Os Favoritos de Fortuna

Colleen McCullough · Capítulo 7 de 15 · parte 3/5

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Os Favoritos de Fortuna

— Entra, homem, vá!

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

com Metelo Nepos, com quem ela veio a casar-se mais tarde. Portanto, Múcia Tércia tem dois meios-irmãos que são Cecílios Metelos — Nepos Júnior e Célere. Um belo quadro de parentescos, não achas, Magno? com tão boa linhagem, não é justo que fique viúva o resto da vida, pois não? E, para mais, viúva de um proscrito! O meu querido amigo Bacorinho, que é primo dela, tem-me andado a atazanar o juízo por causa disso. — Sila recostou-se na sua cadeira. — Então, Magno, achas que ela serve?

— Se serve? — retorquiu Pompeu, ofegante de excitação. — Não podia ser melhor! — Óptimo — disse Sila. A montanha de trabalho que tinha sobre a secretária parecia chamá-lo; Sila debruçou-se sobre alguns dos papéis. Ao fim de um momento, ergueu a cabeça e lançou a Pompeu um olhar perplexo. — De que estás à espera, Magno? Eu escrevi a Múcia Tércia, dizendo-lhe que devia casar-se de novo. Por isso não há qualquer impedimento — disse Sila. — Vá, deixa-me só. Ah, e não te esqueças de me convidar para o casamento! Pompeu correu a casa para tomar banho e mudar de roupa; enquanto isso, os seus criados puseram-se em acção para descobrir onde moraria agora Múcia Tércia. Conhecida a morada, Pompeu dirigiu-se imediatamente a casa de Júlia, deslumbrando toda a gente com a brancura da sua toga e espalhando à sua volta um intenso odor a perfume de rosas. A filha de Cévola! A sobrinha de Crasso Orador! Parente dos mais importantes Cecílios Metelos! Isso significava que os filhos que ela lhe havia de dar seriam parentes de algumas das mais importantes famílias de Roma! Ah, que lhe interessava a ele que ela fosse viúva do jovem Mário! Nem que ela fosse tão feia como a Sibila de Cumas, havia de ser sua esposa! Feia? Mas ela não era nada feia! Era uma mulher muito estranha e muito bela. Cabelo ruivo-escuro, olhos verdes-escuros, uma pele muito branca, impecável. Ah, e aqueles olhos? Não havia outros iguais em todo o mundo! Ah, mas que delícia de mulher! Pompeu apaixonou-se loucamente por ela ao primeiro olhar, ainda antes de terem trocado uma única palavra. Não admira, pois, que quase não tivesse reparado nas outras pessoas que estavam na sala, mesmo depois de as ter cumprimentado. Foi buscar uma cadeira, sentou-se ao lado de Múcia Tércia e, muito nervoso, pegou-lhe na mão.

— Sila diz que vais casar comigo — disse Pompeu, sorrindo para ela com os seus dentes brancos e uns olhos azuis muito brilhantes.

— Eu não sabia de nada — disse ela, sentindo, inesperadamente, que a sua antipatia começava a dissipar-se, e isso porque aquele homem exultava de felicidade, além de ser, de facto, muito atraente.

— Pois foi o que Sila decidiu — retorquiu Pompeu, ofegante de excitação. — Mas tens de admitir que ele se preocupa em fazer o melhor para todos nós. — É natural que penses assim — interveio Júlia, num tom gélido. — Não creio que tenhas razões de queixa! Afinal, tratou-te melhor do que a todas as outras viúvas de prescritos — replicou, com muito pouco tacto, o apaixonado, de olhos postos na futura esposa.

Júlia quase lhe respondia que Sila fora o responsável pela morte do seu único filho. Mas reflectiu um pouco e calou-se: aquele parvo, pensou, estava demasiado ligado a Sila para poder ver o outro lado da questão.

Quanto a César, sentado a um canto da sala, examinava atentamente Cneu Pompeu Magno, que nunca antes vira. Pelo aspecto, não era um verdadeiro Romano: as marcas gaulesas, comuns aos Picentinos, eram demasiado óbvias no nariz arrebicado, no rosto largo, na covinha do queixo. Quanto ao que dizia, não tinha nada de romano, isso era mais que certo; era espantosa a sua total ausência de subtileza. Miúdo Carniceiro. A alcunha assentava-lhe bem. — Que achas dele? — perguntou Aurélia a César, a caminho de Subura, sob o sol do meio-dia.

— Seria mais adequado perguntar: que acha Múcia dele?

— Ah, gostou imenso dele. Muito mais do que alguma vez gostou do jovem Mário. — Também não era difícil, Mater.

— Não.

— A tia Júlia vai sentir-se muito só, sem ela.

— É verdade. Mas Júlia tem sempre muito que fazer. Acabará por encontrar novas ocupações.

— É pena ela não ter netos.

— A culpa é toda do jovem Mário! — retorquiu acerbamente Aurélia. Estavam quase a chegar à Vicus Patricius quando César voltou a falar. — Mãe,vou ter de voltar à Bitínia — disse ele.

— À Bitínial Mas isso não é sensato, meu filho!

— Eu sei. Mas dei a minha palavra ao rei.

— Uma das novas regras de Sila não obriga todos os senadores a pedir autorização sempre que queiram deixar a Itália?

— Obriga, sim.

— Então, ainda bem — retorquiu Aurélia, satisfeita. — Deves mostrar a maior franqueza quanto ao destino da tua viagem. E, para além de Burgundo, deves levar Eutico. — Eutico? — César parou para olhar para ela. — Mas Eutico é o teu chefe dos criados! Como é que te vais arranjar sem ele? E por que raio é que ele há-de ir comigo? — Eu cá me arranjarei sem ele. E acho que ele deve ir contigo porque Eutico é natural da Bitínia. Deves dizer ao Senado que o teu liberto, que, para além do mais, é o teu chefe dos criados, tem de se deslocar à Bitínia para tratar dos seus negócios e que tu tens de acompanhá-lo, como é dever de qualquer patrão que se preze.

César desatou a rir.

