Os Filhos de Anansi
Capítulo nove, no qual Fat Charlie atende à porta e Spider encontra flamingos
CAPÍTULO
NOVE
NO QUAL
FAT CHARLIE
ATENDE À PORTA
E SPIDER
ENCONTRA
FLAMINGOS
A SORTE DE Fat Charlie estava mudando. Ele podia sentir. O voo que marcara para voltar a Londres estava lotado, e ele recebera um upgrade para a primeira classe. A refeição fora excelente. Enquanto sobrevoavam o Atlântico, uma comissária de bordo se aproximou e lhe informou que ele tinha ganhado uma caixa de chocolates de cortesia. Fat Charlie guardou a caixa no bagageiro e pediu uma dose de uísque com gelo.
Ia chegar em casa. Ia resolver tudo com Grahame Coats. Afinal de contas, se havia uma coisa de que Fat Charlie tinha certeza, era da honestidade de seu próprio trabalho. Ia resolver a situação com Rosie. Tudo ia ficar simplesmente maravilhoso.
Ele ficou pensando se Spider já teria ido embora quando ele chegasse em casa ou se teria a satisfação de expulsá-lo. Torceu pela segunda opção. Fat Charlie queria ver o irmão se desculpar, talvez até implorar seu perdão. Começou a imaginar tudo o que iria dizer.
— Vá embora! — exclamou. — E leve junto esse sol, essa banheira e esse quarto!
— Perdão? — perguntou a comissária de bordo.
— Falando. Sozinho. Só isso. Hum.
Mas mesmo a vergonha que sentiu não foi tão ruim. Ele nem mesmo torceu para o avião cair e acabar com seu sofrimento. A vida com certeza parecia estar melhorando.
Abriu o pequeno kit de uso pessoal que recebera no avião, botou a máscara para dormir e reclinou completamente a poltrona, o que o deixou quase na horizontal. Pensou em Rosie, apesar da Rosie dos seus pensamentos não parar de se transformar em uma mulher menor, que na verdade não estava usando muitas roupas. Sentindo-se culpado, imaginou-a vestida. Ficou mortificado ao notar que ela parecia estar com um uniforme da polícia. Sentiu-se horrível por pensar naquilo, e ralhou consigo mesmo, o que não pareceu adiantar de muita coisa. Ele deveria ter vergonha de si mesmo. Ah, deveria...
Fat Charlie se acomodou no assento e soltou um ronco baixo e satisfeito.
Ainda estava de ótimo humor quando aterrissou em Heathrow. Pegou o trem expresso para Paddington e ficou feliz ao notar que, em sua breve ausência da Inglaterra, o sol resolvera sair.
Every little thing is going to be all right, cantarolou para si mesmo.
O único detalhe esquisito, e que lhe rendeu uma sensação ruim naquela manhã, ocorreu na metade da viagem de trem. Estava olhando pela janela, pensando que devia ter comprado um jornal em Heathrow. O trem passava por uma grande área gramada, talvez os campos esportivos de uma escola, quando o céu pareceu escurecer de repente, e, com o guincho dos freios, o trem parou em um sinal.
Isso não incomodou Fat Charlie. Era outono na Inglaterra: o sol, por definição, só aparecia quando não estava nublado ou chovendo. Mas havia uma pessoa parada na beira do gramado, perto de um aglomerado de árvores.
À primeira vista, achou que fosse um espantalho.
Que bobagem. Não podia ser um espantalho. Só se via espantalhos em plantações, não em campos de futebol. Espantalhos com certeza não são deixados perto de bosques. E, bem, se fosse mesmo um espantalho, estava fazendo um péssimo trabalho.
Afinal, havia grandes corvos negros por toda parte.
E então a coisa se mexeu. Estava longe demais para ser mais do que uma silhueta, uma figura indistinta usando uma capa de chuva marrom esfarrapada. Mesmo assim, Fat Charlie soube. Soube que se estivesse perto o suficiente teria visto um rosto esculpido em obsidiana, cabelos negros como as penas de um melro e olhos transbordando loucura.
Então o trem deu um tranco e começou a acelerar, e, em instantes, a mulher de capa de chuva marrom sumiu de vista.
Fat Charlie sentiu-se desconfortável. Àquela altura, tinha quase se convencido de que o que acontecera — o que pensou que acontecera na sala de estar da sra. Dunwiddy — não passara de uma alucinação, um sonho extremamente realista, com algum nível de verdade, mas não real. Não algo que acontecera de fato. Era, em vez disso, uma verdade superior, simbólica. Ele não podia ter realmente ido para aquele lugar nem feito um acordo de verdade, podia?
