O Sétimo Segredo
Capítulo III
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
o impulso inconsciente do relacionamento freudiano que liga as filhas
aos pais. Afinal, era bem possível que o pai estivesse enganado. E nessa
guerra civil de incerteza ela estava quase preparada para bater em
retirada. Faria as malas, deixaria Berlim, voltaria a Oxford e terminaria
o livro.
Mas o fantasma paterno ainda a vigiava. Hesitou. Era difícil
repudiar sua herança tão abruptamente.
Embora dominada pela dúvida, entrou no quarto lentamente,
pegou a pasta de correspondência recente que trouxera de Oxford,
sentou na beira da cama e folheou-a. Tirou a carta para o pai que
desencadeara tudo aquilo — a carta do dentista, Dr. Max Thiel, de Berlim Ocidental. Começou a relê-la. "Todas as histórias contadas até
hoje sobre Adolf Hitler e Eva Braun podem estar erradas num ponto
importante. É bem possível que Hitler e Braun não tenham cometido
suicídio no Führerbunker em 1945. Os dois podem ter sobrevivido. E
creio que disponho da prova disso." Dobrou a carta e pensou que o pai
se encontrara com o Dr. Thiel, devendo ter ficado bastante
impressionado para providenciar escavações na área do Führerbunker
em busca de novos indícios, ignorados até então.
Continuou a folhear a pasta de correspondência. Encontrou a
cópia da carta que enviara ao Dr. Thiel, declarando que tencionava
prosseguir na investigação do pai e que para isso precisava de sua
ajuda. Era crucial para sua pesquisa, ela escrevera, era indispensável
que se encontrassem. Presa por um clipe à cópia da carta.estava a
lacônica resposta do Dr. Thiel: "Prezada Srta. Ashcroft: Lamento não
poder recebê-la ou a qualquer outra pessoa para tratar desse assunto."
E foi então que se lembrou do que o pai lhe dissera na última vez
em que conversaram pelo telefone: "Emily, nosso livro deve ser a última
palavra, a verdade absoluta, a palavra final."
Quixotesco? Não. O pai descobrira alguma coisa.
Emily largou a pasta de correspondência e encaminhou-se
resoluta para a sala da suíte. Postou-se diante do telefone na mesa e
discou o número do Dr. Max Thiel.
Um toque da campainha. Dois. E atenderam. Uma voz de velha,
dizendo em alemão:
— Alô?
— É da residência do Dr. Max Thiel? Um breve silêncio.
— Quem está falando?
— Sou a filha do Dr. Harrison Ashcroft. Preciso falar com o Dr.
Thiel. Vim da Inglaterra para me encontrar com ele.
— Um momento, por favor.
Emily pôde ouvir vozes abafadas ao fundo. Esperou, muito
tensa.
O pai lhe dissera, depois de falar com o Dr. Thiel pelo telefone, que a voz profunda do dentista era firme e convincente. Depois do
encontro, o pai comentara que o dentista também se mostrara muito
cordial.
Contudo, a voz que ela ouviu agora, uma voz de homem, não era
tão cordial, mas ríspida.
— Quem está falando?
— Dr. Thiel? Meu nome é Emily Ashcroft. — Explicou
rapidamente quem era, lembrou-o do pai e do livro. — Convidou meu
pai a procurá-lo. Ele assim o fez, e achou-o prestativo e gentil. Vim a
Berlim para continuar a pesquisa de meu pai, Dr. Thiel...
— Por favor, não torne a falar meu nome pelo telefone — disse
ele cortante.
— Desculpe. Não tornarei a fazê-lo, se assim deseja.
— Não é o que desejo. Apenas é imprudente.
Emily percebeu medo na voz e receou que ele desligasse. Por isso
apressou-se em acrescentar:
— Vim a Berlim para conversar com o senhor.
— Impossível.
— Mas recebeu meu pai. Estava disposto a ajudá-lo.
— E veja o que aconteceu com ele — respondeu o Dr. Thiel,
ainda mais rispidamente.
— Foi um acidente.
A voz do Dr. Thiel abrandou um pouco quando disse:
— É possível. Talvez tenha sido mesmo um acidente. Mas não
posso ter certeza. — Hesitou. — Lamento a morte de seu pai. — Uma
pausa e acrescentou, obstinado: — Seja como for, não quero correr
riscos. Não torne a me incomodar, por favor. Escreva o que achar
melhor.
— Quero escrever a verdade — declarou Emily, em tom
emocionado. Lembrou-se então da sugestão de Nitz. Use o relato de
Vogel para arrancar a verdade do outro informante. — Talvez eu possa
usar apenas o que Ernst Vogel me contou...
— Quem?
— Ernst Vogel. Era um sargento da SS e integrava a guarda de
honra no Führerbunker. Testemunhou os últimos dias de Hitler.
Conversei com ele hoje. Confirmou o que Linge, Günsche e Kempka
disseram em seus depoimentos. Vogel afirma que Hitler se matou com
um tiro, que viu o corpo ser levado para o jardim do bunker e cremado.
Reiterou a versão oficial. Insinuou que qualquer outra versão da morte
de Hitler só podia vir de lunáticos.
O Dr. Thiel engoliu a isca.
— Vogel é um rematado idiota — disse, irritado. — Acredita no
que lhe foi impingido, numa lavagem cerebral. Sei quem ele é. Não
passa de um guarda imbecil que jamais conheceu Hitler.
— Mas o senhor conheceu Hitler pessoalmente? — perguntou
Emily, em tom inocente.
— Claro. E muito bem.
— E sabe de mais alguma coisa, que transmitiu a meu pai. É
uma pena que não queira contar a mim também. Serei agora obrigada a
perpetuar a mentira, a não contar a verdade, a deixar que a história
permaneça distorcida. Houve um breve silêncio.
— Será que isso tem realmente alguma importância, depois de
quarenta anos? É melhor não mexer em casa de marimbondo.
— Mas insinua que os marimbondos ainda podem picar — disse
Emily fervorosamente. — E se quer saber, acho que é da maior
importância que tudo a respeito de Hitler seja finalmente conhecido.
