Os Filhos de Anansi

Neil Gaiman · Capítulo 19 de 23

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Os Filhos de Anansi

Como você ousa?

 

 

Por Neil Gaiman

 

NINGUÉM ATÉ AGORA fez a pergunta que eu temo, a pergunta que, espero, ninguém fará. Então eu mesmo vou perguntá-la e tentar respondê-la.

E a pergunta é: Como você ousa?

Ou em sua versão completa: Como você ousa, um inglês, escrever um livro sobre os Estados Unidos, sobre os mitos e a alma americanos? Como você ousa escrever sobre o que torna os Estados Unidos especiais como país, como nação, como ideia?

E, como inglês, meu impulso imediato é dar de ombros e prometer que isso não vai acontecer de novo.

Mas eu ousei em Deuses americanos, e foi necessário um tipo estranho de ousadia para escrever esse livro.

Quando era mais jovem, escrevi uma história em quadrinhos sobre sonhos e histórias chamada Sandman (agora compilada em dez graphic novels, e se você ainda não leu, deveria). Na época, sempre me faziam a mesma pergunta: “Como você consegue ambientar tanto dessa história nos Estados Unidos se mora na Inglaterra?”

E eu respondia que, em termos de mídia, o Reino Unido era praticamente um anexo dos Estados Unidos. Nós assistimos a filmes e seriados americanos. “Posso não descrever uma Seattle que vá satisfazer um morador”, eu costumava dizer, “mas vou descrevê-la tão bem quanto um nova-iorquino que nunca foi a Seattle.”

Eu estava errado, é claro. Não fazia nada disso. Na verdade, eu fazia uma coisa muito mais interessante: criava um Estados Unidos imaginário, no qual as histórias de Sandman poderiam acontecer. Um local delirante e improvável muito além dos limites do real.

E isso me satisfez até que me mudei para os Estados Unidos, oito anos atrás.

Aos poucos, fui percebendo que os Estados Unidos sobre o qual escrevia era totalmente ficcional, e que os Estados Unidos real, aquele sob a superfície das aparências, era muito mais interessante que a ficção.

Acredito que a experiência do imigrante seja universal (mesmo que você seja o tipo de imigrante que, como eu, se agarra de modo quase supersticioso à sua cidadania original). De um lado, está você, e do outro, estão os Estados Unidos. O país é bem maior que você. Então você tenta entendê-lo. Tenta compreendê-lo, algo que, às vezes, não é bem recebido. Os Estados Unidos é grande o suficiente, e contém contradições suficientes, para ficar bem satisfeito em não ser compreendido. Como escritor, tudo o que eu podia fazer era descrever uma pequena parte do todo.

E mesmo assim ela era grande demais.

Eu não sabia que tipo de livro queria escrever até o verão de 1998, quando estava em Reykjavik, na Islândia. Foi então que fragmentos da trama, uma enorme quantidade de personagens e algo semelhante a uma estrutura surgiram em minha mente. O livro começou a tomar forma. Ele seria um thriller e falaria sobre um mistério envolvendo um assassinato, um romance e uma viagem. Falaria sobre a experiência do imigrante, sobre o que as pessoas acreditavam quando foram para os Estados Unidos e sobre o que aconteceu com as coisas em que elas acreditavam.

Eu queria escrever sobre os Estados Unidos como um lugar mítico.

E resolvi que, apesar de haver muitas coisas no livro que eu já sabia, descobriria ainda mais se caísse na estrada e visse o que mais podia encontrar. Então peguei o carro e dirigi até me deparar com um canto para escrever, e aí, pulei de um lugar para outro, às vezes em casa, às vezes não, por quase dois anos. Botei uma palavra atrás da outra até criar um livro sobre um homem chamado Shadow e o misterioso emprego que lhe oferecem quando ele sai da prisão. Sobre a história de uma pequena cidade do Meio-Oeste e os desaparecimentos que ocorrem por lá todo o inverno. Ao escrevê-lo, descobri por que as atrações de beira de estrada são os locais mais sagrados dos Estados Unidos. Descobri muitos outros detalhes e momentos assustadores, deliciosos e, às vezes, apenas esquisitos.

Quando estava quase terminando, quando tudo o que restava era juntar os fios soltos, deixei outra vez o país, me enfurnei em uma casa grande, velha e fria na Irlanda e digitei tudo o que faltava digitar, tremendo, com um aquecedor ao lado.

Então o livro ficou pronto, e eu parei. Ao olhar para trás, noto que não tive ousadia nenhuma. Na verdade, eu não tive escolha.

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