Afinal de contas, tudo não passava de uma metáfora.
Fat Charlie não se perguntou por que estava tão certo de que as coisas logo começariam a melhorar. Havia a realidade e a realidade, e algumas coisas eram mais reais do que outras.
Cada vez mais rápido, o trem chacoalhava e invadia Londres.
* * *
Spider estava quase chegando em casa após deixar o restaurante grego, o guardanapo ainda na bochecha, quando alguém tocou seu ombro.
— Charles? — indagou Rosie.
Spider deu um pulo, ou pelo menos estremeceu, e soltou um ruído assustado.
— Charles? Você está bem? O que aconteceu com seu rosto?
Ele olhou fixamente para ela.
— Você é mesmo você? — perguntou.
— O quê?
— Você é mesmo a Rosie?
— Que tipo de pergunta é essa? Claro que sou eu. O que aconteceu com seu rosto?
Ele pressionou o guardanapo na bochecha.
— Me cortei — explicou.
— Posso ver? — Ela afastou a mão dele. O centro do guardanapo branco tinha uma mancha vermelha, como se sangue tivesse jorrado nele, mas o rosto estava inteiro e intocado. — Não tem nada aí.
— Ah...
— Charles? Você está bem?
— Estou. É. Mais ou menos. Acho que devíamos ir para a minha casa. Vou me sentir mais seguro lá.
— Nós íamos almoçar — argumentou Rosie, no tom de voz de uma pessoa que só vai entender o que realmente está acontecendo quando um apresentador de TV surgir de repente e revelar as câmeras escondidas.
— É. Eu sei. Mas acho que alguém tentou me matar. E se passou por você.
— Ninguém está tentando matar você — afirmou Rosie, falhando em não soar condescendente.
— Mesmo que ninguém esteja querendo me matar, podemos esquecer o almoço e ir para minha casa? Tem comida lá.
— Claro.
Rosie o seguiu pela rua, se perguntando quando foi que Fat Charlie perdeu todo aquele peso. Ele é tão bonito, pensou. Muito bonito. Entraram na Maxwell Gardens em silêncio.
Ele disse:
— Olha só.
— O quê?
E mostrou a ela.
A mancha de sangue-vivo tinha desaparecido do guardanapo. Ele agora estava perfeitamente branco.
— É um truque de mágica?
— Se é, não fui eu quem fiz. Pelo menos dessa vez.
Ele jogou o guardanapo em uma lata de lixo. Ao fazer isso, um táxi parou diante da casa de Fat Charlie, e Fat Charlie desembarcou, amarrotado, piscando e carregando um saco plástico.
Rosie olhou para Fat Charlie. Olhou para Spider. Olhou de volta para Fat Charlie, que tinha aberto o saco e tirado uma caixa enorme de chocolate de lá.
— São para você — disse.
Rosie pegou os chocolates.
— Obrigada.
Havia dois homens, que eram e falavam de modo completamente diferente, e mesmo assim ela não conseguia identificar qual deles era seu noivo.
— Estou ficando louca, não estou? — perguntou, com a voz tensa.
Agora parecia óbvio que havia algo errado. O mais magro dos dois Fat Charlies, o que tinha brinco, pôs a mão em seu ombro.
— Você precisa ir para casa e dormir um pouco. Quando acordar, terá esquecido tudo isso.
Bem, pensou ela. Isso torna tudo mais fácil. É bom ter um plano. Ela voltou a pé para seu apartamento, apressada, levando a caixa de chocolates.
— O que você fez? — perguntou Fat Charlie. — Parece que ela só trocou o canal em um rádio mental.
Spider deu de ombros.
— Eu não queria aborrecê-la.
— Por que não contou a verdade?
— Não me pareceu apropriado.
— Como se você soubesse o que é apropriado...
Spider tocou a porta da casa, e ela se abriu.
— Eu tenho a chave, sabia? — disse Fat Charlie. — É a porta da minha casa.
Eles atravessaram o corredor e subiram a escada.
— Onde você esteve? — perguntou Spider.
— Lugar nenhum — respondeu Fat Charlie, como um adolescente.
— Fui atacado por aves no restaurante esta manhã. Você sabe alguma coisa sobre isso? Sabe, não é?
— Na verdade, não. Talvez. Acho melhor você ir embora, só isso.
— Não faça nenhuma besteira — alertou Spider.
