamado Strasser.

Não há indicação do primeiro nome. Não há qualquer base concreta

para essa história, e assim é melhor esquecê-la. A última notícia data

de 1969, quando um mineiro de carvão, alemão, aposentado, Albert

Pankla, foi detido e solto pela 300º. vez porque se parecia com Hitler. Ao que parece, não há absolutamente nada... espere um pouco, tem aqui

um pedaço de papel com uma anotação que já ia deixando passar...

Nitz leu a anotação, franzindo a testa.

— O que tem aí? — indagou Tovah, esperançosa.

— Não estou entendendo. Alguém escreveu aqui: "Sobre o

assunto dos sósias de Hitler, ver a ficha de Manfred Müller."

— Quem é ele?

— Não tenho a menor idéia. Mas tenciono descobrir. — Nitz

tornou a se levantar. — Há uma geladeira ali com Coca-Cola, Srta.

Levine. Tome uma. Voltarei num instante.

Tovah não estava com paciência para um refrigerante.

Continuou esperando, um pouco desanimada, mas ainda curiosa sobre

o que Peter Nitz poderia descobrir.

Ele voltou com um único recorte, comprido, lendo-o enquanto se

encaminhava para a mesa.

— Uma notícia mais recente. Uma reportagem sobre alguns dos

restaurantes e boates mais antigos de Berlim Ocidental, que existiam

desde os anos 20. Manfred Müller era um artista popular numa dessas

casas noturnas. Tinha uma semelhança fantástica com Hitler e

costumava deliciar o público com imitações de Der Führer durante o

Terceiro Reich. Um dia não apareceu. E nunca mais foi visto. Não se

tem idéia do que aconteceu. Talvez tenha se aposentado.

— Será que Manfred Müller ainda está vivo?

— A matéria não informa. Mas menciona a casa em que ele

costumava se apresentar. Era o Lowendorff Club. Agora se chama

Lowendorfs Kneipe. Por que não vai até lá e descobre se alguém sabe

alguma coisa sobre Müller? É um tiro no escuro, mas vale a pena

tentar. Vou lhe dar o endereço.

 

Tovah constatou que era na verdade uma cervejaria de classe

média ao ar livre.

O lugar era cercado e coberto por treliças com trepadeiras, o que

proporcionava algum isolamento da rua. As mesas estavam ocupadas por jovens que tomavam refrigerantes, cerveja, uísque. Por cima da

entrada para a parte interna havia um cartaz em neon, ainda não

aceso, que anunciava em letras grandes LOWENDORFF'S, tendo por

baixo, em letras menores, FRUHSTUCKKNEIPE.

Tovah interceptou um garçom que se afastava de uma mesa e

apresentou-se como jornalista que queria entrevistar o proprietário.

— Está falando de Herr Bree... Fred Bree — disse o garçom,

impressionado. — Ele está lá dentro. Venha comigo. Vou chamá-lo.

Tovah seguiu o garçom do sol para a escura sala interna da

cervejaria. As mesas ali estavam alinhadas formalmente, nenhuma

ocupada àquela hora, no meio da tarde. Mais além havia uma pista

encerada — Tovah calculou que era para dançar e para apresentação de

artistas — e mais ao fundo os cinco músicos de um conjunto se

aprontavam para ensaiar. Um jovem magro mas forte conversava com

os músicos, em mangas de camisa, com um lederhosen bávaro preso

por suspensórios vermelhos.

Entrando no salão, à beira das mesas, o garçom estendeu a mão

para deter Tovah e disse:

— Espere aqui.

Encaminhou-se apressadamente para o jovem de lederhosen que

conversava com os músicos e sussurrou-lhe algumas palavras,

apontando para a entrada. O jovem virou-se para fitar Tovah, acenou

com a cabeça em cumprimento e avançou em sua direção.

— Sou Fred Bree — disse ele. — Deseja falar comigo?

— Meu nome é Tovah Levine. Sou do Post de Jerusalém e estou

fazendo uma série de reportagens sobre as diversões que se

encontravam em Berlim antes da guerra. Temos muitos leitores que

emigraram de Berlim e se interessam por essas matérias nostálgicas.

Fui informada de que um certo Herr Lowendorf f outrora dirigia esta

casa.

— Isso mesmo... Walter Lowendorff. Ele tornou a casa muito

popular nos anos 30.

