Os Filhos de Anansi
Capítulo treze, que acaba sendo desfavorável para alguns
CAPÍTULO
TREZE
QUE ACABA
SENDO
DESFAVORÁVEL
PARA
ALGUNS
AS AVES ESTAVAM bem animadas. Grasnavam, gritavam e chilreavam no topo das árvores. É agora, pensou Spider. Então, começou a praguejar. Estava exausto, acabado. Não tinha mais forças. Não sentia qualquer coisa além de fadiga e exaustão.
Considerou ficar deitado no chão e se deixar ser devorado. Concluiu que, no geral, seria uma maneira horrível de morrer. Sequer tinha certeza de que seria capaz de fazer um fígado crescer outra vez. No entanto, tinha bastante certeza de que não faria muita diferença, já que, não importava o que fosse, a coisa à espreita não tinha planos de pegar só o fígado.
Começou a tentar derrubar a estaca. Contava até três e puxava a corda como dava, fazendo o máximo de força que podia para tentar mover a estaca, então contava até três e repetia tudo de novo.
Obteria quase o mesmo efeito se tentasse arrastar uma montanha para o outro lado da estrada. Um, dois, três... puxa. E puxa. E puxa.
Queria saber se a fera chegaria logo.
Um, dois, três... puxa. Um, dois, três... puxa.
Em algum lugar, alguém cantava. Dava para ouvir. E a canção fez Spider abrir um sorriso. Pensou em como ainda queria ter a língua: ia mostrá-la para o Tigre, quando ele finalmente desse o ar da graça. A ideia lhe deu forças.
Um, dois, três... puxa.
A estaca cedeu e balançou um pouco.
Mais um puxão, e ela saiu do solo com a mesma facilidade que uma espada é tirada de uma pedra.
Ele puxou as cordas e trouxe a estaca para as mãos. Tinha cerca de um metro de comprimento, e uma das extremidades fora afiada para que pudesse ser cravada na terra. Ele a deslizou para fora do enlace da corda com as mãos dormentes, e o nó que prendia seus pulsos ficou pendurado, agora inútil. Ergueu a estaca com a mão direita. Daria para o gasto. Então notou que era observado: algo o vigiava havia um tempo, como um gato à espreita na toca de um rato.
A fera aproximou-se dele em silêncio — ou quase —, insinuando-se em sua direção como uma sombra se movendo durante o dia. O único movimento que o olho conseguia perceber era o da cauda, que se agitava com impaciência. Não fosse isso, poderia muito bem ser uma estátua ou até um monte de areia que, devido a alguns reflexos da luz, acabava parecendo um pouco com uma fera monstruosa. A pelagem tinha cor de areia, e os olhos, vidrados, eram verdes como o mar de inverno. O rosto era o mesmo rosto largo e cruel de uma pantera. Nas ilhas, qualquer felino de grande porte era chamado de Tigre, e aquele era todos os grandes felinos que já existiram — só que maior, mais perverso e mais perigoso.
Os tornozelos de Spider ainda estavam presos, e ele mal conseguia andar. As mãos e os pés formigavam. Ele pulava de uma perna para outra e tentava passar a impressão de que o fazia de propósito, que era alguma espécie de dança intimidadora, e não porque doía ficar parado.
Queria se abaixar e desamarrar os tornozelos, mas não ousava tirar os olhos da fera.
A estaca era pesada e grossa — curta demais para servir de lança, só que malfeita e grande demais para ser qualquer outra coisa. Spider a segurava pela extremidade mais fina e afiada e olhava para o mar, ignorando o animal de propósito, confiando na visão periférica.
O que mais ela disse? Você vai berrar. Vai chorar. Seu medo vai provocá-lo.
Spider começou a chorar. Depois berrou como um bezerro ferido, perdido, suculento e solitário.
Houve um vislumbre de movimento cor de areia. Mal deu tempo de registrar os borrões de dentes e garras movendo-se em sua direção. Spider girou a estaca como um bastão de beisebol, golpeando com toda a força. Sentiu-a acertar o focinho da fera com um baque surdo muito agradável.
O Tigre parou, olhou fixo para ele, como se não conseguisse acreditar no que via, e soltou um rosnado gutural, um som lamurioso. Depois se virou e voltou para os arbustos de onde viera, o andar tenso, como se tivesse um compromisso que quisesse evitar. Olhou para Spider por cima do ombro, ressentido. Era uma fera ferida, e seu olhar era o de um animal que já planejava o retorno.
Spider o observou ir embora.
Então se sentou e desamarrou os tornozelos.
Caminhou um pouco trôpego ao longo da borda do penhasco, acompanhando o declive suave. Logo um riacho cruzou seu caminho, despencando da beira do precipício em uma cachoeira reluzente. Spider se ajoelhou, uniu as mãos em concha e bebeu a água fresca.
Então começou a coletar pedras. Pedras boas, do tamanho de um punho. Ele as empilhou como se fossem bolas de neve.
* * *
— Você quase não comeu — comentou Rosie.
— Você é que tem que comer. Precisa ficar forte — respondeu a mãe. — Comi um pouco daquele queijo. Foi o suficiente.
Era frio na despensa de carnes, e escuro. Mas não o tipo de escuro ao qual os olhos se acostumam. Não havia luz. Rosie dera uma volta no local, passando os dedos pelas paredes de cal, pedra e tijolos bem velhos, procurando algo que pudesse ajudar, mas não havia qualquer coisa útil.
— Antes você comia — comentou Rosie. — Quando papai era vivo.
— Seu pai também costumava comer. E veja só o resultado: um ataque cardíaco com quarenta e um anos. Em que mundo vivemos?
— Mas ele amava comida.
— Ele amava tudo — respondeu a mãe, amargurada. — Amava comida, amava pessoas, amava a filha. Amava cozinhar. Me amava. E qual foi o resultado? Só acabou indo mais cedo para o túmulo. Não dá para sair por aí amando as coisas desse jeito. Já lhe disse isso.
— É. Acho que já disse mesmo. — Caminhou na direção do som da voz da mãe, a mão erguida diante do rosto para evitar bater em uma das correntes de metal que pendiam do teto. Encontrou o ombro ossudo e passou o braço em volta dele. — Não estou com medo — declarou, no escuro.
— Então você é doida.
Rosie soltou a mãe e voltou para o centro da despensa de carnes. De repente, algo rangeu. Poeira e pó de gesso caíram do teto.
— Rosie? O que você está fazendo? — perguntou a mãe.
— Balançando na corrente.
— Tome cuidado, menina. Se essa corrente ceder, você vai acabar caindo no chão e quebrando a cabeça antes mesmo de conseguir explicar o que está fazendo. — A filha não respondeu. A sra. Noah insistiu: — Eu já disse. Você está doida.
— Não, não estou. Só não estou mais com medo.
Acima deles, dentro da casa, a porta da frente bateu.
— Barba Azul voltou para casa — comentou a mãe de Rosie.
— Eu sei. Eu ouvi. Mesmo assim, não estou com medo.
* * *
As pessoas não paravam de dar tapinhas nas costas de Fat Charlie e de lhe pagar bebidas que vinham com enfeites de miniguarda-chuvas. Além disso, já tinha recebido cinco cartões de pessoas que trabalhavam no meio musical e que estavam na ilha para o festival.
Por todo o salão, as pessoas sorriam para ele. Mantinha um braço em volta de Daisy, podia senti-la tremendo. Ela levou os lábios até seu ouvido e falou:
— Você é doido de pedra, sabia?
— Funcionou, não foi?
Daisy olhou para ele.
— Você é cheio de surpresas.
— Vamos lá, ainda não acabou.
Ele chamou a maître.
— Com licença... Enquanto eu cantava apareceu uma senhora. Ela entrou e encheu a caneca de café na cafeteira lá atrás, perto do bar. Para onde ela foi?
A maître piscou e deu de ombros.
— Não sei...
