Os Favoritos de Fortuna

Colleen McCullough · Capítulo 7 de 15 · parte 5/5

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Os Favoritos de Fortuna

— Entra, homem, vá!

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

O caminho que conduzia à Porta Capena terminava por uma descida: por isso, ao aproximar-se da Porta, o cortejo ganhou

alguma velocidade. Sila desatou então a gritar que parassem e todos os foliões assim fizeram e de tal maneira que se atiraram para o chão berrando e guinchando, as mulheres esperneando e exibindo os seus órgãos sexuais pintados de vermelho. O burro, atordoado com o vinho, tropeçou e foi chocar contra o muro de uma fonte; Sila vacilou e só não caiu porque o homem travestido o agarrou e ajudou a descer; Sila deixou-se envolver por aqueles braços fortes e, lentamente, deslizou pelo corpo do outro até sentir os pés no chão. O antigo Ditador encaminhou-se então na direcção do estupefacto grupo de senadores curuis, mas ainda parou a meio para apreciar as belas pernas de uma das mulheres que esperneavam no chão; depois de as apreciar demoradamente, baixou-se e meteu um dedo no cunnus da mulher, deixando-a ainda mais hilare e, pelo menos aparentemente, num paroxismo orgástico. Enquanto a escolta recuperava a calma e se reunia de novo, cantando, tocando e dançando — para grande alegria da multidão —, Sila abeirou-se dos cônsules, abraçado ao seu belo acompanhante e erguendo a taça de vinho numa efusiva saudação. — Tacete! — gritou Sila para os bailarinos e os músicos. Estes calaram-se imediatamente. Mas nenhuma outra voz quebrou o silêncio. — Ora bem! Finalmente chegou! — exclamou ele para ninguém em particular: talvez para o céu. — O meu primeiro dia de liberdade!

A taça dourada descrevia círculos no ar e a boca pintada exibia as gengivas no mais largo e feliz dos sorrisos. Coroado pela absurda peruca arruivada, o seu rosto estava inteiramente pintado de branco, de tal forma que as cicatrizes não se notavam. Mas o efeito não era talvez o que ele previra, pois o contorno vermelho da boca espalhara-se pelas muitas rugas que a rodeavam; assim, aquela boca mais parecia uma ferida ainda sangrando e as rugas assemelhavam-se a costuras vermelhas, aplicadas sem grande cuidado. No entanto, isso não impedia que Sila sorrisse, sorrisse, sorrisse sempre. Estava completamente embriagado e estava-se marimbando para isso.

— Durante mais de trinta anos — disse ele para os espantados Vátia e Ápio Cláudio — neguei a minha natureza. Neguei a mim mesmo o amor e o prazer: de início por causa do meu nome e da minha ambição e, mais tarde, quando o meu nome estava firmado e a minha ambição satisfeita, por causa de Roma. Mas tudo isso

acabou. Acabou para sempre! Para sempre! Aqui e agora vos devolvo Roma — a vocês, míseras e presunçosas criaturas, a vocês, que na cabeça só têm vermes! Podem voltar a descarregar as vossas raivas contra o nosso pobre país — podem eleger os homens errados, podem esbanjar os dinheiros públicos, podem pensar apenas nos vossos egos gigantescos e não levar em conta o dia de amanhã! Daqui a trinta anos, vocês e aqueles que vos hão-de suceder terão transformado Roma numa ruína sem redenção possível! A sua mão afagou o rosto do homem que o apoiava: um afago terno e íntimo. — Sabem com certeza quem é este homem, porque freqüentam o teatro. É Metróbio. O meu rapaz. Sempre e para sempre o meu rapaz! — E virou-se para ele, puxou para si a cabeça escura e beijou-o na boca.

Depois, com soluços e risinhos, deixou que Metróbio o ajudasse a montar de novo o burro. O aparatoso cortejo voltou a formar-se e, lentamente, foi-se afastando; muita da gente do mercado viera até à Porta Capena despedir-se com efusivas saudações. Nenhum dos senadores sabia para onde olhar, especialmente depois de Vátia ter rompido num choro convulsivo. Entregues a si mesmos, foram dispersando, sozinhos ou aos pares. Ápio Cláudio não deixou Vátia, tentando confortá-lo. — Não acredito no que vi — disse Cetego a Filipe.

— Acho que devemos acreditar — retorquiu Filipe. — Foi por isso que ele nos convidou para este cortejo de travestis. De que outro modo poderia ele libertar-nos das amarras com que nos prendeu?

— Libertar-nos? Que queres dizer?

— Não ouviste o que ele disse? Durante mais de trinta anos, negou a sua natureza. Enganou-me. Enganou todos os homens importantes de Roma. E que vingança requintada para alguém que foi pobre na infância! Roma foi controlada, dirigida e restaurada por um doente. Fomos trapaceados por um palhaço. Ah, o que ele se deve ter rido! E riu-se, de facto. Riu-se durante todo o caminho até Miseno, transportado numa liteira ornada de flores, com Metróbio ao seu lado e acompanhado pelos seus adoradores de Baco, todos eles convidados a permanecer na sua villa o tempo que quisessem. Entretanto, o desfile tinha sido engrossado por Róscio, o comediante, Sorex, o mimo, e por muitas outras estrelas menos famosas do mundo do teatro. Os foliões invadiram a villa recentemente renovada, a mesma que outrora fora a digna residência de Cornélia, a mãe dos Gracos, e espalharam-se irreverentemente pelos portais consagrados, com Sila no meio deles, montando ainda o seu burro bêbedo. — Liber Pater! — chamavam-lhe os adoradores de Baco, mandando-lhe beijos e executando langorosos trinados com as gaitas e as flautas; e ele, semiconsciente do muito vinho que bebera, cacarejava de riso, relinchava de riso, berrava de júbilo. A festa prolongou-se por uma semana. Uma festa invulgar pelas enormes quantidades de comida e bebida que foram consumidas e pelo número de intrusos que se juntaram aos convivas, vindos de todas as aglomerações próximas. O anfitrião, sempre folgando e bebendo, recebeu com o maior prazer todos os intrusos, guiando-os por entre a bacanal, mostrando-lhes orgias sexuais de que a maior parte deles nem sequer ouvira falar. Apenas Valéria ficara à margem daquilo tudo, por opção própria; mal vira o marido naquela figura, fugira para os seus aposentos e fechara-se à chave para dar largas a um infindável pranto. Metróbio, porém, conseguiu convencê-la a abrir a porta. — As coisas nem sempre serão tão insuportáveis como agora — disse-lhe ele. — Há muito que ele ansiava por isto. Deves desculpá-lo. Dentro de dias, estará a pagar por todos estes excessos, ficará horrivelmente doente e sem a mínima vontade de dar festas. — Tu és o amante dele — disse Valéria, que nada mais sentia senão uma sombria e desesperada confusão.

