Os Filhos de Anansi

Neil Gaiman · Capítulo 12 de 23

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Os Filhos de Anansi

Capítulo dez, no qual Fat Charlie vê o mundo e Maeve Livingstone fica irritada

CAPÍTULO

DEZ

NO QUAL

FAT CHARLIE

VÊ O MUNDO

E MAEVE

LIVINGSTONE FICA

IRRITADA

 

FAT CHARLIE SENTOU-SE no cobertor sobre a cama de metal e esperou, mas nada aconteceu. Passou-se o que pareceram vários meses de forma muito, muito lenta. Ele tentou dormir, mas não conseguia lembrar como.

Bateu na porta. Alguém gritou “Cale a boca!”, mas ele não soube dizer se foi um policial ou outro preso.

Ele caminhou pela cela pelo que, em uma estimativa razoável, achou que deviam ter sido uns dois ou três anos. Depois sentou e deixou-se ser levado pela eternidade. A luz do dia era visível através de um retângulo de vidro grosso no alto da parede que fazia as vezes de janela, e provavelmente era a mesma luz do dia de quando a porta se fechou atrás de si naquela manhã.

Fat Charlie tentou lembrar o que as pessoas faziam na prisão para passar o tempo, mas tudo que conseguiu pensar foi em manter diários secretos e esconder coisas na bunda. Ele não tinha no que escrever, e acreditava que um modo de definir com certeza se uma pessoa estava ou não se dando bem na vida era ela não precisar esconder coisas na bunda.

Nada aconteceu. Nada Aconteceu 2. Mais Nada. Nada: O Retorno. O Filho do Nada. O Nada Contra-Ataca. Nada, Abbott e Costello às Voltas com Fantasmas...

Quando a porta foi destrancada, Fat Charlie quase comemorou.

— Certo. Para o pátio. Você pode fumar um cigarro se quiser.

— Eu não fumo.

— É mesmo um hábito horrível.

O pátio consistia em uma área aberta no meio da delegacia delimitada por muros e cercas de arame. Fat Charlie caminhou por ali enquanto decidia que, se havia um lugar onde não gostava de estar, era sob custódia policial. Fat Charlie nunca gostara da polícia, mas, até então, tinha conseguido ater-se a uma crença fundamental na ordem natural do mundo, uma convicção de que existia alguma espécie de poder — algo que um vitoriano teria chamado de Providência — que assegurava que os culpados seriam punidos, e os inocentes, libertados. Essa fé desmoronara diante dos eventos recentes e fora substituída pela desconfiança de que passaria o resto da vida tentando provar sua inocência a vários juízes implacáveis e torturadores, muitos dos quais se pareceriam com Daisy, e pela certeza de que acordaria na cela seis na manhã seguinte e descobriria que havia se metamorfoseado em uma barata gigante. Fat Charlie com certeza fora transportado para o tipo de universo maligno que transformava pessoas em baratas...

Algo surgiu do céu e pousou na cerca. Fat Charlie olhou para cima. Um melro o encarava com certo desinteresse. Ouviu novamente o som de asas, e vários pardais se juntaram ao melro, e também um pássaro que Fat Charlie achou que fosse um sabiá.

Eles olhavam para ele; Fat Charlie os encarava de volta.

Mais pássaros apareceram.

Seria difícil para ele dizer quando o acúmulo de aves sobre a cerca passou de interessante para apavorante. Talvez por volta do centésimo, mais ou menos. E eles não piavam, cantavam, trinavam ou gorjeavam. Simplesmente pousavam no arame e olhavam para ele.

— Xô, xô — disse Fat Charlie.

Como se fossem uma só ave, elas não se moveram. Em vez disso, falaram. Disseram o nome dele.

Fat Charlie correu até a porta no canto e bateu nela.

— Com licença — disse algumas vezes, para então começar a gritar: — Socorro!

A porta se abriu, e um oficial de pálpebras caídas da força policial de Vossa Majestade disse:

— É melhor que seja importante.

Fat Charlie apontou para cima. Ele não disse nada. Não precisou. O queixo do policial caiu de um jeito muito peculiar, e ficou ali, parado, inerte. A mãe de Fat Charlie teria dito ao homem para fechar a boca para não entrar mosca.

O arame envergava com o peso de milhares de aves. Pequenos olhos avícolas os encaravam sem piscar.

— Meu Deus — comentou o policial, e levou Fat Charlie apressado para o bloco de celas, sem dizer mais uma palavra.

* * *

Maeve Livingstone estava caída no chão, com muita dor. Ela despertou, e seu cabelo e rosto estavam molhados e quentes, e então dormiu. Quando tornou a acordar, o cabelo e o rosto estavam grudentos e frios. Ela sonhou e acordou e sonhou de novo, ficou desperta o suficiente para notar a dor na parte de trás da cabeça, e então, como era mais fácil dormir, e como dessa forma não sentia dor, ela deixou que o sono a envolvesse como um cobertor confortável.

Em seus sonhos, ela caminhava por um estúdio de televisão, procurando Morris. De vez em quando, captava vislumbres dele nos monitores. Ele sempre parecia preocupado. Maeve tentava encontrar uma saída, mas sempre voltava para o centro do estúdio.

Estou com tanto frio, pensou, e soube que estava acordada outra vez. A dor, porém, tinha diminuído. Considerando a situação, ela até que estava bastante bem.

Algo a preocupava, mas ela não tinha certeza exatamente do que. Talvez fosse um resquício de seu sonho.

Estava escuro, onde quer que ela estivesse. Parecia uma espécie de armário de vassouras. Maeve estendeu os braços à frente para evitar esbarrar em alguma coisa e, com os olhos fechados, deu alguns passos hesitantes. Suas pálpebras se abriram. Agora estava em uma sala familiar. Era um escritório.

O escritório de Grahame Coats.

Então ela lembrou. A confusão do despertar súbito ainda estava presente — ela ainda não pensava com clareza, e sabia que não estaria totalmente lúcida até tomar sua primeira xícara de café do dia —, mas mesmo assim, tudo lhe veio à mente: as mentiras de Grahame Coats, sua traição, seus crimes, seu...

Ora, pensou ela, ele me atacou. Bateu em mim. E em seguida: A polícia. Eu tenho que chamar a polícia.

Ela estendeu a mão e pegou, ou tentou pegar, o telefone, mas ele pareceu muito pesado, ou escorregadio, ou os dois, e não conseguiu segurá-lo direito. Ele não se encaixou bem em seus dedos.

Devo estar mais fraca do que pensei, concluiu Maeve. Melhor pedir a eles para mandar uma ambulância também.

No bolso da jaqueta, havia um pequeno celular prateado que tocava “Greensleeves” quando alguém ligava. Ela ficou aliviada ao encontrar o telefone ainda lá e por não ter nenhuma dificuldade de pegá-lo. Ela discou para a emergência. Enquanto esperava que alguém atendesse, se perguntou por que ainda se dizia discar quando não havia mais discos nos telefones, não desde que ela era muito nova, e depois dos telefones de disco vieram os telefones com teclas, que tinham uma campainha especialmente irritante. Quando era adolescente, teve um namorado que sabia imitar o triiiim de um daqueles telefones, e ele fazia isso sempre. Na verdade, concluiu Maeve, ao lembrar-se, essa habilidade fora sua única realização verdadeira. Ela se perguntou o que acontecera com ele. Perguntou-se como um homem que sabia imitar uma campainha de telefone podia lidar com um mundo no qual telefones podiam e soavam como qualquer coisa...

— Pedimos desculpas pela demora no atendimento — anunciou uma voz eletrônica. — Por favor, aguarde na linha.

Maeve sentiu-se estranhamente calma, como se nada de ruim pudesse acontecer a ela de novo.

