Os Filhos de Anansi
Capítulo doze, no qual Fat Charlie faz várias coisas pela primeira vez
CAPÍTULO
DOZE
NO QUAL
FAT CHARLIE
FAZ VÁRIAS
COISAS PELA
PRIMEIRA VEZ
O HOTEL DOLPHIN tinha um concierge. Era um jovem de óculos que lia um romance com uma rosa e uma pistola na capa.
— Estou procurando uma pessoa — explicou Fat Charlie. — Ela está aqui na ilha.
— Quem?
— Uma senhora chamada Callyanne Higgler. Ela veio da Flórida. É uma velha amiga da família.
O rapaz fechou o livro, pensativo, então estreitou os olhos e encarou Fat Charlie. Quando as pessoas fazem isso em romances baratos, dá a impressão inquietante de alerta e perigo, mas na verdade aquilo só fazia parecer que o rapaz lutava contra o sono. Então ele perguntou:
— Você é o cara que tem um limão?
— O quê?
— O cara que tem um limão?
— Sim, acho que sou sim.
— Ah, posso dar uma olhada?
— No meu limão?
O rapaz assentiu, muito sério.
— Não, não pode. Está no meu quarto.
— Mas você é o cara que tem um limão.
— Você pode me ajudar a encontrar a sra. Higgler? Existe algum Higgler aqui na ilha? O hotel tem alguma lista telefônica que eu possa consultar? Eu esperava encontrar um catálogo telefônico no quarto.
— É um sobrenome meio comum, sabe? — explicou o rapaz. — A lista telefônica não vai ajudar.
— Mas é tão comum assim?
— Bem... Por exemplo, eu me chamo Benjamin Higgler. Está vendo aquela moça na recepção? O nome dela é Amelia Higgler.
— Ah. Certo. Muitos Higglers na ilha. Entendi.
— Ela veio para o festival de música?
— O quê?
— Vai durar a semana toda.
O homem lhe ofereceu um folheto, informando que Willie Nelson (CANCELADO) seria a principal atração do Festival de Música de Saint Andrews.
— Por que ele cancelou?
— Pelo mesmo motivo de Garth Brooks. Eles nem sabem que o festival existe, para começo de conversa.
— Acho que ela não veio para o festival. Preciso muito encontrá-la. Estou atrás de uma coisa que está com ela. Bem, se você fosse eu, como a procuraria por aqui?
Benjamin Higgler abriu uma gaveta no balcão e pegou um mapa da ilha.
— Estamos aqui, ao sul de Williamstown... — começou, marcando o papel com uma caneta hidrográfica.
A partir do ponto inicial, traçou um plano de exploração para Fat Charlie: dividiu a ilha em segmentos que um homem de bicicleta poderia cobrir sem dificuldade em um dia, marcou cada café e cada bar típico da região com pequenas cruzes. Fez uma bolinha ao lado das atrações turísticas.
Depois alugou uma bicicleta para Fat Charlie.
E ele saiu pedalando rumo ao sul.
Havia uma rede de informações em Saint Andrews que Fat Charlie — que, de certa forma, acreditava que coqueiros e celulares eram mutuamente exclusivos — não esperara encontrar. Não parecia fazer muita diferença com quem ele falava. Podiam ser os velhos jogando damas na sombra; as mulheres de seios do tamanho de melancias, bundas do tamanho de poltronas e risadas de tordo; a moça simpática na agência de turismo; ou o rastafári barbudo usando uma boina de crochê verde, vermelha e amarela e o que parecia ser uma minissaia de lã: todos reagiam do mesmo jeito.
— Você é o cara que tem um limão?
— Acho que sim.
— Mostre o limão.
— Está no hotel. Olha, estou procurando Callyanne Higgler. Ela deve ter uns sessenta anos. Americana. Sempre tem uma enorme caneca de café na mão.
— Nunca ouvi falar.
Fat Charlie logo descobriu que andar de bicicleta pela ilha tinha seus perigos. O principal meio de transporte ali eram as vans. Clandestinas, inseguras e sempre superlotadas, elas corriam pela ilha como loucas, buzinando e rangendo os freios, entrando nas curvas tão depressa que o carro ficava sobre duas rodas, mas confiavam no peso dos passageiros para garantir que não capotassem. Fat Charlie teria morrido umas dez vezes logo na primeira manhã, não fosse a batida do baixo e da bateria que todas tocavam no máximo. Podia senti-la na boca do estômago antes mesmo de escutar os motores, e tinha tempo o bastante para desviar a bicicleta para o acostamento.
Embora nenhuma das pessoas com quem falou foi bem o que se pode chamar de prestativa, todas foram extremamente simpáticas. Fat Charlie parou várias vezes durante a expedição daquele dia, para o sul, e encheu a garrafa de água. Parava em cafeterias e em casas particulares. Todos ficavam muito satisfeitos ao vê-lo, mesmo que não tivessem qualquer informação sobre a sra. Higgler. Ele voltou ao hotel Dolphin a tempo do jantar.
No dia seguinte, foi para o norte. No fim da tarde, quando voltava para Williamstown, parou no topo de um penhasco, desmontou da bicicleta e foi com ela até o portão de uma casa luxuosa que se erguia solitária acima da baía. Apertou o botão do interfone e tentou falar, mas ninguém respondeu. Um carro preto e grande estava parado na entrada. Fat Charlie pensou na possibilidade de o lugar estar deserto, mas viu alguém mexer na cortina em um dos quartos do segundo andar.
Apertou o botão outra vez.
— Alô — disse. — Eu só queria saber se posso encher minha garrafa de água aqui.