— Sila tem toda a razão! Tu de vias ter sido um homem. E és tão romana! Tão subtil! Atiro-lhes à cara com o verdadeiro destino da minha viagem, em vez de fingir quevou à Grécia, o que seria errado, pois acabaria por ser descoberto na Bitínia. Sim, porque as mentiras são sempre descobertas. — Nesse instante, ocorreu-lhe um outro pensamento. — A propósito de subtileza. Aquele Pompeu é tudo menos subtil, não achas? Quando ele disse aquilo à tia Júlia, só me apeteceu dar-lhe um murro em cheio naquela cara! E, por todos os deuses, que fanfarrão que ele é!

— Um fanfarrão em tudo, suspeito — disse Aurélia.

— Ainda bem que o conheci — disse César, com um ar grave. — Ele mostrou-me que a nódoa que afecta a minha reputação pode vir a revelar-se uma boa coisa. — Que queres dizer com isso?

— Até agora, nada nem ninguém conseguiu pôr Pompeu no lugar que lhe compete. Ele tem um lugar nesta sociedade — mas um lugar que não é tão elevado nem tão digno como ele pensa.

As circunstâncias ajudaram-no a construir uma imagem de si mesmo que tem pouco a ver com a realidade. Até agora, foi-lhe dado tudo o que ele quis. Até mesmo uma noiva muito acima dos seus méritos. Por isso, ele habituou-se a pensar que as coisas hão-de ser sempre assim. Mas é evidente que não serão. Um dia, as coisas hão-de correr-lhe terrivelmente mal. E ele achará a lição intolerável. Eu, pelo menos, já aprendi a lição.

— Achas mesmo que Múcia está acima dos méritos dele?

— Porquê? Tu não achas? — perguntou César, surpreendido. — Não, não acho. O nascimento dela é irrelevante para o caso. O que é importante é que Múcia foi a esposa do jovem Mário, e foi-o porque o pai, por conveniência, a deu em casamento a um filho de um Homem Novo. Ora, Sila não esquece esse género de coisas. Não esquece, nem perdoa. Ele deslumbrou aquele simplório com o nascimento dela. Mas não lhe explicou todas as razões que o levavam a dar Múcia em casamento a um homem que lhe é inferior.

— Astucioso!

— Sila é uma raposa, como todos os homens ruivos desde Ulisses. — Então é uma boa ideia eu afastar-me de Roma.

— Até que Sila deixe o poder?

— Até que Sila deixe o poder. Ele diz que isso acontecerá depois de organizar as eleições para os cônsules de daqui a dois anos. Ou seja, talvez dentro de onze meses, se ele realmente realizar as suas pretensas eleições em Quinctilis. Os cônsules do próximo ano serão Servílio Vátia e Ápio Cláudio. Mas não sei em quem é que ele está a pensar para daqui a dois anos. Catulo, provavelmente.

— E Sila ficará em segurança, depois de deixar o poder? — perguntou Aurélia. — Absolutamente — asseverou César.

LUCIUS UCINIUS LOCULUS

— Terás de ir para Hispânia — disse Sila a Metelo Pio. — Quinto Sertório está a apossar-se rapidamente de todo o território.

Metelo Pio fitou o seu chefe com um ar algo reprovador.

— Não contes comigo! — disse ele, num tom razoável. — Quinto Sertório tem a-a-amigos entre os Lusitanos e é muito forte a oeste de Bétis, ma-ma-mas tu tens bons governadores em ambas as províncias hispânicas.

— Terei mesmo? — retorquiu Sila, agastado. — Pois já não tenho! Acabo de receber a notícia de que Sertório derrotou Lúcio Fufídio. E porquê? Porque esse louco que dá pelo nome de Fufídio foi estúpido ao ponto de lhe oferecer batalha. Quatro legiões! Apesar de ter quatro legiões, Fufídio não conseguiu vencer Sertório, que só tinha sete mil homens, sendo apenas um terço deles Romanos!

— Sim, claro, ele trou-trou-trouxe Romanos da Mauritânia, na Primavera passada — disse Metelo Pio. — Os outros, são Lusitanos?

— Selvagens, meu caro Bacorinho! Não valem um caracol debaixo da sola de uma coliga romana! Mas, pelos vistos, são capazes de derrotar Fufídio! — Oh... Edepol!

Por uma razão que o Bacorinho nunca enxergara, aquela imprecação moderada produzia sempre em Sila um efeito hilariante: ria até mais não. Só ao fim de algum tempo é que o Ditador conseguiu controlar-se o suficiente para abordar de forma mais desenvolvida o melindroso assunto das Hispânias.

— Repara, Bacorinho, que eu conheço Quinto Sertório há muito tempo. Tal como tu, aliás! Se Carbão tivesse conseguido mantê-lo em Itália, talvez eu não tivesse obtido a vitória da Porta Colina porque, provavelmente, era derrotado muito antes disso. Sertório tem pelo menos tanto valor como Caio Mário e a Hispânia é, desde há

muito tempo, a sua terra de eleição. O ano passado, quando Lusco conseguiu expulsá-lo de Hispânia, pensei que o miserável se transformasse num mercenário mauritano e nunca mais voltasse a causar-nos problemas. Pensei mal. E pensei mal, porque Sertório começou por conquistar Tíngis ao rei Ascális e acabou por matar Pacciano, ficando com as suas tropas romanas. Agora, está de volta à Hispânia Ulterior, e já conseguiu transformar os Lusitanos em militares tão bons como os Romanos. Por tudo isto, terei de te nomear governador da Hispânia Ulterior — e deveras partir logo no Ano Novo e não na Primavera. — Sila pegou numa folha e estendeu-a a Metelo Pio com um ar exultante. — Terás oito legiões! Pelo menos para essas oito legiões não terei de arranjar terras... E, se partires em fins de Dezembro, poderás embarcar directamente para Gades.

— Um grande cargo — comentou o Pontifex Maximus com genuína satisfação, pois não lhe desagradava nada afastar-se de Roma durante uns bons anos — mesmo que isso significasse que tinha de enfrentar Sertório. Não teria cerimónias religiosas para realizar, não perderia mais noites de sono por causa da sua gaguez. De facto, bastava-lhe sair de Roma para que o seu problema desaparecesse imediatamente — sempre fora assim. Entretanto, lembrou-se de outra coisa. — E quem vais nomear para o governo da Hispânia Citerior? — Marco Domício Calvino, acho eu.