Um homem atendeu.

— Alô? — A voz soava extremamente eficiente.

— Preciso falar com a polícia.

— A senhora não precisa falar com a polícia — respondeu a voz. — Todos os crimes serão resolvidos pelas autoridades competentes e implacáveis.

— Sabe, acho que liguei para o número errado.

— No fim das contas, todos os números são corretos. Eles são apenas números, portanto, não podem estar certos ou errados.

— Você pode até falar isso — começou Maeve —, mas eu preciso mesmo falar com a polícia. Talvez também precise de uma ambulância. E obviamente liguei para o número errado.

Ela desligou. Talvez o telefone de emergência não funcionasse em celulares. Procurou nos contatos o número da irmã. O telefone chamou uma vez, e uma voz familiar respondeu:

— Deixe-me explicar, então: não estou dizendo que você ligou para o número errado de propósito. Mas sim que todos os números são, por natureza, corretos. Bem, exceto o pi, é claro. Não sei lidar com o pi. Fico com dor de cabeça só de pensar nele, que continua, e continua, e continua, e continua para sempre...

Maeve apertou o botão vermelho e encerrou a ligação. Ela discou para seu gerente no banco.

A voz que atendeu disse:

— Mas aqui estou eu, discorrendo sobre a maravilha que são os números, e você com certeza achando que esta não é a hora para isso...

Clique. Ligou para a melhor amiga.

— ... e que, na verdade, deveríamos estar discutindo a sua situação. Infelizmente o trânsito está muito ruim esta tarde, então, se não se importar em esperar um pouco onde está, você vai ser apanhada...

Era uma voz tranquilizante, a voz de um vigário prestes a lhe dizer o pensamento do dia no rádio.

Se Maeve não estivesse tão calma, ela teria entrado em pânico. Em vez disso, parou e pensou. Vendo que seu telefone tinha sido, como se dizia mesmo, “grampeado”?, ela teria que encontrar um policial na rua e fazer uma queixa formal. Nada aconteceu quando Maeve apertou o botão do elevador, por isso ela desceu as escadas com o pensamento de que nunca havia um policial por perto quando você mais precisava, eles estavam sempre correndo naqueles carros com sirenes estridentes. A polícia, pensou Maeve, deveria passear por aí em dupla dizendo a hora às pessoas ou esperando dentro dos esgotos até que ladrões com sacos nos ombros descessem...

Bem ao pé da escada, no corredor, havia dois policiais, um homem e uma mulher. Eles estavam à paisana, mas sem dúvida eram policiais. Não havia como confundi-los. O homem era corpulento e tinha o rosto avermelhado, e a mulher era baixinha e morena, e podia, em outras circunstâncias, ser extremamente bonita.

— Sabemos que ela veio até aqui — estava dizendo a mulher. — A recepcionista se lembra de tê-la visto chegar pouco antes de sair para o almoço. Quando voltou, os dois não estavam mais aqui.

— Você acha que eles fugiram juntos? — perguntou o homem corpulento.

— Hã, com licença — pediu Maeve Livingstone com educação.

— É possível. Deve haver alguma explicação simples para o desaparecimento de Grahame Coats e Maeve Livingstone. Pelo menos temos Nancy sob custódia.

— Nós com certeza não fugimos juntos — disse Maeve, mas eles a ignoraram.

Os policiais entraram no elevador e bateram as portas atrás deles. Maeve os viu subirem e se afastarem sacolejando na direção do último andar.

Ela ainda segurava o celular. Ele vibrou em sua mão e então começou a tocar “Greensleeves”. Maeve o encarou, e a foto de Morris apareceu na tela. Nervosa, ela atendeu ao telefone.

— Alô?

— Oi, amor. Como estão as coisas?

— Tudo ótimo, obrigada. Morris? Não, não está nada bem. Na verdade, as coisas estão horríveis.

— É. Achei que sim. Mesmo assim, não há nada que você possa fazer sobre isso. São águas passadas.

— Morris? De onde você está ligando?

— É um pouco complicado. Quer dizer, na verdade não estou ao telefone. Eu só queria muito ajudar você.

— Grahame Coats era um ladrão.

— É, amor — concordou Morris. — Mas é hora de esquecer tudo isso. Deixar tudo para trás.

— Ele me acertou na cabeça. E tem roubado nosso dinheiro.

— São apenas coisas materiais, amor — respondeu Morris, com uma voz reconfortante. — Agora que você passou dessa para uma melhor...

— Morris, aquele vermezinho repulsivo tentou assassinar sua esposa. Eu acho que você deveria mostrar um pouco mais de preocupação.

— Não fique assim, querida. Estou só tentando explicar...

— Vou lhe dizer que se você continuar com esse tipo de atitude, vou simplesmente lidar com isso sozinha. Com certeza não vou me esquecer disso. Tudo bem para você, que está morto. Você não tem que se preocupar com essas coisas.

— Você também está morta, amor.

— Isso não tem nada a ver com... Eu estou o quê? — E em seguida, antes que ele pudesse falar qualquer coisa, disse: — Morris, eu disse que ele tentou me matar. Não que ele conseguiu.

— Hã... — O falecido Morris Livingstone pareceu ficar sem palavras. — Maeve. Querida. Sei que isso pode ser um choque para você, mas a verdade é q...

O telefone apitou, e a imagem de uma bateria vazia surgiu na tela.

— Infelizmente não ouvi o que você disse, Morris. Acho que a bateria do celular está acabando.

— Você não tem bateria. Você não tem celular. É tudo uma ilusão. Eu continuo tentando lhe dizer: você agora atravessou para o lado de cá, e está se transformando, ah, droga, é como as minhocas e borboletas, amor. Você sabe.

— Lagartas. Acho que você quis dizer lagartas e borboletas.

— É, acho que é isso. Lagartas. Foi isso o que eu quis dizer. Então no que as minhocas se transformam?

— Elas não se transformam em nada, Morris — respondeu Maeve, um pouco irritada. — São apenas minhocas.

O telefone prateado apitou, mostrou outra vez a imagem de uma bateria vazia e desligou sozinho.

Maeve o fechou e o guardou de volta no bolso. Ela caminhou até a parede mais próxima e experimentou pressionar um dedo contra ela. A parede pareceu grudenta e gelatinosa ao toque. Então fez um pouco mais de pressão, e toda a sua mão penetrou nela e a atravessou.

— Nossa — exclamou Maeve, e desejou, não pela primeira vez na vida, ter dado ouvidos a Morris. Afinal de contas, a essa altura ele sabia muito mais sobre estar morto do que ela. Ah, bem, pensou. Estar morta provavelmente é como tudo mais na vida: você aprende um pouco no processo e depois inventa o resto.

Ela saiu pela porta da frente e se viu atravessando a parede dos fundos do saguão para dentro do prédio. Tentou outra vez, com o mesmo resultado. Então entrou na agência de viagens que ocupava o primeiro piso do prédio e tentou atravessar a parede oeste.

Ela surgiu outra vez no saguão de entrada, dessa vez pelo leste. Era como estar em uma TV e tentar sair da tela. Em termos topográficos, o prédio comercial parecia ter se transformado em seu universo.

Ela tornou a subir para ver o que os detetives estavam fazendo. Os dois estavam olhando com atenção para a mesa, para a bagunça que Grahame Coats deixou quando fez as malas.

Maeve tentou ajudar.

— Ei, estou em um quartinho atrás da estante de livros. Estou ali dentro.

Eles a ignoraram.

A mulher se agachou e remexeu a lata de lixo.

— Bingo — disse, e tirou de lá uma camisa social branca masculina manchada de sangue seco.

Ela a guardou em um saco plástico. O homem corpulento pegou seu telefone.

— Mandem a perícia para cá.

