Os Favoritos de Fortuna

Colleen McCullough · Capítulo 7 de 15 · parte 4/5

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Os Favoritos de Fortuna

— Entra, homem, vá!

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

As sobrancelhas pintadas de negro mexeram-se expressivamente. — Queres dizer com isso, meu caro Varrão, que um marido decente deve fornicar com metade das fêmeas de Roma?

— Não, não, claro que não! — retorquiu Varrão, surpreendido. — Todas as mulheres são passivas e, por isso, mesmo fornicando com tantas mulheres, um homem nunca poderia ficar satisfeito!

— Devo concluir, portanto, que para um homem satisfazer inteiramente os seus desejos carnais, terá de procurar os seus parceiros sexuais entre outros homens. É isso? — perguntou Sila, com uma expressão séria.

— Oh! Ah! Hmmm! — fez Varrão, retorcendo-se como uma centopeia a quem tivessem espetado um alfinete no meio. — Não, Lúcio Cornélio, claro que não! De modo nenhum!

— Nesse caso, que há-de um marido decente fazer?

— Como sabes, eu sou um estudioso dos fenômenos naturais, mas devo dizer-te que não tenho a preparação necessária para responder a tais questões — balbuciou Varrão, já arrependido por ter ido visitar aquela incômoda criatura. O problema é que Sila ficara a adorá-lo desde que ele lhe tratara da doença de pele e mostrava-se ofendido se ele não o visitasse. — Acalma-te, Varrão, eu estava só espicaçar-te — disse Sila, rindo-se. — Contigo, nunca se sabe, Lúcio Cornélio. — Varrão molhou os lábios e começou a pensar nas palavras que deveria usar para anunciar a visita de Pompeu da forma mais favorável; Varrão, a quem não faltava inteligência, sabia perfeitamente que os sentimentos do Ditador em relação a Pompeu eram ambivalentes.

— Ouvi dizer — referiu Sila, sem fazer a mínima ideia de que o seu interlocutor se debatia com a escolha das palavras mais adequadas para formular uma única frase — que Varrão Lúculo

conseguiu ver-se livre da sua irmã adoptiva — e tua prima, ao que creio. — Estás a falar de Terência? — perguntou Varrão, e o seu rosto iluminou-se. — Ah, sim! Foi um verdadeiro golpe de sorte!

— Há muito tempo que não via uma mulher rica como Terência ter tantos problemas para encontrar um marido — disse Sila, com um sorriso largo, pois adorava todo o tipo de mexericos.

— bon, o problema não é bem esse — retorquiu Varrão, contemporizando com aquela inclinação do Ditador. — É sempre possível encontrar um homem desejoso de se casar com uma mulher rica. O problema de Terência — que é a maior megera de Roma, disso não há dúvida!— é que ela recusou sempre os homens que a família lhe propôs. O sorriso de Sila transformara-se num esgar.

— Ou seja: preferiu ficar em casa e transformar a vida de Varrão Lúculo num verdadeiro tormento.

— Talvez. Embora eu creia que ela gosta bastante dele. O problema de Terência está na sua natureza — e se Terência nasceu assim, que há-de ela fazer? — Mas então o que é que aconteceu? Amor à primeira vista? — Não, de modo nenhum. O casamento foi proposto pelo conhecido vigarista Tito Pompónio, que agora usa o cognome de Ático por causa da sua afeição por Atenas. Pelos vistos, ele e Marc6 Túlio Cícero conhecem-se há muitos anos. Desde que tu promulgaste as tuas normas, Ático visita Roma pelo menos uma vez por ano.

— Eu sei disso — disse Sila, que não perseguia as manobras financeiras de Ático, tal como não perseguia as de Crasso. Na realidade, Crasso caíra em desgraça perante o Ditador unicamente por causa da forma como manipulara as prescrições. — Seja como for, a reputação de Cícero no mundo das leis firmou-se indiscutivelmente. Ao mesmo tempo, porém, as suas ambições cresceram. O problema é que a sua bolsa estava vazia. Precisava, portanto, de casar com uma herdeira. Só que, muito provavelmente, teria de casar-se com uma criatura sem qualquer distinção nem beleza, enfim, com uma das muitas horrendas filhas dos menos saudáveis dos nossos plutocratas. Foi então que Ático sugeriu Terência. — Varrão deteve-se para olhar

inquisitivamente para Sila. — Conheces bem Marco Túlio Cícero? — perguntou.

— Conheci-o muito bem quando ele era ainda um rapaz. O meu falecido filho — que teria, se fosse vivo, a idade de Cícero — era amigo dele. Nessa altura, Cícero era considerado um prodígio. Porém, entre a morte do meu filho e o caso de Sexto Róscio de Améria, contactei com ele apenas durante a Guerra Italiana, pois ele era um contubernalis do meu comando na Campânia. A maturidade não mudou nada nele. A única diferença é que ele encontrou o seu meio natural. Continua tão pedante, tagarela e vaidoso como sempre foi. Mas essas são grandes qualidades para um advogado! No entanto, admito de bom grado que, no que toca à retórica, Cícero é magnífico. E tem uma cabeça extraordinária! O seu maior problema é um distante parentesco com Caio Mário. São ambos de Arpino.

Varrão anuiu.

— Ático foi então falar com Varrão Lúculo, que se mostrou de acordo para interceder junto de Terência. E para sua grande surpresa, Terência anuiu em encontrar-se com Cícero! Ouvira falar das suas proezas nos tribunais e disse a Varrão Lúculo que estava decidida a casar-se com um homem que se revelasse capaz de aceder à fama. E Cícero, em sua opinião, tinha tudo para se tornar famoso.

— Que tal é o dote dela?

— Impressionante! Duzentos talentos.

— Os pretendentes deviam fazer bicha! E é natural que alguns deles fossem atraentes. Começo a sentir respeito por Terência, pois deve ter conseguido escapar a alguns dos mais hábeis caçadores de fortunas de Roma — disse Sila.

— Terência — disse o primo dela, sem qualquer inibição — é feia, azeda, impertinente e avara. Tem vinte e um anos e continua solteira. Eu sei que as raparigas devem obedecer ao seu pater famílias e casar com quem lhes mandam casar, mas, francamente, não há nenhum homem — vivo ou morto! — capaz de vergar Terência!

— E Varrão Lúculo, coitado, é tão bom homem! — comentou Sila, extremamente divertido.