— Sabe, sim — retrucou Fat Charlie. Sentia-se seguro e astuto. Sabia que em breve voltaria a se sentir como ele mesmo, mas cantara para uma plateia e gostara disso. Cantara para salvar a vida de Daisy e a própria, e conseguira. — Vamos conversar lá fora.
Era a canção. Enquanto cantava, tudo ficara perfeitamente claro. Ainda estava claro. Foi para o corredor, e Daisy e a maître o seguiram.
— Qual o seu nome? — perguntou à maître.
— Clarissa.
— Olá, Clarissa. Qual é o seu sobrenome?
Daisy interrompeu:
— Charlie, não é melhor chamar a polícia?
— Daqui a pouquinho. Clarissa de quê?
— Higgler.
— E qual é a sua relação com Benjamin? O concierge?
— Ele é meu irmão.
— E qual é exatamente a relação entre vocês e a sra. Higgler? Callyanne Higgler?
— Eles são minha sobrinha e sobrinho, Fat Charlie — respondeu a sra. Higgler, na porta. — Agora, acho que seria melhor você ouvir essa sua noiva e chamar a polícia. Não é mesmo?
* * *
Spider estava parado à margem do riacho no topo do penhasco, sentado de costas para a encosta e com uma pilha de pedras para arremessar à frente. Foi quando apareceu um homem cortando caminho pelo capim alto. O homem estava nu, exceto por uma faixa de pele cor de areia ao redor da cintura, com uma cauda pendendo na parte de trás. Usava um colar de dentes pontudos, brancos e afiados. O cabelo era negro e comprido. Ele caminhou com naturalidade na direção de Spider, como se tivesse apenas saído para uma caminhada matinal rotineira e ver o outro ali sentado fosse uma surpresa agradável.
Spider pegou uma pedra do tamanho de uma toranja e a equilibrou na mão.
— Olá, filho de Anansi — cumprimentou o estranho. — Eu estava só de passagem e vi você, então fiquei pensando se podia fazer alguma coisa para ajudar. — O nariz dele parecia meio quebrado e inchado.
Spider balançou a cabeça. Sentia falta da língua.
— Quando vi você por lá, fiquei pensando: coitadinho do filho de Anansi, deve estar com tanta fome. — O estranho abriu um sorriso grande demais. — Aqui. Tenho comida o suficiente para dividir.
Ele carregava um saco no ombro. Abriu-o, enfiou a mão direita lá dentro e tirou um cordeiro recém-abatido. Segurava a carcaça pelo pescoço, e a cabeça balançava.
— Seu pai e eu compartilhamos diversas refeições. Por que nós dois não poderíamos fazer o mesmo? Você vai acendendo o fogo, e eu limpo o carneiro e preparo um espeto para nós dois. Não dá para quase sentir o gosto?
Spider estava com tanta fome que não conseguia nem pensar. Se ainda tivesse sua língua, talvez teria dito sim, confiante em sua habilidade de se livrar de problemas com a conversa. Mas não tinha mais língua. Então pegou uma segunda pedra com a mão esquerda.
— Vamos nos banquetear e ser amigos. E que não haja mais mal-entendidos entre nós — sugeriu o estranho.
E aí o abutre e o corvo limparão meus ossos, pensou Spider.
O estranho deu outro passo em sua direção, e Spider decidiu que aquela era sua deixa para atirar a primeira pedra. Tinha uma boa mira e uma tacada excelente, e a pedra atingiu bem onde ele queria: no braço direito do estranho. O homem deixou o carneiro cair. A pedra seguinte o atingiu na lateral da cabeça — Spider estava mirando em um ponto bem entre os olhos afastados demais do homem, mas ele desviou.
Então o estranho saiu correndo a passos largos, a cauda estendida às costas. Enquanto corria, às vezes parecia homem, às vezes, animal.
Quando o sujeito sumiu, Spider foi pegar o cordeiro onde ele caíra. Ao se aproximar da carcaça, viu que ela se mexia, e, por um instante, achou que o bicho estivesse vivo. Então viu que a carne estava infestada de vermes. Fedia muito, e o fedor do cadáver o ajudou a esquecer o quanto estava com fome por um tempo.
Spider carregou a carcaça com os braços estendidos até a beira do precipício e o atirou no mar lá embaixo. Então lavou as mãos no riacho.
Não sabia há quanto tempo estava naquele lugar. Lá, o tempo se estendia e encolhia. O sol estava baixo no horizonte.
Depois do pôr do sol, mas antes do nascer da lua, pensou Spider. É nessa hora que a fera vai voltar.
* * *
O representante da Polícia de Saint Andrews, um sujeito de alegria inabalável, sentou-se no escritório da administração do hotel com Daisy e Fat Charlie e ouviu tudo o que cada um deles tinha a dizer com o rosto largo congelado em um sorriso plácido, embora inexpressivo. Às vezes, erguia um dedo para coçar o bigode.
Eles contaram ao policial que um fugitivo da justiça chamado Grahame Coats os abordara enquanto jantavam e ameaçara Daisy com uma arma. O que, também foram forçados a admitir, ninguém além de Daisy chegara a ver de fato. Então Fat Charlie contou sobre o incidente com o Mercedes preto e a bicicleta, e não, ele não chegara a ver quem estava dirigindo o veículo. Mas sabia de onde o carro viera. Contou ao policial sobre a casa no alto do penhasco.
O homem tocou o bigode grisalho, pensativo.
— É verdade, tem mesmo uma casa onde você está falando. Só que não pertence a esse homem, Coats. Longe disso. O senhor está falando da casa de Basil Finnegan, um sujeito bastante distinto. Por muitos anos, o sr. Finnegan demonstrou interesse saudável na lei e na ordem. Doou dinheiro para escolas, mas, o que é mais importante, contribuiu com uma soma considerável para a construção de uma nova delegacia policial.
— Ele apontou uma arma para a minha barriga — retrucou Daisy. — E disse que, a não ser que o acompanhássemos, ia atirar.
— Se esse fosse mesmo o sr. Finnegan, mocinha, tenho certeza de que haveria uma explicação muito simples. — O policial abriu uma maleta e retirou um grosso maço de papéis. — Aqui vai uma sugestão: pensem no assunto. Reflitam durante a noite. Se, de manhã, ainda estiverem convencidos de que foi mais do que um exagero, uma coisa do momento, basta preencher esse formulário e deixar as três vias na delegacia. Perguntem onde fica a nova delegacia, nos fundos da praça da cidade. Todo mundo sabe onde é.
Ele apertou a mão dos dois e seguiu seu caminho.
— Você devia ter contado que também é policial — sugeriu Fat Charlie. — Talvez ele nos levasse mais a sério.
— Acho que não teria ajudado. Qualquer um que chama uma mulher de “mocinha” já a excluiu do grupo de pessoas a quem vale a pena ouvir.
Eles foram até a recepção do hotel.
— Aonde ela foi? — perguntou Fat Charlie.
Benjamin Higgler respondeu:
— Tia Callyanne? Está esperando vocês na sala de reuniões.
* * *
— Pronto — disse Rosie. — Sabia que ia conseguir. Era só continuar me balançando.
— Ele vai matar você.
— Ele vai nos matar de qualquer jeito.
— Não vai funcionar.
— Mãe. Você tem uma ideia melhor?
— Ele vai ver você.
— Mãe. Pode parar de ser tão negativa? Se tem alguma sugestão que possa ajudar, por favor, diga. Se não tiver, nem se dê ao trabalho. Está bem?
Silêncio.
— Eu podia mostrar o traseiro para ele.
— O quê? — indagou Rosie.
— Você me ouviu.
— Hum. Em vez de?
— Além de.
Silêncio. Então Rosie comentou:
— Bem, mal não pode fazer.
* * *
— Olá, sra. Higgler — cumprimentou Fat Charlie. — Eu quero aquela pena de volta.
— E por que você acha que estou com a sua pena? — perguntou ela, os braços cruzados sobre os seios fartos.
— A sra. Dunwiddy me contou.
