O Sétimo Segredo

Irving Wallace · Capítulo 4 de 10 · parte 2/3

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O Sétimo Segredo

Capítulo V

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Publicaram até meu nome e o que estou querendo fazer —

murmurou ela, levantando os olhos. — Como conseguiram essa

fotografia, Rex?

— Não sei. Parece evidente que foi tirada de uma plataforma de

observação ao lado do muro. Talvez a imprensa tenha alguém ali em

vigia permanente para registrar qualquer coisa que aconteça.

Emily baixou o jornal.

— É uma coisa horrível, mas não vou me preocupar. Tenho

muito o que fazer. Continuarei na investigação, depois voltarei para

casa e terminarei o livro.

— Uma atitude admirável, só que acho que deve ficar prevenida.

Vamos enfrentar a situação, Emily. Não quero assustá-la, mas você

precisa ser realista. Esse tipo de exposição pode pô-la em perigo. Talvez

incite fanáticos neonazistas que podem querer detê-la... cuidar para que

sofra um acidente... como aconteceu com seu pai.

Emily endireitou os ombros.

— Tenho certeza de que não vai acontecer nada. Afinal, meu pai

pode ter morrido num acidente verdadeiro. Não posso acreditar que

ainda existam tantos nazistas, depois de quase meio século.

— Não mesmo? — disse Foster. — Então por que está tentando

escavar o Führerbunker? Para provar que todos morreram como a

história nos conta? Ou para descobrir se alguns ainda estão vivos?

— É diferente — insistiu ela, obstinada. — É simplesmente uma

pesquisa histórica, uma verificação do passado. E, para ser franca, não

creio que resulte algum fato novo da escavação.

Ela levantou-se, acrescentando:

— Acho que nós dois devemos continuar em nossos trabalhos.

E a primeira coisa que vou fazer será examinar as fichas de arquitetura

e descobrir todas as informações possíveis sobre Rudi Zeidler.

Foster também se levantou.

— Se você insiste, está certo. Mas não há pressa em relação a

Zeidler.

— Sei que você não vai querer ficar aqui para sempre. Terei

alguma coisa sobre Zeidler antes do jantar. Se quiser, pode dar um pulo

à minha suíte para tomar um drinque, antes de eu comer alguma coisa.

Até lá já deverei ter o que você quer.

— Tem algum compromisso para o jantar?

— Não. Ia pedir um sanduíche.

— Importa-se de ter companhia? — Ele a conduzia para o

elevador. — Eu gostaria muito de jantar com você. Não apenas esta

noite. Em qualquer noite. Sempre que estiver disponível.

No elevador, Emily apertou o botão e fitou-o.

— Um convite atraente. O que há por trás? Está tentando me

proteger?

— Este pode ser um motivo. Mas a verdadeira razão é que...

quero ficar junto de você.

Emily relaxou no mesmo instante e sorriu.

— Assim é melhor. Venha às oito horas.

Faltavam quinze minutos para oito horas e Foster, em seu

quarto, sentia-se cada vez mais inquieto.

Emily Ashcroft ocupava plenamente os seus pensamentos. O

fato de que ela podia correr perigo levava-o a compreender mais

intensamente o quanto se importava com ela. Na verdade, apesar de

sua cautela em relação a vínculos emocionais, Foster não podia deixar

de admitir para si mesmo que sentia algo mais do que mera

preocupação. Jamais experimentara aquele sentimento em relação a

qualquer outra mulher, querendo a sua companhia a cada instante,

querendo que lhe pertencesse.

Terminou de ajeitar a gravata e pôs o paletó. O relógio no

consolo indicava que faltavam agora quatorze minutos para as oito.

Resolveu chegar mais cedo ao encontro. Se Emily ainda não estivesse

pronta, ele tomaria um drinque sozinho, enquanto ela acabava de se

vestir. Pelo menos estaria perto dela.

Deixando seu quarto, ele esperou pelo elevador. Quando chegou,

apertou o botão para o segundo andar. Assim que as portas do elevador

se abriram, ele verificou que a suíte 229 ficava no corredor em frente.

Ao sair do elevador, notou um garçom, ainda jovem e corpulento,

carregando uma bandeja com drinques, surgir de outro corredor,

encaminhar-se até a porta de Emily e, sem bater, usar uma chave

mestra para entrar.

O primeiro pensamento de Foster foi o de que Emily se lembrara

de pedir coquetéis para tomarem na suíte, antes do jantar, e que o

garçom os estava entregando. Satisfeito, avançou pelo corredor,

esperando ver o garçom sair a qualquer momento. Mas o garçom não

saiu. Foster percebeu que a porta da suíte estava entreaberta e resolveu

entrar sem bater.

E ficou espantado ao descobrir que a sala se achava vazia. O

garçom não estava à vista, embora tivesse deixado a bandeja com as

bebidas na mesa. Curioso, Foster deu uma olhada no quarto, pensando

em ver o garçom à espera, enquanto Emily assinava a nota. Mas

também não havia ninguém à vista no quarto. Era desconcertante.

Hesitante, Foster avançou pelo quarto, encaminhando-se para o

banheiro, tencionando chamar Emily.

E foi então que, para sua surpresa, descobriu que a porta do

banheiro se encontrava escancarada. Adiantou-se mais depressa,

perguntando-se o que estaria acontecendo. Descobriu no instante

seguinte, e o choque deixou-o paralisado junto à porta aberta.

Pois o banheiro não estava vazio.