— E Curió? É um bo-bo-bo-bom general.

— Para Curió estou a pensar em África. Calvino é o homem ideal para te apoiar numa campanha difícil e demorada. Curió era capaz de se revelar demasiado independente — disse Sila. — Sim, sim, estou a perceber.

— Calvino poderá levar seis legiões. O que dá um total de catorze legiões. com certeza que chegam e sobram para domar Sertório!

— Num abrir e fechar de olhos — disse o Bacorinho, entusiasmado. — Nã-nã-não temas, Lúcio Cornélio! A Hispânia está se-se-segura!

Sila desatou a rir, de novo.

— Mas por que hei-de eu temer, Bacorinho? Por que hei-de eu preocupar-me? Quando tu voltares, meu caro Bacorinho, já eu estarei morto!

Chocado, Metelo Pio estendeu as mãos abertas num gesto de protesto.

— Francamente, Lúcio Cornélio! Que disparate! Tu és um homem relativamente jovem!

— De acordo com uma profecia, eu morrerei no auge da fama e do poder — disse Sila, sem demonstrar medo nem pesar. — Deixarei o poder no próximo Quinctilis, Pio, e retirar-me-ei para Miseno para uma última e gloriosa aventura, recheada de todas as folganças possíveis e imagináveis. Não será uma longa aventura, masvou gozar todos os seus momentos! — Os profetas são algo de anti-romano — replicou Metelo Pio com um ar austero. — Ambos sabemos que as suas profecias erram mais do que acertam. — Não é o caso deste profeta — disse firmemente Sila. — Era um profeta caldeu e adivinho do rei dos Partos.

Metelo Pio achou mais sensato deixar-se de contestações; em vez disso, lançou-se numa longa discussão sobre a campanha hispânica.

Para dizer a verdade, o trabalho de Sila era agora praticamente nulo. A enxurrada legislativa terminara e a nova constituição parecia em condições de resistir a todos os afrontamentos, mesmo depois de Sila deixar o poder; a distribuição de terras pelos seus veteranos, um dos principais escolhos da sua governação, parecia ter chegado a uma fase de absoluta acalmia; e até Volaterras tinha finalmente caído em poder dos Romanos. Apenas Nola — o mais antigo e encarniçado inimigo de Roma, entre todas as cidades de Itália — continuava a resistir ao ímpeto romano.

Sila fizera o que pudera, e descuidara muito pouco. O Senado era agora um corpo dócil, as Assembleias estavam praticamente impotentes, os tribunos da plebe não passavam de figuras decorativas, os seus tribunais eram um êxito popular porque eram muito mais práticos que os antigos tribunais, e os futuros governadores das províncias estavam rigorosamente controlados. O Tesouro estava cheio e os seus burocratas eram implacavelmente obrigados a seguir uma conduta honesta. Se a Ordo Equester pensava que a perda de mil e seiscentos cavaleiros, vítimas das proscrições, não era lição que chegasse, Sila tratou de a esclarecer, retirando aos cavaleiros do Cavalo Público todos os seus privilégios sociais e permitindo o regresso a Roma a todos os homens exilados por tribunais com júris constituídos por cavaleiros. Como seria de esperar, havia peculiaridades nas suas leis. As mulheres não deixaram de ser penalizadas uma vez mais, quando ele proibiu qualquer mulher culpada de adultério de se voltar a casar. O jogo (que Sila detestava) estava proibido, excepto nos torneios de pugilismo ou atletismo, torneios que, como ele muito bem sabia, não atraíam multidões. Mas a principal peculiaridade era o tratamento reservado aos funcionários públicos, que Sila desprezava, pois considerava-os desorganizados, desleixados, preguiçosos e corruptos. Por isso, regulou todos os aspectos do trabalho dos funcionários públicos de Roma: secretários, escriturários, escribas, contabilistas, arautos, lictores, mensageiros, os assistentes sacerdotais chamados calatores, os homens que lembravam aos outros homens os nomes de terceiros — nomenclatores — e todos aqueles que não tinham funções precisas e que, por isso, se chamavam apparitores. De futuro, nenhum destes homens poderia saber em que serviço ficaria quando os novos magistrados assumissem funções; nenhum magistrado poderia requisitar um funcionário específico. Os sorteios seriam feitos com três anos de antecedência e nenhum grupo serviria em princípio o mesmo tipo de magistrado.

Sila encontrou novas formas de importunar o Senado, depois de ter banido todas as demonstrações ruidosas de aprovação ou reprovação e de ter alterado a ordem pela qual os senadores falavam; promulgou uma lei que afectava severamente os rendimentos de certos senadores mais necessitados, limitando o total de dinheiro que as delegações provinciais podiam gastar quando vinham a Roma entoar os cânticos de louvor a um ex-governador, o que implicava que estas delegações, ao contrário do que sucedera noutros tempos, não poderiam dar dinheiro a certos senadores mais necessitados dele.

Era todo um programa de leis que cobria todos os aspectos da vida pública romana, tal como muita da vida romana até então privada. Toda a gente sabia dentro de que parâmetros se podia mover — quanto podia gastar, quanto podia receber, quanto pagava para o Tesouro, com quem podia casar, onde seria julgado e por que acusação seria julgado. Um empreendimento gigantesco e que parecia ter sido realizado por um único homem, sem ajuda de mais ninguém. Se os cavaleiros tinham caído em desgraça, os heróis militares tinham subido a alturas raramente vistas. A Assembleia da Plebe e os seus tribunos tinham perdido todo o poder, mas o Senado acumulara poderes. Os parentes próximos dos proscritos estavam na mó de baixo, mas homens como Pompeu, o Grande, estavam claramente na mó de cima. Os advogados que se tinham distinguido nas Assembleias (como Hortênsio) não eram mais que uma sombra de si mesmos; ao passo que os advogados que se distinguiam na atmosfera mais íntima dos tribunais (como Cícero) atingiam os cumes da glória. — Não admira que Roma ainda esteja com a cabeça à roda, apesar de eu não ouvir uma única voz contestando Sila — disse o novo cônsul, Ápio Cláudio Fulcro, ao seu colega no consulado, Públio Servílio Vátia.

