Os Filhos de Anansi
Capítulo sete, no qual Fat Charlie faz uma longa viagem
CAPÍTULO
SETE
NO QUAL
FAT CHARLIE
FAZ UMA LONGA
VIAGEM
A FUNCIONÁRIA DA imigração franziu o rosto para o passaporte americano de Fat Charlie, como se estivesse decepcionada por ele não ser de uma nacionalidade que ela pudesse simplesmente impedir de entrar no país. Então, com um suspiro, gesticulou para que ele passasse.
Ele se perguntou o que faria depois de passar pela alfândega. Vou alugar um carro, pensou. E comer.
Ele saiu do trem que levava de um terminal a outro, passou pela segurança e saiu na grande área de shopping do Aeroporto de Orlando. Não ficou nem um pouco surpreso ao ver a sra. Higgler parada ali, examinando os rostos dos recém-chegados, a enorme caneca de café na mão. Encontraram os olhos um do outro mais ou menos ao mesmo tempo, e a velha senhora avançou na direção dele.
— Está com fome? — perguntou. Fat Charlie assentiu. — Bem, espero que goste de peru.
* * *
Fat Charlie ficou pensando se a perua marrom da sra. Higgler era a mesma que ele se lembrava de vê-la dirigir quando pequeno. Desconfiava que sim. O carro devia ter sido novo algum dia, fazia sentido pensar que sim. Tudo já foi novo algum dia, afinal. O couro dos bancos estava rachado e descascando, e o painel que imitava madeira, empoeirado.
Havia uma sacola de compras de papel pardo entre eles, no banco da frente.
O velho carro da sra. Higgler não tinha porta-copos, e ela segurava a gigantesca caneca de café entre as coxas enquanto dirigia. A perua parecia ser anterior à invenção do ar-condicionado, e estava com as janelas abertas. Fat Charlie não se importou. Depois do frio úmido da Inglaterra, o calor da Flórida era mais que bem-vindo. A sra. Higgler seguiu para o sul, em direção à rodovia com pedágio. Ela falava enquanto dirigia: comentou sobre o último furacão e sobre como tinha levado o sobrinho, Benjamin, ao SeaWorld e à Disney, e como nenhum dos hotéis de hoje em dia era tão bom quanto os de antigamente. Falou sobre regras de construção, o preço do combustível, recontou com riqueza de detalhes o que dissera ao médico quando ele sugeriu uma prótese de quadril, explicou por que os turistas continuavam a alimentar jacarés e por que os recém-chegados construíam casas na praia e depois ficavam surpresos quando a casa ou a praia desapareciam, ou quando os jacarés comiam seus cachorros. Fat Charlie deixou que aquilo tudo jorrasse sobre ele. A mulher estava só jogando conversa fora.
A sra. Higgler reduziu a velocidade e pegou o tíquete de acesso à rodovia com pedágio. E parou de falar. Parecia perdida em pensamentos. Daí disse:
— Então, quer dizer que você conheceu seu irmão.
— Sabe, a senhora bem que podia ter me avisado.
— Eu avisei que ele é um deus.
— Mas não mencionou que ele é um mala.
A sra. Higgler fungou e tomou um gole de café.
— Podemos parar em algum lugar para comer? — perguntou Fat Charlie. — Eles só serviram cereais e bananas no avião. Sem colher. E o leite acabou antes de chegar à minha fileira. Pediram desculpas e nos deram vouchers de refeição para compensar.
A sra. Higgler balançou a cabeça.
— Eu podia ter usado o voucher e comido um hambúrguer no aeroporto.
— Eu já expliquei que Louella Dunwiddy está preparando um peru para você. Como acha que ela vai se sentir se você chegar lá depois de encher o bucho no McDonald’s e estiver sem apetite? Hein?
— Mas estou com fome. E ainda faltam duas horas.
— Ah, não do jeito que eu dirijo — retrucou ela, com firmeza.
E, com isso, a velha senhora pisou fundo no acelerador. Às vezes, enquanto a perua marrom sacolejava pela estrada, Fat Charlie fechava bem os olhos e, ao mesmo tempo, pisava firme com o pé esquerdo em um freio imaginário. Era bem exaustivo.
Em muito menos de duas horas, chegaram à saída da rodovia com pedágio e pegaram uma estradinha. Seguiram na direção da cidade. Passaram pela Barnes and Noble e pela Office Depot. Passaram por casas milionárias com portões automáticos. Desceram as ruas residenciais mais antigas, que Fat Charlie lembrava que eram muito mais bem-cuidadas quando era pequeno. Passaram pela lanchonete caribenha e pelo restaurante com a bandeira da Jamaica nas janelas, ostentando placas escritas à mão anunciando os especiais de rabada e arroz, além de cerveja artesanal de gengibre e frango ao curry.
Fat Charlie ficou com água na boca. Seu estômago roncou.
O carro sacolejava sem parar. As casas daquela área eram mais velhas, e, dessa vez, tudo parecia familiar.
Os flamingos de plástico cor-de-rosa ainda se destacavam no jardim da frente da sra. Dunwiddy, apesar de, com o passar dos anos, o sol tê-los desbotado até ficarem quase brancos. Também havia um globo espelhado, e, quando o viu, por um instante Fat Charlie ficou mais assustado do que já ficara em toda a vida.
— As coisas estão muito ruins com o Spider? — perguntou a sra. Higgler, enquanto caminhavam até a porta da casa da sra. Dunwiddy.
— Só digo uma coisa: acho que ele está dormindo com minha noiva. O que é bem mais do que eu jamais fiz.
— Ah — respondeu a sra. Higgler, estalando a língua.
E tocou a campainha.
* * *
Era meio que como em Macbeth, pensou Fat Charlie, uma hora mais tarde. Na verdade, se as bruxas na peça fossem quatro velhinhas e se, em vez de caldeirões ferventes e encantamentos malignos, tivessem apenas recebido e alimentado Macbeth com peru, arroz e ervilhas servidos em pratos de porcelana branca sobre uma toalha de mesa de plástico com estampa xadrez vermelha e branca — sem falar no pudim de batata-doce e na salada de repolho apimentado — e o encorajado a repetir tudo duas, três vezes, e depois, quando Macbeth tivesse declamado que não, estava cheio e quase empanturrado e jurasse não aguentar comer mais nada, as bruxas o forçassem a engolir a receita especial de arroz-doce e uma fatia grande do famoso bolo de abacaxi da sra. Bustamonte, teria sido exatamente igual a Macbeth.
— Então, soube que seu irmão foi visitá-lo — falou a sra. Dunwiddy, tirando um farelo de bolo de abacaxi do canto da boca.
— É. Eu falei com uma aranha. Acho que foi culpa minha. Eu não esperava que isso fosse acontecer de verdade.
Um coro de tsc, tsc, tsc circulou pela mesa conforme a sra. Higgler, a sra. Dunwiddy, a sra. Bustamonte e a srta. Noles estalavam a língua e balançavam a cabeça.
— Ele costumava dizer que você era o burro — comentou a srta. Noles. — Estou falando de seu pai. Nunca acreditei nele.