— Também me disseram que ele tinha um número aqui que era uma atração especial. Um show de mímica de Manfred Müller. Eu

gostaria de saber mais alguma coisa a respeito desse Müller.

— Manfred Müller... — repetiu Bree. — O nome me parece

familiar, mas nada sei a seu respeito. Eu ainda não havia nascido na

ocasião. Só mesmo Herr Lowendorff ou meu pai teriam esse tipo de

informação. O bairro foi bastante avariado pelos bombardeios Aliados,

nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial. Depois da guerra,

Lowendorff não teve ânimo para reconstruir a casa. Vendeu a meu pai,

que já possuía diversas Kneipes. Depois da morte de meu pai, em 1975,

herdei a casa e a venho dirigindo desde então.

— Quer dizer que não sabe nada sobre Manfred Müller?

— Meu pai poderia saber, mas ele não existe mais. Ora, mas é

claro! — O jovem proprietário da cervejaria mostrou-se animado. —

Walter Lowendorff pode lembrar alguma coisa de seus velhos atos. Por

que não pergunta a ele diretamente?

Tovah, já desanimada, sentiu um ímpeto de esperança.

— Então o Lowendorff original ainda existe?

— Ele é indestrutível — comentou Bree com um sorriso. — Está

muito velho, meio entrevado, a memória lhe falta de vez em quando,

mas ainda se lembra de aparecer por aqui para a sua cerveja diária.

Pegou Tovah pelo braço, acrescentando:

— Vamos até o jardim para ver se ele já chegou.

Saíram para o jardim e Bree correu os olhos pelos vários

fregueses às mesas.

— Ainda não. — Consultou o relógio de pulso. — Lowendorff

geralmente aparece por volta das três horas. Ainda faltam dez minutos.

Por que não senta a uma mesa, Fraulein Levine, e espera por ele? Tome

uma cerveja. Ficarei atento e levarei o velho Lowendorff à sua mesa

assim que ele chegar.

— Obrigada, Herr Bree.

O proprietário levou Tovah até uma mesa vazia, estalou os dedos

para chamar um garçom, pediu um chope e depois se afastou para

conversar com os outros fregueses.

Tovah, tomando o chope com bastante espuma, esperou por

quinze minutos e começou a ter dúvidas de que alguma coisa pudesse

resultar daquela visita. Mas pouco depois avistou Bree voltando,

trazendo a reboque um homem idoso e trêmulo. Ajudando o velho a

sentar à mesa de Tovah, Bree fez as apresentações.

— Fraulein Levine, este é o renomado Walter Lowendorff. Já o

informei de sua missão. Fiquem conversando, enquanto mando trazer

outro chope.

Tovah contemplou o velho encarquilhado com alguma

apreensão. Os olhos eram remelentos e ele olhava para as pessoas da

outra mesa com uma expressão vazia, um sorriso idiota no rosto

enrugado.

Ele não reconheceu a presença de Tovah até que o chope foi

posto à sua frente. Só então, depois de lamber a espuma, é que a

focalizou.

— Estou escrevendo uma reportagem sobre os shows e artistas

mais memoráveis de Berlim nos anos 30 — começou Tovah. — E me

disseram que o senhor promoveu alguns dos melhores.

— É verdade — concordou Lowendorff. — Os melhores. Ele

tomou um gole do chope, observando Tovah por cima da caneca de

vidro.

— Estou especialmente interessada num ato que havia aqui e se

tornou famoso. Contaram-me que obteve o maior sucesso com Manfred

Müller, um mímico que fazia sensacionais imitações de Hitler.

— Ah, Müller, Müller... — murmurou Lowendorff, a espuma

aderindo aos lábios, enquanto tomava o chope. — O melhor... o melhor

de todos.

— Quero saber mais a respeito de Müller — continuou Tovah. —

Pelo que sei, ele poderia passar por Adolf Hitler.

O chope ou a recordação de Müller pareceu devolver a lucidez ao

velho.

— Parecia exatamente com Hitler. A imagem escrita e escarrada,

os mesmos cabelos castanhos caindo na testa, os olhos azuis fanáticos, o bigodinho. Absolutamente Hitler. E também um mímico muito

engraçado. Podia imitar Hitler com perfeição, mas era satírico, muito

satírico. Não cruel. Apenas divertido. Contratei-o no mesmo instante em

que ele me mostrou do que era capaz.

