Os Filhos de Anansi

Neil Gaiman · Capítulo 18 de 23

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Os Filhos de Anansi

As aventuras de Spider

 

SPIDER IMAGINAVA ESTAR em outro lugar. Repassava em sua mente os lugares que conhecia, lembrava ou inventava, desejando estar neles. Nada aconteceu. Ele permaneceu exatamente onde estava, preso pelas correntes de ossos em sua cela forrada de penas.

Resolveu tentar de outra maneira. Pensou em uma pessoa e tentou estar com ela. Na maioria das vezes, esse costumava ser um método de viagem pouco confiável: Spider tinha problemas com pessoas. Tinha dificuldade de lembrar seus rostos, nomes ou, às vezes, até mesmo se elas existiam ou não.

Pensou em Fat Charlie. Pensou nas antigas namoradas, mas essas lembranças pareceram especialmente falsas, se reconfigurando em uma coleção de seios, lábios, pele e sorrisos, e evaporaram de sua mente. Por último, pensou em Rosie. Pensou em seus olhos, seu calor, no formato de seu nariz, no cheiro de seu cabelo.

(E em um cruzeiro, cochilando à beira da piscina, Rosie se remexeu, inquieta.)

Bem, pensou Spider, se não consigo sair de um jeito, terei que pensar em outro. Havia mais de uma maneira de resolver um problema, afinal de contas.

Ele tentou mudar de forma, sem resultado. Tentou gritar. Tentou gritar mais alto.

Ouviu um farfalhar. Havia dois grous parados à sua frente, olhando para ele com curiosidade.

Não é impossível ser como Spider. Tudo de que você precisa é uma certeza total e absoluta de que tudo vai dar certo; uma confiança arrogante que beira a psicose; a convicção de ser um sujeito bastante esperto e de que o universo sempre pode dar uma mãozinha.

— Sabe — disse Spider para as aves —, não quero atrapalhar, mas estas correntes estão um pouco frouxas. Um puxão mais forte e eu posso cair.

Talvez os pássaros tenham ficado preocupados. Spider não conseguiu ter certeza. É difícil saber com as aves.

— São muito malfeitas — disse Spider. — Quem quer que tenha criado estas correntes deveria ficar envergonhado. Na verdade, eu poderia sair daqui em poucos minutos, e imaginem a encrenca em que vocês estariam se eu simplesmente caísse delas e saísse andando. Um péssimo trabalho.

Os grous se entreolharam. Um deles caminhou para trás na direção da parede. Spider o observou dar um passo para a direita, depois esticar o bico até a parede e tocar uma pena específica, mais clara que as demais. E então desaparecer.

— Quer saber? — disse Spider para o grou remanescente. — Vamos apenas fingir que eu não falei nada. Eu odiaria criar qualquer problema para vocês.

Ouviu um farfalhar, e então o espaço se encheu com grandes corvos, que pousaram nas correntes de ossos e começaram a andar por elas como engenheiros examinando o trabalho de uma construtora concorrente, que deixou a cidade sem terminar a obra. Eles crocitavam e grasnavam no que Spider tinha certeza de ser o equivalente corvídeo para: “Quem foi o responsável por montar este negócio, afinal?”

Com uma ordem do líder, as correntes se cobriram de corvos, bicando e mexendo nos ossos com as patas, enfiando e batendo os bicos negros nos ossos. Um grasnar alto, e as correntes desmontaram. Os ossos desmoronaram no chão, e Spider desabou com eles. O chão estava coberto de gravetos e pequenas penas salpicados e manchados de cocô de pássaro.

Spider se levantou e notou, pela primeira vez, os gansos. Havia cinco deles, e eles o cercaram, grasnando, sibilando e bicando, para garantir que Spider ficasse no meio do grupo. Um ganso irritado e com o pescoço abaixado consegue intimidar um cachorro com um grasnido, e aqueles eram gansos infernais.

Spider sorriu para eles.

Sob os bicos inteligentes dos corvos, as correntes de ossos foram remontadas com habilidade. Os gansos começaram a baixar os pescoços outra vez, grasnando e sibilando, empurrando Spider na direção das correntes, à espera.