Podia-se ouvir o barulho de água correndo, Emily obviamente

ainda estava debaixo do chuveiro... e do lado de fora da porta de vidro

do boxe, de costas para Foster, o corpulento garçom estava

completamente imóvel.

Por um momento, Foster pensou que se tratava de um voyeur,

talvez alguém disposto a tentar um estupro. Foi nesse instante que

Emily fechou o chuveiro... e o garçom tirou uma faca debaixo do paletó,

abrindo bruscamente a porta do boxe.

Foster pôde ouvir o grito abafado de incredulidade de Emily. O

garçom, a faca levantada, estava prestes a entrar no boxe.

E nesse segundo Foster pôde sentir todos os seus instintos de

ataque do Vietnã explodirem em seu íntimo, levando-o a se projetar

para a frente com um grito de raiva.

Aturdido, o garçom parou e virou-se, a faca ainda levantada,

tentando entender o que estava acontecendo. Foster lançou-se em cima

dele como um louco, agarrando e torcendo o pulso levantado do garçom,

até que a faca caiu no chão. Num rápido movimento de judô, Foster

agachou-se, puxando o garçom e jogando-o pelo ar, por cima de sua

cabeça. O homem foi se esborrachar no chão ladrilhado do banheiro,

por trás dele.

Prestes a se virar e agarrar o homem de novo, Foster olhou por

um instante para Emily no boxe. Ela estava nua, molhada, encostada

num dos lados do boxe, olhos fechados, sufocada pelo medo, tentando

manter o equilíbrio.

Vendo que ela estava ilesa, Foster virou-se para enfrentar o

atacante. Mas o corpulento garçom conseguira se levantar,

cambaleando, e correu para o quarto, sem olhar para trás. A respiração

ofegante, Foster foi em seu encalço. Mas o garçom já desaparecera

quando ele chegou à porta da sala. Foster ainda correu até a porta

aberta da suíte e olhou pelo corredor. Avistou o garçom, em disparada,

no instante em que desaparecia numa curva.

Ele queria perseguir o homem, mas sabia que o desgraçado

planejara meticulosamente a fuga. Não conseguiria apanhá-lo. Pensou

por um momento se deveria ligar para o saguão, mas concluiu que a

interceptação também seria impossível. O assassino encontraria outros

meios de entrar e sair do hotel.

E tudo com que Foster se importava realmente naquele

momento era Emily e sua segurança.

Voltou correndo ao banheiro para ajudá-la. Ela ainda estava no

boxe. Escorregara pela parede e estava encolhida no chão, sob o

chuveiro a pingar, em estado de choque.

Foster entrou no boxe. Ajoelhando-se, estendeu as mãos para

Emily, tentando segurar seu corpo molhado e escorregadio. Quando

seus braços passaram por debaixo dela, tentando segurá-la firme, Emily

compreendeu que era Foster quem estava ali e que se achava segura

agora, e encostou a cabeça em seu ombro com um gemido de gratidão.

Com alguma dificuldade, Foster levantou-a do chão ladrilhado e

saiu do boxe, enquanto ela se enroscava contra ele. Foster pegou um

dos roupões felpudos do hotel e cobriu-a. Com extremo cuidado, levou-a

pelo banheiro até o quarto.

— Como você está? — ele sussurrou, ansioso. — Como você

está?

— Graças a Deus que você apareceu!

— Está tudo bem agora — murmurou Foster, ainda segurando-

a e tentando ao mesmo tempo, meio desajeitado, puxar a colcha e o

lençol.

Conseguiu finalmente e ajeitou-a na cama, puxando as cobertas

por cima de seu corpo. Emily começou a recuperar o controle, piscando

para ele várias vezes.

— O que aconteceu, Rex? Quem era aquele homem?

— Era um garçom que trazia o pedido de bebida ou pelo menos

foi o que pensei quando o segui até a suíte.

— Mas não pedi nada! — Ela sentou na cama, segurando as

cobertas sobre os seios. — Já havia drinques para nós aqui. Não deveria

vir garçom algum.

— E ele não era mesmo um garçom. Veio aqui para matá-la.

Fiquei transtornado quando o vi no banheiro. — Fez uma pausa,

fitando-a nos olhos. — Você está bem?

— Estou viva... e acho que isso é estar bem. Quem poderia ser,

Rex?

Ele sorriu.

— Ao que tudo indica um Leitor Constante, que viu uma

fotografia no jornal desta manhã, alguém que não gostou de saber que

você está querendo bisbilhotar o passado nazista.

Ela sacudiu a cabeça, os cabelos molhados e emaranhados, uma

expressão de incredulidade.

— Mas assassinato...

— Conhece uma maneira melhor de desencorajar as pessoas

intrometidas? — A expressão de Foster se tornou ainda mais

preocupada. — Como se sente, Emily?

— Ainda um pouco assustada, mas me recuperando. Estarei

bem daqui a pouco. Mas, infelizmente, acho que não terei condições

para jantar. Perdi o apetite. Quer saber de uma coisa? Tudo o que

preciso agora é de companhia, se você puder agüentar um estômago

vazio. Companhia e um drinque. Talvez um scotch. O que me diz?

— Muito bem, Emily, companhia e um bom drinque... e que se

dane o jantar. Este lugar é aconchegante. Acho que devemos ambos

celebrar a sobrevivência e a união, tomando um pequeno porre. Vou

servir dois scotches, para começar. — Foster fez uma pausa, antes de

passar para a sala. — Eu tencionava lhe dizer uma coisa esta noite,

Emily. No primeiro momento em que nos encontrássemos.

— O que era?