— Eu? Eu fazer uma besteira? Acho que tenho sido um modelo de moderação. Você surgiu na minha vida. Aborreceu meu chefe e botou a polícia na minha cola. Você... você fica beijando minha noiva. Você ferrou a minha vida.
— Ei. Se quer saber, você já faz um belo trabalho ferrando a própria vida.
Fat Charlie cerrou os punhos e acertou o queixo do irmão, como nos filmes. Spider cambaleou para trás, mais surpreso que machucado. Ele levou a mão ao lábio, que estava sujo de sangue.
— Você me bateu — disse.
— E posso fazer de novo — afirmou Fat Charlie, mas não estava muito certo disso. Sua mão doía.
— Ah, é?
E Spider se lançou sobre o irmão, atacando-o com os punhos. Fat Charlie caiu, mas agarrou o outro pela cintura, derrubando-o junto.
Eles rolaram de um lado para outro pelo corredor, entre socos e investidas. Fat Charlie meio que esperava que Spider lançasse algum tipo de contra-ataque mágico ou que tivesse uma força sobrenatural, mas os dois pareciam estar no mesmo nível. Lutavam sem técnica, como meninos — como irmãos —, e, enquanto brigavam, Fat Charlie achou que se lembrava de já ter feito aquilo muito, muito tempo antes. Spider era mais esperto e rápido, mas se Fat Charlie conseguisse ficar por cima dele e tirasse as mãos de Spider do caminho...
Ele segurou a mão direita do irmão e a torceu às suas costas, então se sentou sobre o peito de Spider, jogando todo o peso sobre ele.
— Desiste?
— Não.
Spider se debatia e se contorcia, mas Fat Charlie estava bem posicionado, sentado sobre o peito dele.
— Quero que você prometa sair da minha vida para sempre, e deixar a mim e a Rosie em paz.
Spider o empurrou com raiva, finalmente tirando Fat Charlie de cima de seu peito. Ele aterrissou esparramado no chão da cozinha.
— Olha só — começou Spider. — Eu já falei para você...
Eles ouviram uma batida na porta do primeiro andar, uma batida forte, autoritária, do tipo que indicava que alguém precisava entrar com certa urgência. Fat Charlie encarou Spider, que franziu a testa para o irmão, e lentamente os dois ficaram de pé.
— Devo atender? — perguntou Spider.
— Não — retrucou Fat Charlie. — É a minha casa, droga. E eu vou atender a droga da minha porta, muitíssimo obrigado.
— Você é quem sabe.
Fat Charlie se dirigiu para a escada. Então se virou para o irmão.
— Assim que eu resolver isso, vamos terminar nossa conversa. Faça as malas. Você vai embora hoje.
Ele desceu a escada, botando a camisa para dentro da calça, espanando a poeira e, em geral, tentando parecer que não tinha brigado no chão.
Abriu a porta. Havia dois grandes policiais uniformizados e uma policial menor e bem mais exótica vestindo roupas civis extremamente simples.
— Charles Nancy? — perguntou Daisy.
Ela olhou para ele como se Fat Charlie fosse um estranho, os olhos inexpressivos.
— Hum — respondeu Fat Charlie.
— Sr. Nancy, o senhor está preso. Tem o direito de...
Fat Charlie se virou para o interior da casa.
— Desgraçado! — gritou para as escadas. — Seu desgraçado filho da mãe!
Daisy deu um tapinha no braço dele.
— Você virá sem oferecer resistência? — perguntou, com delicadeza. — Se não, podemos subjugá-lo. Eu, porém, não recomendaria isso. Aqueles dois adoram subjugar as pessoas.
— Não vou resistir — respondeu Fat Charlie.
— Ótimo.
Ela acompanhou Fat Charlie até a traseira de uma van preta da polícia e o trancou lá dentro.
Os policiais fizeram uma busca no apartamento. O lugar estava vazio. No fim do corredor havia um quartinho extra com várias caixas de livros e carrinhos de brinquedo. Revistaram tudo, mas não encontraram nada interessante.
* * *
Spider estava deitado no sofá em seu quarto, mal-humorado. Fora para lá quando Fat Charlie descera para atender à porta. Precisava ficar sozinho. Não gostava de confrontos. Aquele era o ponto em que normalmente decidia ir embora, e, naquele momento, Spider sabia que estava na hora de partir, mas não queria ir.
Não tinha certeza se mandar Rosie para casa fora a coisa certa a se fazer.