— Ei — disse para os gansos. — Me deem um pouco de espaço para respirar. Eu vou voltar, está bem?

Ele se virou para onde as correntes pendiam, contou até três e disparou para a parede em que o grou havia desaparecido. Sob a luz fraca, ele se lançou na direção de uma pena mais pálida que as outras e esperou.

A parede começou a se desfazer até ficar translúcida, e ele a atravessou, triunfante, com gansos raivosos bicando seus calcanhares, e percebeu, ao fazer isso, que podia ter cometido um pequeno erro.

Por algum motivo, ele tinha imaginado que a cela ficava nas profundezas da terra, afinal de contas, é onde as pessoas costumam construir celas. Mas, em geral, as aves não gostam do subterrâneo. A árvore era enorme, mais alta que uma sequoia gigante, e estava tomada por uma grande quantidade de ninhos, incluindo, logo acima dele, o ninho do qual escapara. Abaixo, se aproximando na velocidade de um carro esportivo desgovernado, estava o chão.

— Sem problema — disse Spider para si mesmo.

Ele tentou se transportar para algum lugar outra vez, sem mais sorte ou sucesso que antes. Tentou mudar de forma de novo — uma aranha pequena poderia planar nas correntes de ar. Nada aconteceu. O chão ficava cada vez mais próximo.

Ainda assim, pensou, se não pudesse se transportar nem se transformar, a probabilidade era que, onde quer que estivesse, aquele lugar não fosse real. Era feito de ideias, não de matéria. Enquanto acreditasse que aquilo era Maya — uma ilusão —, ele ficaria bem. O ar frio passou por ele. Ele abriu os braços e as pernas. O ar frio passou por ele.

Então Spider atingiu o solo.

Não é real, pensou quando perdeu o fôlego com o impacto, e, por um momento, tudo ficou escuro.

* * *

Spider se levantou. Sentia dor no corpo inteiro, mas nada parecia estar quebrado.

Ele se perguntou se tinha seu próprio universo de bolso por aí, um lugar cheio de teias e aranhas ágeis e habilidosas que gostavam de contar histórias. Ele não sabia ao certo onde procurá-lo, se é que tinha mesmo um. Seu pai saberia, é claro...

O céu era cor de cobre, e a terra, arenosa e cinza, e tudo cheirava a canela e noz-moscada. Tinha que haver uma saída. Isso era óbvio. Tudo que entra, sai. Ele escolheu uma direção, mas não correu. Em vez disso, caminhou, cobrindo muita distância mesmo assim. Spider caminhava como muita gente corria.

Em um arbusto, havia uma ave enorme olhando para ele.

— Você sabe que nunca vai escapar daqui, não sabe? — disse ela.

— Aposto tudo o que tenho que vou — respondeu Spider. — E você vai me ajudar.

Pássaros não conseguem sorrir com escárnio, eles não têm como fazer isso, mas aquele quase conseguiu.

— Tudo o que você tem?

— Tudo, se você não me mostrar a saída. Então, por favor, como saio deste lugar?

— Nunca vou contar — disse a ave.

— Feche os olhos — pediu Spider — e conte até dez. Prometo que, quando você terminar de contar, terá me mostrado o caminho.

A ave fechou os olhos.

— Um — começou ela. — Dois. Três. Quatro.

Com um movimento rápido, Spider quebrou o pescoço da ave, que parou de contar.

— Mesmo assim, não quero que você ache que sou mentiroso — disse Spider.

Ele depenou o pássaro, separou as penas em um canto, depois acendeu uma pequena fogueira na terra, assou e comeu a carne, limpou os ossos e, por fim, jogou-os na areia.

Eles caíram em várias direções. Spider os reuniu de novo.

— Lembre-se — disse ele. — Você não pode mentir quando está morto. — Dessa vez, quando ele jogou os ossos, eles apontaram claramente para uma direção. — É assim que eu gosto. Alguém que honra suas dívidas.

Ele vestiu as penas da ave e caminhou até o alto de um morro. À sua frente, havia uma fenda no céu, um pequeno corte no tecido acobreado daquele mundo. Através dela, podia ver escuridão, e, por trás da escuridão, as estrelas. Spider não se importava mais se correr era deselegante. Ele correu.

