Os Filhos de Anansi
Capítulo oito, no qual um bule de café acaba sendo bastante útil
CAPÍTULO
OITO
NO QUAL
UM BULE
DE CAFÉ
ACABA SENDO
BASTANTE
ÚTIL
SE TINHA ALGUMA coisa obrigando Spider a ir embora, ele não sabia o que era. Pelo contrário, Spider estava se divertindo horrores vivendo a vida de Fat Charlie. Estava se divertindo tanto fingindo que era o irmão que começou a se perguntar por que não fazia aquilo havia mais tempo. Era
mais divertido que pentear macaco.*
A parte de ser Fat Charlie que Spider mais gostava era Rosie.
Até aquele momento, Spider via as mulheres mais ou menos como substituíveis. A ideia era sequer dizer seu nome real, além de, é claro, dar um endereço que não valesse por mais do que uma semana. Não dar qualquer coisa além de um número de celular pré-pago. Mulheres eram divertidas e decorativas, acessórios sensacionais, mas sempre havia mais delas. Eram como tigelas de goulash vindo em uma esteira rolante: quando você acabava com uma, bastava pegava a seguinte e jogar creme azedo por cima.
Mas Rosie...
Rosie era diferente.
Ele não saberia explicar por que ela era diferente. Já tentara, mas sem sucesso. Em parte era por causa de como ele se sentia quando estava com ela. Era como se, ao se ver aos olhos dela, ele se tornasse uma pessoa melhor por inteiro. Isso era parte da explicação.
Spider gostava de saber que Rosie sabia onde encontrá-lo. Isso lhe trazia conforto. Ele se deliciava em suas curvas macias, em como ela desejava o bem a todos, em seu jeito de sorrir. Não havia nada de errado com Rosie, além do tempo que tinha que passar longe dela e, é claro, como começava a descobrir, a pequena questão da mãe de Rosie. Naquela noite em especial, enquanto Fat Charlie aguardava em um aeroporto a mais de seis mil quilômetros de distância, ainda no processo de ganhar um upgrade para a primeira classe, Spider estava no apartamento da mãe de Rosie, em Wimpole Street, descobrindo quem ela era da pior maneira possível.
Spider estava acostumado a alterar a realidade de leve, só um pouquinho, mas sempre tinha sido suficiente. Bastava mostrar à realidade quem é que mandava, e só. Tendo dito isso, ele nunca conhecera alguém que se apoiasse em sua própria realidade com tamanha firmeza quanto a mãe de Rosie.
— Quem é esse? — perguntou, com desconfiança, quando os dois entraram.
— Eu sou Fat Charlie Nancy — disse Spider.
— Por que ele está dizendo isso? — perguntou a mãe de Rosie. — Quem é ele?
— Eu sou Fat Charlie Nancy, seu futuro genro, e a senhora gosta muito de mim — disse Spider, com muita convicção.
A mãe de Rosie balançou a cabeça, piscou e o encarou.
— Você pode até ser Fat Charlie — respondeu ela, ainda em dúvida. — Mas não gosto de você.
— Bem — retrucou Spider —, mas devia. Eu sou muito simpático. Poucas pessoas são tão adoráveis quanto eu. Para ser sincero, não há limites para o quanto sou simpático. As pessoas se reúnem e fazem assembleias só para discutir o quanto gostam de mim. Ganhei vários prêmios, além de uma medalha de um pequeno país da América do Sul, tudo em tributo a quanto sou amado e à minha exuberância absoluta e sem limites. Não a trouxe comigo, claro. Guardo as medalhas na minha gaveta de meias.
A mãe de Rosie fungou. Ela não sabia o que estava acontecendo, mas, fosse o que fosse, não gostava nem um pouco. Até aquele momento, pensava que já tinha conseguido entender quem Fat Charlie era muito bem. Admitia que talvez tivesse reagido de modo um pouco equivocado no início: acreditava que Rosie não teria se envolvido com Fat Charlie com tamanho entusiasmo se, após o primeiro encontro entre a mãe e namorado, a mãe não tivesse se expressado com tamanha veemência. Ele é um mané, dissera a mãe de Rosie, pois sentia o cheiro do medo como um tubarão farejando sangue do outro lado de uma baía. Mas não conseguira convencer Rosie a largá-lo, e agora sua principal estratégia envolvia assumir o controle dos planos do casamento, de forma a deixar Fat Charlie tão infeliz quanto possível, e contemplar as estatísticas de divórcio com certo sorriso de satisfação.
Mas agora algo diferente estava acontecendo, e ela não estava gostando nem um pouco. Fat Charlie não era mais um cara grande e vulnerável. Essa nova criatura parecia astuta e a deixava confusa.
Enquanto isso, Spider estava tendo trabalho.