— Sou amante dele há mais anos do que aqueles que tens — retorquiu afavelmente Metróbio. — Pertenço-lhe. Sempre pertenci. Mas tu também lhe pertences. — O amor entre homens é nojento!

— De modo nenhum! Quando dizes isso, estás a repetir aquilo que ouviste ao teu pai, ao teu irmão, aos teus primos. Como podes saber se o amor entre homens é ou não nojento? Que sabes tu da vida, tu que, como todas as mulheres aristocratas, foste obrigada a viver confinada a um triste isolamento? A minha presença não significa que ele não precise de ti, tal como a tua presença não significa que ele não precise de mim. Se quiseres ficar aqui, terás de aceitar o facto de que, na vida de Sila, sempre houve — e continua a haver — muitos amores!

— De facto, não tenho muito por onde escolher — disse ela, quase que para si mesma. — Ou volto para casa do meu irmão ou fico aqui e aprendo a suportar estas desenfreadas festividades.

— É isso mesmo — disse ele, sorrindo para ela com compreensão e afecto. Depois, Metróbio debruçou-se sobre ela e acariciou-lhe a nuca; ele sabia que aquela carícia ia acalmar a tensão que invadira a orgulhosa patrícia.

— És demasiado bom para ele — disse Valéria, surpreendida consigo mesma. — Tudo o que eu sou a ele o devo — retorquiu gravemente Metróbio. — Se não fosse ele, eu não seria mais do que um vulgar actor.

— bom, parece que não tenho outra alternativa senão juntar-me a este circo! Afastar-me-ei no auge das orgias, pois não estou preparada, nem tenho as forças necessárias, para participar em tais festanças! Quando achares que ele precisa de mim, chama-me. E assim deixaram o caso. Como Metróbio previa, oito dias depois do início da farra, Sila começou a sentir-se doente e os foliões foram mandados para casa. O mimo Sorex e o comediante Róscio escapuliram-se para os seus aposentos e aí ficaram por mais algum tempo, enquanto Valéria, Metróbio e Lúcio Túcio procuravam minorar os danos que aquela explosão de vinho e sexo provocara em Sila. Este mostrava-se por vezes grato e simpático; outras vezes, porém, era muito difícil ajudá-lo.

Contudo, ao fim de algum tempo, o ex-Ditador acabou por recuperar alguma tranqüilidade e saúde; entregou-se então à tarefa de escrever as suas memórias; seria um canto de triunfo, segundo disse, a Roma e a homens como Catulo César e ele próprio, e um assassínio metafórico de gente como Caio Mário, Cina, Carbão e todos aqueles que os tinham apoiado. No final desse ano e dos consulados de Vátia e Ápio Cláudio, o regime de Sila em Miseno estava já tão bem definido e instalado que toda a villa cumpria os seus ciclos sem qualquer espécie de sobressalto. Durante uns dias, escrevia as suas memórias, desatando numa gargalhada pegada sempre que a sua pena produzia uma frase mais cáustica sobre Caio Mário; ao escrever sobre a guerra contra

Jugurta, quase delirava de prazer — o que não admira, pois podia agora deixar escrito, preto no branco, que a guerra fora ganha porque ele cometera o feito de capturar Jugurta e que Mário abafara deliberadamente esse facto. Depois, Sila arrumava a pena e o papel e, durante alguns dias, lançava-se numa orgia de comédias e mimos ou dava uma festa gigantesca que se prolongava por vários dias. Entre a escrita, o teatro e os bacanais, entregava-se a outras actividades, todas elas ditadas pela sua sempre fértil imaginação, incluindo caçadas simuladas em que as presas eram rapazes e raparigas nus, concursos que premiavam as mais bizarras posições nas relações sexuais, elaboradas charadas em que os convidados podiam usar todo o tipo de figurinos e adornos. Dava festas com jogos e concursos, festas nuas à luz do luar, festas durante o dia, na enorme piscina de mármore, onde os foliões podiam assistir, deliciados, às evoluções aquáticas de jovens nus. Parecia não haver fim para a sua imaginação ou para a sua paixão pelas novidades sexuais de todo o tipo; só não permitia práticas que envolvessem crueldade ou animais — ao descobrir, certa vez, que um dos seus convidados tinha inclinações desse tipo, mandou-o expulsar imediatamente.

No entanto, era evidente que o seu bem-estar físico estava a deteriorar-se. Após o Ano Novo, os seus desejos sexuais pareciam ter esfriado por completo; em fins de Fevereiro, já não havia nada que o estimulasse. E desde então, o seu humor e disposição levaram uma reviravolta total.