— Precisamente.

— Mas ias no encontro de Terência com Cícero...

— Sim. Eles encontraram-se e — espanto dos espantos! — ela concordou em casar com ele.

— Afortunado Cícero! Não há dúvida: ele é um dos favoritos de Fortuna. O dinheiro da mulher vai fazer-lhe muito jeito.

— Isso é o que tu pensas, Lúcio Cornélio — retorquiu Varrão. — Na realidade, Terência não deixou que ninguém fizesse o contrato de casamento por ela. E, assim, conseguiu manter o controlo absoluto sobre a sua riqueza, embora concordando em providenciar o dote de todas as filhas que venha a ter e em contribuir para o financiamento das carreiras dos filhos. Mas quanto a Cícero... bon, Cícero nunca será capaz de levar a melhor sobre Terência! — Que tal é o nosso Cícero, hoje em dia?

— Simpático. Creio que está mais satisfeito interiormente. Mas continua vaidoso. Insuportavelmente presunçoso no que toca à excelência do seu intelecto. Está convencido de que não tem um único rival à sua altura. bon, e, por outro lado, deseja avidamente subir na escala social... Odeia que lhe lembrem que Caio Mário era seu parente, ainda que distante! Se Terência fosse uma dessas filhas sem distinção dos nossos plutocratas, creio que ele não teria posto a hipótese de se casar com ela. Nem para ela teria olhado. Mas a mãe dela era uma patrícia e foi casada em tempos com Quinto Fábio Máximo, o que significa que Fábia, a Virgem Vestal, é meia-irmã de Terência. Portanto, Terência servia-lhe às mil maravilhas. — Varrão estava com um ar enojado, ao falar de tudo aquilo. — Cícero é um ícaro, Lúcio Cornélio. Quer voar até ao reino do sol — o que é uma pretensão perigosa quando se é um Homem Novo e não se tem um sestércio na bolsa.

— Não sei o que é que os ares de Arpino têm, mas a verdade é que os homens de Arpino são todos assim — comentou Sila. — Ainda bem para Roma que esse Homem Novo de Arpino não tem capacidades militares!

— Bem pelo contrário, ao que sei.

— Ah, sim, sem dúvida! Quando Cícero foi meu contubernalis, dei-lhe as funções de secretário. Ficava branco só de ver uma espada! Mas nunca tive um secretário tão eficiente! Quando é o casamento?

— Só depois de Varrão Lúculo e o irmão celebrarem os ludi Romani, em Setembro. — Varrão riu-se. — Andam tão ocupados

com os jogos que não têm tempo nem cabeça para mais nada! Já andam para aí a dizer que vão ser os melhores jogos dos últimos cem anos, pelo menos! — Pena que eu não esteja em Roma para assistir aos jogos — disse Sila, sem qualquer demonstração de tristeza.

Por um momento, os dois homens calaram-se e Varrão aproveitou para falar do assunto que o levara a visitar Sila.

— Lúcio Cornélio, já sabes que Cneu Pompeu Magno vem a Roma dentro de pouco tempo? — perguntou ele, hesitante. — Ele gostaria de visitar-te, mas sabe que estás muito ocupado.

— Mas, para Magno, arranjo sempre tempo — disse Sila, jovialmente. Lançando um olhar penetrante a Varrão, perguntou-lhe:

— Ainda andas atrás dele, com uma pena e uma folha, a tomar nota de todas os peidos que ele dá?

Varrão ficou vermelho; mesmo as coisas mais inocentes podiam suscitar a Sila comentários daqueles — Sila era absolutamente imprevisível. Acharia ele que seria mais proveitoso se Varrão gastasse o seu tempo a tomar nota dos feitos (ou dos peidos) de Lúcio Cornélio Sila? Humildemente, respondeu-lhe:

— Sim, de quando em quando. Isso começou de forma acidental, porque estávamos juntos quando a guerra rebentou e eu não fiquei imune ao entusiasmo de Pompeu. Ele disse que eu devia escrever história e não história natural. E eu aceitei o conselho. Escrevo história. Mas não sou o biógrafo de Pompeu!

— Uma boa resposta, sim senhor!

Não admira que Varrão, ao deixar a casa do Ditador, tivesse de parar para limpar o suor que lhe escorria pela cara. Falava-se muito do leão e da raposa que existiam em Sila; mas, pessoalmente, Varrão achava que o pior animal que Sila albergava em si era um gato vulgar. No entanto, Varrão tinha-se saído bem. Quando Pompeu chegou a Roma com a sua esposa e se hospedou na casa da sua família, nas Carinas, Varrão pôde dizer-lhe que Sila gostaria muito de o ver e que lhe concederia tempo suficiente para terem uma demorada e agradável conversa. Fora isso mesmo o que Sila dissera — ainda que com alguma ironia pelo meio. Uma demorada e agradável conversa com Sila poderia transformar-se num passeio de funâmbulo sobre um fosso cheio de carvões em brasa.

Ah, mas a presunção e a vaidade da juventude! Pompeu, ainda com 26 anos, correu a visitar Sila sem apreensões nem dúvidas.

— Então que tal vai a vida de casado? — perguntou o Ditador, com modos suaves. Pompeu mostrou um sorriso radiante.

— Maravilhosa! Gloriosa! Que bela mulher que tu me arranjaste, Lúcio Cornélio! Bela, educada, doce. Está grávida. Deve dar-me o meu primeiro filho no final deste ano. — Um filho, ha? Tens a certeza que vai ser um rapaz, Magno? — Absoluta.

Sila deu um risinho.

— bon, Magno, como tu és um dos favoritos de Fortuna, tenho de concluir que será mesmo um rapaz. Cneu Júnior... O Carniceiro, o Miúdo Carniceiro e o Bebê Carniceiro.

— Essa é boa! — exclamou Pompeu, nada ofendido.

— Vocês estão a estabelecer uma tradição — disse Sila com um ar grave. — Isso não há dúvida! Três gerações!

Pompeu recostou-se, satisfeito. Depois, conforme Sila reparou, os seus grandes olhos azuis tingiram-se de uma expressão diversa; a felicidade desapareceu, para dar lugar à concentração, como se Pompeu matutasse em algo. Sila não disse nada. Limitou-se a esperar que Pompeu desabafasse.

— Lúcio Cornélio...

— Sim?