Pela primeira vez, a sra. Higgler pareceu surpresa.
— Então Louella disse que a pena está comigo?
— Sim, ela disse que a pena está com a senhora.
— Eu só estou tentando descobrir se é seguro falar. — A sra. Higgler gesticulou com a caneca de café, indicando Daisy. — Você não acha que eu vou abrir o bico na frente dela, né? Nem sei quem ela é.
— Essa é Daisy. Pode dizer a ela qualquer coisa que diria a mim.
— É a sua noiva — comentou a sra. Higgler. — Ouvi falar.
Fat Charlie sentiu o rosto esquentar.
— Ela não é minha... Na verdade, não somos. Eu precisava falar alguma coisa para livrá-la do cara que estava armado. Parecia a coisa mais simples a dizer.
A sra. Higgler o encarou. Por trás dos óculos grossos, os olhos dela começaram a brilhar.
— Fiquei sabendo que foi no meio de uma canção. Diante de um monte de gente. — Ela balançou a cabeça, de um jeito que velhos fazem quando refletem sobre a tolice dos jovens. Ela abriu a bolsa preta, tirou um envelope de dentro e o entregou a Fat Charlie. — Prometi a Louella que a manteria em segurança.
Fat Charlie pegou a pena do envelope, que estava um pouco esmagada no lugar onde ele a apertara na noite do ritual mágico.
— Certo. A pena. Excelente. — Então se virou para a sra. Higgler: — E agora, o que eu faço com ela?
— Você não sabe?
A mãe de Fat Charlie o ensinara, quando pequeno, a contar até dez antes de perder a paciência. Ele contou, em silêncio e sem pressa, e logo em seguida perdeu a paciência.
— É claro que eu não sei o que fazer com ela, sua velha idiota! Nessas duas últimas semanas fui preso, perdi minha noiva e meu emprego, vi meu irmão meio imaginário ser devorado por uma muralha de aves em Piccadilly Circus e voei de um lado a outro do Atlântico como uma bola de pingue-pongue. E hoje ainda subi diante de uma plateia e... E cantei. Tudo porque meu ex-patrão psicopata estava apontando uma arma para a barriga da garota que estava jantando comigo. Só estou tentando resolver a confusão em que minha vida se transformou desde que a senhora pensou que talvez eu fosse querer falar com meu irmão. Então, não: não sei o que fazer com essa maldita pena. É para queimá-la? Picá-la e comê-la? Fazer um ninho com ela? Segurá-la à minha frente e pular da janela?
A sra. Higgler parecia irritada.
— Você precisa perguntar a Louella Dunwiddy.
— Não tenho certeza se dá para fazer isso. Ela não parecia muito bem da última vez em que a vi. E não temos muito tempo.
Daisy interveio:
— Ótimo, você conseguiu a pena de volta. Agora podemos, por favor, falar sobre Grahame Coats?
— Isso não é só uma pena. É a pena que ganhei em troca do meu irmão.
— Então a troque de volta e vamos seguir em frente. Precisamos fazer alguma coisa.
— Não é tão simples — respondeu Fat Charlie. Então parou e pensou no que dissera e no que Daisy respondera. Olhou admirado para a mulher. — Meu deus, como você é esperta!
— Eu me esforço. O que foi que eu falei?
Não tinham quatro velhinhas, mas tinham a sra. Higgler, Benjamin e Daisy. O jantar estava quase terminando, então Clarissa, a maître, pareceu muito feliz em se juntar a eles. Não tinham as terras de quatro cores, mas havia areia branca da praia atrás do hotel, terra preta do canteiro de flores à frente, lama vermelha da lateral e a areia multicolorida que vinha em tubos de ensaio vendidos na loja de lembranças. As velas que pegaram no bar da piscina eram pequenas e brancas, não altas e negras. A sra. Higgler garantiu que dava para encontrar todas as ervas de que precisavam ali na ilha, mas Fat Charlie pediu a Clarissa para trazer um ramo de bouquet garni da cozinha.
— Acho que é tudo uma questão de confiança — explicou Fat Charlie. — A coisa mais importante não são os detalhes. É a atmosfera mágica.
A atmosfera mágica, no caso, não se intensificou com a tendência de Benjamin Higgler de olhar ao redor da mesa e ter um ataque de risadinhas, nem com o fato de Daisy não parar de comentar que tudo aquilo era bem idiota.
A sra. Higgler jogou o bouquet garni em uma tigela com um resto de vinho branco.
Ela começou a cantarolar. Ergueu as mãos para encorajá-los, e os outros se juntaram a ela, parecendo abelhas bêbadas. Fat Charlie ficou esperando alguma coisa acontecer.
Nada aconteceu.
— Fat Charlie, cante você também — mandou a sra. Higgler.
Ele engoliu em seco. Não há nada a temer, disse a si mesmo. Já tinha cantado diante de um salão cheio de gente e pedido uma mulher que mal conhecia em casamento diante de uma plateia. Cantarolar era moleza.
Identificou a nota que a sra. Higgler entoava e a deixou vibrar em sua garganta...
Segurou a pena. Cantou e se concentrou.
Benjamin parou de dar risadinhas. Arregalou os olhos. Seu rosto parecia alarmado, e Fat Charlie ia parar de cantar para perguntar por que ele estava incomodado, mas a canção agora estava dentro dele, e as velas tremeluziam...
— Olhe só para ele! — exclamou Benjamin. — Ele está...
E Fat Charlie teria se perguntado o que estava, exatamente, mas era tarde demais.
A neblina se dissipou.
Fat Charlie caminhava por uma ponte, uma passarela longa e branca que cruzava uma grande extensão de água cinzenta. Um pouco à frente, no meio da ponte, havia um homem sentado em uma cadeira de madeira. Estava pescando. Usava um chapéu fedora verde cobrindo os olhos. Parecia cochilar, e não se moveu quando Fat Charlie se aproximou.
Fat Charlie reconheceu o homem e pôs a mão em seu ombro.
— Sabia que era fingimento. Não acreditei que estivesse morto de verdade.
O homem na cadeira não se mexeu, mas sorriu.
— Isso mostra que você não sabe nada. Estou mortinho da silva. — Ele se espreguiçou de um jeito exagerado, puxou uma cigarrilha preta de trás da orelha e a acendeu com um fósforo. — É, estou morto. E acho que vou ficar assim por um tempo. Se a pessoa não morre de vez em quando, começam a achar que ela sempre vai estar lá.
— Mas...
Anansi levou o indicador aos lábios, pedindo silêncio. Ele pegou a vara de pescar e começou a enrolar a linha. Apontou para uma pequena rede, que Fat Charlie pegou e segurou estendida enquanto o pai levava até ela um peixe prateado e comprido que não parava de se debater. Então tirou o anzol da boca do peixe e o jogou em um balde branco.
— Pronto. O jantar de hoje está garantido.
Pela primeira vez, Fat Charlie percebeu que era noite quando se sentou à mesa com Daisy e os Higglers, embora, onde ele estava agora, o sol ainda ia baixo no céu, mas ainda não tinha se posto.
O pai dobrou a cadeira e a entregou junto com o balde a Fat Charlie, para que ele carregasse. Os dois saíram andando pela ponte. O sr. Nancy começou a falar:
— Sabe, sempre pensei que explicaria como tudo funciona, caso algum dia você viesse falar comigo. Mas parece que você está indo muito bem por conta própria. Então, o que o trouxe aqui?
— Não sei direito. Estava procurando a mulher-pássaro. Quero devolver a pena dela.
— Você não devia se meter com esse tipo de gente — comentou o pai, displicente. — Nunca dá em nada de bom. Aquela lá é um balaio de ressentimentos. Mas é covarde.
— Foi Spider... — retrucou Fat Charlie.
— O que é culpa sua. Não devia ter deixado aquela velha intrometida mandar metade de você embora...
— Eu era só uma criança. Por que você não fez alguma coisa?
Anansi afundou o chapéu na cabeça.