— Que acho que a amo, só isso. E agora vamos beber a essa

descoberta.

 

Era quase meia-noite. No quarto da suíte de Emily eles estavam

bebendo e conversando há mais de duas horas, quase três. Emily

conseguira pôr o roupão sem cinto e empurrara as cobertas para o lado.

Ainda estava sentada na cama, o roupão mal escondendo os seios.

Foster não demorara a se transferir de uma cadeira para sentar na

beira da cama. Ela já tomara três doses de scotch e ele terminava a

quarta.

A conversa se tornara mais íntima durante a última hora.

Sonolenta, um pouco tonta, Emily falara de seu breve casamento, o

equívoco juvenil. E sentindo-se segura com Foster, relatara alguns

detalhes da humilhante ligação com Jeremy Robinson. Ele, por sua vez,

falara de seus encontros com várias mulheres e a insatisfação com todas. E, finalmente, pela primeira vez desde então, Foster discorrera

voluntariamente sobre o fracasso que fora o seu casamento com Valerie

Granich. Emily escutara com uma expressão de compreensão.

— Então somos ambos baixas — murmurara ela. — Baixas... do

quê? Da guerra entre os sexos?

Ele sorrira.

— Eu exprimiria de uma maneira mais afirmativa.

Sobreviventes do mau julgamento que aprenderam o que querem.

Pensando a respeito, Emily especulara em voz alta:

— O que queremos? O que você quer de uma mulher, Rex?

Hesitante, ele tentara explicar. Depois, Emily passara a dizer

o que esperava de um homem. As palavras intimidade, empatia e

ternura foram constantemente repetidas.

Agora, os dois estavam em silêncio, além do reino das palavras.

Foster sentia-se inebriado, tremendo interiormente de desejo,

excitado pelo perfume natural dos seios e da pele de Emily, mas incapaz

de efetuar a transição da intimidade verbal para a física. Resolveu não

pressionar, deixar que o relacionamento amadurecesse, esperar por

outra ocasião. E começou a se levantar da cama,

— Acho que é melhor eu ir agora. Emily fitou-o nos olhos,

espantada.

— Por quê?

Confuso, ele murmurou:

— Para deixar que você descanse um pouco.

Os olhos de Emily continuaram fixos nos dele, ela parecia estar

tomando alguma decisão. Pôs o copo na mesinha-de-cabeceira, com um

gesto determinado.

— Pensei que você havia dito, no início da noite, que me amava.

Disse mesmo?

— Disse.

— E disse que eu não deveria mais ficar sozinha. Espero que

tenha falado sério. Não quero ficar sozinha, Rex. Quero ficar com você.

— Ela afastou o roupão que lhe cobria parcialmente os seios. — Já me viu nua...

— Não realmente... — Foster tinha dificuldade para falar,

contemplando os seios pequenos, firmes, redondos, os círculos marrons

acentuando os mamilos endurecidos e pontudos. — Não tinha visto

direito...

Ela empurrou o roupão todo para o lado.

— Pode ver agora. E acho que o inverso é justo. Também quero

vê-lo nu. Pelo amor de Deus, Rex, tire logo as roupas... isto é, se você

quiser.

— Quero e muito — murmurou ele, também largando seu copo.

— Mas você tem certeza?

— Absoluta. O problema é só um: você também tem?

Ele nunca se despira tão depressa, jogando as roupas para o

lado, até ficar inteiramente nu.

Os olhos de Emily não se desviaram dele por um momento

sequer, e os dois sabiam que ele estava de fato querendo. Ela estendeu

a mão para acariciar a dureza de sua ereção, murmurando:

— Que lindo...

Foster sentiu que a cabeça se dissolveria e o corpo também se

não a possuísse logo.

Estendeu-se na cama ao lado de Emily, que continuava a

acariciar o pênis com os dedos macios, contemplando-o com um meio

sorriso.

— Gosto do que vejo — disse ela, suavemente. — E o que vejo

parece muito sério.

— É tão sério quanto pode ser, e quer companhia.

Ela soltou-o, ainda com o meio sorriso, recostou-se no

travesseiro, sussurrando:

— Pois está convidado.

Ficando de joelhos, ele pôde finalmente admirar toda a nudez de

Emily. Por baixo dos seios leitosos, de bicos marrons, a barriga era lisa,

as costelas delineadas, o umbigo mínimo, os pêlos púbicos de um

castanho-avermelhado, um botão maravilhoso que revelava o clitóris e as dobras estreitas e rosadas da vulva.

Emily abriu as pernas e ele se inclinou pelo meio, a fim de beijar

o clitóris com a ponta da língua.

— Oh, querido... — gemeu ela.

E depois Foster estava por cima dela, entre as coxas, o pênis

penetrando-a, experimentando a sensação fantástica da umidade a se

entreabrir, o aconchego e calor da vulva, numa união profunda.

— Oh, Deus... — repetiu Emily, muitas vezes. Ele tentou

encontrar a voz e conseguiu balbuciar:

— Nunca... nunca... senti nada assim, em toda a minha vida.

Eu a amo, Emily.

E depois ele estava em movimento dentro dela, arremetidas

profundas e suaves, acelerando pouco a pouco, mais firmes,

incessantes.

Podia contemplar o rosto deslumbrante de Emily, os olhos

fechados, a cabeça se deslocando de um lado para outro do travesseiro,

os lábios murmurando alguma coisa que ele não podia ouvir. Podia

contemplar a subida e descida dos seios, sentir os movimentos

circulares de suas nádegas. Ela erguia os quadris cada vez mais alto,

erguia as coxas trêmulas, enquanto ele penetrava ainda mais fundo,

infatigável. As mãos de Emily procuraram e encontraram seus

testículos, apertando-os. Ele suspirou e se abateu plenamente sobre

ela, sentindo o ceder dos seios, procurando e encontrando seus lábios

polpudos, ouvindo seu coração e o dela baterem em uníssono.

