Os Filhos de Anansi

Neil Gaiman · Capítulo 16 de 23

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Os Filhos de Anansi

Capítulo catorze, que chega a várias conclusões

CAPÍTULO

 

CATORZE

QUE CHEGA

A VÁRIAS

CONCLUSÕES

 

CHARLIE ACORDOU COM alguém batendo à porta. Desorientado, olhou ao redor: estava em um quarto de hotel. Vários acontecimentos improváveis se amontoavam em sua cabeça como mariposas ao redor de uma lâmpada, e, enquanto tentava compreendê-los, deixou que os pés o conduzissem até a porta do quarto. Piscou para o diagrama que informava aonde ir em caso de incêndio, tentando lembrar o que acontecera na noite anterior. Então destrancou a porta e a abriu.

Daisy olhou para ele e perguntou:

— Você dormiu de chapéu?

Charlie ergueu a mão e tocou a cabeça. Estava mesmo de chapéu.

— É — respondeu. — Acho que sim.

— Nossa. Bem, pelo menos tirou os sapatos. Sabia que você perdeu toda a ação ontem à noite?

— Perdi?

— Escove os dentes — sugeriu, solícita. — E troque a camisa. É, perdeu. Enquanto você estava... — Ela hesitou. Pensando bem, parecia bem improvável que ele tivesse desaparecido por causa de um ritual de magia. Essas coisas não acontecem. Não no mundo real. — Enquanto você estava fora, consegui levar o delegado até a casa de Grahame Coats. Ele sequestrou aquelas turistas.

— Turistas...?

— Foi o que ele disse no jantar, alguma coisa sobre termos mandado duas pessoas até lá, as duas mulheres que estavam na casa dele. Eram sua noiva e a mãe dela. Ele as trancou no porão.

— Elas estão bem?

— Estão no hospital.

— Ah.

— O estado da mãe é pior. Acho que sua noiva vai ficar bem.

— Quer parar de chamá-la assim? Rosie não é mais minha noiva. Ela terminou o noivado.

— Sim. Mas você não, não é?

— Ela não me ama — explicou Charlie. — Bem, vou escovar os dentes e trocar de camisa, e preciso de um pouco de privacidade.

— Você também devia tomar um banho. E esse chapéu fede a charuto.

— É uma herança de família.

Ele foi para o banheiro e trancou a porta.

* * *

O hospital ficava a uma caminhada de dez minutos do hotel, e Spider estava sentado na sala de espera segurando um exemplar antigo da Entertainment Weekly como se estivesse realmente interessado na revista.

Charlie deu um tapinha no ombro dele, e Spider levou um susto. Ele ergueu os olhos, desconfiado, mas relaxou um pouco ao ver o irmão.

— Eles disseram que preciso esperar aqui fora. Já que não sou da família nem nada.

Charlie ficou intrigado.

— Ora, por que você não disse que era da família? Ou um médico?

Spider pareceu desconfortável.

— Bem, é fácil fazer essas coisas quando você não se importa. Se não faz diferença eu entrar ou não, aí fica fácil. Mas agora que importa, eu odiaria atrapalhar ou fazer alguma coisa errada. E se, sei lá, eu tentasse e eles negassem, e aí... Do que você está rindo?

— Nada, na verdade. É que isso me parece um pouco familiar. Venha. Vamos encontrar Rosie. — Então se virou para Daisy, quando pegaram um corredor qualquer. — Sabe, há duas maneiras de circular por um hospital. Ou você se passa por alguém que tem todo o direito de estar aqui... Ali, Spider. Vista o jaleco branco atrás da porta, é do seu tamanho... Ou tem que se destacar tanto que ninguém vai reclamar. Vão deixar o problema para outra pessoa.

Ele começou a cantarolar.

— Que música é essa? — perguntou Daisy.

— Chama-se “Yellow Bird” — respondeu Spider.

Charlie enfiou o chapéu na cabeça, e eles entraram no quarto de Rosie.

Ela estava sentada na cama, lendo uma revista com cara de preocupada. Quando viu os três entrarem, pareceu ainda mais preocupada. Rosie olhou de Spider para Charlie, e então de volta para Spider.

— Vocês dois estão muito longe de casa.

— Todos estamos — retrucou Charlie. — Bem, você já conhece o Spider. Esta é Daisy. Ela é da polícia.

— Não tenho certeza se ainda sou — retrucou Daisy. — Devo estar bem encrencada.

— Foi você que apareceu lá, ontem à noite, não foi? Você que levou a polícia da ilha até a casa? — Rosie hesitou. — Alguma notícia de Grahame Coats?

— Ele está na UTI, assim como sua mãe.

— Bem, se mamãe acordar antes dele, espero que mate aquele safado. Eles não me contam nada sobre o estado dela, só falam que é muito sério e que vão me informar assim que tiverem alguma novidade. — Ela olhou para Charlie, parecendo sincera ao acrescentar: — Sabe, ela não é tão má quanto parece. É só dar um tempo para conhecê-la. Nós tivemos muito tempo para conversar, trancadas no escuro. Ela é legal. — Rosie assoou o nariz. — Eles acham que ela não vai resistir. Não disseram com essas palavras, mas meio que deixaram subentendido. É engraçado. Achei que ela sobreviveria a qualquer coisa.