A maioria das pessoas não repara nas outras. Mas a mãe de Rosie reparava. Ela percebia cada detalhe. Ela estava bebericando água quente de uma xícara de porcelana de ossos. A mulher sabia que acabara de perder uma batalha, mesmo se não soubesse dizer como ou muito menos pelo que estava batalhando. Portanto, moveu o ataque seguinte para uma posição mais elevada.
— Charles, querido, fale mais sobre sua prima, Daisy. Estou com medo de que sua família não tenha tantos representantes. Gostaria que ela tivesse um papel maior na festa de casamento?
— Quem?
— Daisy — respondeu a mãe de Rosie, em uma voz doce. — A moça que conheci em sua casa no outro dia. Estava andando para cima e para baixo quase sem roupa. Se é que ela era sua prima, claro.
— Mãe! Se Charlie disse que era prima...
— Deixe que ele mesmo se defenda, Rosie — interrompeu a mãe, tomando outro gole de água quente.
— Certo — disse Spider. — Daisy.
Ele fez a mente voltar à noite de vinho, mulheres e música: levara a mulher mais bonita e engraçada de volta para o apartamento, logo depois de dizer que a ideia tinha sido dela, e precisou de sua ajuda para subir as escadas com o volume semiconsciente de Fat Charlie. Como já tinha aproveitado as atenções de várias mulheres ao longo da noite, levara a baixinha divertida para casa da mesma forma que alguém separa um chocolate com menta para depois do jantar. Mas aí descobriu, ao chegar em casa e botar um Fat Charlie limpo na cama, que não estava mais a fim. Aquela Daisy.
— A minha querida e adorável priminha — continuou, sem fazer pausa. — Tenho certeza de que ela vai adorar se envolver no casamento, se estiver no país. É uma pena, mas ela trabalha na embaixada. Está sempre viajando. Um dia está aqui e, no outro, está entregando um documento confidencial em Murmansk.
— Você não tem o endereço dela? Nem o telefone?
— Eu e a senhora vamos procurar juntos — concordou Spider. — Mundo afora. Ela vive indo de um lado para o outro.
— Então — insistiu a mãe de Rosie, assim como Alexandre, o Grande, ordenaria o saque e a pilhagem de uma pequena aldeia persa. — Da próxima vez em que ela estiver no país, você precisa convidá-la para vir aqui. Eu a achei uma graça, e tenho certeza de que Rosie vai adorar conhecê-la.
— Claro — respondeu Spider. — Eu vou, sim. Vou mesmo.
* * *
Toda pessoa que já existiu, existe ou existirá tem uma canção. Não é uma canção que alguém escreveu. Tem melodia própria, tem palavras próprias. Pouquíssimas pessoas chegam a cantar a própria canção. A maioria teme que sua voz não faça justiça a ela, ou que as palavras sejam tolas, honestas ou estranhas demais. É por essa razão que as pessoas optam por, em vez disso, viver suas canções.
Veja Daisy, por exemplo. A canção dela, que durante a maior parte de sua vida não saía da cabeça, tinha um ritmo que era uma espécie de marcha reconfortante, cheia de palavras sobre proteger os fracos e um refrão que começava com “Malfeitores, cuidado!”, por isso era boba demais para ser cantada em voz alta. Mas, às vezes, Daisy a cantarolava baixinho no chuveiro, enquanto se ensaboava.
E isso é, mais ou menos, tudo o que é preciso saber sobre Daisy. No mais, são apenas detalhes.
O pai dela nascera em Hong Kong. A mãe vinha da Etiópia, de uma família rica de exportadores de tapete que tinha uma casa em Adis Abeba, além de outra casa e algumas terras perto de Mazret. Os pais de Daisy se conheceram em Cambridge — ele estudava computação, muito antes de esta ser considerada uma boa escolha de carreira, e ela devorava química molecular e direito internacional. Eram dois jovens ao mesmo tempo estudiosos, tímidos por natureza e quase sempre deslocados. Os dois sentiam saudades de casa, mas por motivos muito diferentes. No entanto, ambos jogavam xadrez, e se conheceram em uma quarta-feira à tarde, no clube de xadrez. Como eram novatos, foram encorajados a jogar juntos, e, durante a primeira partida, a mãe de Daisy derrotou o pai com folga.
Ele ficou incomodado com aquilo, o suficiente para pedir uma revanche — ainda que de forma bem tímida — na quarta-feira seguinte, e em todas as quartas-feiras sucessivas depois disso (com a exceção das férias e dos feriados) pelos dois anos seguintes.
A interação social dos dois aumentava à medida que suas habilidades e o inglês dela melhoravam. Juntos, eles uniram as mãos, formando parte de uma corrente humana, e protestaram contra a chegada de caminhões carregados de mísseis. Juntos, embora parte de um grupo muito maior, viajaram até Barcelona para protestar contra a onda irrefreável do capitalismo internacional e para deixar registrado seu protesto contra a hegemonia das grandes corporações. Essa também foi a época em que tiveram a experiência de receber um spray de gás lacrimogênio lançado pelas autoridades, e o sr. Day torceu o pulso quando foi empurrado para fora do caminho pela polícia espanhola.