A umidade de Emily engolfou-o, mas ele não diminuiu o ritmo,

continuou a arremeter, puxar, arremeter.

Abruptamente, ela arqueou o tronco, as nádegas levantando, as

coxas se comprimindo em torno de Foster numa tenaz de carne, numa

prolongada convulsão.

— Oh, querido... — balbuciou ela.

Mas ele continuou, até que ela teve outro orgasmo que a sacudiu

toda. Um momento depois ele também gozava.

E ficaram imóveis, nos braços um do outro, pelo que pareceram minutos incontáveis. Depois de algum tempo, Foster percebeu que

Emily estava de olhos fechados, dormindo, e ouviu a sua respiração

relaxada.

Gentilmente, saiu de cima dela, retirando o pênis flácido e

saciado.

Sentou na cama, as pernas cruzadas, contemplando-a no sono.

Jamais se sentira tão contente, tão satisfeito, tão em paz. Observando-a

com amor, não pôde mais se lembrar direito como era aquela mulher ao

se encontrarem pela primeira vez. Recordava-a vagamente como uma

pessoa muito controlada, segura, confiante, intimidativa em sua

erudição e independência, desejável, mas aparentemente inatingível.

E agora ela se despojara totalmente para ele, entregara sua

paixão à dele, fundira-se com ele, tornando-se uma parte dele, assim

como ele se tornara uma parte dela.

O amor que sentia por ela era quase insuportável. E também a

sua felicidade.

Puxando as cobertas por cima de Emily, ele compreendeu mais

do que nunca como ela lhe era preciosa. E sentiu um sobressalto ao

recordar o que acontecera poucas horas antes. Alguém tentara matá-la.

Alguém poderia tentar outra vez. Ele não devia permiti-lo. Não podia

perdê-la.

Mas sabia que ela só estaria sã e salva se abandonasse a busca

pela verdade de Hitler e ignorasse o enigma da morte de seu pai.

Foster sabia, no entanto, com certeza absoluta, que Emily não

abandonaria qualquer das buscas, por mais que o amasse e quisesse a

sua companhia.

Estendendo-se ao lado dela, sob as cobertas, ele sentiu-a se

remexer um pouco, depois estender um braço sobre seu peito.

Contemplou o rosto adorável em repouso, estendeu a mão para apagar

o abajur, tentou pensar no que poderia fazer para protegê-la, garantir o

futuro comum. Na escuridão, o problema parecia insolúvel. E logo

mergulhou no sono.

VI

 

Quando acordou no meio da manhã e focalizou os olhos no teto,

Foster compreendeu que não estava em seu quarto e por um instante

não pôde determinar onde dormira. Mas lembrou-se prontamente e

estendeu a mão à procura de Emily na outra metade da cama. Nada

encontrou. Virando a cabeça no travesseiro, descobriu que o lugar

estava vazio. E sentou-se na cama bruscamente.

Ela estava de pé junto à cômoda, fechando uma pasta parda.

Tinha os cabelos soltos, despenteados, usava o roupão que não lhe

cobria inteiramente os seios, as pernas e os pés nus.

Começou a sentir um intumescimento entre as pernas.

— O que está fazendo, Emily? Ela virou-se, sorrindo.

— Encontrei o endereço e o telefone de Rudi Zeidler, que não

consta da lista. Não é isso o que você veio procurar aqui?

Rex também sorriu.

— Quem é Rudi Zeidler?

— Quer dizer que já encontrou o que procurava, hem? Mas não

acha que agora é melhor se levantar e procurar as plantas

desaparecidas?

— Estou apaixonado por você, Emily. Jamais conheci outra

pessoa como você. E nunca mais quero conhecer outra mulher.

O rosto de Emily estava compenetrado.

— Fala sério, Rex?

— Quero estar com você em cada segundo de minha vida, daqui

por diante. — O desejo que sentia por ela o consumia por completo. —

Quero você agora, Emily.

— Agora?

— Neste segundo — insistiu ele, ansioso, abrindo espaço para

ela na cama.

— Por que não?

Largando a pasta, ela abriu o roupão e deixou-o cair pelas

costas.

Foi postar-se nua ao lado de Foster, os braços inertes nos lados

do corpo, mas ele podia ver a subida e a descida dos seios, em ritmo

cada vez mais acelerado.

Entre as suas pernas, Foster sentiu a rigidez aumentar.

Jogou as cobertas para o lado e recostou-se, estendendo os

braços para recebê-la, a ereção apontando para ela.

Com um grito de prazer, Emily lançou-se na cama, imobilizando

os seus ombros, montando-o. Graciosamente, desceu por cima dele, até

que a ponta da ereção encostou na vagina. Ela ajustou-se para que a

abertura recebesse a dureza da ereção. E depois foi baixando, a vulva se

enchendo na penetração.

E agora ela subia e descia, balançava, enquanto os dois se

enlaçavam, se apertavam.

Depois de muitos minutos, gradativamente, rolaram de lado, e

Foster foi assumindo o papel dominante.

Não demorou muito para ficar por cima, o ritmo do intercurso se

acelerando.

