Os Filhos de Anansi
Capítulo um, que discorre principalmente sobre nomes e relações familiares
CAPÍTULO
UM
QUE DISCORRE
PRINCIPALMENTE
SOBRE
NOMES
E RELAÇÕES
FAMILIARES
ESTA HISTÓRIA COMEÇA assim como a maioria das coisas: com uma canção.
Afinal, no princípio existiam as palavras, e elas vinham com uma melodia. Foi assim que o mundo foi feito, foi assim que o vazio se dividiu, que as terras, as estrelas, os sonhos, os pequenos deuses e os animais surgiram no mundo.
Eles foram cantados.
As grandes criaturas foram cantadas para a vida depois que o Cantor terminou os planetas, as montanhas, as árvores, os oceanos e os animais menores. Os penhascos que limitam a existência foram cantados, assim como os campos de caça e a escuridão.
As canções permanecem. Elas duram. A canção certa pode transformar um imperador em motivo de piada, pode derrubar dinastias. Uma canção pode continuar a existir muito tempo depois de os eventos e pessoas nela cantados terem virado pó, depois sonhos e, então, terem desaparecido. Esse é o poder das canções.
Há outras coisas que se pode fazer com canções. Elas não apenas constroem mundos ou recriam existências. O pai de Fat Charlie Nancy, por exemplo, as estava usando apenas para ter o que ele queria e esperava que fosse uma noitada maravilhosa.
Antes de o pai de Fat Charlie entrar no bar, o barman achava que aquela noite de karaokê seria um fracasso total. Mas aí o velhinho entrou no salão com um andar afetado e passou pela mesa de várias loiras com seus sorrisos de turista e pele avermelhada de sol sentadas perto do palco improvisado no canto. Cumprimentou-as tocando a aba do chapéu — pois ele usava chapéu, um fedora verde imaculado, além de luvas cor de lima —, e em seguida caminhou até a mesa onde estavam as mulheres, que deram risada.
— Estão se divertindo, senhoritas? — perguntou.
Elas continuaram a rir e disseram que se divertiam muito, obrigada, e que estavam ali de férias. Ele respondeu que a noite ainda ia melhorar, era só esperarem para ver.
Ele era mais velho que elas, muito, muito mais velho, mas era extremamente charmoso, parecia saído de uma era perdida, quando boas maneiras e gestos corteses valiam alguma coisa. O barman relaxou. Com alguém como ele no bar, seria uma noite boa.
Havia karaokê. Havia dança. Naquela noite, o velho cantou no palco improvisado não uma, mas duas vezes. Ele tinha uma bela voz, um sorriso contagiante e pés que reluziam ao dançar. Na primeira vez que subiu no palco, cantou “What’s New Pussycat?”. Na segunda, acabou com a vida de Fat Charlie.
* * *
Fat Charlie só foi gordo por algum tempo. Desde pouco antes dos dez anos de idade — quando sua mãe anunciou para o mundo que se havia alguma coisa que ela já não aguentava mais (e se o cavalheiro em questão tivesse algum problema com isso, podia simplesmente enfiá-lo você sabe onde) era o casamento com aquele bode velho com quem cometera o erro infeliz de se desposar e que partiria na manhã seguinte para algum lugar bem distante e era melhor que ele não tentasse segui-la — até os catorze anos, quando Fat Charlie cresceu um pouco e se exercitou um tanto mais. Ele não era gordo. Para falar a verdade, não era nem mesmo gordinho, apenas tinha as extremidades arredondadas e de aparência macia. Mas o apelido Fat Charlie grudou como um chiclete na sola de um tênis. Ele se apresentava como Charles, ou, quando tinha vinte e poucos anos, Chaz, ou, por escrito, C. Nancy, mas não adiantava: o apelido penetrava e se infiltrava na nova fase de sua vida da mesma maneira que baratas invadem as rachaduras e o mundo atrás da geladeira em uma cozinha nova. E aí, gostando ou não, e ele não gostava, Charlie virava Fat Charlie outra vez.
Ele sabia, em um nível irracional, que aquilo acontecia porque seu pai lhe dera o apelido, e quando o pai dava nomes às coisas, eles pegavam.
Havia um cachorro na casa em frente, na Florida Street, onde Fat Charlie crescera. Era um boxer castanho, de pernas longas e orelhas cortadas, com um focinho que dava a impressão de que o bicho, quando filhote, havia batido de cara na parede. Mantinha a cabeça erguida e o coto da cauda ereto. Era com certeza um aristocrata entre os caninos. Participara de exposições. Tinha medalhas de Melhor da Raça, Melhor da Classe, e até uma medalha de Melhor da Exposição. Esse cão respondia pela graça de Campbell’s Macinrory Arbuthnot, o Sétimo, mas seus donos, na intimidade, o chamavam de Kai. Isso durou até o dia em que o pai de Fat Charlie, sentado na velha cadeira de balanço da varanda da frente, bebendo cerveja, notou o cachorro que caminhava lentamente de um lado para outro no jardim do vizinho, em uma guia que ia de uma palmeira a um moirão de cerca.
“Mas que cachorro pateta”, comentou o pai de Fat Charlie. “Parece aquele amigo do Pato Donald. Ei, Pateta!”