A mente de Lowendorff vagueou, ele tomou outro gole do chope,

enquanto retornava ao passado. Tovah fez uma tentativa de trazê-lo de

volta ao presente:

— Contratou Manfred Müller. Ele apresentava o seu número

aqui. Era um sucesso.

— Um tremendo sucesso. A casa lotada todas as noites.

Espectadores de todas as classes, vindos de todos os cantos. Manfred

fazia pequenas representações. Imitava Hitler na cervejaria de Munique,

dando ordens. Fazia Hitler na cela da prisão, ditando Mein Kampf para

Hess. Hitler ordenando o incêndio do Reichstag. Uma coisa afrontosa,

mas de morrer de rir. Os negócios nunca foram melhores.

— Mas de repente ele parou — interveio Tovah. — Sei que

suspendeu o número quando se encontrava no auge. Por que ele o

deixou?

O velho fez um esforço para entender o que Tovah estava

dizendo.

— Deixou? Deixou? Não, ele não deixou. Manfred Müller estava

no auge, Berlim inteira falava dele. E foi então que o obrigaram a parar.

— Quem o obrigou?

— O bando de Hitler, é claro. Uma noite, depois de sua

apresentação, eles estavam à sua espera. Quatro homens fortes da

Gestapo de Göring... ou era de Himmler naquele tempo, já esqueci.

Agarraram Manfred, meteram-no num carro e foram embora. Isso

aconteceu na primavera de 1936. Foi a última vez que vi Manfred

Müller.

Tovah estava na beira da cadeira.

— Mas o que aconteceu com ele?

— Nunca mais ouvi falar dele. Desapareceu completamente.

Talvez tenha sido fuzilado por sua ousadia. Ou talvez não. Talvez apenas o tenham forçado a viver de boca fechada.

Ou talvez, apenas talvez, o tenham usado de outra forma,

pensou Tovah. Um homem que parecia com Hitler, que podia imitar

Hitler com tanta perfeição, seria útil de muitas formas.

— Se ele não morresse na ocasião, ainda poderia estar vivo? —

especulou Tovah.

— É possível. Era jovem, tinha vinte e poucos anos quando foi

preso.

Tovah persistiu:

— Pode pensar em alguém que talvez saiba o que aconteceu

com ele?

— Não, ninguém... a não ser...

Lowendorff tremia um pouco do esforço de rebuscar em algum

recesso da memória. Tovah tentou estimulá-lo:

— A não ser...

Lowendorff aparentemente fez alguma descoberta em sua

exploração do passado.

— Anneliese Raab. Foi assistente de Leni Riefenstahl nas

fotografias dos Jogos Olímpicos de Berlim. Anneliese Raab conheceu

Hitler pessoalmente, através de Riefenstahl. Anneliese devia ter seus

dezoito anos. Vinha com freqüência à minha casa para rir com Manfred

Müller. Talvez tenha falado a Hitler das imitações de Müller. E talvez

Hitler tenha lhe contado o que fez com Müller. Isso mesmo, deve falar

com Fräulein Raab.

— Sabe onde posso encontrá-la?

— Qualquer um pode lhe dizer onde encontrá-la. Ela ainda é

famosa. Isso mesmo, Anneliese Raab é a pessoa que pode saber o que

aconteceu com o nosso imitador de Hitler.

— Claro que sei o que aconteceu com Manfred Müller — disse

Anneliese Raab, enquanto avançava com passos vigorosos pelo corredor

do Edifício Éden, ao lado do Palace Hotel, no Centro Europa.

Anneliese admitiu orgulhosa que possuía o luxuoso apartamento

de cobertura que haviam acabado de deixar, assim como o apartamento que iam visitar agora e que ela convertera em sua sala de projeção

particular. E garantiu a Tovah:

— Müller era um artista absolutamente maravilhoso. Tovah não

tivera dificuldade para encontrar Anneliese Raab, uma mulher baixa e

socada, que usava uma peruca loura, cacheada, e um conjunto cinza. A

mulher era bastante conhecida na cidade e convidara Tovah a

entrevistá-la com a maior cordialidade.