O que ele queria de verdade — e Spider era movido por vontades, nunca por necessidades ou deveres — era dizer a Rosie que a desejava. Que ele, Spider, a desejava. Que não era Fat Charlie. Que era algo bem diferente. E isso, por si só, não era um problema. Ele podia simplesmente ter dito a ela, com bastante convicção: “Na verdade sou Spider, irmão de Fat Charlie, e você não vê problema nenhum nisso. Isso não a incomoda.” E o universo teria dado uma forcinha, e Rosie teria aceitado, da mesma forma como fora para casa mais cedo. Ela teria aceitado. Não se importaria nem um pouco.
Só que ele sabia que, bem no fundo, ela se importaria.
Os humanos não gostam de ser manipulados por deuses. Pode parecer que sim, na superfície, mas em algum lugar lá no fundo, por baixo de tudo, eles sentem e se ressentem. Eles sabem. Spider podia dizer a ela para ficar feliz com a situação, e ela ficaria feliz, mas seria tão real quanto pintar um sorriso em seu rosto, um sorriso no qual ela acreditaria mesmo, de todas as maneiras que importassem, que era dela própria. A curto prazo (e até agora Spider só tinha pensado a curto prazo), nada disso teria importância, mas a longo prazo só poderia causar problemas. Ele não queria alguém revoltado e furioso, uma pessoa que, apesar de no fundo odiá-lo, agisse de forma plácida e educada e normal na superfície. Queria Rosie.
E aquela não seria Rosie, seria?
Spider olhou pela janela para a cachoeira maravilhosa e o céu tropical, e começou a se perguntar quando Fat Charlie iria bater à porta. Algo acontecera naquela manhã no restaurante, e ele estava certo de que o irmão sabia mais do que deixara transparecer.
Após algum tempo, ele se cansou de esperar e saiu para o apartamento do irmão. Não havia ninguém lá. O lugar também estava uma bagunça, parecia ter sido revirado por profissionais treinados. Spider chegou à conclusão de que, com toda a certeza, Fat Charlie tinha bagunçado o lugar para mostrar como estava aborrecido por ter perdido a briga.
Ele olhou pela janela. Havia um carro de polícia e uma van preta estacionados lá fora. Enquanto observava, os dois foram embora.
Ele preparou torradas, passou manteiga e as comeu. Depois caminhou pelo apartamento, tomando o cuidado de fechar todas as cortinas.
A campainha tocou. Spider fechou a última cortina e desceu a escada.
Quando abriu a porta, deu de cara com Rosie. Ela ainda parecia um pouco confusa. Spider ficou olhando para ela.
— Então? Não vai me convidar para entrar?
— É claro. Entre.
Ela subiu a escada.
— O que aconteceu? Parece que um furacão passou por aqui.
— Ah, é?
— E por que você está no escuro?
Ela foi abrir as cortinas.
— Não! Deixe-as fechadas.
— Do que você tem tanto medo? — perguntou Rosie.
Spider olhou pela janela.
— Pássaros — respondeu, após algum tempo.
— Mas os pássaros são nossos amigos — disse Rosie, como se estivesse falando com uma criança pequena.
— Os pássaros são os últimos dinossauros. Pequenos velociraptores com asas. Devoram seres indefesos, nozes, peixes e outras aves. E adoram minhocas. Você já viu uma galinha comer? Elas podem parecer inocentes, mas as aves são, bem, elas são malignas.
— Vi uma reportagem na TV outro dia sobre um pássaro que salvou a vida de um homem.
— Isso não muda o fato de que... — disse Rosie.
— Foi um corvo, ou talvez um melro. Um desses pássaros pretos e grandes. O homem estava deitado no quintal de casa, na Califórnia, lendo uma revista quando começou a ouvir um grasnar insistente. Era um corvo, tentando chamar sua atenção. Então ele se levantou e se aproximou da árvore em que ele estava empoleirado, e embaixo dela havia um puma, que estava se preparando para atacá-lo. Aí o homem correu para dentro de casa. Se aquele corvo não o tivesse avisado, ele teria virado comida de puma.
— Não acho que esse seja o comportamento habitual dos corvos — retrucou Spider. — Mas, mesmo se um corvo uma vez salvou a vida de um cara ou não, isso não muda nada. As aves ainda querem me pegar.
— Está bem — concordou Rosie, tentando parecer não estar achando graça. — As aves querem pegar você.
— Querem.
— Por quê?
— Hã...
— Deve haver uma razão. Você não pode me dizer que toda a classe das aves simplesmente resolveu tratá-lo como uma minhoca sem qualquer motivo aparente.