— A velha Dunwiddy não podia fazer nada que você não deixasse. Afinal de contas, você é meu filho.
Fat Charlie pensou naquilo, então respondeu:
— Mas por que você não me contou?
— Você está indo bem, está descobrindo tudo sozinho. Descobriu as canções, não foi?
Fat Charlie se sentiu ainda mais desajeitado, gordo e decepcionante para o pai, mas não respondeu que “não”. Em vez disso, falou:
— O que você acha?
— Acho que você está quase lá. O mais importante sobre as canções é que elas são como as histórias: não valem droga nenhuma, a menos que alguém as escute.
Estavam se aproximando do fim da ponte. Fat Charlie sabia, sem que lhe dissessem, que aquela era a última chance que os dois teriam de conversar. Havia tantas coisas que precisava descobrir, tantas coisas que queria saber.
— Pai, quando eu era criança... Por que você me humilhava?
O velho franziu a testa.
— Humilhava? Eu amava você.
— Você me fez ir à escola fantasiado de presidente Taft. É isso que chama de amor?
O velho soltou um som parecido com um ganido que podia muito bem ser uma risada, depois tragou a cigarrilha. A fumaça escapou de seus lábios, e mais parecia um balão de diálogos fantasmagórico.
— Sua mãe ficou me perturbando por causa disso — comentou. — Não temos muito tempo, Charlie. Quer mesmo ficar discutindo durante o pouco que nos resta?
Fat Charlie balançou a cabeça.
— Melhor não.
Eles chegaram ao fim da ponte.
— Bem, quando encontrar seu irmão, quero que entregue uma coisa a ele, em meu nome.
— O quê?
O pai ergueu a mão, baixou a cabeça de Fat Charlie e beijou sua testa de leve.
— Isso.
Fat Charlie se endireitou. O pai o encarava com uma expressão que, se estivesse no rosto de qualquer outra pessoa no mundo, ele teria pensado que era orgulho.
— Me deixe ver essa pena.
Fat Charlie enfiou a mão no bolso. A pena estava lá, parecendo ainda mais amassada e destroçada do que antes.
O pai estalou a língua e ergueu a pena contra a luz.
— É uma bela pena — comentou. — Não é bom deixá-la toda amassada. Ela não vai aceitá-la de volta neste estado. — O sr. Nancy passou a mão pela pena, que ficou como nova outra vez. Então ficou olhando para ela com o cenho franzido. — E aí você vai deixá-la toda amassada de novo. — Ele bafejou sobre as unhas e as poliu no paletó. Então pareceu se decidir. Tirou o chapéu fedora da cabeça e enfiou a pena na fita que o envolvia. — Pronto. E, de quebra, você vai ficar bem com um chapéu bacana desses. — Ele enfiou o chapéu na cabeça do filho. — Ficou ótimo.
Fat Charlie deu um suspiro.
— Pai, eu não uso chapéu. Vou ficar ridículo. Vou ficar com cara de idiota. Por que você sempre tenta me fazer passar vergonha?
Sob a luz que ia se acabando, o pai olhou para o filho.
— Acha mesmo que eu mentiria para você? Filho, para usar chapéu basta ter atitude. E você tem. Acha mesmo que eu diria que ficou bom se não tivesse ficado? Ficou muito elegante. Não acredita em mim?
— Na verdade, não.
— Então olhe ali — sugeriu o pai, apontando para a murada da ponte.
A água abaixo deles estava imóvel, lisa como um espelho, e o homem que o encarava de volta parecia mesmo elegante, com seu novo chapéu verde.
Fat Charlie ergueu os olhos para explicar que talvez estivesse enganado, mas o pai já tinha desaparecido.
Saiu da ponte, entrando na noite.
* * *
— Muito bem, quero saber exatamente onde ele está. Aonde ele foi? O que fez com ele?
— Eu não fiz nada. Meu Deus, garota — respondeu a sra. Higgler. — Isso não aconteceu da última vez.
— Pareceu que ele foi teleportado de volta para a nave mãe — comentou Benjamin. — Irado. Efeitos especiais na vida real.
— Quero que a senhora traga Fat Charlie de volta — exigiu Daisy, enfática. — Traga ele aqui agora mesmo.
— Mas eu nem sei onde ele está — retrucou a sra. Higgler. — E eu não o mandei para lá. Ele fez isso sozinho.
— Mas e se ele estiver lá fazendo o que tem que fazer e nós o trouxermos de volta? Podemos estragar tudo — interveio Clarissa.
— Exatamente — concordou Benjamin. — Seria como teleportar de volta a equipe de exploração bem no meio da missão.
Daisy pensou naquilo por alguns instantes e ficou muito irritada ao perceber que fazia sentido. Bem, tanto sentido quanto qualquer outra coisa naqueles dias.
Clarissa se pronunciou outra vez:
— Se vocês não precisarem mais de mim, tenho que voltar para o restaurante. Para ver se está tudo bem.
A sra. Higgler bebericou o café.
— Pode ir — anunciou.
Daisy deu um tapa na mesa.
— Ora, por favor! Temos um assassino à solta, e Fat Charlie foi teleportado para a nave mestra.
— Nave mãe — corrigiu Benjamin.
A sra. Higgler piscou. Então concordou:
— Está bem, temos que fazer alguma coisa. Qual é a sua sugestão?
— Não sei — admitiu Daisy, e se odiou por isso. — Passar o tempo, acho.
Ela pegou o exemplar do jornal Williamstown Courier que a sra. Higgler estava lendo mais cedo e começou a folheá-lo.
A história sobre as turistas desaparecidas, as mulheres que não tinham voltado para o navio, estava em uma coluna na página três. As que estão lá em casa, repetiu Grahame Coats, em sua cabeça. Achavam mesmo que eu ia acreditar que elas vieram de cruzeiro?
Ora, Daisy era policial, afinal de contas.
— Preciso de um telefone — disse.
— Vai ligar para quem?
— Acho que vou começar com o ministro do turismo e o delegado e vou continuar a partir daí.
* * *
O sol carmesim encolhia no horizonte. Se não fosse quem era, Spider estaria desesperado. Naquele lugar, na ilha, havia uma linha bem distinta entre dia e noite, e Spider assistiu à última migalha vermelha de sol ser engolida pelo mar. Tinha as pedras e as duas estacas.
Queria muito ter uma fogueira.
Ficou tentando descobrir quando a lua apareceria. Quando ela surgisse, Spider talvez tivesse uma chance.
O sol se pôs — os últimos traços de vermelho afundaram no mar escuro —, e veio a noite.
Ouviu-se uma voz na escuridão.
— Filho de Anansi, em breve, eu me alimentarei. Você não saberá onde estou até sentir minha respiração quente na nuca. Fiquei ao lado do seu corpo preso em estacas, disposto para mim. Poderia ter esmagado seu pescoço ali mesmo, mas reconsiderei. Matá-lo dormindo não teria me dado prazer algum. Quero sentir você morrer. Quero que saiba por que tirei sua vida.
Spider jogou uma pedra na direção de onde achou que a voz vinha, mas a ouviu bater no mato, inofensiva.
A voz continuou:
— Você tem dedos, mas eu tenho garras mais afiadas que facas. Você tem duas pernas, mas eu tenho quatro patas que nunca se cansam, que podem correr dez vezes mais rápido que você pode pensar em correr e ainda continuar avançando. Seus dentes podem comer carne, mas só se o fogo a tiver deixado macia e sem gosto, porque são dentes pequenos de macaco, bons para mastigar frutas macias e insetos rastejantes. Mas eu tenho dentes que podem rasgar e arrancar a carne ainda viva dos ossos, e posso engoli-la enquanto o sangue da presa ainda jorra para os céus.
Então Spider fez um ruído. Era o tipo de ruído que podia ser feito sem língua, sem nem mesmo abrir os lábios. Era meio que um “ hmph” de ironia e desprezo. Parecia dizer: Você pode até ser tudo isso, Tigre, mas e daí? Todas as histórias que já foram contadas são de Anansi. Ninguém conta histórias do Tigre.