E então, em uma quarta-feira, no início do terceiro ano em Cambridge, o pai de Daisy venceu a mãe de Daisy no xadrez. Ele ficou tão contente, tão exultante e triunfante que, reforçado e encorajado pela conquista, fez o pedido de casamento. E a mãe de Daisy, que temia que, assim que vencesse uma partida, aquele homem perdesse o interesse nela, disse sim, é claro.
Eles ficaram na Inglaterra, permaneceram na universidade e tiveram apenas uma filha, que chamaram de Daisy, porque na época tinham (e para posterior diversão da filha, realmente usavam) uma tandem — uma bicicleta para duas pessoas, como na música “Daisy Bell”. Eles foram de universidade em universidade, passando por toda a Grã-Bretanha: ele dava aula de ciências da computação, e a esposa escrevia livros que ninguém queria ler, que eram sobre a hegemonia das corporações multinacionais, e livros que as pessoas queriam ler, que, por sua vez, eram sobre xadrez, suas estratégias e sua história. E assim, em um ano bom, ela ganhava mais dinheiro que ele, o que nunca era muito. O envolvimento do casal em política diminuiu à medida que envelheceram, e, ao se aproximarem da meia-idade, tinham se transformado em um casal feliz, sem interesses além do cônjuge, xadrez, Daisy e a reconstrução e depuração de sistemas operacionais esquecidos.
Nenhum dos dois entendia Daisy. Nem um pouquinho.
Achavam que a culpa era deles, que não tinham acabado com o fascínio da filha pela força policial assim que esse começou a se manifestar, mais ou menos na mesma época em que ela começou a falar. Daisy apontava para carros da polícia com a mesma animação que outras menininhas apontavam para pôneis. Seu aniversário de sete anos foi uma festa a fantasia, para que ela pudesse usar seu uniforme de policial. Ainda havia fotos guardadas em uma caixa no sótão da casa dos pais, o rosto da menina cheio da alegria perfeita de uma criança de sete anos diante da visão de seu bolo de aniversário: sete velas cintilando com uma luz azul piscante.
Daisy foi uma adolescente alegre, inteligente e aplicada, e deixou os pais muito felizes quando foi para a Universidade de Londres estudar direito e computação. O pai desejava que ela se tornasse professora de direito, a mãe acalentava sonhos de ver a filha abraçar a toga, talvez até se tornar juíza e usar a lei para esmagar as hegemonias das corporações, sempre que elas viessem à tona. E Daisy foi lá e estragou tudo ao prestar concurso para a polícia. A força policial a recebeu de braços abertos: por um lado, havia a diretriz de aumentar a diversidade do quadro de funcionários, por outro, crimes de informática e fraudes relacionadas a computação estavam cada vez mais frequentes. Eles precisavam de Daisy. Para falar a verdade, precisavam de um monte de Daisys.
Àquela altura, quatro anos depois, seria justo dizer que a carreira na força policial deixara a desejar para Daisy. Apesar de seus pais a terem alertado repetidas vezes, não era que a força policial fosse um monólito institucionalmente racista e sexista que esmagaria sua individualidade até transformá-la em alguma coisa uniforme que destruiria sua alma, que a tornaria tão alienada e parte de uma sociedade medíocre quanto café instantâneo. Não, a parte frustrante era fazer os outros tiras entenderem que ela era um deles. Daisy tinha chegado à conclusão de que, para a maioria dos tiras, o trabalho policial era algo que faziam para proteger a classe média dos indivíduos assustadores oriundos do extrato social errado, que só deviam estar por perto para roubar alguns telefones celulares. Para ela, era bem diferente. Daisy sabia que, de um quarto na Alemanha, um garoto qualquer poderia criar um vírus capaz de fazer parar um hospital, causando mais dano do que uma bomba. Em sua opinião, os verdadeiros vilões da atualidade entendiam de sites de FTP, encriptação de alto nível e celulares pré-pagos descartáveis. Ela não tinha certeza se o lado do bem entendia isso.
Daisy tomou um gole do café de um copo plástico e fez uma careta. Enquanto passava de tela em tela, o café esfriara.
Ela tinha revisado toda a informação que Grahame Coats lhe entregara. Com certeza havia evidências o bastante para acreditar que algo estava errado — no mínimo, havia indícios de que, na semana anterior, Charles Nancy fizera um cheque de duas mil libras para si mesmo.
Só que... só que ela estava com um mau pressentimento.
Ela atravessou o corredor e bateu à porta do superintendente.
— Entre!
