O Sétimo Segredo
Capítulo III
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
"E.B.", obviamente do guarda-roupa de Eva Braun. Desenterraram ainda alguns documentos pertencentes a Josef Goebbels, que também
se suicidou, com a mulher, tendo sido enterrado ali perto.
— Mas os americanos e ingleses só procuraram por um ou dois
dias? Eu diria que foi uma busca um tanto superficial.
— Para dizer a verdade, eles queriam escavar por mais tempo,
mas os russos não deixaram — disse Blaubach, contrafeito. — Os
soviéticos acusaram-nos de se apropriarem de documentos
importantes, que por direito pertenciam à União Soviética. Os russos
suspenderam as escavações e não deram mais qualquer permissão.
— Ahn...
— Mas para que não pense que os russos são completamente
mesquinhos, devo dizer que cerca de um mês depois, creio que em
janeiro de 1946, eles convidaram um grupo de militares franceses
estacionados em Berlim e retomar as escavações no jardim do
Fürerbunker. Os franceses assim o fizeram. Não obtiveram permissão
para descobrir a cova rasa e a cratera de bomba, mas escavaram ao
redor. Não encontraram absolutamente nada que pudesse ser útil.
Outras pessoas efetuaram mais investigações dentro do bunker, antes
que uma parte fosse finalmente explodida e todo o conjunto soterrado.
Blaubach fez uma breve pausa e depois se apressou em
acrescentar:
— Mas não deixe que as minhas palavras a desencorajem,
Emily. Pode descobrir que as autoridades alemãs orientais são mais
indulgentes que os russos. Terá a oportunidade de conferir
pessoalmente. Vou recomendar, através dos canais competentes, que
lhe seja concedida permissão para as escavações.
— Agradeço muito a sua gentileza, Professor Blaubach. — Emily
levantou-se. — Acha que vai demorar muito?
— Creio que não. Pode esperar uma resposta minha dentro de
dois ou três dias, no máximo.
Emily estendeu a mão e Blaubach inclinou-se para beijá-la. Ela
virou-se para sair, mas a voz de Blaubach soou antes que chegasse à
porta:
— Emily...
Ela parou e tornou a se virar, vendo Blaubach se adiantando.
— .. .há só mais uma coisa — continuou ele. — Se tiver algum
momento de folga, eu gostaria que me fizesse um favor.
Surpresa por descobrir que poderia ajudá-lo de alguma forma,
ela se mostrou prontamente receptiva.
— Mas é claro! Qualquer coisa... Blaubach hesitou.
— Como uma autoridade em Hitler, você pode ajudar num
problema que me chegou às mãos.
— Sinto-me lisonjeada, Professor Blaubach, mas tenho certeza
de que os seus conhecimentos sobre Hitler são muito maiores que os
meus.
— Não é verdade, Emily. Sou um estudioso do Terceiro Reich e
da história moderna da Alemanha, o que inclui algum conhecimento do
falecido e não lamentado Führer. Mas estou certo de que você tem mais
conhecimentos do que eu.
— Não estou tão certa assim. De qualquer maneira, se eu puder
lhe ser útil em alguma coisa...
— Não é para mim, e sim para outra pessoa — explicou
Blaubach. — Tenho na sala ao lado, examinando alguns dos meus
arquivos, um cavalheiro da União Soviética. É um eminente estudioso
em seu campo, as artes plásticas. Seu nome é Nicholas Kirvov,
recentemente designado para curador do Hermitage, em Leningrado.
— O que significa que é mesmo um homem eminente —
comentou Emily, impressionada.
— O hobby de Kirvov é colecionar quadros que Hitler pintou
quando jovem. Tenho certeza de que você domina essa fase da vida de
Hitler.
— Bastante.
— Herr Kirvov está planejando montar uma exposição dos
quadros de Hitler no Hermitage, como um espetáculo secundário para
atrair atenção. E há pouco tempo adquiriu mais um quadro a óleo, sem
assinatura. Está convencido de que é de Hitler. Como se trata de uma obra desconhecida, Herr Kirvov quer incluí-la em sua exposição de
Hitler. Mas como a exposição certamente atrairá grande atenção dos
meios de comunicação e do público, Herr Kirvov acha que deve fazer
todo o possível para confirmar a autenticidade de cada obra que será
exposta. Trouxe esse quadro atribuído a Hitler para que eu desse minha
opinião. Analisei-o e, felizmente, graças ao estudo das pinceladas e
outros pequenos detalhes, pude garantir a Herr Kirvov que o óleo é de
fato obra de Adolf Hitler. Mas resta um pequeno problema. E é um
problema que você poderia resolver para ele.
— Não creio, Professor, que eu tenha qualquer conhecimento de
uma obra de arte, de Hitler ou outro pintor, que possa se comparar com
os conhecimentos do próprio Kirvov. Mas... — Deu de ombros. — Quem
sabe? Meu pai e eu fizemos algumas pesquisas sobre a fase artística de
Hitler. — Ela tocou no braço de Blaubach, antes de acrescentar: —
Claro que terei o maior prazer em conhecer o Sr. Kirvov.
O rosto sisudo de Blaubach adquiriu uma expressão de
satisfação. Ele abriu a porta, conduziu Emily para o corredor e depois à
sala adjacente. Havia ali apenas alguns arquivos marrons, ao longo de
uma parede, e uma comprida mesa de reuniões, flanqueada por uma
dúzia de cadeiras. Na outra extremidade da mesa estava sentado um
homem corpulento, de meia-idade, concentrado numa pilha de
fotografias. Quando Blaubach e Emily entraram, ele empurrou
prontamente a cadeira para trás e levantou-se, com expressão de
surpresa.
Blaubach segurava Emily pelo braço e levou-a pela sala,
dizendo:
— Herr Nicholas Kirvov, quero apresentar-lhe Fraulein Emily
Ashcroft, de Oxford, Inglaterra.
Emily adiantou-se e apertou cordialmente a mão estendida de
Kirvov.
— Fraulein Ashcroft é uma eminente historiadora na
Universidade de Oxford — continuou Blaubach. — Sua especialidade,
nos últimos anos, tem sido a vida de Adolf Hitler. Ela está concluindo uma biografia de Hitler e acaba de chegar a Berlim para as pesquisas
finais.