Para que nunca mais possa surgir um homem como ele. Se Hitler ainda
está vivo, deve ser denunciado e punido. Não podemos permitir que
continue impune. A verdade importa, e muito. Meu pai pensava assim.
Sou sua filha e também penso. Acha que os Vogels deste mundo devem
continuar a perpetuar seus falsos mitos, se é que são mesmo mitos? Se
há algo mais na história, eu gostaria que me ajudasse. Em nome de
meu pai. Ele era um homem de bem que...
— É verdade, ele era um homem de bem — concordou o Dr.
Thiel. — Achei-o muito simpático. Mas era também imprudente e talvez
tenha pago por isso. — Hesitou. — Mas talvez eu também seja imprudente. Provavelmente possa recebê-la. Mas tem de ser um
encontro discreto, e desta vez sem qualquer publicidade.
— Prometo que não haverá. E tomarei todo cuidado.
— Está certo. Tem o meu endereço. Ainda disponho de uma
hora antes do jantar. Pode vir até aqui imediatamente?
— Claro.
Emily inclinou-se para a frente, na única cadeira do pequeno
laboratório odontológico, na parte profissional da espaçosa casa de dois
andares do Dr. Thiel, bem recuada numa rua larga, a Heerstrasse, a
oeste do Rio Havei e a cerca de 25 minutos de táxi do Hotel Kempinski.
O Dr. Max Thiel estava sentado à sua frente, num banco branco e alto,
um cotovelo sobre o balcão de fórmica por trás.
Mostrava-se amistoso e cortês desde o instante em que ela
chegara. Era um homem alto, encurvado, lembrando uma garça, os
cabelos grisalhos penteados para o lado, olhos azuis vivos por trás de
óculos de aros de ouro, rosto comprido. Usava um terno escuro e leve,
camisa branca, gravata azul-marinho, colarinho engomado. Emily
calculou que ele devia estar na casa dos oitenta anos.
Depois de levá-la ao laboratório, ele desaparecera, voltando
pouco depois com uma bandeja contendo duas xícaras de chá e uma
travessa de bolinhos, enviados pela esposa, que não se dera a conhecer.
Ele se instalara no banco, tomando o chá ruidosamente; depois
largou a xícara no balcão e disse:
— Então aqui estamos, Srta. Ashcroft. Seu pai lhe falou alguma
coisa de nosso encontro há poucas semanas?
— Nada, exceto que a sua informação deixou-o excitado,
levando-o a providenciar uma escavação. Comentou que não podia
entrar em detalhes pelo telefone e que só me contaria tudo quando
voltasse a Oxford. Portanto, não sei o que aconteceu entre vocês dois.
Só sei que foi da maior importância.
— Pois saberá de tudo agora. Emily ficou na maior expectativa.
— Já deve saber que os soviéticos foram os únicos que
investigaram a suposta morte e sepultamento de Hitler.
— Sei sim. Temos arquivada em Oxford uma cópia da autópsia.
Não a revisei recentemente. Estava deixando para estudá-la de novo
quando chegasse ao capítulo final da biografia de Hitler.
— Para aproveitar melhor o nosso tempo, vou resumir as
descobertas dos diversos investigadores soviéticos. Em primeiro lugar,
deve compreender que há uma omissão vital em todos os depoimentos.
Ninguém viu Hitler se matar. Ninguém viu Eva Braun se matar.
Nenhuma pessoa jamais alegou ter testemunhado isso. Conhecemos
apenas a história que os investigadores soviéticos, assim como os
britânicos, americanos e franceses, ouviram dos alemães que se
encontravam no Führerbunker ou por perto em abril de 1945. Ouvimos
depoimentos de que Hitler, com sua causa perdida e o Terceiro Reich
desmoronando, planejava se matar. Depois disso, os depoimentos dizem
que ele e a mulher se suicidaram na privacidade, diversas pessoas
viram os cadáveres, que foram levados para o jardim e cremados. Mas,
além da palavra de seus assessores e dos guardas, nunca houve
qualquer prova científica de que o homem e a mulher que se mataram
no bunker eram mesmo Adolf e Eva. Para provar um crime, auto-
infligido ou não, é regra geral de todos os tribunais invocar a
necessidade de um corpus delicti — a prova material ou corpo da vítima
de violência. Neste caso, não houve corpos — cadáveres — para
examinar. Os corpos foram queimados às pressas, reduzidos a cinzas e
ossos carbonizados. Sem os corpos, como poderiam os investigadores
estar cientificamente certos de que Hitler e sua mulher se mataram?
— Mas houve algumas evidências materiais — protestou Emily.
O Dr. Thiel assentiu.
— Algumas. Os investigadores soviéticos convenceram-se de
que Hitler e Eva haviam morrido. Mas eu jamais fiquei convencido de
que isso acontecera de fato.
O coração de Emily disparou com as últimas palavras. Não era
de admirar que o pai ficasse tão excitado. Era o que também começava
a lhe acontecer. Apesar disso, ainda tentou se controlar, fez uma última
e débil tentativa de bancar o advogado do diabo:
— O que está querendo dizer, Dr. Thiel, é que Hitler pode ter
sobrevivido. Se isso ocorreu, como poderia ele ter escapado? Pelas
transcrições que li sobre o último dia, quando os soviéticos cercavam o
bunker, ele não poderia escapar de carro ou a pé. Talvez fosse possível
de avião. Mas fomos informados por Hanna Reitsch, a mulher piloto que
o visitou à noite, que ela mesma saiu de Berlim com o último avião
disponível, um Arado-96. Até mesmo o Oberführer Hans Bauer, o piloto
pessoal de Hitler, não foi capaz de encontrar um avião, quando estava
querendo fugir. Teve de escapar a pé, foi capturado pelos russos e ficou
preso na União Soviética até 1955. Além disso, não restavam pistas
para se decolar. O Coronel SS Otto Skorzeny, do comando, declarou que
não restava uma única pista que os nazistas pudessem usar. — Emily
levantou as mãos. — Se Hitler sobreviveu, como poderia ter escapado?