Ouviu-se um rugido na escuridão, um rugido de frustração e fúria.
Spider começou a cantarolar a melodia de “Tiger Rag”. É uma canção antiga, boa para provocar os tigres. “Pegue aquele tigre”, “Onde foi parar o tigre?”, diz a letra.
Dá próxima vez que a voz surgiu em meio às trevas, estava mais perto.
— Estou com sua mulher, filho de Anansi. Quando acabar com você, vou rasgar a carne dela. Aposto que a carne dela é mais doce que a sua.
Spider soltou um “hmph!”, comum às pessoas que sabem que estão mentindo para elas.
— O nome dela é Rosie.
Então Spider fez um ruído involuntário.
Na escuridão, alguém deu risada.
— E sobre seus olhos — prosseguiu a voz —, você tem olhos que, quando muito, veem o óbvio, e só em plena luz do dia. Mas meu povo tem olhos que podem ver os pelos se arrepiarem em seus braços enquanto falo, o terror em seu rosto. E veem tudo isso quando é noite. Tenha medo de mim, filho de Anansi. E se tiver que fazer alguma prece, faça agora.
Spider não tinha preces, mas tinha pedras, e podia jogá-las. Talvez desse sorte e uma delas acertasse alguma coisa no escuro. Ele sabia que seria um milagre se isso acontecesse, mas passara a vida inteira confiando em milagres.
Estendeu a mão para pegar outra pedra.
Algo roçou as costas de sua mão.
Olá, cumprimentou a pequena aranha de barro, em sua mente.
Olá, pensou Spider. Olha, estou um pouco ocupado aqui, tentando não ser devorado, então se você puder ficar quietinha por um tempinho...
Mas eu as trouxe, pensou a aranha. Como você pediu.
Como eu pedi?
Você não me mandou buscar ajuda? Eu as trouxe comigo. Elas seguiram o fio da minha teia. Não há aranhas neste universo, então escapei para o outro. Teci uma teia de lá até aqui e daqui para lá. Trouxe as guerreiras. Trouxe as corajosas.
— Em que está pensando? — indagou a voz do grande felino, na escuridão. E então completou, com humor um tanto refinado: — Qual é o problema? O gato comeu sua língua?
Uma única aranha é silenciosa. Elas cultivam o silêncio. Mesmo as que fazem ruídos tentam permanecer o mais imóvel possível, à espera. O que as aranhas mais fazem é esperar.
Bem lentamente, a noite foi se enchendo de um farfalhar baixinho.
Spider pensou na gratidão e no orgulho que sentia pela pequena aranha de sete patas que criara de sangue, saliva e terra. Ela escalou depressa das costas de sua mão até o ombro.
Ele não podia vê-las, mas sabia que estavam todas ali: as aranhas grandes e as pequenas, as aranhas venenosas e as que apenas picavam, as aranhas grandes e peludas e as elegantes e quitinosas. Seus olhos captavam toda a luz disponível, mas enxergavam pelas pernas, e a partir das vibrações construíam uma imagem virtual do mundo ao redor.
Eram um exército.
O Tigre falou outra vez, em meio à escuridão:
— Quando você estiver morto, filho de Anansi, quando toda a sua linhagem estiver morta, as histórias serão minhas. As pessoas voltarão a contar as histórias do Tigre. Vão se reunir e louvar minha inteligência e minha força, minha crueldade e minha alegria. Todas as histórias serão minhas. Todas as canções serão minhas. O mundo voltará a ser como antes: um lugar difícil. Sombrio.
Spider escutou o farfalhar de seu exército.
Estava sentado à beira do precipício por um motivo. Embora não oferecesse lugar para onde recuar, também significava que o Tigre não poderia vir correndo para cima dele, teria que se aproximar bem lentamente.
Spider começou a rir.
— Do que você está rindo, filho de Anansi? Perdeu o juízo?
Spider deu uma risada ainda mais alta e mais longa.
Um uivo percorreu a escuridão. O Tigre encontrara seu exército.
Existem muitos tipos de veneno de aranha. Às vezes demora bastante para uma picada fazer efeito. Biólogos passaram anos estudando isso: há aranhas cujo veneno pode fazer o local afetado necrosar e morrer, o que às vezes pode acontecer mais de um ano após a picada. E por que as aranhas fazem isso? É simples: porque acham engraçado. E porque não querem que você se esqueça delas.
Viúvas-negras picaram o focinho machucado do Tigre, e tarântulas atacaram as orelhas: em instantes, os pontos sensíveis de seu corpo começaram a arder e latejar, a inchar e coçar. O Tigre não entendia o que estava acontecendo, só sabia que, de repente, seu corpo ardia e doía — e que estava com medo.
Spider deu uma risada mais alta e mais longa, e ouviu o que parecia um animal enorme correndo para dentro da mata, rugindo de agonia e medo.
Então se sentou e esperou. O Tigre voltaria. Spider não tinha dúvidas. O assunto ainda não estava resolvido.
Ele pegou a aranha de sete patas do ombro e a acariciou, passando os dedos pelo corpo largo.
Um pouco mais abaixo, na encosta, algo brilhava com uma luz verde fria, tremeluzindo como as luzes de uma pequena cidade, acendendo e apagando na noite. E vinha em sua direção.
O pisca-pisca se revelou ser uma nuvem de cem mil vaga-lumes. Havia uma silhueta iluminada no centro daquela luz tremeluzente, uma figura escura em forma de homem. Caminhava morro acima, determinada.
Spider ergueu uma pedra e preparou mentalmente as tropas de aranhas para mais um ataque. Então parou. Havia algo familiar na figura que brilhava à luz dos vaga-lumes: ela usava um chapéu fedora verde.
* * *
Grahame Coats tinha bebido quase toda a meia garrafa de rum que encontrara na cozinha. Tinha aberto o rum porque não queria descer até a adega e porque achou que aquilo fosse deixá-lo bêbado mais rápido que o vinho. Infelizmente, não foi o caso. A bebida não parecia estar fazendo efeito, muito menos fornecendo a sensação de se estar desconectado emocionalmente que ele julgava precisar. Caminhou pela casa com a garrafa em uma das mãos e um copo meio cheio na outra, tomando ora um gole de um, ora de outro. Captou um vislumbre do próprio reflexo no espelho, todo suado e acabado.
— Ânimo — disse em voz alta. — As linhas são tortas mesmo. Tem que ver o lado bom das coisas. Quebrar os ovos da omelete. O apressado come cru. Depois da tempestade...
O rum estava quase acabando.
Ele voltou para a cozinha. Abriu vários armários, até que encontrou uma garrafa de licor escondida. Pegou-a e aninhou-a nos braços, agradecido, como se ela fosse uma velha amiga bem pequenininha que tivesse acabado de voltar depois de muitos anos no mar.
Desatarraxou a tampa da garrafa. Era licor para cozinhar, mas ele bebeu como se fosse limonada.
Grahame Coats percebeu outras coisas enquanto procurava álcool na cozinha. Havia, por exemplo, facas. Algumas eram bem afiadas. Em uma das gavetas, tinha até uma pequena serra de aço inoxidável. Grahame Coats achou isso ótimo. Seria uma solução bem simples para o problema do porão.
— Habeas corpus — disse. — Ou habeas delicti. Um desses. Se não há corpo, não há crime. Ergo. Quod erat demonstrandum.
Ele tirou a arma do bolso do paletó e a colocou sobre a mesa da cozinha. Arrumou as facas em volta dela, formando um padrão parecido com os raios de uma roda.
Então falou, no mesmo tom que usava para convencer boy bands inocentes de que era hora de assinar o primeiro contrato com ele e abraçar a fama, ou melhor, a fortuna:
— Bem, antes tarde do que nunca.