— Eu a conheço de nome — disse Kirvov, cortesmente. — Já o
vi impresso, até mesmo na União Soviética.
— Sente-se, Emily — disse Blaubach, puxando uma cadeira. —
Sente-se também, Herr Kirvov.
Blaubach instalou-se numa cadeira ao lado de Emily e esperou
que Kirvov tornasse a sentar.
— Herr Kirvov, tomei a liberdade de informar a Fraulein
Ashcroft de sua investigação do quadro de Hitler. É sorte nossa que
Fraulein Ashcroft se encontre em Berlim agora.
Emily interveio:
— Se houver alguma coisa que eu possa fazer, Sr. Kirvov, terei o
maior prazer em cooperar.
— É muito gentil, Srta. Ashcroft.
Emily simpatizou imediatamente com Kirvov. Apesar das
características físicas de camponês eslavo — como uma obra de arte, ele
era todo quadrados e cubos, os cabelos castanhos cortados bem rente, o
queixo quadrado, os ombros largos e quadrados —, ela gostou do
homem por causa dos olhos. Muitas vezes julgava as pessoas pelos
olhos. Os de Kirvov eram escuros, sensíveis, quase tristes, e a boca era
de um poeta.
— O Professor Blaubach acaba de me falar sobre o seu quadro
de Hitler — disse ela. — Devo dizer que também me interessa. Como
conseguiu obtê-lo?
A pergunta de Emily animou Kirvov. A ansiedade em debater o
assunto iluminou seu rosto.
— Terei o maior prazer em contar-lhe.
Pôs-se então a falar de sua coleção de quadros de Hitler, a carta
de um comissário de bordo de um navio, Giorgio Ricci, que queria
autenticar um quadro de Hitler que Comprara, a visita de Ricci ao
Hermitage, sua aquisição do óleo de Hitler em troca de um ícone russo.
— E agora quer exibir essa nova aquisição de Hitler numa exposição no Hermitage? — indagou Emily.
— Exatamente. A inclusão seria um motivo de orgulho para
mim. Mas primeiro eu precisava confirmar a autenticidade. Sabia que o
Professor Blaubach era um experto famoso. E vim a Berlim Oriental
com o quadro, as radiografias que tiramos dele, assim como as minhas
outras obras de Hitler, para apresentar a ele.
— Já soube que o Professor Blaubach confirmou a
autenticidade — disse Emily. — Mas ainda há um problema, não é
mesmo?
— Sim. Eu lhe mostrarei qual é esse problema, e talvez então
possa me ajudar.
Enquanto falava, Kirvov foi até a parede, onde o quadro estava
encostado, coberto por um saco de feltro. Tirou-o, revelando a pintura
de um prédio de pedra, grande, antiestético. Suspendeu a pintura na
frente de Emily, dizendo:
— Obviamente, trata-se de um prédio oficial. Não parece uma
residência ou um dos teatros e museus que Hitler tanto gostava de
pintar na juventude. A estrutura sugere um típico prédio do governo.
Não concorda?
Emily acenou com a cabeça.
— Estou propensa a concordar.
— Como se pode autenticar uma obra? — indagou Kirvov, mais
para si mesmo do que para Emily ou Blaubach. — Através de uma
análise científica. Isso já foi feito. Procura-se determinar a sua
proveniência. O que não pudemos fazer. E, finalmente, quando possível
é necessária a identificação do tema da obra. O conhecimento do tema,
sua localização, pode rechaçar o desafio dos críticos céticos.
Kirvov tornou a guardar a pintura no saco de feltro e colocou-o
sobre a mesa.
— É justamente esse o meu problema, Srta. Ashcroft. Não sei o
que é o tema deste quadro, onde fica ou quando a obra foi feita. Posso
situar os temas de todas as obras de arte de Hitler que adquiri
anteriormente. Quase tudo o que ele desenhou ou pintou na juventude foi em sua cidade predileta de Linz, ou em Viena ou em Munique.
Examinei tudo o que Hitler fez nessas cidades. Também examinei
fotografias ou desenhos de prédios antigos nas mesmas cidades. E não
encontrei qualquer sinal desta estrutura. — Os olhos suaves de Kirvov
encontraram-se com os de Emily. — Talvez tenha a informação. Sabe se
Hitler pintou alguma coisa em qualquer outro lugar?
— Pintou... e não pintou. Quando era soldado da infantaria, na
Primeira Guerra Mundial, Hitler fez alguns desenhos na frente
ocidental, principalmente na Bélgica. Mas nenhum desses desenhos
parece com o seu quadro. Eu gostaria de examiná-lo melhor, para as
minhas próprias pesquisas. Tem alguma fotografia dele que possa me
ceder?
— Tenho várias — disse Kirvov timidamente. — Tirei cópias
para distribuir, como os cartazes de Procura-se de criminosos
conhecidos.
Ele meteu a mão no bolso interno do paletó e tirou um envelope
retangular, onde pegou uma fotografia de 12cm x 18cm, estendendo-a
para Emily. Ela examinou a cópia do quadro.
— Parece um daqueles horríveis prédios públicos que os
nazistas construíram em Berlim no início da década de 1930. Mas é
claro que isso seria impossível. Hitler nunca os pintou. Eu diria que
um prédio público em outra grande cidade alemã. Mas deixe-me
pesquisar um pouco. Ligarei para a minha secretária em Oxford e
pedirei que tire uma fotocópia de nosso arquivo sobre a arte de Hi-tler,
assim como dos prédios oficiais nas principais cidades alemãs, durante
o Terceiro Reich. Veremos então se descobrimos alguma coisa. Onde
poderei encontrá-lo, Sr. Kirvov?
— Estou no momento em Berlim Oriental. Mas tenciono ir para
Berlim Ocidental amanhã e lá passar alguns dias. Planejava visitar
alguns prédios públicos. Presumo que está hospedada em Berlim
Ocidental, Srta. Ashcroft?
— Estou no Hotel Kempinski.
— Ficarei no Palace Hotel, não muito longe, onde já estive antes.
Emily levantou-se, guardando a fotografia na bolsa.