— Aquela lei que tu promulgaste — aquela lei que permite ao Senado procurar um comandante militar fora das suas hostes, caso não encontre nenhum entre os senadores... — A comissão especial?

— Essa.

— O que é que tem?

— Essa lei aplica-se a mim?

— Poderá aplicar-se.

— Mas só se não houver voluntários no Senado.

— Não é isso que a lei diz, Magno. A lei diz: ”se não houver nenhum comandante capaz e experimentado entre os voluntários do Senado”.

— E quem é que decide isso?

— O Senado.

Seguiu-se um breve silêncio. Até que Pompeu comentou, aparentemente sem qualquer intenção especial:

— Seria bom ter muitos clientes dentro do Senado.

— É sempre bom ter muitos clientes, Magno.

Mas nesse momento, e de forma transparente, Pompeu decidiu mudar de assunto. — Quem serão os cônsules para o próximo ano? — perguntou. — Catulo será de certeza. Mas ainda não decidi se vai ser o cônsul sénior ou o cônsul júnior. Há um ano atrás, julgava que já tinha decidido. Mas agora já não tenho a certeza. — Catulo é como Metelo Pio — um rigorista.

i — Talvez. Mas não tão velho nem tão inteligente, infelizmente. — Achas que Metelo Pio vai conseguir derrotar Sertório?

— De início é capaz de ter dificuldades — disse Sila, sorrindo. — Mas não tenhas o Bacorinho em tão pouco apreço, Magno. Ele demora algum tempo a funcionar. Mas quando começa a funcionar não há quem o agarre.

— Pah! Não passa de uma velha! — retorquiu Pompeu, com desdém. — Olha que, no meu tempo, conheci muitas velhas valentes, Magno! Mas Pompeu não desistia.

— E quem será o outro cônsul? — perguntou.

— Lépido.

— Lépido! — perguntou Pompeu, boquiaberto de espanto. — Não aprovas?

— Não digo que não aprove, Lúcio Cornélio. Aliás, acho mesmo que aprovo! Só que não pensava que estivesses para aí virado. É que ele não tem sido muito obsequioso contigo... — E é isso que tu pensas? Pensas que eu só dou grandes cargos aos homens que me lambem as botas?

Tenho de lhe fazer justiça: este rapaz nunca tem medo, pensou Sila. E tanto não tinha que continuou, para grande divertimento de Sila.

— Não, não é isso que penso. Mas a verdade é que nunca deste grandes cargos a homens que reprovaram claramente a tua conduta. Como é o caso de Lépido. — E por que raio havia de fazê-lo? — perguntou Sila, aparentemente surpreso. — Não sou idiota ao ponto de dar grandes cargos a homens que desejem prejudicar-me! — Nesse caso, porquê Lépido?

— Euvou retirar-me antes de ele assumir o seu cargo. E Lépido — disse Sila, intencionalmente — quer subir, quer subir muito alto. Ocorreu-me que talvez fosse melhor torná-lo cônsul enquanto estou vivo.

— É um bom homem.

— Porque me pôs em causa publicamente? Ou apesar disso? Mas Pompeu não estava preparado para aprofundar a questão.

Por isso, não passou do seu ”é um bom homem”. Na verdade, embora achasse que a nomeação de Lépido era uma decisão algo excêntrica, Pompeu não estava especialmente interessado no assunto. Interessava-o muito mais a lei de Sila sobre as comissões especiais. Quando soube da lei, pensou que talvez ela tivesse alguma coisa a ver consigo; porém, nessa altura, não lhe passou pela cabeça fazer qualquer pergunta nesse sentido a Sila. Agora, quase dois anos depois de a lei ter sido promulgada, achava mais apropriado averiguar do que perguntar. Era evidente que o Ditador tinha feito bem. Já era difícil a um senador alcançar os seus objectivos, quanto mais a um não senador.

Durante o caminho de regresso a casa, Pompeu não parou de pensar no assunto. Em primeiro lugar, teria de estabelecer uma facção Centro do Senado. Depois, teria de criar um grupo mais pequeno, capaz de — em troca de alguma coisa, evidentemente — manobrar a seu favor, de uma forma activa e constante. E mesmo capaz de se entregar a actividades ilícitas. O problema era: por onde começar?

A meio das Escadas das Arenas, Pompeu parou, virou-se e voltou para trás na direcção da Clivus Victoriae, subindo os degraus dois a dois, o que era sem dúvida uma proeza para quem vestia uma toga. Filipe! Começaria por Filipe!

Lúcio Márcio Filipe percorrera já um longo caminho desde o dia em que visitara Caio Mário e lhe dissera que ele, Filipe, acabara de ser eleito tribuno da plebe e estaria disposto a fazer alguma coisa em seu favor, por um determinado preço, naturalmente. Só Filipe sabia quantas vezes havia já mudado de partido. O que os outros sabiam era que Filipe conseguira sempre sobreviver, e mesmo melhorar

a sua reputação. Na altura em que Pompeu decidiu visitá-lo, Filipe era simultaneamente consular e ex-censor, e um dos anciãos do Senado. Muitos eram os homens que o detestavam, poucos o que gostavam dele sinceramente, mas a verdade é que continuava a ser um indivíduo poderoso; fosse de que maneira fosse, a verdade é que conseguira persuadir a maioria de que era um homem não só com uma reputação firmada, mas também com uma influência política decisiva.

Filipe achou a sua entrevista com Pompeu divertida e, ao mesmo tempo, merecedora de atenção e reflexão; embora, até então, nunca tivesse tido nenhum relacionamento particular com o protegido de Sila, Filipe estava perfeitamente consciente de que aquele jovem exigia de Roma uma apurada vigilância. Além disso, Filipe encontrava-se uma vez mais com sérios problemas financeiros, ainda que, desta feita, estes tivessem nascido de circunstâncias totalmente novas. As proscrições de Sila tinham-se revelado extremamente frutíferas para quem quisesse comprar propriedades a preços baratos: foi isso o que sucedeu com Filipe, pois, com alguns milhares, comprou terrenos que valiam milhões. Porém, como muitos homens da sua classe, Filipe não era um administrador eficiente; o dinheiro parecia fugir-lhe das mãos e faltava-lhe habilidade para dirigir convenientemente os seus empreendimentos rurais — bem como a habilidade para escolher subordinados dignos de confiança.