— E uma das razões para essa ausência de contestação é que muitas das leis foram ditadas pelo bom senso — retorquiu Vátia. — Até nisso Sila é espantoso! Ápio Cláudio aquiesceu sem entusiasmo, mas Vátia não interpretou mal aquela apatia; o seu colega não estava bem desde que regressara do inevitável cerco de Nola — pelo seu aspecto, dir-se-ia que tinha estado em Nola um ror de tempo. Além disso, Fulcro estava viúvo e tinha seis filhos famosos pela sua indisciplina e pela desagradável tendência de travarem verdadeiras batalhas campais em público.

Compacedendo-se dele, Vátia deu-lhe umas ternas palmadinhas nas costas. — Ora, Ápio Cláudio, olha para o teu futuro com mais esperança! Tem sido um caminho longo e árduo, mas finalmente chegaste ao teu destino! — Só chegarei ao meu destino quando tiver restaurado a fortuna da minha família — retorquiu Ápio Cláudio, com um ar taciturno.

— Aquele miserável do Filipe tirou-me tudo o que eu tinha para dar a Cina e a Carbão. E Sila não me devolveu nada.

— Devias ter-lhe falado disso — disse Vátia. — Não te esqueças que ele tinha muito que fazer. Porque é que não compraste propriedades durante as prescrições? — Não te esqueças que eu estava em Nola nessa altura — retorquiu o infeliz Ápio Cláudio.

— No próximo ano irás governar uma província. Isso resolverá todos os problemas. — Se a minha saúde agüentar.

— Oh, Ápio Cláudio! Deixa-te de tristezas! Por todos os deuses, ainda hás-de viver muitos anos!

— Não sei — replicou Fulcro, pessimista. — com a sorte que eu tenho, ainda me mandam para a Hispânia Ulterior, para substituir Pio.

— Prometo-te que isso não acontecerá — disse Vátia, tentando consolá-lo. — Se tu não defenderes os teus interesses junto de Sila, fá-lo-ei por ti! Pedir-lhe-ei que te dê a Macedónia. A Macedónia sempre foi um bom sítio para juntar umas sacas de ouro e para arranjar importantes contratos locais. Isto para não falar da possibilidade de vender a cidadania a gregos ricos. — Pensava que já não havia disso — disse Ápio Cláudio. — Há sempre homens ricos, mesmo nos países mais pobres do mundo. Fazer dinheiro é algo que faz parte da natureza de alguns homens. Nem mesmo os Gregos, com todo o seu idealismo político, conseguiram erradicar os ricos! Nem mesmo a República de Platão conseguiria extingui-los!

— É o caso de Crasso, não é?

— Ora aí está um exemplo magnífico! Qualquer homem teria mergulhado na total obscuridade depois de Sila lhe ter virado as costas. Mas não o nosso Crasso! Pulcro e Vátia encontravam-se na Cúria Hostília, onde decorria a reunião inaugural do Senado do Dia de Ano Novo, porque o templo de Júpiter Optimus Maximus não fora ainda reconstruído e os templos de Júpiter Stator e Castor eram demasiado pequenos para abrigar tantos senadores.

— Xiu! — fez Ápio Cláudio. — Sila vai falar.

— Pais Conscritos — começou o Ditador, com uma voz jovial —, posso dizer que, basicamente, está tudo feito. Era minha intenção confessa pôr Roma de pé e promulgar novas leis que cumprissem as normas da mos maiorum. Foi isso que fiz. Mas continuarei a ser o Ditador até Quinctilis, altura em que organizarei as eleições para os magistrados do próximo ano. Isto, já vocês sabem. Contudo, acredito que alguns de vós são capazes de pensar que um homem com tanto poder dificilmente se submeteria à ideia de demitir-se. Repito, por isso, que deixarei o cargo de Ditador depois das eleições de Quinctilis. Isto significa que os magistrados do próximo ano serão os últimos escolhidos pessoalmente por mim. Nos anos futuros, todas as eleições serão livres, abertas a tantos candidatos quantos os que pretenderem disputá-las. Há quem tenha reprovado o facto de o Ditador escolher os seus magistrados, apresentando tantos nomes quanto os cargos que é preciso preencher. Porém — como sempre defendi! — o Ditador tem de trabalhar com homens preparados para o apoiarem de alma e coração. Não podemos confiar que o eleitorado escolha os melhores homens, pois, muitas vezes, nem sequer escolhe os homens que merecem os cargos devido à sua posição ou experiência. Por isso, na qualidade de Ditador, tenho escolhido os homens com quem desejo trabalhar e que, de um ponto de vista moral e ético, mereciam os cargos. É o caso do meu querido Pontifex Maximus, Quinto Cecílio Metelo Pio. Ele continua a ser digno do meu apreço, pois, neste momento, está já a caminho da Hispânia Ulterior, onde irá combater aquele criminoso que dá pelo nome de Quinto Sertório.

— Está a divagar — disse Catulo, cinicamente.

— Porque não tem nada para dizer — disse Hortênsio.

— A não ser que se demite em Quinctilis.

— E olha que eu começo a acreditar nele.

Mas esse primeiro dia do ano, que começara tão auspiciosamente, iria acabar com más notícias, chegadas, com bastante atraso, de Alexandria.

Ptolemeu Alexandre, o Novo, vira finalmente chegar a sua hora no início do ano anterior, o segundo ano do reinado de Sila. De facto, recebera nessa altura a notícia de que o rei Ptolemeu Soter Grão-de-Bico tinha morrido e que a sua filha, a rainha Berenice, reinava agora sozinha. No entanto, de acordo com a lei egípcia, Berenice não podia ocupar o trono sem ter um rei a seu lado. Os emissários de Alexandria pediram então a Lúcio Cornélio Sila que concedesse ao Egipto um novo rei, na pessoa de Ptolemeu Alexandre, o Novo. — Que acontece, se eu recusar? — perguntou Sila.

— Se tu recusares, o rei Mitridates e o rei Tigranes conquistarão o Egipto — respondeu o chefe da delegação. — O trono tem de ser ocupado por um membro da dinastia ptolemaica. Se Ptolemeu Alexandre não for coroado rei e faraó, teremos de pedir a Mitridates e a Tigranes que nos entreguem o mais velho dos dois bastardos, Ptolemeu Filadelfo, a quem puseram o apelido de Auleta por causa da sua voz aflautada.