Apenas um dos seus amigos nobres procurou a companhia de Sila, após a sua mudança para Miseno: Lúculo. Lúculo estivera em África, com o irmão, no mês de Quinctilis, dirigindo pessoalmente a captura de animais para os jogos que ambos organizavam. Quando regressou a Roma, em meados de Sextilis, encontrou a cidade em grande alvoroço, por causa das notícias que vinham de Miseno. Como amigo de Sila, Lúculo viu-se obrigado a ouvir uma sucessão interminável de críticas ao comportamento do antigo Ditador. — Vocês que o julgam, olhem primeiro para vocês mesmos — respondia-lhes Lúculo, furioso. — Sila tem direito a fazer tudo o que quiser!

Porém, só alguns dias depois da conclusão dos ludi Romani, em Setembro, é que Lúculo conseguiu ter algum tempo livre para visitar Sila; encontrou-o num dos seus mais lúcidos intervalos,

trabalhando nas memórias e todo contente com o que estava a fazer à reputação e aos feitos de Caio Mário.

— Tu és o único que me visita, Lúculo — disse ele, com uma breve chama do velho Sila brilhando-lhe nos olhos chorosos e assolados pelo sofrimento. — Ninguém tem o direito de te criticar — disse Lúculo, com as narinas muito abertas. — Tu deixaste tudo por causa de Roma.

— Sim, é verdade. E não nego que foi duro. Mas, meu querido amigo, se eu não tivesse negado a minha natureza durante tanto tempo, agora não estaria a gozar tanto com todos estes excessos!

— E, pelo que vejo, não faltam os atractivos — comentou Lúculo, seguindo atentamente os movimentos de uma rapariguinha que dançava nua em honra de Sila; era ainda uma menina em que despontavam os primeiros sinais da puberdade. — Ah, pois, tu gostas delas novinhas, não é? — disse Sila, com uma risadinha. Depois, agarrando-o pelo braço, aconselhou-o: — Não te vás já embora. Depois da dança, podes levá-la a dar um passeio.

— E que fizeste às mães delas?

— Nada. Comprei-as às mães. Lúculo ficou. E voltaria muitas vezes. Porém, em Março, adormecidos os desejos da carne, dir-se-ia que para sempre, Sila tornou-se um verdadeiro martírio para aqueles que o rodeavam: até mesmo para Metróbio e Valéria, que já tinham aprendido a trabalhar em equipa. Sem saber como, Valéria estava grávida. Grávida de Sila, assim esperava. Mas não podia dizer-lho e temia que chegasse o dia em que a gravidez se tornasse visível. Ficara grávida, com toda a certeza, na passagem do ano, quando Lúculo trouxera uns estranhos cogumelos que, segundo ele, encontrara em África. Todos os amigos mais chegados de Sila os tinham comido. Tal como Valéria. Do que se passara depois, Valéria tinha uma recordação muito vaga, como se tivesse vivido um pesadelo: mas lembrava-se de que houvera uma orgia e de que fora possuída por todos os homens presentes, desde Sila a Sorex e mesmo Metróbio. Valéria sabia que a sua gravidez só podia ter tido origem nessa noite; desde que se descobrira grávida que o medo era o seu companheiro certo de todos os momentos. Os acessos de fúria de Sila eram algo de horrendo: durante horas gritava e vociferava e tinha de ser rigorosamente vigiado para que

não fizesse mal a qualquer pessoa que se atravessasse no seu caminho, desde as crianças que usava como brinquedos sexuais para os seus amigos até às velhas que faziam todo o trabalho de limpeza da casa; como mantinha a seu lado alguns membros da sua antiga guarda, aqueles que o impediam de dar largas à sua fúria assassina sabiam perfeitamente que estavam a pôr em risco a sua própria vida.

— Não podemos permitir que ele mate pessoas! — exclamou Metróbio. — Ah, daria tudo para que Sila conseguisse aceitar o que se está a passar com ele! — disse Valéria, que não parava de chorar.

— Mas tu também não estás bem, Valéria.

Era imprudente fazer tal comentário com uma voz meiga; tão imprudente que Valéria não se conteve e, pela primeira vez, contou a história que tanto a atormentava. Metróbio lembrava-se também da noite da orgia.

— Sabe-se lá! Se calhar, aindavou ser pai — comentou ele, rindo-se deliciado. — As hipóteses são de um para quatro.

— Cinco.

— Quatro, Valéria. A criança não pode ser de Sila.

— Ele mata-me!

— Não te atormentes, Valéria — disse o actor. — Vive a tua vida normalmente. Não digas nada a Sila. O futuro é impenetrável.

Alguns dias depois, Sila começou a sentir dores constantes na região do fígado. Andava de um lado para o outro do átrio, incapaz de se sentar, incapaz de se deitar, incapaz de descansar. O seu único consolo era a pequena piscina de mármore branco perto do seu quarto, na qual se banhava; mas, depois, tudo voltava ao mesmo, e era vê-lo de novo arrastando-se pelo átrio, incessantemente, lamentando-se e chorando. Tão grande era o seu tormento que, por vezes, queria bater com a cabeça nas paredes do átrio; era preciso agarrá-lo para não o fazer. — O imbecil que despeja o bacio dele começou a espalhar a história de que Lúcio Cornélio está a ser comido por vermes — disse Túcio, o médico, a Metróbio e Valéria, mostrando o maior desdém por tais boatos. — Francamente! É tão grande a ignorância desta gente acerca da forma como o corpo funciona e de como evolui uma doença que, quando oiço uma destas, quase me apetece embebedar-me! Antes das dores, Lúcio Cornélio urinava na latrina. Mas agora é obrigado a usar o bacio. Ora sucede que a urina vem cheia de vermes. Acham que consigo convencer os criados de que os vermes são uma coisa natural, de que toda a gente os tem, de que eles vivem nas nossas entranhas, de que eles nos acompanham durante toda a vida? Não, claro que não!