— Eu o procurarei no Palace assim que receber o material de
Oxford e o examinar. Vamos torcer para que tenhamos sorte.
Kirvov levantou-se de um pulo.
— Não tenho palavras para expressar meu agradecimento. Ela
sorriu.
— Deixe para agradecer depois que eu puder ajudá-lo de
alguma forma.
O Professor Blaubach foi até a porta e abriu-a. Baixou a voz ao
se despedir de Emily e disse:
— Agradeço a sua atenção. E não esquecerei o seu pedido.
Veremos o que posso fazer.
A tarde estava terminando quando o Mercedes alugado deixou
Emily diante das portas envidraçadas do Kempinski.
Depois de agradecer a Peter Nitz, Emily disse ao motorista
Plamp:
— Se não estiver ocupado, precisarei de novo de seus serviços
dentro de poucos dias.
Plamp levou a mão à pala do seu quepe de motorista.
— Estou pronto para servi-la no momento em que precisar,
Fràulein.
Emily despediu-se de Nitz e entrou apressadamente no hotel,
atravessando o saguão até o balcão da recepção. Estava ansiosa para
pegar a chave e subir para a suíte, a fim de ligar para os escavadores de
Berlim Ocidental que o pai planejara contratar e telefonar para sua
secretária, Pamela Taylor, em Oxford, na tentativa de ajudar Kirvov. O
prédio no quadro a óleo era um daqueles pequenos enigmas que sempre
faziam com que a pesquisa se tornasse mais atraente para ela.
— Suíte 229 — disse ela ao recepcionista.
Ele entregou-lhe a chave e um pedaço de papel, dizendo:
— Há uma pessoa à sua espera, Srta. Ashcroft.
— Uma pessoa? — repetiu Emily, distraída.
Ela leu o bilhete: "Srta. Ashcroft, espero que possa dispensar um momento para me falar. Vim de Los Angeles para encontrá-la. Estou no
Bristol Bar." Estava assinado "Rex Foster", um nome que lhe era
totalmente desconhecido.
Aturdida, Emily virou-se, a fim de atravessar o saguão até o bar
do hotel.
Parando à entrada, olhou em redor, para verificar quem eram os
ocupantes. Não havia qualquer homem sozinho à sua espera. Ali
estavam três pares, em diferentes locais do bar, sentados em cadeiras
de estofamento preto, com copos nas mesas. Havia duas mulheres,
absorvidas numa conversa. Havia também um casal de idosos, que
pareciam casados há muito tempo. E as duas últimas pessoas eram um
homem atraente, na casa dos trinta anos, e uma jovem loura e bonita,
sentados a uma mesinha, perto de um antigo piano de cauda Steinway.
O homem olhou além de sua companheira e percebeu a presença de
Emily. Murmurando algo para a loura, ele se levantou, encaminhando-
se para ela.
Emily ficou olhando enquanto ele se aproximava, em passadas
largas:
Seria aquele o inesperado visitante da Califórnia? Um homem de
aparência muito interessante, pensou ela.
Ele chegou perto, com um sorriso meio torto no rosto magro,
indagando:
— Por acaso é Emily Ashcroft?
— Sou, sim.
Ele apontou para o recado que Emily ainda tinha na mão.
— Se está procurando por Rex Foster, de Los Angeles, acaba de
encontrá-lo. E se a ocasião é inoportuna, podemos marcar outro
encontro. De qualquer forma, espero que não se incomode com a minha
intromissão.
Os olhos fixos nele, Emily resolveu que não se importava
absolutamente. Torcia apenas para que os seus cabelos não estivessem
muito desgrenhados nem a saia amarrotada. Sua relutância automática
original em conhecer um estranho, possivelmente abusado, fora rapidamente dissipada pela personalidade daquele homem. Ela
compreendeu que a atração pelo americano fora quase imediata. E não
era apenas pelos olhos castanhos ansiosos. Ele tinha mais de l,80m,
pairando muito acima dela, cabelos pretos rebeldes, um rosto rude,
covinha no queixo, corpo esguio e atlético. Emily descobriu-se fazendo o
que os homens sempre dizem que fazem com as mulheres de aparência
sensual: despindo-o mentalmente. Fizera-o involuntariamente — nunca
acontecera antes, com Jeremy ou qualquer outro — e ela ficou aturdida
com a sua loucura. A fim de encobrir seus pensamentos e apreensão,
ela se mostrou anormalmente brusca:
— Em que posso servi-lo, Sr. Foster?
— Poderíamos até ter uma conversa aqui mesmo. Mas se está
com pressa, podemos deixar para outro dia, à sua conveniência.
Os sentimentos instintivos de Emily afloraram. Não queria
repeli-lo. Ao contrário, queria a companhia dele, ali e agora, queria
saber mais a seu respeito e do interesse que tinha por ela.
— Eu... eu disponho de algum tempo — murmurou
cautelosamente.
— Isso é ótimo. Não gostaria de sentar e nos acompanhar num
drinque? — Ele indicou sua companheira loura. — Poderei então
explicar tudo.
Emily contemplou a jovem que esperava e por um instante
sentiu um aperto no coração. Ela era muito mais jovem e certamente
mais bonita. Seria a esposa? Amante? A namorada em Berlim?
Passando a mão pelos cabelos castanho-avermelhados, Emily disse,
hesitante:
— Eu estava trabalhando...
Depois, empertigando-se, seguiu-o pela pequena pista de dança
até a mesa. Foster indicou a cadeira vazia ao lado da sua. Antes que
Emily pudesse ocupá-la, ele apresentou-a à loura deslumbrante.
— Srta. Ashcroft... Srta. Tovah Levine, de Israel. Acabamos de
nos conhecer e estávamos ambos à sua espera.
Aliviada, Emily pôde reagir à apresentação com um sorriso. Tornando a sentar, Foster chamou um garçom.
— O que vai querer, Srta. Ashcroft?
Ela queria tomar o que ele estivesse bebendo, a fim de mostrar-
lhe que eram iguais. Mas depois concluiu que deveria demonstrar sua
independência e afirmar-se. Afinal, ele percorrera uma vasta distância
para conhecê-la.
— Uísque e soda — disse ela. — Sem gelo.