— Eu também — concordou Charlie. — Achava até que, se houvesse uma guerra nuclear, ainda restariam baratas radioativas e sua mãe.

Daisy pisou no pé dele.

— Eles descobriram mais alguma coisa sobre o que a feriu?

— Eu contei a eles. Havia alguma espécie de animal na casa. Talvez fosse só Grahame Coats. Quer dizer, era meio que ele, mas também outra pessoa. Ele estava atrás de mim, mas mamãe o distraiu, e ele foi atrás dela...

Rosie tinha contado o que acontecera com todos os detalhes possíveis para a polícia da ilha naquela manhã. Decidira não falar sobre a loira fantasma. Às vezes as pessoas surtam sobre pressão, e achou melhor não deixar que ninguém soubesse que ela tinha surtado.

Ela parou de falar de repente. Estava encarando Spider como se tivesse acabado de lembrar quem ele era.

— Eu ainda odeio você, sabia? — Spider não respondeu, mas seu rosto foi tomado por uma expressão de extrema tristeza. Ele não parecia mais um médico, e sim um homem que tinha roubado um jaleco de atrás de uma porta e estava preocupado que alguém descobrisse. Um tom onírico surgiu na voz dela. — Só que, quando eu estava no escuro, achei que você estava me ajudando. Que estava mantendo o animal afastado. O que aconteceu com seu rosto? Está todo arranhado.

— Foi um bicho — disse Spider.

— Sabe, agora que estou vendo os dois juntos, vocês não são nada parecidos — comentou Rosie.

— Eu sou mais bonito — disse Charlie, e o pé de Daisy encontrou seus dedos pela segunda vez.

— Ainda bem — murmurou Daisy. E em seguida, um pouco mais alto: — Charlie? Precisamos ir lá fora conversar sobre uma coisa. Agora.

Eles saíram para o corredor, deixando Spider no quarto.

— O quê? — perguntou Charlie.

— O que o quê? — indagou Daisy.

— O que nós temos para conversar?

— Nada.

— Então o que estamos fazendo aqui? Você ouviu. Ela o odeia. Nós não devíamos deixá-los sozinhos. A essa altura, Rosie já o matou.

Daisy olhou para ele com o tipo de expressão que Jesus faria para um fiel que tivesse acabado de explicar que era alérgico a pão e peixes, então será que Ele poderia preparar uma saladinha de frango? Havia pena na expressão, misturada a uma compaixão quase infinita.

Ela levou o indicador aos lábios e o puxou de volta na direção da porta. Charlie olhou para o interior do quarto de hospital: Rosie não parecia estar matando Spider. Muito pelo contrário, aliás.

— Ah.

Eles estavam se beijando. Dizendo assim, daria até para perdoar alguém que pensasse que foi um beijo normal, só lábios, pele e talvez até um pouco de língua. Mas essa descrição deixa de fora a forma como Spider sorria, como seus olhos brilhavam. E, depois, quando se separaram, como suas costas estavam eretas, igualzinho as de um homem que acabara de descobrir a arte de ficar de pé e aprendera a fazê-lo melhor do que qualquer um.

Quando Charlie voltou a atenção para o corredor, viu Daisy conversando com vários médicos e o policial que tinham encontrado na noite anterior.

— Bem, sempre achamos que ele fosse um homem mau — disse o policial para Daisy. — Quer dizer, francamente, só se vê esse tipo de comportamento em estrangeiros. As pessoas da ilha nunca fariam esse tipo de coisa.

— É óbvio que não — concordou Daisy.

— Estamos muito, muito agradecidos. — O delegado deu tapinhas no ombro dela, o que fez Daisy trincar os dentes. — Esta moça salvou a vida daquela mulher — disse a Charlie, dando tapinhas condescendentes em seu ombro também, antes de sair com os médicos pelo corredor.

— Então, o que está acontecendo? — perguntou Charlie.

— Bem, Grahame Coats morreu — respondeu ela. — Mais ou menos. E eles acham que as chances da mãe de Rosie não são nada boas.

— Sei. — Pensou um pouco naquilo. Quando chegou a uma conclusão, disse: — Você se importa se eu falar um pouco com meu irmão? Acho que nós dois precisamos ter uma conversinha.

— Vou voltar para o hotel, de qualquer jeito. Quero conferir meus e-mails. Acho que terei que dar mil desculpas pelo telefone. Descobrir se ainda tenho um emprego.

— Mas você é uma heroína, não é?

— Não acho que era para isso que estavam me pagando — comentou ela, desanimada. — Encontre-me no hotel quando terminar.

Spider e Charlie caminharam pela rua principal de Williamstown sob o sol da manhã.

— Sabe, esse chapéu é mesmo muito legal — disse Spider.

— Acha mesmo?

— Acho. Posso experimentar?

Charlie deu o fedora verde para o irmão, que o botou e olhou para seu reflexo na vitrine de uma loja. Ele fez uma careta e devolveu o chapéu para Charlie.

— Toma — disse, decepcionado. — Fica melhor em você.

Charlie colocou o fedora. Alguns chapéus só podem ser usados se você estiver disposto a ser ousado, a incliná-los em determinado ângulo e caminhar com um andar afetado, quase como se estivesse gingando. Eles exigem muito de você. Aquele chapéu era desse tipo, e Charlie estava à altura dele.