— Bem, como eu poderia saber? — protestou Fat Charlie. — Não é como se meus pais tivessem dito: “Por falar nisso, filho, você tem um irmão que não conhece. Convide-o para uma visita e ele fará com que você seja investigado pela polícia, dormirá com sua noiva e não vai apenas se mudar para sua casa, vai enfiar uma casa extra no quartinho dos fundos. Além disso, também vai fazer lavagem cerebral em você, obrigá-lo ir ao cinema e passar a noite inteira tentando chegar em casa e...”
Ele parou. Era o modo como as mulheres olhavam para ele.
Um suspiro circulou pela mesa. Passou da sra. Higgler para a srta. Noles, depois para a sra. Bustamonte e para a sra. Dunwiddy. Foi muito perturbador e um pouco assustador, mas a sra. Bustamonte arrotou, o que arruinou o efeito.
— Então, o que você quer? — perguntou a sra. Dunwiddy. — Diga para nós.
Fat Charlie pensou sobre o que queria, ali na pequena sala de jantar da sra. Dunwiddy. Lá fora, a luz do dia se esvaía em um crepúsculo suave.
— Minha vida está um inferno por causa dele — explicou. — Quero que as senhoras o façam ir embora. Só isso, ir embora. Acham que conseguem?
As três mulheres mais novas não responderam. Apenas olharam para a sra. Dunwiddy.
— Na verdade, não podemos fazê-lo ir embora — explicou ela. — Nós já... — Mas ela parou no meio da frase, dizendo: — Bem, já fizemos o possível em relação a isso, sabe?
Fat Charlie merece o crédito por não ter, por mais que quisesse muito, irrompido em lágrimas, começado a gritar ou murchado como um suflê solado. Ele apenas balançou a cabeça.
— Bem, então me desculpem pelo incômodo. Obrigado pelo jantar.
— Não podemos fazê-lo ir embora — continuou a sra. Dunwiddy, os velhos olhos castanhos quase negros por trás dos óculos de armação grossa como seixos —, mas podemos indicar alguém que possa.
* * *
A noite tinha apenas começado na Flórida, o que significava que já era bem tarde em Londres. Na grande cama de Rosie, onde Fat Charlie nunca estivera, Spider estremeceu.
Rosie pressionou o corpo nu contra o dele.
— Charles, tudo bem?
A mulher podia sentir o arrepio dele na pele de seu braço.
— Estou bem. Só tive uma sensação ruim, de repente.
— Algum espírito deve ter passado por aqui — comentou Rosie.
Ele a puxou para si e a beijou.
Enquanto isso, sentada na pequena sala de sua casa em Hendon, usando uma camisola verde-clara e pantufas rosa-shocking, Daisy estava diante da tela do computador, balançando a cabeça e clicando o mouse.
— Vai demorar muito? — perguntou Carol. — Você sabe que tem um setor enorme de computação que deveria estar fazendo isso. Não você.
Daisy emitiu um ruído. Não era um ruído de sim nem de não. Era um ruído do tipo sei-que-alguém-falou-comigo-e-se-eu-der-uma-resposta-qualquer-talvez-me-deixem-em-paz.
Carol já tinha ouvido esse ruído antes. E reclamou:
— Ei! Sua bundona! Ainda vai demorar muito? Quero atualizar meu blog.
Daisy processou as palavras. Apenas uma foi registrada.
— Tá dizendo que eu tenho a bunda grande?
— Não. Estou dizendo que está ficando tarde, e quero atualizar o blog. Vou fazê-lo transar com uma supermodelo no banheiro de uma boate não identificada de Londres.
Daisy suspirou.
— Está bem. É muito esquisito, só isso.
— O que é esquisito?
— Fraude. Eu acho. Bem, já desloguei do computador. É todo seu. Sabia que você pode ter problemas por se passar por um membro da família real?
— Cai fora.
Carol assinava um blog como um membro da família real: um homem jovem e irresponsável. Houvera discussões na imprensa sobre sua existência, muitos observando que várias coisas que Carol escrevera só poderiam ser do conhecimento de um verdadeiro membro da Família Real Britânica — ou de qualquer um que lesse revistas de fofoca.
Daisy se afastou do computador, ainda pensando nas finanças da Agência Grahame Coats.
Enquanto isso, no quarto de uma casa grande, mas sem exageros, em Purley, Grahame Coats dormia um sono profundo. Se houvesse alguma justiça no mundo, ele gemeria e suaria durante o sono, torturado por pesadelos, açoitado pela fúria de sua consciência como se ferroado por escorpiões. Por isso, é doloroso admitir que Grahame Coats dormia como um bebê bem-alimentado cheirando a leite e não tinha sonhos.
Em algum lugar na casa de Grahame Coats, um relógio de pêndulo bateu baixinho, doze vezes. Era meia-noite em Londres. Na Flórida, eram apenas sete.
De qualquer modo, era a hora mais sombria.
* * *
A sra. Dunwiddy removeu a toalha de mesa de plástico com estampa xadrez vermelha e branca e a guardou.
Ela disse:
— Quem está com as velas pretas?
A srta. Noles respondeu:
— As velas estão comigo.
Aos seus pés, havia uma sacola de compras, e ela remexeu em seu interior e pegou quatro velas. Eram quase que completamente negras. Uma era grande e sem ornamentação. As outras três tinham formato de pinguim preto e amarelo, o pavio saindo da cabeça.
— Era tudo o que eles tinham — desculpou-se. — E precisei ir a três lojas até encontrar alguma coisa.
A sra. Dunwiddy não comentou, mas balançou a cabeça. Ela posicionou cada vela em um dos quatro cantos da mesa, botando a única que não era de pinguim na cabeceira, onde se sentou. Cada vela repousava sobre um pratinho descartável. A sra. Dunwiddy pegou uma caixa grande de sal grosso, abriu a tampa e derramou os cristais em uma pilha sobre a mesa. Depois analisou o sal e, com um dedo indicador ressecado, dividiu-o em montinhos e fileiras.
A srta. Noles voltou da cozinha com uma grande tigela de vidro, que colocou no centro da mesa. Ela retirou a tampa de uma garrafa de xerez e serviu uma quantidade generosa na tigela.
A sra. Dunwiddy prosseguiu:
— Agora a grama do diabo, a raiz de jalapão e o amaranto.
A sra. Bustamonte remexeu na sacola de compras e pegou um vidro pequeno.
— São ervas finas. Achei que serviriam.
— Ervas finas! — exclamou a sra. Dunwiddy. — Ervas finas!
— Isso vai criar problema? — perguntou a sra. Bustamonte. — É o que eu sempre uso quando a receita diz manjericão isso ou orégano aquilo. Não vivo sem. Se quer saber, para mim não passam de um monte de ervas misturadas.
A sra. Dunwiddy suspirou.
— Ponha aí dentro — disse.
Meio vidro de ervas finas foi derramado no xerez. As folhas secas boiaram na superfície do líquido.
A sra. Dunwiddy continuou, escolhendo as palavras com cuidado:
— Agora, as quatro terras. Espero que ninguém aqui vá me dizer que não conseguiu as quatro terras e vamos ter que nos virar com uma pedrinha, uma água-viva morta, um ímã de geladeira e um sabonete.
— Eu trouxe as terras — anunciou a sra. Higgler.
Ela pegou a sacola de papel pardo que trouxera e tirou de lá quatro sacos transparentes com o que parecia areia ou argila seca, cada um de uma cor diferente. Ela esvaziou cada saco em um dos quatro cantos da mesa.