— Os vermes não comem? — murmurou Valéria, lívida como cal. — Só comem aquilo que nós já comemos — retorquiu Túcio. — É mais que certo que, quando chegar a Roma,vou ouvir a mesma história outra vez. Os criados são os mexeriqueiros mais eficientes que há no mundo.

— bom, pelo menos parece que podemos ficar mais sossegados — disse Metróbio. — Não é caso para isso — disse Lúcio Túcio. — As histórias que os criados contam são completamente falsas. No entanto, a realidade é muito, muito séria. A urina de Sila é mais doce que mel e a pele dele cheira a maçãs maduras.

Metróbio fez uma careta.

— Mais doce que mel? Como é que sabes? Provaste a urina dele? — Na realidade provei, mas só depois de recorrer a um velho truque que me foi ensinado por uma feiticeira quando eu era criança. Pus uma porção de urina num prato lá fora e, num instante, o prato encheu-se de insectos de todo o tipo. Lúcio Cornélio está a urinar mel concentrado.

— E a perder peso a olhos vistos — disse Metróbio. Valéria já não agüentava estar calada por mais tempo: tinha de fazer a pergunta que a atormentava.

— Lúcio Túcio, ele está a morrer?

— Está, sim — retorquiu Lúcio Túcio. — Para além do mel — não sei o que isso significa, mas sei que é mortal —, o fígado está muito afectado. Demasiado vinho. Os olhos negros encheram-se de um brilho causado pelas lágrimas; Metróbio apressou-se a limpá-los. Os seus lábios tremiam. com um suspiro, comentou: — Sim, era de esperar.

— Que havemos de fazer? — perguntou a esposa.

— Esperar pelo fim. Apenas isso. — Valéria e Metróbio ficaram calados, vendo Lúcio Túcio afastar-se a caminho do quarto do doente. Depois, Metróbio, com uma voz em que não havia sombra

de tristeza, disse algo de muito triste. — Amei-o durante muitos, muitos anos. Há muito tempo atrás, pedi-lhe que ficasse comigo, apesar de isso significar que eu trocaria uma vida confortável por uma vida dura. Ele declinou a minha proposta. — Ele amava-te demasiado para aceitar que tu passasses a levar uma vida dura — disse Valéria, que tinha uma visão da vida muito sentimental.

— Não! Ele estava apaixonado pela ideia do seu nascimento patrício. Sabia para onde ia e isso era muito mais importante do que a minha pessoa. — Metróbio virou-se para ela, olhou-a bem de frente e perguntou-lhe: — Ainda não compreendeste que o amor significa coisas diferentes para as pessoas e que o amor que se dá nem sempre é retribuído da mesma maneira? Eu nunca o censurei. Como podia censurá-lo se nunca estive na sua pele? E, por fim, depois de me ter rejeitado tantas vezes, reconheceu a nossa ligação perante os seus colegas. ”O meu rapaz!”, disse ele. Não me importava de voltar a passar o que passei, só para o ouvir dizer de novo tais palavras, perante homens como Vátia e Lépido!

— Ele não chegará a conhecer o meu filho.

— Duvido mesmo que chegue a dar-se conta da tua gravidez. As terríveis dores que atormentavam Sila esbateram-se passado algum tempo. Porém, logo que se sentiu melhor, teve de resolver um caso inesperado: a difícil situação financeira em que se encontrava a cidade de Putéolos. Situada não muito longe de Miseno, Putéolos era dominada pela família Grânio; durante muitas gerações, os Grânios haviam sido os banqueiros e os magnatas da marinha de Putéolos e sempre se tinham considerado os senhores da cidade. Desconhecendo a magnitude dos excessos (e das doenças) de Sila, um dos magistrados da cidade pediu-lhe uma audiência. Queixava-se o magistrado de que um tal Quinto Grânio devia ao tesouro da cidade uma avultada maquia, mas que se recusava a pagar. O magistrado pedia por isso a Sila que intercedesse junto de Grânio.

Se o nome de Caio Mário era aquele que, entre todos os nomes do mundo, deixava Sila mais enfurecido, poderia perfeitamente dizer-se que o nome de Grânio vinha logo a seguir. De facto, havia laços de sangue e casamento entre os Mários e os Gratídios e os Túlios de Arpino e os Grânios de Putéolos; a primeira mulher de Caio Mário fora uma Grania. Por esta razão, vários Grânios foram proscritos e aqueles que não foram proscritos mantinham-se muito quietos e sossegados, não fosse Sila lembrar-se da sua existência. Entre os felizes Grânios que tinham escapado à sanha de Sila, contava-se este Quinto Crânio. Sila ordenou imediatamente aos seus guardas que fossem buscá-lo a Putéolos e o trouxessem à sua presença. — Eu não devo tais somas! — exclamou Quinto Grânio, com o ar e a postura de quem não seria demovido.

Sentado numa cadeira curul, vestido com a toga praetexta, fitou o outro com o mais feroz dos olhares.

— Farás o que os magistrados de Putéolos te ordenarem! Pagarás! — atirou-lhe. — Não, não pagarei! Putéolos que me ponha em tribunal, para que o caso seja devidamente julgado! — ripostou Grânio.

— Pagarás, sim, Grânio!

— Não pago!

O génio imprevisível de Sila, tão molestado ultimamente, desintegrou-se por completo. Ergueu-se tremendo de raiva, com as mãos cerradas.

— Paga, Grânio, ou mandarei estrangular-te aqui e agora!