— A mãe de Rosie está morrendo — contou.

— É.

— Eu, na verdade, não gostava nada, nada dela.

— Eu não a conheci tão bem quanto você. Mas com o tempo, tenho certeza de que eu também não teria gostado nada, nada dela.

— Temos que tentar salvar a vida dela, não é? — perguntou Charlie, sem entusiasmo, como alguém observando que estava na hora de fazer uma visita ao dentista.

— Acho que não conseguimos fazer esse tipo de coisa.

— Nosso pai fez algo assim pela mamãe. Ele conseguiu fazê-la melhorar por um tempo.

— Mas isso era ele. Eu não sei como a gente faria isso.

— O lugar no fim do mundo. O das cavernas.

— O início do mundo, não o fim. O que tem ele?

— Nós podemos ir até lá? Sem toda aquela parafernália de velas e ervas?

Spider ficou quieto. Então assentiu.

— Acho que sim.

Eles se viraram juntos, em uma direção que normalmente não existia, e caminharam para longe da rua principal de Williamstown.

Agora o sol estava alto no céu, e Charlie e Spider caminhavam por uma praia cheia de crânios. Não eram crânios exatamente humanos, e cobriam a praia como seixos amarelos. Charlie os evitava quando podia, enquanto Spider os esmagava ao passar. No fim da praia, pegaram uma entrada à esquerda — que era à esquerda de absolutamente tudo —, e as montanhas do início do mundo se assomaram acima deles, e os penhascos, abaixo.

Charlie lembrou-se da última vez que estivera ali. Parecia fazer mil anos.

— Onde está todo mundo? — perguntou em voz alta, e sua voz ecoou nas rochas e voltou até ele, que disse mais alto: — Olá?

E lá estavam eles, observando-o. Agora pareciam maiores, mais animais do que humanos, mais selvagens. Ele percebeu que os vira como pessoas da última vez porque esperara encontrar pessoas. Mas eles não eram gente. Enfileirados na rocha acima de Charlie e Spider estavam o Leão e o Elefante, o Crocodilo e a Cobra, o Coelho e o Escorpião, e o restante deles, centenas, que o encaravam com olhares sérios: animais que reconhecia e animais que ninguém vivo conseguiria identificar. Todos os animais que já existiram em histórias e com os quais as pessoas já sonharam, que adoraram ou que domesticaram.

Charlie viu todos eles.

Uma coisa é cantar para salvar a própria pele em um salão cheio de gente jantando, no calor do momento, com o cano de uma arma na barriga da garota que você...

Que você...

Ah. Bem, pensou Charlie. Posso me preocupar com isso depois.

Naquele momento, ele se segurava para não hiperventilar e nem sair correndo.

— Deve haver centenas deles — comentou Spider, e havia assombro em sua voz.

Perceberam um movimento no ar sobre uma rocha próxima, que se mostrou ser a mulher-pássaro. Ela cruzou os braços e os encarou.

— Seja lá o que você vai fazer — disse Spider ao irmão —, é melhor começar logo. Eles não vão ficar esperando para sempre.

A boca de Charlie estava seca.

— Certo.

— Então. Hã. O que exatamente vamos fazer agora?

— Vamos cantar para eles.

— O quê?

— Só assim poderemos consertar as coisas. Eu descobri. Nós vamos cantar tudo o que aconteceu, você e eu.

— Eu não entendo. Cantar o quê?

— A canção — disse Charlie. — Você canta a canção, você conserta as coisas. — Agora ele soava desesperado. — A canção.

Os olhos de Spider pareciam poças de chuva, e Charlie viu neles coisas que não tinha visto antes: afeição, talvez, e confusão, mas principalmente arrependimento.

— Não sei do que você está falando.

O Leão olhou para eles pela borda de uma saliência na rocha. O Macaco os observava do alto de uma árvore. E o Tigre...

Charlie viu o Tigre. Ele andava devagar sobre as quatro patas. A cara estava inchada e machucada, mas havia um brilho em seus olhos, e ele parecia que ficaria mais do que feliz em dar o troco nos dois.

Charlie abriu a boca, mas tudo que conseguiu emitir foi um coaxar rouco, como se ele tivesse acabado de engolir uma rã bem nervosa.

— Não adianta — sussurrou para Spider. — Essa foi uma ideia idiota, não foi?

— Foi.

— Acha que podemos simplesmente ir embora de novo?

O olhar nervoso de Charlie varreu a encosta e as cavernas, assimilando cada uma das centenas de criaturas, totens anteriores à criação do mundo. Havia uma figura que ele não vira da última vez: um homem pequeno com luvas cor de lima, um bigode fino e sem o chapéu fedora para cobrir o cabelo rareando.

Quando seus olhares se encontraram, o velho piscou.

Não era muito, mas era o suficiente.

Charlie encheu os pulmões e começou a cantar.

— Eu sou Charlie — cantou. — Sou filho de Anansi. Ouçam enquanto canto minha canção. Ouçam enquanto canto minha vida.

E ele cantou a canção de um menino que era metade deus e que foi dividido em dois por uma velha com raiva. Cantou sobre o pai, e cantou sobre a mãe.

Cantou sobre nomes e palavras, sobre os alicerces da realidade, os mundos que formam mundos, as verdades por trás de como as coisas são. Cantou sobre destinos adequados e conclusões justas para aqueles que teriam ferido a ele e aos seus.