A resposta do Dr. Thiel foi simples:
— Não sei, Fraulein Ashcroft. Cabe-lhe descobrir isso. Tudo o
que sei, tenho certeza, é que Hitler sobreviveu a seu suposto suicídio.
Ele não foi cremado naquele dia fatídico. Os soviéticos estavam
enganados e creio que posso prová-lo.
Mais uma vez, Emily experimentou uma onda de esperança e
um ímpeto de curiosidade. Em silêncio, ficou esperando que o Dr. Thiel
apresentasse a tal prova.
— Contarei primeiro o que os soviéticos descobriram e depois
lhe direi o que eu descobri, Fraulein Ashcroft. No dia anterior à suposta
morte de Hitler, o comando soviético já em Berlim organizouum
pequeno grupo especial de oficiais do NKVD, do Terceiro Exército russo,
com a participação de uma intérprete feminina, Yelena Rzhevskaya,
com a missão de descobrir o paradeiro de Hitler, localizá-lo vivo ou
morto. O Tenente-Coronel Ivan Klimenko, um interrogador soviético,
levou oficialmente sua equipe ao Führerbunker. Os russos sabiam que
aquele Führerbunker profundo existia e que Hitler já passara 105 dias lá
dentro. Pouco antes de Klimenko iniciar sua pesquisa, outros russos já
se haviam encaminhado para o Führerbunker, inclusive doze médicas do
Corpo Médico do Exército Vermelho e cerca de vinte oficiais soviéticos. Eles não estavam à procura de Hitler, mas apenas de souvenirs. Esses
saqueadores confiscaram tudo, de abajures e talheres com monograma
aos sutiãs franceses de seda preta de Eva Braun. Em 2 de maio de
1945, dois dias depois da anunciada morte de Hitler, Klimenko chegou
ao Führerbunker e iniciou sua investigação. Ao cair da noite já
examinara um corpo de homem, que outra equipe encontrara num tonel
de carvalho de água. Ordenou que fosse posto no chão de um salão na
Velha Chancelaria, ao lado, e identificou-o em princípio como o cadáver
de Hitler. Apesar disso, Klimenko voltou ao Führerbunker dois dias
depois. Numa cratera de bomba, no jardim da Chancelaria, um soldado
chamado Ivan Churakov descobrira os restos mortais de um homem e
uma mulher. Klimenko declarou: "Claro que a princípio nem me passou
pela cabeça que poderiam ser os restos de Hitler e Eva Braun, pois
acreditava que o cadáver de Hitler já se encontrava na Chancelaria,
faltando apenas a identificação definitiva. Por isso, ordenei que os
restos fossem enrolados em mantas e enterrados novamente." Enquanto
isso, na Chancelaria, oficiais e diplomatas alemães que haviam
conhecido Hitler pessoalmente concordavam que o primeiro corpo, no
chão do salão, não era o de Hitler. Possivelmente um sósia. Mas não Der
Führer. Klimenko lembrou-se então dos dois corpos que mandara
enterrar outra vez na cratera de bomba, a três metros da saída de
emergência do Führerbunker. Acompanhado por sua equipe, Klimenko
seguiu rapidamente de jipe para o local. Deixe-me agora ler o relatório
do que aconteceu em seguida.
O Dr. Thiel abriu uma gaveta a seu lado e tirou um maço de
papéis e alguns negativos de fotografias.
— E eles tornaram a desenterrar os dois corpos — disse Emily.
O Dr. Thiel assentiu, enquanto examinava os papéis.
— Isso mesmo. Os corpos ainda estavam enrolados nas mantas.
Os russos colocaram-nos em caixas de madeira e mandaram-nos de
caminhão para um hospital de campanha em Berlim-Buch, um
subúrbio da capital, ao norte. E foi lá que os especialistas soviéticos
iniciaram autópsias meticulosas.
— Nos corpos? — interrompeu-o Emily. — Mas não havia mais
corpos.
— Não eram corpos no sentido mais rigoroso — explicou o Dr.
Thiel. — Na verdade, eram restos de corpos. Vou ler o relatório
soviético. Sobre o corpo masculino: "Tendo em vista que o cadáver está
bastante danificado, torna-se difícil avaliar a idade do falecido.
Presumivelmente, situa-se entre 50 e 60 anos. O cadáver está bastante
carbonizado e cheira a carne queimada. Parte do crânio está faltando.
Partes do osso occipital, o osso temporal esquerdo, as mandíbulas
superior e inferior estão preservados. A pele está completamente
ausente do rosto e do corpo; estão preservados apenas remanescentes
de músculos carbonizados."
O Dr. Thiel fez uma pausa, levantando os olhos.
— Não há pele, portanto não há impressões digitais. —
Consultou os papéis em suas mãos, antes de continuar: — Vamos ao
relatório seguinte. "Tendo em vista que partes do corpo estão
extensamente carbonizadas, é impossível descrever as feições da mulher
morta. A idade se situa entre 30 e 40 anos." Também não há
impressões digitais. Entretanto, os especialistas soviéticos concluíram
que dispunham de um meio igualmente seguro de identificação. Tinham
as mandíbulas superior e inferior dos dois cadáveres, com os dentes e
serviços odontológicos intactos.
— O que exatamente eles tinham para trabalhar?
— As pontes superior e inferior do corpo do homem. Uma era
antiquada, uma coroa de metal amarelo, ouro, que se ajustava nos
molares. E havia também uma ponte de ouro na mandíbula de Eva
Braun. A intérprete soviética, Yelena Rzhevskaya, falou com Fraulein
Káthe Heusemann, que fora assistente do dentista de Hitler, Dr. Hugo
Blaschke, e Fritz Echtmann, o protético que fizera as pontes. Fraulein
Heusemann levou os investigadores ao consultório do Dr. Blaschke, nas
ruínas da Chancelaria. Encontraram ali as últimas radiografias dos
dentes de Hitler e Eva Braun. Foram comparadas com as pontes nas
mandíbulas que os soviéticos guardavam numa velha caixa de charuto, dentro de um saco. As pontes correspondiam às radiografias anteriores
dos dentes de Hitler e Braun. A Comissão Legista Soviética exigia
apenas dez pontos de similaridade para uma identificação positiva, mas
alegaram ter encontrado vinte e seis pontos coincidentes. Com base
nessa autópsia, os soviéticos anunciaram a 9 de julho de 1945 que
haviam finalmente encontrado os restos mortais de Adolf Hitler e Eva
Braun.
