Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Gabriel Pereira · Capítulo 18 de 48

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Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Pelourinho

Um livro que recommendo para a temporada da Ericeira é o Estado actual das pescas em Portugal, pelo distincto official da armada, sr. A. A. Baldaque da Silva (Lisboa, 1892). Tem estampas coloridas representando peixes, crustaceos, molluscos, muitas gravuras de barcos e apparelhos de pesca; não olvidando a focinhada ou focinheira ericeirense, e a antiga rasca que passou á historia; descreve tambem a costa maritima, tão variada em aspectos e circumstancias.

Recentemente vi um livro bem interessante, de sciencia moderna; é L’Océan. Ses lois et ses problèmes, por J. Thoulet (Paris, Hachette, 1904).

Thoulet é um oceanographo que estuda o mar e sabe expôr com clareza as muitas questões da sciencia do mar, a oceanographia, tão moderna e já tão vasta. A chimica do mar, a formação de sedimentos de origens varias, a temperatura e a pressão nos abysmos, a formação da vaga e a razão das marés, as correntes, a vida nas grandes profundidades quietas e sem luz, apparecem-nos tratadas em largos capitulos de leitura que prende a attenção, sem fatigar o espirito.

No 4.ᵒ volume das Maravilhas da natureza, segundo o plano de Brehm, obra celebre, revista e ampliada na parte relativa a Portugal pelo sr. dr. Balthasar Osorio, sabio lente da Escola Polytechnica de Lisboa, trata-se de peixes, em leitura facil e agradavel.

Como tambem desperta a attenção o aspecto raro das arribas, das suas curvaturas, fendas, aberturas, cavernas, onde apparecem rochas brancas, vermelhas, negras, esverdeadas, cinzentas, umas cheias de fosseis, outras sem vestigio de vida animal ou vegetal, eu lembro a leitura no vol. 2.ᵒ de La face de la terre por Ed. Suess (trad. de E. de Margerie. Paris, 1900), do capitulo intitulado: Os contornos do Oceano Atlantico.

 

Pelourinho

 

O concelho da Ericeira foi extincto em 1855, e reunido a Mafra. Tinha o seu pelourinho.

Certas pessoas praticas entenderam que não havendo concelho não era preciso o monumento municipal, e que os degráos de pedra eram bem bons; e aproveitaram os degráos lá para o que bem quizeram, e a columna partida, o capitel e o ornato superior foram enterrados. Isto foi por 1863. Agora (outubro de 1905), o dr. Eduardo Burnay, enthusiasta da branca villa, indagou o sitio onde ficaria o resto do pelourinho, mandou excavar, achou as pedras, e vae mandar reerguer a decorativa columna.

Pela photographia que me mostrou creio que o symbolo municipal da Ericeira pertence ao genero do de Collares, ainda completo e aprumado, e do de Cintra ha muito desfeito, mas de que ha desenho cuidadoso. Sobre este caso do pelourinho de Cintra publicou recentemente o sr. Mena Junior uma Noticia historica, interessante, com estampas notaveis, e uma planta do Paço da villa, no Boletim da Real Associação dos Archeologos Portugueses.

A columna do pelourinho da Ericeira tinha annel, a meio, como se vê no de Collares, e na estampa do de Cintra; o capitel e ornato superior são do mesmo desenho. Taes pelourinhos são do começo do seculo XVI, reinado de D. Manuel, e correspondem á grande reforma foraleira d’este monarcha.

 

A respeito da villa da Ericeira varios escriptos teem apparecido publicados, artigos de jornaes, ou revistas, ou capitulos de recordações.

O sr. Eduardo da Rocha Dias no tomo 1.ᵒ e Addenda do seu valioso trabalho Noticias archeologicas, ao tratar da Ericeira, apresenta a bibliographia da interessante villa.

 

Grande serviço tem prestado á villa da Ericeira o sr. dr. Eduardo Burnay alcançando os meios precisos para a construcção da muralha de supporte na arriba do porto. Se esta obra tardasse haveria desmoronamento prejudicial á villa, á concha do porto, e á praia apertada onde labutam os pescadores. Actualmente ha tres armações de sardinha, empregando uns duzentos homens, e todo o trabalho se faz na breve praia onde ás vezes as companhas se embaraçam. Não está ainda terminada a obra, pouco falta ao que parece; o que está feito é já muito util.

Muito melhorado tem sido ultimamente o caminho para a praia do sul, e, ao que ouvimos affirmar, vae tratar-se da rampa da praia do norte, que é muito linda tambem. Seria bom melhorar o caminho para Ribamar, que não offerece difficuldades, facilitando assim um bello passeio, util para os povos do sitio, e estabelecendo communicação facil e agradavel com a região dos pinhaes. A primeira parte da estrada de Mafra é de forte declive, uma ladeira de tres kilometros, incommoda para passeio. Assim como seria para desejar o arranjo do caminho para a Lapa da Serra, sitio pittoresco, accidentado, com arvoredo viçoso.

Na Lapa da Serra tem-se desenvolvido nos ultimos annos a industria ceramica: fabrica-se louça vidrada com seus lavôres especiaes, ás vezes de phantastica ornamentação.

Pinhaes, mais pinheiros, é que eu gostaria de vêr na moldura agreste da interessante villa.

 

O sr. Adolpho Loureiro, inspector geral de obras publicas, publicou recentemente o volume segundo da sua excellente e muito util obra: Os portos maritimos de Portugal e ilhas adjacentes.

A pag. 303 começa a parte relativa ao porto da Ericeira, representado minuciosamente na estampa sexta do respectivo atlas.

Segundo se vê do consciente trabalho do sr. Loureiro é para desejar:==a construcção de obras de drenagem dos terrenos, consolidação das ribas, conclusão das rampas tornando-as aptas para varar os barcos de pesca, e desobstrucção do porto, removendo-se as pedras soltas que se acham na area d’elle a menos de 1ᵐ,5 a 2ᵐ abaixo da baixa-mar, e, finalmente, estudar-se a possibilidade da construcção de um pequeno molhe para abrigo das embarcações de pesca, no caso de poder aproveitar-se qualquer restinga ou pedras que possam servir-lhe de apoio==.

Parece facil a construcção de um pequeno molhe acostavel, que seria de grande vantagem para aquelles pobres pescadores.