Ele cantou o mundo.

Era uma canção boa, e era sua canção. Às vezes tinha palavras, às vezes não se ouvia palavra alguma.

Enquanto cantava, todas as criaturas presentes começaram a acompanhar batendo as mãos e os pés e cantarolando. Charlie se sentiu como o fio condutor de uma canção maior que englobava a todos. Cantou sobre as aves, sobre a magia de olhar para o alto e vê-las em voo, sobre o brilho de uma pena ao sol da manhã.

Os totens agora dançavam as danças de suas espécies. A mulher-pássaro dançava a dança giratória das aves, exibindo as penas da cauda e jogando o bico para trás.

Apenas uma criatura não dançava na encosta.

O Tigre agitava a cauda. Ele não batia palmas, cantava ou dançava. Estava com o rosto cheio de hematomas e o corpo coberto de ferimentos e marcas de picadas. Tinha descido pelas rochas sem fazer barulho, um passo de cada vez, até chegar perto de Charlie.

— As canções não pertencem a você — rosnou.

Charlie olhou para ele e cantou sobre o Tigre, sobre Grahame Coats e sobre aqueles que se aproveitavam de inocentes. Ele se virou: Spider encarava o irmão com admiração. O Tigre rugiu de raiva, e Charlie pegou o rugido e teceu a canção ao redor dele. Então ele mesmo soltou um rugido igual ao do Tigre. Bem, o rugido começou igual ao do Tigre, mas aí Charlie o mudou e o transformou em uma espécie de rugido engraçado, e todas as criaturas que observavam das rochas começaram a rir. Não conseguiram evitar. Charlie fez o rugido pateta de novo. Como toda imitação, como toda caricatura perfeita, teve o efeito de tornar aquilo do qual se fazia graça intrinsecamente ridículo. Ninguém jamais ouviria o rugido do Tigre outra vez sem lembrar da imitação de Charlie. “Mas que rugido pateta”, diriam.

O Tigre deu as costas para Charlie. Ele saiu desabalado pelo meio da multidão, rugindo enquanto corria, o que só fez todos rirem ainda mais. O Tigre voltou para sua caverna, irritadíssimo.

Spider fez um movimento rápido com a mão.

Houve um estrondo, e a entrada da caverna do Tigre desmoronou e ficou coberta de rochas. Spider pareceu satisfeito. Charlie continuou a cantar.

Ele cantou a canção de Rosie Noah e a canção da mãe de Rosie: cantou uma vida longa para a sra. Noah e toda a felicidade que ela merecia.

Cantou sobre sua vida, sobre a vida de todos. Na canção, imaginou o padrão daquelas vidas como uma teia com uma mosca presa. Então envolveu a mosca com sua canção, assegurou-se de que ela não poderia escapar e remendou a teia com novos fios.

E agora a canção estava chegando ao fim.

Charlie percebeu, com grande surpresa, que gostava de cantar para os outros, e descobriu naquele momento que era isso que queria passar o resto da vida fazendo. Iria cantar: não canções grandes e mágicas que criavam mundos ou recriavam a existência. Apenas pequenas canções que fariam as pessoas felizes: que as fariam dançar e, por algum tempo, se esquecer de seus problemas. E soube que sempre sentiria medo antes de se apresentar, o medo do palco nunca desapareceria, mas também entendeu que seria como pular em uma piscina, o desconforto da água fria só duraria alguns segundos, depois se sentiria bem...

Mas nunca tão bem assim. Nunca bem daquele jeito outra vez. Mas bem o suficiente.

E então, a canção terminou. Charlie baixou a cabeça. As criaturas no alto do penhasco ecoaram as últimas notas, pararam de bater os pés, pararam de bater palmas, pararam de dançar. Charlie tirou o chapéu fedora verde do pai e abanou o rosto com ele.

— Isso foi incrível — murmurou Spider.

— Você também podia ter feito a mesma coisa — afirmou Charlie.

— Acho que não. O que aconteceu no fim? Eu senti você fazendo alguma coisa, mas não consegui entender exatamente o que era.

— Eu resolvi as coisas para nós — disse Charlie. — Eu acho. Não tenho muita certeza... — E não tinha mesmo. Agora que a canção terminara, seu conteúdo começara a desaparecer como um sonho pela manhã.

Ele apontou para a entrada da caverna que estava bloqueada pelas rochas.

— Você fez isso?

— Sim — disse Spider. — Era o mínimo que eu podia fazer. Mas o Tigre vai acabar cavando uma saída. Para ser sincero, eu queria ter feito algo pior do que só bater a porta na cara dele.

— Não precisa se preocupar — disse Charlie. — Eu fiz algo muito pior.

Ele observou os animais se dispersarem. O pai deles não estava em nenhum lugar à vista, o que não o surpreendeu.

— Vamos — disse a Spider. — Temos que voltar.

* * *

Spider voltou para ver Rosie no horário de visita. Levava uma grande caixa de chocolates, a maior que a lojinha do hospital tinha.

— Para você — disse.

— Obrigada. Os médicos falaram que acham que minha mãe vai se recuperar. Parece que ela acordou e pediu mingau. Dizem que é um milagre.

— É. Sua mãe pedir comida. Para mim, parece mesmo um milagre.