E aquele que já tinha sido o Melhor da Exposição de repente deixou de ser. Para Fat Charlie, foi como se ele passasse a ver o cão pelos olhos do pai, e, nossa, como aquele cachorro era pateta, afinal de contas. Parecia de borracha.
Não demorou para o nome se espalhar pela rua inteira. Os donos de Campbell’s Macinrory Arbuthnot, o Sétimo, lutaram contra isso, mas enfrentado e discutido com um furacão teria o mesmo efeito. Completos estranhos acariciavam a cabeça do até então orgulhoso boxer e diziam: “Olá, Pateta. Como vai, garoto?” Os donos do cachorro pararam de inscrevê-lo em competições pouco depois disso. Não tinham mais coragem. “Cachorro com cara de pateta”, anunciavam os juízes.
Os nomes que o pai de Fat Charlie dava pegavam. Funcionava assim, e ponto final.
Isso estava longe de ser a pior coisa sobre o pai de Fat Charlie.
Quando Fat Charlie estava crescendo, houve uma série de candidatas ao posto de pior coisa sobre seu pai: os olhares descarados e os dedos igualmente aventureiros, pelo menos segundo as moças da região, que reclamavam com a mãe de Fat Charlie — e aí o pai ficava encrencado —, as pequenas cigarrilhas pretas que ele fumava e insistia em chamar de charutos, cujo fedor impregnava tudo que ele tocava; o gosto por uma forma peculiar de sapateado arrastado que, Fat Charlie desconfiava, tinha sido moda por apenas meia hora no Harlem, nos anos 1920, e a ignorância total e insuperável sobre os assuntos do mundo atual, combinada com uma aparente convicção de que os seriados de comédia da TV eram reflexões de meia hora sobre a vida e a luta de pessoas reais. Sozinhos, na opinião de Fat Charlie, nenhum desses pontos era a pior coisa sobre seu pai, apesar de cada um ter contribuído para a pior coisa.
A pior coisa sobre o pai de Fat Charlie era simplesmente isto: ele era constrangedor.
Claro, todo mundo tem vergonha dos pais. Faz parte. É da natureza dos pais constranger apenas por existir, assim como é da natureza das crianças de certa idade morrer de constrangimento, vergonha e mortificação se os pais sequer falarem com elas na rua.
O pai de Fat Charlie, é claro, tinha elevado isso a uma forma de arte, e o fazia com prazer, assim como adorava pegadinhas, que iam desde as mais simples — Fat Charlie jamais se esqueceria da primeira vez em que tentara deitar em uma cama com o lençol dobrado de um jeito que ele não conseguia entrar embaixo das cobertas — às absurdamente complexas.
— Como o quê? — perguntou Rosie, a noiva de Fat Charlie, certa noite, quando ele, que não costumava falar sobre o pai, tentara, de forma atrapalhada, explicar por que achava que convidá-lo para o casamento que se aproximava era uma ideia terrível.
Estavam em um pequeno bar de vinhos em South London. Fat Charlie há muito era da opinião de que seis mil quilômetros e o oceano Atlântico eram uma boa distância para manter entre ele e o pai.
— Bem... — começou Fat Charlie, e lembrou-se de um desfile de indignidades, cada uma capaz de fazer seus dedos dos pés se contorcerem involuntariamente. Escolheu uma delas. — Bem, quando troquei de escola, ainda criança, meu pai fez questão de dizer como, quando ele era novo, sempre ficava ansioso para o Dia dos Presidentes. Isso acontecia porque, segundo a lei, no Dia dos Presidentes as crianças que vão à escola vestidas como seus presidentes favoritos ganham um grande saco cheio de doces.
— Ah, é uma bela lei — comentou Rosie. — Gostaria que tivéssemos algo assim aqui na Inglaterra.
Rosie nunca tinha saído do Reino Unido, sem contar uma viagem de férias do Club 18-30 a uma ilha que, ela estava quase certa, ficava no mar Mediterrâneo. Rosie tinha olhos castanhos cálidos e um bom coração, ainda que geografia não fosse seu forte.
— Não é uma boa lei — retrucou Fat Charlie. — Nem mesmo é uma lei. Ele inventou tudo. A maioria dos estados nem tem aula no Dia dos Presidentes, e, mesmo nos que têm, não existe essa tradição de ir à escola fantasiado do seu presidente favorito. Crianças vestidas de presidente não ganham grandes sacos cheios de doces por causa de uma lei do Congresso, nem sua popularidade pelos anos seguintes, durante todo o ensino fundamental e médio, é definida pelo presidente que você escolheu. Não é como se as crianças pouco populares se vestissem como os presidentes óbvios, os Lincolns, Washingtons e Jeffersons, enquanto as que se tornariam muito populares se vestissem como John Quincy Adams ou Warren Gamaliel Harding, ou alguém assim. E dá azar falar sobre isso antes do dia. Ou melhor, não dá, mas ele disse que dava.
— Meninos e meninas se vestem de presidente?
— Ah, sim. Meninos e meninas. Por isso passei a semana inteira antes do Dia dos Presidentes lendo tudo o que havia para ler sobre eles na Enciclopédia Mundial, tentando escolher o certo.
— Em nenhum momento você desconfiou de que ele estivesse lhe pregando uma peça?
Fat Charlie balançou a cabeça.