— Acho que você não ia acreditar em mim — disse ele, e estava falando sério.
— Charlie. Você sempre foi muito honesto. Quer dizer, eu confio em você. Se me contar uma coisa, vou fazer o possível para acreditar. Vou me esforçar para isso. Eu te amo, e acredito em você. Por que não me deixa decidir por mim mesma se acredito ou não?
Spider pensou no assunto. Então segurou a mão dela e a apertou.
— Preciso lhe mostrar uma coisa.
Ele a conduziu até o fim do corredor. Eles pararam diante da porta do quarto extra de Fat Charlie.
— Tem algo aí dentro. E acho que isso vai conseguir explicar um pouco melhor do que eu.
— Você é um super-herói, e é aí que fica a entrada da batcaverna — supôs a mulher.
— Não.
— É algum tipo de fetiche? Você gosta de usar lingerie e um colar de pérolas e que o chamem de Dora?
— Não.
— Não é... um trem em miniatura, é?
Spider abriu a porta do quarto extra de Fat Charlie e, ao mesmo tempo, a porta do próprio quarto. As janelas panorâmicas ao fundo mostravam uma cachoeira que despencava em um lago no meio de uma floresta. O céu através das janelas era mais azul que safiras.
Rosie soltou um grito abafado.
Ela se virou, saiu para o corredor, caminhou até a cozinha e olhou pela janela para o céu cinzento de Londres, pesado e hostil. Então voltou.
— Eu não entendo. Charlie? O que está acontecendo?
— Eu não sou Charlie. Olhe para mim. Olhe mesmo para mim. Eu não sou nem parecido com ele.
Ela não estava mais achando nenhuma graça. Seus olhos estavam arregalados e assustados.
— Sou o irmão dele — explicou. — Eu estraguei tudo. Tudo. E acho que a melhor coisa que posso fazer é sair da vida de vocês e ir embora.
— Então onde está Fat... onde está Charlie?
— Não sei. Nós brigamos. Ele foi atender à porta, eu fui para o meu quarto, e ele não voltou.
— Ele não voltou? E você nem tentou descobrir o que aconteceu?
— Hã... Ele pode ter sido levado pela polícia. É só uma teoria. Não tenho como provar nem nada.
— Qual é o seu nome?
— Spider.
Rosie repetiu:
— Spider.
Do lado de fora da janela, acima dos borrifos da cachoeira, ela podia ver um bando de flamingos planando. O sol refletia em suas asas rosadas. Eles eram magníficos e incontáveis, e eram uma das coisas mais bonitas que Rosie já tinha visto. Ela olhou novamente para Spider e, ao observá-lo, não conseguiu entender como tinha acreditado que aquele homem fosse Fat Charlie. Fat Charlie era tranquilo, amigável e desajeitado, e aquele homem era como uma barra de aço envergada para trás, pronta para se soltar.
— Você não é ele de verdade, é?
— Eu disse a você que não era.
— Então. Então quem. Com quem eu. Quem era... Com quem eu dormi?
— Nesse caso, fui eu — respondeu Spider.
— Imaginei.
Rosie deu um tapa na cara dele com toda força. Spider sentiu o lábio recomeçar a sangrar.
— Acho que mereci isso.
— Claro que mereceu. — Ela fez uma pausa. — Fat Charlie sabia? Sobre você? Que você estava saindo comigo?
— Bem, sim. Mas ele...
— Vocês dois são doentes. São homens ruins e muito, muito doentes. Espero que apodreçam no inferno.
Ela lançou mais um olhar intrigado para o quarto enorme, então deu as costas à janela panorâmica com as árvores, a cachoeira e o bando de flamingos e disparou pelo corredor.
Spider sentou-se no chão com um fio de sangue escorrendo do lábio inferior, sentindo-se um idiota. Ele ouviu a porta da frente bater. Andou até a banheira de hidromassagem e enfiou a ponta de uma toalha felpuda na água quente. Então a torceu e a pressionou na boca.
— Não preciso de nada disso — exclamou Spider. Ele falou em voz alta. É mais fácil mentir para si mesmo quando se diz as coisas em voz alta. — Não precisava de vocês havia uma semana e não preciso de vocês agora. Não estou nem aí. Para mim, chega.
Os flamingos atravessaram a janela como balas de canhão de penas rosa, e o vidro explodiu. Estilhaços voaram por toda parte, se espalhando pelo quarto e cravando nas paredes, no chão e na cama. O ar se encheu de corpos rosa-claros, uma confusão de asas cor-de-rosa enormes e bicos negros e curvos. O ronco de uma cachoeira explodiu no interior do quarto.
