Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Gabriel Pereira · Capítulo 38 de 48

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Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Brazões da Villa

É tradição antiga ter esta cadeira servido a D. Affonso V, quando visitava aquella casa. Como me disseram que ninguem a desenhara eu tirei um rapido esboço. Póde ser de Affonso V, e até anterior; é em carvalho, e está menos mal conservada; algum caruncho, mas mostra-se ainda nitido o relevo decorativo; lembra logo o estylo da Batalha. É uma cadeira do seculo XV, uma joia do mobiliario

portuguez. No [2] Havard vem o desenho de um exemplar quasi egual; cadeira de armario ou cofre, de braços, espaldar direito, ornamentação ogival, exactamente como no esplendido movel do Varatojo. Lá se tem conservado a veneravel reliquia e está lá muito bem, ligada pela tradição historica, mas seria bom fazer uma reproducção para o Museu das Bellas-Artes, onde abundam os exemplares de mobiliario portuguez, formando séries importantes; mas falta aquella cadeira—avó, unica, segundo creio, em Portugal.

 

[2] Dictionnaire de l’ameublement et de la décoration.

 

Brazões da Villa

 

Vi em Torres tres brazões antigos:

O da Fonte Nova tem a data 1529.

O que está na escada da Camara Municipal tem a data 1518.

O do chafariz dos Canos é muito mais velho, singelo e hieratico, sem ousadias decorativas; creio que é do seculo XIV.

O da Fonte Nova apresenta duas torres ligadas por um panno de muralha com sua porta: torres de tres andares, com ameias, frestas para jogar virotes e béstas, terminando em cobertura pyramidal, com sua bandeira quadrada e uma estrella sobre a bandeira; entre as torres um escudo real, sem corôa nem castellos, só as cinco quinas com os seus besantes. Infra a data 1529 entre duas siglas, talvez F e R.

O que está na Camara mostra duas torres de cobertura conica, ligadas pela muralha sem porta; tem barbacan, ameias, sobre as torres bandeiras farpadas, sobre estas, estrellas.