Ninguém respondeu. Talvez tivesse apenas imaginado que alguém estivesse na janela. Parecia muito propenso a imaginar coisas naquele lugar: começou a sentir que era observado, mas não por alguém na casa, e sim por alguém ou alguma coisa nos arbustos que margeavam a estrada.
— Desculpe o incômodo — anunciou para o interfone e montou outra vez na bicicleta. Era só descida dali até Williamstown. Tinha certeza de que passaria por uma ou duas lanchonetes no caminho, ou por alguma casa mais amistosa.
Estava descendo a estrada — os penhascos haviam se transformado em uma colina íngreme até o mar — quando um carro preto se aproximou por trás e acelerou, rugindo. Fat Charlie percebeu tarde demais que não fora visto pelo motorista, pois o veículo passou raspando no guidom, e ele desabou morro abaixo com a bicicleta. O carro preto seguiu em frente.
Fat Charlie conseguiu se recuperar na metade da descida.
— Nossa, podia ter sido um acidente feio — comentou em voz alta.
O guidom estava torto. Ele empurrou a bicicleta morro acima, de volta para a estrada. A vibração grave e surda de um baixo o alertou da aproximação de uma van, e Fat Charlie fez sinal para que ela parasse.
— Posso botar a bicicleta lá atrás?
— Não tem espaço — retrucou o motorista, mas puxou algumas cordas de debaixo do assento para prender a bicicleta no teto do carro. Em seguida, sorriu.
— Você deve ser o inglês que tem um limão.
— Não está comigo. Deixei no hotel.
Fat Charlie se apertou dentro da van, onde o som estrondoso do baixo conseguiu se transformar, contra todas as probabilidades, em “Smoke on the Water”, do Deep Purple. Ele se apertou ao lado de uma mulher gorda carregando uma galinha no colo. Atrás deles, duas garotas brancas conversavam sobre as festas que tinham ido na noite anterior e os defeitos dos namorados de verão que tinham acumulado durante as férias.
Fat Charlie reparou no carro preto — um Mercedes — que voltava pela estrada. Tinha um grande arranhão na lateral. Sentiu-se culpado e torceu para que a bicicleta não tivesse estragado demais a pintura. Os vidros eram tão escuros que o carro podia até não ter motorista...
Aí uma das garotas deu um tapinha no ombro de Fat Charlie e perguntou se ele sabia de alguma festa boa na ilha, naquela noite. Quando ele respondeu que não, a menina começou a contar sobre uma festa que acontecera em uma caverna, duas noites antes, com piscina, luzes, DJ e tudo mais. Por causa disso, Fat Charlie sequer reparou que o Mercedes preto agora seguia a van até Williamstown, e que o carro só se afastou depois de Fat Charlie tirar a bicicleta do teto da van (“Na próxima vez, traga o limão!”) e entrar com ela no saguão do hotel.
Foi só então que o carro voltou para a casa no alto do penhasco.
Benjamin, o concierge, examinou a bicicleta e disse a Fat Charlie que não se preocupasse, pois a consertariam e a deixariam como nova até o dia seguinte.
Fat Charlie voltou para o quarto de hotel, que tinha paredes da cor da água do mar, onde estava seu limão, apoiado no aparador como um pequeno Buda verde.
— Você não ajuda em nada — reclamou para o limão.
O que foi injusto. Ele era apenas um limão. Não havia nada remotamente especial nele. Ele estava fazendo o melhor que podia.
* * *
Histórias são como teias, conectadas fio a fio, e cada uma segue até o centro, porque o centro é o fim. Cada pessoa é um fio da história.
Veja Daisy, por exemplo.
Daisy não teria durado tanto na polícia sem ter um lado mais ajuizado por natureza, que era quase tudo o que as pessoas viam. Respeitava as leis e respeitava as regras. Entendia que muitas dessas regras eram bastante arbitrárias — como decisões sobre onde se pode estacionar ou até que horas as lojas têm autorização para funcionar —, mas sabia também que até elas ajudavam no quadro geral. Mantinham a sociedade segura. Mantinham as coisas seguras.
Sua colega de apartamento, Carol, achou que ela estava louca.
— Você não pode simplesmente anunciar que vai sair de férias. As coisas não funcionam assim. Você não é uma policial de seriado de TV, sabia? Não pode sair viajando pelo mundo só para seguir uma pista.
— Então não estou fazendo isso — retrucara Daisy, sem um pingo de sinceridade. — Estou só tirando umas férias.
Ela disse aquilo de modo tão convincente que a policial sensata que vivia em sua cabeça ficou quieta, em choque. Mas logo começou a explicar exatamente o que ela estava fazendo de errado, começando por observar que Daisy estava prestes a tirar uma licença sem qualquer autorização — o que era equivalente, murmurou a tira sensata, à negligência profissional — e continuando o discurso a partir daí.
A tira sensata dentro dela continuou falando a caminho do aeroporto e também enquanto atravessava o Atlântico. Observou que, mesmo que Daisy conseguisse evitar uma marca negativa permanente em sua ficha, isso sem falar na chance de ser expulsa da polícia, mesmo que ela encontrasse Grahame Coats, não havia nada que ela pudesse fazer quanto a isso. A força policial de Sua Majestade não via com bons olhos o rapto de criminosos em países estrangeiros, muito menos sua apreensão, e a tira sensata duvidava muito que Daisy pudesse convencê-lo a voltar ao Reino Unido por vontade própria.