Spider se encostou à parede. Havia flamingos entre ele e a porta, centenas deles: aves de um metro e meio, só pernas e pescoço. Ele ficou de pé e deu alguns passos através do campo minado de aves raivosas, cada uma delas o encarando com seus olhos rosa alucinados. A distância, elas podiam ser bonitas. Um flamingo bicou a mão de Spider. Não chegou a perfurar a pele, mas doeu.
O quarto era grande, mas estava se enchendo rápido com flamingos. E havia uma mancha escura no céu azul acima da cachoeira que parecia ser outro bando a caminho.
As aves o bicavam e o machucavam com as garras e as asas, e ele sabia que esse não era o problema real. O problema seria sufocar sob um cobertor de plumas cor-de-rosa com aves presas a elas. Seria uma maneira surpreendentemente indigna de morrer, esmagado por aves, e nem eram aves lá muito inteligentes.
Pense, disse a si mesmo. São flamingos burros. Você é o Spider.
E daí?, pensou em resposta a si mesmo, irritado. Me diga alguma coisa que eu não sei.
Os flamingos no chão avançavam. Os que entravam pela janela mergulhavam em sua direção. Ele puxou a jaqueta sobre a cabeça, e então os flamingos no ar começaram a atingi-lo. Era como ser alvejado por galinhas. Ele tropeçou e caiu.
Bem, engane-os, idiota.
Spider conseguiu se levantar e se arrastou através do mar de penas e bicos até chegar à janela, que agora era uma mandíbula com dentes de vidro.
— Aves estúpidas — disse, animado.
E subiu no parapeito da janela.
Flamingos não são famosos por sua inteligência brilhante nem pela habilidade em resolver problemas: confrontado com um pedaço de arame e uma garrafa com comida dentro, um corvo pode tentar fazer uma ferramenta com o arame e alcançar o conteúdo da garrafa. Um flamingo, por outro lado, vai tentar comer o arame se ele parecer um camarão ou até mesmo que não pareça, só para o caso de ser um tipo novo de camarão. Então se havia algo levemente desfocado e etéreo no homem que estava em pé na janela os insultando, os flamingos não perceberam. Olharam para ele com olhos alucinados de rubi, como os dos coelhos assassinos, e dispararam em sua direção.
O homem pulou da janela nas águas da cachoeira, e mil flamingos se lançaram no ar atrás dele, muitos deles, devido a distância que um flamingo necessita para decolar, despencando como pedras.
Logo o quarto continha apenas flamingos feridos ou mortos: os que tinham quebrado as janelas, os que tinham batido contra as paredes, os que haviam sido esmagados sob outros flamingos. As aves que estavam vivas viram a porta do quarto se abrir, aparentemente sozinha, e tornar a se fechar, mas, como eram flamingos, não deram muita importância ao fato.
Spider ficou parado no corredor do apartamento de Fat Charlie, tentando recuperar o fôlego. Ele se concentrou em fazer o quarto desaparecer, algo que odiava fazer, principalmente porque tinha muito orgulho de seu sistema de som e porque era lá que guardava suas coisas.
Mas você sempre pode conseguir mais coisas.
Se você é o Spider, basta pedir.
* * *
A mãe de Rosie não era uma mulher dada a demonstrações de alegria perante o sofrimento alheio, por isso, quando a filha irrompeu em lágrimas no sofá Chippendale, ela evitou dar vivas, cantar ou fazer uma pequena dança da vitória, chacoalhando os ombros pela sala. Um observador atento, porém, poderia perceber um brilho de triunfo em seus olhos.
Ela ofereceu a Rosie um copo grande de água vitaminada com uma pedra de gelo e ouviu a ladainha lacrimosa da filha sobre mentiras e decepções amorosas. Quando terminou, o brilho de triunfo tinha sido substituído por uma expressão confusa, e sua cabeça estava começando a girar.
— Então Fat Charlie na verdade não era Fat Charlie? — perguntou a mãe de Rosie.
— Não. Quer dizer, sim. Fat Charlie é Fat Charlie, mas na semana passada eu saí com o irmão dele.
— Eles são gêmeos?
— Não. Eles nem são parecidos. Não sei. Estou muito confusa.
— Então com qual dos dois você terminou?
Rosie assoou o nariz.
— Eu terminei com Spider, o irmão de Fat Charlie.
— Mas você não estava noiva dele.