— Em suma, Cneu Pompeu, eu sou o oposto de homens como Marco Licínio Crasso, o qual, não só não perdeu um único sestércio, como continua a acumular milhões. Os funcionários dele tremem só de o ver. Os meus, quando me vêem, põem um sorriso matreiro. — Precisas de um Crisógono — disse o jovem com o seu sincero olhar azul e a sua expressão franca, aberta, atraente.

Filipe, que sempre fora atreito a engordar, ficara ainda mais flácido e cheio com a idade, e os seus olhos castanhos estavam quase enterrados entre as pálpebras inchadas. Esses olhos fixavam-se agora naquele jovem conselheiro com espanto e aborrecimento: Filipe não estava habituado a que lhe dessem conselhos com aquele ar de quem sabia tudo. — Crisógono acabou empalado nos rochedos aguçados sob a Rocha Tarpeia! — Apesar do destino que teve, a verdade é que Crisógono foi, para Sila, um elemento extremamente valioso — disse Pompeu. — Ele morreu porque enriquecera à custa das proscrições — e não por ter roubado directamente o seu patrono. Durante os muitos anos em que trabalhou para Sila, foi verdadeiramente infatigável. Acredita no que te digo, Lúcio Márcio, precisas de um Crisógono.

— Pode ser que precise de um Crisógono, mas não faço a mínima ideia de como o encontrar.

— Se assim desejares, tentarei encontrar-te um bom administrador. Os olhos submersos pela gordura pareciam saltar.

— Ah sim? E por que razão te dispões a isso, Cneu Pompeu? — Trata-me por Magno — disse Pompeu, impaciente.

— Magno.

— Porque preciso dos teus serviços, Lúcio Márcio.

— Trata-me por Filipe.

— Filipe.

— E como poderei eu servir-te, Magno? Tu és muito mais rico que a maior parte dos ricaços de Roma — até mesmo mais rico que Crasso, aposto! Tens... vinte e poucos anos, e já és famoso como comandante militar, isto para não falar do facto de teres caído, e de que maneira, nas graças de Sila — o que não é nada fácil. Eu, por exemplo, bem tentei, mas nunca consegui. — Sila vai deixar o poder — disse Pompeu, sem subterfúgios. — E quando ele deixar o poder, eu voltarei à obscuridade. Especialmente se tivermos homens como Catulo e os Dolabelas nos cargos mais altos. Eu não sou membro do Senado. Nem tenciono ser. — Isso é curioso — disse Filipe, pensativo. — Tiveste uma boa oportunidade. Sila pôs o teu nome no topo da sua primeira lista. Mas tu desperdiçaste essa oportunidade única. — Cá tenho as minhas razões.

— Imagino que sim! Imagino que sim!

Pompeu levantou-se da sua cadeira e encaminhou-se até à janela aberta do gabinete de Filipe, o qual, por causa da peculiar situação da casa de Filipe (empoleirada, por assim dizer, perto da curva da Clivus Victorae) dava, não para um jardim de peristilo, mas para uma vasta zona, desde o baixo Fórum Romano até ao penhasco do Capitólio. E aí, um pouco acima da arcada onde se encontravam

as magnificentes efígies dos Doze Deuses, começava a erguerse um edifício majestoso; era o Tabulário de Sila, um gigantesco arquivo onde ficariam depositadas todas as tábuas das leis de Roma, bem como os registos contabilísticos e administrativos. Outros homens, pensou Pompeu com desdém, prefeririam construir uma basílica, ou um templo, ou um pórtico, mas Sila optava por um monumento à burocracia de Roma! Sim, Sila não permitia que a sua imaginação tivesse sequer um esboço de asas. O seu espírito prático, comum a todos os patrícios, era a sua grande fraqueza.

— Ficaria muito contente se conseguisses arranjar-me um Crisógono — disse Filipe, para quebrar o longo silêncio. — O único problema é que eu não sou um Sila! Portanto, duvido muito que consiga controlar uma tal criatura.

— Filipe, tu não és um homem brando e indulgente, a não ser na aparência — disse o Mestre do Tacto. — Se eu te arranjar o homem certo, estou certo de que conseguirás controlá-lo.

O teu único problema é não saberes escolher as pessoas certas. — E porque hás-de tu prestar-me esse favor, Magno?

— Ah, esse não é o único favor que tenciono prestar-te — disse Pompeu, virando as costas à janela com um sorriso que lhe iluminava todo o rosto. — Não é?

— Pelo que vejo, o teu principal problema consiste na manutenção de um fluxo monetário decente. Tens muitas propriedades, bem como várias escolas para gladiadores. Mas nada disso é administrado eficientemente e, por isso mesmo, não tens tanto rendimento como seria de esperar. Um Crisógono alcançaria rapidamente esse objectivo! No entanto, como tu és um homem famoso pelos teus hábitos requintados e dispendiosos, é muito provável que, mesmo extraindo um maior rendimento de todas as propriedades e escolas, nem sempre consigas satisfazer as tuas necessidades.

— Ora aí está uma maneira admirável de pôr o problema — comentou Filipe, que se apercebia agora de que estava a gostar imenso daquela conversa. — Por isso mesmo, eu estaria disposto a aumentar os teus rendimentos, oferecendo-te um milhão de sestércios por ano — disse Pompeu de uma maneira perfeitamente neutral. Filipe não podia deixar de reagir com o maior espanto.

— Disseste um milhão!

— Desde que o mereças.

— E que teria eu de fazer para o merecer?

— Terias de criar uma facção favorável a Cneu Pompeu Magno dentro do Senado. Uma facção com suficiente poder para me dar aquilo que eu quisesse e quando o quisesse. — Pompeu, que nunca sofrera de timidez, culpabilidade ou qualquer tipo de autocensura, não teve, naquele momento, a mínima dificuldade em enfrentar o olhar de Filipe. — E porque é que não entras para o Senado e crias tu a tua própria facção? Sai muito mais barato!

— Eu recuso-me a pertencer ao Senado. Por isso, essa via está posta de parte. Além disso, se fosse eu a criar a minha facção, teria de partir do nada. Por isso, é muito melhor fazê-lo nos bastidores. Nunca ocorrerá aos senadores que eu possa ter outros interesses relativamente ao que se passa no Senado, para além do interesse específico de um genuíno patriota romano.