— Percebo perfeitamente que um bastardo possa assumir o título de rei. Mas quanto ao título de faraó: poderá assumi-lo

legalmente? — perguntou Sila, revelando assim que estudara a história da monarquia egípcia.

— Se ele fosse filho de uma mulher vulgar, por certo que não — foi a resposta. — Contudo, Auleta e o irmão são filhos de Ptolemeu Soter e da princesa Arsínoe, a concubina real, que era a mais velha das filhas legítimas do rei da Nabateia. Tem sido um costume de todos os pequenos reis da Arábia e da Palestina enviar as filhas mais velhas para o Egipto, onde se tornam concubinas do faraó, pois esse é um destino mais augusto e respeitável do que casar com outros pequenos reis — e, por outro lado, esse contrato proporciona uma maior segurança aos seus pais, os quais precisam da cooperação egípcia para realizarem as suas actividades comerciais no Sinus Arabicus e nos diversos desertos.

— Estás portanto a dizer-me que Alexandria e o Egipto aceitariam um dos bastardos ptolemaicos por a sua mãe ser de estirpe regia?

— Se não podermos dispor de Ptolemeu Alexandre, isso será inevitável, Lúcio Cornélio. — Marionetas de Mitridates e de Tigranes — disse Sila, com um ar pensativo. — Como as esposas deles são filhas de Mitridates, também isso será inevitável. Tigranes encontra-se demasiado perto da fronteira egípcia para que nós possamos exigir que os bastardos de Ptolemeu se divorciem dessas jovens. Tigranes invadir-nos-ia em nome de Mitridates. E o Egipto cairia. Nós não somos suficientemente fortes, do ponto de vista militar, para enfrentar uma guerra de tal magnitude. Além disso, as jovens têm suficiente sangue ptolemaico para poderem aceder ao trono. Isto no caso — disse o chefe da delegação, com um ar melífluo — da filha de Ptolemeu Soter e de uma outra concubina, a filha do rei de Idumeia, não chegar à idade adulta; é que Auleta poderia ainda casar-se com essa jovem, pois metade do seu sangue é ptolemaico, tal e qual como acontece com Auleta.

Sila, de repente, pareceu animado, e pronto a resolver o caso. — Deixem as coisas comigo. Euvou tratar do assunto. Não podemos permitir que a Armênia e o Ponto controlem o Egipto!

Sila tomara as suas deliberações há já muito tempo; por isso, partiu sem demora para a villa do monte Piciano onde residia Ptolemeu Alexandre.

— Chegou o grande dia — disse o Ditador ao seu refém, agora com trinta e cinco anos. — Grão-de-Bico está morto? — perguntou logo Ptolemeu Alexandre. — Morto e enterrado. A rainha Berenice reina sozinha.

— Então, tenho de partir já! — exclamou Ptolemeu Alexandre, muito agitado. — Tenho de partir já! Não há tempo a perder!

— Podes partir quando eu te der autorização, nem antes, nem depois — disse Sila, secamente. — Senta-te e ouve-me com atenção.

O rei sentou-se e todos os seus drapejamentos deslizaram com ele, moldando-se à cadeira, cobrindo-a por completo; os olhos tinham um estranho aspecto, rodeados pelos traços de stibium que aplicara nas pálpebras inferiores e superiores, traços alongados na direcção das têmporas, ao jeito do antigo Olho do Egipto, o wadjet; como também tinha pintado de preto as espessas sobrancelhas e embranquecido a área entre as sobrancelhas e a linha negra das pálpebras superiores, Sila concluiu que era absolutamente impossível saber o que os régios olhos de Ptolemeu Alexandre realmente expressavam. O efeito geral, decidiu, era claramente sinistro — mas, provavelmente, essa era a intenção do rei.

— Não podes falar a um rei como falas a um inferior — disse Sua Majestade, com um ar superior.

— Todos os reis do mundo são meus inferiores. — respondeu Sila num tom desdenhoso. — Eu governo Roma! Isso torna-me o homem mais poderoso entre os rios do Oceano e do Índico. Por isso, vais ouvir-me — e sem interrupções! Podes ir para Alexandria e assumir o trono. Mas mediante certas condições. Entendido? — Que condições?

— Que faças o teu testamento e o deixes no templo das Virgens Vestais, aqui em Roma. Um testamento simples. Caso morras sem filhos legítimos, legarás o reino do Egipto a Roma. Ptolemeu Alexandre fitou-o boquiaberto.

— Mas eu não posso fazer uma coisa dessas!

— Podes fazer tudo o que eu mandar! Se quiseres reinar em Alexandria, é claro. Esse é o meu preço. O Egipto passará a ser romano se morreres sem filhos legítimos. Os olhos do rei, realçados por aquela moldura impressionante, agitavam-se numa dança nervosa, e os lábios pintados de carmim

— carnudos e provocantes — mexiam-se num jeito que trouxe à memória de Sila a boca de Filipe. — Muito bem, concordo com o teu preço — disse Ptolemeu Alexandre, encolhendo os ombros. — Não aceito os preceitos da velha religião egípcia. Portanto, que importância terá isso para mim depois de morto?

— Muito bem dito! Excelente raciocínio! — disse Sila, entusiasmado. — Trouxe o meu secretário comigo. Vamos tratar do documento imediatamente. com todos os selos reais e o teu sinete pessoal, evidentemente. Não quero contestações dos Alexandrinos depois da tua morte. — Sila bateu as palmas para chamar um criado do rei e ordenou-lhe que trouxesse o secretário. Enquanto esperavam, Sila virou-se para o rei e disse-lhe, no tom mais descontraído deste mundo: — Ah, falta falar de outra condição.

— Que condição? — perguntou Ptolemeu Alexandre, entediado. — Pelo que sei, tens num banco de Tiro uma soma de dois mil talentos de ouro, que foram depositados pela tua avó, a rainha Cleópatra III. Mitridates levou o dinheiro que ela depositou em Cos, mas não tocou no de Tiro. E o rei Tigranes ainda não conseguiu subjugar as cidades da Fenícia. Está demasiado ocupado com os Judeus. Deixarás esses dois mil talentos de ouro a Roma.