Prendeu três facas no cinto com a lâmina para baixo, guardou a serra no bolso do paletó e, com a arma na mão, desceu a escada da adega. Acendeu as luzes, piscou para as garrafas de vinho ali ao lado — cada uma em um suporte, todas cobertas por uma fina camada de poeira —, e parou ao lado da porta de ferro da despensa de carnes. Então gritou:
— Muito bem! Para sorte de vocês, não quero fazer mal a ninguém. Vou deixar as duas saírem. Foi só um mal-entendido. Mesmo assim, sem ressentimentos. Não adianta chorar pelo leite derramado. Vão para a parede dos fundos. Fiquem em posição. Nada de gracinhas.
A quantidade de clichês existentes para pessoas armadas é meio reconfortante, pensou, enquanto abria as trancas. Aquilo o fazia sentir-se membro de uma irmandade: Bogart estava ao seu lado, junto com Cagney e todas as outras pessoas que gritavam com as outras em seriados policiais.
Acendeu a luz e abriu a porta. A mãe de Rosie estava parada de costas, perto da parede dos fundos. Quando Grahame Coats entrou, ela levantou a saia e sacudiu a bunda morena surpreendentemente magra.
Grahame Coats ficou de queixo caído. Foi nesse momento que Rosie golpeou seu pulso com um pedaço de corrente enferrujada, jogando a arma para o outro lado da despensa.
Com o entusiasmo e a precisão de uma mulher muito mais jovem, a mãe de Rosie deu um chute em seu saco. Quando ele botou as mãos na virilha e caiu de joelhos, emitindo ruídos em uma frequência que só cães e gatos poderiam ouvir, Rosie e a mãe fugiram, aos trancos e barrancos.
Elas bateram a porta, e Rosie virou uma das trancas. As duas se abraçaram.
Ainda estavam na adega quando todas as luzes se apagaram.
— Deve ter sido um fusível queimado — disse Rosie, tentando tranquilizar a mãe.
Não estava muito certa daquilo, mas não havia outra explicação.
— Você devia ter virado as duas trancas — comentou a mãe.
Em seguida gritou um “Ai!” ao tropeçar em alguma coisa e soltou um palavrão.
— Veja pelo lado bom — retrucou Rosie. — Ele também não consegue enxergar no escuro. Segure minha mão, acho que a escada é por aqui.
Quando a luz se apagou, Grahame Coats estava de quatro no chão de concreto da despensa de carnes, já no escuro. Algo quente escorria por sua perna. Por um momento desagradável, achou que tivesse molhado as calças, até que percebeu que a lâmina de uma das facas presas em seu cinto fizera um corte fundo no alto da perna.
Parou de se mover e deitou-se no chão. Chegou à conclusão de que beber tanto fora uma atitude muito sensata: era praticamente um anestésico. Resolveu dormir.
Mas não estava sozinho ali dentro. Havia alguém ali com ele. Algo que se movia em quatro patas.
Ouviu um rosnado:
— Levante-se.
— Não consigo. Estou ferido. Quero a minha cama.
— Você é uma criatura desprezível, destrói tudo que toca. Agora se levante.
Grahame Coats retrucou, naquele tom razoável de bêbado:
— Eu adoraria, mas não posso. Vou ficar deitado aqui no chão só um pouquinho. Mas, de qualquer jeito, ela trancou a porta. Eu ouvi.
Ele ouviu um som meio arranhado do outro lado da porta, como uma tranca abrindo bem devagar.
— A porta está aberta. Se você ficar aqui, vai morrer. — Ouviu um farfalhar impaciente, o ruído furtivo de uma cauda e um rugido meio abafado no fundo da garganta. — Me dê a mão e jure obediência. Convide-me para entrar em você.
— Eu não enten...
— Me dê a mão ou vai sangrar até a morte.
No escuro da despensa de carnes, Grahame Coats estendeu a mão. Alguém — ou alguma coisa — a segurou firmemente, o que foi meio reconfortante.
— E então, algum problema em eu entrar?
Grahame Coats foi tomado por um instante de fria sobriedade. Já fora longe demais. Nada do que fizesse pioraria a situação.
— Claro que de jeito nenhum — murmurou.
Ao dizer aquilo, começou a se transformar. Via no escuro como se fosse dia. Por apenas um instante, pensou ter visto algo ao seu lado, algo maior que um homem e com dentes muito, muito afiados. Mas a coisa desapareceu de repente, e Grahame Coats sentia-se fantástico. Sua perna não sangrava mais.
Conseguia ver muito bem naquela escuridão. Tirou as facas do cinto e as largou no chão. Também arrancou os sapatos. Havia uma arma no chão, mas ele a deixou lá. Armas eram para macacos, corvos e fracotes. Ele não era um macaco.
Era um caçador.
Ergueu-se nas mãos e nos joelhos, então caminhou de quatro na direção da adega.
Conseguia ver as mulheres. Elas tinham encontrado a escada que levava à casa e estavam subindo às cegas, de mãos dadas na escuridão.
Uma delas era velha, a carne já dura. A outra era jovem e tenra. Sentiu a boca salivar, a boca de alguém que era apenas em parte Grahame Coats.
* * *
Fat Charlie saiu da ponte e adentrou o lusco-fusco, o chapéu fedora verde do pai enfiado na cabeça. Avançou pela praia rochosa, subindo o declive, escorregando nas pedras e chapinhando em poças. Então pisou em algo que se movia. Perdeu o equilíbrio e tirou depressa o pé.
A coisa se ergueu, e continuou a se erguer. Seja lá o que fosse, era enorme. A princípio, Fat Charlie pensou que ela tivesse o tamanho de um elefante, mas a coisa continuou a crescer.
Luz, pensou Fat Charlie. Cantou em voz alta, e todos os vaga-lumes daquele lugar se agruparam ao seu redor, exibindo a luzinha verde e tremeluzente. Sob a luz deles, Fat Charlie pôde ver que dois olhos maiores que pratos o encaravam, grudados em um rosto reptiliano e presunçoso.
Ele os encarou de volta.
— Boa noite — cumprimentou, animado.
A voz da criatura era macia como uma almofada de seda.
— Olá. Ora, ora. Você tem a cara do meu jantar.
— Sou Charlie Nancy — disse Charlie Nancy. — Quem é você?
— Sou o Dragão. E vou mastigar você inteirinho, homenzinho de chapéu.
Charlie piscou.
O que meu pai faria? O que Spider faria? Não fazia ideia. Vamos lá! Spider é meio que parte de mim, afinal. Posso fazer tudo o que ele faz.
— Hã. Você está cansado de conversar comigo e vai me deixar passar sem ser perturbado — disse ao Dragão, com o máximo de convicção que conseguiu reunir.
— Nossa. Boa tentativa. Mas, infelizmente, não estou cansado de conversar — retrucou o Dragão, animado. — Na verdade, vou devorar você.
— Por acaso você tem medo de limões? — perguntou Charlie, antes de lembrar que dera o limão para Daisy.
A criatura deu uma risada de escárnio.
— Há. Nada me dá medo.
— Nada?
— Nada.
Então Charlie perguntou:
— Tem certeza de que nada mata você de medo?
— É. Nada me mata de medo — admitiu o dragão.
— Sabe, tem um monte de nada nos meus bolsos. Quer ver?
— Não mesmo — respondeu o Dragão, parecendo se sentir desconfortável.
Ele bateu asas, fazendo um barulho semelhante ao de velas de navio ao vento, e Fat Charlie ficou sozinho na praia.
— Isso foi fácil demais — comentou.
Continuou a andar. Criou uma canção para a caminhada. Charlie sempre teve vontade de criar canções, mas nunca o fizera, ainda mais porque acreditava que, se fizesse uma, alguém pediria para cantá-la — o que não teria sido muito bom, assim como morrer enforcado não teria sido muito bom. Mas agora ligava cada vez menos, e cantou a canção para os vaga-lumes, que o seguiram morro acima. Era uma canção sobre encontrar a mulher-pássaro e recuperar o irmão. Torcia para que os vaga-lumes estivessem gostando. A luz deles parecia pulsar e piscar no ritmo da música.