— Não é o tipo de coisa em que você pensa quando meu pai começa a fazer sua cabeça. Ele é um grande mentiroso. E é convincente.
Rosie tomou um gole do Chardonnay.
— Então, de que presidente você foi?
— Taft. Ele foi o vigésimo sétimo presidente. Vesti um terno marrom que meu pai tinha encontrado em algum lugar, dobrei as barras da calça várias vezes e enfiei um travesseiro na barriga. Pintei um bigode. Meu pai me levou pessoalmente à escola nesse dia. Eu estava todo orgulhoso. As outras crianças começaram a gritar e apontar, e em algum momento no meio disso tudo eu me tranquei em uma das cabines do banheiro masculino e chorei. Eles não quiseram me deixar voltar para casa para trocar de roupa. Passei o dia inteiro daquele jeito. Foi um inferno.
— Você devia ter inventado alguma coisa — sugeriu Rosie. — Devia ter dito que iria a uma festa a fantasia depois, ou algo assim. Ou apenas contado a verdade.
— É — respondeu Fat Charlie, pensativo e sombrio, perdido em lembranças.
— O que seu pai disse quando você chegou em casa?
— Ah, ele caiu na gargalhada. Riu, fez piada, deu muita risada e tal. Depois falou que talvez não fizessem mais aquilo de Dia dos Presidentes. Ora, por que não íamos juntos à praia procurar sereias?
— Procurar... sereias?
— Nós íamos à praia e ficávamos andando por lá, e ele me fazia passar mais vergonha do que qualquer outro ser humano na face da Terra. Começava a cantar e a fazer uma espécie de dança na areia arrastando os pés, e falava com as pessoas que passavam. Pessoas que ele nem conhecia, pessoas que nunca tinha visto, e eu odiava isso. Só que ele me dizia que havia sereias no Atlântico, e que, se eu olhasse rápido e com atenção, conseguiria ver uma. “Ali!”, dizia ele. “Viu aquela? Era uma ruiva das grandes, com rabo verde.” E eu olhava e olhava, mas nunca via.
Fat Charlie balançou a cabeça. Então pegou um punhado do mix de castanhas da tigela na mesa e começou a jogá-las na boca, mordendo-as como se cada noz fosse uma indignidade de vinte anos atrás que nunca poderia ser apagada.
— Bem — disse Rosie, animada. — Acho que ele parece ser um doce, uma figura! Temos que convidá-lo para o casamento. Ele seria a alma da festa.
O que, explicou Fat Charlie depois de um breve momento engasgado com uma castanha-do-pará, era a última coisa que alguém poderia querer no casamento, não era? O pai aparecer e se tornar a alma da festa? Ele disse que o pai ainda era, sem sombra de dúvida, a pessoa mais constrangedora nesta terra maravilhosa criada por Deus. Acrescentou que estava perfeitamente feliz sem ver o bode velho por tantos anos, e que a melhor coisa que a mãe tinha feito na vida foi ter abandonado o pai e ido para a Inglaterra morar com tia Alanna. E completou o argumento declarando, categórico, que nem que a vaca tussa, nem que o rebanho inteiro tussa, nem que todos os bichos da fazenda morram de tanto tossir, ele convidaria o pai. Na verdade, continuou Fat Charlie, para encerrar o assunto, a melhor coisa de se casar era não ter que chamar o pai para a cerimônia.
E então Fat Charlie viu a expressão no rosto de Rosie, o brilho gelado em seus olhos normalmente amistosos, e se corrigiu depressa, explicando que quisera dizer que na verdade aquela era a segunda melhor coisa, mas aí já era tarde demais.
— Você vai ter que se acostumar à ideia — respondeu Rosie. — Afinal de contas, um casamento é uma oportunidade maravilhosa para reaproximações e reconciliações. É sua chance de mostrar a ele que não há ressentimentos.
— Mas há ressentimentos — retrucou Fat Charlie. — Muitos.
— Você tem o endereço dele? Ou o telefone? Acho que você deveria ligar. Cartas são um pouco formais demais quando seu único filho está se casando... Você é o único filho dele, não é? Ele tem e-mail?
— É, sou o único filho dele. Não tenho a menor ideia se ele tem e-mail. Acho que não — respondeu Fat Charlie.
Cartas são uma boa opção, pensou. Para começar, os correios podem perdê-las.
— Bem, você deve ter um endereço ou um número de telefone.
— Não tenho — retrucou Fat Charlie, sendo sincero.
Talvez o pai tivesse se mudado. Podia ter deixado a Flórida e ido para algum lugar onde não houvesse telefones. Nem endereços.
— Bem — inquiriu Rosie, com rispidez. — Quem tem?
— A sra. Higgler — respondeu Fat Charlie, desistindo de discutir com a noiva.
Rosie deu um sorriso carinhoso.
— E quem é a sra. Higgler?
— Uma amiga da família. Era nossa vizinha quando eu era criança.
Ele tinha falado com a sra. Higgler vários anos antes, quando a mãe estava morrendo. Tinha, a pedido da mãe, ligado para que ela avisasse ao pai e pedisse a ele que entrasse em contato. E, alguns dias depois, havia uma mensagem na secretária eletrônica de Fat Charlie, deixada quando ele estava no trabalho, com uma voz que era inconfundivelmente de seu pai, mesmo que soasse um tanto mais rouca e um pouco bêbada.