— Ainda bem que alguém estava prestando atenção — comentou a sra. Dunwiddy.
A srta. Noles acendeu as velas, comentando sobre como os pinguins acendiam com facilidade e como eram bonitos e engraçadinhos.
A sra. Bustamonte serviu uma taça do que restara de xerez para cada uma das quatro mulheres.
— Eu não ganho? — perguntou Fat Charlie, mesmo sem querer a bebida. Não gostava de xerez.
— Não. Você não. Você precisa estar bem lúcido para o ritual — retrucou a sra. Dunwiddy.
Ela enfiou a mão na bolsa e pegou uma caixinha de remédios dourada.
A sra. Higgler apagou as luzes.
Os cinco se sentaram em volta da mesa, sob a luz das velas.
— E agora? — perguntou Fat Charlie. — Vamos todos dar as mãos e fazer contato com os vivos?
— Não vamos, não — sussurrou a sra. Dunwiddy. — E não quero mais ouvir nem uma palavra saindo da sua boca.
— Desculpe — respondeu Fat Charlie, depois desejou não ter respondido.
A sra. Dunwiddy continuou:
— Preste atenção. Você irá aonde podem ajudá-lo. Mesmo assim, não ofereça nada que possua e não faça promessas. Você entendeu? Se precisar dar algo a alguém, tenha certeza de que vai receber em troca algo de mesmo valor. Tudo bem?
Fat Charlie quase disse “sim”, mas se segurou a tempo e apenas assentiu.
— Ótimo.
Em seguida, a sra. Dunwiddy começou a cantarolar uma melodia qualquer com sua voz velha, trêmula e hesitante.
A srta. Noles também começou a cantarolar, mas com um pouco mais de melodia. Sua voz era mais alta e forte.
A sra. Bustamonte não cantarolou. Em vez disso, sibilou. Era um sibilar intermitente, como o de uma cobra, que parecia encontrar o ritmo do cântico e serpentear através e por baixo dele.
A sra. Higgler abriu a boca, mas não cantarolou, nem sibilou. Ela zumbiu como uma mosca contra o vidro de uma janela, fazendo um ruído vibratório com a língua e os dentes que era tão estranho quanto improvável, como se tivesse um punhado de abelhas raivosas presas na boca, zumbindo contra os dentes e tentando escapar.
Fat Charlie imaginou se devia se juntar a elas, mas não tinha ideia do que deveria fazer, por isso se concentrou em ficar ali sentado e tentar não ficar com medo de todos aqueles ruídos estranhos.
A sra. Higgler jogou uma pitada de terra vermelha dentro da tigela com xerez e ervas mistas. A sra. Bustamonte jogou uma pitada de terra amarela. A srta. Noles, a terra marrom, e a sra. Dunwiddy se inclinou para a frente de um jeito agonizantemente lento e jogou um monte de lama negra.
A sra. Dunwiddy tomou um gole de xerez. Depois, com dedos artríticos, tateando e procurando, pegou algo da caixinha de comprimidos e jogou sobre a chama da vela. Por um instante, a sala ficou com cheiro de limão, mas depois restou apenas o odor de algo queimando.
A srta. Noles começou a tamborilar no tampo da mesa. Ela não parou de cantarolar. As chamas das velas tremeluziram, projetando grandes sombras dançantes nas paredes. A sra. Higgler começou a bater na mesa também, os dedos marcando um ritmo diferente do da srta. Noles, mais rápido e percussivo, as duas batidas se unindo para formar um novo ritmo.
Na mente de Fat Charlie, todos os ruídos começaram a se misturar em um novo som estranho: o cântico, o sibilar, o zumbido e as batidas. Ele começou a ficar tonto. Tudo era engraçado. Tudo era improvável. Nas vozes das mulheres, podia ouvir o som da vida selvagem na floresta, o crepitar de grandes chamas. Seus dedos pareciam esticados e elásticos, e os pés, extremamente distantes.
Sentiu, então, que estava em algum lugar acima da sala, em algum lugar acima de tudo, e que ali abaixo dele havia cinco pessoas ao redor de uma mesa. Aí uma das mulheres fez um gesto e jogou algo na tigela no centro, que se acendeu com um brilho tão forte que Fat Charlie ficou cego por um instante. Ele fechou os olhos, o que, logo percebeu, não adiantou nada. Mesmo com os olhos fechados, tudo estava claro demais.
Ele esfregou os olhos contra a luz do dia. Olhou em volta.
Uma encosta rochosa escarpada erguia-se como um arranha-céu atrás dele: a encosta de uma montanha. À sua frente, penhascos íngremes despencavam em direção ao desconhecido. Ele caminhou até a beira do precipício e, com cuidado, olhou para baixo. Viu algumas formas brancas, que achou que fossem ovelhas, até perceber que eram nuvens: nuvens grandes, brancas e felpudas, a uma boa distância abaixo. E, então, além das nuvens, não havia nada: conseguia ver o céu azul, e parecia que, se continuasse a olhar, poderia ver a escuridão do espaço e, mais além, o cintilar frio das estrelas.
Ele deu um passo atrás, saindo da beira do precipício.
Deu meia-volta e caminhou na direção das montanhas, que se erguiam cada vez mais, tão altas que ele não conseguia ver os cumes, tão altas que Fat Charlie se convenceu de que estavam caindo sobre ele, que iam desmoronar e enterrá-lo vivo, para sempre. Ele se obrigou a olhar para baixo de novo, a manter os olhos fixos no chão, e, ao fazer isso, notou buracos na parede de rocha que mais pareciam entradas de cavernas naturais.
Calculou que a área entre a encosta da montanha e os penhascos, onde ele estava, tinha menos de quinhentos metros de largura: um caminho polvilhado de rochas, pontilhado com áreas de mato e, aqui e ali, uma árvore seca empoeirada. A trilha parecia seguir a encosta até desaparecer em uma névoa distante.
Tem alguém me observando, pensou Fat Charlie.
— Olá? — chamou, inclinando a cabeça para trás. — Olá, tem alguém aí?
O homem que saiu da caverna mais próxima tinha a pele muito mais morena do que a de Fat Charlie, mais ainda que a de Spider. No entanto, o cabelo comprido era de um loiro acastanhado e emoldurava seu rosto como uma juba. Ele usava uma pele esfarrapada de leão na cintura, com uma cauda de leão presa a ela, e essa cauda espantou uma mosca de seus ombros.
O homem piscou os olhos dourados.
— Quem é você? — rugiu. — E quem lhe deu permissão para caminhar por este lugar?
— Sou Fat Charlie Nancy. Meu pai é Anansi, a Aranha.
O homem assentiu com sua enorme cabeça.
— E por que veio até aqui, filho de Compé Anansi?
Eles estavam sozinhos nas rochas, pelo menos até onde Fat Charlie sabia. Mesmo assim, parecia haver mais gente ouvindo, muitas vozes caladas, muitos ouvidos atentos. Fat Charlie falou alto, para que todos os que estivessem ali pudessem escutar.
— Meu irmão está arruinando minha vida. E não consigo mandá-lo embora.
— Então você quer nossa ajuda? — perguntou o homem-leão.
— Sim.
— E esse seu irmão. Ele é como você, tem sangue de Anansi?