Foi só quando desembarcou do pequeno avião vindo da Jamaica e sentiu o ar de Saint Andrews — terroso, picante, úmido, quase adocicado —, que a tira sensata parou de comentar como ela estava agindo de forma louca e irracional. Isso porque ela foi abafada por outra voz. “Malfeitores, cuidado!”, exclamava a voz, “Cuidado! Fiquem atentos, malfeitores de todos os cantos!”, e Daisy ia marchando no ritmo. Grahame Coats assassinara uma mulher em seu escritório, em Aldwych, e escapara ileso. E fizera aquilo praticamente debaixo do nariz de Daisy.
Ela balançou a cabeça, pegou a mala, foi muito simpática ao informar ao funcionário da imigração que estava ali de férias e foi para a fila de táxis.
— Gostaria de um hotel não muito caro, mas que não seja nojento, por favor — disse ao motorista.
— Sei onde fica o lugar certo para você, querida — respondeu ele. — Entre.
* * *
Spider abriu os olhos e descobriu que estava deitado no chão, de bruços, com os braços amarrados a uma grande estaca cravada na terra. Não podia mover as pernas ou girar o pescoço o bastante para olhar para trás, mas podia apostar que suas pernas também estavam imobilizadas de modo parecido. O movimento que fez ao tentar se erguer para olhar para trás fez suas feridas arderem.
Abriu a boca, e sangue escuro escorreu para a terra, umedecendo-a.
Ouviu um som e virou a cabeça o máximo que pôde. Uma mulher branca olhava para ele com muita curiosidade.
— Você está bem? Que pergunta boba. Olhe só para você. Imagino que seja outro duppy. Acertei?
Spider pensou no assunto. Não achava que fosse um fantasma. Então balançou a cabeça.
— Se for, não há nada do que se envergonhar. Pelo que parece, eu mesma sou um desses duppies. Nunca tinha ouvido o termo, mas conheci um senhor encantador no caminho para cá, e ele me contou tudo sobre o assunto. Deixe-me ver se posso ajudar em alguma coisa.
Ela se agachou ao lado de Spider e esticou os braços para tentar soltar as amarras.
A mão dela atravessou seu corpo. Spider pôde sentir os dedos roçando sua pele de leve, como finos fios de névoa.
— Infelizmente, parece que não consigo tocar em você — comentou ela. — Mas isso significa que você ainda não está morto. Então, anime-se.
Spider torceu para que a mulher fantasma fosse embora logo. Não estava conseguindo pensar direito.
— Enfim, depois que compreendi o que estava acontecendo, resolvi permanecer neste plano até conseguir me vingar do meu assassino. Expliquei isso para Morris, que apareceu em uma tela de televisão na Selfridges. Ele respondeu que acreditava que eu não tinha entendido direito o sentido de ter desencarnado. Mas se estão achando que eu vou dar a outra face, vão ver só. Há vários precedentes. E tenho certeza de que posso fazer igual a Banquo, naquele banquete, se tiver chance. Você consegue falar?
Spider balançou a cabeça, e sangue escorreu da testa para os olhos. Ardeu. Ele se perguntou quanto tempo levaria para crescer uma língua nova. Prometeu conseguira fazer um fígado novo crescer a cada dia, e Spider tinha quase certeza de que um fígado devia dar muito mais trabalho que uma língua. Fígados faziam reações químicas — bilirrubina, ureia, enzimas, essas coisas. Eles metabolizam o álcool, e só isso já devia dar um trabalhão. Tudo o que as línguas faziam era falar. Bem, isso e lamber, é claro...
— Não posso ficar aqui batendo papo — anunciou a senhora fantasma de cabelo loiro. — Acho que tenho um longo caminho pela frente.
Ela começou a se afastar, e desaparecia enquanto caminhava. Spider levantou a cabeça e a observou passar de uma realidade para outra, como uma fotografia desbotando à luz do sol. Tentou chamá-la de volta, mas os únicos ruídos que conseguia produzir saíam abafados e sem sentido. Sem língua.
Em algum lugar ao longe, ouviu o pio de uma ave.
Testou as amarras. Elas resistiram.
Acabou pensando mais uma vez na história que Rosie contara sobre o corvo que salvou um homem de um puma. Aquilo ficava incomodando no fundo da mente, era pior que os cortes no rosto e no peito. Concentre-se. O homem estava deitado no chão, lendo ou tomando um banho de sol. O corvo grasnou em cima da árvore. Havia um grande felino nos arbustos densos...
E então a história se reformulou, e ele conseguiu entender tudo. Era só uma questão de como examinar os fatores.
E se, pensou, a ave não estivesse fazendo barulho para avisar o homem sobre o grande felino à espreita? E se, na verdade, ela estivesse avisando o puma sobre o homem no chão — morto, dormindo ou morrendo. Avisar que tudo o que o grande felino precisava fazer era dar o bote. E então o corvo se banquetearia com o que sobrasse...
Spider abriu a boca para gemer, e seu sangue escorreu e empoçou sobre o barro seco.
A realidade se diluiu. Naquele lugar, o tempo passou.
Spider, sem língua e furioso, ergueu e virou a cabeça para olhar as aves fantasmas que voavam ao seu redor, gritando.
Ele ficou se perguntando onde estava. Aquele não era o universo cor de cobre da mulher-pássaro, nem a caverna dela, mas também não era o lugar que ele costumava chamar de mundo real. Só que estava mais perto do mundo real do que de qualquer outro, perto o suficiente para que quase pudesse sentir seu gosto — ou melhor, até teria sentido seu gosto se pudesse sentir o gosto de qualquer coisa além do amargor férreo de sangue. Tão perto que, se não estivesse preso a estacas no chão, poderia tocá-lo.