Rosie deu um tapinha no braço dele, em seguida deixou a mão repousando ali. Após algum tempo, disse:

— Sabe, você vai achar bobagem, mas quando eu estava no escuro com minha mãe, achei que você estava me ajudando. Senti que você mantinha a fera afastada. Que se você não estivesse lá, ela teria nos matado.

— Hum, eu provavelmente ajudei.

— Sério?

— Não sei. Acho que sim. Eu também estava encrencado, e pensei em você.

— Você estava muito encrencado?

— Bastante. Sim.

— Pode me servir um copo d’água, por favor?

Ele serviu.

— Spider, o que você faz?

— Faço?

— Seu trabalho.

— Qualquer coisa que me dê vontade.

— Talvez eu fique na ilha por um tempo — disse Rosie. — As enfermeiras me disseram que estão precisando muito de professores aqui. Eu gostaria de saber que estou fazendo a diferença.

— Isso pode ser divertido.

— E o que você faria, se eu ficasse?

— Ah. Bem, se você ficasse aqui, eu com certeza poderia arranjar alguma coisa para me ocupar.

Seus dedos se entrelaçaram, apertados como um nó de marinheiro.

— Acha que podemos fazer isso funcionar? — perguntou ela.

— Acho que sim — respondeu Spider, sério. — E se ficar entediado com você, eu simplesmente vou embora e faço outra coisa. Por isso, não se preocupe.

— Ah, não estou nem um pouco preocupada.

E não estava mesmo. Havia determinação em sua voz, por baixo da ternura. Dava para perceber de onde a mãe de Rosie tirara a dela.

* * *

Charlie encontrou Daisy em uma espreguiçadeira na praia. Pensou que ela tivesse dormido pegando sol. Quando sua sombra a tocou, ela disse, sem abrir os olhos:

— Oi, Charlie.

— Como você soube que era eu?

— Seu chapéu fede a charuto. Quando vai se livrar dele?

— Não vou — respondeu Charlie. — Já disse. É uma herança de família. Pretendo usá-lo até morrer, depois deixá-lo para meus filhos. Então, você ainda tem um emprego na polícia?

— Mais ou menos. Meu chefe disse que concluíram que eu estava estressada devido ao excesso de trabalho, e estou de licença médica até me sentir bem o suficiente para voltar.

— Ah, e quando vai ser isso? — indagou Charlie.

— Não tenho certeza. Você pode me passar o bronzeador?

Charlie trazia uma caixinha no bolso. Ele a pegou e a pôs sobre o braço da espreguiçadeira.

— Só um minutinho. Hã. — Ele fez uma pausa. — Sabe, nós já passamos por essa grande situação embaraçosa uma vez sob a mira de uma arma. — Ele abriu a caixa. — Mas quero lhe dar isso. Bem, Rosie o devolveu para mim. E podemos trocar por um de que você goste. Um diferente. Esse provavelmente nem vai caber. Mas é seu. Se você quiser. E, bem, me quiser.

Ela estendeu a mão e pegou o anel de noivado.

— Humph. Está bem. Desde que você não esteja fazendo isso só para pegar seu limão de volta.

* * *

O Tigre estava à espreita. A cauda balançava de um lado para outro com irritação enquanto andava para cima e para baixo na entrada de sua caverna. Seus olhos ardiam como tochas cor de esmeralda nas sombras.

— O mundo inteiro e todas as coisas me pertenciam — disse o Tigre. — A lua, as estrelas, o sol e as histórias. Eu possuía todos eles.

— Sinto que é meu dever lhe informar que você já disse isso — observou uma vozinha no fundo da caverna.

O Tigre parou de andar, virou-se e adentrou mais a caverna, eriçando o pelo como um tapete de pele sobre molas hidráulicas. Ele caminhou em silêncio até o fundo, até chegar à carcaça de um boi, e disse, em voz baixa:

— Como é?

Ele ouviu um arranhar no interior da carcaça. A ponta de um focinho projetou-se para fora da caixa torácica.

— Na verdade, eu estava, por assim dizer, concordando com você. Era isso o que eu estava fazendo.

Pequenas mãos brancas arrancaram uma tira fina de carne ressecada de entre duas costelas, revelando um animalzinho da cor de neve suja. Podia ser um mangusto albino ou talvez alguma espécie de fuinha particularmente astuta em sua pelagem de inverno. Tinha olhos de bicho carniceiro.

— O mundo inteiro e todas as coisas me pertenciam. A lua, as estrelas, o sol e as histórias. Eu possuía tudo — imitou a fuinha. Então acrescentou: — E tudo teria sido meu de novo.

O Tigre encarou o pequeno animal. Sem aviso, uma pata enorme desceu sobre o boi morto destroçando as costelas, quebrando a carcaça em fragmentos fedorentos, prendendo a fuinha contra o chão. O animalzinho se debateu e contorceu, mas não conseguiu escapar.

— Você está aqui porque eu permito — disse o Tigre, com a cabeça enorme a poucos centímetros da cabecinha do animal pálido. — Entendeu? Da próxima vez que disser algo irritante, vou arrancar sua cabeça.

— Uhummph — falou a coisa que parecia uma fuinha.

— Você não ia gostar se eu arrancasse seu couro, ia?