Assim que Tovah explicara o motivo de sua visita, Anneliese

telefonara para alguém em sua sala de projeção e depois,

misteriosamente, sugerira a Tovah que deviam assistir a um ou dois

rolos do filme dos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, que ela ajudara

Leni Reifenstahl a produzir.

— Mas o que aconteceu com Manfred Müller depois que a

Gestapo o prendeu no Lowendorff Club, naquela noite de 1936?

Anneliese fitou Tovah com uma expressão divertida.

— Ora, ele se tornou o sósia de Adolf Hitler. É o que vou lhe

mostrar.

Excitada pela revelação inesperada, Tovah Levine seguiu a

cineasta alemã para a sala de projeção, pequena mas muito bem

decorada, com fileiras de poltronas de couro marrom.

Anneliese instalou-se numa poltrona ao lado de um painel de

controle e chamou Tovah para sentar a seu lado. Anneliese apertou um

botão ao lado de um microfone e falou com alguém na sala de projeção

lá em cima:

— Pode começar quando estiver pronto.

— Preciso de mais cinco minutos para preparar o rolo —

informou a voz desencarnada da cabine de projeção.

Anneliese recostou-se, virando o rosto para Tovah.

— Portanto, temos cinco minutos para explicações. Eu lhe direi

o que sei.

— Sobre o sósia de Hitler — murmurou Tovah, emocionada. A

simples confirmação dessa possibilidade validava subitamente a busca

de Emily Ashcroft pela verdade.

— Isso mesmo. Manfred Müller tornou-se o sósia de Hitler por

minha causa. Pelo que relatei a Hitler num banquete que Der Führer

ofereceu ao aviador e herói americano Charles A. Lindbergh. Antes do

banquete, os convidados ficaram reunidos em grupos, conversando. Eu

já fora apresentada antes a Hitler, em outra solenidade, por Leni

Riefenstahl. Goebbels viu-me sozinha, bebendo, e levou-me para o

círculo de Hitler. Eu era bem jovem na ocasião e bastante bonita.

Goebbels sabia que Hitler gostava de estar cercado por moças bonitas, e

por isso me levou para junto das outras mulheres que adulavam Der

Führer. Não me lembro direito como aconteceu, mas por um momento

fiquei parada ao lado de Hitler, sentindo-me um pouco inebriada. Acho

que tomara muito vinho. Seja como for, descobri-me a falar a Hitler

sobre o maravilhoso mímico Manfred Müller, que se parecia

incrivelmente com ele e que estava se apresentando todas as noites no

Lowendorff Club. Depois que falei, tive medo de que Hitler se sentisse

ofendido. Em vez disso, no entanto, ele se mostrou fascinado. Pôs a mão

sob meu cotovelo e puxou-me para o lado, até que ficamos quase a sós.

"Está querendo dizer que esse ator, o tal de Müller, parece comigo?",

disse Hitler. Compreendi que ele estava realmente interessado e

respondi: "Não apenas parece, Mein Führer. É o próprio Führer, uma

réplica exata na altura, feições, movimentos. Não creio que ele use

artifícios ou maquilagem para ficar parecido. É um desses acidentes da

natureza, uma coisa inacreditável." Hitler pediu-me então para repetir

onde Manfred Müller estava se apresentando. Dei a informação e tive a

certeza de que ele não esqueceria. A comida foi servida pouco depois e

todos se encaminharam para seus lugares às mesas. E na vez seguinte

em que fui ao Lowendorff Club, soube que Manfred Müller não estava

mais se apresentando ali. Disseram-me que se aposentara. O que não

fazia sentido, porque ele era muito jovem para se aposentar.

— Quando soube que Müller fora apanhado pela Gestapo?

— Pouco depois — respondeu Anneliese. — Meses antes dos

Jogos Olímpicos, em agosto de 1936, Leni Riefenstahl fora escolhida

para fazer o filme oficial da competição, Olympia. A fim de cobrir os eventos nos dezesseis dias, Leni reunira uma equipe de 160

especialistas, metade de cinegrafistas e assistentes de cinegrafistas,

preparando-os nos Estúdios Geyer. Eu era assistente de produção de

Leni. Antes, todos os filmes olímpicos eram insípidos, monótonos,

meras reproduções de cada prova. Leni foi a primeira a transformar um

filme das Olimpíadas numa obra de arte, introduzindo em 1936 as

técnicas que hoje se tornaram comuns... buracos para câmaras

filmarem de ângulos baixos, câmaras se deslocando em trilhos para

acompanhar os corredores, filmagens debaixo d'água, cenas de

atividades no solo filmadas do Graf Zeppelin no céu. Poucos dias antes

de os preparativos começarem, Leni e eu comíamos alguma coisa no

Haus Ruhwals, conversando sobre as atividades sociais em Berlim.