— Ele não tem nada a ver comigo — explicou Fat Charlie. — Ele é do seu povo.
Em um movimento fluido, dourado, o homem-leão na entrada da caverna deu um salto leve e preguiçoso para baixo, passando pelas pedras cinzentas, cobrindo cinquenta metros em instantes. De repente, estava de pé ao lado de Fat Charlie, perguntando:
— E por que você mesmo não lida com isso?
A boca de Fat Charlie estava seca. A garganta parecia estar cheia de poeira. A criatura que o encarava, mais alta que qualquer homem, não tinha cheiro de gente. As pontas dos caninos repousavam sobre os lábios inferiores.
— Não posso — gemeu Fat Charlie.
Da entrada da caverna seguinte, projetou-se um homem imenso. A pele era cinza, quase marrom, além de enrugada e flácida, e tinha pernas muito, muito grossas. Ele falou:
— Se você e seu irmão brigaram, devem pedir ao seu pai que julgue a situação entre os dois. Submetam-se à vontade do chefe da família. Essa é a lei.
Ele jogou a cabeça para trás e soltou um ruído do fundo do nariz e da garganta, um som potente semelhante ao da trombeta. E Fat Charlie soube que estava olhando para o Elefante.
Ele engoliu em seco.
— Meu pai está morto — respondeu, com a voz clara outra vez, mais limpa e alta do que esperava. Ela ecoou pelo penhasco, voltou até ele de cem outras cavernas, cem grandes afloramentos de rocha. Morto, morto, morto, morto, morto, disse o eco. — É por isso que estou aqui.
O Leão disse:
— Não gosto nada de Anansi, a Aranha. Uma vez, há muito tempo, ele me amarrou a um tronco e fez um jumento me arrastar pela terra até o trono de Mawu, aquela que criou todas as coisas.
Ele rosnou ao lembrar, e Fat Charlie desejou estar em outro lugar.
— Continue andando — mandou o Leão. — Pode haver alguém aqui que o ajude, mas essa pessoa não sou eu.
O Elefante completou:
— Nem eu. Seu pai me enganou e comeu a gordura da minha barriga. Ele disse que estava fazendo sapatos para mim, mas me cozinhou e deu risadas enquanto enchia a pança. O Elefante nunca esquece.
Fat Charlie seguiu em frente.
Na entrada da caverna seguinte havia um homem com um terno verde bem cortado e um chapéu elegante com uma fita de couro de cobra. Ele também usava botas e cinto de pele de cobra. E sibilou quando Fat Charlie passou.
— Continue seu caminho, filho de Anansi — disse a Cobra, a voz um chacoalhar seco. — Toda a sua família maldita só traz problemas. Não quero me meter em seus assuntos.
A mulher na entrada da caverna seguinte era muito bonita, e os olhos pareciam gotas negras de petróleo, e os bigodes eram muito brancos em contraste com a pele. Ela possuía duas fileiras de seios sobre o peito.
— Conheci seu pai. Há muito tempo. Nossa!
Ela sacudiu a cabeça ao lembrar, e Fat Charlie sentiu como se tivesse acabado de ler uma carta particular. Ela lhe mandou um beijo, mas balançou a cabeça quando ele tentou se aproximar.
Ele continuou andando. Uma árvore morta erguia-se à frente, como se fosse construída com ossos velhos e acinzentados. As sombras ficavam mais longas à medida que o sol descia lentamente no céu infinito, muito além de onde os precipícios mergulhavam para o fim do mundo. O sol era uma bola laranja-dourada monstruosa, e todas as pequenas nuvens abaixo dela brilhavam em púrpura e ouro.
Os assírios atacaram como um lobo no aprisco, pensou Fat Charlie, o verso do poema ressurgindo de alguma aula de literatura havia muito esquecida. Com legiões reluzentes de púrpura e ouro. Tentou lembrar o que era um aprisco, mas não conseguiu. Provavelmente, concluiu, devia ser uma espécie de esconderijo.
Algo se moveu perto de seu cotovelo, e ele percebeu que o que pensara ser uma rocha marrom sob a árvore morta na verdade era um homem, com pele da cor da areia e costas malhadas como as de um leopardo. O cabelo era comprido e negro e seu sorriso revelava grandes dentes de gato. Ele sorriu por apenas alguns instantes, e foi um sorriso sem calor, humor ou amizade.
— Sou o Tigre. Seu pai me feriu de cem maneiras diferentes, e me insultou de outras mil. O Tigre não esquece.
— Sinto muito — respondeu Fat Charlie.
— Vou acompanhá-lo. Pelo menos por enquanto. Você disse que Anansi morreu?
— Sim.
— Ora, ora, ora. Ele me fez de bobo tantas vezes. Há muito tempo, tudo me pertencia: as histórias, as estrelas, tudo. E ele tirou tudo de mim. Talvez, agora que esteja morto, parem de contar aquelas suas malditas histórias. E de rir de mim.
— Sem dúvida vão parar — afirmou Fat Charlie. — Eu nunca ri de você.
Olhos da cor de esmeraldas lapidadas brilharam no rosto do homem.
— Sangue é sangue. A linhagem de Anansi é Anansi.
— Eu não sou meu pai — retrucou Fat Charlie.
O Tigre exibiu os dentes. Eram afiados.
— É errado sair por aí fazendo as pessoas rirem de tudo — explicou o Tigre. — É um mundo grande e sério lá fora, não tem nada de engraçado. Nunca. Você precisa ensinar as crianças a temerem e a tremerem. Precisa ensiná-las a serem cruéis. Ensiná-las a serem o predador na escuridão. A se esconderem nas sombras e depois dar o bote, ou saltar, ou se atirar, mas sempre matar. Você sabe qual é o verdadeiro sentido da vida, não sabe?
— Hã... Amar uns aos outros?
— O sentido da vida é o sangue quente da sua presa na língua, a carne que se rasga sob os dentes, o cadáver do seu inimigo deixado ao sol como oferenda para os carniceiros. Isso é a vida. Eu sou o Tigre, e sou mais forte que Anansi jamais foi, maior, mais perigoso, mais poderoso, mais cruel, mais sábio...
Fat Charlie não queria estar naquele lugar, conversando com o Tigre. Não que o Tigre fosse louco. É que ele era bastante fervoroso em suas convicções, que eram todas igualmente desagradáveis. Além disso, ele o lembrava de alguém, e mesmo sem saber dizer quem, sabia que era alguém de quem não gostava.
— Você pode me ajudar a me livrar do meu irmão?
O Tigre tossiu, como se tivesse uma pena, ou talvez um melro inteiro, preso na garganta.
— Quer que eu pegue água para você? — perguntou Fat Charlie.
O Tigre olhou para Fat Charlie com desconfiança.
— Na última vez em que Anansi me ofereceu água, acabei tentando comer a lua de dentro de um lago e me afoguei.
— Eu só estava tentando ajudar.
— Foi exatamente o que ele disse. — O Tigre se inclinou para perto de Fat Charlie e o encarou nos olhos. De perto, ele não parecia nem um pouco humano: seu nariz era muito achatado, os olhos, muito espaçados, e ele fedia como uma jaula no zoológico. A voz era um rugido grave. — É assim que você me ajuda, filho de Anansi, você e todo o seu sangue: fique bem longe de mim. Entendeu? Se quiser manter a carne colada aos ossos.
