Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa
Uma ara romana.
Na ida para o Correio-Mór, perto da Povoa de Santo Adrião, reparei em certa pedra lavrada de aspecto raro; na volta parei e fui vê-la; é
Uma ara romana.
Ha um poço coberto, encravado no muro, a poucos metros da estrada; sobre um pequeno arco um nicho com a imagem de S. Pedro; perto um poial, alto, e no chão uma pedra lavrada, com funda cavidade. É um parallelepipedo de oito decimetros de comprido, por tres de altura, proximamente, de pedra vidraço; um cordão de forte relevo divide os lados em duas fachas; na superior um lavor geometrico, curvas em grega torneando saliencias circulares; na facha inferior quatro rosas entre curvas symetricas. Creio que é uma ara romana. Salvou-se junto da fonte d’agua com virtude, guardada pela tradição. Por aquelles sitios teem apparecido antiguidades romanas, ainda que são muito menos numerosas as inscripções que nos arredores de Cintra. Como esta pedra lavrada atravessou intacta tantos seculos, n’este paiz de estragados!
—Versos novos?!
—Umas liras! diga já, frei Simão!
Estavam no jardim, na meia laranja da cascata, á sombra do platano alteroso. Linda manhã de junho. Era o dia anniversario da senhora morgada; visitas de Lisboa animavam o palacio. A missa tinha sido ás 7, e o almoço terminára ás 9. Alguns dos senhores partiram para a tapada, outros para o picadeiro vêr os dois cavallos novos que o conde trouxera de Sevilha.
O apparecimento de frei Simão, frade jeronymo, que viera de Belem em ruidosa e balouçante caleça, foi saudado com alvoroço; o frade tinha sempre a contar anecdotas facetas, algumas muito repetidas mas que elle contava com certa graça, e noticias da gente palaciana, sempre saboreadas com delicia.
Frei Simão avançou devagar, até perto da morgada, muito serio, fez uma cortezia reverendissima, e recitou o soneto de parabens pelo feliz anniversario; era composição nova; vinha escripto em primorosa lettra num papel, com sua inicial floreada, enrolado e atado com fita de seda branca.
Depois deixando o tom ceremonioso, pondo-se muito risonho, annunciou os versos novos, umas sonóras, não umas liras...
—Diga, diga.
—É a segunda vez que as leio...
—E nós a julgarmos que tinhamos a primicia...
—A primeira vez só uma pessoa, alta pessoa, as ouviu. Por isto posso dizer a primicia.
—Quem seria a alta pessoa?
—Eu digo, senhora morgada; foi el-rei que Deus Guarde.
—Bravo! foi ao Paço? teve audiencia?
—Foi na rua, antes na estrada. El-rei viu-me passando pela estrada de Pedrouços; mandou parar o coche. E bradou-me:
—Então, oh! Santa Catharina, fizeste a resenha?
—Sim, meu senhor, e está em verso; ia levá-la a Vossa Real Magestade.
—Não precisas ir mais longe; dize lá.
Acheguei-me á porta do coche e li os versos. Eu já me sentia acanhado porque a lira é comprida, e o coche ali parado na estrada. Mas el-rei D. João V gosta de versos jocosos; não imaginam como elle ria.
—E como soube elle que Vossa Reverencia fizera a lira?
—Ora, foi assim. Em Belem, no nosso mosteiro, pela festa de S. Jeronymo, costuma haver lauto jantar, com convidados; ao jantar da casa, jantar de festa, juntam-se muitos presentes; enche-se o grande refeitorio; o d’este anno foi estrondoso. El-rei soube e encontrando-me ha dias em palacio, disse-me para lhe fazer a noticia dos pratos; e eu puz a lista em verso; fiz a lira!
—Diga, diga.
—Eu começo; frei Simão de Santa Catharina collocou-se em frente das damas; limpou lentamente a fronte, a bocca e o nariz com o lenço cheiroso a agua de rosas.
Monarcha Soberano
Pois Vossa Magestade assim me ordena
O jantar deshumano
Irá cantando a Musa pouco amena
E em ser só se verá que foi diverso
No refeitorio em prosa e aqui em verso.
A lira vae descrevendo o grande refeitorio, o adorno das janellas com estatuas, festões, grinaldas de flores naturaes, os aparadores carregados de pratas, o chão atapetado de flores.
Estava o refeitorio num brinco.
Em cada logar da vasta meza havia os appetites, as pequenas iguarias, com seus adornos.
Cobria o cuvilhete
um papel retalhado, com acerto
que inda que pequenete
como grande queria estar coberto.
Na marmelada vinha, guaposito
guarnecido de flores um palito.
Em cada assento havia
garfo, faca, colher e guardanapo
dois pães, com bizarria
melancia excellente, melão guapo
figos, uvas, limões, pecegos, peras
sem graça, o cesto enchiam, mui devéras.
A ilharga da salceira
um bom tassenho de presunto havia
tão magro e tão lazeira
que a mim me pareceu ser porcaria
tambem tinha azeitonas e alguem disse
que foram d’Elvas.
