Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Gabriel Pereira · Capítulo 44 de 48

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Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Casa dos Clerigos pobres

É generoso o coração do sr. Neiva, consideraveis os seus bens de fortuna, e effectivo o seu altruismo, mas em emprezas destas é bom interessar differentes entidades, para que se uma esmorecer, outras continuem a obra, a util obra começada.

Encontrou o sr. Neiva um ajudante dedicado no dr. Justino Xavier da Silva Freire, director medico das thermas. É um clinico sensato, naturalmente lhano, muito accessivel, attencioso aos muitos enfermos. Que longas narrativas das massadoras enfermidades elle escuta com delicada paciencia, conseguindo extrahir das confusas exposições a historia da doença, o fio do caso, os antecedentes do enfermo. Os seus relatorios annuaes das thermas são muito instructivos e tão nitidamente escriptos que qualquer cliente os comprehende, aproveitando com a leitura.

As aguas dos Cucos são chloretadas, sodicas, bicarbonatadas, sulfatadas, lithinicas, etc. Encontram os chimicos nellas o brometo de sodio, o chloreto de sodio, os bicarbonatos de calcio, de estroncio, e de manganez, o chloreto de magnesio. Pois esta complexidade toda produz uma agua limpida, muito potavel, agradavel ao paladar. Mas o que lhe dá virtude primacial é o chloreto de lithia que em 1:000 grammas entra por 0,0212.

É isto que torna esta agua preciosa para gottosos e rheumaticos. Faz bem aos intestinos, e combate a obesidade.

 

Casa dos Clerigos pobres

 

Junto á egreja de S. Pedro está a casa da irmandade dos Clerigos pobres.

Tem nas paredes quadros em azulejo que estranhei um pouco pela composição artistica. São copias de gravuras; o ingenuo pintor até copiou as assignaturas da chapa

Author Claud. Coell. delin.

Fran. Houat. sculp.

que significa Claudio Coelho desenhou e Francisco Houat gravou. No tecto d’esta casa estão pintados em tela os quatro evangelistas. Acham-se mencionados nas Memorias de Volkmar Machado (pag. 318); são de Bernardo Antonio de Oliveira Goes. O pae d’este, Manuel Antonio de Goes, era pintor de figura e pintou muitos azulejos. Vi outras telas que me pareceram do mesmo pincel na egreja da Graça.