Resolveu que era melhor enfrentar Foster logo de uma vez; virou-
se para ele e indagou:
— Veio até aqui só para falar comigo? — Ela compreendeu que
deveria incluir também a loura na conversa. — E devo presumir que é
esse também o seu caso, Srta. Levine?
— Não precisa se preocupar comigo — respondeu Tovah
prontamente. — Posso esperar minha vez. Rex chegou primeiro.
Foster acenou com a cabeça.
— Obrigado, Tovah. — Ele fitou Emily de novo. — É verdade,
Srta. Ashcroft, vim a Berlim basicamente para vê-la.
— Não posso imaginar por quê.
— Vou explicar. Para começar, sou arquiteto.
— Arquiteto?
Emily jamais conhecera pessoalmente um arquiteto. De alguma
forma, desconfiara, pela aparência de Foster, que ele devia ser o filho
indolente de um banqueiro rico. Parecia descontraído e à vontade, um
homem confiante. Não, corrigiu-se ela, não havia nada de indolente.
Não havia o menor sinal de indolência na segurança e vigor de seu
comportamento. Imaginou que, em vez disso, havia uma força contida.
— O que... o que faz como arquiteto? — balbuciou ela
tolamente, porque se sentia desorientada, sem saber o que dizer.
Foster respondeu muito sério:
— Tento fazer coisas adoráveis.
Por um instante, Emily especulou se era uma resposta
intencional de duplo sentido ou um comentário ingênuo. Ela adoraria
saber. O que quer que fosse.
— Prédios?
— Prédios, é claro. Trabalho com afinco, porque gosto da
criatividade. Gosto de ver as coisas crescerem sob os meus dedos.
Seus dedos, Emily notou pela primeira vez, eram delgados e
compridos. Ela imaginou como seria o contato daqueles dedos.
— E isso o tornou um homem bem-sucedido?
— Mais ou menos. Mas até isso não é suficiente. Na América,
não são apenas os professores que se vêem na obrigação de publicar.
Estou fazendo a mesma coisa que, creio, está fazendo, Srta. Ashcroft,
embora não me atreva a comparar a importância do meu projeto com a
do seu. O livro que preparo intitula-se Arquitetura do Reich dos Mil
Anos. Sobre o que Hitler construiu na Alemanha... e o que planejava
construir se ganhasse a guerra. É nisso que os nossos interesses se
encontram: Adolf Hitler.
— Ahn...
— Para ser franco, também vim a Berlim para concluir minha
pesquisa e completar o livro. Infelizmente, terei alguma dificuldade para
consegui-lo sem a sua ajuda.
Emily estava adorando os olhos do americano e se dispunha a
fazer qualquer coisa por ele.
— E como posso ajudá-lo, Sr. Foster?
— Muito bem, vamos lá. Meu livro de fotografias e legendas
ainda tem uma parte incompleta. Há algumas plantas desaparecidas
que eu esperava localizar através da família do principal arquiteto de
Hitler, Albert Speer. Mas fui obrigado a procurar em outros locais pelas
plantas desaparecidas. Estava a par da biografia que seu pai elaborava
e cheguei à conclusão de que ele era o único que poderia me ajudar a
descobrir os colegas ou assistentes de Speer. Reduzi a minha busca das
plantas a um dos dez associados a que Speer poderia tê-las
encaminhado, mas não tinha a menor idéia de onde poderia encontrá-
lo. Achei que seu pai talvez conhecesse o homem. Por isso lhe escrevi,
indagando se poderia ir a Oxford para conversarmos. Ele foi bastante
gentil em marcar um encontro para a próxima semana. Mas... — Foster fez uma pausa. — ...li a notícia do acidente...
Foster fez outra pausa, fitando Emily nos olhos.
— Não tenho palavras para dizer o quanto lamento, Srta.
Ashcroft. Não por mim, é claro. Por você.
— Obrigada. Continue, por favor.
— Há dois dias, lendo a notícia sobre seu pai no jornal, descobri
que vinha colaborando com ele no livro e resolvi procurá-la.
Emily sentiu-se desconcertada por um momento.
— Mas como me descobriu aqui?
— Telefonei para sua casa em Oxford. Planejava voar até
Londres e visitá-la. Sua secretária atendeu, conversamos um pouco e
ela acabou informando que você estava em Berlim Ocidental, hospedada
no Kempinski.
Emily franziu o rosto.
— Fiz Pamela prometer que não contaria a ninguém que eu
estava aqui.
— Eu a persuadi a me dar a informação. Aleguei que já tinha
um encontro marcado com o Dr. Ashcroft e tinha certeza de que a filha
não se importaria de me receber. Sua secretária achou então que não
havia problema em me contar onde você estava. Espero que não se
incomode.
— Deve ter muita experiência em persuadir secretárias, não é
mesmo? — Emily sorriu. — Seja como for, agora está aqui.
— Vim ao Kempinski na esperança de encontrá-la e marcar um
encontro. Mas havia saído. Resolvi esperar. E foi então... — Foster
apontou para Tovah Levine — ...no momento mesmo em que eu
perguntava ao recepcionista por você, que a Srta. Levine se aproximou
do balcão e me ouviu. E ela também viera ao Kempinski à sua procura.
Decidimos então esperar juntos.
Aturdida Emily desviou sua atenção para a bonita loura.
— E por que queria me falar, Srta. Levine?
Tovah Levine, que até aquele momento se limitara a escutar e
beber, largou o copo na mesa.
— Para dizer a verdade, Srta. Ashcroft, sou jornalista.
Recentemente fui enviada a Berlim Ocidental para fazer uma série de
reportagens para o Post de Jerusalém. Quando soube que você viria
para cá, achei que seria um excelente tema. Hitler ainda vende jornal. É
lamentável, mas é a verdade.
Emily piscou os olhos para a jornalista, espantada.
— E como soube que eu estava no Kempinski?
— Muito fácil. Assim que cheguei, fui ao clube dos
correspondentes estrangeiros em Berlim. Há ali um registro da chegada
de todas as celebridades a Berlim. O clube tem contato com todos os
hotéis da cidade... com os porteiros, recepcionistas, assistentes de
gerência. .. que informam os nomes das celebridades estrangeiras que
acabaram de chegar. Resolvi vir até aqui para lhe falar e descobrir se
pode me proporcionar uma boa reportagem.