— Mas o senhor discorda — disse Emily. — Não acredita que
tenham encontrado Hitler e Eva Braun. Por quê?
— Porque também fui um dos dentistas de Hitler. Ele me
chamou quando não confiava mais no Dr. Blaschke para certos
trabalhos especializados. Mas como ele não queria problemas com o Dr.
Blaschke, meus serviços foram mantidos em segredo. Em conseqüência,
como a minha atuação era praticamente desconhecida, não fui
interrogado pelos soviéticos. Consegui obter cópias dos relatórios em
que os russos explicaram sua identificação positiva. Eu tinha condições
de comparar suas descobertas com meu trabalho em Hitler. As pontes
eram as mesmas, com uma pequena diferença. Quando ajustei as
pontes de Hitler, acrescentei um pequeno gancho, quase invisível, à
placa superior, a fim de ajustá-la melhor à coroa de ouro. Esse gancho
não estava na ponte que os soviéticos tinham, segundo os relatórios da
autópsia. O que me deixou desconfiado.
— Talvez o gancho que acrescentou à ponte tenha se derretido
— sugeriu Emily.
O Dr. Thiel gesticulou impacientemente.
— Não, não, é impossível. O gancho era de ouro. Se tivesse se
derretido, o mesmo teria acontecido com toda a ponte. Tenho certeza de
que o cadáver masculino que os russos identificaram como o de Hitler
era de um sósia, com os dentes trabalhados para ficarem iguais aos de
Hitler. Só que o meu gancho estava faltando. Mas se o corpo cremado
era de um sósia de Hitler, eu ficava com um problema. Se era um falso
Hitler, o que acontecera com o verdadeiro?
— Foi por isso que sugeriu a meu pai que tornasse a escavar no jardim do Führerbunkerl
— Sugeri que ele procurasse pela última vez por duas provas...
outra mandíbula, com outra ponte dentária, a mesma que fiz para
Hitler, a verdadeira. Se descobrisse isso, Fraulein Ashcroft, saberia com
certeza que Hitler morreu mesmo e foi cremado, como tantos alegam.
— Só falou até agora numa coisa para procurar, Dr. Thiel. Mas
disse que havia duas provas. Qual é a outra?
O Dr. Thiel estava folheando os papéis. Levantou uma folha.
— Está vendo isto?
Emily inclinou-se para a frente, a fim de olhar melhor. Era um
desenho tosco, a caneta, parecendo uma espécie de camafeu com o
rosto de um homem.
— O que é isso?
— A segunda coisa que deve procurar, se conseguir autorização
para escavar na área do Führerhunker. É um camafeu que Hitler usava,
pendurado de uma corrente no pescoço, caindo sobre o peito.
Provavelmente ninguém sabia que Hitler o usava, com exceção de Eva,
que dormia com ele. Só o vi por puro acaso. Submeti Hitler a uma
anestesia geral na última vez em que lhe fiz um trabalho. Para deixá-lo
mais confortável, desabotoei-lhe o primeiro botão da camisa. E ali
estava, contra o peito, este camafeu, obviamente um amuleto.
— De quem é esse rosto no camafeu?
— Conhece o quadro a óleo que Hitler levava a qualquer lugar
onde fosse, durante seis anos, o que estava pendurado em cima de sua
escrivaninha no Führerhunker até quase o final, quando ele o entregou a
seu piloto particular Bauer para levá-lo a um lugar seguro, antes da
chegada dos russos? O camafeu era uma reprodução do rosto do seu
quadro predileto.
— O rosto de Frederico o Grande.
O comprido rosto do Dr. Thiel ofereceu um sorriso de aprovação.
— Exatamente. Todos os depoimentos dizem que Hitler morreu
e foi cremado completamente vestido. Se isso de fato aconteceu, ele
ainda estaria usando este camafeu por baixo da túnica e da camisa, quando foi enterrado. Ninguém teve tempo de procurar. Mas os
soviéticos nunca o encontraram, provavelmente jamais tiveram
conhecimento de sua existência. Portanto, se foi de fato o corpo de
Hitler que os soviéticos encontraram, o camafeu ainda estaria lá,
perdido entre a terra e os escombros. Se escavar e conseguir encontrar
o camafeu ou a ponte de ouro em que trabalhei, terá descoberto o
verdadeiro Adolf Hitler e poderá confirmar que os soviéticos estavam
corretos ao presumirem que Hitler foi cremado e enterrado no jardim.
Mas deve escavar mais meticulosamente do que qualquer outro já o fez
antes. Se terminar de mãos vazias, então é bem provável que Hitler não
tenha morrido, ao contrário do que anunciaram os soviéticos. Teria uma
prova concreta de que Hitler sobreviveu a seu suposto fim e escapou do
Führerbunker. Emily só tinha uma dúvida.
— E se Hitler tirou o seu camafeu de Frederico o Grande e pôs a
corrente no pescoço do sósia?
— Não creio que ele pudesse sequer cogitar disso. Se escapasse,
seria com o camafeu ainda pendurado no pescoço. Era o seu eterno
amuleto. E se não houver o camafeu, há ainda a ponte de ouro que
ajustei.
Os olhos de Emily fixaram-se nos do Dr. Thiel.
— Acha então que eu deveria escavar o local?
O Dr. Thiel balançou a cabeça devagar, em assentimento.
— Escave, Fraulein Ashcroft, escave fundo, se quer descobrir a
verdade. E caso a encontre, não conte a ninguém... até que esteja longe
de Berlim e pronta para revelar ao mundo. É isso mesmo, Fraulein,
escave e se mantenha em silêncio.