* * *

Fat Charlie agora se via pensando na cela mais como um refúgio do que uma prisão. Para começar, as celas ficavam nas profundezas do prédio, longe até mesmo das aves mais aventureiras. E seu irmão não estava em nenhum lugar à vista. Ele nem se importava mais que nada acontecesse na cela seis. Nada era infinitamente preferível à maioria das coisas que ele imaginava. Até um mundo habitado apenas por castelos, baratas e pessoas cujo nome começa com a letra K era preferível a um mundo cheio de aves malignas que sussurravam seu nome em coro.

A porta se abriu.

— Vocês não batem? — perguntou Fat Charlie.

— Na verdade, não. Seu advogado está aqui.

— Dr. Merryman?

Fat Charlie hesitou. Leonard Merryman era um senhor rotundo com pequenos óculos de armação dourada. O homem atrás do policial não se parecia nem um pouco com ele.

— Está tudo bem — disse o homem que não era seu advogado. — Você pode nos deixar aqui.

— Toque a campainha quando terminar — disse o policial, e fechou a porta.

Spider segurou a mão de Fat Charlie.

— Vou ajudar você a fugir daqui.

— Mas não quero fugir daqui. Eu não fiz nada.

— Uma ótima razão para ir embora.

— Mas, se eu sair, aí eu terei feito algo. Serei um fugitivo.

— Você não é um prisioneiro. Ainda não foi acusado de nada. Só está ajudando nas investigações. Ei, está com fome?

— Um pouco.

— O que você quer? Chá? Café? Chocolate quente?

Chocolate quente lhe pareceu uma ótima ideia.

— Eu adoraria um chocolate quente.

— Certo. — Ele segurou a mão de Fat Charlie e mandou: — Feche os olhos.

— Por quê?

— Deixa as coisas mais fáceis.

Fat Charlie fechou os olhos, apesar de não ter certeza do que exatamente ia ficar mais fácil. O mundo se expandiu e contraiu, e Fat Charlie teve certeza de que ia vomitar. Então sua mente se acalmou, e ele sentiu uma brisa cálida tocar seu rosto.

Abriu os olhos.

Eles estavam ao ar livre, em uma grande praça em algum lugar que não lembrava em nada a Inglaterra.

— Que lugar é este?

— Acho que se chama Skopsie. Uma cidade na Itália ou algo assim. Comecei a vir aqui há alguns anos. Eles fazem um chocolate quente maravilhoso. O melhor que já provei.

Eles se sentaram em uma pequena mesinha de madeira vermelha. Um garçom se aproximou e disse algo a eles em uma língua que Fat Charlie não reconheceu como italiano. Spider fez o pedido.

— Dos chocolatos, cara.

O homem assentiu e foi embora.

— Certo. Agora você me meteu em um problema ainda maior. Eles vão começar a procurar por mim, acho. Vou aparecer nos jornais.

— O que eles vão fazer? Mandar você para a cadeia?

— Ah, por favor.

O chocolate quente chegou em duas xícaras pequenas. Estava mais ou menos na temperatura de lava derretida, a meio caminho de uma sopa de chocolate e um creme de chocolate. Tinha um cheiro delicioso.

— Nós fizemos uma grande confusão com essa história de reunião familiar, não foi? — comentou Spider.

— Nós fizemos uma grande confusão? — Fat Charlie controlou o ultraje extremamente bem. — Não fui eu quem roubou minha noiva. Não fui eu quem me fez ser demitido. Não fui eu quem me fez ser preso...

— Não — concordou Spider. — Mas foi você quem trouxe as aves para a jogada, não é?

Fat Charlie deu um golinho em seu chocolate quente.

— Ai! Acho que queimei a boca. — Ele olhou para o irmão e viu a própria expressão refletida em seu rosto: preocupação, cansaço, medo. — É, fui eu quem trouxe as aves. Então, o que nós fazemos agora?

— Mudando de assunto, aqui eles fazem uma espécie de ensopado com macarrão muito gostoso mesmo.

— Tem certeza que estamos na Itália?

— Na verdade, não.

— Posso fazer uma pergunta?

Spider assentiu.

Fat Charlie tentou pensar na melhor maneira de formulá-la.

— Essa coisa das aves. De parecerem ter escapado de um filme de Alfred Hitchcock. Você acha que isso só acontece na Inglaterra?

— Por quê?

— Porque acho que aqueles pombos estão encarando a gente.

Ele apontou para a outra extremidade da praça. Os pombos não estavam fazendo as coisas normais que pombos fazem. Não estavam ciscando farelos de sanduíches nem rodeando turistas com a cabeça baixa atrás de restos de comida. Estavam imóveis, olhando fixamente para os dois. Ouviram um bater de asas, e outras cem aves surgiram, a maioria pousando na estátua de um homem gordo com um chapéu enorme no centro da praça. Fat Charlie olhou para os pombos, e os pombos olharam para ele.

— Então, o que é o pior que pode acontecer? — perguntou a Spider, em voz baixa. — Eles cagarem na gente?

— Não sei. Mas imagino que possam fazer mais do que isso. Mas primeiro, termine seu chocolate quente.

— Mas está quente.

— E vamos precisar de umas garrafas de água, não acha? Garçon?

Um farfalhar baixo de asas, o ruído de mais aves chegando, e, sob esse som, arrulhos baixos e indefinidos.

O garçom lhes trouxe garrafas de água. Spider, que agora voltara a usar sua jaqueta de couro preta e vermelha, as botou nos bolsos.

— São só pombos. — Mas, mesmo ao dizer aquilo, Fat Charlie sabia que as palavras não eram apropriadas. Eles não eram só pombos. Eram um exército. A estátua do homem tinha quase desaparecido embaixo das penas cinza e arroxeadas.

— Acho que gostava mais das aves quando não éramos inimigos.

— E estão em todo lugar. — Então Spider pegou a mão do irmão. — Feche os olhos.

Os pássaros levantaram voo como uma só ave. Fat Charlie fechou os olhos.

Os pombos atacaram como um lobo no aprisco...

Houve o silêncio e a sensação de distanciamento, e Fat Charlie pensou: Estou em um forno. Ele abriu os olhos e percebeu que era verdade: um forno de dunas vermelhas que se estendiam a distância até desaparecerem sob um céu madrepérola.

Spider anunciou:

— Um deserto. Pareceu uma boa ideia. Sem aves à vista. Um bom lugar para terminar nossa conversa. Tome.

Ele entregou uma garrafa de água a Fat Charlie.

— Obrigado.

— Então, você gostaria de me dizer de onde as aves vêm?

— Fui em um lugar aí. Havia muitas pessoas-bicho lá. Elas, hum... todas elas conheciam nosso pai. E tinha essa mulher, uma espécie de mulher-pássaro.

Spider olhou para ele.

— Fui em um lugar aí? Isso explica tudo.

— Tem um paredão com cavernas. E também esses penhascos, que dão para o nada. É como o fim do mundo.

— É o começo do mundo — corrigiu Spider. — Já ouvi falar nessas cavernas. Uma garota que conheci me contou uma vez sobre elas. Mas nunca estive lá. Então você conheceu a mulher-pássaro e...

— Ela se ofereceu para fazer você ir embora. E, hã... bem, eu fiz um acordo com ela.

— Isso — disse Spider, com um sorriso de astro do cinema — foi uma grande burrice.

— Eu não pedi a ela para machucar você.

— O que você achava que ela ia fazer para se livrar de mim? Mandar uma carta grosseira?

— Não sei. Eu não pensei direito. Estava chateado.

— Ótimo. Bem, se ela conseguir o que quer, você vai ficar chateado, e eu estarei morto. Você podia simplesmente ter me pedido para ir embora, sabia?