Estes eram os appetites que adornavam os logares dos commensaes. Agora os pratos.
Foi o primeiro prato uma tijella
cheia em demazia
de caldo de gallinha com canella
que da gallinha trouxe a propriedade
porque o caldo tinha ovo na verdade.
Foi o segundo prato
uma bem feita sopa á portuguesa
que dava de barato
O filis e o primor que ha na franceza.
Por algum grão delito
foram muitos perús esquartejados
uns vêm com sambenito
outros vinham sómente afogueados.
Outro prato de assado
que era lombo de vacca mui tenrinho.
Comia afadigado
outro leigo mui gordo meu visinho
rollos e pombos ensopados.
Seguiram-se as frigideiras com linguas e miolos. Os coristas que serviam á meza eram muitos e andavam lestos. Appareceram as empanadas inglezas; tinham:
Ade, perdiz, gallinha, frangalhada
E disto vinha a olha enchouriçada.
Apoz isto algumas doze tortas.
Cinco ou seis pratos de ovos
De pão de ló por dentro recheados
Outros mal entrouxados
Outros ovos tambem com corôa regia
De almojavanas conto
A duas mui grandes por cabeça
Em assucar em ponto.
Depois d’isto empada de vitella e arroz doce.
Sinceramente disse aqui a verdade
Falta o perdão de Vossa Magestade.
Vem agora a nota no amarellado papel que estou seguindo:
—Indo levar o papel a Pedrouços se encontrou el-rei que mandou parar o coche e parado ouviu ler todo o papel com muito agrado.
Mas frei Simão de Santa Catharina esqueceu-se de uma cousa, e o padre geral quando viu o papel reparou logo, e zangou-se; obrigou o frade a fabricar mais versos e a levar o supplemento a el-rei.
O caso é que na salceira
me esqueceu de meio a meio,
com o presunto e azeitonas
pôr um pedaço de queijo.
Pois vá, faça outros, e ponha
(me disse o Geral severo)
que não quero que diga el-rei
que não dei queijo framengo.
Saiba Vossa Magestade
que tambem queijo tivemos
noviços e sacerdotes
coristas e frades leigos.
A lira de frei Simão Antonio de Santa Catharina foi muito gabada e applaudida.
—É uma delicia!
—Um verdadeiro appetite, faz vontade de comer.
—Diga outra vez, e muitas damas insistiam no pedido. Mas a condessa observou:
—Tenham caridade, isso é incommodo para Sua Reverencia. Ainda se não lembraram de mandar vir um refresco.
Veiu logo um creado com bandeja de prata com bolos e marmellada de Odivellas; outro creado com licor de tangerina e canella, e um copo de limonada. Voltaram os senhores, fez-se grande roda, e entre risos e ós admirativos repetiu-se a leitura dos versos.
—Percebe-se logo que frei Simão é um academico.
—E de varias academias.
—Da Anonyma sei eu, por ser lá meu confrade.
—E da Portugueza.
—E da Escholastica.
—É verdade, frei Simão, deve saber, ora se sabe, houve eleição renhida em Odivellas; muita gente, e da mais alta se interessou na eleição da nova abbadessa.
O frade contou o que sabia dos bilhetes, dos pedidos, das ordens, das promessas ás freiras eleitoras; foi uma bulha que durou mezes.
—E não fez versos ao caso?
—Isso merecia liras e sonóras.
—É verdade que fiz, não nego e a prova é esta; aqui está a sonóra; e do largo bolso tirou um papel.
—Leia! leia!
—Vou começar.
Os enredos, as bulhas, as trapaças
Os enganos, os medos, os temores
Os ardis, as astucias, as negaças
Os agrados, os risos, os amores;
As trombas, os focinhos, as caraças
As furias, os raivassos, e os rancores
Que houve em certa eleição com forte espanto Darão materia a nunca ouvido canto.
E segue a sonóra n’este tom, narrando os episodios da eleição da abbadessa, no então revoltoso convento de Odivellas, ninho de endiabradas freiras. Este frei Simão tem muitas peças poeticas algumas muito aproveitaveis para o conhecimento de minucias e particularidades da época.
Dias depois de um passeio a Loures e á quinta do Correio-Mór, appareceu-me um cavalheiro d’aquelles sitios, com quem eu cavaqueara, e apresentou-me uma porção de papeis velhos, manuscriptos, que me disse ter encontrado havia annos n’um gavetão da copa monumental do palacio. Percorri os papeis; pouco achei de curioso ou interessante. Entre elles vinham poesias do seculo XVIII, alguns sonetos de anniversarios, dirigidos a pessoas da familia Matta; e uma descripção de lauto banquete no mosteiro dos Jeronymos de Belem, que me pareceu bom documento da época, e singular peça poetica. Por isto a transcrevo em parte. Nos papeis não encontrei nome do auctor. Depois achei n’um cancioneiro a mesma poesia attribuida a frei Simão Antonio de Santa Catharina, e até com a mesma nota pittoresca de ter sido lida a el-rei D. João V, na estrada de Pedrouços.