A mulher-pássaro esperava por ele no alto do morro.
Charlie tirou o chapéu e sacou a pena da faixa.
— Aqui. Acredito que isso seja seu.
Ela não fez menção de pegá-la.
— Nosso trato está acabado — insistiu Charlie. — Eu trouxe a pena. Quero meu irmão. Você o levou. Quero ele de volta. A linhagem de Anansi não era minha, para eu poder dar a alguém.
— E se eu não estiver mais com seu irmão?
Era difícil dizer, à luz dos vaga-lumes, mas Charlie achou que os lábios dela não tinham se movido. No entanto, as palavras o envolviam, com o canto dos noitibós e os pios das corujas.
— Quero meu irmão de volta. E são e salvo. E quero agora. Ou o que quer que tenha acontecido entre você e meu pai terá sido apenas o início. Entendeu? Só o começo.
Charlie nunca ameaçara outra pessoa. Não tinha ideia de como levaria aquilo adiante — mas tinha certeza de que o faria.
— Seu irmão estava comigo, mas arranquei a língua dele e o larguei no mundo do Tigre. Não posso fazer mal à linhagem de seu pai. Mas o Tigre pode, basta arranjar coragem — respondeu ela, naquele trovejar amargo e distante.
Fez-se silêncio. Os sapos e as aves noturnos ficaram absolutamente quietos. Ela o encarou, impassível. Seu rosto era quase parte das sombras. A mulher-pássaro enfiou a mão no bolso da capa de chuva.
— Me dê a pena.
Charlie colocou a pena na mão dela.
Então se sentiu mais leve, como se tivesse se livrado de mais do que uma pena velha...
Foi quando a mulher colocou uma coisa em sua mão. Era fria e úmida. Parecia um pedaço de carne, e Charlie teve que reprimir a vontade de atirá-lo longe.
— Devolva isso a ele — explicou a mulher-pássaro, com a voz da noite. — Ele não precisa mais se vingar de mim.
— Como vou levar isso ao mundo do Tigre?
— Como você chegou aqui? — perguntou ela, parecendo achar graça, e Charlie viu que estava sozinho na colina.
Abriu a mão e olhou para o pedaço de carne que havia ali, mole e com bordas irregulares. Parecia uma língua, e Charlie sabia de quem ela devia ser.
Estou colocando o chapéu de pensar, disse a si mesmo, enquanto enfiava o chapéu fedora de volta na cabeça.
Em seus pensamentos, aquilo não pareceu tão ridículo. Não era um chapéu de pensar, mas era o tipo de chapéu usado por alguém que não só pensava, mas que também chegava a conclusões importantes e vitais.
Imaginou que os mundos fossem como uma teia. A imagem reluzia em sua mente, conectando-o com todos que conhecia. O fio que o ligava a Spider era forte e brilhante, cintilando com uma luz fria, como um vaga-lume ou uma estrela.
Spider já fora parte dele. Charlie se agarrou a esse pensamento e deixou que a teia preenchesse sua mente. Além disso, estava com a língua do irmão nas mãos, algo que fora parte de Spider até pouco tempo e que desejava com todas as forças ser parte dele outra vez. As coisas vivas tinham memória.
A fortíssima luz da teia brilhava ao seu redor. Tudo o que Charlie precisava era segui-la.
Ele a seguiu, e os vaga-lumes se aglomeraram ao seu redor e viajaram junto com ele.
— Ei. Sou eu.
Spider respondeu com um grunhido baixo e terrível.
Sob o brilho da luz dos vaga-lumes, Charlie viu que o irmão estava com um aspecto horrível: parecia um animal machucado. Crostas de feridas marcavam seu rosto e peito.
— Acho que isso é seu — comentou.
Spider pegou a língua com o irmão e fez um gesto exagerado de agradecimento. Então a enfiou na boca, endireitou no lugar e apertou. Charlie ficou olhando e esperando. Spider logo pareceu ficar satisfeito. Experimentou alguns movimentos com a língua, levando-a de um lado a outro como se lambesse os beiços, depois abriu bem a boca e mexeu a língua lá dentro. Então a fechou e se levantou. Finalmente, com a voz ainda meio trêmula, disse:
— Chapéu legal.
* * *
Rosie conseguiu chegar primeiro no topo da escada, então abriu a porta da adega. Entrou na casa aos tropeços e esperou a mãe passar. Em seguida, trancou a porta da adega. A casa estava sem luz, mas a lua estava alta e quase cheia no céu, e, depois de toda aquela escuridão, o luar pálido que entrava pelas janelas da cozinha parecia até um holofote.
Criancinhas, venham brincar, pensou Rosie, lembrando-se de uma velha cantiga. Hoje o sol é o luar...
— Ligue para a polícia — mandou a mãe.
— Onde fica o telefone?
— Como é que eu vou saber onde fica o telefone? Ele ainda está lá embaixo.
— Certo — respondeu Rosie, pensando se devia encontrar um telefone e ligar para a polícia ou só dar o fora daquela casa. Mas, antes de chegar a uma decisão, era tarde demais.
Houve um estrondo tão alto que seus ouvidos doeram, e a porta da adega foi arrombada.
Uma sombra saiu de lá.
Era real. Rosie sabia que era real. Estava olhando para ela. Mas era impossível: era a sombra de um grande felino, peludo e enorme. Porém, por mais estranho que fosse, a sombra pareceu ficar mais escura quando a luz do luar a atingiu. Rosie não conseguia ver os olhos da criatura, mas sabia que ela a observava. E sabia que ela estava com fome.
Aquilo ia matá-la. Tudo terminaria ali mesmo.
A mãe anunciou:
— Ela quer você, Rosie.
— Eu sei.
Ela pegou a maior coisa que tinha ali por perto: um bloco de madeira que servia para guardar facas, mas que não tinha nenhuma, e o jogou na sombra com toda a força. Então, sem esperar para ver se acertara, saiu da cozinha correndo o mais rápido que podia e entrou no corredor. Sabia onde ficava a porta da frente...
A coisa escura e de quatro patas se moveu mais rápido. Saltou por cima da cabeça de Rosie e aterrissou diante dela quase sem fazer barulho.
Rosie recuou contra a parede, sentindo a boca seca.
A fera estava posicionada entre elas e a porta da frente, e avançava lenta e silenciosamente na direção de Rosie, como se tivesse todo o tempo do mundo.
Foi então que a mãe saiu correndo da cozinha, passou por Rosie e continuou correndo pelo corredor enluarado na direção da enorme sombra, agitando os braços. Com os punhos magros, socou a criatura nas costelas. Houve uma pausa, como se o mundo estivesse prendendo a respiração, e a fera reagiu. Com um movimento borrado, a mãe de Rosie foi jogada no chão, e a sombra começou a sacudi-la como um cachorro faria com uma boneca de pano entre os dentes.
A campainha tocou.
Rosie queria pedir ajuda, mas, em vez disso, começou a gritar bem alto, sem parar. Quando encontrava uma aranha na banheira, gritava como uma atriz de filme de terror B em seu primeiro encontro com um homem fantasiado de monstro. Mas agora estava em uma casa escura com um tigre feito de sombra e um assassino em potencial. Sendo que pelo menos uma, mas talvez duas dessas entidades, tinha acabado de atacar sua mãe. Pensou em algumas possíveis atitudes a tomar (a arma: a arma estava lá na despensa. Precisava descer e pegar a arma. Ou a porta: podia tentar desviar da mãe e da sombra e destrancar a porta da frente), mas seus pulmões e sua boca apenas gritavam.
Algo bateu com força na porta da frente.
Estão tentando arrombar, pensou. Não vão conseguir entrar por aquela porta. Ela é bem resistente.
A mãe estava jogada no chão sob um feixe de luar, e a sombra estava abaixada sobre ela. A criatura jogou a cabeça para trás e deu um rugido profundo e gorgolejante, que era ao mesmo tempo de medo, desafio e posse.