— Eu pedi!

— E o que foi que eu disse?

— Que você gostava da minha casa e que não ia a lugar algum.

Spider tomou um gole da água.

— O que exatamente você prometeu a ela?

Fat Charlie tentou lembrar. Agora que pensava naquilo, pareceu uma coisa estranha de se dizer.

— Que eu ia dar a ela a linhagem de Anansi — respondeu com relutância.

— O quê?

— Foi o que ela me pediu para dizer.

Spider pareceu incrédulo.

— Mas isso também inclui você.

A boca de Fat Charlie ficou muito seca de repente. Ele torceu para ser o ar do deserto e deu um gole em sua garrafa.

— Espere aí. Por que o deserto? — perguntou Fat Charlie.

— Não tem aves. Lembra?

— Então o que é aquilo?

Ele apontou. A princípio, pareciam pequeninas, depois notava-se que estavam apenas muito alto: voavam em círculos planando no céu.

— Abutres — respondeu Spider. — Eles não atacam coisas vivas.

— Certo. E pombos têm medo de gente — apontou Fat Charlie.

Os pontinhos no céu voavam em círculos cada vez mais baixos, e as aves pareceram ficar maiores.

— Boa observação. Merda.

Eles não estavam sozinhos. Alguém os estava observando de uma duna distante. Um observador desatento poderia ter confundido a figura com um espantalho.

— Vá embora! — gritou Fat Charlie, a voz engolida pela areia. — Eu retiro tudo o que disse. Eu não quero um acordo! Nos deixe em paz!

A capa de chuva esvoaçou no vento quente, e então a duna ficou deserta.

— Ela foi mesmo embora — disse Fat Charlie. — Quem poderia imaginar que seria tão simples?

Spider tocou seu ombro e apontou. Agora a mulher usando uma capa de chuva marrom estava parada sobre a duna mais próxima, tão perto que Fat Charlie podia ver o negro vítreo de seu olhar.

Os abutres, que não passavam de sombras negras no céu, pousaram: seus pescoços e cabeças de pele rosada — sem penas para facilitar enfiar a cabeça no interior de carcaças em decomposição — esticavam-se enquanto eles olhavam de perto para os irmãos, como se estivessem se perguntando se deviam esperar os dois homens morrerem ou se deviam fazer algo para agilizar o processo.

— O que mais entrou no acordo? — perguntou Spider.

— Hã?

— Teve mais alguma coisa? Ela lhe ofereceu alguma coisa para fechar o acordo? Esse tipo de coisa normalmente envolve uma troca.

Os abutres estavam avançando aos poucos, fechando o cerco. Havia mais riscos negros no céu, crescendo e descendo na direção deles. A mão de Spider se fechou em torno da mão de Fat Charlie.

— Feche os olhos.

O frio atingiu Fat Charlie como um soco no estômago. Ele respirou fundo e sentiu como se alguém tivesse congelado seus pulmões. Tossia sem parar enquanto o vento uivava como uma fera enorme.

Ele abriu os olhos.

— Posso perguntar onde estamos dessa vez?

— Antártida. — Spider fechou o zíper da jaqueta de couro e não pareceu se importar com o frio. — É um pouco gelado, infelizmente.

— Você não tem meio-termo? Direto do deserto para uma geleira?

— Não tem aves aqui — disse Spider.

— Não seria mais fácil irmos para dentro de um prédio seguro e sem aves? Podíamos almoçar.

— Certo. Agora você vai reclamar só por causa de um friozinho.

— Não é um friozinho. Deve estar cinquenta graus abaixo de zero aqui. E, de qualquer modo, veja.

Fat Charlie apontou para o céu. Uma linha pálida, como uma pequena letra m desenhada a giz no céu, pairava imóvel no ar gelado.

— Albatroz — disse.

— Fragata — corrigiu Spider.

— Como?

— Não é um albatroz. É uma fragata. E provavelmente nem nos viu.

— Talvez não, mas eles viram.

Spider se virou, e disse algo que soou muito com um palavrão. Podia não haver um milhão de pinguins andando e escorregando e deslizando sobre a barriga na direção dos irmãos, mas com certeza parecia ser isso. No geral, as únicas coisas que ficam amedrontadas pela aproximação de pinguins costumam ser peixes pequenos, mas quando estão em um grupo grandes o suficiente...

Fat Charlie estendeu a mão e segurou a de Spider sem que ele pedisse. Ele fechou os olhos.

Quando tornou a abri-los, estava em um lugar mais quente, apesar de ter aberto os olhos não ter feito diferença. Tudo era escuridão.

— Eu fiquei cego?

— Estamos em uma mina de carvão abandonada — explicou Spider. — Vi uma foto deste lugar em uma revista há alguns anos. A menos que haja bandos de tentilhões cegos que evoluíram para se adaptar a escuridão e se alimentar de restos de carvão, estamos seguros.

— Isso é uma piada, não é? Sobre os tentilhões cegos?

— Mais ou menos.

Fat Charlie suspirou, e o suspiro ecoou pela caverna subterrânea.

— Sabe, se você simplesmente tivesse ido embora, se tivesse deixado minha casa quando eu pedi, não estaríamos nessa situação.

— Isso não ajuda muito.

— Não era a intenção. Só Deus sabe como vou explicar isso para a Rosie.

Spider pigarreou.

— Não acho que você tenha que se preocupar com isso.

— Por quê?

— Ela terminou com a gente.

Houve um longo silêncio.

— É claro que sim — disse Fat Charlie.

— Eu criei uma confusão enorme, hein? — Spider pareceu desconfortável.

— Mas e se eu me explicar para ela? Quer dizer, e se eu contar a ela que eu não era você, que você estava fingindo ser eu...

— Eu já fiz isso. Foi quando ela decidiu que não queria ver nenhum de nós dois nunca mais.

— A mim também?

— Infelizmente, sim. Mas eu nunca tive a intenção de... Bem, quando fui ver você, tudo o que eu queria era dizer oi. Não... Hum... Eu estraguei tudo, não foi?

— Você está tentando pedir desculpas?

Silêncio. Então:

— É, acho que sim. Talvez.

Mais silêncio.

— Bem, então eu sinto muito mesmo por ter pedido à mulher-pássaro para se livrar de você.

De algum modo, não ver Spider enquanto falavam tornava isso mais fácil.

— É. Valeu. Agora eu só queria saber como me livrar dela.

— A pena! — exclamou Fat Charlie.

— Hã?

— Você me perguntou se ela me ofereceu alguma coisa em troca para fechar o acordo. Ela me deu uma pena.

— E onde ela está?

Fat Charlie tentou lembrar.

— Não tenho certeza. Estava comigo quando acordei na sala da sra. Dunwiddy, mas não quando embarquei no avião. Imagino que ainda deva estar com a sra. Dunwiddy.

Houve um silêncio longo, sombrio e ininterrupto. Fat Charlie começou a se perguntar se Spider tinha ido embora, se fora abandonado na escuridão sob o mundo. Por fim, ele disse:

— Você ainda está aí?

— Estou.

— Ufa, que alívio. Se você me abandonasse aqui, ia ficar preso para sempre.

— Não me dê ideias.

Mais silêncio.

— Em que país estamos? — perguntou Fat Charlie.

— Acho que na Polônia. Como eu disse, eu vi uma foto daqui. Só que na foto as luzes estavam acesas.

— Você só precisa ver as fotos dos lugares para ir até eles?

— Preciso saber onde eles estão.

Era impressionante, pensou Fat Charlie, como era tão silencioso na mina. O lugar tinha seu próprio silêncio especial. Ele começou a pensar sobre silêncios. Será que o silêncio de um túmulo era de um tipo diferente do silêncio, digamos, do espaço?