— Não há dúvida que és muito perspicaz! — exclamou Filipe, num tom apreciativo. — Será que Sila conhece todos os lados da tua personalidade? — Creio bem que sim. Creio mesmo que foi por minha causa que ele incluiu a comissão especial nas suas leis sobre comandos e governos de províncias. — Achas que ele criou a comissão especial porque tu te recusaste a integrar o Senado? — Sim, é isso que eu acho.

— E é por isso que me queres pagar uma óptima maquia para eu criar uma facção pró-Magno dentro do Senado. Quanto a isso, não tenho nada a apontar. O problema é que criar uma facção dentro do Senado custar-te-á muito mais dinheiro do que aquele que me vais pagar. Por uma razão muito simples: eu não tenciono pagar da minha bolsa aos outros homens eventualmente necessários. O dinheiro que me vais pagar só sairá da minha bolsa para as minhas despesas pessoais.

— Isso parece-me perfeitamente justo — retorquiu Pompeu serenamente. — Há muitos senadores necessitados entre os pedarii. Não te custarão muito dinheiro, porque só precisarás deles para as votações. Mas será necessário comprar alguns bons oradores dos bancos

da frente, e também mais uns quantos dos bancos do meio. — Filipe fez uma pausa e, com um ar pensativo, acrescentou: — Caio Escribónio Curió é relativamente pobre. Tal como o Cornélio Lêntulo que foi adoptado — Cneu Cornélio Lêntulo Clodiano. Ambos desejariam ser cônsules, mas nenhum deles tem o dinheiro necessário. Há uma série de Lêntulos no Senado, mas Lêntulo Clodiano é o mais velho do ramo. É ele que controla os votos dos senadores dos últimos bancos que pertencem à clientela dos Lêntulos. Curió é uma verdadeira potência — um homem muito interessante. Mas, para os comprares, terás de gastar muito dinheiro. Provavelmente um milhão para cada. Isto se Curió se vender. Acredito que se venda por um preço muito alto, mas não de uma forma cega e total. No entanto, Lúcio Gélio Poplicola era capaz de vender a mulher, os pais e os filhos por um milhão. — Preferia pagar-lhes uma soma anual, como farei contigo — disse Pompeu. — Um milhão podia comprá-los agora, mas creio que ficariam mais contentes se soubessem que, todos os anos, receberiam um quarto de milhão. Em quatro anos, teriam um milhão. Mas euvou precisar deles por mais tempo.

— És generoso, Magno. Insensatamente generoso, diriam alguns. — Insensato é coisa que não sou — atirou-lhe Pompeu. — Os serviços que me vão prestar terão de compensar o dinheiro gasto!

Durante algum tempo discutiram os problemas práticos levantados pelos pagamentos e, nomeadamente, as somas necessárias para levar os senadores dos bancos de trás a votar em Pompeu. Porém, a certa altura, Filipe recostou-se na cadeira, pensativo e silencioso. — Que se passa? — perguntou Pompeu, algo ansioso.

— Há um homem que não podes dispensar. O problema é que ele já granjeou tanta riqueza que nem sabe o que fazer ao dinheiro. É praticamente impossível comprá-lo e ele não deixa de se aproveitar desse facto.

— Estás a pensar em Cetego.

— Precisamente.

— Que hei-de fazer para o conquistar?

— Não faço a mínima ideia.

Pompeu levantou-se com um ar enérgico e decidido.

— Então acho melhor ir vê-lo.

— Não! — exclamou Filipe, alarmado. — Cetego é um patrício da família Cornélio e um indivíduo tão susceptível e melindroso que ficaria a odiar-te. Não, com ele não se pode lidar directamente. Deixa o caso comigo. Euvou sondá-lo.

Dois dias depois, Pompeu recebeu uma mensagem de Filipe. Continha uma única frase: ”Dá-lhe Précia, que ele será teu.”

Pompeu segurou na nota junto à chama de uma vela até que o papel começou a arder. Tremia de raiva. Ah sim, aquilo era mesmo de Cetego! O pagamento que exigia era a humilhação do futuro benfeitor! Sim, porque no fundo aquilo que Cetego exigia era que Pompeu se tornasse um proxeneta ao seu serviço.

O relacionamento de Pompeu com Múcia Tércia diferia em muito da forma como lidava com Emília Escaura — ou com a sua primeira esposa, Antístia. Esta terceira esposa estava muito acima das anteriores. Primeiro que tudo, era inteligente. Em segundo lugar, era enigmática; Pompeu nunca conseguia saber o que ela realmente pensava. Em terceiro lugar, era absolutamente maravilhosa na cama — uma verdadeira surpresa! Afortunadamente, Pompeu nunca cometera a asneira de lhe chamar pudinzinho ou pote de mel; não que isso não lhe tivesse passado pela cabeça — só que havia algo na expressão dela que o impedira de pronunciar tais expressões. Ainda que Pompeu não gostasse do jovem Mário, não podia esquecer que ela fora esposa dele e que essa experiência tivera sem dívida uma influência decisiva na personalidade de Múcia Tércia. Além disso, era filha de Cévola e sobrinha de Crasso Orador. Os seis anos que vivera com Júlia também contavam muito. Por isso, instintivamente, Pompeu chegara à conclusão de que Múcia Tércia devia ser tratada, não como uma escrava, mas como uma pessoa igual a ele.

Por isso, nesse dia, quando foi ter com Múcia Tércia, procedeu como de costume: deu-lhe um demorado beijo, procurando com a sua língua a língua dela, e afagou-lhe suavemente e apaixonadamente os mamilos. Depois, correu a sentar-se num sítio onde pudesse apreciar o rosto dela, com um sorriso de quem estava subjugado pelo amor e pela devoção. E, depois desses preliminares, foi direito ao assunto.

— Sabias que eu em tempos tive uma amante em Roma? — perguntou. — Qual delas? — foi a resposta de Múcia Tércia, solene e desprendida; a esposa de Pompeu raramente sorria.

— Então conhece-las a todas — disse ele, sem qualquer problema. — Só conheço as duas mais famosas: Flora e Précia.

Era evidente que Pompeu já se tinha esquecido de que Flora alguma vez existira; por um momento ficou com um ar de total espanto, mas depois desatou a rir. — Flora? Oh, isso já foi há uma eternidade!

— Précia — disse Múcia Tércia, numa voz perfeitamente neutra — também foi amante do meu primeiro marido.

— Sim, eu sabia.