Quando chegou ao pé do morro, muitas aves surgiram a sua volta.

— Pare! — gritaram.

Spider parou.

— Eu sou uma ave — disse Spider. — Igual a vocês.

Ele estava certo de que, até no universo da mulher-pássaro, ter convicção suficiente podia tornar verdadeiras as palavras que dizia para aqueles dispostos a ouvi-las.

— Que tipo de ave você é? — perguntou uma garça, intrigada. — Uma ema? Um avestruz? Um moa?

— É. Claro. Algo assim — respondeu Spider. — Ei, algum de vocês viu Spider por aí? Ouvi dizer que ele fugiu. Me mandaram vigiar a saída.

— Nós também estamos procurando por ele — disse uma águia. — Mas não o vimos. Na verdade, achamos que você fosse ele quando o vimos vindo para cá.

— Não, não acharam — afirmou Spider. — Vocês pensaram que eu era só mais uma ave.

— Ah. Isso. Foi isso o que pensamos — concordou a garça.

— Esperem aqui e vigiem a saída. Vou dar uma espiadinha lá fora para ter certeza de que ele não chegou aqui antes de nós.

Spider atravessou a fenda no céu.

À sua frente, via uma ilha com uma pequena montanha no centro. Via um céu de puro azul, palmeiras balançando ao vento e uma gaivota voando alto. Mas, mesmo enquanto observava, aquele mundo parecia se afastar. Era como se estivesse olhando pelo lado errado do telescópio. O mundo encolhia e fugia, e quanto mais Spider corria em sua direção, mais longe ele parecia ficar.

A ilha tornou-se um reflexo em uma poça. Depois, o nada.

Estava em uma caverna. As bordas eram ásperas, mais ásperas e afiadas que em qualquer outro lugar que Spider estivera. Aquele era um tipo diferente de lugar. A pena que usara caiu no solo rochoso. Ele se virou para a luz.

Ela estava de pé na entrada da caverna, entre ele e a saída. Aquela mulher sentara-se à sua frente em um restaurante grego em South London, e aves saíram de sua boca.

— Sabe, eu acabei de sair do seu mundo. E sou obrigado a dizer que você tem noções muito estranhas de hospitalidade. Se viesse ao meu mundo, eu prepararia um jantar, abriria uma garrafa de vinho, colocaria uma música suave e lhe proporcionaria uma noite inesquecível — comentou Spider.

O rosto dela estava impassível, como se esculpido em rocha negra. O vento agitava a barra de sua capa de chuva marrom. Ela, então, falou. A voz, aguda e solitária, pareceu o chamado de uma gaivota ao longe.

— Peguei você. Agora você vai atraí-lo para cá.

— Atraí-lo? Atrair quem?

— Você vai berrar. Vai chorar. Seu medo vai provocá-lo.

— Spider não chora.

Ele não sabia muito bem se isso era verdade.

Olhos tão negros e brilhantes quanto lascas de obsidiana encaravam profundamente os olhos de Spider. Eram como buracos negros: não deixavam escapar nada, nem mesmo informação.

— Se me matar, minha maldição cairá sobre você — ameaçou Spider.

Ele se perguntou se tinha mesmo uma maldição. Provavelmente sim.

— Não vou ser eu quem vai matar você.

A mulher levantou a mão, que na verdade era a pata de uma ave de rapina. Ela golpeou seu rosto e atacou seu peito, e as garras cruéis afundaram na carne, rasgaram a pele.

Não doeu, apesar de Spider saber que em breve doeria muito.

Gotas de sangue escorreram por seu peito e brotaram em seu rosto. Os olhos ardiam. O sangue tocou seus lábios. Ele pôde sentir seu gosto e cheiro ferroso.

— Agora você começa a morrer — anunciou a mulher, com o grito de aves distantes.

— Nós somos entidades razoáveis. Deixe-me sugerir uma alternativa que pode ser mais exequível e que possivelmente trará benefícios para ambas as partes. — Ele disse isso com um sorrisinho, de maneira bem convincente.

— Você fala demais — retrucou ela. Enfiou as garras afiadas na boca dele e, com um giro e um puxão violentos, arrancou sua língua. — Pronto. Durma.

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