Comentei que deixara de freqüentar o Lowendorff Club porque a atração

principal, Manfred Müller, não estava mais se apresentando lá. Leni

balançou a cabeça e disse: "Já sei. Müller foi trabalhar para Unser

Führer." Fiquei atônita. "Foi trabalhar para Hitler?" Leni explicou: "Hitler

mandou que trouxessem Müller à sua presença, a fim de verificar se a

semelhança era verdadeira. E constatou que Müller era mesmo seu

doppelgànger. E por isso tirou Müller do Lowendorff. Contratou-o para

trabalhar como seu sósia."

— Tem certeza disso? — indagou Tovah. Anneliese apertou a

campainha no painel do controle.

— Vai ver pessoalmente.

A sala de projeção escureceu.

— O copião do nosso Olympia tinha 1.300.000 pés. Vou lhe

mostrar apenas os dois primeiros rolos, a cerimônia de abertura. Ignore

as festividades, as 110 mil pessoas aclamando as dez mil mulheres que

se apresentavam no campo, Richard Strauss conduzindo a orquestra

que tocava Deutschland über alies. Concentre-se no próprio Hitler, na

tribuna de honra, observando a entrada dos competidores dos diversos

países.

Tovah ficou olhando para a tela, hipnotizada.

— Aí está, Hitler assistindo à entrada da delegação austríaca, que lhe deu a saudação nazista de Sieg Heil. E depois vieram os

franceses, fazendo quase a mesma coisa. — Anneliese continuou a fazer

os comentários, enquanto era projetado o filme sem trilha sonora. —

Espere pelos americanos, que são os últimos. Eles não farão a saudação

nazista nem baixarão a bandeira americana para Hitler. Verá Hitler

escondendo o seu ressentimento, mas também notará o desprazer dos

espectadores. Agora. Fique de olho em Hitler. Veja se é Hitler ou seu

sósia. Posso lhe dar a resposta: é mesmo Hitler no dia da abertura. Ele

apareceu pessoalmente. Porque achou que podia ser um grande golpe

promocional. Foi a única ocasião em que Hitler apareceu nos Jogos

Olímpicos. Mas vai vê-lo outras quatro vezes.

Enquanto o filme tremia na tela, Tovah concentrou-se no que

via. Anneliese recomeçou os comentários:

— Este é o segundo dia dos Jogos Olímpicos de Berlim, mas o

primeiro das competições propriamente ditas. Aí está Hitler de novo. Ele

dá os parabéns a Hans Wöllke, o lançador de peso alemão e o primeiro

a ganhar uma medalha de ouro. Aí está Hitler dando os parabéns a três

atletas da Finlândia que ganharam todas as medalhas na prova de

corrida de dez mil metros. E aí ele aparece mais uma vez,

cumprimentando as nossas atletas que ganharam as medalhas de ouro

e prata no arremesso de dardos para mulheres. Um Adolf Hitler muito

simpático.

Anneliese fez uma pausa dramática e depois acrescentou, com a

maior ênfase:

— Só que o Führer que estava cumprimentando os vencedores

no segundo dia não era Hitler. Era seu sósia, Manfred Müller.

— Como pode saber?

— Tenho certeza. E se tivesse alguma dúvida, bastava estudar

as orelhas do verdadeiro Hitler e do falso. As configurações variam,

embora ligeiramente.

Mais tarde, depois que a projeção terminou e as luzes foram

acesas, Anneliese explicou:

— Hitler estava orgulhoso por promover os Jogos Olímpicos, mas não nutria qualquer interesse pelos esportes. Tinha muitas outras

coisas em que pensar. Por isso, depois de comparecer à cerimônia de

abertura, ele não tornou a aparecer. Mandou que Manfred Müller se

apresentasse em seu lugar. E o desempenho de Müller foi tão perfeito

que ninguém jamais percebeu a diferença. Mas não me entenda mal.