— Soubeste antes ou depois de a teres feito tua amante?

— Antes.

— E não te importaste?

Pompeu queria mostrar que também era capaz de dar respostas rápidas. Por isso, retorquiu:

— Se não me importei de casar com a viúva dele, porque haveria de me importar de dormir com a sua ex-amante?

— Sim, tens razão — respondeu Múcia Tércia, aproximando várias meadas de lã da luz para as inspeccionar melhor. O seu trabalho, um bordado, permaneceu no ventre grávido. Finalmente, escolheu o mais pálido dos tons, cortou uma porção de fio e, depois de molhar a ponta e de a enrolar entre os dedos, fez entrar o fio com facilidade pelo largo buraco de uma agulha. Só depois de terminada esta tarefa é que voltou a dar atenção ao marido. — Que me queres dizer acerca de Précia?

—vou criar uma facção no Senado.

— É uma decisão sensata — comentou ela, enfiando a agulha no tecido grosseiro em que se notava já um colorido e complicado desenho. — Por quem começaste, Magno? Filipe? — Absolutamente correcto! És espantosa, Múcia!

— Espantosa, não. Experiente — disse ela. — Cresci rodeada de conversas sobre política.

— Filipe comprometeu-se a criar essa facção — prosseguiu Pompeu. — Mas há uma pessoa difícil de comprar.

— Cetego — disse ela, começando agora a preencher um arabesco previamente desenhado.

— Correcto uma vez mais. Cetego.

— É um elemento necessário.

— Foi o que Filipe me disse.

— E qual é o preço de Cetego?

— Précia.

— Ah, estou a ver. — O arabesco ia sendo preenchido a bom ritmo. — Filipe encarregou-te da missão de comprar Précia para o Rei dos Senadores das Últimas Bancadas. É isso, não é?

— É mesmo — disse Pompeu, encolhendo os ombros. — Ela deve ter falado bem de mim, pois caso contrário Filipe teria dado esse trabalho a outra pessoa. — Fala melhor de ti do que de Caio Mário Júnior.

— A sério? — perguntou Pompeu, com uma expressão radiante. — Óptimo! Múcia Tércia parou com o seu trabalho; os olhos verdes, muito fundos, tão separados, tão semelhantes aos de uma corça, fixaram-se, inescrutáveis, no seu amo e senhor. — Continuas a visitá-la, Magno?

— Não, claro que não! — retorquiu Pompeu, indignado. Uma indignação que depressa se esbateu. Depois, com um olhar interrogativo, perguntou-lhe: — Importavas-te se eu a visitasse?

— Não, claro que não — disse ela, retomando o trabalho. Pompeu ficou vermelho de raiva.

— O quê? Então não tinhas ciúmes?

— Claro que não.

— tntão não me amas! — exclamou ele, levantando-se num ápice e caminhando apressadamente pela sala.

— Por favor, Magno, senta-te.

— Tu não me amas! — exclamou ele, de novo. com um suspiro, Múcia Tércia largou o bordado.

— Senta-te, Cneu Pompeu! É claro que te amo!

— Se me amasses, terias ciúmes! — atirou-lhe ele, enfiando-se de novo na cadeira. — Eu não sou uma pessoa ciumenta. No que toca ao ciúme, as coisas são assim: ou se é ciumento, ou não se é. E por que razão havias de querer que eu fosse ciumenta? — Porque isso seria um sinal de que gostavas de mim.

— Não, seria apenas um sinal de que era ciumenta — replicou ela, com uma lógica magnífica. — Não te esqueças de que eu cresci num ambiente familiar extremamente perturbado. O meu pai amava

loucamente a minha mãe e ela também o amava. Mas ele nunca deixou de ter ciúmes dela. E ela sofria com isso. De tal forma que o ciúme do meu pai acabou por empurrá-la para os braços de Metelo Nepo, que não é um homem ciumento. E ela agora é feliz. — Isso é uma advertência para que eu não tenha ciúmes de ti? — De modo nenhum — disse ela, placidamente. — Eu não sou a minha mãe. — Gostas de mim?

— Sim, muito.

— Gostavas do jovem Mário?

— Não, nunca gostei. — Múcia Tércia já tinha usado o primeiro fio; precisava agora de cortar outro. — Caio Mário não era carinhoso. Tu és carinhoso, deliciosamente carinhoso. E essa é uma qualidade que vale bem o meu amor.

Pompeu ficou tão satisfeito com a resposta que voltou imediatamente ao assunto inicial. — O meu problema, Múcia, é saber como hei-de fazer este trabalho! Trabalho de procurador... De procurador? Ora, deixemo-nos de eufemismos! Trabalho de proxeneta! Ela soltou um risinho. Maravilha das maravilhas, ela ria-se! — Não há dúvida que este caso te deixa numa posição difícil, Magno. — Que devo fazer?

— Segue a tua natureza. Toma conta do caso e faz o que tens a fazer. Tu só perdes o controlo dos acontecimentos quando paras para pensar ou quando te preocupas com o teu aspecto. Por isso, não pares para pensar — e deixa de te preocupar com o teu aspecto. De outro modo, vais estragar tudo.

— Achas então que devo ir ter com ela e pedir-lhe, sem rodeios, que seja amante de Cetego.

— Precisamente. — Múcia Tércia, depois de enfiar de novo a agulha, ergueu os olhos para o marido, com um vago sorriso. — Mas os meus conselhos têm um preço, meu querido Magno.

— Ai têm?

— Têm, sim. Quero que me contes, com todos os pormenores, o teu encontro com Précia.

Como se veio a verificar, as negociações com Précia surgiram no momento certo. Agora que já não tinha amantes como o jovem Mário ou Pompeu, Précia caíra num marasmo de que dificilmente sairia, já que à sua vida faltavam estímulos ou interesses poderosos. Confortavelmente instalada e decidida a manter a sua independência, era agora demasiado velha para se entregar a uma paixão física avassaladora. Como acontecia com muitas das suas confrades (menos famosas todas) na arte do amor, Précia tornara-se uma especialista na simulação. Era também uma astuta juíza de carácteres, para além de extremamente inteligente. Daí que encarasse todos os seus encontros sexuais a partir de uma posição superior de poder, segura da sua capacidade para agradar, e segura do domínio que exercia sobre a sua presa. Do que mais gostava era de imiscuir-se em assuntos de homens, naqueles assuntos que pouco ou nada tinham a ver com o mundo das mulheres. E sobretudo gostava de se intrometer em questões políticas. Era um bálsamo para o intelecto e para o humor.