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IV
E ali estava ela, finalmente, sentada no banco traseiro do
Mercedes com ar-condicionado, ao lado de Peter Nitz, seguindo para o
muro que dividia os dois mundos de Berlim Ocidental e Berlim Oriental.
Emily Ashcroft acordara cedo, inspirada pelo encontro com o
dentista de Hitler e firmemente determinada a elucidar o mistério dos
últimos dias de Hitler em seu esconderijo.
Sua primeira iniciativa, depois de pedir o café da manhã, fora
entrar em contato com uma telefonista especial e ligar para o Professor
Otto Blaubach, em seu gabinete oficial, em Berlim Oriental. Ele a
atendera imediatamente e se mostrara um modelo de cordialidade. Sim,
recebera a carta de Emily e ficara aguardando o seu telefonema, estava
ansioso por encontrá-la. Teria o maior prazer em revê-la, em Berlim
Oriental. Duas horas da tarde seria conveniente para ela? Emily
respondera que aquela hora estava perfeita.
Depois de comer, lembrara-se de que só estivera uma vez no
setor oriental, três anos antes, acompanhando o pai. O Dr. Ashcroft
cuidara de tudo, e a travessia da fronteira parecera muito simples.
Naquela tarde, porém, estaria sozinha. Seu destino parecia mais
estranho do que nunca, e desejara um acompanhante, alguém que
conhecesse Berlim Oriental.
Prestes a ligar para a portaria e pedir um carro particular com
um motorista que conhecesse bem as duas partes da cidade, ela se
lembrara de outra pessoa. Ligara para o Berliner Morgenpost e
encontrara Peter Nitz à sua mesa.
— Estou procurando um guia — explicara ela. — Vou a Berlim
Oriental e isso me deixa nervosa. Sei que é bobagem, mas...
— Tem toda razão em se sentir apreensiva. E posso ajudá-la.
Tenho alguém de confiança. È um motorista autônomo, chamado Irwin Plamp.
— Plamp?
— Talvez o nome lhe pareça insólito. É como uma pronúncia
errada da palavra inglesa plump2 E ele realmente é. Vai a Berlim
Oriental quase todos os dias. Meu jornal sempre usa seus serviços. Ele
guia um seda Mercedes novo. Quando vai querê-lo?
— Esta tarde. Tenho um encontro às duas horas com o
Professor Otto Blaubach, o vice-ministro, em seu gabinete.
— Vou verificar se Plamp está livre. Se não estiver, ligarei para
você. Mas se ele estiver disponível, irá encontrá-la no hotel. Eu diria que
você deve estar pronta à uma hora.
— Certo.
— Posso presumir que vai tentar obter permissão para efetuar
uma escavação no jardim perto do Führerbunkerl
— Exatamente.
— Já viu o Führerbunker depois de 1961, quando foi fechado
pelo muro, Srta. Ashcroft?
— Já, sim. Passei por lá há três anos. E estou bem informada
sobre a Alemanha Oriental, através das pesquisas de meu pai.
: — Talvez eu possa pô-la a par de mais alguns fatos, antes de
seu encontro com o Professor Blaubach. E se quiser, terei o maior
prazer em servir como seu guia em Berlim Oriental.
— É mesmo? Seria maravilhoso, Sr. Nitz.
E agora estavam ali, no banco traseiro do Mercedes de Plamp,
Nitz concordando em chamá-la de Emily e ela concordando em chamá-
lo de Peter, aproximando-se de uma barreira cinzenta de concreto, de
aspecto sujo, à esquerda. Nitz mandou que o motorista parasse.
— Die Mauer — disse Nitz. — O muro.
— Assustador! — exclamou Emily.
Ela ficou olhando fixamente para a agressiva barreira de
concreto.
2 •Gorducho. (N. do T.)
— É difícil crer que foi levantado da- noite para o dia —
comentou Nitz. — A Deutsche Demokratische Republik — o governo
alemão oriental — insistiu na construção para proteger a sua população
de invasão ocidental. Mas nós sabemos que o problema não é bem este.
Nos doze anos anteriores à construção do muro, um quinto da
população de Berlim Oriental deixou suas casas e cruzou a fronteira
para a Alemanha Ocidental. No último mês antes da construção do
muro, mais de 140 mil alemães orientais fugiram para a Alemanha
Ocidental. Nos anos que transcorreram desde então, setenta e dois
berlinenses orientais foram mortos quando tentavam escalar o muro e
passar para a Alemanha Ocidental.
Nitz fez uma pausa, enquanto ordenava a Plamp que tornasse a
partir. Assim que estavam em movimento outra vez, ele voltou a falar:
— Todo o muro entre as duas Alemanhas estende-se por cerca
de 120 quilômetros, mais de 85 por cento originalmente em concreto
sólido, o resto composto por cercas de arame. O muro entre Berlim
Ocidental e Berlim Oriental tem cerca de 46 quilômetros. A altura média
é de três metros e meio. Bem aqui...
Emily percebeu que haviam feito uma curva e seguiam agora
num curso paralelo ao muro. Tornou a ver o que já contemplara na
visita anterior. O muro era uma confusão de graffiti — slogans e
desenhos — pintados em cada palmo. Tinha por cima, em toda a
extensão, uma espécie de cano de concreto.
— Além do muro, no lado alemão oriental, como já viu
pessoalmente — disse Nitz —, ainda há uma zona desmilitarizada, com
muito arame farpado e barreiras antitanque. Com abrigos subterrâneos
profundos. Essa chamada Zona de Segurança de Fronteira tem torres
de vigia de concreto a intervalos, cada uma ocupada por três soldados
alemães orientais empunhando metralhadoras ou usando binóculos. O
que restou do Führerbunker está dentro dessa zona. Não há muito para
ser ver, como sabe.