Se não tivesse certeza absoluta da própria sanidade, uma certeza em um nível que só costuma ser vista em pessoas que chegaram à conclusão de que sem dúvida alguma são Júlio César e foram enviados para salvar o mundo, poderia até pensar que estava louco. Primeiro viu uma loira que dizia ser um duppy, agora estava ouvindo vozes. Bem, uma voz, pelo menos: a de Rosie.
— Eu não sei — dizia ela. — Achei que seria uma viagem de férias. Mas ver todas essas crianças carentes é de partir o coração. Elas precisam de tanta coisa... — E então, quando Spider tentava compreender o significado daquilo, ela acrescentou: — Eu me pergunto se ela ainda vai demorar muito no banho. Que bom que o senhor tem bastante água quente aqui.
Spider ficou pensando se as palavras de Rosie tinham alguma importância, se detinham a chave para escapar daquela situação. Achava improvável. Mas, mesmo assim, ouviu com mais atenção, pensando se o vento traria mais palavras de um mundo para outro. Não ouvia qualquer coisa além do som das ondas quebrando na arrebentação às suas costas, longe e muito abaixo. Apenas silêncio. Mas era um tipo específico de silêncio. Fat Charlie já imaginara, certa vez, que havia vários tipos de silêncio. Sepulturas têm um silêncio próprio, assim como o espaço e o cume das montanhas. Aquele era o silêncio da caçada. O silêncio da espreita. Naquele silêncio, algo se movia sobre patas aveludadas, os músculos parecendo molas de aço tensionadas sob a pelagem macia. Algo da cor das sombras na relva alta, algo que iria se certificar de que ninguém ouviria qualquer som que não tivesse sido feito com a intenção de ser ouvido. Era um silêncio que se movia, lenta e implacavelmente, de um lado a outro à frente de Spider, chegando cada vez mais perto.
Spider escutou aquilo no silêncio, e os pelos de sua nuca se eriçaram. Ele cuspiu sangue na terra perto de seu rosto e esperou.
* * *
Grahame Coats andava de um lado para outro em sua casa, no alto do penhasco. Ia do quarto para o escritório, depois descia as escadas até a cozinha e subia de volta até a biblioteca, e de lá andava de volta para o quarto. Estava com raiva de si mesmo: como podia ter sido tão burro a ponto de pensar que a visita de Rosie fora pura coincidência?
Percebeu a verdade quando tocaram a campainha e pôde ver o rosto idiota de Fat Charlie no monitor do circuito interno de TV. Não havia dúvida. Era uma conspiração.
Agira como um tigre, pegando o carro, seguro de que seria fácil atropelá-lo e fugir. Se encontrassem um ciclista estropiado na estrada, colocariam a culpa em uma das vans. Infelizmente, ele não contara com a possibilidade de Fat Charlie pedalar tão perto da encosta. Não quisera levar o carro mais perto da beira da estrada, e agora estava arrependido. Não, Fat Charlie é que enviara as mulheres que agora estavam na despensa de carnes. Elas eram espiãs. Tinham se infiltrado na casa de Grahame Coats. Era uma sorte ele ter descoberto o plano. Sabia que havia algo de errado com elas.
Enquanto pensava nas mulheres, lembrou que ainda não as alimentara. Devia dar algo para elas comerem. E um balde. Era provável que elas precisassem de um balde, depois de vinte e quatro horas. Ninguém ia poder dizer que ele era um animal.
Tinha comprado uma pistola em Williamstown, na semana anterior. Era muito fácil comprar armas em Saint Andrews. Era esse tipo de ilha. Mas a maioria das pessoas não tinha interesse em comprar armas de fogo. Também era esse tipo de ilha. Ele pegou a arma na gaveta da mesa de cabeceira e desceu até a cozinha. Pegou um balde de plástico embaixo da pia e jogou lá dentro alguns tomates, um inhame cru, um pedaço meio comido de queijo cheddar e uma caixa de suco de laranja. Então, satisfeito consigo mesmo por lembrar, pegou um rolo de papel higiênico.
Desceu até a adega. Não havia ruído vindo do interior da despensa de carnes.
— Tenho uma arma e não tenho medo de usá-la. Vou abrir a porta. Por favor, sigam até o fundo, virem-se de costas e apoiem as mãos na parede. Trouxe comida. Se colaborarem, ambas serão liberadas ilesas. Se colaborarem, ninguém vai se machucar. O que significa que não quero nenhuma gracinha — enfatizou, feliz ao notar que era capaz de utilizar um batalhão inteiro de clichês que até então nunca pensara que se aplicariam à sua situação.
Ele acendeu as luzes do cômodo e abriu as trancas. As paredes eram de pedra e tijolo. Correntes enferrujadas pendiam do teto.
As duas estavam encostadas na parede do fundo. Rosie olhava para a pedra. A mãe dela olhava por cima do ombro, encarando-o como uma ratazana encurralada, furiosa e cheia de ódio.
Grahame Coats colocou o balde no chão. Mas continuou segurando a arma.
— Um rango de primeira — comentou. — E, antes tarde do que nunca, um balde. Vejo que estavam usando aquele canto. Também trouxe papel higiênico. Não digam que nunca fiz nada por vocês.
Rosie interveio:
— Você vai nos matar, não vai?
— Não o provoque, menina idiota — reclamou a mãe. Depois, abrindo uma espécie de sorriso, continuou: — Agradecemos pela comida.
— É claro que não vou matar vocês — retrucou Grahame Coats. Só quando ouviu as palavras saírem de sua boca é que ele admitiu para si mesmo que sim, é claro, teria que matá-las. Havia outra opção? — Vocês não me contaram que Fat Charlie as mandou aqui.