O pai dizia que não era uma boa hora, que alguns negócios o impediam de deixar os Estados Unidos. Depois acrescentava que, apesar de tudo, a mãe de Fat Charlie era uma mulher incrível. Alguns dias depois, um vaso com flores variadas foi entregue na enfermaria do hospital. A mãe bufou ao ler o cartão.
— Seu pai acha que pode me enrolar assim tão fácil? — perguntou. — Ele está aprontando alguma, aposto.
Mas a mãe pediu à enfermeira que pusesse as flores em um lugar de honra ao lado da cama e depois, várias vezes, perguntou a Fat Charlie se ele ouvira alguma coisa sobre o pai visitá-la antes que ela morresse.
Fat Charlie dizia que não. Começou a odiar a pergunta, a resposta e a expressão no rosto dela quando ouvia que não, o pai não viria.
O pior dia, na opinião de Fat Charlie, foi quando o médico, um homem baixo e taciturno, o puxou para um canto e lhe disse que não ia demorar muito, a mãe estava piorando rápido e era apenas uma questão de mantê-la confortável até o fim.
Fat Charlie assentiu e foi vê-la. Ela segurou sua mão e estava perguntando se ele tinha lembrado de pagar a conta de gás quando o barulho no corredor começou. Um som cheio de batidas altas, estrondos, buzinas, chocalhos, passos, o soar de pratos metálicos e tambores, o tipo de som que não costuma ser ouvido em hospitais, onde as placas nas escadas exigem silêncio e são reforçadas pelos olhares gelados das enfermeiras.
O barulho aumentava.
Por um instante, Fat Charlie pensou que pudessem ser terroristas. Mas sua mãe deu um leve sorriso ante aquela cacofonia.
— “Yellow Bird” — sussurrou.
— O quê? — perguntou Fat Charlie, com medo de que ela tivesse perdido a lucidez.
— “Yellow Bird” — repetiu ela, mais alto e com mais firmeza. — É o que eles estão tocando.
Fat Charlie abriu a porta e olhou para fora.
Avançando pelo corredor do hospital, ignorando os protestos dos enfermeiros e os olhares dos pacientes de pijama acompanhados de suas famílias, havia o que parecia ser uma banda muito pequena de jazz de Nova Orleans. Havia um saxofone, uma tuba e um trompete. Havia um homem enorme com o que parecia ser um baixo acústico pendurado no pescoço grosso. Outro tocava tambor. E, à frente do grupo, em um elegante terno xadrez, usando um chapéu fedora verde e luvas cor de lima, estava o pai de Fat Charlie. Ele não tocava instrumento algum, mas vinha sapateando de um jeito arrastado pelo linóleo encerado do chão do hospital, tirando o chapéu para todos os membros da equipe médica de plantão, apertando a mão de qualquer pessoa que chegasse perto o bastante para falar com ele ou tentar reclamar do barulho.
Fat Charlie mordeu o lábio e rezou a quem quer que o estivesse ouvindo. Pedia que a terra se abrisse e o engolisse, ou, se isso não fosse possível, que sofresse um ataque cardíaco fulminante, piedoso e absolutamente fatal. Não teve tanta sorte. Permaneceu entre os vivos, a banda continuava a se aproximar, e o pai ainda dançava, apertando mãos e sorrindo.
Se há alguma justiça neste mundo, pensou, meu pai vai passar direto por nós e continuar por esse corredor até o setor de urologia. Entretanto, não houve justiça, e o pai chegou à entrada da enfermaria da oncologia e parou.
— Fat Charlie — cumprimentou ele, alto o suficiente para que todos na enfermaria, no andar, no hospital, fossem capazes de entender que aquele era alguém que o conhecia. — Fat Charlie, saia do caminho. Seu pai chegou.
Ele saiu do caminho.
A banda, regida pelo pai, entrou na enfermaria e fez um caminho sinuoso até chegar à cama da mãe. Ela olhou para eles, enquanto se aproximavam, e sorriu.
— “Yellow Bird” — disse, sem forças. — Minha música favorita.
— E que tipo de homem eu seria se me esquecesse disso? — perguntou o pai de Fat Charlie.
Ela balançou a cabeça de leve, estendeu a mão e apertou a dele, dentro da luva cor de lima.
— Com licença — chamou uma mulher branca e baixinha, com uma prancheta. — Essas pessoas estão com o senhor?
— Não — respondeu Fat Charlie, corando. — Não estão. Não mesmo.
— Mas essa é sua mãe, certo? — inquiriu a mulher, com um olhar mortal. — Preciso pedir para que essas pessoas deixem a enfermaria agora mesmo, e sem provocar maiores tumultos.
Fat Charlie murmurou uma resposta.
— O quê?
— Disse que tenho quase certeza de que não vou conseguir obrigá-los a nada.
Quando Fat Charlie achava que as coisas não poderiam ficar piores, seu pai pegou uma bolsa com o baterista e começou a tirar latas de cerveja escura e distribuir para a banda, para a equipe de enfermagem, para os pacientes. Em seguida, acendeu um charuto.
— Com licença — disse a mulher com a prancheta ao ver a fumaça, então se lançou pela sala na direção do pai de Fat Charlie como se fosse um míssil Scud teleguiado.