Camberwell fumara seu cachimbo sentado à mesa por trinta anos, até que o prédio instituíra uma política antifumo. Agora ele se virava com um pouco de massa de modelar, que enrolava, apertava, esmagava e furava com o dedo. O homem de cachimbo na boca era plácido, bem-humorado e, na opinião de seus subordinados, uma pessoa maravilhosa. O homem com massa de modelar na mão vivia tenso e de mau humor. Nos dias bons, ficava apenas um pouco rabugento.
— Que foi?
— O caso da Agência Grahame Coats.
— O que é que tem?
— Não tenho muita certeza.
— Não tem certeza do quê? O que há para não ter certeza?
— Bem, eu acho que deveria sair do caso.
O chefe não pareceu impressionado. Ela a encarou fixamente. Em cima da mesa, os dedos, sem serem vigiados, moldavam a massa de modelar azul no formato de um cachimbo.
— Por quê?
— Conheci o suspeito socialmente.
— E? Por acaso saiu de férias com ele? É avó dos netos dele? Ou o quê?
— Não. Eu o conheci uma noite dessas. E dormi na casa dele.
— Então está me dizendo que fizeram aquilo? — O homem soltou um suspiro profundo, que englobava partes iguais de cansaço, irritação e um desejo enorme de fumar um pouco de tabaco Condor.
— Não, senhor. Nada disso. Eu só dormi lá.
— E esse foi todo o seu envolvimento com ele?
— Sim, senhor.
Ele esmagou o cachimbo de massinha até voltar a ser uma bola disforme.
— Você sabe que está desperdiçando meu tempo, não sabe?
— Sim, senhor. Me desculpe, senhor.
— Vá fazer o que tem que fazer. Não me perturbe.
* * *
Maeve Livingstone subiu até o quinto andar de elevador, sozinha. A viagem longa e sacolejante deu a ela tempo suficiente para ensaiar o que diria a Grahame Coats, quando chegasse ao escritório.
Carregava uma pequena maleta marrom, que pertencera a Morris: um objeto bastante masculino. Vestia blusa branca, saia jeans azul, e, por cima de tudo, um casaco cinza. Tinha pernas bem compridas, pele bastante pálida, e cabelos que permaneciam, com um mínimo de assistência química, quase tão loiros quanto eram quando ela se casou com Morris Livingstone, vinte anos antes.
Amara muito Morris. Após a morte do marido, ela não o apagou da agenda do celular, nem mesmo depois de cancelar o número dele. Fora seu sobrinho quem tirara a foto de Morris que ela definira como contato no celular, e ela não queria perdê-la. Gostaria de poder ligar para Morris e pedir seu conselho.
Ela se anunciara no interfone, pedindo para liberarem sua entrada lá em baixo. Grahame Coats já estava a sua espera quando ela entrou na recepção.
— Ora, ora, como vai você, minha formosa dama? — perguntou ele.
— Precisamos conversar a sós, Grahame, agora mesmo.
Ele deu um sorrisinho malicioso. Por mais estranho que parecesse, muitas de suas fantasias começavam com Maeve dizendo algo bastante parecido, seguido de declarações como “Preciso de você, Grahame, agora mesmo”, ou “Grahame, eu fui uma menina muito, muito má. Preciso ser castigada”, e, em raras ocasiões, “Grahame, você é homem demais para uma mulher só, por isso deixe-me apresentar minha irmã gêmea idêntica e que está nua, Maeve II”.
Os dois entraram no escritório.
Maeve não disse nada sobre precisar de Grahame Coats ali mesmo, naquele instante, o que foi um pouco decepcionante, na opinião dele. A mulher nem tirou o casaco. Em vez disso, abriu a maleta e pegou uma pilha de papéis, que colocou em cima da escrivaninha.
— Grahame, por sugestão do gerente do meu banco, fiz uma auditoria independente de suas contas e extratos da última década. Desde a época em que Morris ainda estava vivo. Você pode olhar os resultados, se quiser. Os números não batem. Nenhum deles. Achei que devia falar com você antes de ligar para a polícia. Senti que devia isso a você, em memória de Morris.
— E deve mesmo — concordou Grahame Coats, escorregadio como uma cobra em uma manteigueira. — Deve mesmo.
— E então?
Maeve Livingstone ergueu uma sobrancelha perfeita. A expressão em seu rosto não era tranquilizadora. Grahame Coats gostava mais dela em sua imaginação.
— Infelizmente, descobrimos que tivemos um funcionário desonesto na Agência Grahame Coats por um bom tempo, Maeve. Eu mesmo chamei a polícia, semana passada, quando percebi que havia algo errado. O braço da lei já está investigando a situação. Devido à natureza ilustre de vários clientes da Agência Grahame Coats, você entre eles, a polícia está agindo com o máximo de discrição possível. E quem pode culpá-los? — Ela não pareceu tão tranquilizada quanto ele esperara. Então tentou outra abordagem. — Os oficiais da lei têm grandes esperanças de recuperar boa parte, se não todo o dinheiro.