— Nnghão — respondeu o animalzinho. Os olhos dele eram de um azul pálido, como lascas de gelo, e brilhavam enquanto ele se contorcia sob o peso da enorme pata.

— Então você promete que vai se comportar e ficar quieto? — rosnou o Tigre.

Ele ergueu um pouco a pata para permitir que o animal respondesse.

— Sem dúvida — disse a coisa branca e pequena, com muita educação.

Então, com um movimento traiçoeiro, ele girou a cabeça e afundou os dentinhos afiados na pata do Tigre. A fera berrou de dor, puxou a pata e arremessou o animalzinho pelo ar. O bichinho quicou no teto de pedra, caiu em uma saliência e disparou, como um raio esbranquiçado, bem para o fundo da caverna, onde o teto era mais baixo e havia muitos esconderijos para um animal pequeno, lugares que um animal maior não podia alcançar.

O Tigre avançou o máximo que pôde para o fundo da caverna.

— Acha que não posso esperar? — perguntou. — Cedo ou tarde, você vai ter que sair, e eu não vou a lugar algum.

O Tigre se deitou. Fechou os olhos e logo começou a fazer ruídos de ronco bem convincentes.

Após cerca de meia hora de roncos do Tigre, o animal pálido saiu das rochas sem fazer barulho e deslizou de sombra em sombra, tentando alcançar um osso grande que ainda tinha bastante carne boa, bastava ignorar o fedor, e ele ignorava. Mesmo assim, para isso, o pequeno animal teria que passar pela grande fera. Ele se escondeu nas sombras, então arriscou sair com as patinhas silenciosas.

Ao passar pelo bicho adormecido, uma das patas dianteiras do Tigre se projetou e as garras fincaram a cauda da criatura no chão. A outra pata o segurou pelo pescoço. O grande felino abriu os olhos.

— Pelo jeito, parece que estamos presos um ao outro. Por isso, tudo o que peço é que você faça um esforço. Nós dois podemos fazer um esforço. Duvido muito que fiquemos amigos um dia, mas talvez possamos aprender a nos tolerar.

— Entendo o que quer dizer — retrucou a fuinha. — Nada como um dia após o outro.

— Isso é um exemplo do que estou falando — explicou o Tigre. — Você só precisa aprender a calar a boca.

— Em boca fechada não entra mosca — concordou o animalzinho.

— Agora você está me irritando de novo — avisou o Tigre. — Estou lhe avisando: se me irritar, arranco seu couro.

— Você insiste em falar “arrancar meu couro”. Agora, quando diz “arrancar meu couro”, imagino que isso, na verdade, seja alguma espécie de metáfora, sugerindo que você vá gritar comigo, talvez com muita raiva, não?

— Vou arrancar seu couro. Depois mastigá-lo. Depois engoli-lo — explicou o Tigre. — Nenhum de nós pode sair até o filho de Anansi esquecer que estamos aqui. Do jeito que aquele desgraçado parece ter armado as coisas, mesmo se eu matar você pela manhã, provavelmente vai ter reencarnado de volta nesta maldita caverna no fim da tarde. Por isso, não me irrite.

O pequeno animal albino disse:

— Ah, bem, cada macaco...

— Se você falar “no seu galho” — interrompeu o Tigre —, vou ficar irritado, e haverá graves consequências. Não. Diga. Nada. Irritante. Consegue fazer isso?

Houve um breve silêncio na caverna no fim do mundo. Ele foi rompido por uma vozinha de fuinha dizendo:

— Claro que de jeito nenhum.

A fuinha começou a dizer “Aiiii!”, mas o ruído foi silenciado de um jeito bem repentino e eficiente.

Em seguida, na caverna, ouvia-se apenas o som de mastigação.

* * *

Se há uma coisa que os livros não contam sobre caixões — porque, francamente, não é um grande argumento de venda para as pessoas que vão comprá-lo — é o quão confortáveis eles são.

O sr. Nancy estava muito satisfeito com seu caixão. Agora que toda a animação terminara, ele voltara ao caixão e cochilava confortavelmente. De vez em quando, acordava e lembrava onde estava, então rolava para o lado e voltava a dormir.

Como dizia o poeta, a cova é um belo recanto, sem mencionar íntimo, e por isso um ótimo local para descansar. Sete palmos abaixo da terra, o melhor lugar que existe. Anansi achava que só teria que começar a pensar em acordar em uns vinte anos, mais ou menos.

Ele abriu um olho quando o funeral começou.

Podia ouvi-los na superfície: Callyanne Higgler, a sra. Bustamonte e a outra, a magra, além de uma pequena horda de netos, bisnetos e tataranetos, todos suspirando, lamentando e se debulhando em lágrimas pela falecida sra. Dunwiddy.

O sr. Nancy pensou em enfiar uma mão para fora da terra e agarrar o tornozelo de Callyanne Higgler. Era algo que tinha vontade de fazer desde que vira Carrie, a Estranha em um cinema drive-in, trinta anos antes, mas, agora que a oportunidade se apresentava, conseguiu resistir à tentação. Na verdade, não queria se dar ao trabalho. Ela iria gritar, ter um ataque cardíaco e morrer, e então o maldito Memorial Jardim do Repouso ficaria ainda mais cheio do que já era.