— Não sou uma celebridade e certamente não posso lhe oferecer
uma boa história — respondeu Emily. — Quero que saiba, Srta.
Levine... e isso também lhe. interessa, Sr. Foster... que eu tencionava
manter minha presença aqui em segredo. Se a notícia se espalhar, de
que estou trabalhando aqui, pode ser perigoso para mim, na pior das
hipóteses... ou para o meu projeto, no mínimo.
— Prometo que não contarei a ninguém — disse Foster,
levantando a mão direita.
— Muito obrigada — murmurou Emily. — E espero poder ajudá-
lo com a informação de que precisa para o seu livro de arquitetura.
Quando poderíamos nos encontrar?
— Esta noite — sugeriu Foster. — Antes de sua chegada, eu
havia convidado Tovah a jantar comigo num restaurante aqui perto.
Teria a maior satisfação se quisesse nos acompanhar.
Emily se regalou em contemplá-lo. Ele era cativante, irresistível
sob todos os aspectos. Claro que ela gostaria de conhecê-lo melhor e o
mais depressa possível. Se Blaubach desse a resposta depressa, ela
ficaria muito ocupada.
— Por que não? Eu ia jantar em meu quarto e a perspectiva que me oferece é bem melhor. Obrigada.
— Maravilhoso! — exclamou Foster, exultante. Emily hesitou,
olhando para a jornalista loura.
— Mas só posso aceitar o convite se a Srta. Levine prometer que
tudo o que conversarmos será estritamente social e que não divulgará
coisa alguma.
— Prometo qualquer coisa — concordou Tovah Levine,
levantando a mão direita, com expressão solene — porque estou
fascinada... e porque estou faminta.
Emily riu.
— As regras do jogo estão definidas. Ótimo. — Consultou seu
relógio de pulso de ouro. — São quase sete horas. Preciso de uma hora
para dar alguns telefonemas, tomar banho e trocar de roupa.
Ela virou-se para Foster com um sorriso total.
— Às oito horas no saguão?
Foster ergueu o corpo esguio.
— Estarei aqui embaixo cinco minutos antes das oito horas,
Srta. Ashcroft, de olho no elevador.
— Emily — disse ela, levantando-se.
— E eu sou Rex — respondeu ele, sorrindo. — Estarei
esperando.
O Berliner Gasthaus ficava na Schlüterstrasse, a cinco
quarteirões do Hotel Kempinski. Os três foram ocupar uma mesa nos
fundos. Foster fizera a reserva naquele restaurante de luxo porque,
apesar de anunciar um espetáculo de cabaré ao estilo dos anos 20,
inclusive com números de travestis, descobrira em sua visita anterior
que se podia comer tranqüilamente na sala dos fundos, longe do show.
Emily observou Foster através das velas tremeluzentes da mesa,
enquanto ele estudava o cardápio e escolhia o jantar para todos. Ela
ouviu-o pedir sopa de tomate, filé, saladas mistas e um vinho tinto.
Bebendo devagar o seu terceiro uísque da noite, ela disse a si mesma
que não tomaria mais nada antes de comer. Queria manter toda a sua
lucidez e descobrir o máximo que pudesse sobre Foster.
Depois do dia movimentado em Berlim Oriental e do encontro,
casual com Foster, ela sentia-se animada, ansiosa. Na suíte, antes do
jantar, estivera ocupada ao telefone. Ligara primeiro para Oxford,
instruindo Pamela Taylor a tirar fotocópias da ficha artística de Hitler
para Nicholas Kirvov e da ficha da arquitetura do Terceiro Reich, para
Kirvov e Rex Foster, tentando enviar tudo para Berlim ainda pelo correio
noturno.
Depois, Emily entrara em contato com os escavadores que o pai
planejara contratar para a área do Führerbunker. Encontrara o nome da
Companhia Construtora Oberstadt entre os papéis do pai. Falara com
Andrew Oberstadt, que se lembrava do acerto com seu pai.
— Seria uma escavação fascinante e estávamos ansiosos em
realizá-la — comentara Andrew Oberstadt. — Lamentei profundamente
o que aconteceu com seu pai e também não ter tido a oportunidade de
consumar os planos.
Emily lhe dissera que a oportunidade ainda podia existir. Tudo
dependeria da autorização do governo de Berlim Oriental.
— Se eu obtiver a permissão, pode ser de um momento para
outro. Teria uma equipe imediatamente disponível?
Andrew Oberstadt lhe garantira que para um trabalho assim
providenciaria uma equipe experiente o mais depressa possível e
supervisionaria pessoalmente a escavação.
Sentindo-se melhor, Emily verificara que não lhe restava muito
tempo antes de se encontrar no saguão com Rex Foster e Tovah Levine e
trocara um relaxante banho de banheira por uma chuveirada rápida.
Quando estava pronta para se vestir, estendera a mão automaticamente
para um dos seus conjuntos, mas depois hesitara.
A única coisa que não queria era parecer uma acadêmica
enfadonha. Sentira-se mulher e, pela primeira vez desde a morte do pai,
com uma vibração de vida. Por isso, abrira a gaveta e pegara uma blusa
branca, com botões até a gola, depois vestira uma saia azul-marinho
curta e um blusão rosa. Era melhor do que um costume,
proporcionava-lhe uma aparência bastante feminina, mas não ainda a aparência que desejava. Abrira o botão de cima da blusa e depois,
especulativamente, o segundo botão, para acabar abrindo também,
num gesto de mais audácia, o terceiro. Mexendo os braços, constatara
que a curva dos seios era ligeiramente visível.
Ficara satisfeita. Recatada e natural, mas ao mesmo tempo
bastante sensual para que Rex Foster, ao vê-la, deixasse que os olhos
perdurassem na abertura do terceiro botão e contemplassem a suave
elevação dos seios, cumprimentando-a por sua aparência. Lançando um
rápido olhar para Tovah, ao descer, Emily constatara que a jovem
israelense estava espetacular num vestido vermelho de jérsei que não
escondia nenhuma das curvas do seu corpo bem-dotado. Mas Emily
não se importara, já que Foster parecia ter olhos apenas para ela.