Quando lhe foram anunciar a presença de Pompeu, não cometeu o erro de concluir que ele pretendia reatar a ligação, embora por momentos isso lhe tivesse passado pela cabeça, já que a mulher dele estava grávida.

— Meu querido Magno! — disse ela, extremamente afável, mal viu Pompeu. O jovem beijou-lhe as mãos antes de se sentar numa cadeira, a alguma distância do divã onde ela estava reclinada. Enquanto se sentava, suspirou de uma forma tão artificial que Précia não se pôde impedir de sorrir.

— Como tens passado, Magno? — perguntou ela.

— E tu, Précia? — disse ele. — A mesma perfeição de sempre, pelo que vejo! Mas será que já houve alguém capaz de te considerar a ti e ao teu ambiente menos do que perfeito? Mesmo quando a visita é inesperada?

O tablinum de Précia — ela dava-lhe o nome que um homem teria dado — era um espectáculo deslumbrante de azul muito claro, creme e a quantidade exacta de dourado. Quanto a ela — todos os dias se levantava para uma toilette tão completa como demorada e, quando terminava, bem podia dizer que se transformara numa obra de arte. Naquele dia, usava uma quantidade de drapejados de um verde-salva muito suave e penteara a sua cabeleira ouro-pálida ao jeito de Diana, a Caçadora, dispondo-a em camadas disciplinadamente sobrepostas e ornando-a de anéis que pareciam absolutamente naturais, apesar de terem resultado de um apurado trabalho em frente do espelho. A sua face, de traços belos e suaves, não exibia qualquer maquilhagem; Précia era demasiado inteligente para cobrir com pinturas os dotes naturais que Fortuna lhe proporcionara e que ainda eram bem visíveis apesar dos seus 40 anos. — Tens estado bem? — perguntou Pompeu.

— Bem de saúde. Muito mal de humor.

— Porquê?

Ela encolheu os ombros, amuada.

— Achas que tenho motivos para me sentir feliz? Tu já não apareces! Nem tu nem ninguém com interesse.

— Voltei a casar.

— com uma mulher muito estranha.

— Múcia, estranha? Sim, creio que sim. Mas gosto dela.

— Era de crer.

Pompeu procurava uma maneira de dizer o que tinha a dizer, mas era incapaz de encontrar um jeito que lhe agradasse. Daí que se tivesse calado. Précia fitava-o com um ar trocista, meio-sentada, meio-deitada no divã. Os olhos dela — considerados o seu mais belo traço, pois eram muito grandes e de um azul deslumbrante — pareciam dançar ao ritmo desse escárnio.

— Já estou farto disto! — exclamou Pompeu de repente. — Eu sou um emissário, Précia! Não te vim ver por minha causa, mas por causa de outra pessoa. — Ah! Que intrigante!

— Tens um admirador.

— Tenho muitos admiradores.

— Mas nenhum como este.

— E o que é que o torna assim tão diferente? bom, para já há uma coisa que o torna diferente: conseguiu convencer-te a servir de intermediário! Pompeu corou.

— Eu fui apanhado no meio disto tudo, e, francamente, odeio o que estou a fazer! Mas preciso dele e ele não precisa de mim. Foi por isso que vim. Por causa dele. — Já disseste isso.

— Deixa-te de ironias, mulher! Já basta o que basta! O homem em causa é Cetego. — Cetego! Olá! — disse Précia, com um ar satisfeito.

— É um homem muito rico e mimado e um verdadeiro malandro — disse Pompeu. — Ele podia perfeitamente ter tratado do assunto, mas diverte-o usar-me como intermediário. — O preço dele é esse — disse ela. — Obrigar-te a fazer o papel de proxeneta. — Não há dúvida.

— Deves odiá-lo.

— Responde-me! Sim ou não?

— Já não me queres, Magno?

— Não, já não te quero.

— Então a minha resposta a Cetego é sim. Pompeu levantou-se. — Pensei que ias responder que não.

— Noutras circunstâncias, teria adorado. Mas a verdade é que me sinto mortalmente entediada, Magno. Cetego é uma potência no Senado e eu gosto de me dar com homens poderosos. Além disso, prevejo que ele pode proporcionar-me uma nova fonte de poder. Farei com que todos aqueles que procuram favores junto de Cetego, só os alcancem se me cortejarem. Uma bela perspectiva!

— Grr! — fez Pompeu, e virou-lhe as costas.

No estado em que estava, Pompeu achou preferível não ir anunciar o desfecho do caso directamente a Cetego; em vez disso, optou por visitar Lúcio Márcio Filipe. — Précia está de acordo — disse ele, sem mais comentários. — Excelente, Magno! Mas porquê esse ar tão infeliz?

— Porque ele fez de mim um proxeneta.

— Oh, tenho a certeza de que não foi intencional!

— Pois tenho a certeza que foi!

Na Primavera desse ano, Nola caiu em poder dos Romanos. Durante quase doze anos, essa cidade da Campânia, de origem e tradições samnitas, resistira a Roma e a Sila, suportando sucessivos cercos, a maior parte dos quais comandados pelo cônsul júnior desse ano, Ápio Cláudio Pulcro. Foi, por isso, lógico que Sila tivesse mandado Ápio Cláudio aceitar formalmente a submissão de Nola, tal como foi lógico que Ápio Cláudio sentisse grande prazer em anunciar aos magistrados da cidade os pormenores das condições invulgarmente duras impostas por Sila. Tal como Cápua, Fésulas e Volaterras, Nola deixaria de ter territórios; estes seriam todos integrados no ager publicus romano. Por outro lado, a cidadania romana seria recusada aos homens de Nola. O sobrinho do Ditador, Públio Sila, passava a ter inteira autoridade sobre a área, o que constituía uma nova humilhação para a cidade, já que, no ano anterior, Públio Sila revelara uma crueldade sem par ao tratar dos complexos problemas de Pompeios, crueldade que só contribuíra para piorar esses problemas. Para Sila, porém, a submissão de Nola era um sinal. Podia afastar-se com a sua sorte intacta, depois de Nola, a cidade onde obtivera a sua Coroa de Erva, ter sido reduzida à mais total impotência. Por isso, durante os meses de Maio e Junho, tudo o que Sila possuía na sua casa de Roma foi sendo transportado para Miseno; entretanto, em Miseno, os operários andavam numa grande azáfama, pois era preciso concluir rapidamente algumas obras adjacentes à villa de Sila: um pequeno teatro, um parque belíssimo, onde nem sequer faltavam pequenos vales cheios de flores silvestres, bem como quedas-d’água e muitas fontes, uma piscina enorme e várias salas adicionais, aparentemente destinadas a festas e banquetes. Isto para não falar dos seis aposentos reservados para convidados, de uma tal opulência que toda a cidade não falava de outra coisa: quem é que Sila iria convidar? O rei dos Partos?