Fat Charlie aproveitou o momento para ir embora. Pareceu a decisão mais sábia.
Naquela noite, ficou sentado em casa esperando o telefone tocar ou baterem à porta, tão animado quanto um homem ajoelhado na guilhotina espera que a lâmina beije seu pescoço. Mesmo assim, o aparelho não tocou.
Ele mal dormiu. Entrou discretamente no hospital, na manhã seguinte, preparado para o pior.
A mãe, na cama, parecia mais feliz e confortável do que jamais estivera em meses.
— Ele se foi — explicou ela, quando Fat Charlie chegou. — Não podia ficar. Preciso dizer que preferia que você não tivesse ido embora daquele jeito. Acabamos fazendo uma festa por aqui. Nós nos divertimos muito.
Fat Charlie não podia pensar em nada pior do que estar em uma festa dada pelo pai na ala de oncologia do hospital com uma banda de jazz. Mas não respondeu.
— Ele não é um homem mau — continuou a mãe, com um brilho nos olhos. Em seguida, franziu a testa. — Ora, isso não é bem verdade. Ele com certeza não é um homem bom. Mas me passou muitas energias positivas ontem à noite. — E ela sorriu, um sorriso de verdade, e por apenas um instante pareceu jovem outra vez.
A mulher com a prancheta estava parada à porta e o chamou com o dedo indicador. Fat Charlie foi rastejando pela enfermaria na direção dela, desculpando-se antes mesmo que ela conseguisse ouvir. A expressão da mulher, percebeu ele, ao se aproximar, não era mais de uma serpente com dor de barriga. Agora ela se parecia muito com um gatinho.
— Seu pai — disse ela.
— Sinto muito — respondeu Fat Charlie.
Era o que ele sempre dizia, desde criança, toda vez que mencionavam o pai.
— Não, não, não — retrucou a ex-serpente. — Não há nada pelo que se desculpar. Eu só estava curiosa. Seu pai. Caso a gente precise entrar em contato com ele, não temos número de telefone nem endereço no arquivo. Eu devia ter pedido a ele ontem à noite, mas esqueci completamente.
— Acho que ele não tem telefone — respondeu Fat Charlie. — E a melhor maneira de encontra-lo é ir à Flórida e dirigir até a autoestrada A1A. É a estrada que percorre boa parte da costa leste do estado. À tarde, a senhora pode encontrá-lo pescando em uma ponte. À noite, ele estará em um bar.
— Que homem charmoso — comentou ela, desejosa. — O que ele faz da vida?
— Já falei. Ele diz que é o milagre da multiplicação dos peixes e da criação do vinho.
Ela encarou Fat Charlie sem expressão, e ele se sentiu um idiota. Quando o pai dizia aquilo, as pessoas riam.
— Hum, que nem na Bíblia. Jesus multiplicou os peixes e transformou a água em vinho. Meu pai costuma dizer que não faz nada, só pesca e bebe, e é um milagre que ainda ganhe dinheiro. É uma piada.
Um olhar sonhador.
— É. Ele conta piadas muito engraçadas. — Então a mulher estalou a língua e voltou a falar sério. — Bem, preciso que o senhor volte aqui às cinco e meia.
— Por quê?
— Para pegar sua mãe e as coisas dela. O dr. Johnson não contou que ela vai receber alta?
— Vocês vão mandá-la para casa?
— Sim, sr. Nancy.
— Mas e... E o câncer?
— Parece ter sido alarme falso.
Fat Charlie não conseguia entender como podia ter sido alarme falso. Na semana anterior estavam falando sobre mandar a mãe para uma casa de repouso com assistência permanente. O médico usava expressões como “semanas, não meses” e “deixá-la o mais confortável possível enquanto aguardamos o inevitável”.
Apesar disso, Fat Charlie voltou às cinco e meia e apanhou a mãe, que não pareceu nada surpresa ao descobrir que não estava mais morrendo. No caminho de casa, ela contou a Fat Charlie que usaria o que economizara durante toda a vida para dar a volta ao mundo.
— Os médicos diziam que eu tinha três meses — explicou ela. — E me lembro de pensar que, se saísse daquela cama de hospital, ia conhecer Paris, Roma e lugares assim. Vou voltar a Barbados e a Saint Andrews. Talvez vá à África. E à China. Gosto de comida chinesa.
Fat Charlie não tinha certeza do que estava acontecendo, mas, o que quer que fosse, a culpa era do pai. Ele acompanhou a mãe e uma mala enorme até o Aeroporto de Heathrow e se despediu dela no portão de embarque internacional. Ela estava com um enorme sorriso ao entrar, agarrada ao passaporte e às passagens, e parecia mais jovem do que ele se lembrava em muitos anos.
A mãe enviou cartões-postais de Paris, Roma e Atenas, e também de Lagos e da Cidade do Cabo. No cartão-postal de Nanquim estava escrito que ela com certeza não gostava do que eles consideravam comida chinesa na China, e que mal podia esperar para voltar a Londres e comer comida chinesa decente.
Ela morreu dormindo em um hotel em Williamstown, na ilha de Saint Andrews, no Caribe.