— Não, mas achei que estivesse. Achei que ele fosse Fat Charlie.
— Então você rompeu com Fat Charlie também?
— Mais ou menos. Eu ainda não contei a ele.
— Ele... ele sabia sobre essa história do irmão? Isso foi algum tipo de conspiração perversa e doentia que fizeram com minha pobre menininha?
— Acho que não. Mas não importa. Não posso me casar com ele.
A mãe concordou:
— Não. Com certeza não. De jeito nenhum. — Em sua cabeça, ela fez uma dança da vitória e soltou muitos fogos de artifício de muito bom gosto. — Vamos encontrar um bom rapaz para você. Não se preocupe. Aquele Fat Charlie nunca prestou. Soube desde o primeiro momento em que o vi. Ele comeu minha fruta de cera. Eu sabia que ele só traria problemas. Onde ele está, agora?
— Não tenho certeza. Spider disse que talvez ele tenha sido levado pela polícia.
— Há! — exclamou a mãe, que aumentou os fogos de artifício para proporções de “Ano-novo na Disney” e sacrificou mentalmente doze touros negros, por garantia. Em voz alta, tudo o que disse foi: — Deve estar mesmo na prisão, se quer saber. É o melhor lugar para ele. Sempre disse que esse rapaz ia acabar lá.
Rosie começou a chorar, talvez ainda mais do que antes. Ela puxou outro lenço de papel da caixa e assoou o nariz ruidosamente. Então fungou com bravura. Depois chorou mais um pouco. A mãe dava tapinhas nas costas da mão de Rosie do modo mais reconfortante que podia.
— Claro que você não pode se casar com ele. Você não pode se casar com um presidiário. Mas, se ele está mesmo na cadeia, será fácil romper o noivado. — O fantasma de um sorriso despontou nos cantos de seus lábios quando ela falou: — Posso avisar a ele por você. Ou posso ir até lá no dia da visitação e dizer que ele é um bandido desgraçado e que você nunca mais quer vê-lo outra vez. Podemos conseguir uma ordem de restrição, também — acrescentou, prestativa.
— N-não é por isso que não posso me casar com Fat Charlie.
— Não? — perguntou a mãe, erguendo uma sobrancelha perfeitamente desenhada.
— Não. Não posso me casar com Fat Charlie porque eu não o amo.
— Claro que não. Eu sempre soube disso. Era uma paixonite infantil, mas agora você viu a verdade...
— Eu amo Spider — prosseguiu Rosie, como se a mãe não tivesse falado. — O irmão dele. — A expressão que tomou conta do rosto da mãe naquele momento pareceu uma nuvem de vespas chegando a um piquenique. — Está tudo bem, também não vou me casar com ele. Eu disse a ele que nunca mais quero vê-lo na vida.
A mãe de Rosie comprimiu os lábios.
— Bem, não vou fingir que entendo o que está acontecendo, mas também não vou dizer que são más notícias. — As engrenagens em sua mente começaram a girar, e as roldanas de seus pensamentos se encaixaram de maneiras novas, interessantes. Parafusos giraram. Molas se tensionaram. — Sabe o que seria a melhor coisa para você agora? Tirar umas férias curtas. Eu adoraria pagar. Afinal, vou economizar muito dinheiro sem o casamento...
Isso pode ter sido a coisa errada a dizer. Rosie começou a soluçar de novo em seus lenços de papel. A mãe prosseguiu:
— Enfim, seria um presente. Sei que você pode tirar férias no trabalho. E você disse que agora as coisas estão tranquilas. Em momentos como esse, uma moça precisa se afastar de tudo e relaxar um pouco.
Rosie se perguntou se teria julgado mal a mãe por todos aqueles anos. Ela fungou e disse:
— Isso ia ser bom.
— Então está combinado. Eu vou com você, para cuidar do meu bebê.
Em sua cabeça, sob o grand finale do show de fogos de artifício, acrescentou: E para garantir que meu bebê só conheça o tipo certo de homem.
— Aonde vamos?
— Vamos fazer um cruzeiro — explicou a mãe.
* * *
Fat Charlie não foi algemado. Isso foi bom. Todo o resto foi ruim, mas pelo menos ele não foi algemado. A vida se tornara um borrão confuso cheio de detalhes muito nítidos: o sargento de plantão coçando o nariz, registrando sua entrada (“A cela seis está livre.”) e indicando uma porta verde, depois o cheiro das celas, um fedor penetrante que ele nunca havia sentido, mas que na mesma hora lhe pareceu horrivelmente familiar, um mistura de vômito do dia anterior, desinfetante, fumaça, cobertores mofados, vasos sanitários entupidos e desespero. Era o cheiro das coisas nas profundezas, e era lá onde Fat Charlie parecia ter ido parar.