Maeve assentiu. Grahame Coats relaxou, mas apenas um pouco.
— Posso perguntar que funcionário foi esse?
— Charles Nancy. Tenho que admitir que confiava cegamente nele. Foi um grande choque.
— Ah. Ele é simpático.
— As aparências enganam.
Então ela sorriu, e foi um sorriso muito agradável.
— Não vai adiantar, Grahame. Isso está acontecendo há muito tempo. Desde muito antes de Charles Nancy começar a trabalhar aqui. Acho que até desde antes de mim. Morris confiava cegamente em você, e você o roubou. E está tentando incriminar um de seus funcionários. Ou talvez culpar um de seus cúmplices... Bem, não vai adiantar.
— Não — concordou Grahame Coats, pesaroso. — Me desculpe.
Ela pegou a pilha de papéis.
— Só por curiosidade: quanto você acha que roubou de Morris e de mim ao longo dos anos? Calculo que tenha sido uns três milhões de libras.
— Ah... — Ele não estava sorrindo. Com certeza tinha sido mais, mas mesmo assim... — Acho que foi mais ou menos isso.
Eles olharam um para o outro, e Grahame Coats fazia contas bem depressa. Precisava ganhar tempo. Era disso que precisava.
— E se... — sugeriu. — E se eu pagasse tudo em dinheiro, agora mesmo. Com juros. Digamos, cinquenta por cento sobre o valor em questão.
— Você está me oferecendo quatro milhões e meio de libras? Em dinheiro? E não teria problema?
Grahame Coats sorriu exatamente do mesmo modo que cobras prestes a dar o bote não costumam fazer.
— Claro que de jeito nenhum. Se você for à polícia, vou negar tudo e contratar advogados excelentes. Na pior das hipóteses, depois de um julgamento muito longo, no qual serei obrigado a denegrir o bom nome de Morris de todos os modos possíveis e imagináveis, serei condenado a passar no máximo de dez a doze anos na cadeia. Posso acabar cumprindo só cinco anos e sair por bom comportamento, e olha que serei um presidiário modelo. Considerando a superlotação das cadeias, passarei a maior parte da sentença em regime semiaberto, ou quem sabe em prisão domiciliar. Não acho muito problemático. Mas, por outro lado, garanto que, se você for à polícia, nunca receberá nem um centavo do dinheiro de Morris. A alternativa é ficar com a boca fechada, pegar todo o dinheiro de que precisa e um pouco mais, enquanto eu ganho tempo para... Para fazer a coisa certa. Se é que você me entende.
Maeve pensou a respeito.
— Eu adoraria ver você apodrecer na cadeia. — Então deu um suspiro e assentiu. — Está bem. Aceito o dinheiro. Nunca mais terei que vê-lo ou que lidar com você. Todos os futuros cheques de direitos autorais irão direto para mim. Algum problema com isso?
— Claro que de jeito nenhum. O cofre é por aqui — respondeu ele.
Havia uma estante na parede dos fundos, cheia de edições uniformes e encadernadas em couro, de Dickens, Thackeray, Trollope e Austen, todas não lidas. Ele puxou um livro, e a estante deslizou para o lado, revelando uma porta pintada para parecer a parede.
Maeve se perguntou se havia alguma senha para abrir o cofre, mas não, havia apenas uma pequena fechadura, que Grahame Coats destrancou com uma grande chave de latão. A porta se abriu.
Ele enfiou a mão lá dentro e acendeu a luz. Era um quarto estreito, os dois lados cobertos de prateleiras fixadas de modo um tanto amador. No fundo, havia um pequeno arquivo à prova de fogo.
— Você pode levar tudo em dinheiro, joias ou em uma combinação dos dois — explicou ele, sem rodeios. — Eu recomendaria essa última forma. Tem muito ouro antigo de qualidade, aqui. Super portátil.
Ele destrancou vários cofres e expôs os conteúdos. Anéis, correntes e pingentes brilhavam, reluziam e cintilavam.
Maeve ficou boquiaberta.
— Dê uma olhada.
A mulher passou por ele para entrar. Era uma caverna do tesouro.
Ela pegou um pingente de ouro preso a uma corrente, levantou-o na altura dos olhos e o encarou, maravilhada.
— Isso é lindo — disse. — Deve valer...
Maeve parou de repente. No ouro polido do medalhão, viu algo se mover atrás de si e se virou, então o martelo não a acertou bem no meio da nuca, como era a intenção de Grahame Coats. Em vez disso, passou de raspão por seu rosto.
— Seu merda! — exclamou ela, dando um chute no homem.
A mulher tinha pernas definidas e um chute forte, mas ela e o agressor estavam próximos demais.
O pé de Maeve acertou a canela dele, e ela tentou tirar o martelo de suas mãos. Grahame Coats deu outro golpe, e dessa vez acertou. Maeve tombou para o lado. Seus olhos pareceram sair de foco. Ele a golpeou outra vez, bem no topo da cabeça, e outra, e outra, até que ela caiu no chão.
