Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa
Terremotos
Sendo de forte declive o terreno da quinta tiveram de fazer grandes socalcos, sustentados por fortissimas muralhas o que dá effeitos raros, perspectivas inesperadas a edificios e arvoredos. Ha ahi bellos exemplares vegetaes, a Araucaria excelsa é a primeira plantada em Portugal, o dragoeiro, ainda que um pouco mutilado é bello exemplar, a Araucaria brasileira compara-se á celebre do jardim botanico de Coimbra; cedros, platanos, e ulmeiros seculares alastram fechadas sombras. Nesta quinta se deram luzidas festas no tempo do 1.ᵒ duque, e aqui se guarda, bem ordenada e conservada, a grande e preciosa livraria Palmella.
Mas dos tempos de Affonso Sanches, de Diniz? Nada, nem vestigio; nem uma pedra toscamente lavrada, ou singelo lettreiro, nada recorda esses tempos antigos.
Terremotos
Esta formosa cidade de Lisboa tem sido victima dos terremotos; impossivel calcular o trabalho perdido, a extensão e a intensidade de tanta ruina.
Em certos pontos da cidade a camada de entulhos, caliças, fragmentos de tijolos, é de 3 a 4 metros; pela abertura de cabôcos, e installação de canalisações, e muito se tem escavado nos ultimos annos por todos os arruamentos, descobrem-se na baixa, no Rocio, por exemplo, trechos de canos antigos abandonados e sobrepostos, ainda a profundidade maior.
De tremores muito antigos, e dos da alta idade média ha tradições.
O de 24 d’agosto de 1356 destruiu parte da Sé, e causou enorme devastação na cidade.
Em janeiro de 1531 houve terremotos a seguir, sendo maior e mais destruidor o de 26 d’esse mez.
O de 28 de janeiro de 1551 derribou muitos predios.
Em 27 de julho de 1597 uma parte do monte de Santa Catharina escorregou para o rio, ficando aquelle alteroso monte dividido em dois, Chagas e Santa Catharina; tres arruamentos desappareceram por completo.
Em 1755 a cidade estava maior, mais povoada; o terremoto de 1 de novembro fez muitas victimas, grande parte da cidade ficou arrasada, e o incendio causou incalculavel prejuizo.
Mencionam-se terremotos em 1598, 1699, 1724, fortes mas sem causar grande damno; os abalos de 1761, 1796, 1807; o de 11 de novembro de 1858 muito sensivel, em Setubal foi destruidor, matando gente e derribando casas.
O sr. Paulo Choffat tem trabalhos publicados sobre os ultimos abalos de terra sentidos na capital.
É certo que Lisboa está n’uma zona perigosa; devemos reparar n’isto. Nada de concentrar tudo em Lisboa, guardem-se algumas cousas em sitios mais garantidos.
E todavia ha aqui consideraveis construcções que atravessaram no seu logar e prumo essas medonhas convulsões; por exemplo uma parte consideravel das muralhas do Castello, Santa Luzia e a sua muralha, as capellas orientaes do Carmo, os arcos do Borratem, a casa dos Bicos, a frontaria da Conceição Velha; bastantes edificios anteriores ao abalo de 1755 estão de pé; alguns palacios aguentaram as suas linhas, e o labyrintho das viellas de Alfama conserva a planta medieval.
Mas basta olhar as paredes mais antigas do Carmo e da Sé para perceber pedras de anteriores construcções, fragmentos de lettreiros e lavores, empregados na enxilharia ordinaria. Na vetusta parede norte da Sé ha pedras mettidas no muro que mostram lavor bysantino. No Carmo bocados de campas com lettreiros em gothico, em diversos pontos do edificio, estão empregados como pedra vulgar de construcção. É raro encontrar nos arrabaldes de Lisboa pedras de antigo lavor, da idade média, do ogival, mesmo da primeira renascença no seu logar; Odivellas é uma excepção, assim como o casal da Quintan com o seu muro de ameias. É preciso ir a Cintra, a Torres Vedras, a Santarem para vêr algo antigo de certa importancia.