— Tu podes ter sido o Ditador de Roma — retorquiu Quinto Grânio com o maior desdém. — Mas agora não tens mais autoridade sobre mim do que eu tenho sobre ti! Por isso, volta para as tuas farras e deixa que Putéolos resolva sozinha os seus problemas! A boca de Sila abriu-se para gritar aos seus guardas que estrangulassem Grânio, mas da boca nenhum som saiu; sentiu uma onda de fraqueza percorrer-lhe o corpo todo e, depois, uma náusea horrível que o fez vacilar. Fazendo um grande esforço para se manter de pé, lá acabou por murmurar:

— Estrangulem este indivíduo!

Mas antes que o capitão dos guardas pudesse mexer-se, a boca de Sila abriu-se de novo, mas desta feita para que dela jorrasse uma enorme gota de sangue que se desfez em salpicos pelo chão à sua volta; Sila limitava-se a emitir uma estranha cacofonia enquanto dos seus lábios escorria um fio de sangue. Segundos depois, uma nova onda de fraqueza e náuseas apossou-se dele; e, com ela, veio um novo jorro de sangue, que, desta feita, deslizou na direcção dos seus joelhos; ao verem aquilo, todos os homens presentes desataram a gritar e a fugir em todas as direcções — em todas as direcções,

excepto na direcção de Sila, pois também os soldados estavam convencidos de que o antigo Ditador estava a ser lentamente comido por vermes. Instantes depois, chegava Lúcio Túcio, acompanhado de Metróbio e de Valéria, lívida de terror. Sila jazia no chão, vomitando sangue. O seu amante segurou-lhe na cabeça e a esposa, sem saber o que fazer, agachou-se junto a ele, tremendo, febril. Túcio gritou para os criados, pedindo que lhe trouxessem todas as toalhas que houvesse na casa; os criados entraram com as toalhas e ficaram de olhos esbugalhados ao dar com aquela cena: salpicos de sangue espalhavam-se pelo chão da sala e o seu amo era violentamente convulsionado pelos vómitos, ao mesmo tempo que tentava falar, e as suas mãos enclavinhavam-se no braço sujo de sangue de Metróbio. Esquecido por todos, Quinto Grânio não ficou naquela casa por muito mais tempo. Enquanto os guardas de Sila dispersavam aterrados e o seu capitão tentava encorajá-los a acudir ao amo, o banqueiro de Putéolos abandonou a villa e regressou à sua cidade. O sangue jorrou ainda da boca de Sila por muito tempo; finalmente, foi possível erguê-lo do chão e levá-lo para a sua cama. Metróbio, que o levou nos seus braços, apercebeu-se de como era leve aquele peso. Os guardas de Sila fugiram entretanto, deixando aos criados aterrorizados a tarefa de pôr alguma ordem no caos em que se tornara aquela casa. O pior de tudo, pensava Sila, que continuava inteiramente consciente e se dava conta de tudo o que estava a acontecer, era que o sangue se acumulava na sua garganta e quase o sufocava; mesmo quando não sentia ânsias de vomitar, sabia que o sangue estava lá, à espera, enchendo-lhe o esófago, roçando-lhe a garganta. Um pavor tremendo apossou-se dele; num frenesim de medo e impotência, agarrou-se a Metróbio como um náufrago se agarra a um pedaço de cortiça no meio do oceano, os olhos postos naquele rosto amado, olhos desesperados, angustiados, aflitos; só com os olhos podia agora falar, pois o sangue ameaçava voltar a jorrar. Pelos cantos dos olhos, Sila conseguia ver o lívido rosto de Valéria, tão lívido que os olhos muito azuis sobressaíam de uma forma assustadora, bem como a expressão férrea do médico. É isto a morte?, perguntou a si mesmo, sabendo que era. Mas eu não quero morrer assim! Não quero morrer a vomitar sangue

e sufocar no meu próprio sangue, não quero morrer sujo e incapaz de disciplinar o meu corpo; quero ter uma morte admirável, em tudo controlada, uma morte que seja um exemplo de dignidade romana. Eu fui o rei de Roma, embora sem coroa. Eu fui coroado com a erva de Nola. Eu fui o maior homem entre os rios Oceano e Índico. Quero que a minha morte esteja à altura de todos esses feitos! Que a minha morte não seja um pesadelo de sangue, de silêncio, de medo! Pensou em Julila, que morrera sozinha num mar de sangue. E em Nicrópole, que morrera com menos sangue mas numa maior agonia. E em Clitumna, que morrera com o pescoço e os ossos partidos. Em Metelo Numídico, com o rosto escarlate, sufocando, sufocando — ah, eu não sabia como isso era horrível! Em Dalmática, gritando por ele no templo de Juno Sospita. No seu filho, a luz da sua vida, o filho de Julila, que significara para ele mais do que qualquer outra pessoa, mais do que tudo... Também ele morrera sufocado. Tenho medo. Tanto medo! Nunca pensei que viesse a ter medo. É inevitável, não há fuga possível, em breve tudo estará acabado, e eu nunca mais voltarei a ver, a ouvir, a sentir, a pensar. Serei ninguém. Nada. Não há sofrimento nesse mundo futuro. É o mundo da total ignorância. Do sono eterno. Eu, Lúcio Cornélio Sila, que fui o rei sem coroa de Roma, mas que fui coroado com a erva de Nola, deixarei de existir, excepto na memória dos homens. Pois essa é a única imortalidade que existe: ser lembrado pelo mundo dos vivos. Por pouco não acabava as minhas memórias. Só me faltava um livro, um pequeno livro. Mas o que escrevi chegará para que os futuros historiadores me julguem. Chegará para matar Caio Mário para toda a eternidade. Ele não conseguiu escrever as suas memórias. Eu consegui. Portanto, venci. Eu venci! E, de todas as minhas vitórias, a vitória sobre Caio Mário é a mais importante. Durante cerca de uma hora, a hemorragia prosseguiu imparável, fazendo-o sofrer horrivelmente; mas depois voltou a passar e Sila pôde descansar. Lutando denodadamente para não perder a consciência, podia agora olhar para Metróbio, Valéria e Lúcio Túcio com uma clareza de visão que não sentia há muitas luas, como se tivesse recuperado o mais valioso dos sentidos para testemunhar a sua própria morte nas expressões daqueles que melhor conhecia. Finalmente, conseguiu falar.