Pelo menos meia hora transcorreu antes que ele se soltasse,

enchendo-a com seu orgasmo. Emily gozou quando ele terminava,

freneticamente, tremendo toda. Depois de um intervalo, Foster saiu de

cima, constatou que os olhos de Emily continuavam fechados e os

quadris se mexiam, por isso inclinou-se e começou a acariciar-lhe o

clitóris. Ela tornou a gozar rapidamente. E depois pela terceira e quarta

vezes.

Finalmente acabaram e ele abraçou-a, Emily comprimiu-se

contra o seu corpo, encostando a cabeça no peito cabeludo.

Ao se desvencilhar, depois de um longo tempo, Emily passou a

mão por seus cabelos compridos e soergueu-se, apoiada num cotovelo,

estudando-o.

— Poderíamos continuar assim o dia inteiro — murmurou ela.

— E também a noite inteira.

— Mas um de nós precisa ser prático, Rex. Como o homem da

família, é melhor você começar a trabalhar. Trate de sair agora para

procurar Zeidler.

Ele sentou-se na cama.

— E o que você vai fazer?

— Primeiro, tomarei um lauto café da manhã com o homem que

amo. Em seguida vou despachá-lo ao encontro de Herr Zeidler.

— E depois que eu sair?

— Vou pegar sua chave e irei a seu quarto. Arrumarei suas

coisas e trarei para cá. Nós dois podemos ficar na mesma suíte, pagar

uma só. Nunca é cedo demais para economizar. Isto é, se você

concordar.

— Insisto que faça isso.

— E depois que todas as suas coisas estiverem aqui,

recomeçarei minha busca a Herr Hitler.

— Mas tome cuidado.

— Muito cuidado. Foster saiu da cama.

— Vou tomar um banho de chuveiro e me vestir. E depois de

comermos, antes de tentar falar com Zeidler, informarei à gerência

sobre o homem com a faca. Não quero correr mais riscos com você, meu

amor.

Emily sorriu-lhe, ele se inclinou e beijou-a, e descobriu que era

mais difícil do que nunca parar.

Em seu quarto simples no quarto andar, Foster discou o número

que Emily lhe dera, torcendo para que Rudi Zeidler estivesse em casa. A

voz do homem que atendeu parecia jovem e exuberante; Foster duvidou

que fosse Zeidler, já que por seus cálculos o arquiteto associado de

Speer devia estar agora com 65 anos. A voz confirmou que era mesmo

Rudi Zeidler e indagou, em alemão:

— Quem está falando?

— Meu nome é Rex Foster e venho tentando localizá-lo há

algum tempo — respondeu Foster, também em alemão.

— Seu sotaque é americano.

— Porque sou um arquiteto de Los Angeles.

— Isso é ótimo — disse Zeidler, passando a falar em inglês.

— Sou fascinado pela arquitetura californiana primitiva,

especialmente o Colonial Espanhol e o estilo Missão. — Tossiu. — Por

que estava tentando me localizar, e quem lhe deu meu telefone?

— Obtive seu telefone com uma amiga inglesa... A Srta.

Ashcroft. Ela e o pai, o Dr. Harrison Ashcroft, estavam trabalhando

numa biografia de Adolf Hitler. O Dr. Ashcroft chegou a entrevistá-lo.

Houve uma pausa.

— Estou lembrando agora. Um homem muito inteligente. Passei

uma tarde inteira com ele. Mas por que está me procurando agora?

— Também quero conversar com o senhor. Estou concluindo

um livro sobre a arquitetura... — Foster hesitou, não querendo usar a

palavra nazista — ... sobre a arquitetura alemã durante o Terceiro

Reich. E sei que desempenhou um papel importante.

— Nem tanto. — Zeidler fez outra pausa, resolveu reconsiderar

a sua avaliação. — Talvez, à sua maneira, tenha sido vital. Foi uma

loucura o que tive de fazer para aquele lunático do Hitler.

— Eu gostaria que me contasse tudo, gostaria de encontrá-lo o

mais depressa possível.

— O mais depressa possível é hoje. Está disponível hoje?

— A qualquer hora que lhe seja mais conveniente. Eles

combinaram um encontro para o almoço.

Satisfeito com a conversa e agradecido a Emily por torná-la

possível, Foster resolveu aproveitar a maior parte da hora seguinte

ajudando Emily a transferir suas coisas para a suíte.

Cantarolando na maior felicidade enquanto pensava em Emily e

reconstituía os momentos de amor, tirou das gavetas da cômoda as

poucas roupas que trouxera e ajeitou-as na cama. Tirou os paletós e

calças dos cabides, colocando na mala, pegou os artigos de toalete e pôs

no estojo de couro; finalmente, arrumou na valise as roupas que

estavam na cama. Tudo estava pronto. Deixaria a bagagem para Emily buscar, levar até a suíte e arrumar lá.

Foster ligou então para a recepção e disse que desejava falar

com o gerente do Kempinski imediatamente. Acrescentou que era para

comunicar um incidente dos mais graves. Como se recusou a dar

qualquer outra explicação, foi aconselhado a descer ao saguão para

falar com o gerente.

Vestindo um casaco esporte axadrezado, Foster pegou o portfólio

de seu livro de arquitetura e encaminhou-se para o elevador.

No saguão, encontrou um homem já à sua espera na frente do

balcão de recepção.

Era baixo e elegante, um suíço, não o gerente, mas sim um

assistente. O gerente passava alguns dias em Baden Baden, e o

assistente o substituía no comando.

— Tem algum problema, senhor?

— Tenho sim.., e acho que você também.