— Lembro da sra. Dunwiddy. Ela tem cheiro de violeta — comentou Spider.

Pessoas já tinham dito “Não há mais esperança, vamos todos morrer” com mais entusiasmo.

— Essa mesmo. Baixinha, muito velha. Óculos grossos. Acho que vamos ter que ir até lá buscar a pena. Depois vamos devolvê-la à mulher-pássaro. E esse pesadelo vai acabar. — Fat Charlie terminou o resto da água em sua garrafa, vinda de uma pracinha em algum lugar que não era a Itália. Ele fechou a tampa e botou a garrafa no chão no escuro, se perguntando se aquilo era jogar lixo na rua, se ninguém ia ver. — Então vamos dar as mãos e encontrar a sra. Dunwiddy.

Spider fez um ruído. O ruído não foi presunçoso. Foi preocupado e desconfiado. Na escuridão, Fat Charlie imaginou Spider murchando, como um sapo-boi ou um balão depois de uma semana. Fat Charlie queria que o irmão baixasse um pouco a bola. Mas não desejava ouvi-lo fazer o som de uma criança de seis anos apavorada.

Então ele perguntou:

— Espere aí. Você está com medo da sra. Dunwiddy?

— Eu... eu não posso chegar perto dela.

— Bem, se serve de consolo, eu também tinha medo dela quando era pequeno, mas, quando a reencontrei no funeral, percebi que não era tão má assim. Não mesmo. É só uma velhinha. — Em sua cabeça, ela acendeu as velas pretas mais uma vez e jogou as ervas na tigela. — Talvez um pouco assustadora. Mas você vai ficar bem quando encontrá-la.

— Ela me fez ir embora — disse Spider. — Eu não queria ir. Mas eu quebrei um globo no jardim dela. Uma coisa grande e espelhada, como um enfeite de natal gigante.

— Eu também fiz isso. Ela ficou furiosa.

— Eu sei. — A voz na escuridão era tímida, preocupada e confusa. — Foi nesse mesmo dia. Foi quando tudo começou.

— Bem. Não é o fim do mundo. Você me leva até a Flórida, eu posso ir lá e pegar a pena com a sra. Dunwiddy. Eu não tenho medo. Você não precisa aparecer.

— Não posso fazer isso. Não posso ir aonde ela estiver.

— Então, o que você está tentando dizer? Ela conseguiu alguma espécie de ordem de restrição mágica?

— Mais ou menos. Sim. — Então Spider disse: — Sinto saudades da Rosie. Sinto muito. Você sabe.

Fat Charlie pensou em Rosie. Ele achou estranhamente difícil se lembrar de seu rosto. Ele pensou em como seria não ter a mãe de Rosie como sua sogra, sobre as duas silhuetas nas cortinas da janela de seu quarto.

— Não precisa se sentir mal. Bem, na verdade pode se sentir mal sobre isso se quiser, porque você foi um grande filho da mãe. Mas, talvez, no fundo, tenha sido melhor assim.

Fat Charlie sentiu um aperto na região do coração, mas ele sabia que estava dizendo a verdade. É mais fácil falar a verdade no escuro.

— Sabe o que não faz sentido aqui? — perguntou Spider.

— Tudo?

— Não. Só uma coisa. Não entendo por que a mulher-pássaro se envolveu. Isso não faz sentido.

— Nosso pai a deixou furiosa...

— Ele deixava todo mundo furioso. Mas ela está errada. Se ela quer mesmo nos matar, por que não tenta fazer isso?

— Eu dei a ela nossa linhagem.

— Foi o que você disse. Não, tem mais alguma coisa acontecendo, e eu não entendo. — Silêncio. Em seguida, Spider disse: — Segure minha mão.

— Preciso fechar os olhos?

— Se quiser.

— Aonde nós vamos? Para a lua?

— Vou levar você para um lugar seguro — disse Spider.

— Ah, bom — respondeu Fat Charlie. — Gosto de segurança. Onde?

Mas então, sem mesmo abrir os olhos, Fat Charlie soube. O cheiro entregou no ato: corpos e vasos sanitários sujos, desinfetante, cobertores mofados e apatia.

— Aposto que eu estaria igualmente seguro em um quarto de hotel de luxo — disse em voz alta, mas não havia ninguém ali para ouvi-lo. Ele sentou na cama embutida na parede da cela seis e jogou o cobertor fino sobre os ombros. Sentia como se estivesse ali por uma eternidade.

Meia hora mais tarde, alguém apareceu e o levou à sala de interrogatório.

* * *

— Olá — cumprimentou Daisy com um sorriso. — Gostaria de uma xícara de chá?

— É melhor nem começar — retrucou Fat Charlie. — Já vi na TV. Sei como isso funciona. É aquela história de tira bom e tira mau, não é? Você vai me dar uma xícara de chá e uns bolinhos, daí vai entrar um sujeito grande e durão, todo nervosinho, e vai gritar comigo, jogar o chá fora e começar a comer meus bolinhos. Aí você vai impedi-lo de me agredir e vai fazê-lo me devolver o chá e os biscoitos. Então, por gratidão, vou contar tudo o que você quer saber.

— Então podemos pular toda essa parte — sugeriu Daisy. — E você pode nos contar de uma vez tudo o que queremos saber. De qualquer forma, não temos bolinhos.

— Eu já contei tudo que sei — explicou Fat Charlie. — Tudo. Grahame Coats me deu um cheque de duas mil libras e disse para eu tirar duas semanas de folga. Ele falou que estava muito feliz por eu ter chamado atenção para algumas irregularidades. Então pediu minha senha e se despediu de mim. Fim da história.

— E você continua afirmando que não sabe nada a respeito do desaparecimento de Maeve Livingstone?

— Acho que nunca a conheci em pessoa. Talvez a tenha visto uma vez, quando ela passou no escritório. Conversamos por telefone algumas vezes. Ela queria falar com Grahame Coats. Era para eu informá-la que o cheque estava no correio.

— E estava?

— Não sei. Eu achava que sim. Olha, não é possível que você pense que tive alguma coisa a ver com o desaparecimento dela.

— Não — concordou ela, animada. — Eu não acredito.

— Porque, honestamente, não sei o que poderia... Você o quê?

— Não acredito que você tenha alguma relação com o desaparecimento de Maeve Livingstone. E também não acredito que você tenha alguma relação com as irregularidades financeiras cometidas na Agência Grahame Coats, apesar de parecer que alguém teve muito trabalho para fazer parecer que tenha, sim. Mas é bastante óbvio que as práticas contábeis suspeitas e o desvio permanente de dinheiro são anteriores à sua entrada. Você está lá há apenas dois anos.

— Mais ou menos isso — concordou Fat Charlie.

Percebeu que estava de boca aberta. Então a fechou.

— Bem, sei que os policiais nos livros e nos filmes costumam ser uns idiotas, ainda mais no tipo de livro que tem um policial aposentado que luta contra o crime ou um detetive particular durão. E eu sinto muito, mesmo, por não termos bolinhos. Mas não somos completos idiotas.

— Eu não disse que eram — retrucou Fat Charlie.

— Não — concordou ela. — Mas estava pensando isso. Você está livre para ir embora. E com um pedido de desculpas, se quiser.

— Onde ela, hã, desapareceu? — perguntou Fat Charlie.

— A sra. Livingstone? Bem, na última vez que foi vista, ela estava entrando no escritório de Grahame Coats acompanhada dele.

— Ah.

— Eu falei sério quando ofereci a xícara de chá. Quer uma?

— Quero. Muito. Hã... Imagino que seu pessoal já tenha conferido a sala secreta no escritório dele. A que fica atrás da estante?

— Não, acho que não.

Daisy merece crédito por ter dito apenas aquilo, na maior calma.