— Viemos em um cruzeiro — respondeu Rosie. — Deveríamos estar em Barbados hoje à noite, comendo peixe frito. Fat Charlie está na Inglaterra. Acho que ele nem sabe que estamos aqui. Eu não contei para ele.
— Não importa o que você diz — retrucou Grahame Coats. — Eu tenho a arma.
Ele fechou a porta e depois a trancou. Do outro lado, pôde ouvir a mãe de Rosie resmungando:
— E aquele bicho. Por que não perguntou a ele sobre o bicho?
— Porque você está imaginando coisas, mãe. Já falei milhões de vezes que não tem bicho nenhum aqui dentro. Enfim, ele está doido. Acho que era até capaz de concordar com você. Talvez ele também veja tigres invisíveis.
Irritado com aquilo, Grahame Coats apagou as luzes da despensa de carnes, pegou uma garrafa de vinho tinto, subiu a escada e bateu a porta da adega ao sair.
No escuro do subsolo da casa, Rosie dividiu o pedaço de queijo em quatro partes e comeu uma delas o mais devagar que conseguiu.
— O que ele quis dizer com aquela história sobre Fat Charlie? — perguntou à mãe, depois que o queijo se dissolveu na boca.
— Aquele seu Fat Charlie idiota. Eu não quero saber de Fat Charlie — resmungou a mãe. — É por causa dele que estamos aqui.
— Não, estamos aqui porque aquele cara é doido de pedra. É só um maluco armado. Não é culpa de Fat Charlie.
Rosie tinha tentado não pensar no ex-noivo, porque aquilo sempre a fazia pensar em Spider...
— Ele voltou — anunciou a mãe. — O bicho voltou. Estou sentindo o cheiro dele.
— Claro, mamãe — concordou Rosie.
Sentou-se no chão de concreto e pensou em Spider. Sentia saudades. Resolveu que tentaria localizá-lo assim que Grahame Coats caísse em si e as libertasse. Tentaria descobrir se havia chance para um novo começo. Sabia que não passava de um devaneio, mas era um pensamento agradável e reconfortante.
Ficou se perguntando se Grahame Coats as mataria no dia seguinte.
* * *
Spider estava preso ao chão, a distância da chama de uma vela, ao alcance da fera.
A tarde chegava ao fim, e o sol já estava baixo às suas costas.
O nariz, os lábios e a boca de Spider estavam pressionados contra algo que já tinha sido terra seca, antes que a saliva e o sangue da sua boca a deixassem ensopada. Agora era uma bola de lama, uma bolota grosseira de barro avermelhado. Ele moldara a terra em uma forma mais ou menos esférica. Agora tentava movê-la, passando o nariz por baixo dela e jogando a cabeça para cima. Nada acontecia, assim como nada acontecera nas... Quantas vezes já tentara, vinte? Cem? Não estava contando. Só continuava tentando. Afundava o rosto mais fundo na terra, empurrava o nariz mais para baixo da bola de barro, impulsionando a cabeça para cima e para frente...
Nada acontecia. Nada iria acontecer.
Precisava abordar a situação de outra forma.
Envolveu a bola com os lábios. Inspirou o mais fundo que pôde. Em seguida, expeliu o ar pela boca. A bola saltou de seus lábios fazendo um barulho semelhante ao de uma rolha de champanhe e aterrissou a cerca de cinquenta centímetros dali.
Então moveu a mão direita. O pulso estava amarrado, a corda puxava com força na direção da estaca. Ele esticou a mão e os dedos. Tentou alcançar o pedaço de lama ensanguentada, mas não conseguiu.
Estava tão perto...
Spider respirou fundo outra vez, mas engasgou com a poeira seca e começou a tossir. Tentou de novo, virando a cabeça para o lado para encher os pulmões. Depois a virou para o outro lado e começou a soprar na direção da bola, expelindo o ar com toda a força que tinha.
A bola de barro se deslocou pouco mais de um centímetro, mas era o suficiente. Ele se esticou e conseguiu segurar o barro entre os dedos. Moldou a argila entre o polegar e o indicador, criando uma pequena ponta, depois girou a bola na mão e repetiu o processo. Fez isso oito vezes.
Repetiu tudo, dessa vez afinando mais as saliências na bola de argila. Uma delas caiu no chão, mas as outras ficaram firmes. No fim, segurava algo que parecia uma pequena bola de barro com sete pontas, como uma escultura do sol feita por uma criança.
Olhou para sua obra com orgulho: dadas as circunstâncias, sentia tanto orgulho daquilo quanto uma criança poderia sentir de algo que fez na escola.
Mas a palavra seria a parte mais difícil. Fazer uma aranha ou qualquer coisa bem parecida a partir de sangue, cuspe e barro era fácil. Era algo que todos os deuses, até os deuses menores e travessos, como Spider, sabiam fazer. Mas a parte final da Criação seria a mais difícil. É preciso uma palavra para dar vida a alguma coisa. É preciso nomeá-la.
Ele abriu a boca.
— Hrrurrrrurrr — disse, sem língua.
Nada aconteceu.
Ele tentou outra vez.
— Hrrurrrrurrr!
O barro continuava a ser uma forma inerte em sua mão.
Deixou o rosto cair outra vez na terra. Estava exausto. Cada movimento reabria as feridas no rosto e no peito. Elas gotejavam, ardiam e — pior ainda — coçavam. Pense!, disse a si mesmo. Deve haver um jeito de fazer isso... De falar sem a língua...
Ainda havia uma camada de barro em seus lábios. Ele os puxou para dentro da boca, umedecendo-os da melhor forma possível sem a língua.