Emily notou que estavam diminuindo a velocidade, ao se
aproximarem de um terreno baldio, invadido pelo mato, com muitos ônibus e carros de turistas por perto, um mercado de barraquinhas, um
bar, uma loja de souvenirs com estantes giratórias de cartões-postais,
transparências coloridas e mapas à venda. À direita, a apenas uns doze
metros do muro, havia uma estrutura de observação, com uma
plataforma por cima, apinhada de turistas, espiando por cima do muro
para a área que era a Zona de Segurança de Berlim Oriental.
— Vamos estacionar aqui, na velha Potsdamer Platz, se quiser
— disse Nitz. — Achei que gostaria de dar uma olhada no local do
Führerbunker lá da plataforma.
— Acertou em cheio — respondeu Emily. — Minha última
olhada foi muito rápida. Mas agora que o Führerbunker é meu destino
final... ora, vamos lá!
Eles saíram do Mercedes e Emily seguiu Nitz até a base das duas
escadas de madeira e canos que subiam acima do muro. Juntos, foram
até a plataforma de observação. Tiveram que passar por meia dúzia de
turistas para chegarem à beira da plataforma. Mais uma vez, Emily
contemplou a terra de ninguém.
Havia uma torre de vigia guarnecida a alguma distância à
direita. Uma motocicleta cinza-marrom com um motorista e sidecar
ocupado se aproximava da torre, levando guardas para a troca, em
uniformes de um verde escuro. Havia ruas abandonadas, agora
intransponíveis pela instalação de cruzes de aço pontiagudas, e a
distância podia-se divisar uma cerca baixa e um portão, que dava
passagem aos soldados de Berlim Oriental. Nitz apontou para a frente e
anunciou:
— O Führerbunker.
Emily estreitou os olhos para observar. Nitz orientou-a.
— Está lembrada? Aquele monte de terra, como se fosse uma
corcova, seis ou sete metros de altura, à esquerda da estrada estreita
que os guardas usam, a cerca de 400 metros daqui de onde estamos.
— Estou vendo — murmurou Emily impressionada.
— Os russos meteram tratores na área em 1947, mas não
conseguiram nivelar por completo — comentou Nitz. — Aparentemente, limitaram-se a cobrir tudo, porque uma vez um alemão oriental pegou
uma pá e cavou tentando chegar ao bunker. Ele achava que poderia
criar um túnel para os refugiados alemães orientais que tentavam fugir.
O alemão foi detido, mas antes disso descobriu que uma parte dos
antigos aposentos de Hitler estava intacta, por baixo da terra. O jardim
da Chancelaria, onde você quer escavar, fica deste lado do monte de
terra. O que lhe parece?
Emily observava o monte de terra, fascinada.
— Parece difícil, mas pode-se fazer. Primeiro porém tenho de
obter uma autorização.
— Pois então vamos seguir viagem — disse Nitz, segurando-a
pelo cotovelo.
Depois que deixaram o posto de observação e voltaram ao banco
traseiro do Mercedes, o motorista Plamp virou o corpo rechonchudo por
trás do volante e fitou-os com uma expressão interrogativa, por trás dos
óculos de lentes marrom.
— Vamos agora para Checkpoint Charlie?
— Exatamente — declarou Emily.
Só quando chegaram à Friedrichstrasse é que Nitz voltou a falar:
— Há seis outros pontos de acesso a Berlim Oriental, mas este,
conhecido como Checkpoint Charlie, é o principal para os não-alemães.
Aproximaram-se de uma placa que dizia: Você está agora
deixando o setor americano. Em dois galpões de metal ao lado havia três
soldados. Nitz identificou-os como membros das polícias militares dos
exércitos britânico, francês e americano. Os guardas não lhes deram a
menor atenção e Plamp seguiu em frente, freando diante de uma
barreira com uma placa de Pare.
Um guarda alemão oriental magro e taciturno aproximou-se da
janela do motorista. Plamp mostrou os passaportes. O guarda levantou
a barreira e o Mercedes seguiu adiante. Do abrigo envidraçado, no alto
de uma torre de vigia e concreto, pintada de um amarelo desbotado,
dois outros guardas alemães orientais os observavam. Emily notou que
três caminhos com calçamento parcial de pedras saíam da barreira e que Plamp pegara o caminho interno. Parou o Mercedes um momento
depois e saltou, encaminhando-se para o primeiro dos três galpões
amarelos ao lado da rua, à direita. Nitz virou-se para Emily.
— Teremos de esperar uns quinze minutos — comentou ele. —
Já conhece a rotina. Plamp está mostrando outra vez nossos
passaportes, comprando setenta e cinco marcos alemães para nós três e
entregando ao controle alfandegário as declarações que preenchemos.
Certamente se lembra.
— Claro.
Plamp voltou em menos de quinze minutos e tornou a sentar ao
volante. Dois guardas alemães orientais surgiram no mesmo instante,
um em cada lado do Mercedes. Um deles abriu a porta para inspecionar
o interior do carro, espiando no porta-luvas, verificando as bolsas nas
portas, por baixo dos bancos. Emily observou o segundo guarda, que
ficara lá fora, levantar o capo do carro, fechá-lo, dar a volta abrir a
mala, fechar, depois pegar um cabo de vassoura com um espelho
retangular na extremidade, esticando-o por baixo do carro. Ela sacudiu
a cabeça, com uma expressão triste.
— Por que fazem isso? Sabem muito bem que as pessoas não
são contrabandeadas para dentro da Alemanha Oriental, mas apenas
para fora.
— Estão procurando contrabando de mercadorias. Sabem que
existe um enorme mercado negro na Alemanha Oriental, como não
podia deixar de ser.
A segunda barreira foi levantada. Plamp conduziu o Mercedes
devagar até uma terceira barreira. Outro guarda pegara os passaportes
e impassivelmente comparava as fotografias com seus rostos. Satisfeito,
devolveu os passaportes a Plamp, e a última barreira foi levantada.
O Mercedes seguiu em frente. Ainda estavam na
Friedrichstrasse, só que em Berlim Oriental. Emily deixou escapar um
suspiro.
— Peter, será que o Professor Blaubach sabe o que acontece
nesta passagem?
— Deve saber — respondeu Nitz, sorrindo. — Afinal, é um dos
líderes do governo da Alemanha Oriental.