— Quando precisar dar descarga — instruiu o policial que o acompanhava pelo corredor —, aperte o botão na cela. Em algum momento, um de nós vai aparecer para puxar a corrente para você. Isso evita que alguém jogue provas pela descarga.
— Que provas?
— Não enche, cara.
Fat Charlie suspirou. Ele puxava a descarga para se livrar dos dejetos produzidos pelo próprio corpo desde que tinha idade suficiente para ter algum orgulho na atividade, e perder isso, mais que perder sua liberdade, mostrou a ele que tudo havia mudado.
— É sua primeira vez — comentou o policial.
— Como?
— Drogas?
— Não, obrigado — respondeu Fat Charlie.
— É por isso que você está aqui?
— Não sei por que eu estou aqui. Sou inocente.
— Crime de colarinho-branco, hein? — comentou o policial, balançando a cabeça. — Vou lhe dizer uma coisa que quem vem de baixo já sabe. Quanto menos trabalho vocês derem para nós, mais fácil será para vocês. Vocês, gente da classe alta. Sempre exigindo seus direitos. Só tornam as coisas mais difíceis para si mesmos.
Ele abriu a porta da cela seis.
— Lar, doce lar.
O fedor da cela era pior no interior, que tinha sido pintado com um tipo de tinta texturizada resistente a pichações e continha apenas uma cama embutida na parede, próxima ao chão, e um vaso sanitário sem tampa no canto.
Fat Charlie pôs o cobertor que tinham lhe dado em cima da cama.
— Certo — disse o policial. — Bem, sinta-se em casa. E, caso fique entediado, por favor, não entupa a privada com o cobertor.
— Por que eu faria isso?
— Eu mesmo vivo me perguntando isso. Por quê, não é? Talvez quebre a monotonia. Não sei. Como um cidadão de bem com uma aposentadoria à minha espera, nunca tive que passar muito tempo em celas.
— Sabe, eu não fiz nada — comentou Fat Charlie. — Seja lá o que for.
— Isso é bom.
— Por favor, pode me emprestar alguma coisa para ler?
— Você acha que isto aqui tem cara de biblioteca?
— Não.
— Quando eu era novato, um preso me pediu algo para ler. Emprestei a ele o livro que eu estava lendo, J. T. Edson, acho, ou talvez Louis L’Amour. E acredita que o cara entupiu a privada com ele? Nunca mais vou cair nessa.
Então ele saiu e trancou a porta com Fat Charlie dentro da cela, e ele do lado de fora.
* * *
A coisa mais estranha, pensou Grahame Coats, que não era dado à autorreflexão, era como, em geral, ele se sentia normal, alegre e bem.
O capitão pediu a todos para apertarem os cintos e avisou que em pouco tempo iriam aterrissar em Saint Andrews. Saint Andrews era uma pequena ilha do Caribe que, ao declarar sua independência em 1962, tinha decidido demonstrar sua liberdade do domínio colonial de várias maneiras, entre elas com a criação de seu próprio sistema judiciário e uma singular não existência de tratados de extradição com o resto do mundo.
O avião aterrissou. Grahame Coats desembarcou e caminhou pelo asfalto quente, arrastando a mala de rodinhas atrás de si. Sacou o passaporte correto, o de Basil Finnegan, entregou-o para que fosse carimbado, buscou o restante da bagagem na esteira e saiu caminhando pela alfândega vazia do pequeno aeroporto, e de lá para um lindo dia ensolarado. Ele usava camiseta com sandálias e shorts e parecia um turista britânico.
Seu caseiro o esperava do lado de fora do aeroporto. Grahame Coats sentou-se no banco de trás do Mercedes preto e disse a ele:
— Vamos para casa, por favor.
Na estrada que saía de Williamstown, a estrada para sua propriedade no alto de um morro, ele olhou para a ilha com um sorriso satisfeito e senhorial no rosto.
Então lembrou que, ao sair da Inglaterra, havia deixado uma mulher aparentemente morta no escritório. Perguntou-se se ela ainda estaria viva, mas duvidava muito. Aquela morte não o incomodava. Em vez disso, sentia grande satisfação, como algo que precisasse fazer para se sentir completo. Ele se perguntou se um dia teria a chance de repetir aquela experiência.
E se perguntou se esse dia chegaria logo.
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