Em poucas palavras, Foster relatou o que acontecera na suíte de

Emily Ashcroft na noite anterior, durante o atentado contra a vida dela.

O assistente da gerência escutou com um crescente horror.

— Um garçom com uma faca? — balbuciou ele. — Tem certeza

de que era um garçom?

Foster descreveu o traje do atacante.

— Poderia reconhecê-lo se o visse outra vez?

— Só o vi de relance, tudo aconteceu muito depressa. Mas creio

que eu poderia reconhecê-lo.

— Muito bem, Sr. Foster. Espere aqui, por favor. Temos

fotografias de todos os nossos empregados, inclusive dos garçons que

atendem os quartos. Vou buscá-las. — Ele já ia se afastar quando

mudou de idéia e acrescentou: — Importa-se de repetir sua história ao

recepcionista-chefe? Talvez ele tenha visto alguém suspeito deixando o

hotel ontem à noite. A que horas aconteceu?

— Por volta das oito horas.

— Conte ao recepcionista, por favor. Estarei de volta dentro de

um minuto.

Foster foi até o balcão, por trás do qual se postava o

recepcionista, uniformizado. Em voz baixa, repetiu-lhe a história do

atentado contra Emily Ashcroft. O rosto avermelhado do homem

empalideceu.

— Uma coisa horrível... — murmurou ele. — O garçom tentou

mesmo apunhalá-la?

— Exatamente.

— Deveria ter-nos comunicado imediatamente.

— Não foi possível. A Srta. Ashcroft estava muito assustada e

achei melhor acalmá-la. — Foster fez uma pausa. — O problema é o

seguinte: ontem à noite, por volta das oito horas, talvez um pouco

depois, viu alguém passar apressadamente pelo saguão e sair? O

homem era relativamente jovem, corpulento, pele morena, musculoso.

O recepcionista levantou as mãos.

— Tantas pessoas entram e saem a essa hora, Sr. Foster... e

estou sempre muito ocupado no início da noite, é difícil notar alguém.

Não me lembro de qualquer pessoa ontem à noite que demonstrasse

uma pressa suspeita, mas...

Foram interrompidos pela volta do assistente da gerência, que

trazia um álbum fotográfico retangular, de capa laranja.

— Nosso registro do pessoal que serve aos quartos — explicou

ele, abrindo o álbum e estendendo para Foster.

Eram fotografias do tamanho de fotos de passaporte mostrando

os diversos garçons, com os nomes e registros profissionais escritos

abaixo.

— Pode verificar — disse o assistente da gerência. — Veja se

consegue encontrar o homem que esteve no banheiro da Srta. Ashcroft.

Meticulosamente, Foster examinou as fotografias, que se

encontravam em bolsas de plástico transparente. Foi virando as

páginas, torcendo para que algum rosto lhe parecesse familiar. Ao final,

porém, sabia que o atacante não fora nenhum daqueles garçons.

— Não é nenhum desses — declarou Foster, devolvendo o

álbum. — É evidente que ele veio de fora, deu um jeito de entrar no hotel e disfarçou-se de garçom.

— Estou tentando pensar nas precauções que podemos adotar

— comentou o preocupado assistente da gerência.

O recepcionista-chefe estava debruçado sobre o balcão, virado

para Foster.

— Posso fazer uma sugestão, senhor? Não creio que seja

exclusivamente um problema do hotel. Talvez precisemos de uma ajuda

superior.

— Como assim?

— Acho que o incidente deve ser comunicado imediatamente ao

chefe de polícia de Berlim Ocidental. E por acaso conheço pessoalmente

o Chefe Woifgang Schmidt. Posso telefonar para ele agora, pedindo que

o receba. É o melhor homem que pode ter do seu lado, um inimigo

implacável do crime, como a televisão americana gosta de dizer. E se o

atentado tem implicações políticas, como insinuou, pode estar certo de

que o Chefe Schmidt vai se interessar ainda mais. Ele devota um ódio

total aos neonazistas. Está sempre tentando eliminar até o último de

nossa sociedade. O Chefe Schmidt foi um herói da resistência alemã

antinazista... o único conspirador importante a sobreviver ao expurgo

de Hitler, depois que fracassou o atentado de Von Stauffenberg.

Telefonarei para ele e avisarei que vai procurá-lo. Por favor, comunique

o incidente sem mais demora.

 

Foster pegou um táxi e seguiu direto para a Polizei Präsdium de

Berlim, na Platz des Luftbrücke, 6. Dispunha de bastante tempo antes

do encontro com Rudi Zeidler, e sua prioridade era a segurança de

Emily. Se a polícia não conseguisse descobrir o atacante, poderia pelo

menos determinar o que motivara o ataque e proporcionar alguma

proteção.

Depois de identificar-se na recepção, Foster entrou no enorme

saguão do prédio de quatro andares e foi conduzido a uma porta em que

estava escrito Der Polizeispräsidente. Introduzido no despretensioso

gabinete do chefe de polícia, Foster descobriu que Wolfgang Schmidt e sua mesa larga eram as duas únicas coisas grandes na sala. Na parede

por trás do chefe, entre duas janelas fechadas, havia uma fotografia

autografada, numa moldura simples, de Konrad Adenauer.

Ao que tudo indicava, Schmidt fora informado pelo recepcionista

do Kempinski sobre o que acontecera na noite anterior e estava pronto

para discutir o problema com Foster.

Fazendo sinal para que Foster se sentasse, ele ajeitou um bloco

de papel amarelo e tirou uma caneta esferográfica de um pote.