Grahame Coats desejou ter um revólver. Uma arma boa e confiável. Com silenciador, como nos filmes. Para falar a verdade, se tivesse passado por sua cabeça a ideia de matar alguém em seu próprio escritório, teria se preparado muito melhor para aquilo. Poderia ter até arranjado um pouco de veneno. O que teria sido sábio. Sem necessidade de toda aquela violência.
Na ponta do martelo, havia resquícios de sangue e de cabelo loiro. Ele o soltou com nojo, deu a volta na mulher caída e pegou os cofres com as joias. Derramou o conteúdo de todos em cima da escrivaninha e os devolveu ao cofre, onde pegou uma maleta contendo maços de notas de cem dólares e de quinhentos euros, além de um saquinho de veludo preto com muitos diamantes soltos. Grahame Coats removeu algumas pastas do arquivo. E, por último, mas — como ele teria observado — não menos importante, tirou do quarto secreto o pequeno nécessaire de couro com duas carteiras e dois passaportes.
Então empurrou a porta pesada até fechá-la e a trancou, depois moveu a estante de volta para o lugar.
Ficou ali parado, um pouco ofegante, até se recompor.
Considerando tudo que aconteceu, concluiu, estava bem orgulhoso de si mesmo. Bom trabalho, Grahame. Bom garoto. Bom espetáculo. Ele improvisara com o que tinha à mão, e fora muito bem-sucedido: blefara, fora ousado e criativo — disposto, como diria o poeta, a arriscar tudo em uma única cartada. Tinha arriscado e ganhara. Estava no comando do jogo. Um dia, em seu paraíso tropical, escreveria suas memórias, e as pessoas descobririam como ele conseguira vencer uma mulher perigosa. Apesar de que, pensou, soaria melhor se ela estivesse segurando uma arma.
Mas ele se deu conta, ao refletir sobre o assunto, que era bem provável que ela tivesse puxado uma arma. Tinha quase certeza de que a vira tentar pegá-la. Tinha sido muita sorte o martelo estar ali por perto, era muita sorte ter uma caixa de ferramentas no quartinho para momentos em que precisava fazer reparos, ou não teria sido capaz de agir em legítima defesa com tanta agilidade e eficiência.
Foi só então que pensou em trancar a porta principal do escritório.
Percebeu que havia sangue em sua camisa e na mão, além de na sola de um dos sapatos. Tirou a camisa e limpou o sapato com ela. Então jogou a camisa na lata de lixo que ficava embaixo da escrivaninha. E se surpreendeu levando a mão à boca e usando a língua vermelha para lamber a gota de sangue que havia ali, como um gato.
Então bocejou. Pegou os papéis de Maeve de cima da mesa e os passou pela trituradora de papel. Havia uma cópia dos documentos na pasta, e ele também passou pela trituradora. Depois repicou o papel picado.
Havia um armário no canto do escritório, onde tinha um terno pendurado, camisas, meias e cuecas extras, entre outras coisas. Nunca dava para saber quando seria preciso ir a uma estreia direto do escritório, afinal. Ele tinha que estar preparado.
Grahame Coats se vestiu com cuidado.
Também havia uma pequena mala de rodinhas no armário, o tipo feito para ser deixada no compartimento superior de bagagens, na cabine de um avião. Ele botou coisas dentro dela, organizando-as para arrumar espaço.
Então ligou para a recepção.
— Annie, será que você pode dar uma saidinha e comprar um sanduíche para mim? Não, no Prêt, não. Pensei naquele do lugar novo, na Brewer Street. Estou finalizando as coisas com a sra. Livingstone. Pode ser que eu a leve para almoçar em algum lugar, mas é melhor estar prevenido.
Ele passou vários minutos na frente do computador, rodando o tipo de programa de limpeza de disco que pega a informação, escreve alguns zeros aleatórios por cima dela, depois a transforma em pedaços bem pequenos antes de, finalmente, depositá-la no fundo do Tâmisa com pesos de concretos presos aos pés. Em seguida, foi até o corredor, puxando a mala de rodinha atrás de si.
Ele enfiou a cabeça em um escritório, pela abertura da porta.
— Vou dar uma saída rápida — anunciou. — Se alguém perguntar, volto por volta das três.
Annie não estava na recepção, o que ele achou que era uma coisa boa. As pessoas pensariam que Maeve Livingstone já tinha ido embora da Agência e ficariam esperando que Grahame Coats voltasse a qualquer momento. Quando começassem a procurá-lo, ele já estaria bem longe.
Grahame Coats desceu pelo elevador. Tudo estava acontecendo cedo demais, pensou. Ainda faltava mais de um ano para seu quinquagésimo aniversário. Mas os mecanismos de fuga já estavam preparados. Ele só precisava pensar naquilo como uma indenização extra pelo afastamento ou talvez como um bote salva-vidas.