Respirou fundo e forçou o ar a sair pelos lábios contraídos, fazendo o possível para controlá-lo o melhor possível, enunciando uma palavra com tanta certeza que nem o universo poderia argumentar. Descreveu a coisa em sua mão e depois disse o próprio nome, que era a magia mais poderosa que conhecia.
— Aaah-ua-nha.
E em sua mão, onde havia uma bola de lama ensanguentada, surgiu uma aranha cor de barro vermelho com sete patas longas e delgadas.
Me ajude, pensou Spider. Vá buscar ajuda.
A aranha o encarou com os olhos brilhando ao sol. Então saltou da mão dele para a terra e foi mancando capim adentro, dando passos bambos e desequilibrados.
Spider ficou olhando até ela sumir de vista, depois apoiou a cabeça na terra e fechou os olhos.
Então o vento mudou, e deu para sentir no ar o leve cheiro de amônia dos felinos machos. A fera tinha marcado seu território...
Lá no alto, no céu, ele pôde ouvir as aves grasnarem em triunfo.
* * *
Fat Charlie sentiu a barriga roncar. Se ainda tivesse algum dinheiro, teria jantado em outro lugar, só para conseguir se afastar do hotel, mas estava sem um tostão, e o jantar já estava incluído no preço da diária. Era por isso que, assim que o relógio marcou sete horas, ele desceu para o restaurante.
A maître tinha um sorriso fantástico, e disse a ele que levaria mais alguns minutos para abrir o restaurante. A banda precisava de mais um tempinho para a passagem de som. Então ela o encarou. Fat Charlie estava começando a reconhecer aquele olhar.
— Você...? — começou ela.
— Sim — respondeu, resignado. — Até trouxe ele comigo.
Ele tirou o limão do bolso e o mostrou a ela.
— É muito bonito — comentou a moça. — Sem dúvidas, é um limão. Eu já ia perguntar, o senhor quer o cardápio à la carte ou vai preferir o bufê?
— O bufê.
O bufê estava incluído na diária. Ele ficou parado em frente ao restaurante, segurando o limão.
— Espere só um instante — pediu a maître.
Uma pequena mulher passou pelo corredor por trás de Fat Charlie. Ela sorriu para a maître e perguntou:
— O restaurante já está aberto? Estou morrendo de fome.
Ouviu-se um tu-du-dum final do baixo e um plink do piano elétrico. A banda largou os instrumentos e acenou para a maître.
— Estamos abertos — respondeu ela. — Entrem.
A pequena mulher olhou para Fat Charlie com uma expressão de surpresa e cautela.
— Olá, Fat Charlie. Por que está com esse limão?
— É uma longa história.
— Bem, temos todo o jantar à frente. Por que não me conta? — sugeriu Daisy.
* * *
Rosie se perguntou se loucura era contagiosa. Naquela escuridão cegante do subsolo da casa no penhasco, sentiu algo roçar nela ao passar. Algo macio e ágil. Algo grande. Algo que rosnava baixinho enquanto rodeava as duas.
— Você também ouviu isso? — perguntou.
— Claro que ouvi, sua idiota — respondeu a mãe. Então disse: — Sobrou um pouco de suco de laranja?
Rosie tateou na escuridão e passou a caixa de suco para sua mãe. Ouviu o som de alguém bebendo.
— Não é esse bicho que vai nos matar. É ele — disse a mãe.
— Grahame Coats. É.
— Ele é um homem mau. Está sendo controlado por alguma coisa, como se fosse um cavalo selado. Mas um cavalo mau, já que ele é um homem mau.
Rosie estendeu o braço e segurou a mão ossuda da mãe. Não respondeu. Não havia muito a dizer.
Após um tempo, a mãe voltou a falar:
— Sabe, tenho muito orgulho de você. Você foi uma boa filha.
— Ah.
A ideia de não ser uma decepção para a mãe era novidade, algo que ela não tinha certeza se acreditava.
— Talvez você devesse ter se casado com Fat Charlie. Aí não estaríamos aqui.
— Nada disso — respondeu Rosie. — Eu não deveria ter me casado com Fat Charlie. Eu não o amo. Então, você não estava de todo errada.
Eles ouviram uma porta bater lá em cima.
— Ele saiu — comentou Rosie. — Rápido, comece a cavar um túnel.
Primeiro, ela deu risada. Depois começou a chorar.
* * *
Fat Charlie tentava entender o que Daisy estava fazendo na ilha. Ela fazia o mesmo esforço para tentar entender o que ele estava fazendo ali. Nenhum dos dois parecia ter muito sucesso com isso. No pequeno palco ao fundo do salão, uma cantora — que era boa demais para a Sexta Musical do restaurante de um hotel tão pequeno — com um vestido longo, justo e vermelho, cantava “I’ve Got You Under My Skin”.
Daisy se pronunciou:
— Então você está procurando a senhora de quem era vizinho durante a infância, porque pode ser que ela possa ajudá-lo a encontrar seu irmão.
— Eu recebi uma pena. Se a sra. Higgler ainda estiver com ela, talvez eu consiga trocá-la pelo meu irmão. Vale a tentativa.
Ela piscou devagar, pensativa, nem um pouco impressionada, e comeu um pouquinho da salada. Fat Charlie retrucou:
— Bem, e você está aqui porque acredita que Grahame Coats fugiu para cá depois de matar Maeve Livingstone. Mas não veio a serviço da polícia. Está aqui por conta própria, com base apenas na suposição de que ele está nessa ilha. E, se isso for verdade, não há absolutamente nada que você possa fazer.