Agora, ao seu lado, no Berliner Gasthaus, Emily resolveu ser
mais profissional e, com isso, atrair Foster ainda mais.
— Eu gostaria de saber o que está realmente procurando, Rex
— disse ela. — Estou disposta a ajudá-lo, se puder. Qual é exatamente
o seu problema com o livro?
— Não se importa de falar de trabalho? Está bem. Falei que
Albert Speer usou diversos arquitetos associados. Dez, para ser mais
preciso. Localizei a maior parte de seus prédios e projetos. Estava tudo
nos arquivos de Speer. Mas faltam as obras de um arquiteto, o que se
dedicou a construir por toda a Alemanha os esconderijos que Hitler
usava em suas viagens durante a guerra.
— Creio que conheço os refúgios a que está se referindo — disse
Emily, lançando um olhar para Tovah, a fim de incluí-la na conversa. —
Hitler preferia viver no fundo da terra, enquanto a guerra se
intensificava na superfície. Speer destacou um dos seus colegas mais
competentes, um jovem arquiteto chamado Rudi Zeidler, para projetar e
construir esses abrigos antiaéreos e bunkers particulares por toda a
Alemanha.
— Rudi Zeidler... — repetiu Foster. — Ele pode ser o arquiteto
cujas plantas estou procurando.
— Foi Zeidler quem projetou um abrigo subterrâneo na encosta de uma colina, por baixo de uma floresta, em Ziegenberg, perto de Bad
Nauheim. Havia um quartel-general similar em Friedberg. — Emily
voltou-se inteiramente para Foster. — Tem informações sobre essas
construções?
— Não, Emily. São novidades para mim.
— Zeidler também projetou o Führerbunker, onde Hitler e Eva
Braun passaram os últimos dias da guerra. O Führerbunker tinha dois
níveis. Hitler e Eva tinham uma suíte particular de seis cômodos lá no
fundo. Por cima do Führerbunker havia mais de três metros de concreto
e quase dois metros de terra. Considerando-se a concisão, foi um
projeto brilhante.
— Tem razão — disse Foster. — Estudei várias plantas do
Führerbunker. Mas não sabia que Rudi Zeidler era o arquiteto. No
entanto, o que quero mesmo são as plantas das outras sete estruturas
subterrâneas que ele projetou. Acha que Zeidler ainda vive?
— Provavelmente. Sei que estava vivo há um ano e meio,
quando meu pai entrevistou-o aqui, em Berlim Ocidental.
— Seu nome estaria na lista telefônica?
— Não. A maioria desses antigos nazistas não consta dá lista.
Lembro que meu pai teve alguma dificuldade para localizá-lo. Mas
Zeidler se mostrou muito cooperativo.
— Tem alguma idéia de onde eu poderia encontrá-lo?
— Não há problema. O endereço e telefone estão em nossos
arquivos em Oxford.
— Posso telefonar para sua secretária e pedir? Emily sorriu.
— Já mandei que ela me enviasse. Todo o nosso fichário de
arquitetura. Não sabia exatamente o que você queria. Zeidler está
incluído. Devo receber até a tarde de amanhã.
Numa reação impulsiva, Foster inclinou-se e cobriu a mão de
Emily com a sua.
— Não sabe como me sinto agradecido, Emily. Embaraçada,
excitada, ela murmurou:
— Lá vem o garçom com a nossa comida.
Enquanto a sopa era servida, Foster continuou a fitar Emily com
satisfação.
— Eu gostaria de poder fazer alguma coisa por você, para
retribuir o favor.
Emily sentiu vontade de dizer-lhe exatamente o que podia fazer,
mas se conteve. Em vez disso, murmurou:
— Ora, não se preocupe... — E foi nesse instante que uma idéia
prática lhe ocorreu. — Pensando bem, creio que pode me fazer um
favor. Não para mim, mas para um amigo.
— Tudo o que eu puder fazer, terei o maior prazer...
— Hoje, em minhas pesquisas, fui a Berlim Oriental para falar
com um alto funcionário do governo, Professor Otto Blaubach, antigo
colega e amigo de meu pai, a quem eu já conhecia. Ele está tentando
arranjar uma coisa para mim, e assim eu gostaria de fazer algo por ele.
O Professor Blaubach apresentou-me a um visitante a quem desejava
ajudar e perguntou se eu não poderia dar uma mão. O visitante era um
russo muito simpático, Nicholas Kirvov, o atual curador do Museu
Hermitage, em Leningrado.
Pela primeira vez, desde que os drinques haviam sido servidos,
Tovah manifestou-se:
— Ah, quanto eu não daria para conhecer esse museu! Emily
virou-se para ela.
— Talvez você possa conhecer Kirvov e ele a convide a visitar
Leningrado. \
— Espero que sim — disse Tovah, mergulhando a colher na
sopa. — Desculpe a interrupção. Você falava sobre o seu encontro com
Kirvov.
Emily voltou a se concentrar em Foster.
— Kirvov coleciona desenhos e quadros de Hitler. Quer expô-los
no Hermitage.
— São horríveis — comentou Foster. — Absolutamente banais.
— Concordo plenamente. Mas não é isso o importante. Ainda
assim seria uma exposição que despertaria curiosidade.
— É verdade — disse Foster.
— O problema é que Kirvov acaba de adquirir um quadro de
Hitler não-assinado, mostrando algum prédio do governo que ninguém
consegue identificar. Kirvov quer saber que prédio é esse, antes de
expor o quadro. Eu disse que tentaria ajudá-lo. Quando telefonei para
Oxford, pedi à minha secretária que enviasse também uma cópia do
fichário artístico de Hitler... além do fichário de arquitetura, para você e
Kirvov. Mas como você é arquiteto, e conhece tanto a arquitetura
nazista, talvez saiba qual é o prédio que aparece no quadro de Kirvov.
Deixe-me mostrá-lo.
Emily abriu a pequena bolsa e tirou a fotografia que Kirvov lhe
dera do óleo de Hitler. Entregou-a a Foster. Enquanto Tovah se
inclinava para o lado, a fim de ver também, Foster estudou a fotografia.
— Tem certeza de que é de Hitler?