Quando se tratava de um acontecimento político importante, como o

gigantesco comício em Nuremberg que filmamos em 1934 e exibimos

como Triumph des Willens, além de outras reuniões políticas, depois da

contratação de Müller, Hitler sempre aparecia pessoalmente. Mas

quando era convidado a comparecer a alguma cerimônia não-política de

importância menor, ele muitas vezes enviava Manfred Müller em seu

lugar.

— É muito difícil de acreditar — comentou Tovah.

— Mas é verdade. E vou lhe dizer uma coisa que é ainda mais

difícil de acreditar. Um atleta americano chamado Carson Thompson

publicou recentemente um livro de memórias em que alega que Eva

Braun visitou a Vila Olímpica em Berlim para se encontrar com os

jogadores de beisebol americanos.

— Como isso poderia ter acontecido? Sempre pensei que Hitler

mantinha Eva Braun segregada.

— Era isso mesmo que acontecia na maior parte do tempo. Mas

Eva adorava tudo o que era americano. Deve ter assistido a E o Vento

Levou... pelo menos meia dúzia de vezes. Adorava também tudo o que

sabia sobre os esportes americanos, especialmente o beisebol. Esperava

fazer alguns comentários do filme olímpico de Leni Riefenstahl e para

isso queria saber de mais detalhes sobre o beisebol. Promoveu um

encontro com a equipe olímpica americana de beisebol, que se

encontrava em Berlim para uma partida de exibição. No último

momento, porém, Hitler não lhe permitiu comparecer pessoalmente.

Mas o encontro já estava marcado e Hitler resolveu enviar em seu lugar

para a reunião com os americanos outra pessoa, Hannah Wald, sósia de

Eva. Hannah era uma atriz jovem e secundária que posava como Eva

Braun.

— E o que aconteceu com Hannah Wald?

— Eu bem que gostaria de saber, mas não consegui encontrar

qualquer vestígio seu depois da década de 1930. Ela evaporou,

desapareceu por completo.

— E o que aconteceu afinal com Manfred Müller? Onde ele foi

parar?

Anneliese fez um gesto desolado.

— Confesso que também não consegui descobrir nada. Sei que

Hitler continuou a usá-lo pelo menos até 1942. Depois disso,

especialmente com a guerra começando a correr mal, Hitler vivia muito

ocupado com seus generais para receber e conversar com Leni ou

comigo.

— Haveria alguém que pudesse saber se Manfred Mülier ainda

está vivo?

— Ele tinha família... ao que eu saiba tinha um filho. Lembro

como descobri. Foi há poucos anos, quando li uma reportagem sobre os

filhos dos grandes artistas alemães, E, para minha surpresa, havia uma

breve referência a Manfred Wüller. Com um comentário de seu filho,

Josef Mülier, que trabalhava como controlador de tráfego aéreo para a

Lufthansa. Josef dizia que gostaria de ter conhecido o pai no auge da

carreira. O que me deu uma idéia sentimental. Fiz uma cópia de Mülier

representando Hitler em Olympia e mandei para Josef Mülier, com um

bilhete: "Se quer saber como seu pai parecia no auge da carreira, aí está

ele." Josef ficou emocionado ao receber o filme e me mandou um bilhete

de agradecimento, em papel pessoal timbrado. Terei o maior prazer em

encontrá-lo, entrar em contato com ele e pedir que se encontre com

você no Bristol Kempinski.

— Não tem idéia de como eu ficaria agradecida se me fizesse

esse favor — disse Tovah.

Depois, quando já estavam prestes a se despedirem, na porta do

apartamento de cobertura de Anneliese Raab, Tovah se demorou por

mais algum tempo, a fim de falar uma coisa que lhe ocorrera. Era

arriscado, mas decidiu falar assim mesmo:

— Só mais uma coisa, Fräulein Raab... algo que fiquei

imaginando enquanto conversávamos.

— O que é?

— Se Hitler tinha um sósia, não poderia ter sido o sósia que

morreu no Führerbunker e foi cremado... o sósia, e não o próprio Hitler?

Anneliese ficou absolutamente imóvel por um momento, antes

de murmurar:

— Que idéia espantosa...

— Mas possível.

— Improvável. — Dando de ombros, Anneliese acrescentou: —

Mas tudo é possível, é claro. Só tem uma coisa. Se Hitler não morreu no

bunker... então o que aconteceu com ele?