Então, puxando a mala de rodinhas, ele saiu pela porta da frente, adentrando a manhã ensolarada da Aldwych Street, deixando para sempre a Agência Grahame Coats.
* * *
Spider tivera um sono muito tranquilo em sua cama enorme, no lugar que arrumara para si no quarto extra da casa de Fat Charlie. Tinha começado a se perguntar, de modo um tanto vago, se o irmão partira para sempre, e decidiu investigar a questão da próxima vez que pudesse se dar ao trabalho de fazer isso, a menos que algo mais interessante o distraísse, ou que ele esquecesse.
Tinha ido dormir tarde, e agora encontraria Rosie para almoçar. Ia buscá-la em seu apartamento, e os dois iriam a algum lugar agradável. Era um belo dia de início de outono, e a felicidade de Spider era contagiante. Isso porque ele era, mais ou menos, um deus. Quando se é um deus, suas emoções são contagiantes — outras pessoas podem captá-las. Se alguém ficasse perto de Spider em um dia em que ele estivesse feliz, a vida daquela pessoa pareceria um pouco mais alegre. Se ele cantarolava uma canção, outras pessoas ao redor começavam a cantarolar no mesmo tom, como se fosse um musical. Claro, se ele bocejasse, cem pessoas próximas bocejariam, e se ele estivesse infeliz, o sentimento se espalharia como névoa úmida sobe um rio, tornando o mundo ainda mais lúgubre para todos os afetados. Não era algo que ele fazia. Era algo que ele era.
Naquele momento, a única coisa que diminuía um pouco sua felicidade era o fato de ter decidido contar a verdade a Rosie.
Spider não era muito bom em dizer a verdade. Ele enxergava a verdade como fundamentalmente maleável, mais ou menos uma questão de opinião, e ele era capaz de emitir algumas opiniões bem impressionantes quando precisava.
Ser um impostor não era o problema. Ele gostava de ser um impostor. Era bom nisso. E isso se encaixava em seus planos, que eram bem simples e, até agora, podiam ser resumidos mais ou menos como: (A) ir a algum lugar; (B) se divertir; e (C) ir embora antes de ficar entediado. E, lá no fundo, ele sabia que era hora de ir embora. O mundo ia servir-lhe de lagosta, e ele já estava com guardanapo em volta do pescoço e tinha à disposição um pote de manteiga derretida e um conjunto de instrumentos e aparelhos horrendos — embora eficientes — para comer lagostas.
Só que...
Só que ele não queria ir.
Ele estava repensando tudo, algo que Spider achava bastante desconcertante. Em geral, ele sequer pensava sobre as coisas. A vida sem pensar fora perfeitamente agradável: instinto, impulso e uma quantidade obscena de sorte lhe tinham sido muito úteis até então. Mas até os milagres só podiam levá-lo até certo ponto. Spider desceu a rua e as pessoas sorriam para ele.
Combinara com Rosie de encontrá-la em seu apartamento, então teve uma surpresa agradável ao vê-la parada no fim da rua, esperando por ele. Sentiu uma pontada de algo que ainda não era totalmente culpa e acenou.
— Rosie? Ei!
Ela veio em sua direção, e ele começou a sorrir. Os dois iam encontrar uma solução para aquilo. Tudo se resolveria da melhor maneira possível. Tudo ficaria bem.
— Você está linda nessa roupa — comentou. — Mais do que linda. O que você está com vontade de comer?
Rosie sorriu e deu de ombros.
Os dois passaram por um restaurante grego.
— Que tal comida grega?
Ela assentiu. Os dois desceram alguns degraus e entraram no restaurante. O lugar tinha acabado de abrir, e estava escuro e vazio. O dono levou para um cantinho nos fundos, um lugar que mal dava para ver da entrada.
Eles sentaram de frente um para o outro. A mesa só tinha lugar para dois.
— Tem uma coisa sobre a qual eu queria conversar com você — disse Spider. Rosie não respondeu. — Não é ruim — prosseguiu. — Também não é bom. Mas. Bem, é algo que você precisa saber.
O dono veio perguntar se já queriam fazer o pedido.
— Café — respondeu Spider, e Rosie assentiu, concordando. — Dois cafés. E, se der, gostaríamos de... hã... Uns cinco minutinhos? Preciso de um pouco de privacidade aqui.
O dono se retirou.
Rosie olhou para Spider, intrigada.
Ele respirou fundo.
— Certo. Está bem. Vou dizer de uma vez, porque não é fácil, e não sei se consigo... certo. Está bem. Veja bem... Eu não sou Fat Charlie. Sei que você acha que sou, mas não sou. Eu sou Spider, o irmão dele. Você acha que eu sou ele porque somos um pouco parecidos.