— É o que dizem os peritos. Foster sacudiu a cabeça, devagar.
— Não é nenhum prédio que eu me lembre de ter visto em
Munique, Frankfurt, Hamburgo ou qualquer outro lugar... e tenho uma
grande coleção de fotografias de todos os prédios que Hitler construiu
em sua época. Mas parece com muitos daqueles horríveis prédios
oficiais que surgiram depois que ele se tornou Chanceler. Posso ter visto
alguma coisa assim uma dúzia de vezes... mas onde?
Fez uma pausa, estreitando os olhos para observar melhor a
fotografia.
— Parece um dos muitos prédios que Hitler mandou fazer em
Berlim nos seus primeiros dias como líder da Alemanha.
— Berlim? — disse Emily. — Mas esse quadro é de Hitler, e pelo
que sabemos ele pintou exclusivamente em Linz, Viena e Munique.
Nunca em Berlim.
Os olhos de Foster estavam fixos na fotografia.
— Apesar de tudo, ainda acho que é um prédio em Berlim.
— Talvez Kirvov possa procurar pela cidade — sugeriu Tovah.
— Seria inútil — explicou Foster. — Os bombardeios Aliados, ao
final da guerra, e a ofensiva por terra do marechal Zhukov destruiram por completo ou deixaram em ruínas a maioria dos prédios públicos e
industriais da cidade. Havia 250 mil prédios em Berlim ao final da
guerra. Trinta mil foram totalmente demolidos, vinte mil bastante
danificados e 150 mil parcialmente danificados. Quase todos os prédios
do governo estavam entre os que foram totalmente destruídos. É
improvável que este prédio ainda exista. Ele levantou a fotografia para
Emily, indagando:
— Importa-se que eu fique com isto por um ou dois dias? Quero
verificar meu portfólio para saber se há alguma fotografia antiga que se
pareça com o quadro.
— Pode ficar. Mas vamos comparar também com o meu fichado,
quando chegar amanhã.
Emily tomou apressadamente um pouco de sopa, mas fez sinal
ao garçom para levá-la, quando ele retirava os outros pratos. Antes que
pudessem continuar a conversa, o garçom trouxe os filés e eles
esperaram até que terminasse de servir. Depois, foi Tovah a primeira a
falar:
— Emily, você tem se mostrado muito generosa, dando
informações a Rex e tentando ajudar Kirvov. Mas você ainda é o ponto
principal. E quase não nos falou a seu respeito.
Emily tornou-se evasiva no mesmo instante.
— Sabe por que estou aqui. Para dar os retoques finais numa
biografia que meu pai e eu estávamos quase concluindo.
— Que retoques finais? — insistiu Tovah.
Foster presenteou Emily com um dos seus sorrisos incríveis, os
que ela achava irresistíveis.
— Eu bem que gostaria de saber mais sobre o que você está
fazendo.
Foi o suficiente para Emily. Ela queria contar a Rex qualquer
coisa que ele quisesse saber a seu respeito. O sorriso ainda o iluminava
quando ele acrescentou:
— O que me diz?
Emily olhou para a jornalista israelense.
— Mas posso confiar em você? O que estou fazendo aqui é
confidencial. Lembre-se que prometeu que não divulgaria nada do que
conversássemos esta noite, Tovah.
— Dei a minha palavra — respondeu Tovah. — E torno a dá-la.
Não violarei uma confidência.
— Muito bem. — Emily sentia-se pressionada pelo sigilo que
impusera a si mesma. Queria conquistar a confiança de Rex. E queria a
amizade de Tovah. — Vou contar o que me trouxe a Berlim.
Ela estava pronta para falar e foi o que fez. Discorreu sobre os
cinco anos de trabalho em Herr Hitler, com seu pai. Quase ao final do
relato, Foster interrompeu-a para comentar:
— Deve ser muito difícil escrever uma biografia tão complexa.
— Para ser franca, é fascinante — declarou Emily. — E não foi
absolutamente difícil... exceto numa coisa.
Ela pensou em algo que estava em sua mente há muito tempo,
sentindo agora que podia exprimi-lo. E continuou, dirigindo-se
especialmente a Foster:
— Isto é, imagino que de certa forma foi mesmo difícil. Quando
se envolve tão profundamente nas minúcias da vida de outra pessoa,
sempre há o risco de se pensar que é um ser humano igual a você. Mas
sabe-se que o homem era desumano, uma besta terrível. Sabe-se o que
ele fez com os outros ao longo de sua vida. Tenta-se conciliar a verdade
de suas atividades com os fatos normais de uma vida que se descobriu.
E não é possível, pois nos descobrimos incapazes de conciliar as
tremendas contradições. É incontestável que os Vernichtungslager de
Hitler existiram. Os campos de extermínio. Auschwitz, Buchenwald,
Dachau, Mauthausen, Treblinka, num total de trinta campos de morte
nazistas. E se toma conhecimento de Auschwitz, o mais eficientes com
suas quatro enormes câmaras de morte, duas mil vítimas
desamparadas e nuas sufocando e se contorcendo nos estertores da
morte em cada uma, todos os dias, sendo tiradas para se remover os
anéis e obturações de ouro, que eram depositados no Reichsbank, os
fornos crematórios queimando os corpos, as cinzas vendidas como fertilizantes. Os seis milhões de judeus que foram mortos e cremados,
os vinte milhões cuja morte ele causou, durante a Segunda Guerra
Mundial, a sua total indiferença aos sofrimentos dos próprios
seguidores, como as milhares de pessoas que morreram afogadas
quando ele mandou inundar o metrô de Berlim, os milhões de soldados
que permitiu que fossem mutilados ou mortos durante a defesa
absolutamente inútil de Berlim por 16 dias. Tudo isso foi obra de Adolf
Hitler, e de ninguém mais.
Distraidamente, Emily cortou um pedaço de seu filé, mas não o
levou à boca, fitando de novo os olhos atentos de Foster.