Chegou então o mês de Quinctilis e a última das eleições de Sila, que de eleições não tinham nada. Para grande pesar de Catulo, seria ele o cônsul júnior; o cônsul sénior era Marco Emílio Lépido, um nome que ninguém esperava, já que Lépido mantivera uma postura de total independência desde que Sila se tornara Ditador.

No início desse mês, Valéria Messala e os gémeos partiram para a Campânia; a villa estava já preparada para os receber. Em Roma, ninguém previa surpresas. Sila partiria tal como tinha chegado: com uma aura de absoluta respeitabilidade e rodeado da maior solenidade. Roma estava prestes a perder o seu primeiro ditador em cento e vinte anos e o primeiro ditador que se mantivera no cargo por mais de seis meses.

Os ludi Apollinares, jogos que haviam sido organizados pela primeira vez pelo remoto antepassado de Sila, decorreram entretanto;

as pretensas eleições foram também realizadas. E, um dia depois das eleições curuis, uma imensa multidão concentrou-se no baixo Fórum Romano para assistir à cerimónia em que Sila abandonaria a missão que a si próprio impusera. Sila preferia que a cerimónia fosse pública, em vez de decorrer no espaço fechado do Senado. Despedir-se-ia de Roma nos rostra, uma hora depois do alvorecer.

E fê-lo com uma dignidade e uma majestade impressionantes; despediu-se em primeiro lugar dos seus vinte e quatro lictores com extrema cortesia e com presentes muito dispendiosos (para Sila); depois, dos rostra, falou para a multidão; finalmente, acompanhado pelos eleitores, encaminhou-se para o Campo de Marte, onde assistiu à revogação da lei de Flaco Princeps Senatus que o nomeava Ditador. Concluídas todas as cerimónias, regressou a casa como um cidadão privado, destituído de imperium e de auctoritas oficial.

— Mas gostaria que alguns de vós assistissem à minha partida de Roma — disse ele aos cônsules Vátia e Ápio Cláudio, a Catulo, Lépido, Cetego, Filipe. — Estejam na Porta Capena amanhã, uma hora depois do alvorecer. Venham assistir à minha despedida de Roma. Os outros obedeceram-lhe à letra — e outra coisa não seria de esperar. Sila era agora um privatus destituído de todo o poder magisterial, mas fora Ditador durante tanto tempo que os homens de Roma dificilmente conseguiam imaginá-lo sem poder. Sila seria sempre perigoso enquanto fosse vivo.

Assim, todos os magistrados que Sila convocara apareceram à hora certa na Porta Capena; faltavam os três protegidos de Sila que ele mais favorecera — Lúculo, Mamerco e Pompeu — mas unicamente porque não se encontravam em Roma. Lúculo fora em viagem para tratar dos seus jogos, previstos para Setembro, Mamerco encontrava-se em Cumas e Pompeu regressara ao Piceno para assistir ao nascimento do seu primeiro filho. Mais tarde, quando soube dos acontecimentos ocorridos na Porta Capena, Pompeu deu-se por feliz por ter estado ausente de Roma na altura; Lúculo e Mamerco sentiram precisamente o oposto. O mercado situado à entrada da Porta Capena estava cheio de gente que se entregava às mais diversas actividades — vender, comprar, traficar, ensinar, passear, namoriscar, comer. Claro que o

grupo vestido com togas debruadas a púrpura suscitou a curiosidade de toda aquela gente; ouviram-se os habituais insultos aos membros da classe dominante, mas os senadores curuis já tinham ouvido insultos desses muitas vezes e, por isso, não lhes deram a mínima importância. Reuniram-se sob o imponente arco da Porta Capena e aí esperaram, conversando para matar o tempo.

Pouco tempo depois, começaram a ouvir os acordes de uma estranha música — gaitas, pequenos tambores, flautas, executando uma inconfundível toada em honra de aço. A multidão que enchia o mercado ficou imediatamente possuída de uma excitação incontrolável. Estupefactas, as pessoas abriram alas para que o cortejo passasse. À frente vinham prostitutas, cobertas de flores e vestidas com togas de um vermelho muito vivo, agitando festivas pandeiretas, enquanto retiravam das cavidades das togas as pétalas de rosas com que juncavam o chão. A seguir, vinham anões e criaturas monstruosas, alguns com os rostos cobertos de argila ou pintados, outros usando máscaras enfeitadas com chifres e sinos, pulando e saltando sobre as pernas deformadas, vestidos com centuculi, capas de cores muito vivas que faziam lembrar fragmentos de arco-íris. A seguir vinham os músicos: alguns pouco mais vestiam do que flores, outros apresentavam-se como sátiros fogosos ou como excêntricos eunucos. No meio do cortejo, rodeado por crianças que não paravam de rir e de dançar, encontrava-se um burro muito gordo, embriagado, com os cascos pintados de dourado, uma coroa de flores no pescoço e as orelhas espetadas espreitando pelos buracos de um chapéu de aba larga, enfeitado com uma grinalda. Em cima do burro, que tinha por sela uma manta púrpura, vinha Sila, tão bêbedo como o animal, segurando na mão uma taça de ouro que a todo o momento derramava vinho, vestido com uma túnica de púrpura de Tiro bordada a ouro, e adornado com flores à volta do pescoço e em cima da cabeça. Ao lado do burro, vinha uma mulher muito bela — ou melhor, um homem travestido; o seu espesso cabelo negro tinha alguns salpicos grisalhos e o seu físico pouco feminino fora vestido com uma túnica de mulher semitransparente, cor de açafrão; segurava uma enorme garrafa dourada e sempre que Sila lhe apresentava a taça, ele corria a enchê-la, derramando mais algum vinho pelo chão.

Continuar: parte 5 de 5