Além disso, daria muito trabalho. Havia bons sonhos para serem sonhados no mundo sob a terra. Vinte anos, pensou. Talvez vinte e cinco. A essa altura, ele talvez até tivesse netos. É sempre interessante saber que cara têm os netos.

Podia ouvir Callyanne Higgler chorando copiosamente acima dele. Então ela parou de soluçar por tempo suficiente para anunciar:

— Bem, não é que ela não tenha vivido uma vida longa e boa. A mulher tinha cento e três anos quando morreu.

— Cento e quatro! — exclamou uma voz irritada, vinda de debaixo da terra, ao lado dele.

O sr. Nancy estendeu um braço imaterial e bateu com força no exterior do caixão novo.

— Fale mais baixo, mulher — reclamou. — Tem gente aqui querendo dormir.

* * *

Rosie deixou bem claro para Spider que esperava que ele arranjasse um emprego fixo, do tipo que envolvia acordar de manhã e ir para algum lugar.

Por isso, certa manhã, um dia antes de Rosie receber alta do hospital, Spider acordou cedo e foi até a biblioteca da cidade. Acessou o computador do lugar, conectou-se à internet e, com muito cuidado, limpou todas as contas bancárias restantes de Grahame Coats. Aquelas que as polícias de vários continentes ainda não tinham conseguido encontrar. Ele vendeu o haras na Argentina, comprou uma pequena empresa já existente, aplicou o dinheiro nela e deu entrada no pedido para transformá-la em uma organização de caridade. Enviou um e-mail, em nome de Roger Bronstein, contratando um advogado para administrar os negócios da fundação e sugeriu a ele que talvez fosse uma ótima ideia entrar em contato com a srta. Rosie Noah, nativa de Londres, que atualmente residia em Saint Andrews, e contratá-la para a parte filantrópica.

Rosie foi contratada. Sua primeira tarefa foi procurar um escritório.

Depois disso, Spider passou quatro dias inteiros caminhando (e, à noite, dormindo) na praia que circundava a maior parte da ilha, provando a comida de todos os restaurantes que encontrava pelo caminho, até chegar à Barraquinha de Peixe do Dawson. Ele experimentou o peixe-voador frito, os figos verdes cozidos, o frango grelhado e a torta de coco, depois visitou a cozinha e conheceu o chef, que era também o proprietário, e lhe ofereceu um monte de dinheiro pela sociedade e por aulas de culinária.

A Barraquinha de Peixe do Dawson virou um restaurante, e o sr. Dawson se aposentou. Às vezes, Spider fica no salão do restaurante, às vezes na cozinha: se for lá procurar por ele, você vai encontrá-lo. A comida é a melhor da ilha. Ele está mais gordo do que antes, apesar de não tão gordo quanto ficará se continuar a provar tudo o que cozinha.

Não que Rosie se importe.

Ela dá aulas, faz trabalho voluntário e muita caridade e, se às vezes sente falta de Londres, não demonstra. A mãe de Rosie, por outro lado, sente falta de Londres o tempo todo e reclama bastante, mas interpreta toda sugestão de voltar para lá como uma tentativa de afastá-la de seus netos ainda não nascidos (e, por sinal, ainda não concebidos).

Nada daria a este autor maior prazer do que poder garantir ao leitor que, após seu retorno do vale da sombra da morte, a mãe de Rosie tivesse se tornado uma nova pessoa, uma mulher alegre e gentil com todos, cujo apetite recém-adquirido por comida só fosse igualado ao apetite pela vida e tudo o que ela tivesse para oferecer. Mas o respeito pela verdade me obriga a ser honesto, e a verdade é que, quando recebeu alta do hospital, a mãe de Rosie ainda era ela mesma, desconfiada e egoísta como sempre, apesar de significativamente mais frágil e dada a dormir com a luz acesa.

Ela anunciou que iria vender o apartamento em Londres e se mudar para qualquer lugar no mundo onde Rosie e Spider fossem, para ficar perto dos netos. E, com o passar do tempo, ela começou a soltar comentários ácidos sobre a ausência de netos, a quantidade e qualidade dos espermatozoides de Spider, a frequência e as posições das relações sexuais dos dois e a facilidade da fertilização in vitro hoje em dia, que nem era um procedimento tão caro assim. Chegou ao ponto de Spider considerar seriamente não ir mais para a cama com Rosie só para irritar a mãe dela. Ele pensou sobre isso por uns onze segundos na tarde em que a mãe de Rosie entregou a eles fotocópias do artigo de uma revista qualquer que sugeria que Rosie devia plantar bananeira por meia hora depois do sexo. Spider chegou a mencionar a ideia para Rosie na mesma noite, mas ela riu e disse que a mãe não tinha permissão de entrar no quarto deles, e que ela não ia plantar bananeira depois de fazer amor por nada neste mundo.

A sra. Noah tem um apartamento em Williamstown, perto da casa de Rosie e Spider. Duas vezes por semana, uma das muitas sobrinhas de Callyanne vai até a casa para ver como ela está, passa o aspirador, tira o pó das frutas de vidro (as de cera derretiam com o calor da ilha), prepara um pouco de comida e a deixa na geladeira. Às vezes a mãe de Rosie come, outras vezes, não.

* * *

Charlie é cantor hoje em dia. Ele perdeu bastante peso, e agora é um homem magro cuja marca registrada é um chapéu fedora. Ele tem vários fedoras em cores variadas, mas seu favorito é o verde.