No funeral, em um crematório de South London, Fat Charlie passou o tempo inteiro esperando ver o pai. Talvez o velho fosse fazer uma entrada triunfal à frente de uma banda de jazz, ou avançar pelo corredor da igreja seguido por uma trupe de palhaços ou meia dúzia de chimpanzés andando de velocípedes e fumando charutos. Fat Charlie não parou de olhar para trás, na direção da porta da capela, nem mesmo durante a cerimônia. Mas o pai não estava lá, só os amigos da mãe e parentes distantes, a maioria mulheres gordas de chapéu preto, que assoavam o nariz, enxugavam os olhos e balançavam a cabeça.
Foi durante o cântico final, depois que já tinham apertado o botão e a mãe de Fat Charlie havia deslizado lentamente pela esteira rolante até sua recompensa final, que Fat Charlie percebeu um homem mais ou menos da sua idade de pé no fundo da capela. Não era seu pai, obviamente. Era alguém que ele não conhecia, alguém que talvez nem tivesse percebido, lá no fundo, nas sombras, se não estivesse à procura do pai... até ver o estranho, de terno preto e elegante, com os olhos baixos e as mãos entrelaçadas.
O olhar de Fat Charlie se demorou um pouco mais do que devia, e o estranho olhou para ele e deu um sorriso sem graça, do tipo que sugeria que os dois estavam naquela juntos. Não era o tipo de expressão que se vê no rosto de estranhos, mas, mesmo assim, Fat Charlie não conseguiu identificar o homem. Ele virou o rosto de volta para a frente da capela. Cantaram “Swing Low, Sweet Chariot”, uma canção que Fat Charlie tinha quase certeza de que a mãe detestava, e o reverendo Wright os convidou a ir à casa de sua tia-avó, Alanna, para comer alguma coisa.
Não havia ninguém na casa da tia-avó de Fat Charlie que ele já não conhecesse. Nos anos que se seguiram à morte da mãe, ele às vezes pensava naquele estranho. Perguntava a si mesmo quem era e por que estava lá. Às vezes, Fat Charlie achava que tinha apenas imaginado o homem...
— Então — continuou Rosie, terminando o Chardonnay. — Você vai ligar para a sra. Higgler e passar o número do meu celular. Conte a ela sobre o casamento e a data... Aliás, você acha que devíamos convidá-la?
— Podemos, se quisermos — respondeu Fat Charlie. — Acho que ela não virá. É uma velha amiga da família. Conheceu meu pai ainda na era medieval.
— Bem, dê uma sondada. Descubra se devemos enviar um convite.
Rosie era uma pessoa naturalmente boa. Havia nela um pouco da essência de Francisco de Assis, Robin Hood, Buda e Glinda, a Fada Boa do Norte. Saber que estava prestes a unir seu amor verdadeiro e o pai dele, com quem não tinha mais contato, dava ao casamento iminente uma dimensão extra, concluiu ela. Não era mais apenas um casamento: era praticamente uma missão humanitária. E Fat Charlie conhecia Rosie havia tempo suficiente para saber que nunca devia ficar entre a noiva e sua necessidade inata de Fazer o Bem.
— Vou ligar para a sra. Higgler amanhã.
— Sabe de uma coisa — retrucou Rosie, com uma ruguinha no nariz. — Ligue para ela esta noite. Afinal de contas, ainda não é muito tarde nos Estados Unidos.
Fat Charlie assentiu. Eles saíram juntos do bar de vinhos. Rosie avançava com passos alegres, e Fat Charlie como um homem indo para a forca. Ele disse a si mesmo que deixasse de ser bobo: afinal de contas, talvez a sra. Higgler tivesse se mudado, ou o telefone estivesse desligado. Era possível. Tudo era possível.
Eles foram até a casa de Fat Charlie, o segundo andar de uma casinha pequena na Maxwell Gardens, perto da Brixton Road.
— Que horas são na Flórida? — perguntou Rosie.
— Fim da tarde — respondeu Fat Charlie.
— Bem, então ligue.
— Talvez fosse melhor esperar um pouco. Ela pode ter saído.
— E talvez fosse melhor ligar agora, antes que ela comece a jantar.
Fat Charlie encontrou a velha agenda telefônica de papel e, na letra H, havia um pedaço de envelope velho com a letra da mãe em que estava anotado um número de telefone e, embaixo, Callyanne Higgler.
O telefone chamou várias vezes.
— Ela não está — disse a Rosie, mas, naquele momento, alguém atendeu, e uma voz feminina disse:
— Alô? Quem fala?
— Hum... É a sra. Higgler?
— Quem está falando? — inquiriu a sra. Higgler. — Se é um desses malditos atendentes de telemarketing, pode me tirar da sua lista agora mesmo, ou eu vou abrir um processo. Conheço meus direitos.
— Não. Sou eu. Charles Nancy. Eu era seu vizinho.
— Fat Charlie? Que coincidência. Passei a manhã inteira procurando seu telefone. Virei este lugar de cabeça para baixo atrás disso, e acha que consegui encontrar? Devo ter anotado nos meus cadernos de despesas velhos. Revirei tudo. E disse a mim mesma: Callyanne, essa é uma boa hora para rezar e torcer para que o Senhor escute suas preces, por isso eu me ajoelhei... Bem, quer dizer, meus joelhos já não são mais os mesmos, sabe, por isso só uni as mãos, mas, enfim, não consegui achar seu telefone. Então, veja só, você me ligou, e isso é até melhor, de certo modo, ainda mais porque dinheiro não cresce em árvore e não posso me dar ao luxo de ficar ligando para outros países desse jeito, nem por motivos como esse. Mas eu ia ligar para você, pode ficar tranquilo, dadas as circunstâncias...