— Mas ele parece tão simpático...
— E tenho certeza de que é mesmo simpático. Acontece apenas
que seu país é paranóico.
Ao se aproximarem de um sinal de trânsito vermelho, na
Leipziger Strasse, Emily inclinou-se para a frente e disse ao motorista:
— Leve-nos ao Portão de Brandemburgo. Depois, quero descer
devagar pela Unter den Linden, para poder contemplá-la de novo. Em
seguida vamos para o endereço que lhe dei, na Marx-Engels Platz, onde
fica o gabinete do Professor Blaubach.
— Mas antes deixe-me no Café am Palast — interveio Nitz. —
Depois, leve Fraulein Ashcroft para o seu encontro, fique esperando e
me pegue na volta.
Plamp assentiu.
Poucos minutos depois Emily viu e reconheceu o Portão de
Brandemburgo, pela janela do carro. As três partes do monumento, as
menores e a central enorme, podiam ser vistas além da curva de uma
cerca baixa de madeira.
— É realmente imponente — comentou ela. — E é irônico que a
escultura esverdeada lá em cima seja chamada de Deusa da Paz.
Ao virarem à direita, numa artéria larga, Emily murmurou,
emocionada:
— Como é linda a Unter den Linden...
E era mesmo linda, uma das avenidas mais sombreadas e
graciosas que ela já conhecera. As calçadas eram largas e havia lojas
atraentes nos dois lados, com um canteiro central estreito e todo
plantado, árvores frondosas por toda a sua extensão. Emily voltou o
rosto para Nitz.
— Estou sempre esquecendo que aqui era o coração da Berlim
de Hitler, como descrevemos em nosso livro, antes de Berlim se tornar
uma cidade dividida e os berlinenses orientais ficarem com a principal
artéria.
— Mas os berlinenses ocidentais ficaram com a parte maior da
indústria, parques, lagos, habitantes.
— Tem razão — admitiu Emily.
Enquanto o Mercedes avançava pela Unter den Linden, Emily
pôde constatar que a avenida estava desimpedida à frente.
— Quase não há carros por aqui — comentou ela.
— Porque os carros ainda são muito caros, exceto para os
diplomatas e autoridades da DDR. — Nitz apontou para os automóveis
estacionados ao longo do canteiro central, fixando-se num modelo
compacto. — Aquele é o mais popular, o Prabant. Sabia que a carroceria
é feita de papel prensado? Funciona com um motor de motocicleta de
dois cilindros. Custa o equivalente a 5.400 libras. O alemão oriental
médio ganha em torno de mil marcos por mês, o que dá cerca de 150
libras. Mas quase não tem em que gastar dinheiro e por isso pode
economizar para comprar um carro assim. Pode levar seis anos de
economia e espera para obter um Prabant. Levaria ainda mais tempo
para ter o Eisenach, que é aquele ali, e o Wartburgh, aquele outro.
Estes têm a carroceria de metal, e também são fabricados neste lado do
muro. Quanto aos outros carros... Aquele é um Skoda tcheco, e o que
está ao lado é um Landa, produzido pela Fiat na Itália para a União
Soviética.
— Não estou vendo nenhum soldado russo.
— Nem vai ver. Não na cidade. Estão todos fora de Berlim
Oriental, um vasto exército.
Enquanto o Mercedes continuava a seguir pela Unter den
Linden, Emily estudou mais atentamente os prédios nos dois lados. À
esquerda, ficavam, a embaixada húngara e a embaixada polonesa, à
direita a embaixada soviética, com um busto em mármore branco de
Lênin no pátio. Depois, uma loja de Meissner Porzellan, uma agência da
Aeroflot, uma loja de alimentos importados, exibindo na vitrine
produtos do Vietnã e da China.
Gradativamente, as estruturas foram se tornando mais
grandiosas. A Universidade Humboldt, estudantes entrando e saindo. O Neve Waches — o Monumento às Vítimas do Fascismo e Militarismo —
com sua chama eterna no interior, a troca de guarda em passo de ganso
no exterior.
— Se não se importa, Plamp — disse Nitz de repente —, vou
saltar na esquina.
— Por quê? — indagou Emily surpresa. — Para onde vai?
— Atravessarei a rua até o Café em Palast. Fica na esquina do
novo Palast Hotel, com 600 quartos, construído pelos suecos para os
alemães orientais. Não se preocupe comigo, Emily. Ficarei lendo os
jornais locais e tomando chá, talvez coma algum doce. E Irwin a levará
ao seu gentil Professor Blaubach.
Nitz abriu a porta do carro e saltou na esquina. Antes de fechar
a porta, no entanto, acrescentou:
— Não se esqueça, Emily, que você se encontra agora no meio
do setor que foi outrora o orgulho e a alegria de Adolf Hitler. A Velha
Chancelaria do Reich ficava por aqui; agora é um estacionamento. E
dentro da Zona de Fronteira ficava o Führerbunker. As ruínas do
poderoso Terceiro Reich, o Reich de Hitler destinado a durar mil anos,
mas que sobreviveu apenas por doze anos e três meses.
Ele fez uma pausa, sorrindo, antes de arrematar:
— O Terceiro Reich com seus mistérios. Não deixe de aproveitar
a oportunidade para deslindá-los.
Recostando-se na cadeira, em frente à mesa de carvalho
envernizado do Professor Otto Blaubach, Emily compreendeu que
aquele era o seu lance inicial para resolver um dos maiores mistérios do
século XX, e que teria de dar certo, se quisesse seguir adiante.
Observou o Professor Blaubach encaminhar-se para a cadeira
giratória de couro preto por trás da mesa. Ele quase não mudara desde
a última vez em que o vira, há três anos. Parecia um pouco mais velho,
um pouco mais lento, porém os cabelos grisalhos estavam
impecavelmente penteados, a gravata-borboleta, o colete e o terno
cinza-escuro eram imaculados. Usava os óculos de aros de ouro sobre o
nariz estreito e pontudo. Ao cumprimentá-la, sua expressão era gentil como sempre, vincada por linhas de simpatia, embora sua atitude ainda
fosse reservada. Ele estava se sentando agora, puxando a cadeira para
perto da mesa.