— O meu testamento. Manda chamar Lúculo, ele deve lê-lo depois da minha morte. Ele é o meu executor e o tutor dos meus filhos.

— Já o mandei chamar, Lúcio Cornélio — retorquiu meigamente o actor grego. — Dei-te o que merecias, Metróbio?

— Sempre me deste o que eu merecia, Lúcio Cornélio.

— Eu não sei o que é o amor. Aurélia dizia que eu sabia, mas que não tinha consciência desse saber. Não estou certo de que ela tivesse razão. Há algumas noites atrás, sonhei com Julila e com o nosso filho. Ele veio ter comigo e pediu-me que fosse fazer companhia à mãe. Eu não me apercebi do que esse sonho significava. Chorei, chorei apenas. A ele, sim, a ele amei-o. Amava-o mais do que a mim próprio. Ah, o que eu chorei a sua perda! A dor que a sua morte me deixou! — Essa dor vai acabar, meu querido Lúcio Cornélio.

— Mais uma razão para desejar a morte.

— Há alguma coisa que desejes?

— Paz, apenas paz. Uma sensação de... realização.

— Tu és um homem realizado, Lúcio Cornélio.

— O meu corpo.

— O teu corpo, Lúcio Cornélio?

— Os Cornélios são enterrados. Mas eu não quero ser enterrado, Metróbio. Está escrito no testamento, mas deves dizer a Lúculo que é isso mesmo que eu quero. Se o meu corpo for parar a um túmulo, quem sabe se as cinzas de Caio Mário não virão cobri-lo, ao meu túmulo? Eu deitei-as fora, deitei fora as cinzas de Caio Mário. Não devia ter feito isso. Quem sabe se elas não estão à minha espera, à espera que eu morra para me irem sujar o túmulo? Atirei-as para o Ânio, vi-as desfazerem-se nos redemoinhos como se fossem teias de aranha reduzidas a pó. Mas então começou a soprar um vento muito forte, e algumas cinzas, que o rio ainda não tragara, voaram, voaram, espalharam-se pelas margens. Nem todas as cinzas foram levadas pelo rio. Quem me diz que elas não estão à minha espera? Tenho de ser cremado. Tens de dizer a Lúculo que é isso que eu quero, que quero ser cremado. Quero que as minhas cinzas sejam reunidas num abrigo onde não entre o ar, e que sejam metidas dentro de um vaso selado com cera, pois assim Caio Mário não conseguirá tocar-lhes. Eu serei o único Cornélio a ser cremado. — Assim será feito, prometo-te.

— Cremado, Metróbio! Faz com que Lúculo cumpra a minha vontade! — Assim farei, Lúcio Cornélio. Assim farei.

— Quem me dera saber o que é o amor!

— Mas tu sabes o que é o amor, claro que sabes! O amor levou-te a negar a tua natureza e a dedicar toda a tua vida a Roma.

— Isso é amor? Não, não pode ser. Esse amor é tão seco como o pó. Tão seco como as minhas cinzas. O único Cornélio a ser cremado, não enterrado. As veias ingurgitadas e rompidas não tinham ainda acalmado; momentos depois, um novo vómito assolou-lhe a garganta: era o primeiro de uma longa série de vómitos que durou horas. Sila perdera grande parte da sua força vital e os intervalos de lucidez começaram a rarear. Sempre que conseguia falar, pedia a Metróbio que não permitisse que nenhuma partícula das odiadas cinzas de Mário o viessem manchar; depois, perguntava o que era o amor e por que razão nunca o conhecera.

Lúculo chegou a tempo de assistir à sua morte, embora Sila não estivesse já em condições de lhe dizer fosse o que fosse, pois perdera a consciência há algum tempo. Os estranhos olhos de Sila, agora já sem cor, rodeados por um círculo escuro, e as pupilas muito negras, tinham perdido o ar ameaçador que sempre os caracterizara: agora, não eram mais que uns olhos sem vida, esmagados pela dor e pela exaustão. A respiração, não se ouvia já; só com um espelho colocado frente aos lábios era possível detectá-la. A pele branca não podia estar mais branca, depois de tanto sangue perdido. Mas as cicatrizes vermelhas brilhavam, o crânio calvo perdera toda a tensão e estava todo encarquilhado, como se fosse um mar varrido pelo vento, e a boca caía desolada sobre os maxilares e o queixo. Depois, uma mudança trespassou-lhe os olhos; as pupilas começaram a expandir-se, alastrando pelas íris e confundindo-se por fim com o negro do fundo das órbitas. A luz de Sila evolava-se nesse instante; todos os que estavam por perto se deram conta do fatal momento e, incrédulos, viram um brilho dourado espalhar-se pelos olhos esbugalhados do antigo Ditador.

Lúcio Túcio debruçou-se sobre Sila e fechou-lhe os olhos. Metróbio pôs as moedas em cima dos olhos, para que estes permanecessem fechados, enquanto Lúculo metia na boca do morto uma

moeda de um denário, o dinheiro com que pagaria a viagem na barca de Caronte. — Teve uma dura morte — disse Lúculo, fazendo o impossível por controlar-se. Metróbio chorava.