Estou tendo alucinações, pensou Rosie, com uma certeza perturbadora. Fiquei trancada no subsolo por dois dias, e agora estou tendo alucinações. Não tem tigre nenhum aqui.
Pelo mesmo motivo, tinha certeza de que não havia uma mulher pálida ao luar, apesar de poder vê-la caminhando pelo corredor. Uma mulher loira com as pernas longas e os quadris estreitos de uma dançarina. Ela parou ao alcançar a sombra do tigre. Então disse:
— Olá, Grahame.
A sombra-fera ergueu a cabeça enorme e rosnou.
— Não vá pensando que pode se esconder de mim nessa fantasia boba de tigre — retrucou a mulher. Ela não parecia muito feliz.
Rosie percebeu que dava para ver a janela através da parte superior do corpo dela. Então recuou até ficar com as costas contra a parede.
A fera rugiu de novo, dessa vez com um pouco mais de hesitação.
A mulher respondeu:
— Não acredito em fantasmas, Grahame. Passei a vida inteira sem acreditar em fantasmas. Aí conheci você. Você fez a carreira de Morris ir por água abaixo. Nos roubou. Me matou. E, para piorar, me obrigou a acreditar em fantasmas.
A sombra em forma de grande felino agora gemia e recuava pelo corredor.
— Não pense que vai conseguir fugir de mim assim, seu homenzinho inútil. Pode fingir ser um tigre o quanto quiser. Você não é um tigre. É um rato. Não, isso é um insulto a um sem-fim de nobres roedores. Você é menos que um rato. É um hamster. É uma fuinha.
Rosie disparou pelo corredor. Passou pela sombra, passou pela mãe caída, passou correndo através da mulher pálida — sentiu que atravessava um nevoeiro. Chegou à porta da frente e começou a procurar a tranca.
Não sabia se era apenas em sua cabeça ou se vozes de verdade discutiam. Rosie ouviu alguém dizendo:
“Não dê atenção a ela, seu idiota. Ela não vai conseguir encostar em você. É só um fantasma. Quase nem é real. Pegue a garota! Detenha a garota!”
E outra pessoa respondia:
“Você com certeza tem um argumento válido, mas não estou convencido de que considerou todas as circunstâncias em relação a... Bem, ser prudente... Hã, a melhor das qualidades. Está me entendendo?”
“Eu digo o que fazer. Você obedece.”
“Mas...”
— O que eu quero saber é quão fantasma você é, nesse momento. Sabe, não posso tocar nas pessoas. Na verdade, não posso nem tocar nas coisas. Mas posso tocar em fantasmas — comentou a mulher pálida.
Ela mirou um chute bem forte na cara da fera. O gato-sombra rosnou e recuou um passo, e o pé o errou por pouco mais de um centímetro.
O chute seguinte acertou, o que fez a fera urrar de dor. Mais um chute onde deveria ser o focinho do felino-sombra. A criatura soltou um ruído de gato sendo lavado com xampu, um uivo solitário de pavor e ultraje, vergonha e derrota.
O corredor se encheu com o som do riso de uma mulher morta, um riso de prazer e exultação.
— Fuinha — anunciou a voz da mulher pálida, mais uma vez. — Grahame, você é uma fuinha.
Um vento frio soprou pela casa.
Rosie abriu a última trava e girou a tranca. A porta se abriu. Fachos de lanternas fortes e cegantes iluminaram tudo. Pessoas. Carros. Uma voz feminina disse:
— É uma das turistas desaparecidas. — Então completou: — Meu Deus.
Rosie se virou.
Sob o facho da lanterna, pôde ver a mãe jogada no chão de lajotas. Ao lado dela, descalço, inconsciente e inconfundivelmente humano, encontrava-se Grahame Coats. Um líquido vermelho estava espalhado ao redor deles, parecendo tinta escarlate. Por um instante, Rosie não conseguiu entender o que era.
Uma mulher falava com ela.
— Você é Rosie Noah. Meu nome é Daisy. Vamos encontrar um lugar para você sentar. Quer se sentar?
Alguém devia ter encontrado o painel de disjuntores, pois as luzes se acenderam em toda a casa.
Um homem grande, usando o uniforme da polícia, estava agachado junto aos corpos.
— Sem dúvida é o sr. Finnegan. E não está respirando.
— Sim, por favor, estou com muita vontade de me sentar — disse Rosie.
* * *
Charlie se sentou ao lado de Spider, na beira do penhasco enluarado, as pernas balançando na borda.
— Sabe, você era parte de mim. Quando éramos criança.
Spider inclinou a cabeça para o lado.
— É mesmo?
— Acho que sim.
— Bem, isso explica algumas coisas. — Ele estendeu a mão: uma aranha de barro com sete patas estava parada em seus dedos, sentindo o ar. — Mas, e agora? Você vai me incorporar de volta ou algo do tipo?
Charlie franziu a testa.
— Acho que você se saiu bem melhor do que se ainda fosse parte de mim. E se divertiu muito mais.
Spider mudou de assunto:
— Rosie. O Tigre sabe sobre Rosie. Precisamos fazer alguma coisa.
— Claro que sim — concordou Charlie.
Era como contabilidade, pensou. Basta inserir números em uma coluna e os tirar de outra. Se tudo fosse feito da maneira correta, acabaria dando certo no fim da página. Ele pegou a mão do irmão.
Eles levantaram e deram um passo à frente, para além do penhasco...
... E tudo ficou brilhante...
Um vento frio soprava entre os mundos.
Charlie perguntou:
— Sabia que você não é a parte mágica de mim?
— Não sou?
Spider deu mais um passo. Estrelas cadentes passavam às dezenas, riscando o céu escuro. Alguém, em algum lugar, tocava uma música alta e aguda em uma flauta.
Mais um passo, e agora ouviam o barulho de sirenes ao longe.
— Não, não é. Imagino que a sra. Dunwiddy achava que era. Ela nos dividiu, mas nunca entendeu direito o que estava fazendo. Somos mais como duas metades de uma estrela-do-mar. Você cresceu e se transformou em uma pessoa por inteiro. — Então completou, percebendo que era verdade enquanto dizia: — E eu também.
Eles estavam parados na beira do precipício ao amanhecer. Uma ambulância subia o morro, as luzes piscando, e outra vinha atrás dela. Elas estacionaram ao lado da estrada, junto de um grupo de carros da polícia.
Daisy parecia estar dando ordens a todos.
— Não há muito o que possamos fazer aqui. Não agora — comentou Charlie. — Vamos.
O último vaga-lume o deixou, piscando a caminho do sono.
Eles pegaram a primeira van da manhã de volta para Williamstown.
* * *
Maeve Livingstone estava sentada no andar de cima, na biblioteca da casa de Grahame Coats, cercada pelas obras de arte, os livros e os DVDs do antigo agente do seu marido. Ela olhou pela janela. Lá embaixo, os paramédicos do serviço de emergência da ilha colocavam Rosie e a mãe em uma ambulância, e Grahame Coats em outra.
Tinha sido muito bom chutar o misto de coisa e fera que Grahame Coats se tornara. Foi a coisa mais satisfatória que fizera desde que fora assassinada — mas, se fosse honesta consigo mesma, teria que admitir que dançar com o sr. Nancy era o segundo lugar apenas por pouco. O homem era muito ágil e tinha pés bem leves.
Ela estava cansada.
— Maeve?
— Morris? — Ela olhou ao redor, mas o aposento estava vazio.
— Eu não queria incomodar, caso você ainda estivesse ocupada, querida.
— Isso é muito gentil da sua parte, mas acho que já terminei.
As paredes da biblioteca começavam a desaparecer. Estavam perdendo a cor e a forma. O mundo por trás delas começava a surgir. Sob a luz dele, Maeve viu uma figura pequena esperando por ela.
Sua mão deslizou para a do marido, e ela perguntou:
— Aonde vamos, Morris?
Ele explicou.
— Ah. Bem, vai ser uma mudança agradável. Sempre quis ir para lá.
E, de mãos dadas, eles foram.
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