Bastou ao rei olhar de relance para Sila, para perceber que não valia a pena discutir; uma vez mais, com um encolher de ombros, anuiu ao que o Ditador de Roma pretendia. Flósculo, o secretário de Sila, entrou nesse momento, e Ptolemeu Alexandre mandou um dos seus escravos buscar os selos régios e o seu sinete pessoal. Instantes depois, o testamento estava pronto.

— Terei de ser eu a deixar o testamento no templo das Virgens Vestais, porque tu não podes entrar no pomerium — disse Sila, levantando-se.

Dois dias depois, Ptolemeu Alexandre, o Novo, deixou Roma com a delegação que viera buscá-lo, e embarcou para África em Putéolos; era mais fácil atravessar o mar Mediterrâneo nesse local e, depois, seguir perto da costa africana, desde a província romana até Cirenaica e de Cirenaica até Alexandria. Além do mais, o novo rei dos Egípcios queria manter-se o mais longe possível de Mitridates e Tigranes e tinha muito pouca confiança na sua sorte. Na Primavera seguinte, chegou a Roma uma mensagem urgente de Alexandria; um agente romano (disfarçado de comerciante)

informava que o rei Ptolemeu Alexandre II sofrera um desastre. Chegara em segurança após uma longa viagem e casara-se imediatamente com a sua meia-irmã e prima direita, a rainha Berenice. Durante exactamente dezanove dias, fora rei do Egipto, dezanove dias durante os quais, ao que parecia, desenvolvera um ódio cada vez maior pela esposa. Um ódio tão poderoso que, ao décimo nono dia do seu reinado, Ptolemeu Alexandre assassinara a esposa, irmã e prima. Mas ela reinara durante muito tempo com o pai e os cidadãos de Alexandria adoravam-na. Nesse mesmo dia, os Alexandrinos invadiram o palácio, prenderam o rei e desfizeram-no literalmente em bocados — uma espécie de festa e celebração para todo o povo, encenada na praça principal de Alexandria. O Egipto encontrava-se agora sem rei nem rainha e num estado de absoluto caos. — Magnífico! — exclamou Sila, ao ler a carta do agente. Enviou imediatamente a Alexandria uma delegação de senadores romanos, chefiada pelo consular e ex-censor Marco Perperna, que apresentaria aos Egípcios o testamento do rei Ptolemeu Alexandre II. No regresso, os seus enviados deveriam passar por Tiro e levantar o ouro. Desde esse dia e até ao Dia de Ano Novo do terceiro ano do reinado de Sila, nada mais se soube, nem sobre a delegação, nem sobre os destinos do Egipto. — Toda a nossa viagem foi perseguida pela má sorte — disse Marco Perperna. — Naufragámos em Creta e fomos aprisionados por piratas. Depois, tivemos de esperar dois meses até que as cidades da Grécia Peloponésia pagassem os resgates. Finalmente, tivemos de concluir a viagem rumando a Cirene e seguindo depois a costa líbia até Alexandria. — Num navio pirata? — perguntou Sila, consciente da gravidade das notícias, mas com uma imensa vontade de rir; Perperna parecia ter envelhecido de repente e tinha um ar verdadeiramente aterrado!

— Adivinhaste. Num navio pirata.

— E que aconteceu quando chegaste a Alexandria?

— Nada de bon, Lúcio Cornélio. Nada de bom! — retorquiu Perperna, com um suspiro. — Verificámos que os Alexandrinos tinham agido com celeridade e eficiência. Eles sabiam muito bem quem haviam de chamar, depois de terem executado o rei Ptolemeu Alexandre.

— Quem é que eles chamaram?

— Os dois filhos bastardos de Ptolemeu Soter Grão-de-Bico. Pediram ao rei Tigranes da Síria que lhes devolvesse os dois jovens — o mais velho para governar o Egipto, o mais novo para reinar em Chipre.

— Uma decisão inteligente, mas não propriamente inesperada — disse Sila. — Continua.

— Quando chegámos a Alexandria, o rei Ptolemeu Auleta estava já no trono e a sua esposa, filha do rei Mitridates, fora já coroada como rainha Cleópatra Trifena. O outro irmão, a quem os Alexandrinos decidiram chamar Ptolemeu, o Cipriota, foi nomeado regente de Chipre. A mulher, outra filha de Mitridates, foi com ele.

— Como se chama ela?

— Mitridatidis Nisa.

— Tudo isso é ilegal — comentou Sila, com um ar preocupado. — Segundo os Alexandrinos, é totalmente legal!

— Continua, Perperna, continua! Conta-me o pior.

— bon, como é evidente, mostramos-lhes o testamento. E informámos os Alexandrinos de que estávamos ali para anexar formalmente o reino do Egipto, o qual passaria a ser mais uma província do Império Romano.

— E que disseram eles, Perperna?

— Riram-se na nossa cara, Lúcio Cornélio. Recorrendo a diversos métodos, os seus peritos em leis trataram de demonstrar que o testamento era inválido. Depois, apontaram para o rei e para a rainha sentados nos seus tronos e disseram-nos que já tinham encontrado herdeiros legítimos.

— Mas eles não são legítimos!

— Foi o que eu lhes disse. Mas eles responderam-me que os reis não eram legítimos unicamente segundo a lei romana. Segundo a lei egípcia, que parece consistir de normas fabricadas consoante o impulso do momento, apenas para fundamentar o que os Alexandrinos têm em mente, o rei e a rainha são legítimos.

— Perante isso, que fizeste, Perperna?

— Que podia eu fazer, Lúcio Cornélio? Alexandria estava a abarrotar de soldados! Demos graças aos nossos deuses romanos por conseguirmos sair sãos e salvos do Egipto. — Tens toda a razão — disse Sila, serenamente, pois achava que aqueles acontecimentos não eram dignos da sua irritação. —

No entanto, a verdade é que o testamento é válido. O Egipto, agora, pertence a Roma. — Tamborilou com os dedos na secretária. — Infelizmente, no momento presente Roma pouco poderá fazer. Mandei catorze legiões para Hispânia e não quero aumentar as despesas do Tesouro, lançando outra campanha. E sobretudo agora que Tigranes assola a maior parte da Síria e não depara com qualquer obstáculo na vizinhança, pois os herdeiros do trono parto andam envolvidos numa guerra civil. Ainda tens o testamento?

