Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa
Azulejos
No Correio-Mór a construcção é boa a valer, a architectura é elegante; mas ha ainda a notar nos grandes salões, nas salas e gabinetes, a variedade e o gosto da ornamentação.
Empregaram-se ali artistas de primeira ordem no seu tempo. Houve todavia alguns concertos e enxertos de máo gosto e inferior qualidade. As salas da musica, da dança, a dos apostolos, a capella, o grande salão de jantar, teem azulejos, estuques, pinturas, e obras de talha de merecimento. A cosinha é monumental, com as suas chaminés, pias de lavagem, grandes mesas de marmore, e azulejos decorativos muito especiaes. O conjuncto é uma raridade. No jardim tambem ha obras de arte, e o enorme tanque da horta, com sua guarnição de azulejos, merece ser visto.
Este palacio tem um historia. Luiz Gomes da Matta, homem de fartos haveres, foi nobilitado por Filippe que lhe deu brazão:==em campo de ouro tres mattas verdes em roquette sobre penhascos verdes; timbre uma das mattas.==
Este Matta comprou tambem o fôro de fidalgo e o officio de correio-mór, e arvorou a quinta da Matta em solar. Chamaram-lhe depois a quinta da Matta do Correio-Mór. Hoje toda a gente d’aquelles sitios lhe chama o Correio-Mór. A quinta e palacio pertenceram á Casa Penafiel até ha poucos annos, e actualmente ao sr. Canha, negociante de Lisboa. Merece a pena um passeio a essa antiga residencia.
Azulejos
O alto rodapé da sala de jantar é de azulejos, azul em fundo branco, em grandes e pequenas composições conforme os espaços; é trabalho, e grande, feito propositalmente para ali, para aquelles vãos de parede, bem composto e executado. Uma serie de quadros representa, parallelamente, as phases da vida humana e a historia de um navio. Aqui se vê a criança de mama, ao colo da mãe, e o berço, as graciosas pequenas roupas; logo as scenas da primeira infancia, as ingenuas brincadeiras. Neste quadro rapazotes bem postos aprendem os exercicios da caça, noutro representa-se-nos uma aula, os meninos attentos á lição do mestre. Vae seguindo a construcção do navio, ali o fabrico do cavername, depois o assentar do forro, o trabalho do calafate; logo o erguer dos mastros. E toca a viajar sobre as aguas do mar, para a India ou para o Brazil; lá está o navio com o velame ao vento, prestes a sahir do porto.
Temos agora um casamento, e no quadro seguinte uma profissão em casa religiosa. Era o caminho necessario em familias antigas, de bens vinculados; o excesso de filhos trasbordava para as armas, ou para o claustro; meninas sem dote raras casavam, iam para freiras, e em certos conventos passava-se muito bem a vida. Em varios quadros scenas da vida caseira; o concerto musical; a dança animada; os prazeres campestres de boa sociedade.
Um naufragio agora, o navio torturado, pannos rotos, mastros partidos no vendaval furioso. Muitas outras scenas, bem desenhadas e compostas, com sufficiente minucia em trajos e utensilios, mesmo em attitudes, se nos deparam na interessante serie de azulejos.
Noutra sala os azulejos, em rodapé, representam as quatro estações. Na sala chamada dos Apostolos ha caçadas de montaria, do veado, do javali, do leão. Esta sala tem um esplendido tecto de madeira, em variados caixotões, formando grandes molduras com obra de entalhado, pintado e dourado, frisos de flores, e os lisos pintados a oleo representando scenas mythologicas.
Na capella os azulejos representam scenas de devoção; eremitas e frades oram e meditam; num d’esses quadros surge um anão risonho. No jardim vi tambem uma estatua de anão, bem executada.