Então ele lambeu os beiços com a língua avermelhada de sangue fresco, mais comprida do que a de qualquer humano.
Fat Charlie recuou, certo de que, se desse as costas, se corresse, sentiria os dentes do Tigre em seu pescoço. Agora não havia nada sequer remotamente humano na criatura: ele estava do tamanho de um tigre de verdade. Era todo o grande felino que se voltara contra os homens, todo tigre que quebrara o pescoço de alguém como um gato doméstico abatendo um camundongo. Por isso não tirou os olhos do Tigre enquanto se afastava, e logo o animal caminhou silenciosamente de volta para a árvore morta e se esticou sobre as pedras, desaparecendo nas sombras irregulares. Só o agitar impaciente de sua cauda traía a posição.
— Você não precisa se preocupar com ele — comentou uma mulher, parada na entrada de uma caverna. — Venha aqui.
Fat Charlie não conseguia se decidir se ela era muito bonita ou feia como o diabo. Então foi em sua direção.
— Ele parece todo imponente, mas tem medo até da própria sombra. E mais medo ainda da sombra do seu pai. Não tem força nas mandíbulas. — Havia algo de canino no rosto dela. Não, não era canino... — Mas eu... Eu quebro os ossos. É onde fica a melhor parte. É onde estão escondidas as carnes mais doces, e ninguém sabe disso, só eu.
— Estou procurando alguém para me ajudar a me livrar do meu irmão.
A mulher jogou a cabeça para trás e deu risada, um riso que mais parecia um ruído selvagem, alto, longo e insano. Então Fat Charlie soube quem ela era.
— Você não vai encontrar ninguém disposto a ajudá-lo por aqui — explicou a mulher. — Todos acabaram na pior quando tentaram enfrentar seu pai. O Tigre odeia você e sua laia mais que qualquer pessoa já odiou alguma coisa, mas nem ele vai ajudar enquanto seu pai estiver solto no mundo. Olha só, continue seguindo este caminho. Se quer saber, e eu tenho uma pedra de profecia atrás do olho, sei que você não vai encontrar ninguém para ajudá-lo até chegar a uma caverna vazia. Entre nela. Fale com quem quer que esteja lá. Entendeu?
— Acho que sim.
Ela riu. Não foi uma risada boa.
— Quer passar um tempo comigo, antes de ir? Eu sou muito interessante. É como dizem: não há criatura mais mesquinha, maligna e obscena que a Hiena.
Fat Charlie balançou a cabeça e continuou andando, passando pelas cavernas enfileiradas nas paredes de pedra do fim do mundo. Ao olhar para a boca negra de cada caverna, via pessoas de todas as formas e tamanhos, algumas minúsculas, outras altas, homens e mulheres. Quando passava, elas eram iluminadas por um breve momento, saindo das sombras, e Fat Charlie via patas, escamas, chifres ou garras.
Às vezes, assustava os moradores, que recuavam mais para o fundo da caverna. Outros avançavam e o encaravam com um olhar ora agressivo, ora curioso.
Alguma coisa saiu rolando das rochas acima da entrada de uma das cavernas e caiu ao lado de Fat Charlie.
— Olá — disse a coisa, sem fôlego.
— Olá — respondeu Fat Charlie.
O recém-chegado era inquieto e peludo. Os braços e as pernas pareciam errados. Fat Charlie tentou identificá-lo. Os outros animais-pessoas eram animais, sim, mas também eram pessoas, e não havia nada de estranho nem contraditório naquilo. A animalidade e a humanidade eram combinadas como as listras de uma zebra, criando um cenário diferente. Mas aquela criatura parecia tanto humana quanto quase-humana, e a estranheza daquilo incomodava Fat Charlie. Então, ele entendeu.
— Macaco — anunciou. — Você é o Macaco.
— Tem um pêssego? — indagou o Macaco. — Tem uma manga? Tem um figo?
— Infelizmente, não — respondeu Fat Charlie.
— Me dê alguma coisa para comer e serei seu amigo.
A sra. Dunwiddy o alertara sobre aquilo. Não dê nada, pensou. Não faça promessas.
— Bem, é uma pena, mas não tenho nada para lhe oferecer.
— Quem é você? — perguntou o Macaco. — O que é você? Você parece meia coisa. Você é daqui ou de lá?
— Anansi era meu pai — explicou Fat Charlie. — Estou à procura de alguém que me ajude a lidar com meu irmão, fazê-lo ir embora.
— Isso pode deixar Anansi irritado — comentou o Macaco. — Ideia muito ruim, essa. Se deixar Anansi irritado, você não entra em mais nenhuma história.
— Anansi está morto — anunciou Fat Charlie.
— Morto lá — explicou o Macaco. — Pode até ser. Mas morto aqui? Isso já são outros quinhentos.
— Quer dizer que ele pode estar por aqui?
Fat Charlie olhou para o alto da montanha, um pouco mais preocupado. Era muito perturbadora a ideia de que poderia encontrar o pai parado na entrada de uma daquelas cavernas, o chapéu fedora verde enterrado na cabeça, indo para a frente e para trás em uma cadeira de balanço, bebendo uma latinha de cerveja escura e disfarçando um bocejo com as luvas cor de lima.
— Quem? O quê?
— Você acha que ele está aqui?
— Quem?
— Meu pai.
— Seu pai?
— Anansi.
O Macaco pulou para o alto de uma pedra, apavorado, e se espremeu contra a rocha. Os olhos iam de um lado para outro sem parar, como se achasse que um furacão fosse surgir de repente.
— Anansi? Ele está aqui?
— Foi isso que eu perguntei — explicou Fat Charlie.
De repente, o Macaco se balançou e ficou pendurado pelos pés, de cabeça para baixo. Encarou Fat Charlie.
— Às vezes eu volto ao mundo — disse. — Sempre dizem: Macaco, Macaco sábio, venha, venha. Venha comer os pêssegos que trouxemos para você. E as nozes. E as larvas de inseto. E os figos.
— Meu pai está aqui? — perguntou Fat Charlie, bem paciente.
— Ele não tem uma caverna — explicou o Macaco. — Eu saberia se tivesse. Acho. Talvez ele tivesse uma caverna, e eu tenha esquecido. Se você me desse um pêssego, eu conseguiria lembrar melhor.
— Não trouxe nada comigo — respondeu Fat Charlie.
— Nenhum pêssego?
— Infelizmente, não.
O Macaco se balançou até o alto da pedra e desapareceu.
Fat Charlie avançou pelo caminho de pedra. O sol tinha baixado e estava na altura da trilha, queimando em um tom laranja forte. Lançava a luz antiga bem no interior das cavernas, revelando que todas eram habitadas. Aquele devia ser o Rinoceronte, de pele cinza, encarando o exterior com os olhos míopes. Ali, em águas rasas, da cor de um tronco em decomposição, estava o Crocodilo, os olhos negros como vidro vulcânico.
Algumas pedras rolaram às suas costas, e Fat Charlie se virou de supetão. O Macaco ergueu os olhos para ele, os nós dos dedos tocando o chão.
— Eu não tenho fruta nenhuma, sério — anunciou Fat Charlie. — Ou daria a você.