— Já tenho uma descrição resumida do que ocorreu ontem à

noite na suíte 229 do Bristol Kempinski — disse Schmidt. — Eram oito

da noite, não?

— Aproximadamente.

— Muito bem — disse o Chefe de Polícia. — É melhor você me

contar com suas próprias palavras o que aconteceu. Procure não omitir

coisa alguma, mesmo que algum detalhe pareça irrelevante.

Enquanto Foster falava, em tom objetivo, sem qualquer inflexão,

Schmidt tomava notas no bloco amarelo. Quando Foster terminou,

Schmidt levantou os olhos e perguntou:

— Tem certeza de que ele brandia uma faca?

— Eu trouxe a faca.

Durante a noite com Emily, Foster fora ao banheiro para pegar a

faca no chão, enrolara-a numa toalha de rosto e a guardara no bolso do

paletó. E naquela manhã transferira a faca para seu porftólio. Abrindo-

o, tirou a arma enrolada e pôs na mesa do chefe de polícia. Schmidt

desenrolou a toalha, pegou a faca cautelosamente, pela ponta da

lâmina, e suspendeu-a.

— Uma faca de caça comum, de um marca popular. Deve haver

milhões assim em circulação. Receio que não descobriremos muita

coisa pela marca. Mas talvez haja impressões digitais.

— Talvez eu as tenha manchado. Peguei a faca com a mão nua.

Não estava pensando direito.

— Nesse caso vamos tirar as suas impressões digitais, para

comparação. E vamos torcer para que tenha deixado pelo menos uma impressão clara do atacante. Entregarei esta arma aos peritos. —

Colocou a faca sobre a toalha e empurrou-a para o lado. — Pode

descrever o atacante?

— Infelizmente, não muito bem. Tudo aconteceu depressa

demais. Ele era mais baixo do que eu. Em torno de l,70m. Joguei-o por

cima do ombro e posso garantir que era pesado e musculoso. Calculo

que pesa pelo menos 80 quilos. Tinha cabelos pretos, olhos escuros,

nariz largo, meio achatado. A pele um tanto trigueira.

Schmidt estava escrevendo.

— Acha que era alemão?

— Não tenho a menor idéia.

Schmidt largou a caneta, recostou-se na cadeira giratória baixa.

— A vítima visada, Emily Ashcroft... pode me falar mais alguma

coisa a seu respeito?

— O que gostaria de saber?

— Ela tem inimigos em Berlim Ocidental, ao que saiba?

— Inimigos? — repetiu Foster. — Ela não conhece ninguém aqui

direito. É uma professora da Inglaterra, absolutamente inofensiva. Não

posso imaginar qualquer motivo para alguém tentar matá-la.

— Quer dizer que ela está aqui como turista?

Foster pensou por um momento na resposta. Se queria ajuda,

era melhor ser sincero.

— Não... ela não veio a Berlim como turista. Ela e o pai estavam

escrevendo em colaboração uma biografia definitiva de Adolf Hitler. O

pai, Dr. Harrison Ashcroft, foi morto num acidente de tráfego em

Berlim...

— Bem que achei que o nome me parecia familiar —

interrompeu Schmidt. — Falei com a filha pelo telefone. Lembro que

investiguei o lamentável acidente.

— ...e depois Emily Ashcroft veio sozinha a Berlim para

investigar algumas informações sobre as últimas horas de Hitler.

— O que mais se poderia descobrir a respeito? — indagou

Schmidt, dando os ombros. — Todos sabem que Hitler se suicidou no bunker em 1945. Os soviéticos provaram isso.

— A Srta. Ashcroft é uma historiadora meticulosa. Quer

verificar todos os detalhes. Há uma possibilidade de que Hitler tenha

sobrevivido e escapado.

Schmidt soltou uma risada rouca.

— Estou a par de todos os boatos absurdos. O último que ouvi

foi o de que Hitler deixou a Alemanha e foi levado de submarino para o

Japão. — Soltou outra risada. — Talvez fosse melhor a Srta. Ashcroft

pesquisar no Japão.

Foster descobriu-se irritado com a zombaria do Chefe de Polícia.

Instintivamente, começou a sentir antipatia pelo enorme policial.

— Alguém tentou matá-la deliberadamente aqui em Berlim —

disse ele, sem sorrir. — Fui informado de que ainda existem na

Alemanha Ocidental grupos de veteranos da SS que idolatram Hitler e

os bons tempos que tinham com ele. Como deve saber, a fotografia da

Srta. Ashcroft apareceu ontem num dos jornais de Berlim. Ela foi vista

na Zona Oriental, visitando o local do bunker. Talvez um desses grupos

de veteranos da SS a tenha notado e resolveu que não queria nenhuma

estrangeira bisbilhotando o fim heróico de Hitler, tomando a decisão de

impedir a pesquisa.

O rosto forte de Schmidt tornou-se sério outra vez.

— É uma possibilidade, embora improvável. Claro que existe

por aqui um punhado de sonhadores nazistas, alguns neonazistas que

relembram a glória do Terceiro Reich. Meu departamento está sempre

alerta para descobri-los. Mas os intransigentes são muito poucos, já

idosos, totalmente ineficazes. Apesar disso, pode haver um lunático

entre eles.

— E talvez esse lunático tenha contratado alguém para liquidar

a Srta. Ashcroft.

Schmidt empertigou-se.

— Também pensando nessa possibilidade, Sr. Foster,

continuaremos a nos infiltrar nos grupos neonazistas nesta área e

descobriremos se estão tramando alguma coisa. Mas, sinceramente, eu não me preocuparia com essa fonte.