— Claro, Lúcio Cornélio.

— Então amanhã informarei o Senado do que aconteceu e devolverei o testamento às Vestais, onde ficará até ao dia em que Roma puder anexar o Egipto pela força — pois creio que só pela força conseguiremos chegar à posse da nossa herança. — O Egipto é fabulosamente rico.

— Isso não é novidade para mim, Perperna! Os Ptolemeus possuem o maior tesouro do mundo e governam um dos países mais ricos do mundo. — A expressão de Sila indicava que a reunião estava acabada, mas ainda disse, como se de repente se tivesse lembrado de outra coisa: — Pelo que me contaste, devo concluir que não trouxeste os dois mil talentos de ouro, não é verdade?

— Ah, não, Lúcio Cornélio, claro que trouxe! — retorquiu Perperna, chocado. — Os banqueiros entregaram-me o ouro mal lhes mostrei o testamento. Passámos por Tiro no regresso, como ordenaste.

Sila desatou a rir a bandeiras despregadas.

— Muito bem, Perperna! Assim, quase que posso perdoar-te o teu fracasso em Alexandria! — Levantou-se, esfregando as mãos de contentamento. — É uma boa contribuição para os dinheiros do Tesouro. E o Senado vai dar-se conta disso. Pelo menos, a pobre Roma não teve de pagar uma embaixada sem receber uma compensação financeira adequada. Todos os reis orientais estavam a criar problemas — essa era uma das conseqüências que Roma tinha de suportar depois das suas guerras intestinas, que tinham impossibilitado Sila de permanecer no Oriente o tempo suficiente para reduzir Mitridates e Tigranes à absoluta impotência. Assim, mal Sila embarcou para Roma, Mitridates tentou anexar a Capadócia e Lúcio Licínio Murena (então governador da Província da Ásia e da Cilícia) declarou-lhe guerra imediatamente — sem o conhecimento ou a permissão de Sila, e em contravenção do Tratado de Dárdano. Durante algum tempo, Murena teve um êxito notável na condução da guerra, mas uma excessiva autoconfiança levou-o a uma série de desastrosos confrontos com Mitridates, nas terras do Ponto. Sila viu-se então obrigado a enviar o velho Aulo Gabínio para o Oriente, a fim de convencer Murena a regressar às províncias romanas. Sila tencionava punir Murena pelo seu comportamento aventureiro, mas entretanto surgiram os problemas com Pompeu e acabou por não o fazer; por isso, o Ditador autorizou Murena a regressar e a celebrar um triunfo, porque queria pôr Pompeu no seu devido lugar.

Nos seis anos entretanto transcorridos, Tigranes expandira o seu reino da Armênia para sul e para oeste, chegando a terras pertencentes ao rei dos Partos e desintegrando rapidamente o reino da Síria. Tigranes teve noção das suas possibilidades quando soube que o velho rei Mitridates dos Partos estava demasiado doente para invadir a Síria (conforme fora seu projecto) — e demasiado doente para impedir os bárbaros denominados Masságetas de conquistarem todas as suas terras a norte e a leste da Partia, e para impedir um dos seus filhos, Gotarzes, de ocupar Babilônia.

Como Tigranes pré vira em tempos, a morte do rei Mitridates dos Partos provocou uma guerra de sucessão complicada pelo facto de o velho ter três rainhas oficiais — duas meias-irmãs pelo lado paterno, e a terceira, nada mais nada menos do que uma filha de Tigrane chamada Automa. Enquanto diversos filhos de diversas mães lutavam pelo que restava da Partia, uma outra satrapia vital para o reino declarou a sua independência — a riquíssima Elimaide, banhada pelos afluentes orientais do Tigre, os rios Coaspes e Pasítigre; os portos desassoreados do delta do Tigres-Eufrates estavam assim perdidos, tal como a cidade de Susa, uma das residências reais dos Partos. Mas os filhos de Mitridates pouco se preocuparam com isso e continuaram a sua guerra.

O mesmo fez Tigranes. A sua primeira acção (no ano em que Caio Mário morreu) consistiu em invadir sucessivamente os pequenos reinos de Sofena, Gordiena, Adiabena e, finalmente, Osdroena. Conquistados estes quatro pequenos estados, Tigranes ficava a ser o senhor de todas as terras da margem oriental do Eufrates, desde Tomisa até Europo; possuía ainda as importantes cidades de Amida, Edessa e Nisibis, e eram seus todos os tributos cobrados ao longo

do grande rio. Porém, em vez de entregar empreendimentos comerciais tão interessantes como a colecta de impostos ao seu próprio povo, os Armênios, Tigranes tratou de subjugar os Árabes Esquenitas, que controlavam as regiões áridas entre o Eufrates e o Tigre a sul de Osdroena, e impôs tributos a todas as caravanas que passassem por esse território. Embora os Esquenitas fossem nômadas, Tigranes levou-os para Edessa e Garras e nomeou-os colectores dos impostos do Eufrates em Samosata e Zeugma. O rei dos Esquenitas, Abgar, era agora cliente de Tigranes, e as populações de língua grega de todas as cidades que o rei da Armênia subjugara foram obrigadas a emigrar para as zonas da Armênia onde, até então, a língua grega nunca fora falada. Tigranes queria desesperadamente ser o rei civilizado de um reino helenizado — e que melhor forma de helenizar um reino do que implantar colônias falantes do grego dentro das suas fronteiras?

Em criança, Tigranes fora refém do rei dos Partos e vivera em Seleucia-no-Tigre, muito longe da Armênia. Por altura da morte do pai, Tigranes era o único filho vivo, mas o rei dos Partos exigira um preço muito alto para libertar o jovem Tigranes — 70 vales na zona mais rica da Armênia, a chamada Atropatene Média. Agora, porém, Tigranes já podia marchar sobre a Atropatene Média e recuperar os 70 vales, abundantes em ouro, lápis-lazúli, turquesa e pastos férteis.