— Foi dura toda a sua vida. Como poderia a morte não o ser? — Escoltarei o seu corpo até Roma, onde terá um funeral de Estado. — Ele estaria de acordo com isso. Mas é preciso que seja cremado. — Será cremado.

Depois de falar com Lúculo, Metróbio, atoleimado pela dor, foi à procura de Valéria, que não encontrara coragem para assistir aos últimos momentos do marido. — Acabou — disse ele.

— Eu amava-o — disse ela, com uma voz quase inaudível. — Sei que toda a cidade de Roma pensa que eu casei com ele por conveniência, para que a minha família fosse cumulada de honras. Mas ele era um grande homem e foi muito bom para mim. Eu amava-o, Metróbio! Eu amava-o com verdadeiro amor!

— Acredito no que dizes, Valéria — retorquiu Metróbio, sentando-se ao pé dela e acariciando-lhe a mão, com um ar ausente.

— Que vais fazer agora, Metróbio? — perguntou ela. Despertando do estupor em que se encontrava, Metróbio olhou para a mão dela, uma mão fina, branca, com dedos longos. Muito parecida com a mão de Sila. Não admirava: ambos eram patrícios romanos. — Vou-me embora — respondeu ele.

— Depois do funeral?

— Não, não posso assistir ao funeral. Imagina só a cara de Lúculo se me visse no meio dos acompanhantes!

— Mas Lúculo sabe quão importante tu eras para Sila! Ele sabe! Sabe melhor que ninguém!

— Trata-se de um funeral de Estado, Valéria. Não será permitida nenhuma manifestação susceptível de diminuir a sua dignidade. Portanto, não será tolerada a presença de um vulgar actor grego que é mais conhecido pelo seu rabo. — Metróbio apercebeu-se de toda a amargura que esse comentário continha; depois, encolhendo os ombros, acrescentou: — Francamente, não creio que

Lúcio Cornélio gostasse de me ver lá. Quanto a Lúculo, bom, Lúculo é um grande aristocrata. Miseno permitiu-lhe satisfazer alguns dos seus impulsos menos admiráveis. Ele gosta de desflorar meninas. — O rosto moreno pareceu de súbito enojado. — Pelo menos os vícios de Sila eram, por assim dizer, normais! Ele suportava o vício de Lúculo, mas seria incapaz de imitá-lo!

— Para onde vais?

— Para Cirenaica. Para longe do mundo. Para a magnífica solidão de Cirenaica. — Quando?

— Esta noite. Depois de Lúculo ter partido com o féretro de Sila. Quando toda a gente estiver a dormir nesta casa.

— E como vais para Cirenaica?

— Apanharei um barco em Putéolos. Estamos na Primavera. No porto de Putéolos, há muitos barcos que vão para África, para Hadrumeto. Em Hadrumeto, alugarei o meu próprio transporte.

— Tens dinheiro para isso?

— Tenho. Sila não podia deixar-me nada no testamento, mas deu-me mais do que o suficiente. Era um homem estranho. Extremamente sovina, excepto com as pessoas que amava. com essas, era o oposto. O mais triste de tudo é que, mesmo no fim, tenha duvidado da sua capacidade de amar. — Metróbio ergueu uns olhos tristes para o rosto de Valéria. — E tu, Valéria? Que vais fazer?

— Tenho de voltar para Roma. Depois do funeral, terei de ir viver para casa do meu irmão.

— Essa é capaz de não ser uma boa ideia. Tenho uma melhor. Nos olhos azuis dela, afogados em lágrimas, não poderia haver o mínimo vestígio de malícia; Valéria fitou-o com genuína perplexidade.

— O quê?

— Vem comigo para Cirenaica. Lá poderás ter o teu filho. Eu assumirei a paternidade. Não me interessa quem te engravidou. Lúculo foi um dos cinco homens que teve relações contigo e sabe tão bem como eu que Sila não podia ser o pai da criança. Creio que Roma, para ti, significará desgraça. Lúculo denunciar-te-á. Será uma forma de te desacreditar. Não te esqueças que, entre os seus iguais, só tu poderás acusá-lo de práticas que os seus colegas condenariam. — Por todos os deuses, nunca tinha pensado nisso!

— Tens de vir comigo.

— Não me deixarão ir!

— Não é preciso que Lúculo e os outros saibam. Direi a Lúculo que estás demasiado doente para poderes acompanhá-lo, mas que te mandarei para Roma antes do funeral. Lúculo está demasiado ocupado para se lembrar das suas fraquezas e, por outro lado, não sabe que tu estás grávida. Por isso, Valéria, se tens de fugir, o melhor é fugir já. — Tens razão. É evidente que ele acabaria por denunciar-me. — Podia mesmo contratar alguém para te matar.

— Oh, Metróbio!

— Vem comigo, Valéria. Logo que ele parta, abandonaremos esta casa. Ninguém nos verá partir. E ninguém descobrirá o que te sucedeu. — Metróbio pôs um sorriso irônico. — No fim de contas, eu não passava do rapaz de Sila. Ao passo que tu, uma Valéria Messala, eras a esposa dele. Estavas muito acima de mim!

Mas ela não achava que estivesse acima dele. Há meses que o amava secretamente, ainda que compreendesse que ele nunca poderia retribuir esse amor. — Euvou contigo — respondeu-lhe.

Metróbio afagou-lhe a mão, radiante; depois, deixando-a, disse-lhe: — Óptimo! Por ora, deixa-te estar aqui. É preciso que Lúculo não te veja. Junta algumas coisas, mas não de mais: apenas aquilo que uma mula possa levar. Leva unicamente vestidos vulgares. Ah, e apenas capas que tenham capuz! Quem te vir, tem de pensar que és minha mulher e não a viúva de Lúcio Cornélio Sila.