— Fiquei com pena — explicou o Macaco. — Talvez seja melhor você voltar para casa. Essa é uma ideia muito, muito, muito ruim. Né?
— Não é, não — retrucou Fat Charlie.
— Ah — disse Macaco. — Certo. Certo, certo, certo, certo, certo.
Ele parou de andar. De repente, disparou, passou por Fat Charlie e parou diante de uma caverna mais à frente.
— Não é para entrar aí — avisou. — Lugar ruim.
Ele apontou para a entrada da caverna.
— Por que não? — perguntou Fat Charlie? — Quem mora aí?
— Não tem ninguém aí — explicou o Macaco, em tom de triunfo. — Por isso não é quem você está procurando, é?
— Sim — respondeu Fat Charlie. — É, sim.
O Macaco gritou e pulou, mas Fat Charlie passou por ele e começou a escalar as pedras até chegar à boca da caverna vazia. O sol carmesim mergulhava nos penhascos do fim do mundo.
Caminhando pela trilha que seguia a borda das montanhas do lugar onde começa o mundo (só são as montanhas do fim do mundo quando a pessoa vem da outra direção), a realidade parecia muito estranha e deformada. Aquelas montanhas e suas cavernas são feitas do material das histórias mais antigas (isso foi muito antes dos humanos, é claro. O que o fez pensar que os seres humanos foram as primeiras coisas a contar histórias?), e, ao sair da trilha e entrar em uma das cavernas, Fat Charlie sentiu como se estivesse adentrando a realidade de outra pessoa. A caverna era profunda, o solo todo manchado de branco, de excrementos de aves. Também havia penas no chão. E em vários lugares, igualzinho a um espanador ressecado e abandonado, havia o cadáver de uma ave, achatado e seco.
No fundo da caverna, nada além de escuridão.
Fat Charlie chamou:
— Olá? — E o eco de sua voz retornou de lá de dentro: Olá, olá, olá, olá. Ele continuou andando. A escuridão na caverna parecia quase palpável, como se tivessem colocado algo escuro e fino sobre seus olhos. Ele avançava devagar, um passo de cada vez, os braços estendidos.
Algo se moveu.
— Olá?
Os olhos estavam aprendendo a usar aquele mínimo de luz disponível, e ele conseguiu vislumbrar alguma coisa. Não é nada. Trapos e penas, só isso. Outro passo, e o vento moveu as penas e agitou os trapos no chão da caverna.
Algo levantou voo perto dele, passou voando através dele, abanando o ar com o bater de asas de um pombo.
O vento redemoinhou. A poeira atingiu seus olhos, e Fat Charlie piscou para se proteger do vento frio e recuou um passo quando um redemoinho de poeira, trapos e penas se ergueu na sua frente. Então o vento parou, e, onde havia penas flutuando, surgiu uma figura humana. Ela estendeu a mão, pedindo a Fat Charlie que se aproximasse.
Ele teria recuado, mas a criatura estendeu a mão e o agarrou pela manga. O toque era leve e seco, e ela o puxou em sua direção...
Ele deu um passo à frente, para dentro da caverna...
... E percebeu que estava ao ar livre, em uma planície cor de cobre, sem árvores, sob um céu cor de leite azedo.
Criaturas diferentes têm olhos diferentes. Olhos humanos (ao contrário de, digamos, os olhos de um gato ou de um polvo) são feitos para ver apenas uma versão da realidade por vez. Fat Charlie viu apenas uma coisa com os olhos, mas viu outra com a mente, e a loucura espreitava no espaço entre as duas. Pôde sentir um pânico selvagem se formar dentro de si, mas respirou fundo e o conteve, o coração batendo forte contra o peito. Ele se obrigou a acreditar em seus olhos, não na mente.
Por isso, mesmo sabendo que estava diante de uma ave de olhos insanos e penas irregulares, maior que qualquer águia, mais alta que um avestruz, com bico de ave de rapina — uma arma cruel capaz de estraçalhar tudo — e penas cor de ardósia cobertas de um óleo brilhante que criava um efeito de arco-íris escuro em tons de roxos e verdes, percebeu tudo em apenas um instante, em algum lugar bem no fundo da mente. O que via com os olhos era uma mulher de cabelo negro como as penas de um corvo parada onde antes havia uma ideia de ave. Ela não era jovem ou velha, e o encarava com um rosto que podia ter sido esculpido em obsidiana ainda nos tempos antigos, quando o mundo era jovem.
Ela o observou e não se moveu. Nuvens passavam pelo céu cor de leite azedo.
— Eu sou Charlie — anunciou Fat Charlie. — Charlie Nancy. Algumas pessoas, bem, a maioria me chama de Fat Charlie. Você também pode. Se quiser.
Nenhuma resposta.
— Anansi era meu pai.
Nada, ainda. Nem um leve tremor, nem uma respiração.
— Quero sua ajuda para fazer meu irmão ir embora.
Ela inclinou a cabeça ao ouvir aquilo. O suficiente para mostrar que estava ouvindo, o suficiente para mostrar que estava viva.
— Não consigo fazer isso sozinho. Ele tem poderes mágicos e tal. Falei com uma aranha, e logo depois meu irmão apareceu. Agora não consigo fazê-lo ir embora.
Quando ela falou, a voz era rouca e profunda, como a de um corvo.
— O que você quer que eu faça em relação a isso?
— Me ajudar? — sugeriu Fat Charlie.
A mulher pareceu pensar.
Mais tarde, Fat Charlie tentou lembrar, sem sucesso, o que ela estava vestindo. Às vezes, achava que era uma capa de penas. Outras, acreditava que devia ser algum tipo de trapo, quem sabe uma capa de chuva esfarrapada, como a que ela usava quando a viu outra vez, mais tarde, em Piccadilly, quando tudo começou a dar errado. Mas ela não estava nua: disso tinha quase certeza. Teria lembrado se ela estivesse nua, não teria?
— Ajudá-lo — repetiu ela.
— Ajudar a me livrar dele.
A mulher assentiu.
— Você gostaria que eu o ajudasse a se livrar da linhagem de Anansi.
— Eu só quero que ele vá embora e me deixe em paz. Não quero que você o machuque nem nada do tipo.
— Então prometa que vai me dar a linhagem de Anansi.
Fat Charlie estava parado na vasta planície acobreada, que, de algum modo ficava, ele sabia, no interior da caverna nas montanhas no fim do mundo, que, por sua vez, ficava dentro da sala de estar com cheiro de violetas da sra. Dunwiddy. Ele tentou entender o que era aquele pedido.
— Eu não posso lhe dar coisa alguma. Nem posso fazer promessas.
— Você quer que ele vá embora — explicou a mulher. — Diga. Meu tempo é precioso. — Ela cruzou os braços e o encarou com os olhos insanos. — Eu não tenho medo de Anansi.
Ele se lembrou da voz da sra. Dunwiddy.
— Hã... — começou Fat Charlie. — Eu não devo fazer promessas. E preciso pedir algo de igual valor. Quer dizer, tem que ser uma troca.
A mulher-pássaro pareceu irritada, mas assentiu.
— Então darei algo de igual valor em troca. Eu lhe dou minha palavra. — Ela pôs a mão sobre a dele, como se estivesse entregando algo, então fechou os dedos dele e deu uma apertadinha. — Agora diga.