Charlie tem um filho. O nome dele é Marcus. O menino tem quatro anos e meio e possui aquele tipo de seriedade e sisudez que apenas crianças pequenas e gorilas conseguiram dominar.

Ninguém mais chama Charlie de “Fat Charlie”, e, honestamente, às vezes ele sente falta disso.

Era uma manhã de verão, e já estava claro lá fora. Podia ouvir barulhos vindos do quarto ao lado. Charlie deixou Daisy dormir. Levantou da cama em silêncio, pegou uma camiseta e uns shorts e foi até a porta ao lado para encontrar o filho pelado no chão, brincando com um trenzinho de madeira. Juntos, colocaram as camisetas, os shorts e os chinelos. Charlie botou um chapéu, e os dois caminharam até a praia.

— Papai? — O rosto do menino estava sério, e ele parecia refletindo muito sobre alguma coisa.

— O que foi, Marcus?

— Quem foi menos presidente?

— Você quer dizer o pior?

— Não. Em dias. Quem ficou menos tempo?

— Harrison. Ele pegou pneumonia no dia da posse e morreu. Foi presidente por quarenta e poucos dias, e passou a maior parte deles morrendo.

— E quem ficou mais tempo?

— Franklin Delano Roosevelt. Ele cumpriu três mandatos completos. Morreu no cargo durante o quarto. Vamos deixar nossos chinelos aqui.

Eles colocaram os chinelos em uma pedra e continuaram andando na direção das ondas, com os pés afundando na areia molhada.

— Como você sabe tanto sobre presidentes?

— Porque, quando eu era pequeno, meu pai achou que seria bom eu aprender sobre eles.

— Ah.

Eles entraram no mar e foram caminhando na direção de uma rocha que só ficava descoberta durante a maré baixa. Após um tempo, Charlie pegou o menino no colo e o colocou nos ombros.

— Papai?

— O que foi, Marcus?

— Petúnia disse que você é famoso.

— E quem é Petúnia?

— Da escolinha. Ela disse que a mãe dela tem todos os seus CDs. E que adora ouvir você cantando.

— Ah.

— Você é famoso?

— Na verdade, não. Só um pouquinho. — Ele tirou Marcus dos ombros e o pôs em cima da rocha antes de subir nela também. — Está bem. Pronto para cantar?

— Estou.

— O que você quer cantar?

— Minha música favorita.

— Não sei se ela vai gostar dessa.

— Vai, sim.

Marcus tinha uma certeza inabalável.

— Está bem. Um, dois, três...

Eles cantaram “Yellow Bird” juntos, que era a música favorita de Marcus naquela semana, e depois cantaram “Zombie Jamboree”, que era a segunda favorita, e “She’ll Be Coming Round the Mountain”, a terceira favorita. Marcus, que tinha olhos melhores do que os de Charlie, avistou-a quando cantavam os estrofes finais de “She’ll Be Coming Round the Mountain” e começou a acenar.

— Olha ela lá, pai.

— Tem certeza?

A névoa da manhã transformava o mar e o céu no mesmo borrão pálido, e Charlie apertou os olhos para o horizonte.

— Não vejo nada.

— Ela mergulhou. Já, já vai estar aqui.

Charlie ouviu um barulho na água, e ela emergiu logo abaixo deles. Com um impulso, um giro e uma sacudidela, sentou-se na rocha ao lado dos dois; a cauda prateada ainda mergulhada no Atlântico, e as gotas de água nas escamas brilhando ao sol. Ela tinha o cabelo acobreado e comprido.

Então, os três cantaram juntos: o homem, o menino e a sereia. Eles cantaram “The Lady Is a Tramp” e “Yellow Submarine”, e depois Marcus ensinou à sereia a letra da canção de abertura dos Flintstones.

— Ele parece você quando era pequeno — comentou a sereia, com Charlie.

— Você me conheceu nessa época?

Ela sorriu.

— Antigamente, você e seu pai costumavam caminhar pela praia. Ele era um cavalheiro, sempre muito gentil. — Ela suspirou. As sereias suspiram melhor que qualquer um. — Vocês deviam voltar. A maré está subindo.

Ela jogou o cabelo comprido para trás e mergulhou no oceano. Ergueu a cabeça acima das ondas, levou a ponta dos dedos aos lábios e mandou um beijo para Marcus, antes de desaparecer sob as águas.

Charlie colocou o filho nos ombros e caminhou de volta à praia, onde o menino desceu para a areia. Ele tirou o velho chapéu fedora e o pôs na cabeça do filho. Era grande demais para o menino, mas mesmo assim ele sorriu.

— Ei, quer ver uma coisa legal? — perguntou Charlie.

— Tudo bem. Mas quero tomar café da manhã. Panquecas. Não, quero mingau de aveia. Não, quero panquecas.

— Preste atenção.

Charlie começou a dançar com os pés descalços uma espécie de sapateado arrastado pela areia.

— Eu também consigo fazer isso — disse Marcus.

— É mesmo?

— Olhe só, papai.

Ele também conseguia.

Juntos, o homem e o menino dançaram pela areia até chegarem em casa, cantando uma canção sem letra que inventaram pelo caminho. Ela permaneceu no ar mesmo depois que os dois entraram para tomar o café da manhã.

 

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