Na ultima folha de pergaminho do codice n.ᵒ 61 da collecção alcobacense da Bibliotheca Nacional de Lisboa um monge deixou noticia do grande abalo de 24 de agosto da era de Cesar 1394 (1356); fez grandes estragos prostrando castellos e torres em muitos pontos do paiz; em Alcobaça a egreja soffreu muito, no mosteiro houve ruinas, e cahiram muralhas do castello. Foi ao pôr do sol.
Outro monge na mesma pagina escreveu a memoria do terremoto de janeiro de 1531; por mais de 15 dias sentiram tremer a terra; mas no dia 26, antes do nascer do sol, foi o grande tremor; conta que em Lisboa houve grande estrago; no mosteiro houve muita ruina, não escapando a parte superior do claustro.
O abalo de terra de 1755 foi violentissimo, mas escriptores e artistas ainda lhe augmentam as culpas. Este terremoto e a invasão dos francezes são motivos fundamentaes para explicar o desapparecimento de muita cousa, uma rica mina para encobrir o desleixo, a estupidez, a mania de estragar que é muito da raça portugueza.
No tomo 3.ᵒ da==Collecçam Universal de todas as obras que tem sahido ao publico sobre os effeitos que cauzou o terramoto nos reinos de Portugal e Castella no primeiro de novembro de 1755 (Bibl. Nac. de Lisboa, Gabinete de livros reservados), ha alguns opusculos de polemica sobre a grandeza da tremenda catastrophe: ==Carta em que hum amigo dá noticia a outro do lamentavel successo de Lisboa==Está assignada por José de Oliveira Trovão e Sousa (1755).
==Resposta á carta de José de Oliveira Trovam e Sousa em que se dá noticia do lamentavel sucesso de Lisboa. É de 1756; assignada por Antonio dos Remedios.
==Verdade vindicada ou resposta a huma carta escrita de Coimbra. Por José Acursio de Tavares (Lisboa, 1756). De taes escriptos conclue-se que o terremoto destruiu bem a terça parte de Lisboa e que o incendio que se lhe seguiu foi terrivelmente devastador; mas fóra da area de grande intensidade do abalo, e além do espaço que o fogo alcançou, muitos predios, bastantes palacios, grandes arruamentos ficaram salvos; agora é bem raro encontrar uma frontaria, uma janella, uma grade de varanda anterior ao terremoto. No final do seculo XVIII e no seculo XIX a transformação foi completa; basta a vulgarisação da vidraça e o desapparecimento da rotula para modificar o aspecto da cidade. Em povoações onde o terremoto não foi tão destruidor, apenas se sentiu, a transformação foi analoga. É que na verdade o portuguez é bem fraco conservador. Aqui pelos arrabaldes de Lisboa direi mesmo que é destruidor. Por isto eu dou toda a attenção ao que me parece antigo, me demoro com o anterior ao seculo XVIII, e quasi pasmo quando me surge um fragmento do seculo XVI.
Folheando qualquer Illustração estrangeira se vê o carinho, o amor com que em paizes muito mais atormentados que o nosso se guardam antigos edificios, casas particulares de aspecto artistico, objectos de uso vulgar consagrados pela idade, qualquer cousa que seja documento do antigo viver. Os terremotos são damninhos, mas a indifferença, o desleixo, a ignorancia são grandes causas de destruição.
Este caminho entre varzeas ferteis, arvoredos mansos, collinas de grandes curvas com terras de semeadura e verdes pinhaes, por onde vamos encontrando gente do campo, scenas da vida popular, é a via tragica na historia de Portugal, brados de victoria e rumores de desespero, marchas de tropas em dias de lucta, por aqui passaram entre estas paisagens que só lembram agora frescas aguarellas; patuleias e cartistas; miguelistas e pedristas, columnas de Junot e de Wellington; castelhanos que vieram cercar Lisboa, portuguezes voltando de Aljubarrota; e provavelmente cavalleiros de Affonso Henriques, e dos mouros, dos godos e dos romanos; porque é esta a estrada que leva a Lisboa, a antiga e nobre cidade, o grande porto maritimo.