Daisy lambeu uma semente de tomate do canto dos lábios e pareceu desconfortável.
— Não vim aqui a serviço da polícia — repetiu. — Vim como turista.
— Mas você largou o trabalho e veio para cá atrás dele. Acho que devem poder prender você por causa disso, ou coisa do tipo.
Daisy foi seca ao responder:
— Então é bom que Saint Andrews não tenha tratado de extradição, não é mesmo?
— Meu Deus.
Fat Charlie tinha murmurado aquilo porque a cantora saíra do palco e começara a andar pelo restaurante com um microfone sem fio. Naquele instante, estava perguntando a dois turistas alemães de onde eles eram.
— Por que ele viria para cá? — perguntou Fat Charlie.
— Contas bancárias secretas. Imóveis baratos. Sem tratados de extradição. E talvez ele goste muito de frutas cítricas.
— Passei dois anos morrendo de medo daquele homem — comentou ele. — Vou pegar mais daquele peixe com banana verde. Você vem?
— Estou satisfeita — respondeu Daisy. — E quero deixar espaço para a sobremesa.
Fat Charlie foi até o bufê, fazendo a volta e pegando o caminho mais longo para evitar o olhar da cantora. Era mesmo muito bonita, com o vestido vermelho coberto de lantejoulas que refletiam a luz, brilhando sempre que ela se mexia. Ela era bem melhor que a banda. Fat Charlie torceu para que a mulher parasse de interagir com os clientes, voltasse ao palco e continuasse a cantar as músicas de sempre — tinha gostado da interpretação dela de “Night and Day”, e também da versão especialmente emocionante de “Spoonful of Sugar”. Ou, pelo menos, que parasse de falar com as pessoas do lado do salão onde ele estava.
Montou um prato com uma pilha alta das coisas que gostara de comer da primeira vez. Andar de bicicleta pela ilha abria mesmo o apetite, pensou.
Quando voltou para a mesa, viu Grahame Coats, com algo que lembrava vagamente o início de uma barba no rosto, sentado ao lado de Daisy. Ele sorria como uma fuinha doidona sob efeito de metanfetamina.
— Fat Charlie — anunciou Grahame Coats e deu uma risada que pareceu desconfortável. — Impressionante, não é mesmo? Venho até aqui procurando você, para a gente bater um papinho, e o que encontro de bônus? Esta policialzinha glamorosa. Por favor, sente-se. Tente não fazer uma cena.
Fat Charlie ficou parado, igualzinho a um boneco de cera.
— Sente-se — repetiu Grahame Coats. — Estou apontando uma arma para a barriga da srta. Day.
Daisy lançou um olhar suplicante para Fat Charlie e assentiu. Estava com as mãos espalmadas sobre a toalha de mesa.
Fat Charlie sentou-se.
— Deixe essas mãos onde eu possa vê-las. Em cima da mesa, igualzinho às dela.
Fat Charlie obedeceu.
Grahame Coats fungou.
— Sempre soube que você era um policial disfarçado, Nancy. Um agent provocateur, não é mesmo? Entra no meu escritório, arma uma para cima de mim e rouba até minhas calças.
— Eu nunca... — começou Fat Charlie, mas viu a expressão nos olhos de Grahame Coats e calou a boca.
— Vocês pensaram que eram tão espertos... Pensaram que eu ia cair nessa. Por isso mandaram as outras duas, não é? As que estão lá em casa? Achavam mesmo que eu ia acreditar que elas vieram de cruzeiro? Vocês ainda precisam fazer muito mais do que isso para conseguir me enganar, sabiam? Para quem mais abriram o bico? Quem mais sabe disso?
Daisy respondeu:
— Não entendi muito bem do que você está falando, Grahame.
A cantora estava terminando “Some of These Days”. Ela tinha a voz profunda e cantava com a alma, envolvendo a todos como um cachecol de veludo.
Some of these days
You’re going to miss me honey
Some of these days
You´re gonna be so lonely
You’ll miss my huggin’
You’ll miss my kissin’...
— Você vai pagar a conta — anunciou Grahame. — Depois vou acompanhá-lo, junto com esta moça, até o carro. Então vamos para minha casa, onde teremos uma conversa de verdade. Se eu vir alguma gracinha, mato os dois. Capiche?
Fat Charlie capichou. E também capichou quem estava dirigindo o Mercedes preto naquela tarde e como quase morrera naquele dia. Agora começava a capichar como Grahame Coats era doido de pedra, além de como ele e Daisy tinham poucas chances de escapar vivos.
A cantora terminou a música. As outras pessoas no restaurante aplaudiram. Fat Charlie manteve as mãos espalmadas na mesa. Seu olhar foi além de Grahame Coats, chegando até a cantora, e, com o olho que estava fora do campo de visão de Grahame Coats, piscou para ela. A mulher estava cansada das pessoas evitando seus olhares, e a piscadela de Fat Charlie foi muito bem-vinda.
Daisy interveio:
— Grahame, é óbvio que vim aqui por sua causa, mas Charlie só... — Ela parou de falar e fez o tipo de expressão que só dá para fazer ao sentir o cano de uma arma ser pressionado ainda mais na barriga.
— Escutem aqui — retrucou Grahame Coats. — Para todas as pessoas inocentes aqui reunidas, somos bons amigos. Vou botar a arma no bolso, mas ela ainda estará apontada para você. Vamos nos levantar. Depois vamos para o meu carro, aí eu vou...
Ele parou de falar. Uma mulher de vestido vermelho cintilante, segurando um microfone, caminhava para a mesa deles com um enorme sorriso no rosto. Avançava na direção de Fat Charlie.