— Eu lhe dou a linhagem de Anansi — disse Fat Charlie.
— Como é bom — falou uma voz.
Com isso, ela se desfez em pedaços. Literalmente.
Onde antes havia uma mulher, agora estava um bando de aves, levantando voo como se espantados por um tiro, avançando em direções diferentes. Logo o céu se encheu de aves, mais do que Fat Charlie poderia imaginar, aves marrons e negras, mergulhando e cruzando o firmamento, avançando como uma nuvem de fumaça negra mais vasta que a mente podia conceber, uma nuvem de mosquitos do tamanho do mundo.
— Você vai dar um sumiço nele? — perguntou Fat Charlie, gritando para o céu leitoso já escurecendo. As aves começaram a se movimentar. Cada uma se movia apenas um pouco, sem nunca parar de voar, mas de repente Fat Charlie percebeu que encarava um rosto no céu, um rosto formado pelas aves em movimento. Era muito grande.
O rosto disse seu nome em meio aos gritos, pios e chamados de milhares, milhares e mais milhares de aves, e os lábios do tamanho de arranha-céus formaram as palavras lá no alto.
O rosto se dissolveu em caos e loucura quando as aves em formação desceram daquele céu pálido, dando um mergulho direto em sua direção. Fat Charlie cobriu o rosto com as mãos, tentando se proteger.
O golpe atingiu sua bochecha de repente, bem forte. Por um instante, ele acreditou ser possível que uma das aves o tivesse acertado, rasgando seu rosto com o bico ou as garras. Aí viu onde estava.
— Não precisa bater de novo! — exclamou. — Está tudo bem. Não precisa me bater!
Na mesa, os pinguins estavam derretendo e virando tocos. As cabeças e os ombros não existiam mais. Agora as chamas queimavam acima das bolhas disformes de branco e preto que antes eram as barrigas, e os pés estavam mergulhados em poças de cera escura solidificada. Três velhas o encaravam com atenção.
A srta. Noles jogou o conteúdo de um copo d’água em seu rosto.
— A senhora também não precisava fazer isso — reclamou Fat Charlie. — Estou aqui, não estou?
A sra. Dunwiddy entrou na sala segurando um vidrinho marrom e ostentando um ar triunfante.
— Amônia, para acordá-lo — anunciou. — Sabia que tinha um pouco em algum lugar. Comprei mais ou menos em... Hã, 1977 ou 1978. Não sei se ainda está boa. — Ela olhou para Fat Charlie, depois franziu a testa. — Ele acordou. Quem o acordou?
— O rapaz não estava respirando — explicou a sra. Bustamonte. — Então dei um tapa nele.
— E eu joguei água — completou a srta. Noles. — O que o ajudou a terminar de acordar.
— Não preciso cheirar amônia — disse Fat Charlie. — Já estou encharcado e dolorido.
Mas as mãos idosas da sra. Dunwiddy já tinham removido a tampa do vidrinho e o empurravam para o nariz de Fat Charlie. Ele inspirou enquanto recuava, inalando uma onda de amônia. Sentiu os olhos lacrimejarem, parecia que tinha levado um soco no nariz. Começou a suar e ficou com coriza.
— Pronto — disse a sra. Dunwiddy. — Está se sentindo melhor, agora?
— Que horas são? — perguntou Fat Charlie.
— São quase cinco da manhã — respondeu a sra. Higgler. Ela tomou um gole de café da caneca gigante. — Estávamos preocupadas com você. É melhor nos contar o que aconteceu.
Fat Charlie tentou lembrar. Não que os acontecimentos tivessem evaporado, como acontece com sonhos, era mais como se a experiência das últimas horas tivesse acontecido com outra pessoa, alguém que não fosse ele, e Fat Charlie precisasse dar um jeito de entrar em contato com essa pessoa, fazendo uso de uma forma de telepatia que nunca praticara. Sua mente estava uma grande confusão, a realidade mágica e tecnicolor daquele outro lugar se dissolvia, voltando aos tons sépia da realidade.
— Tinha umas cavernas. Eu pedi ajuda. Havia também um monte de animais. Animais que eram pessoas. Nenhum deles queria ajudar. Todos tinham medo do meu pai. Então veio uma e disse que ia ajudar.
— Uma? — repetiu a sra. Bustamonte.
— Algumas criaturas eram homens, outras, mulheres — explicou Fat Charlie. — Essa era mulher.
— Você sabe o que ela era? Crocodilo? Hiena? Camundongo?
Ele deu de ombros.
— Eu podia ter lembrado, antes de as pessoas começarem a me bater e jogar água em mim. E a botar coisas no meu nariz. Isso faz as memórias fugirem.
A sra. Dunwiddy perguntou:
— Você se lembra do que eu falei? Não dar nada? Apenas trocar?
— Sim — respondeu ele, vagamente orgulhoso de si mesmo. — Sim. Tinha um macaco que queria que eu desse coisas a ele, e eu disse não. Olha, acho que preciso de uma bebida.
A sra. Bustamonte pegou um copo de alguma coisa que estava em cima da mesa.
— Achamos que você fosse precisar de uma bebida. Por isso demos uma peneirada no xerez. Pode ser que tenha umas ervas aí dentro, mas nada demais.
Ele estava com os punhos cerrados sobre o colo. Abriu a mão direita para pegar o copo oferecido pela velha senhora. Então parou e ficou olhando.
— O quê? — perguntou a sra. Dunwiddy. — O que foi?
Na palma de sua mão, preta, esmagada e disforme, havia uma pena. Então Fat Charlie lembrou. Ele se lembrou de tudo.
— Foi a mulher-pássaro.
* * *
O dia começava a amanhecer, cinzento, quando Fat Charlie entrou no banco do carona da perua da sra. Higgler.
— Tá com sono? — perguntou ela.
— Não muito. Só me sinto estranho.
— Aonde quer que eu leve você? Minha casa? A casa do seu pai? Um motel?
— Não sei.
Ela engatou a marcha e fez o carro sair para a rua.
— Aonde vamos?
A mulher não respondeu. Bebeu um pouco de café da megacaneca e disse:
— Talvez o que fizemos esta noite tenha sido o certo, talvez não. Às vezes, os problemas familiares devem ser deixados para a própria família resolver. Você e seu irmão. Os dois são muito parecidos. Acho que é por isso que brigam tanto.
— Imagino que essa seja uma interpretação obscura da palavra “parecido”, ainda da época dos colonizadores, que na verdade significa “não tem a menor semelhança”, certo?
— Não venha com esse seu humor britânico para cima de mim. Sei do que estou falando. Você, ele, os dois são farinha do mesmo saco. Lembro-me do seu pai dizendo: “Callyanne, meus filhos, os dois são mais burros que...” Sabe, não importa o que ele disse, a questão é que ele falou isso sobre os dois. — Uma ideia passou pela cabeça dela. — Ei. Quando você foi ao lugar onde ficam os deuses antigos, por acaso viu seu pai?
— Acho que não. Eu me lembraria.
A sra. Higgler assentiu e não disse nada, só continuou a dirigir.
Ela estacionou o carro, e os dois desceram.
Estava frio no amanhecer da Flórida. O Memorial Jardim do Repouso parecia saído de um filme: uma névoa baixa deixava tudo meio embaçado. A sra. Higgler abriu o pequeno portão, e eles caminharam pelo cemitério.