No entanto, depois de tantas terras conquistadas, Tigranes confeluiu que não tinha suficientes cavalos de Neso para os seus catafractos, que eram cada vez em maior número. Os catafractos eram estranhos soldados de cavalaria, vestidos da cabeça aos pés com cota de malha — tal como os cavalos, que precisavam de ser corpulentos para agüentar com tanto peso. Por isso, nos anos seguintes, Tigranes invadiu a própria Média, a região onde ficava Neso, e anexou-a. Ecbatana, a residência real de Verão dos reis dos Partos — e, antes deles, dos reis da Média e Pérsia, incluindo Alexandre, o Grande —, foi incendiada, e o seu magnífico palácio saqueado. Três anos tinham entretanto transcorrido. Enquanto Sila avançava lentamente pela península italiana, Tigranes virou as suas atenções para o Ocidente e atravessou o Eufrates na direcção de Comagena. Não encontrando qualquer oposição, ocupou todas as terras do Norte da Síria entre os montes Amanos e os montes

Líbanos, incluindo a poderosa Antioquia e a metade inferior do vale do rio Oronte. Conseguiu mesmo conquistar uma parte da Cilícia Pedia, a zona à volta da costa oriental do Sinus Issicus.

A Síria era um território fortemente helenizado e os seus habitantes, para além de terem o grego como língua dominante, haviam sofrido uma poderosa influência dos costumes gregos. Logo que estabeleceu a sua autoridade na Síria, Tigranes levou algumas das comunidades da região para Triganocerta, a nova capital dos seus domínios, recentemente construída. Os mais favorecidos eram os artífices — o rei levou-os a todos para Triganocerta. Contudo, Tigranes compreendeu a necessidade de proteger estes deslocados gregos da sanha das populações nativas, de origem e língua média; por isso, ameaçou com a pena de morte todos aqueles que discriminassem os novos cidadãos.

E enquanto Sila legislava para que Roma o nomeasse Ditador de Roma, Tigranes adoptava formalmente o título por que ansiava desde há muito tempo — rei dos reis. A rainha da Síria, Cleópatra Selene — irmã mais nova de Ptolemeu Soter Grão-de-Bico e, a certa altura da sua vida, sua esposa —, que conseguira ocupar o trono sírio graças a vários casamentos com Selêucidas, foi levada de Antioquia e obrigada a viver nas mais humildes condições, numa pequena aldeia junto ao Eufrates; o seu lugar no palácio de Antioquia foi ocupado pelo sátrapa Magadates, que passaria a governar a Síria em nome de Tigranes, o rei dos reis. Rei dos reis, pensou Sila, com um sorriso cínico; todos aqueles dirigentes orientais se julgavam reis dos reis. Até mesmo — assim parecia — os dois filhos bastardos de Ptolemeu Soter Grão-de-Bico, que agora reinavam no Egipto e em Chipre com as suas esposas, filhas de Mitridates. Porém, o testamento de Ptolemeu Alexandre II era genuíno; ninguém o sabia melhor do que ele, porque testemunhara o acto. Mais tarde ou mais cedo, o Egipto pertenceria a Roma. Para já, pensava Sila, devia permitir que Ptolemeu Auleta reinasse em Alexandria; mas, jurava ele, aquele fantoche de Mitridates e Tigranes não teria um momento de paz! O Senado de Roma enviaria regularmente delegações a Alexandria, as quais exigiriam a Ptolemeu Auleta que se demitisse e entregasse o Egipto a Roma.

Quanto ao rei Mitridates do Ponto — facto indubitavelmente curioso: o rei do Ponto perdera duzentos mil homens devido ao

horrendo frio do Cáucaso! —, teria de ser desencorajado uma vez mais de qualquer ideia de anexação da Capadócia. Depois de se ter queixado, numa carta a Sila, de que Murena saqueara e incendiara quatrocentas aldeias ao longo do rio Hális, Mitridates planeava conquistar a bacia capadócia do Hális; para que esta conquista parecesse legítima, deu ao rei Ariobarzanes da Capadócia uma nova noiva, precisamente uma das suas filhas. Quando Sila descobriu que a noiva tinha apenas quatro anos, enviou um mensageiro à corte de Mitridates, ordenando-lhe, em nome de Roma, que abandonasse imediatamente a Capadócia, com ou sem noiva. O mensageiro regressara há pouco tempo, com uma carta em que Mitridates se comprometia a fazer o que lhe era ordenado — e informado Sila de que ia mandar uma embaixada a Roma para ratificar o Tratado de Dárdano.

— Ele que diga à embaixada para não se demorar pelo caminho! — disse Sila para si mesmo, enquanto esperava pela esposa. Quando Valéria entrou, ainda o ouviu comentar: — Se a embaixada demora, é muito capaz de não me encontrar aqui — ainda vai ter de negociar com o Senado!

— O quê, meu querido? — perguntou Valéria, surpreendida. — Nada. Dá-me um beijo.

Os beijos de Valéria eram como ela: agradáveis. Até esse momento, Sila achara aquele quarto casamento uma experiência agradável. Mas não estimulante. Em parte, como sabia, isso devia-se à sua idade e também à doença que o afectava; mas a principal causa era a escassa sensualidade de Valéria, a qual, tal como a generalidade das aristocratas romanas, era demasiado inibida na cama para se entregar ao tipo de jogos sexuais que agradavam ao Ditador. Sila sentia que o seu fogo estava a apagar-se: mais uma razão para precisar de ser estimulado! Por que razão uma mulher que amava loucamente um homem não se entregava sem restrições aos apetites sexuais desse homem?

— Creio — disse Varrão, que era o infortunado interlocutor a quem Sila pusera essa questão — que as mulheres são recipientes passivos, Lúcio Cornélio. As mulheres foram feitas para receber, desde o pénis do homem ao bebê. E aquele que recebe é passivo. Tem de ser passivo! De outra forma, o acto de receber não poderia ser estável. Acontece o mesmo com os animais. O macho é o

participante activo e a única maneira de se libertar dos seus desejos excessivos é fornicar com muitas fêmeas.

Varrão pretendia informar Sila de que Pompeu vinha a Roma para uma curta visita e perguntar-lhe se desejaria encontrar-se com o seu jovem amigo. Porém, em vez de ser Sila a dar a audiência, parecia que era o contrário que se passava. De tal modo que Varrão não conseguira ainda expor os motivos da sua visita.

Continuar: parte 4 de 5