E ela parou de repente para tomar fôlego ou para dar um gole na grande caneca de café quente demais que sempre carregava na mão esquerda, e, durante o breve silêncio, Fat Charlie disse:
— Quero convidar meu pai para vir ao meu casamento. Vou me casar. — Houve silêncio do outro lado da linha. — Mas é só no fim do ano — continuou. Silêncio. — O nome dela é Rosie — acrescentou, tentando ajudar. Estava começando a se perguntar se a ligação tinha caído. As conversas com a sra. Higgler em geral eram atividades sociais que tendiam muito para um dos lados, quase sempre com ela respondendo às próprias perguntas, e lá estava ela, deixando-o dizer três frases inteiras sem interromper. Ele decidiu tentar a quarta. — A senhora também está convidada, se puder vir.
— Meu Deus, meu Deus, meu Deus — começou a sra. Higgler. — Ninguém contou a você?
— Contou o quê?
Então ela contou, tudo e em detalhes, enquanto Fat Charlie ficava ali parado, sem falar nada. Quando ela terminou, ele disse:
— Obrigado, sra. Higgler. — Ele escreveu algo em um pedaço de papel, depois repetiu: — Obrigado. Não, de verdade, obrigado.
E desligou o telefone.
— E então? — perguntou Rosie. — Conseguiu o telefone dele?
— Meu pai não vem ao casamento. Preciso ir à Flórida.
Sua voz estava inexpressiva e sem emoção. Ele podia muito bem estar dizendo: preciso pedir um talão de cheques novo.
— Quando?
— Amanhã.
— Por quê?
— Funeral. Do meu pai. Ele morreu.
— Ah. Sinto muito. Sinto muito mesmo. — Rosie passou os braços ao redor dele e o abraçou. Fat Charlie ficou parado em seus braços, como um manequim de vitrine. — Como foi que, como ele... Ele estava doente?
Fat Charlie balançou a cabeça.
— Não quero falar sobre isso — respondeu.
Então Rosie o apertou forte, balançou a cabeça em solidariedade e o deixou em paz. Achou que ele estivesse tomado por uma tristeza grande demais para falar sobre o assunto.
Ele não estava. Não era nada disso. Na verdade, ele estava muito constrangido.
* * *
Devia haver cem mil maneiras respeitáveis de morrer. Pular de uma ponte para salvar uma criança que estava se afogando, por exemplo, ou ser atingido por uma saraivada de balas enquanto invadia, sozinho, um covil de criminosos. Modos perfeitamente respeitáveis de morrer.
Para falar a verdade, havia até maneiras menos respeitáveis que não teriam sido tão ruins. Combustão espontânea: é questionável, de acordo com a medicina, e improvável, de acordo com a ciência, mas, mesmo assim, as pessoas insistem em virar fumaça, sem deixar nada além de uma mão carbonizada agarrada a um cigarro não terminado. Fat Charlie tinha lido sobre isso em uma revista. Não teria se importado se o pai tivesse morrido assim. Ou mesmo se sofresse um ataque cardíaco enquanto corria pelas ruas atrás do homem que roubara seu dinheiro da cerveja.
Foi assim que o pai de Fat Charlie morreu:
Ele tinha chegado cedo no bar e aberto a noite de karaokê cantando “What’s New Pussycat” a plenos pulmões, segundo a sra. Higgler, que não estava lá. A música foi cantada de um jeito que teria feito Tom Jones parecer um maricas de calcinha rendada e que valeu ao pai de Fat Charlie o prêmio de uma cerveja de cortesia, oferecido por várias turistas loiras do Michigan, que acharam que ele era a coisa mais fofa que já tinham visto.
— Foi culpa delas — disse a sra. Higgler, com amargura, pelo telefone. — Elas o encorajaram!
As mulheres tinham se enfiado em tops tomara que caia e estavam com a pele vermelha de tanto pegar sol, e todas tinham idade para ser filhas dele.
E logo o pai de Fat Charlie estava sentado à mesa delas, fumando seus charutos e dando a entender que tinha sido da inteligência do exército durante a guerra, apesar de ter o cuidado de omitir qual guerra, e que podia, sem o menor esforço, matar um homem de dez maneiras diferentes usando só as mãos.
Então ele pegou a turista mais loira e peituda e a puxou para a pista de dança, como sempre fazia, enquanto uma das amigas dela desafinava “Strangers in the Night” no palco. O homem parecia estar se divertindo, apesar de a turista ser um pouco mais alta, e o sorriso dele estar na altura dos peitos dela.