— Bom, acho que não era para ninguém saber sobre ela — explicou Fat Charlie. — Mas uma vez entrei lá e a estante estava fora do lugar. E Grahame Coats estava lá dentro. Aí eu saí — acrescentou. — Não estava espionando, nem nada assim.

Daisy apenas disse:

— Podemos comprar uns bolinhos no caminho.

* * *

Fat Charlie não tinha certeza se gostava da liberdade. Havia muito espaço a céu aberto.

— Você está bem? — perguntou Daisy.

— Estou.

— Você parece um pouco nervoso.

— Acho que estou sim. Você vai achar besteira, mas estou com um pouco... Bem, eu tenho um problema com aves.

— O quê, uma fobia?

— Mais ou menos.

— Bem, é o termo que se usa para descrever o medo irracional de aves.

— Então como se chama um medo racional de aves? — Ele mordiscou o bolinho.

Ficaram em silêncio. Então Daisy disse:

— Bem, não tem nenhuma ave neste carro.

Ela estacionou em local proibido, próximo dos escritórios da Agência Grahame Coats, e eles entraram juntos.

* * *

Rosie estava deitada ao sol à beira da piscina na popa do convés de um

cruzeiro coreano* com uma revista sobre a cabeça e a mãe a seu lado. Ela tentava lembrar por que tinha em algum momento achado que tirar férias com a mãe poderia ser uma boa ideia.

Não havia jornais ingleses a bordo do cruzeiro, e Rosie não sentia falta deles. Mas sentia falta de todo o resto. Em sua cabeça, o cruzeiro era uma espécie de purgatório flutuante, que se tornava suportável apenas pelas ilhas que visitavam quase diariamente. Os outros passageiros desembarcavam para fazer compras, voar de parasail ou fazer passeios em alto-mar regados a rum em barcos piratas. Rosie, por outro lado, caminhava e conversava com as pessoas.

Ela encontrava pessoas sofrendo, pessoas que pareciam famintas ou infelizes, e queria ajudar. Tudo parecia ter jeito, para Rosie. Só precisava de alguém para consertar.

* * *

Maeve Livingstone esperava que a morte fosse várias coisas, mas irritante nunca foi uma delas. Mesmo assim, estava irritada. Estava cansada de passarem através dela, cansada de ser ignorada e, acima de tudo, cansada de não poder sair do prédio comercial na Aldwych.

— Quer dizer, se eu tiver que assombrar algum lugar — comentou com a recepcionista —, por que não a Somerset House, aqui perto? É uma linda construção, com uma vista maravilhosa do Tâmisa e detalhes arquitetônicos impressionantes. Também tem alguns restaurantezinhos muito simpáticos. Mesmo quando não precisamos comer, é bom ficar olhando as pessoas.

Annie, a recepcionista, cujo trabalho desde que Grahame Coats desaparecera tinha sido apenas atender o telefone com voz entediada e dizer “Infelizmente não sei” para quase todas as perguntas que faziam, e que, quando não estava desempenhando essa função, ligava para os amigos e discutia o mistério em voz baixa, mas animada, não respondeu. O que também fizera com tudo o mais que Maeve dissera a ela.

A monotonia foi interrompida pela chegada de Fat Charlie Nancy, acompanhado pela policial feminina.

Maeve sempre gostou muito de Fat Charlie, mesmo quando a função dele era garantir que ela logo receberia um cheque pelo correio, mas agora via coisas que nunca vira: sombras flutuavam acima dele, sempre mantendo certa distância. Coisas ruins que se aproximavam. Ele parecia estar fugindo de algo, e aquilo a deixou preocupada.

Ela os seguiu até o escritório de Grahame Coats e ficou muito feliz ao ver Fat Charlie ir direto para a estante no fundo da sala.

— Então, onde é o painel secreto? — perguntou Daisy.

— Não é um painel. Era uma porta. Atrás dessa estante aqui. Não sei. Talvez tenha um mecanismo secreto, ou algo do tipo.

Daisy olhou para a estante.

— Grahame Coats já escreveu uma autobiografia?

— Não que eu saiba.

Ela empurrou, então, o exemplar encadernado em couro de Minha vida, por Grahame Coats. Fez-se um clique, e a estante se afastou da parede, revelando uma porta trancada.

— Vamos precisar de um chaveiro — disse ela. — E acho que não precisamos mais do senhor por aqui, sr. Nancy.

— Certo — concordou Fat Charlie. — Bem... Foi, hã... Interessante. — Então acrescentou: — Imagino que você não gostaria. De ir comer alguma coisa. Comigo. Um dia desses?

— Comida chinesa. Domingo, no almoço. Cada um paga o seu. Você precisa chegar na hora que o restaurante abre, às onze e meia, ou vamos esperar uma eternidade na fila. — Ela anotou o endereço em um papel e o entregou a Fat Charlie. — Cuidado com os pássaros no caminho de casa.

— Pode deixar — respondeu ele. — Até domingo.

* * *

O chaveiro abriu uma carteira de tecido preto e retirou várias ferramentas finas de metal.

— Para ser sincero — começou —, é de se pensar que eles já teriam aprendido. Não é como se as fechaduras boas fossem caras. Quer dizer, você olha para essa porta: é muito bem-feita. É sólida. Levaria um dia inteiro para abri-la com um maçarico. E aí eles estragam tudo com uma fechadura que até uma criança de cinco anos munida de uma colher conseguiria abrir... Pronto, aqui está... Mamão com açúcar.

Ele empurrou a porta. A porta se abriu, e os dois viram algo no chão.

— Ora, pelo amor de Deus — comentou Maeve Livingstone. — Isso aí não sou eu.

Ela achou que teria mais afeição por seu corpo, mas não: para ela, aquilo parecia um bicho morto na beira da estrada.

Logo, o aposento ficou cheio de gente. Maeve, que nunca tivera muita paciência para histórias de detetive, logo ficou entediada, e só se interessou pelo que estava acontecendo quando sentiu que uma força a puxava para o térreo e para o exterior do prédio. Isso aconteceu quando seus restos mortais foram levados embora em um saco plástico azul discreto.

— Assim está melhor — comentou Maeve Livingstone.

Ela tinha saído.

Pelo menos tinha saído do escritório na Aldwych.

Sabia que, obviamente, havia regras. Tinha que haver. Só que ela não sabia muito bem quais eram.

Ela percebeu que desejava ter sido mais religiosa em vida, mas nunca conseguira. Quando pequena, fora incapaz de imaginar um Deus que desgostava de algumas pessoas o bastante para condená-las a serem torturadas no inferno pela eternidade, o que quase sempre acontecia por elas não acreditarem Nele do jeito certo. Depois de crescer, as dúvidas infantis se solidificaram em uma certeza sólida de que a Vida, do nascimento ao túmulo, era tudo o que havia, e todo o resto era imaginação. Tinha sido uma coisa boa de acreditar, pois lhe permitira lidar com a dor da vida, mas agora a crença estava sendo fortemente testada.

Para falar a verdade, ela nem mesmo tinha certeza se passar a vida frequentando o tipo certo de igreja a teria preparado para aquilo. Maeve estava chegando depressa à conclusão de que, em um mundo organizado, a Morte seria como uma viagem de luxo com todas as despesas pagas, e logo no início os passageiros receberiam um folheto cheio de tickets, vouchers de descontos, informações de tudo o que foi programado e vários telefones para ligar, em caso de problema.

Ela não andava. Não voava. Ela se movia como o vento, como um vento frio de outono, fazendo as pessoas tremerem ao passar e soprando as folhas caídas na calçada.