Ela não disse uma palavra.
— Bem, na verdade, eu não pareço muito com ele. Mas... Sabe, isso não é nem um pouco fácil. Está bem. Hã. Não consigo parar de pensar em você. Por isso, quer dizer, sei que você está noiva do meu irmão, mas estou meio que perguntando... Bem, o que você acha de, quem sabe, largá-lo e aí, quem sabe, ficar comigo.
Um bule de café chegou sobre uma bandeja de prata, junto com duas xícaras.
— Café grego — anunciou o proprietário, que trouxera a bandeja.
— Sim. Obrigado. Eu tinha pedido alguns minutos...
— Está muito quente — continuou o dono. — Café muito quente. Forte. Grego. Não turco.
— Isso é ótimo. Escute, se não se importa, cinco minutos. Por favor?
O proprietário deu de ombros e saiu andando.
— Você deve estar morrendo de ódio — comentou Spider. — Se eu fosse você, acho que também estaria. Mas estou falando sério. Mais sério do que já falei em toda a vida. — Ela só olhava para ele, sem qualquer expressão. — Por favor. Diga alguma coisa. Qualquer coisa.
Os lábios dela se moveram, como se ela estivesse tentando encontrar as palavras certas.
Spider esperou.
Rosie abriu a boca.
A primeira coisa que ele pensou foi que Rosie estava comendo alguma coisa, porque o que viu entre os dentes era marrom e com toda certeza não era uma língua. Então a coisa moveu a cabeça, e olhos, vários olhinhos de contas negras, o encararam. Rosie escancarou a boca de um jeito absurdo, e as aves saíram.
— Rosie?
Então o ar ficou cheio de bicos, penas e garras. Uma atrás da outra, as aves jorravam da garganta dela, todas acompanhadas por um ruído baixo, um misto de tosse e engasgo. O fluxo era dirigido a ele.
Spider ergueu os braços para proteger os olhos, e algo machucou seu pulso. Ele sacudiu a mão, e algo voou na direção de seu rosto, indo direto para os olhos. Ele moveu a cabeça para trás, e um bico perfurou sua bochecha.
Houve um momento de clareza horripilante: ainda havia uma mulher sentada diante dele. O que ele não conseguia entender era como podia tê-la confundido com Rosie. Para começar, ela era mais velha e tinha cabelo negro azulado com mechas grisalhas. A pele não era do mesmo moreno quente da pele de Rosie, e sim negra como obsidiana. Estava usando uma capa de chuva marrom esfarrapada. Ela sorriu e abriu bem a boca outra vez, e lá dentro Spider pôde ver os bicos cruéis e olhos insanos de gaivotas...
Spider não parou para pensar. Ele agiu. Segurou a asa do bule e o puxou para si com uma das mãos, enquanto a outra retirava a tampa. Em seguida, jogou-o na direção da mulher diante dele. O conteúdo do bule, um café negro, escaldante de quente, caiu todo em cima dela.
Ela urrou de dor.
Os pássaros se batiam e debatiam pelo restaurante no subsolo, mas agora não havia mais ninguém sentado diante dele, e os animais voavam sem rumo, batendo-se nas paredes.
O proprietário disse:
— Senhor? Está ferido? Sinto muito. Eles devem ter vindo da rua.
— Estou bem — respondeu Spider.
— Seu rosto está sangrando.
Ele entregou um guardanapo a Spider, que o apertou no rosto. O corte doía.
Spider se ofereceu para ajudar o proprietário a espantar os pássaros. Ele abriu a porta para a rua, mas o lugar estava tão sem animais como quando antes de ele chegar.
Ele pegou uma nota de cinco libras.
— Aqui — disse. — Pelo café. Preciso ir.
O proprietário assentiu, agradecido.
— Pode ficar com o guardanapo.
Spider parou e pensou.
— Quando eu entrei, por acaso estava com uma mulher?
O proprietário pareceu intrigado, talvez até assustado, Spider não tinha certeza.
— Não me lembro — confessou, como se estivesse confuso. — Se o senhor estivesse sozinho, eu não o teria acomodado naquela mesa. Mas não sei.
Spider voltou para a rua. O dia ainda estava claro, mas a luz do sol não era mais reconfortante. Ele olhou ao redor. Viu um pombo, ciscando e bicando uma casquinha de sorvete, além de um pardal no batente de uma janela, e, bem lá no alto, apenas um brilho branco à luz do sol: uma gaivota voava em círculo, as asas estendidas.
* Alguns anos antes, Spider ficara muito decepcionado ao tentar pentear macacos. Eles não reagiam de uma forma que Spider considerasse especialmente divertida, a não ser por emitir ruídos interessantes. Quando os ruídos cessaram e os macacos pararam de reagir — exceto, talvez, a nível orgânico —, ele teve que se livrar dos macacos e do pente na calada da noite.
OceanofPDF.com