— Quer beber alguma coisa, Srta. Ashcroft? Uma bebida
alcoólica ou um refresco, como quiser.
— Não, obrigada. Não quero tomar muito do seu tempo. —
Emily sorriu. — Chamou-me de Emily nas outras vezes em que nos
encontramos.
— É mesmo? Devia ser porque estava com seu pai e me pareceu
uma pessoa mais jovem. Agora... agora já é uma mulher adulta,
conquistando a sua própria reputação na televisão. Mas tem toda razão.
Usar Srta. Ashcroft parece mesmo impróprio, levando-se tudo em
consideração. Será Emily. — Ele pegou da escrivaninha uma espátula
de aço espanhol de Toledo, com a forma de um florete em miniatura,
enquanto acrescentava: — Quer dizer que tenciona prosseguir do ponto
em que seu pai parou?
— Foi o que me trouxe a Berlim e até aqui. Meu pai estava
muito grato por o senhor ter obtido permissão para ele escavar, antes
do acidente.
— E deseja agora fazer o que ele havia planejado. Quer escavar
o jardim ao lado do Führerbunker.
— Isso mesmo, o jardim. — Num súbito impulso, Emily
acrescentou: — E também o bunker.
O Professor Blaubach alteou as sobrancelhas.
— O Führerbunker também?
Emily fez um esforço para compreender o impulso que a levara a
acrescentar o bunker. Concluiu que fora algo mais que um mero
impulso. Lembrou as duas provas que o Dr. Max Thiel lhe sugerira que
procurasse. A verdadeira ponte de ouro de Hitler, com seu pequeno
gancho. E o camafeu, com o rosto de Frederico o Grande. Se não
estivessem na cova rasa ou na cratera de bomba no jardim, havia ainda
a possibilidade de Hitler tê-los deixado em algum lugar dos seus
aposentos particulares, no bunker subterrâneo. Se nada descobrisse no jardim, uma busca no bunker soterrado poderia ser útil.
— Isso mesmo. Seria uma boa idéia tentar o bunker depois de
escavar o jardim.
— Hum... O bunker pode nos causar algum problema. Nós o
soterramos... ou melhor, os soviéticos o fizeram... passando tratores por
cima, a fim de escondê-lo do público. Eles receavam que nazistas
empedernidos pudessem procurá-lo como o santuário de um mártir.
Uma escavação no bunker deixaria alguns dos meus colegas
apreensivos.
— Deixarei apenas uma pequena área descoberta, Professor, por
um ou dois dias, apenas para a minha busca. E depois cobriria tudo.
Voltaria a ser o que é, um monte de terra. Não haveria santuário algum.
Blaubach aceitou a explicação.
— Comunicarei suas intenções a meus colegas no conselho.
Provavelmente superarão as objeções. — Ele virou a espátula,
lentamente. — Imagino que não está procurando mais pelos corpos de
Hitler e Eva Braun? Imagino que há algo mais.
— Meu pai lhe contou o que estava procurando?
— Devo confessar que não. Foi reticente nesse ponto. Falou
apenas em termos gerais. Comentou que alguns antigos ocupantes do
bunker haviam revelado recentemente outros meios para determinar o
momento da morte de Hitler. Não pressionei seu pai. Éramos velhos
amigos. Ele merecia a minha confiança absoluta. Mas se mostrou
reticente.
Ela então também devia se comportar assim, pensou Emily. O
pai não revelara o nome do informante, Dr. Thiel, ela também não devia
revelá-lo. É claro que Blaubach merecia confiança, mas prometera ao
Dr. Thiel que não divulgaria a fonte das suspeitas do pai e suas sobre a
morte de Hitler.
— Quero apenas procurar alguns artefatos, como meu pai
planejava fazer — disse Emily, evasiva. — É provavelmente um tiro no
escuro, mas se eu tiver alguma sorte, pode confirmar que Hitler e sua
Eva morreram exatamente como a história nos conta... ou que ambos enganaram a todos e sobreviveram. Blaubach largou a espátula na
mesa.
— Claro que vou cooperar com você, Emily, como deseja. Não
me agrada a idéia de vê-la desapontada. Mas, para ser franco, acho que
seu empreendimento... essa escavação... será inútil.
— Por quê?
— Depois de tomar Berlim, o exército soviético despachou cinco
grupos dos seus melhores soldados para vasculhar a área, à procura
dos restos mortais de Hitler. Examinaram a cova rasa, a cratera da
bomba, os aposentos no Führerbunker. O que encontraram de Hitler e
Eva Braun... o que restava de seus corpos... e alguns documentos... foi
devidamente divulgado. Duvido que os russos tenham deixado passar
alguma coisa desapercebida.
Era difícil, mas Emily manteve-se firme.
— Se me permite dizer, Professor Blaubach, as pesquisas de
meu pai sobre as conclusões soviéticas foram meticulosas. Estudei
todas as suas anotações. E estou convencida de que os soviéticos
realizaram uma investigação apressada e fortuita em torno e dentro do
bunker. E acho que o assunto merece mais um esforço.
— Talvez você tenha razão sobre os nossos amigos russos. Eles
nem sempre são tão eficientes quanto gostam de aparentar. Mas sabia
que eles não foram os últimos a investigar a área do Führerbunker!
— Pela nossa documentação, sei que houve outros.
— Exatamente. Não são muitas as pessoas que sabem que,
depois que os russos concluíram suas investigações, em maio e junho
de 1945, os outros Aliados, principalmente membros dos serviços
secretos britânico e americano, solicitaram permissão, a 3 de dezembro
de 1945, para examinar de novo a área. A 30 de dezembro os russos
concederam permissão para que escavassem por um ou dois dias.
Usando oito trabalhadores alemães, os Aliados ocidentais vasculharam
o local, mas não encontraram novos corpos que parecessem com Hitler
e Eva Braun. Descobriram algumas peças de roupa com o monograma