— E com que então a Srta. Ashcroft deve se preocupar? —

insistiu Foster. — Afinal, alguém tentou matá-la ontem à noite.

— O que aconteceu parece ter sido um ataque sem propósito de

um sádico transtornado. Mas está certo. Houve um ataque a uma

distinta visitante estrangeira e é nosso dever prender o agressor e levá-

lo à justiça. Assumirei pessoalmente o comando das investigações.

Com algum esforço, o Chefe de Polícia levantou-se.

— Pode assegurar à Srta. Ashcroft que ela receberá uma

proteção especial daqui por diante. Providenciarei imediatamente para

que o hotel adote melhores medidas de segurança durante toda a

permanência da Srta. Ashcroft em Berlim. Prometo que ela não

precisará mais temer a ocorrência de um incidente similar. — Schmidt

levantou-se. — Agora, mandarei alguém encontrá-lo no elevador, a fim

de tirar as suas impressões digitais. E, por favor, informe à Srta.

Ashcroft que estaremos vigilantes.

— Obrigado, Chefe.

Mas ao deixar a Chefatura de Polícia, Foster ainda sentia uma

profunda apreensão.

 

Foster seguiu Rudi Zeidler por sua casa ampla e bem-projetada,

de um só andar, cerca de um quilômetro a oeste da Grunewald.

Zeidler, usando uma camisa esporte branca, calça branca e

tênis, era tão alto quanto Foster, embora mais magro, ossudo, um

homem vigoroso, na casa dos sessenta anos. Seu inglês era excelente, e

ele usou-o para descrever as diversas esculturas e quadros de

expressionistas franceses, enquanto atravessavam sua casa

ultramoderna, repleta de móveis dinamarqueses de teca.

Chegaram a um estúdio arejado nos fundos, inundado pela luz

do sol, que entrava por uma clarabóia. Exceto por uma escrivaninha de

tampo liso e diversas cadeiras tubulares, com encostos entrelaçados, o

estúdio era mobiliado por pranchetas usadas para se desenhar projetos.

Zeidler acenou com o braço pelo estúdio.

— Parte da minha suíte de trabalho. — Ele indicou as

pranchetas. — Ainda cuido de vez em quando de alguns trabalhos de

arquitetura.

Puxou uma cadeira para Foster sentar e foi instalar-se por trás

da escrivaninha de metal. Foster notou que o único equipamento na

mesa era um computador verde.

— Está fazendo um livro sobre a arquitetura alemã — disse

Zeidler. — Quer me falar a respeito?

— Prefiro mostrá-lo. — Foster levantou o portfólio e entregou-o

a Zeidler. — Pode ver que tem o título de Arquitetura do Terceiro Reich

dos Mil Anos. O que foi feito e o que se planejava, mas nunca foi

realizado. Não precisa se dar o trabalho de examinar o livro inteiro.

Quero apenas lhe dar uma idéia do que estou preparando. E também do

que ainda me falta.

Zeidler começara a folhear as páginas de fotografias e desenhos

no portfólio. Sem levantar os olhos, perguntou:

— O que lhe falta?

— Os prédios e projetos com que você contribuiu para Albert

Speer e Hitler, quando era sócio de Speer. Pelo que me disse ao telefone,

deve ter sido uma época de loucura total.

— Exatamente. — Zeidler continuou absorvido no portfólio.

Terminou de folheá-lo, fechou-o e devolveu-o a Foster. — É verdade,

parece que você tem tudo, exceto o que eu fiz.

— Quero que o livro seja completo, Sr. Zeidler. Preciso saber o

que fez.

— Muito pouco. Mas, apesar disso, de alguma importância.

— Pelo que pude descobrir, projetou e construiu sete prédios

para Hitler.

Zeidler balançou a cabeça esquelética em assentimento.

— Precisamente sete.

— Não encontrei fotografias ou mesmo as plantas dessas obras

entre os documentos de Speer.

Zeidler torceu o nariz pontudo.

— Speer não se orgulhava delas. E por isso não guardou cópias.

Não encontraria em parte alguma, porque os projetos eram secretos.

— Secretos? Por quê?

— Porque as estruturas eram os quartéis-generais subterrâneos

de Hitler, espalhados pela Alemanha, onde ele ficava ao viajar pelo país,

durante a guerra.

— E foram mesmo mantidos em segredo? — quis saber Foster.

— Tanto quanto se pode manter segredo de alguma coisa em

matéria de construções — comentou Zeidler. — Afinal, há sempre

muitas pessoas envolvidas em cada construção. Há os operários,

embora na maioria dos casos Hitler tenha destacado trabalhadores-

escravos... judeus, poloneses, tchecos... que foram executados depois de

concluída a obra. Depois que terminávamos, Hitler instalava um general

e vários oficiais da Wehrmacht em cada abrigo subterrâneo. A

existência dessas estruturas só chegou ao conhecimento dos inimigos

do Reich depois da guerra.

— E são as que você projetou e construiu?

— Todas elas — declarou Zeidler, com evidente orgulho.

— Tem fotografias?

— Muito poucas, infelizmente. Enquanto eram construídas e

depois que passaram a ser usadas, eram secretas, não se esqueça.

Quando a guerra estava sendo perdida e a Alemanha invadida, Hitler

ordenou que alguns desses bunkers fossem evacuados e explodidos.

Outros foram descobertos pelos russos, ingleses, americanos e

franceses, e também destruídos. Talvez eu tenha algumas fotografias

das ruínas, mas não mostram a arquitetura original. De qualquer

Continuar: parte 3 de 3