— Qual é o seu nome, querido?
Então aproximou o microfone do rosto dele.
— Charlie Nancy — A voz dele saiu engasgada, vacilante.
— E de onde você é, Charlie?
— Da Inglaterra. Eu e meus amigos. Somos todos de lá.
— E o que você faz, Charlie?
Tudo pareceu ficar mais lento. Era como mergulhar de um penhasco direto para o oceano. Era a única saída. Ele respirou fundo e respondeu:
— No momento estou sem emprego, mas, na verdade, sou cantor. Eu canto. Assim como você.
— Como eu? E que tipo de músicas você canta?
Fat Charlie engoliu em seco.
— O que você tem no seu repertório?
Ela virou para as outras pessoas na mesa.
— Vocês acham que tem problema fazê-lo cantar para nós? — perguntou, gesticulando com o microfone.
— Hã. Acho que não. Não. Claro que de jeito nenhum, fora de questão — respondeu Grahame Coats.
Daisy deu de ombros, as mãos espalmadas sobre a mesa.
A mulher de vestido vermelho virou para o restante do salão e perguntou ao público:
— E aí?
Houve uma farfalhar de aplausos das pessoas que jantavam nas outras mesas, e aplausos um pouco mais entusiasmados do pessoal que trabalhava lá.
— Cante para nós! — exclamou o barman.
A cantora se inclinou mais para perto de Fat Charlie, cobriu o microfone e disse:
— É melhor ser alguma coisa que os rapazes da banda conheçam.
— Eles conhecem “Under the Boardwalk”?
A mulher assentiu, anunciou a música e entregou o microfone a ele.
A banda começou a tocar. A cantora conduziu Fat Charlie até o palquinho. Ele sentia o coração acelerado no peito.
Fat Charlie começou a cantar, e o público começou a ouvir.
Tudo o que ele queria era ganhar tempo, mas se sentia muito bem. Ninguém estava jogando coisas nele. Parecia haver bastante espaço em sua cabeça para pensar. Estava consciente de todos no salão: os turistas, os funcionários e as pessoas no bar. Podia ver tudo: tanto o barman medindo doses para um coquetel, quanto uma velha senhora no fundo do salão, enchendo uma grande caneca de plástico com café. Ainda estava aterrorizado, mas pegou todo o medo e toda a raiva que sentia e os jogou na música, deixando tudo aquilo virar uma canção sobre amor e tranquilidade. Enquanto cantava, pensava:
O que Spider faria? O que meu pai faria?
Ele cantou. Durante a música, disse a todos o que planejava fazer com sua amada, e a maior parte de seus planos envolvia fazer amor.
A cantora de vestido vermelho sorria, estalava os dedos e balançava o corpo no ritmo da música. Ela se debruçou sobre o microfone do tecladista e começou a acompanhá-lo.
Eu estou mesmo cantando diante de uma plateia, pensou Fat Charlie. Não acredito.
Manteve os olhos fixos em Grahame Coats.
Quando chegou ao último refrão, ele começou a bater palmas acima da cabeça, e logo todo o salão batia palmas com ele, os clientes, garçons e chefs. Todo mundo menos Grahame Coats, cujas mãos estavam embaixo da toalha de mesa, e Daisy, cujas mãos estavam espalmadas sobre a mesa. Daisy o encarava não só como se achasse que ele fosse doido de pedra, mas também como se tivesse escolhido um momento bastante bizarro para descobrir seu talento para o canto.
O público aplaudiu, e Fat Charlie sorriu e cantou. Enquanto cantava, soube, sem sombra de dúvida, que tudo ficaria bem. Todos ficariam bem: ele, Spider, Daisy e até Rosie, onde quer que ela estivesse, ficariam bem. Sabia o que fazer: era algo tolo e improvável, uma atitude digna de um idiota, mas funcionaria. E, quando as últimas notas da canção terminaram, ele disse:
— Tem uma jovem na mesa em que eu estava sentado. O nome dela é Daisy Day. Ela também é da Inglaterra. Daisy, pode dar um tchauzinho para todos?
Ela o encarou com um olhar desesperado, mas levantou uma das mãos e acenou.
— Eu queria dizer uma coisa para Daisy, e ela não sabe o que é. — Se isso não funcionar, sussurrou uma vozinha, no fundo de sua cabeça, ela vai morrer. Sabia? — Mas vamos torcer para que ela diga sim. Daisy? Quer casar comigo?
O salão ficou em silêncio. Fat Charlie manteve o olhar fixo na policial, torcendo para ela entender e entrar na onda.
Daisy assentiu.
Os frequentadores do restaurante aplaudiram. Aquilo sim é que era um show de verdade. A cantora, a maître e várias garçonetes foram até a mesa, fizeram Daisy se levantar e a arrastaram até a pista de dança. Elas a levaram até Fat Charlie, que passou o braço pela cintura dela logo que a banda começou a tocar “I Just Called to Say I Love You”.
— Você trouxe um anel para ela? — perguntou a cantora.
Ele enfiou a mão no bolso. Então se virou para Daisy:
— Aqui, isso é para você.
Ele a abraçou e beijou. Se alguém for levar um tiro, pensou, a hora é agora. Então o beijo terminou, e as pessoas começaram a apertar sua mão e a abraçá-lo. Um homem, que dizia estar na cidade para o festival de música, insistiu em dar seu cartão a Fat Charlie. Daisy, com uma expressão muito estranha no rosto, segurava o limão que ele lhe entregara. Quando olhou para trás, para a mesa onde estavam sentados, Fat Charlie viu que Grahame Coats tinha ido embora.
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