— Mas ao se escrever uma biografia detalhada de um homem
não se pode deixar de ficar absorvida em seu comportamento
normalmente humano e em suas fragilidades. E se fica desconcertada
com esse apaixonado por cães alsacianos e os filhos pequenos dos
outros, esse vegetariano que não fumava, um homem que adorava a
mãe e que gostava de assistir, muitas vezes, a filmes como Aconteceu
Naquela Noite. A confusão aumenta porque essa besta humana também
tinha vulnerabilidades humanas, a mão e o braço esquerdo que
tremiam, a perda da visão no olho direito, todos os remédios que
tomava para o mal de Parkinson.
Emily fez uma pausa, respirou fundo e depois continuou:
— Há dificuldade para se resolver outra contradição... sua
atenção para com os detalhes femininos que envolviam Eva Braun. Ele
gostava de sexo com ela, faziam amor sempre que não estava muito
cansado ou doente. Sua doce Eva, a quem não permitia esquiar para
que não quebrasse uma perna, a quem não permitia tomar banho de sol
para que não ficasse com câncer de pele. Sua doce Eva, que gostava de
ouvir Tea for Two e usar o relógio de platina com diamantes que ele lhe
dera, ligas de seda e o perfume Air Bleu da Worth, que ele confiscara na
Paris conquistada.
Emily sacudiu a cabeça.
— Todos esses microscópicos fatos humanos situam-se num
lado. Mas no outro há seis milhões de homens, mulheres e crianças que ele condenou a serem despidos e mortos nas câmaras de gás... cada um
deles um pai, uma mãe, um filho, uma neta, querendo envelhecer,
desfrutar a vida, mas todos impotentes, todos assassinados, até que
finalmente a carnificina foi detida por milhões de pessoas melhores e
mais decentes que Hitler, pessoas que sacrificaram anos e até suas
próprias vidas para eliminá-lo da face da terra.
Emily olhava fixamente para Foster.
— Desculpe, Rex... Tovah... por falar assim. Mas vocês
perguntaram e eu tinha de responder. Essa foi a dificuldade para
escrever o livro. Ficar absorvida nas minúcias humanas que fazem com
que um dos maiores demônios da história pareça um ser meio humano.
Contudo, ele não era humano, não era absolutamente humano. Era um
selvagem implacável por dentro, espojando-se no próprio ego, não se
importando com qualquer outra pessoa no mundo além das que lhe
estavam mais próximas. E agora... agora preciso descobrir se ele
enganou o mundo inteiro, se fingiu cometer suicídio mas na verdade
escapou para evitar a punição que tanto merecia, e sobreviveu. Vale a
pena tentar descobrir, não apenas para um simples livro, mas pela
oportunidade de levá-lo à justiça, se realmente ainda estiver vivo. Creio
que tudo o que sinto foi muito bem enunciado pelo promotor americano,
nos Julgamentos de Nuremberg, Robert Jackson, ministro do Supremo
Tribunal dos Estados Unidos. Ele disse: "Os erros que procuramos
condenar e punir foram tão calculistas, tão malignos e tão devastadores
que a civilização não pode se dar o luxo de ignorá-los, pois não seria
capaz de sobreviver à sua repetição."
Rex Foster a fitava agora com expressão aturdida.
— Emily, está querendo dizer que Hitler não morreu em 1945?
Acha mesmo que ele conseguiu escapar impune?
Emily levantou os olhos.
— É bem possível, mas não tenho certeza. Vou explicar tudo.
Ela relatou a inesperada interrupção da biografia de Herr Hitler.
Falou da carta do Dr. Thiel, embora não mencionasse seu nome. E
continuou daí. A morte do pai. As suspeitas de que não fora um mero acidente. Sua decisão de investigar a possibilidade de que Hitler e Eva
Braun não tivessem morrido no Führerbunker, como a história
declarava. Seu encontro com o Dr. Thiel, outra vez sem mencionar o
nome. A sugestão para que procurasse duas provas. Uma, a ponte
dentária de Hitler. Outra, o seu camafeu com a efígie de Frederico o
Grande. E finalmente o seu pedido ao Professor Otto Blaubach para que
lhe permitissem escavar a área do Führerbunker.
— Pronto, aí está — concluiu Emily, a voz reduzida a um
sussurro. — É por isso que estou aqui.
Ela podia ver que Rex Foster estava sinceramente fascinado.
— Mas que história fantástica... — murmurou ele. Tovah se
mostrava igualmente fascinada pelo relato de Emily,
mas perturbada por um ponto.
— Viram Hitler e Eva Braun mortos no sofá, os corpos foram
levados para o jardim e cremados, diante de muitas testemunhas. Como
pode explicar isso?
— Sósias morreram no lugar deles — respondeu Emily. —
Mataram-se ou foram liquidados e cremados, enquanto os
verdadeiros Hitler e Eva sobreviviam e escapavam.
— Um sósia de Adolf Hitler — murmurou Tovah, saboreando a
perspectiva. — Não seria fácil provar.
— Tenciono tentar demonstrar que pode ter acontecido assim
com a escavação no Führerbunker, se me derem permissão.
Tovah se soerguera na cadeira.
— E eu quero escavar também... escavar em outras partes...
tentar descobrir mais alguma coisa sobre os sósias de Hitler. — Como
se tivesse medo que Emily pudesse protestar, apressou-se em
acrescentar: — Sou uma jornalista, uma repórter investigadora. Estou
acostumada a procurar a verdade.
Emily contraiu os lábios.
— Esta não é uma história para os meios de comunicação.
Ainda não. Lembre-se do que aconteceu com meu pai.
— Eu não lhe acarretaria qualquer risco — garantiu Tovah.
— Gostaria simplesmente de ajudá-la a descobrir a verdade,
mas também quero ajudar meu país. Sabe que metade de Israel vem
caçando os nazistas desaparecidos... Martin Bormann e os outros. Mas
encontrar Adolf Hitler, o maior dos monstros, o homem que os
israelenses mais gostariam de levar à forca...
— Se ele sobreviveu — disse Foster, com expressão pensativa.
— Emily... eu também gostaria de ajudá-la.
— Obrigada, Rex. Precisarei de toda ajuda que puder arrumar.
— Emily fez uma pausa. — Mas devo lembrar uma coisa. Meu
pai também veio para cá em busca da verdade. E agora está morto.
Assim... — Ela fitou Foster nos olhos e depois Tovah. — ...devemos
tomar muito cuidado. Mas muito mesmo.