Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa
Na missa e no mercado
E poderá ainda marcar-se a historia da invasão porque na chronica do Purificação ao tratar de Ribamar e do convento de Pena Firme se mostra que ainda no seculo XVII o terreno não estava vestido pelo manto de areia em tamanha extensão.
Logo de entrada encontrei, bem agradavel surpreza, o sr. Rodrigues da Silva, cavalheiro que eu já conhecia de Torres Vedras; é sabedor da historia da villa e termo, amador de antiguidades, e muito amavel companheiro; com elle fui vêr o monumento funerario mandado fazer por Valerio e Julia, que se conserva no logar marcado nas Memorias da Villa de Torres Vedras (pag. 20 da 2.ᵃ ed.), e no Corpus. A distancia de poucos metros vê-se uma sepultura, algumas lages cravadas no solo, marcando perfeitamente o vão sufficiente para um corpo humano. Parece que em tempos se viam alli vestigios de outras sepulturas; a que existe agora está á beira da escarpa; mais alguns annos e o embate das vagas a fará desapparecer.
Na ermida de Santa Cruz, ou de Santa Helena, vi uma imagem d’esta santa que me pareceu anterior, pela rudeza e ingenuidade da esculptura, ao seculo XVI.
Na missa e no mercado
No domingo, 14 d’agosto de 1904, assisti á missa na egreja de S. Pedro. Muita gente, com bastante respeito. Á sahida fiz de janota parado á porta da egreja para vêr o desfilar dos devotos. Primeiro os homens dos campos, das vinhas, com seus varapaus; mulheres do campo de chale, lenços mal postos na cabeça, á larga. Seguiram as mulheres da villa; caras agradaveis poucas, expressões duras não estupidas nem alvares; na grande maioria cabellos castanho-escuro; cabellos pretos mais raros; algumas cabelleiras ruivas, e algumas pelles sardentas.
Cabellos corredios, na maioria, poucos em madeixas.
Alguns olhos azues, pelles avermelhadas.
Homens de construcção regular, as mulheres de thorax estreito, pouco seio, mal geitosas.
Durante a missa os homens não largam os varapaus; quando ajoelham vê-se grande numero, porque se encostam, e não deitam no chão o inseparavel.
Usam o simples marmelleiro ou zambujeiro, raros os paus ferrados.
As mulheres usam poucos ornatos, e pouco ouro.
No terreiro proximo da egreja faz-se o mercado. Vendiam melões, melancias, uvas lindas, brunhos varios, maçãs grandes, variedade de peras, aboboras, tomates, pouca hortaliça.
No mercado de peixe, atraz da egreja, sardinha e sarda, fresca e salgada, cação, gorazes; o peixe vem de Nazareth e de Peniche.
Mulheres do campo aviavam os seus cabazes; levavam pão, meio cento de sardinhas, meia duzia de sardas.
A um cantinho do mercado estavam algumas mulheres com polvo, mexilhão, caranguejos grandes. Não faltava a mulher dos tremoços e da pevide de abobora. Dois homens vendiam planta de couve. Vi ainda vendedores de enxadas, e de calçado forte, sapatos de dura.
Os homens na maioria usam botas altas.
Todo o povo d’estes sitios é calçado, só por excepção vi gente descalça. Isto de pé descalço é uma inferioridade, que talvez acabasse com um pequeno impulso.