Antes havia apenas terra fresca enchendo a cova do pai, mas a grama crescera. Na cabeceira do túmulo, também havia uma placa de metal com um vaso, de metal, embutido. No vaso havia uma rosa amarela solitária.
— Que Deus tenha piedade do pecador nesta cova — recitou a sra. Higgler, emotiva. — Amém, amém, amém.
Eles tinham plateia: as duas garças de cabeça vermelha que Fat Charlie vira na visita anterior caminhavam na direção deles, as cabeças oscilando para frente e para trás, como dois aristocratas visitando uma prisão.
— Xô! — ralhou a sra. Higgler.
As aves a encararam sem muita curiosidade e não se afastaram.
Uma delas enfiou a cabeça na grama e a levantou com um lagarto se debatendo no bico. Uma sacudida e uma engolida depois, o lagarto virou uma saliência no pescoço da ave.
O coral do amanhecer estava começando: melros, corrupiões e tordos cantavam o dia na mata atrás do Memorial Jardim do Repouso.
— Vai ser bom voltar para casa — comentou Fat Charlie. — Com alguma sorte a mulher-pássaro já vai ter feito Spider ir embora quando eu chegar. Aí tudo vai estar bem. Posso resolver as coisas com Rosie.
Fat Charlie foi tomado por um otimismo tranquilo. Aquele seria um bom dia.
* * *
Nas histórias antigas, Anansi vive em sua casa, igualzinho a você ou eu. É claro que é ganancioso, voluptuoso, trapaceiro e muito mentiroso. Mas tem bom coração, muita sorte e, às vezes, é até honesto. Às vezes faz coisas boas, às vezes faz coisas ruins. Mas nunca é mau. Na maior parte das vezes, toma-se o partido de Anansi. Isso porque é ele que possui todas as histórias. Mawu lhe deu as histórias ainda no começo dos tempos. Tirou-as do Tigre e as deu a Anansi, que tece as mais belas teias.
Nas histórias, Anansi é uma aranha, mas também é um homem. Não é difícil imaginar as duas coisas ao mesmo tempo. Até uma criança consegue.
As histórias de Anansi são contadas por avós e tias na África Ocidental, e também por todo o Caribe e em todo o mundo. As histórias chegaram aos livros infantis: o velho Anansi grande e sorridente aparece pregando peças engraçadas em todo mundo. O problema é que avós, tias e autores de livros infantis costumam deixar algumas coisas de fora. Algumas histórias não são muito apropriadas para criancinhas.
Esta é uma das histórias que não são contadas para as crianças pequenas. Eu a chamo de:
ANANSI e a AVE
Anansi não gostava da Ave porque ela comia muitas coisas quando estava com fome, e uma das coisas que a Ave comia eram aranhas. E a Ave estava sempre com fome. Eles costumavam ser amigos, mas não eram mais.
Certo dia, durante uma caminhada, Anansi viu um buraco no chão e teve uma ideia. Ele enfiou um monte de madeira no fundo do buraco, acendeu uma fogueira, botou uma
panela por cima e encheu com raízes e ervas. Então começou a correr ao redor da panela, correndo e dançando, berrando e gritando, anunciando para todos:
— Eu me sinto bem. Eu me sinto muuuuito bem. Minha nossa, todas as minhas dores e
mazelas sumiram, nunca me senti tão bem em toda a minha vida.
A Ave escutou a barulheira. Ela desceu dos céus bem depressa para ver do que se tratava
toda aquela confusão. E perguntou:
— O que é isso que você está cantando? Por que está agindo como doido, Anansi? Ele cantarolou em resposta:
— Eu estava com dor no pescoço, mas passou. Estava com dor na barriga, e não estou
mais. Minhas juntas estalavam, mas agora estou tão flexível quanto uma palmeira, tão liso quanto a Cobra depois de trocar de pele. Tenho felicidade e energia para dar e vender. E a partir de agora serei perfeito, pois sei o segredo pra isso, e mais ninguém sabe.
— Que segredo? — perguntou a Ave.
— O segredo é meu — respondeu Anansi. — Todos vão ter que me dar suas coisas
favoritas, suas coisas mais preciosas, só para aprender meu segredo. Viva! Oba! Eu me sinto tão bem!
A Ave deu um pulinho mais para perto e inclinou a cabeça para o lado. Então perguntou: — Posso aprender esse segredo?
Anansi olhou para a Ave com desconfiança, então se posicionou em frente à panela enfiada
no buraco, cuja água estava borbulhando.
— Acho que não — respondeu Anansi. — Talvez não tenha o suficiente para ficar
espalhando. Deixe para lá.
A Ave retrucou:
— Bem, Anansi, sei que nem sempre fomos amigos. Mas vou lhe dizer uma coisa. Se você
compartilhar esse segredo comigo, juro que ave nenhuma vai comer aranhas outra vez. Seremos amigos até o fim dos tempos.
Anansi coçou o queixo e balançou a cabeça.
— É um segredo grande e poderoso saber como deixar as pessoas outra vez jovens, ativas,
vigorosas e livres da dor.
A Ave ajeitou as penas com o bico. Então disse:
— Ah, Anansi, você com certeza sabe que sempre o achei um homem muito bonito. Porque
não nos deitamos juntos ao lado da estrada por um tempo? Tenho certeza de que posso fazê-lo esquecer todas essas reservas quanto a revelar esse segredo para mim.
Então eles se deitaram ao lado da estrada e começaram a se beijar, a se abraçar, a rir e a se
divertir. Depois que Anansi conseguiu o que queria, a Ave perguntou:
— Então, Anansi, e o segredo?
— Bem, eu não ia contar a ninguém. Mas vou contar a você. É um banho de ervas, bem
aqui nesse buraco. Veja, vou jogar essas folhas e essas raízes na água. Bem, qualquer um que
tomar esse banho vai viver para sempre e sem sentir dor. Eu tomei, agora estou tão cheio de energia quanto um cabrito. Mas acho que não devo deixar mais ninguém tomar.
A Ave olhou para a água borbulhante e, mais do que depressa, mergulhou na panela. — Está quente demais, Anansi — reclamou ela.
— O calor é bom para as ervas soltarem as coisas boas — explicou Anansi. Então ele cobriu a panela com a tampa. Era uma tampa pesada, e Anansi colocou uma
pedra no topo, para deixá-la ainda mais pesada.
Bam! Bam! Bam! fazem as batidas de lá de dentro. — Se eu deixá-la sair agora, todo o efeito do banho borbulhante vai se desfazer — gritou
Anansi. — Você precisa relaxar aí dentro, sinta-se cada vez mais saudável.
Mas a Ave não devia ter ouvido, porque as batidas e empurrões vindos do interior da
panela continuaram por mais um tempo. Então pararam.
Naquela noite, Anansi e sua família comeram uma deliciosa sopa de Ave, servida junto
com Ave cozida. Passaram muitos dias sem sentir fome.
Desde então, as aves comem aranhas sempre que têm a oportunidade, e as aranhas e as aves
nunca mais voltaram a ser amigos.
Há outra versão dessa história em que também convencem Anansi a entrar na panela. As histórias são todas de Anansi, mas ele nem sempre leva a melhor.
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