Valéria Messala ficou sozinha no seu quarto, pensando num futuro que seria muito diferente de tudo o que esperara. Embora não tivesse compreendido bem a ameaça que poderia representar para Lúculo, sabia que tinha razões para estar grata ao actor. Partir com Metróbio poderia significar a dor de o ver amar homens, quando ela ansiava pelo seu amor; mas Metróbio educaria o seu filho como se fosse dele e ela poderia oferecer-lhe um lar; quem sabe se ele não acabaria por apreciar mais a vida familiar do que frágeis aventuras com outros homens? Sim, não havia dúvida, antes partir com ele do que sofrer a agonia de nunca mais o ver! Ou do que ser morta! Valéria sempre temera o frio e altivo Lúculo: verificava agora que, afinal, tinha razões para isso.

Levantou-se e começou a procurar, nos seus muitos baús cheios de ricos trajes, os vestidos mais vulgares. Não tinha nenhum dinheiro, mas as suas jóias eram magníficas. Metróbio, pelos vistos, tinha muito dinheiro; por isso, as jóias seriam o dote dela. Uma garantia contra as dificuldades que o futuro pudesse trazer. Cirenaica! Longe do mundo. A magnífica solidão de Cirenaica. Se assim fosse, que maravilha!

O funeral de Sila reduziu o seu triunfo à mais total insignificância. Duzentas e dez liteiras, carregadas de murta, olíbano, caneleira, balsamina, nardo e outras plantas aromáticas — oferta das mulheres de Roma — eram transportadas por carregadores trajando de negro. E como o cadáver de Sila, devido à perda de sangue, ficara tão encolhido e mumificado que não podia ser exposto, um grupo de escultores tratou de construir, com caneleira e olíbano, uma efígie de Sila, a qual foi colocada sobre o esquife, precedida por um lictor feito com as mesmas plantas. Havia carros alegóricos representando todos os aspectos da sua vida, excepto os primeiros trinta e três anos, pouco recomendáveis, e os últimos meses, ainda menos recomendáveis. Num desses carros alegóricos, via-se Sila diante das muralhas de Nola, recebendo a Coroa de Erva das mãos de um centurião; noutro, obrigava o cobarde rei Mitridates a assinar o Tratado de Dárdano; noutros, vencia batalhas, promulgava leis, capturava Jugurta, executava os prisioneiros depois da batalha da Porta Colina. Um carro especial exibia os mais de dois mil diademas e coroas, feitos de ouro puro, que lhe haviam sido dados por cidades, tribos, reis e países de todo o Mundo. Noutros carros, decorados a preto e dourado e puxados por magníficos cavalos pretos, vinham os seus antepassados; e os seus dois gémeos, Fausto e Fausta, vinham nas primeiras filas do séquito. O dia estava sufocante, e o céu, coberto de nuvens, era um presságio de chuva. Mas o maior cortejo fúnebre que Roma jamais vira deixou a casa que dava para o Circus Maximus e encaminhou-se pelo Velabrum até parar no Fórum Romano, onde Lúculo — um magnífico e famoso orador — fez o panegírico do falecido do alto dos rostra, ao lado do engenhoso esquife, onde o cadáver horrendamente murado jazia num compartimento especial, e sobre cuja tampa se via o Sila de olíbano e caneleira precedido do lictor. Pela segunda vez em três anos, Roma chorava a sorte dos dois gémeos; daí que a multidão tivesse rompido em aplausos quando Lúculo anunciou que seria o tutor das crianças e que, nessa qualidade, nunca permitiria que lhes faltasse nada. A tristeza enchia de lágrimas todos os olhos; se assim não fosse, Roma teria reparado que Fausto e Fausta revelavam já, tanto no físico como no rosto, uma grande parecença com o tio-avô materno, o imponente mas feio Quinto Cecílio Metelo Numídico. A quem o pai deles pusera a alcunha de Suíno. E que o pai deles assassinara, num acesso de raiva depois de Aurélia ter rejeitado as suas propostas amorosas. Como que por encanto, as nuvens negras não derramavam chuva; e o desfile pôde prosseguir o seu caminho, desta feita pela Clivus Argentarius, através da Porta Fontinalis, atrás da qual ficava a mansão que outrora pertencera a Caio Mário, até chegar ao Campo de Marte. O túmulo de Sila aguardava, em sumptuoso isolamento, na Via Lata, adjacente ao campo onde se reunia a Assembleia das Centúrias. À nona hora desse dia, o esquife foi depositado no alto da enorme pira, constituída por gravetos e achas e pelo conteúdo das duzentas e dez liteiras de plantas aromáticas. Ao transfomar-se em cinzas, o cadáver de Sila espalharia pela cidade o mais fragrante dos aromas.

No preciso instante em que as tochas começavam a incendiar os gravetos da base da pira, levantou-se um vento portentoso; a pequena montanha desfez-se com um estrondo e o incêndio deflagrou com tal violência que os acompanhantes tiveram de afastar-se, protegendo os rostos com as mãos. Então, quando o fogo se extinguiu, os céus libertaram a chuva, um aguaceiro fortíssimo que fez esfriar rapidamente a madeira calcinada; por isso, as cinzas de Sila foram recolhidas instantes depois do holocausto. Tudo o que restava de Sila coube num requintado vaso de alabastro, ornamentado com ouro e pedras preciosas; Lúculo prescindiu do abrigo que Sila pedira, a fim de que os seus restos nunca pudessem ser contaminados por uma partícula que fosse das cinzas de Caio Mário; de facto, com aquela chuva incessante, nem uma única partícula de pó flutuava no ar.

O vaso contendo as cinzas foi cuidadosamente depositado dentro do túmulo, construído e esculpido com mármores multicoloridos,