Ela foi ao primeiro lugar onde ia quando viajava para Londres: a Selfridges, uma loja de departamentos na Oxford Street. Maeve trabalhara no departamento de cosméticos da Selfridges quando era mais nova, entre os bicos que conseguia como dançarina, e fazia questão de voltar sempre que podia e comprar maquiagem cara, como prometera a si mesma que faria, nos velhos tempos.

Ela assombrou o departamento de maquiagem até ficar entediada, depois deu uma olhada na área de móveis e decoração. Nunca mais compraria uma mesa de jantar, mas olhar não matava...

Então ela flutuou pelo departamento de áudio e vídeo da loja, cercada por telas de televisão de todos os tamanhos. Algumas mostravam o noticiário. Estavam todas no mudo, mas a imagem que enchia as telas era de Grahame Coats. A raiva fervilhou e queimou dentro dela, como lava derretida. A imagem mudou, e então ela viu a si mesma, um clipe dela ao lado de Morris. Maeve reconheceu o esquete “Por cinco pratas eu chupo até o caroço” do Eu sou Morris Livingstone.

Ela desejou poder descobrir um meio de recarregar o telefone. Mesmo que a única pessoa com quem conseguisse conversar fosse aquela com a voz irritante que parecia a de um vigário, achou que não se importaria nem de falar com ele. Mas queria mesmo falar com Morris. Ele saberia o que fazer. Dessa vez, pensou, ela o deixaria falar. Dessa vez, escutaria.

— Maeve?

O rosto de Morris a encarava de cem telas de televisão. Por um instante, ela pensou que estava imaginando coisas. Depois achou que fosse parte do noticiário. Então ele a encarou, preocupado, disse seu nome outra vez, e Maeve soube que era ele, mesmo.

— Morris...?

Ele deu o famoso sorriso, e todos os rostos em todas as telas se concentraram nela.

— Olá, meu amor. Estava aqui me perguntando por que você estava demorando tanto. Bem, chegou a hora de você vir para cá.

— Aí?

— Do outro lado. Basta cruzar o vale. Ou talvez atravessar o véu. Enfim, isso aí.

Ele estendeu cem mãos, de cem telas.

Ela sabia que tudo o que precisava fazer era estender o braço e segurar a mão dele. Mas se surpreendeu ao dizer:

— Não, Morris. Acho que não.

Cem rostos idênticos ficaram perplexos.

— Maeve, meu amor. Você precisa deixar a carne para trás.

— Mas é óbvio, querido. E vou fazer isso. Juro. Assim que estiver pronta.

— Maeve, você está morta. Não tem como ficar mais pronta que isso.

Ela suspirou.

— Ainda preciso resolver umas coisas por aqui.

— Por exemplo?

Maeve se aprumou.

— Bem — disse —, eu estava planejando encontrar aquela criatura repugnante, Grahame Coats, e fazer... o que quer que fantasmas façam. Eu podia assombrá-lo, ou algo do tipo.

Morris pareceu ligeiramente incrédulo.

— Você quer assombrar Grahame Coats? Mas por quê?

— Porque — insistiu ela — ainda tenho assuntos para resolver por aqui.

Maeve apertou os lábios em uma linha fina e empinou o nariz.

Das cem telas de TV, Morris Livingstone a encarou e balançou a cabeça com um misto de admiração e desespero. Casara-se com ela porque Maeve nunca deixava que lhe dissessem o que fazer, e a amara por isso, mas desejou que pudesse, só daquela vez, convencê-la de alguma coisa. Em vez disso, disse.

— Bem eu não vou a lugar nenhum, amoreco. Avise quando estiver pronta.

E começou a desaparecer.

— Morris. Você tem alguma ideia de como faço para encontrá-lo?

Mas a imagem do marido tinha desaparecido por completo, e as televisões mostravam a previsão do tempo.

* * *

No domingo, Fat Charlie encontrou Daisy para comerem dim sum em um restaurante meio escuro na pequena Chinatown de Londres.

— Você está bonita — comentou.

— Obrigada — respondeu ela. — Eu me sinto horrível. Fui tirada do caso Grahame Coats. Agora é uma investigação de homicídio grandiosa. Acho até que tive sorte por ficar tanto tempo no caso.

— Bem — retrucou, animado. — Se você não tivesse sido parte dele, nunca teria tido o prazer de me prender.

— É verdade. — Ela teve a decência de parecer um pouquinho arrependida.

— Encontraram alguma pista?

— Mesmo se tivessem — retrucou ela —, eu não poderia conversar com você sobre elas. — Um carrinho barulhento parou ao lado da mesa, e Daisy escolheu vários pratos expostos. — Existe a teoria de que Grahame Coats se jogou da borda de uma balsa, no canal da Mancha. Foi a última compra em um de seus cartões de crédito, uma passagem diurna para Dieppe.

— Você acha isso provável?

Ela usou os palitinhos para pinçar um dim sum do prato e o enfiou na boca.

— Não — respondeu. — Meu palpite é que ele foi para algum lugar sem tratado de extradição. Provavelmente o Brasil. Matar Maeve Livingstone pode ter sido um impulso, mas todo resto todo foi planejado de forma bem meticulosa. Ele tinha um esquema. O dinheiro entrava na conta dos clientes, aí Grahame tirava seus quinze por cento, e algumas procurações garantiam que muito mais fosse transferido para ele por baixo dos panos. Muitos cheques estrangeiros sequer entraram nas contas dos clientes. O impressionante é ele ter conseguido manter a farsa por tanto tempo.

Fat Charlie mastigou um bolinho de arroz com algo doce no interior.

— Acho que você sabe onde ele está — disse.

Daisy parou de mastigar o dim sum.

— É por causa do jeito como você disse que ele tinha ido para o Brasil. Como se soubesse que ele não está lá.

— Isso é assunto policial — retrucou ela. — E infelizmente não posso comentar. Como está seu irmão?

— Não sei. Acho que foi embora. O quarto dele não estava lá em casa, quando eu cheguei.

— O quarto?

— As coisas dele. Ele tinha levado as coisas para lá. Depois que cheguei, não vi nem sinal dele. — Fat Charlie tomou um gole do chá de jasmim. — Espero que ele esteja bem.

— Acha que tem chance de ele não estar?

— Bem, meu irmão tem a mesma fobia que eu.

— Ah, o problema com as aves. Certo. — Daisy balançou a cabeça, condescendente. — E como vão a noiva e a futura sogra?

— Hã. Acho que nenhuma dessas descrições ainda é, hã, válida.

— Ah.

— As duas decidiram sumir.

— Por causa da prisão?

— Pelo que eu saiba, não.

Ela olhou para ele, parecia uma fada solidária.

— Sinto muito.

— Bem — argumentou Fat Charlie —, no momento não tenho emprego, não tenho vida amorosa e, em grande parte graças aos seus esforços, os vizinhos estão convencidos de que sou um assassino da máfia. Alguns passaram a atravessar a rua para me evitar. Por outro lado, o jornaleiro me pediu para dar uma lição no sujeito que engravidou a filha dele.

— O que você respondeu?

— A verdade. Mas acho que ele não acreditou. Ele me deu um pacote de salgadinhos de queijo com cebola e uma caixinha de chicletes e disse que haveria mais de onde aquilo tinha saído depois que eu concluísse o serviço.

— Isso vai passar.

Fat Charlie suspirou.

— Essa coisa toda me deixa mortificado.

— Mesmo assim — insistiu Daisy —, não é o fim do mundo.

Eles dividiram a conta, e o garçom entregou dois biscoitos da sorte junto com o troco.

— O que diz o seu? — perguntou Fat Charlie.

— Sua persistência será recompensada — disse ela. — E o seu?

— O mesmo que o seu — respondeu —, a boa e velha persistência.

Ele amassou o papel em uma bolinha do tamanho de uma ervilha e a enfiou no bolso. Caminhou com Daisy pela Leicester Square até a estação do metrô.