E então, quando a dança terminou, o pai de Fat Charlie anunciou que era a vez dele de cantar de novo. E, se havia uma coisa que se podia afirmar com certeza sobre o pai de Fat Charlie era a total segurança que tinha sobre sua sexualidade, então ele cantou “I Am What I Am” para o bar, mas em especial para a turista mais loira na mesa logo abaixo do palco. Ele deu tudo o que tinha. Quando chegou a parte de explicar a todos os que ouviam que, na opinião dele, a vida não valeria droga nenhuma se ele não pudesse dizer a todo mundo que era quem era, o pai de Fat Charlie fez uma careta, pressionou uma das mãos contra o peito, estendeu a outra e caiu do palco improvisado, devagar e com tanta graça quanto um homem pode cair, bem em cima da turista mais loira, e de cima dela para o chão.
— Foi como ele gostaria de ter morrido. — A sra. Higgler suspirou.
E então contou a Fat Charlie como o pai dele tinha, em seu gesto final, enquanto caía, estendido a mão e agarrado alguma coisa, que por acaso foi o top da turista loira. Por isso, a princípio, algumas pessoas acharam que ele tinha saltado do palco de forma lasciva, com o único objetivo de expor os seios em questão, já que ela ficou lá, gritando, os peitos à mostra para todo o salão, enquanto a música “I Am What I Am” continuava a tocar, só que, depois disso, sem ninguém cantando.
Quando as pessoas que observavam perceberam o que tinha acontecido de fato, fizeram dois minutos de silêncio, e o pai de Fat Charlie foi levado para fora e colocado em uma ambulância, enquanto a turista loira tinha um ataque histérico no banheiro feminino.
Fat Charlie não conseguia tirar os peitos da cabeça. Em sua mente, eles o seguiam acusadoramente pela sala, como olhos em uma pintura. A vontade de se desculpar com um monte de gente que ele não conhecia não passava. E saber que o pai teria achado tudo muito divertido só o deixava ainda mais mortificado. É pior quando você fica constrangido por algo que nem estava presente para ver: a mente não para de aumentar os acontecimentos e voltar a eles, nem de revirá-los e examiná-los por todos os ângulos. Bem, talvez isso não aconteça com você, mas com Fat Charlie sem dúvida era assim.
Em geral, Fat Charlie sentia a vergonha nos dentes e na boca do estômago. Se algo que tivesse uma mínima chance de parecer constrangedor estivesse prestes a acontecer na TV, Fat Charlie se levantava e a desligava. Se isso não fosse possível, digamos, se outras pessoas estivessem presentes, ele arrumava um pretexto para sair da sala e esperava até ter certeza de que o momento constrangedor passara.
Fat Charlie morava em South London. Ele se mudara para lá aos dez anos, com um sotaque americano que fora motivo permanente de provocações, e se esforçara muito para perdê-lo, finalmente extirpando as últimas consoantes suaves e os Rs enrolados enquanto aprendia o uso e o contexto corretos das gírias locais. Ele conseguiu perder de vez o sotaque ao fazer dezesseis anos, quando seus colegas de escola decidiram que precisavam falar como se tivessem saído dos guetos americanos. Logo todos eles, menos Fat Charlie, começaram a falar como pessoas que queriam falar como Fat Charlie falava ao chegar à Inglaterra. Só que ele nunca poderia usar aquela linguagem em público sem a mãe lhe dar um tapa na orelha.
Tudo estava na voz.
Quando a vergonha pelo método que o pai escolhera para morrer começou a passar, Fat Charlie apenas se sentiu vazio.
— Não tenho mais família nenhuma — disse para Rosie, quase irritado.
— Você tem a mim — respondeu ela. O que fez Fat Charlie sorrir. — E você tem minha mãe — acrescentou, o que matou o sorriso no meio do caminho.
Ela o beijou no rosto.
— Você podia passar a noite aqui — sugeriu. — Para me confortar e tal.
— Podia — concordou ela. — Mas não vou.
Rosie não ia dormir com Fat Charlie antes do casamento. Ela explicou que era decisão dela, e que a havia tomado aos quinze anos. Não que conhecesse Fat Charlie na época, mas havia decidido. Então Rosie lhe deu outro abraço, um demorado, e disse:
— Você precisa fazer as pazes com seu pai, sabe?
E então foi para casa.
Fat Charlie passou uma noite conturbada, às vezes dormia, depois despertava, pensava muito e aí dormia de novo.
Ao amanhecer, estava de pé. Quando as pessoas chegassem ao trabalho, ligaria para o agente de viagens e perguntaria sobre as tarifas especiais de luto para uma viagem até a Flórida, então ligaria para a Agência Grahame Coats e informaria que, devido a uma morte na família, precisava tirar uns dias de folga, e, sim, sabia que teria que descontar de sua quota de licença médica ou das férias. Mas, por enquanto, sentia-se grato pelo fato de o mundo estar tranquilo.
Ele seguiu pelo corredor até o quartinho nos fundos da casa e olhou para os jardins abaixo. A luz coral do amanhecer tinha surgido, dava para ver melros e pequenos pardais pulando pela cerca viva, e um tordo de peito pintado estava parado, solitário, nos galhos de uma árvore próxima. Fat Charlie pensou que um mundo no qual os passarinhos cantavam pela manhã era um mundo normal, um mundo sensato, um mundo do qual ele não via problemas em fazer parte.
Mais tarde, quando os pássaros se tornaram algo a ser temido, Fat Charlie ainda se lembraria daquela manhã como algo bom e puro, mas também como o momento em que tudo havia começado. Antes da loucura. Antes do medo.
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