— Parece que é seu dia de sorte — disse ela.

— Como assim?

— Não tem nenhuma ave por aqui — explicou Daisy.

E, quando ela disse isso, Fat Charlie percebeu que era verdade. Não havia pombos ou estorninhos. Nem mesmo pardais.

— Mas sempre tem aves na Leicester Square.

— Bem, não hoje — retrucou ela. — Talvez estejam ocupadas.

Eles pararam no metrô e, por um momento idiota, Fat Charlie achou que fossem trocar um beijo de despedida. Daisy não o beijou. Apenas sorriu e disse “tchau”, e ele deu um aceno discreto, uma mão incerta em um movimento que podia ser um aceno e também podia muito bem ser um gesto involuntário. Então ela desceu as escadas e sumiu de vista.

Fat Charlie voltou andando pela Leicester Square na direção de Piccadilly Circus.

Ele pegou o papel do biscoito da sorte no bolso e o desamassou. Encontro você perto de Eros, estava escrito, e ao lado havia um desenho pequenino de algo que parecia um asterisco grande feito as pressas e que poderia muito bem ser uma aranha.

Ele examinava os céus e os prédios enquanto caminhava, mas não havia aves. O que era estranho, pois sempre havia aves em Londres. Havia aves em toda parte.

Spider estava sentado sob a estátua, lendo o tabloide News of the World. Ele ergueu os olhos quando Fat Charlie se aproximou.

— Na verdade não é Eros, sabia? — comentou Fat Charlie. — Representa a Caridade Cristã.

— Então por que ele está pelado e com arco e flecha na mão? Isso não me parece um gesto especialmente caridoso, muito menos uma atitude muito cristã.

— Só estou dizendo o que li — retrucou Fat Charlie. — Por onde você andou? Fiquei preocupado.

— Eu estou bem. Estava só evitando as aves, tentando entender o que aconteceu.

— Percebeu que hoje não há nenhuma ave por aqui? — indagou Fat Charlie.

— Percebi. Não sei o porquê. Mas andei pensando. E, sabe... Tem alguma coisa errada nessa história.

— Para começar, está tudo errado — retrucou Fat Charlie.

— Não. Estou falando que tem algo errado com a mulher-pássaro tentando nos matar.

— É. Isso é errado. É uma coisa muito feia de se fazer. Você quer dizer a ela, ou eu digo?

— Não errado desse jeito. Errado como... Bem, pense nisso. Quer dizer, apesar do filme do Hitchcock, pássaros não são a melhor arma para usar contra alguém. Eles podem ser bastante mortais para insetos, mas não são muito bons em atacar pessoas. Tiveram milhões de anos para aprender que, em geral, é mais provável as pessoas os comerem primeiro. O instinto deles é nos deixar em paz.

— Não de todos — retrucou Fat Charlie. — Não é assim com abutres. Ou corvos. Mas eles só aparecem no campo de batalha quando a luta já terminou. Ficam esperando a pessoa morrer.

— O quê?

— Eu disse: exceto abutres e corvos. Não quis dizer nada...

— Não. — Spider se concentrou. — Não. Passou. Você me fez pensar em alguma coisa, e eu quase entendi. Bem, você já conseguiu entrar em contato com a sra. Dunwiddy?

— Liguei para a sra. Higgler, mas ninguém atende.

— Então vá lá falar com elas.

— É fácil para você dizer isso, mas eu estou duro. Quebrado. Falido. Não posso ficar indo de um lado a outro do Atlântico de avião. Nem emprego tenho mais. Eu...

Spider enfiou a mão na parte de dentro da jaqueta preta e escarlate e tirou uma carteira. Pegou um maço de notas em dinheiro de lugares diferentes e as colocou na mão de Fat Charlie.

— Aqui. Isso deve bastar para você ir e voltar. Só consiga a pena de volta.

— Escuta, você por acaso considerou a possibilidade de que nosso pai não esteja morto, afinal?

— O quê?

— Bem, eu estava pensando. Talvez tudo isso seja uma de suas piadas. Parece o tipo de coisa que ele faria, não é?

— Não sei. Pode ser — respondeu Spider.

— Tenho certeza disso — comentou Fat Charlie. — É a primeira coisa que vou fazer. Vou direto até o túmulo dele e...

Mas ele não conseguiu dizer nem mais uma palavra, porque foi naquele instante que as aves chegaram. Eram pássaros urbanos, pombos, corvos e estorninhos, milhares e milhares deles. As aves se moviam pelo ar, entrelaçando-se como uma tapeçaria, formando uma muralha e avançando pela Regent Street na direção de Spider e de Fat Charlie. Um pelotão emplumado, grande como um arranha-céu, em perfeita formação e perfeitamente impossível. Estava em movimento, voando, mergulhando e costurando o céu. Fat Charlie via aquilo, mas a imagem não entrava em sua mente, só escorregava, se contorcia e retorcia sem parar dentro de sua cabeça. Ele olhou para cima e tentou compreender o que via.

Spider puxou o irmão pelo cotovelo e gritou:

— Corra!

Fat Charlie se virou para correr. Spider dobrava o jornal metodicamente e o botava na lata de lixo.

— Você também tem que fugir!

— Ela não quer você. Não ainda — retrucou Spider, e sorriu. Foi um sorriso que, em outras oportunidades, convencera mais pessoas do que se pode imaginar a fazer coisas que não queriam fazer. E Fat Charlie queria muito correr. — Traga a pena. Traga nosso pai também, se acha que ele está mesmo vivo. Mas vá.

Fat Charlie foi.

A muralha de pássaros começou a girar e se transformou, tornou-se um furacão de aves avançando na direção da estátua de Eros e do homem aos pés dela. Fat Charlie correu e entrou por uma porta, então observou a base do furacão escuro golpear Spider. Achou que podia ouvir o irmão gritando por cima do farfalhar ensurdecedor das asas. Talvez pudesse, mesmo.

Então as aves se dispersaram, e a rua ficou vazia. O vento levantou algumas penas sobre a calçada cinzenta.

Fat Charlie ficou ali parado, sentindo-se enjoado. Se algum dos passantes tinha percebido o que acontecera, não esboçou reação. Ele tinha certeza de que, sabe-se lá como, ninguém vira aquilo além dele.

Havia uma mulher parada embaixo da estátua, perto de onde o irmão estivera. A capa de chuva esfarrapada tremulava ao vento. Fat Charlie andou na direção dela.

— Olha — disse —, quando eu disse para fazê-lo ir embora, só quis dizer para tirá-lo da minha vida. Não para fazer o que quer que você tenha feito.

Ela o encarou e não disse uma palavra. Há uma loucura nos olhos de certas aves de rapina, uma ferocidade que pode ser muito intimidadora. Fat Charlie tentou não ficar intimidado por ela.

— Eu cometi um erro — declarou. — Estou disposto a pagar por ele. Leve-me, em vez dele. Traga-o de volta.

Ela continuou a encará-lo. Então disse:

— Sua vez também chegará, filho de Compé Anansi. Na hora certa.

— Por que você o quer?

— Eu não o quero — respondeu ela. — Por que ia querer? Eu tinha uma dívida com outro. Agora vou entregá-lo, então minha dívida estará paga.

O jornal foi sacudido pelo vento, e Fat Charlie ficou sozinho.

 

* O navio se chamava Baía das Gaivotas até os passageiros sofrerem um grande caso de intoxicação alimentar, que foi parar nas manchetes internacionais. O presidente do conselho, que não era um homem tão sensato quanto pensava, fez uma tentativa barata de trocar o nome sem mudar as iniciais do navio, o que gerou o maravilhoso nome de Baía dos Gases.

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